A Minha Aldeia Parece Twin Peaks

Às vezes sinto-me em Twin Peaks.
Ao fundo da estrada, numa paragem de autocarro em cimento, antiga, onde já não param autocarros, está sempre um velho, bêbado que nem um cacho, que a mulher vai buscar já noite fora quando dá por falta dele em casa.
Em frente à paragem do autocarro, está uma senhora à janela, está todos os dias à janela, com os peitos amparados no beiral da janela, em sutiã. Cheguei a pensar que o velho ia para a paragem do autocarro para ver as mamas da senhora mas não, vai mesmo para estar sentado a curar a bebedeira. Quando eu lá passo, na minha caminhada de final de dia, acorda e pede-me um cigarro. Pede-me sempre um cigarro e lume. Às vezes volta a adormecer com o cigarro acabado de acender no canto da boca.
Há um miúdo que passa várias vezes ao dia pelas ruas da aldeia a puxar um pequeno cão de peluche que, com o tempo, foi perdendo o pêlo e agora já nem parece um cão. Às vezes estou na esplanada do café da aldeia e ofereço uma Coca-Cola ou um Cornetto de Morango ao miúdo. Ele gosta muito de Coca-Cola, mas diz que as borbulhas fazem-lhe comichão no nariz e passa aqueles cinco minutos, que está ali sentado comigo na esplanada do café, a esfregar o nariz.
Há um anão que pede cinquenta cêntimos a toda a gente para beber uma bica. Nunca o vi beber uma bica e, ali, no café da aldeia, a bica custa setenta cêntimos.
Há uma rapariga, bonita por sinal, que habita numa casa já fora da aldeia mas do outro lado, na saída norte, e que vive sozinha, ela e um pastor alemão. Ao balcão do café, nos intervalos dos jogos do Benfica, os homens comentam que a rapariga já foi apanhada a ter relações sexuais com o cão. Não sei se é verdade mas, acho que faz confusão aos homens da aldeia a rapariga viver sozinha, sem um homem em casa, e convidar muitas amigas para lá irem.
Ultimamente têm desaparecido gatos na aldeia e, os mesmos homens, encostados ao balcão do café, comentam que são os chineses da loja (há uma loja de chineses na aldeia) que os apanham para comer.
Perto da aldeia há uma pedreira, grande, profunda, com vários charcos de água onde esta é verde e faz lembrar as minas de lítio do Chile. Já lá desapareceram alguns miúdos.
O ano passado apareceu uma rapariga morta encostada ao muro no adro da igreja. Tinha feridas abertas no corpo, mas não havia sangue espalhado por ali. Diz-se que terá sido morta noutro lado e levada para lá. A judiciária ainda não desvendou o crime.
Conta-se também uma história, na aldeia, sobre um homem com cabeça de burro que aparece em certas noites de Inverno a pedir boleia. Há quem garanta já o ter visto. Eu nunca vi.
No ano passado, um vizinho apanhou duas abóboras com mais ou menos quinhentos quilos cada. Mas afinal, parece que há abóboras maiores e mais pesadas a nascer noutros sítios.
Em dias de chuva, quando eu estou fechado em casa, a tentar trabalhar agarrado ao computador, tenho a sensação que alguém bate à porta e ouço chamar o meu nome. Nunca encontro ninguém à porta. Mas já lá descobri alguns presentes, maçãs, laranjas, uma melancia e, às vezes, um odor a perfume que não descubro de onde poderá ter vindo.
Ah, e na rotunda da aldeia, a aldeia também tem uma rotunda, mandada executar em ano de eleições pelo presidente de Câmara do concelho, acontece um acidente todos os meses. Não é a dia certo, às vezes é de dia, outras vezes é de noite, às vezes é com carros, outras vezes com camiões (há muitos camiões por aqui) e já meteu peões ao barulho. Houve um mês que não tinha havido nenhum acidente e, às vinte e três e cinquenta e sete minutos do dia trinta e um, no mês de Outubro, um miúdo espetou-se de motorizada contra a estátua que estava no centro da rotunda. A estátua foi mandada retirar. O miúdo ficou paraplégico.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/28]

Cai a Noite

Cai a noite e caem outras coisas. Às vezes uma mosca na sopa, no tempo em que ainda não tinha mosquiteiros nas janelas. Outras vezes a moeda no parquímetro a que não se pode fugir na voragem da cidade. Também caem as velhas na descida do seminário em dias de chuva e calçada portuguesa escorregadia.
Hoje caiu a Juliette Gréco. Todos caímos, mais dia menos dia.
Cai a noite e eu regresso a mais uma viagem. Mais uma viagem num autocarro expresso que de expresso, lá está , tem pouco. São várias as paragens que irá fazer antes da minha. Continuo apertado numa cadeira que não foi feita para mim.
Tenho fome. Alguém vai a comer um pão com chouriço e o cheiro invade o autocarro e desperta-me a vontade de comer. Comia qualquer coisa. Uma bifana grelhada com dois riscos de mostarda. Uma tosta de atum com tomate. Um hambúrguer de beterraba e lentilhas. Não posso pensar mais em comida que já estou a salivar. Olho para o interior da camioneta à procura da sandes de chouriço. Não vejo nada. É noite. O autocarro tem uma iluminação que me faz lembrar o Rainho em Amor, quando lá ia ver as strips e tinha de fugir dos gajos de revólver no cós das calças de fato-de-treino.
Cai a noite a cai-me também a cabeça. Não tenho luz para ler. Mas acho que também não conseguia ler. Ando preguiçoso. Cai-me a cabeça sobre o peito.
Sonho.
Sonho com uma queda de bicicleta. Uma queda que dei há muitos anos. Caí de um pequeno muro abaixo. Entortei o guiador. Parti o quadro da bicicleta. A corrente soltou-se. Fiz feridas na testa, na palma das mãos e num joelho. O joelho foi o que deitou mais sangue. Um vizinha viu e foi ter comigo. Chupou-me o sangue do joelho. Eu tinha doze anos. Ela tinha dezasseis. Às vezes lembro-me disto. Às vezes lembro-me dela a lamber-me a ferida e a chupar o sangue. Mas já não recordo a cara dela. Já não recordo a voz dela. Tudo o que recordo é ela a chupar-me o sangue do joelho. Está sempre de costas. Vejo-lhe o longo cabelo louro. Mas é tudo. De todas as vezes pergunto-me o que será feito dela?
Cai a noite e eu com ela.
O autocarro chega finalmente à minha paragem. Sou acordado pelo cheiro característico da minha cidade. Pelo silêncio nocturno. O silêncio de uma cidade que maltrata a noite.
Há muitas quedas, à noite.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/23]

Sem Arranjo

Caiu-me um dente. Estão a desfazer-se. Pareço ter a boca cheia de areia. São os dentes apodrecidos que se desfazem. Já não consigo comer sólidos.
Agora acordo com a almofada cheia de cabelos. A banheira também fica cheia de cabelos depois de lavar a cabeça. Até quando terei cabelos para poderem cair?
Vomito depois de comer. Todas as vezes depois de comer, deito fora tudo o que ingeri. Já não consigo manter nada no estômago. Nem os líquidos e as papas que são as únicas coisas que o estado dos dentes me permite ingerir.
As unhas estão a partir-se. Algumas esfarelam-se.
A caspa deu lugar à seborreia. Cai tudo sobre os ombros. Não adianta sacudi-los. Dois minutos depois está tudo na mesma.
O estômago está inchado. O interior chocalha. Pareço ter um lago dentro de mim, dentro da minha barriga. Está mole.
A pila encolheu. De manhã tenho dificuldade em encontrá-la para urinar. Quando a agarro, nem parece minha. Não a sinto. Não sinto nada.
Dói-me os rins. As costas. As dores de cabeça vão e vêm. Alternam com as enxaquecas. Os pulmões parecem cheios de ar e dificultam-me a respiração. Alivio quando fumo um cigarro.
Apareceram-me mais uns caroços debaixo do braço esquerdo. E também na virilha.
Na semana passada mijei sangue.
Hoje cuspi sangue. Cuspi sangue depois da queda do dente. Pode ter sido da queda do dente. Quero acreditar que sim.
Tenho acordado todas as noites, a meio da noite, com cãibras nas pernas. Massajo-me mas custa a aliviar os músculos. Levanto-me para ir urinar e estou meia-hora na casa-de-banho sem conseguir fazer nada.
Sinto-me um produto em fim de vida e sem arranjo. Penso se não valerá a pena arranjarem outro eu novo. É que este eu, está uma miséria. E não lhe antevejo melhoras. Muito menos um regresso a um tempo funcional.
Deito-me em cima da cama e tento pensar em quando as coisas ainda não eram assim. Tento pensar nas férias de Verão da minha adolescência. Nos mergulhos nas águas frias da costa atlântica. Nos meus amores. Nos primeiros dias de aulas. No primeiro beijo. Na primeira noite de sexo. Na primeira vez que conduzi um carro. No primeiro charro. No assalto que fizemos e na adrenalina que senti.
Cai-me outro dente. Sinto-o solto na boca. Cuspo-o para cima da cama. Cuspo sangue. Babo-me. Perco a vontade. Perco a vontade de ter vontade.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/21]

Agir sem Pensar

O tipo chamou-me ao escritório. Não havia lay-off. Alguns iam ser despedidos. Aos outros teria de baixar o salário. Era a crise. A crise atinge-nos a todos, não é? Ele queria que eu ficasse. Com menos um terço de salário. A fazer o meu trabalho e o do tipo que ia mandar embora. Eu mandei-o para o caralho e vim-me embora.
Vim para casa.
Agora estou aqui em casa sem trabalho nem dinheiro e sem saber o que fazer.
Acendo um cigarro, olho para a ponta incandescente e pergunto o que é que seria da minha vida se não pudesse fumar? Se a minha bronquite se agravasse e eu não pudesse mais fumar? Quando o dinheiro se me acabar e não puder comprar mais tabaco?
Abro a porta da despensa. Olho para as prateleiras. Prateleiras vazias. Ou quase. Um quilo de arroz. Duas latas de conserva de atum com feijão frade. Uma lata de salsichas. Um pacote de pevides para a canja. Já está ali há anos. Há quantos anos não faço uma canja? Desde que a minha mãe deixou de me dar galinhas caseiras, que ela própria criava no quintal das traseiras de casa, da casa que era a casa dela e onde eu nasci e vivi até vir embora, a mesma casa que ela deixou quando o meu pai morreu e ela decidiu ir para a cidade, para não estar sozinha, para andar pelas ruas a ver montras e pessoas. Para ver pessoas! O que importam as pessoas? Por causa disso fiquei sem as galinhas dela, galinhas cheias de gordura com as quais fazia uma bela canja e, às vezes, uma cabidela, quando ela me guardava o sangue das galinhas degoladas no quintal das traseiras pelas suas mãos firmes e decididas. Eu nunca consegui degolar uma galinha.
Olho para a despensa e pergunto o que é que vou fazer com isto. Também há uma lata de feijão encarnado. E milho. Quem é que comprou milho? Eu nem gosto de milho. Milho em lata. Para fazer salada?
Sinto uma tontura.
Acho que reajo mais depressa do que penso. É o que se chama agir sem pensar. Talvez devesse pensar um pouco mais antes de fazer as merdas que faço. Ser mais pragmático. Um salário mais baixo é melhor que salário nenhum, não? Mas mais trabalho por menos salário?
Oh, foda-se!
Saio de casa rápido e deito fora o resto do cigarro. Saio a correr. Preciso de correr. Cansar-me. Impedir a cabeça de pensar no que não deve. Desço a alameda a correr. Para baixo todos os santos ajudam. Levanto bem os joelhos. Estico os braços. Saio o portão e viro à esquerda para a aldeia. Não sei se chego a fazer quinhentos metros. Não chego às portas da aldeia. Falta-me o ar. Páro. Encosto-me com uma mão a uma árvore. É difícil respirar. Sinto a pieira. A pieira na minha respiração. Preciso de um cigarro, mas é melhor não fumar agora. Descanso um pouco aqui em pé, encostado à árvore, e regresso a casa.
Oh, foda-se! E agora começa a chover!

[2020/08/18]

Atingido pela Fúria que a Consumia

Ela saltou para cima de mim e começou a bater-me. A bater-me com as mãos fechadas na cara, na cabeça, no peito, onde me conseguisse acertar. Não eram bem murros, que ela não saberia dar murros, coitada, mas eram uma espécie de socos mal paridos dados com as mãos fechadas e mandadas à sorte para cima de mim. Com toda a força que tinha que, não sendo muita, era potenciada pela fúria com que estava. O que é certo é que acabou por me magoar bastante enquanto me atingia o nariz, os lábios, os olhos, quando uma das suas unhas, que nem eram muito grandes por sinal, embora maiores que as minhas, mas eram verdadeiras, não eram brincadeiras parolas de gel, eram as unhas verdadeiras dela, tratadas, limadas e pintadas de vermelho-velvet, que me rasgaram a pele no pescoço e arrancaram dois sinais salientes que eu tinha e que a médica me tinha avisado para eu os vigiar (não sei muito bem o que é que a médica quis dizer com isso) e num olho, que não mo vazou por mero acaso, mas deu um rasgão e ainda tive direito a algumas veias oculares a romperem e a lançarem pequenos esguichos de sangue pelo branco dos olhos.
Eu só me limitava a encolher para me defender dos ataques dela. Encolhia-me para desaparecer e não ser atingido pela fúria que a consumia.
Depois parou de me bater, ficou assim sentada em cima de mim, eu estava sentado no sofá e ela sentada em cima de mim, virada para mim, e começou a chorar, desesperada, e eu vi as lágrimas que rebentaram dos olhos dela e largaram em debandada pelas faces abaixo enquanto gritava Foda-se! Foda-se! Fodassefodassefodassefodassefodassefodassefodasse… até a voz se extinguir e a cara dela se transformar numa massa disforme, com baba e ranho a escorrer dos cantos da boca e do nariz e os olhos raiados de sangue e molhados de tanto chorar, e ela colocar a mão na testa como se tentasse organizar as ideias, suspirar duas ou três vezes, sair de cima de mim a correr para o quarto e fechar a porta com estrondo nas suas costas, talvez mais pela corrente-de-ar que se fazia sentir que pela fúria que, naquele momento, acredito que já estivesse noutro nível, mais de saturação e cansaço que propriamente de zanga.
Ainda perguntei O que é que eu fiz?, mas perguntei em silêncio, só na minha cabeça, só para mim, para evitar mais problemas com ela, principalmente enquanto não soubesse o que é que se tinha realmente passado.
Suspirei. Acendi um cigarro. Pensei na derrota do Benfica anteontem na Grécia, frente ao PAOK, o que lhe tinha vedado a entrada para a Liga dos Campeões e, para agravar a história, o jogo difícil já agendado para amanhã à noite, em Famalicão, contra uma das grandes surpresas da época passada, para a jornada inaugural da Primeira Liga. Está tudo complicado para o Benfica! pensei.
Levantei-me do sofá, apalpei os bolsos das calças. Estavam vazios. Fui à carteira dela. Só tinha uma nota de cinquenta euros. Tirei-os, apanhei o casaco, vesti-o e saí de casa. No elevador vi a minha cara no espelho. Uma cara toda arranhada, com sangue num olho, um lábio rebentado, também a sangrar, e uns pingos já tombados sobre a t-shirt branca e que estavam a alastrar e já não eram umas pequenas manchas mas um desenho sinistro do resultado de um ataque terrorista.
Os meus anos de chumbo! pensei. Às vezes dá-me para o dramatismo. São muitos romances de Harold Robbins em cima.
Saí do prédio. Não sabia o que tinha acontecido ao cigarro que estava a fumar. Acendi outro. Era o último do maço. Fui a fumar até ao quiosque ao fundo da rua. Fiquei cá fora, encostado à montra, com a perna direita flectida e o pé no vidro, a acabar do fumar. Depois entrei. Cheirava a chouriço lá dentro. O dono do quiosque estava à entrada de uma pequena arrecadação a comer uma sandes. Presumi que fosse uma sandes de chouriço, tal o cheiro. Ele parou de comer, largou a sandes em cima de um jornal e colocou a máscara na cara. Lembrei-me que precisava da máscara. Não a tinha comigo. Pedi-lhe um maço de cigarros dali mesmo da porta.
Bati o maço. Tirei outro cigarro. Acendi-o e fui andando ao longo do passeio. E pensei que andava a fumar demasiado. Pensei que tudo na minha vida estava a ficar um bocado descontrolado. Tudo demasiado. Pensei que o normal, fosse lá o que fosse, nunca tinha sido o meu normal. A minha vida era uma sucessão de pequenos e grandes problemas com menores ou maiores repercussões. Nunca tinha conseguido ser dono da minha vida. Estava sempre a ser jogado pelos outros. Fossem os meus pais, a minha irmã, os meus amigos, os meus patrões ou as minhas namoradas. Toda a gente mandava em mim e na minha vida. Toda a gente menos eu. E toda a gente acabava, mais tarde ou mais cedo, por se incompatibilizar comigo. Eu era assim tão mau? Eu era um problema assim tão grande? Ou era só um motivo para os outros libertarem a sua acidez?
Entrei no snack-bar e sentei-me ao balcão. O empregado disse que eu precisava de máscara. E eu perguntei como é que iria beber a imperial com a máscara na cara? Ele suspirou e serviu-me uma imperial.
Ao canto do balcão reparei na televisão desligada. Já não havia Sport TV. E pensei Onde é que poderei ir ver o jogo do Benfica, amanhã?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/17]

A Porta Fechada ao Cimo da Escadaria de Pedra

Desperto com o bater da porta. Alguém saiu de casa. Quem é que saiu de casa? Ela saiu de casa?
Abro os olhos e percebo que não estou em casa. Estou sentado numa escadaria de pedra. À minha frente passam carros. Estou na cidade. Viro-me para trás e vejo, no alto da escadaria, um homem a fechar as portas e penso São quatro da tarde.
Levo a mão ao bolso das calças e agarro o telemóvel. Olho e vejo escrito em numerário dezasseis horas. São pontuais.
Cai-me um pingo na mão. Um pingo vermelho. Sangue. Estou a deitar sangue do nariz. Apanhei muito sol. Levanto a cabeça para trás. Guardo o telemóvel e procuro um lenço de papel no outro bolso. Só tenho um lenço sujo. Um lenço já usado. Coloco-o no nariz e aguardo assim, com a cabeça lançada para trás. Ponho-me a pensar se esta é a melhor maneira de colocar a cabeça. De repente chega-me a dúvida e penso se não devia ter a cabeça virada para baixo. Deixo-me estar como estou. E estou assim durante algum tempo. Vejo o lenço de papel. Vejo o sangue no lenço de papel. Volto a dobrá-lo e a colocá-lo no nariz. Repito esta operação até deixar de ver sangue no lenço.
Levanto-me do degrau de pedra, do degrau daquela escadaria que leva, lá no cimo, a uma porta que já está fechada. Já passa das quatro da tarde.
O que é que vou fazer?
Acendo um cigarro. Sinto perder as forças nas pernas e volto a sentar-me no degrau de pedra. Fico ali sentado a fumar o cigarro. De vez em quando, a porta lá de cima abre-se para sair alguém. Eu não saio porque não cheguei a entrar.
Abro a boca. Abro muito a boca mas não estou a bocejar. Abro a boca como se quisesse abocanhar o mundo. Abro muito a boca como se quisesse gritar. Mas não grito. Estou no meio da cidade. Há muita gente a passar. Não quero que me achem maluco. Já basta o que basta.
Acabo o cigarro e deixo-o cair no degrau abaixo de mim. Vejo a ponta incandescente a consumir-se devagar.
Levanto-me. Sacudo as calças no cu que esteve sentado no degrau de pedra. Entro no circuito de gente que caminha para algum sítio. Eu não sei para onde deva ir. Não tenho para onde ir. Sinto-me no limbo. Viro-me para trás e vejo a porta ao cimo dos degraus de pedra, fechada. Não sei o que fazer nem para onde ir.
Caminho à sorte pelas ruas da cidade. Ruas barulhentas. Ruas mal-cheirosas. Ruas sujas. Descubro-me junto ao rio. Sento-me num muro que marca uma das margens nesta passagem do rio pela cidade. Olho para a água estagnada e suja. O leito deve estar bloqueado lá mais à frente e o rio está parado. Há uns patos a passearem-se lá no meio.
Sinto um arrepio nas costas e não será do frio. Tenho uma tontura. Sinto-me fraco. Aos meus pés o rio. O mundo parece girar em torno de mim. Sinto o estômago às voltas. Sinto a cabeça às voltas. Eu estou às voltas. Os patos parecem nadar no céu. Uma vertigem parece que me puxa. E eu deixo-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/11]

O Revólver Debaixo da Almofada

Durante três anos dormia com uma garrafa de vinho na mesa-de-cabeceira, um cigarro no cinzeiro pronto a acender, o isqueiro estava mesmo logo ao lado, perto do despertador, e o revólver debaixo da almofada. Durante três anos.
Ela só soube do revólver ao fim dos três anos. E foi aí que me disse Ou o revólver ou eu. E eu precisei de um fim-de-semana inteiro para escolher entre um e outro. E no fim, acho que escolhi mal.
Guardei o revólver no pequeno cofre. Escolhi-a a ela. Passei a acordar de hora-a-hora todas as noites. Acordava transpirado, cheio de suores frios. Com medo. Tinha de me levantar e ir fumar um cigarro para a varanda e esperar acalmar. Sentia falta da segurança que o revólver me dava, ali assim, junto à minha cabeça, debaixo da almofada, onde eu levava a mão para ver se ele ainda lá estava. Bebia um gole de vinho, pelo gargalo, e deitava-me. Depois ouvia-a sempre resmungar Vai lavar os dentes!
Ao fim de um mês ela acabou por se ir embora.
O revólver voltou para debaixo da almofada.
Não sei como é que tudo começou. Mas começou com medo. Foi um medo que me começou a consumir cá por dentro. Foi aí que comprei o revólver. Enfiá-lo debaixo da almofada como companhia foi um pormenor.
Depois dela se ir embora, passei a dormir com o revólver na mão debaixo da almofada. Às vezes acordava a meio da noite. Acordava com algum barulho. Ficava ali parado, a orelha virada para cima atenta a qualquer alteração da ordem lá de casa. Às vezes acabava por me levantar e fumava um cigarro ali mesmo na cama, em silêncio. Largava o revólver e acendia o cigarro. Bebia um gole de vinho. E voltava a deitar-me. Às vezes ouvia-a falar Vai lavar os dentes! E então, tinha mesmo de me levantar e ir lavar os dentes ou então não conseguia deixar de pensar nela e na ordem que ela me dava e eu não cumpria. Mas então, tinha de o fazer.
Um dia fui acordado com uma chuva violenta a bater na janela do quarto. Talvez já tivesse bebido um pouco mais. Talvez tivesse fumado algo mais que um cigarro. Sei que estava a dormir profundamente, com o revólver na mão. Acordei sobressaltado com o barulho da chuva a bater, violentamente, no vidro da janela. Levantei-me num salto, puxei o braço que estava debaixo da cabeça, o revólver veio preso à mão, o dedo mexeu-se, carregou no gatilho e o revólver disparou. Ouvi o som metálico, estridente, mesmo junto a mim. Fiquei surdo por momentos. Fiquei cego. Não bem cego. A vista enturvou colorida. Senti uma pasta na perna, a percorrer-me a perna, percebi o lençol molhado.
Acendi a luz da mesa-de-cabeceira. Tinha dado um tiro na minha perna. Na minha própria perna. E não parava de deitar sangue. Às golfadas.
Ainda consegui telefonar para o cento e doze antes de desmaiar.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/02]

Um Mergulho de Cabeça

Eu vi quando ele mergulhou lá de cima, do pilar, do pilar que ficava acima da terceira prancha, que já não era trampolim, mas uma varanda em tijolo e cimento que avançava para além das escadas e ficava mesmo sobre a piscina de saltos, suspensa sobre a piscina de saltos, uma piscina funda, tão funda que eu nunca consegui bater com as mãos no fundo.
Ele estava em pé no pilar. Não era a primeira vez que alguém subia ao pilar, que ficava acima da terceira prancha, a prancha de mergulhos mais alta no complexo de piscinas de São Pedro de Moel. Já tinha visto outros rapazes mergulharem dali, do pilar. Mergulhavam com elegância. Entravam na parede de água como uma agulha num pedaço de chita.
Naquele dia era ele que lá estava. Não sei se ele alguma vez tinha mergulhado do pilar. Eu nunca o vi mergulhar dali. Aliás, eu nunca o tinha visto mergulhar acima do trampolim que fica a meio metro da água, preso à borda da piscina, o único sítio de onde eu mergulhava, também. E não conheci ninguém que mo tivesse confirmado.
Ele estava lá no pilar. Percebi-lhe a concentração. Ficou recto. Erecto. Respirou fundo. Deitou fora o ar. E depois deu o impulso. Com os pés deu um pequeno impulso para cima e para a frente e vi o corpo dele saltar no vazio, saltar do pilar para o ar e começar a descer em direcção ao espelho de água muito direito, de mãos estendidas à frente dele, como se fosse um traço, um ponto de exclamação. A mesma exclamação que eu soltei quando o vi furar o espelho de água quase sem levantar ondas. Foi um mergulho bonito. Muito elegante. O corpo entrou inteiro dentro de água. Ouvi palmas a baterem à volta da piscina. Eu soltei um ligeiro sorriso e pensei Gostava de ser assim.
Depois, algumas pessoas aproximaram-se da borda da piscina de saltos para o receber. Mas ele tardava. Tardava em aparecer. Tardava a vir lá de baixo, do fundo do seu mergulho. As pessoas olhavam umas para as outras. Senti medo no ar. Medo na cara das pessoas. Ele ainda não tinha subido. Alguém mergulhou na piscina. Alguém foi ver o que se passava.
Então, apareceu um corpo a boiar à superfície. O rapaz que tinha mergulhado pegou no corpo e levou-o até à borda. Outras pessoas agarraram nele e puxaram-no para fora. Para fora da piscina. Ele estava inerte. Tinha sangue. Uma pequena ferida na cabeça. Respirava. Respirava mas não se mexia. Então, abriu os olhos. Mas não se mexia. Respirava de olhos abertos, mas não se mexia. Não se mexia.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/26]

Numa Festa, Possivelmente

Acordo à borda de uma piscina. Tenho os pés dormentes dentro de água. Os dedos dos pés estão enrugados. Sinto um arrepio de frio.
Onde estou?
Tenho uma cabeça loira pousada no meu ventre. A camisa aberta. A pele está viscosa. Os olhos piscam perante a claridade. O excesso de claridade. É manhã. É manhã e está sol. Tenho dificuldade em manter os olhos abertos.
Agarro a cabeça loira e deposito-a no chão, nas lajes que contornam a piscina. A cabeça loira está presa a um corpo de rapariga nu. Com a cabeça no chão, o corpo ergue os braços para apoiarem a cabeça e o corpo encolhe-se. Sinto outro arrepio. Fecho os botões da camisa. Descubro que não tenho calças. Nem cuecas.
Os meus pés descalços pisam algo. São uns óculos. Uns óculos escuros. Apanho-os e coloco-os na cara. É então que vejo a piscina, várias boias na piscina, pessoas em cima das boias, corpos caídos um pouco por todo o lado, garrafas vazias, garrafas cheias, copos tombados, copos partidos, fatias de pizza caídas nas lajes, um bocado de pó espalhado numa mesa de vidro. Passo o dedo pelo pó e levo-o à boca. Esfrego o pó nas gengivas. Encontro um maço de cigarros. Acendo um.
Entro em casa a fumar o cigarro. Não parece haver gente em casa. Tento abrir uma porta. Fechada. Tento a seguinte. Um quarto. Vazio. Abro o guarda-fatos. Escolho umas calças de ganga. Visto-as. Encontro uns chinelos tombados sobre o tapete. Calço os chinelos. O cigarro cai-me da boca. Tento agarrá-lo, mas não consigo. Estou lento. Vejo o cigarro cair em cima do tapete. Vejo-o queimar o tapete. Quero baixar-me, quero apanhar o cigarro, mas não consigo fazer nada. Fico ali a olhá-lo. Fico ali a olhar o cigarro enquanto ele queima o tapete.
Saio do quarto. Ainda olho para trás quando estou a sair, e vejo uma pequena chama a queimar o tapete. Fecho a porta nas minhas costas. Percorro o corredor devagar.
Que casa é esta?
Não há ninguém em casa. Está toda a gente lá fora, na piscina, à volta da piscina, à volta da volta da piscina. Encontro a cozinha. Entro. Está vazia de pessoas mas cheia de restos de comida e bebida. Restos de garrafas meio-vazias. De copos meio-cheios. Travessas com restos de comida. Agarro no que será um pedaço de salmão fumado e levo-o à boca. Cuspo-o fora. Tenho a boca a saber mal. Está pegajosa. Seca. Agarro numa garrafa de vinho tinto e levo-o à boca. Bebo um grande gole. Limpo a boca às costas da mão. Volto a pegar num bocado de salmão fumado. Desta vez como-o. Pego noutra fatia. Agarro em dois pedaços de queijo seco. Levo-os à boca. Apanho um bocado de pão e faço-o acompanhar os pedaços de queijo. Vou até à janela da cozinha. Da janela avista-se a cidade ao fundo.
Que cidade é aquela?
Viro-me para a cozinha. Vejo restos de leitão numa travessa. Agarro as peles. Desfaço os pedaços de leitão para comer só as peles. Volto a agarrar a garrafa de vinho e bebo outro gole. Limpo as mãos à toalha da mesa. Baixo a cabeça e também limpo a boca. Acendo outro cigarro. Volto ao corredor. Continuo. Outra porta. Empurro a porta para trás. A casa-de-banho. Entro na casa-de-banho e ponho-me a mijar na retrete. Sinto um enorme alívio. Um arrepio percorre-me o corpo mas é um bom arrepio. Sinto-me renascer à medida que mijo. Sinto-o a chegar ao fim. Sacudo-me. Ouço os último pingos a cair no fundo da retrete. Puxo o autoclismo. Dirijo-me ao lavatório e lavo as mãos. No canto da boca, o cigarro acesso leva o fumo até aos meus olhos. Olho-me no espelho à minha frente e vejo-me mal através do fumo do cigarro. Vejo também qualquer coisa atrás de mim, mas mal. Vejo qualquer coisa. Viro-me enquanto lavo as mãos. Parece a banheira. A banheira e a cortina de plástico. Acabo de lavar as mãos. Seco-as numa toalha. Vou até à banheira. Agarro na cortina de plástico e puxo-a para o lado.
O cigarro cai-me da boca para o chão.
Um arrepio percorre-me o corpo. Levo a mão à cara é retiro os óculos escuros.
Um corpo está deitado na banheira. Um corpo aberto, rasgado. Há sangue por todo o lado. Em cima do corpo. No esmalte da banheira. A escorrer pelo ralo.
O meu corpo agonia-se. E sinto uma revolução nas minha entranhas. De repente sinto-me acordado. E então, vomito sobre o corpo.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/15]

Com Vontade de Partir a Cabeça

Mando a garrafa vazia contra a parede ali em frente. Vejo-a estilhaçar-se em pedaços. Vejo os pedaços espalharem-se pela cozinha. Ouço os pedaços que deslizam pelas lajes do chão da cozinha. Alguns pedaços enfiam-se debaixo do frigorífico. Outro vêm para aqui, para perto de mim. Para debaixo de mim. Estou descalço.
Foda-se!
Acho que estou com os copos.
Vejo a parede em frente com uma mancha. Não, um rasgo. Um rasgo na pintura. Devia colocar azulejo.
Levo o copo à boca. Está vazio. Onde está a garrafa? Levanto-me e viro-me para trás, à procura da garrafa. Mexo os pés. Piso alguma coisa. Sinto que um pedaço de vidro entra dentro de mim. Berro! Dou um berro! Sinto dor. Olho para baixo e vejo sangue no chão. Vejo sangue no pé. Vejo um pedaço de vidro espetado no pé. E digo A garrafa!…
Baixo-me e retiro o pedaço de vidro espetado no pé. Sai mais sangue. Tento estancar o sangue com um pano de cozinha. Sento-me de novo e faço pressão sobre o golpe no pé com o pano de cozinha. Penso A garrafa está vazia! Tento pensar se tenho outra garrafa de whiskey e não consigo lembrar-me.
Acendo um cigarro. Olho para o copo vazio. Dou uma passa no cigarro. Vejo o rasgão na tinta da parede em frente. Olho para o copo vazio à minha frente. Dou uma passa no cigarro. Afasto o pano de cozinha do pé e vejo que ainda deita sangue. Volto a fazer pressão. Dou uma passa no cigarro. Olho para o copo vazio. Dou uma passa no cigarro. Levo a mão com o cigarro ao copo e, lentamente, empurro o copo vazio pela mesa, até à borda da mesa e forço-o a cair. O copo cai no chão. Vejo-o partir-se. Ouço-o partir-se em contacto com o chão. E vejo-o partir-se. Os pedaços partidos do copo voam por todo o lado. Fazem companhia aos pedaços da garrafa. Estou descalço.
Porque é que estou a partir coisas? Porque raio é que estou a partir vidros na cozinha? Estou descalço. Vou ter de apanhar os vidros. Todos os pedaços. Mesmo os pequenos. Até aqueles que nem vejo.
Porque é que estou a partir coisas?
Acho que estou com os copos. Estou com os copos?
Acho que estou zangado.
Devo estar zangado com qualquer coisa. Não me lembro.
Levanto-me. Abro a porta de um armário. Há ali várias garrafas. Descubro uma garrafa de Yamazaki de 12 anos. Como é que veio aqui parar? Não tenho dinheiro para isto. Abro a garrafa. Bebo um gole pelo gargalo.
Um néctar, digo. Ninguém me ouve.
Volto à mesa. Sento-me. Não tenho copo. Nem gelo. Vejo os vidros no chão. O chão com sangue. Sinto uma queimadela nos dedos da mão. descubro um resto de cigarro queimado numa das mãos. Largo a beata no chão. Ergo a garrafa e volto a beber pelo gargalo. Penso É mal empregue estar a beber assim.
E depois? Estou com os copos. Sem copo. Estou zangado.
Olho em volta.
Acho que estou perdido. Estou perdido.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/03]