No Início de um Novo Normal

O tipo foi para lá de madrugada. Estava ansioso. Farto de estar em casa com a mulher e os filhos, enfiado num T2 num bairro residencial onde só havia casas como a dele, gente como ele, famílias como aquela com quem estava confinado. Queria sair. Ver outras pessoas. Falar com outras pessoas. Trabalhar. Gostava do que fazia e fazia-o com gosto. Há gente que nunca encontra prazer nas coisas que faz, durante toda uma vida, e faz porque precisa de comer e pagar contas. Ele fazia precisamente o que gostava. Mas dois meses depois, dois meses fechado em casa sem poder exercer o seu trabalho, era demais. Estava a começar a dar em doido. A falar torto com a mulher. A ignorar os filhos, precisamente quando eles começavam a dar mostras de mais precisarem dele e do seu carinho.
Então, hoje de madrugada, levantou-se em silêncio. Tomou banho. Mexeu uns ovos. Fez umas torradas. Café fresco. Tomou o pequeno-almoço na cozinha a olhar pela janela a cidade ainda nocturna. Deu um beijo na mulher. Nos filhos. Deixou-os a dormir. Pegou no carro e foi até ao restaurante.
Antes de lhe meter a chave, olhou a porta de madeira forte, a montra com as cortinas corridas, o letreiro de néon que tem estado ligado todas as noites mesmo com o restaurante fechado, inspirou fundo e benzeu-se. Meteu a chave, abriu a porta e entrou.
Teve a sensação de estar a entrar num sítio desconhecido. Um sítio novo. Um sítio vazio. Cheio de vibrações, boas vibrações claro, mas vazio.
Viu as horas. Ainda era cedo. Muito cedo.
Colocou o Fairytales of Slavery dos Miranda Sex Garden nas colunas do restaurante, mais alto do que o que costuma estar com clientes e foi olhando para o trabalho que andaram, ele e os seu empregados, a finalizar na última semana. Dava um toque na perna de uma mesa. Alinhava as cadeiras que estavam mais que alinhadas. Verificou o stock de máscaras, de luvas, de viseiras, de calçadeiras para os sapatos, de álcool-gel, de desinfectante para as mesas, cadeiras, maçanetas, chão da sala, da casa-de-banho, do interior do balcão. Mediu o espaço entre as mesas e voltou a medir. Organizou, de novo, todas as garrafas de bebidas na parede atrás do balcão com o rótulo virado para a frente.
Foi buscar o cinzeiro de pé-alto e foi colocá-lo na rua, ao lado da porta de entrada. Depois pensou melhor, era ainda muito cedo, e voltou a colocar o cinzeiro de pé-alto no interior do restaurante.
Olhou em volta a perscrutar o espaço enquanto batia com a mão na perna ao som da música. Estava ansioso, mas contente.
Viu as horas. Já eram horas suficientes. Pegou no telemóvel e fez uma chamada. Sim, os frescos já vinham a caminho. Descansou.
Foi a um móvel e pegou numa pilha de folhas de papel. Eram as ementas. Uma despesa enorme fazer as ementas descartáveis. Todas iguais. Depois os pratos do dia escrito no pequeno quadro de xisto em cima do balcão.
A porta da rua abriu-se e entrou alguém. O primeiro empregado a chegar. Antes da hora. Também ele ansioso. Também ele desejoso de trabalhar. Cumprimentaram-se com um aceno de cabeça e grunhidos que ambos entenderam. O empregado fez-lhe sinal para a cara. Ele percebeu. Foi pôr uma viseira. A música continuava a tocar. Os outros empregados começaram a chegar. Os frescos também. Toda a gente começou a fazer o que tinha de fazer. Na cozinha, havia quase um ambiente de festa, mesmo se havia um cuidado, por vezes excessivo, em não se tocarem. Todos estavam contentes com terem voltado ao restaurante. Havia até quem dançasse nas suas voltas pela sala e pela cozinha enquanto se afinava tudo ao pormenor para o primeiro cliente.
E, então, eu entrei.
Fui o primeiro cliente do dia. E já eram catorze horas.
Até aquele momento, ainda não tinha lá entrado ninguém. Eu só soube isso depois.
Naquele momento, entrei. Fui à casa-de-banho lavar e desinfectar as mãos. Indicaram-me uma mesa. Uma mesa minimal num espaço deserto. Não havia mais ninguém a comer. Pedi um dos pratos do dia e vi a azáfama a tomar conta de toda a gente. Toda a gente precisava de se sentir a contribuir para o dia, para o primeiro dia, para o início de um normal que havia de ser outro mas que se iria tornar norma.
Enquanto esperava pelo prato do dia, que não haveria de demorar, bebi um copo de vinho tinto de uma garrafa das pequenas do vinho alentejano da casa, e o dono do restaurante sentou-se numa mesa perto da minha, mas distante, e começou a desabafar.
Eu vim para aqui, hoje, ainda de madrugada, sabe? Precisava disto. Os clientes é que parece que não. Devem estar com medo, percebe?
Tenho andado ansioso com este dia depois de tanto tempo fechado em casa com a mulher e os filhos. Filhos pequenos, percebe? Num T2, está a ver?
E eu acenava a cabeça. Percebi que ele precisava de falar. Eu não me importava de ouvir.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/18]

Em Processo de Desconfinamento sem Grande Efeito

Acabei de fumar o cigarro e deitei-o fora. Inspirei longamente o ar fresco da rua e sorri. Coloquei a máscara na cara. Presa entre o nariz e o queixo e nas duas orelhas. Entrei no prédio da minha mãe. Ia buscá-la para darmos uma volta ao quarteirão. Andava em processo de desconfinamento.
Entrei em casa e procurei-a. Na cozinha. Na sala. Fui descobri-la no quarto. Deitada na cama. Chamei-a Mãe! ela abriu os olhos e deu um berro. E gritou Vade retro, Satanás! Sou eu, mãe! acalmei-a. A máscara!, lembrei-me. Estou de máscara de tecido preta na cara. Tirei a máscara e voltei a dizer Sou eu, mãe! Vês? E ela acalmou, mas vi o medo ainda nos seus olhos.
De pé sobre a cama, sobre ela, pergunto O que é que fazes aí deitada? e recebo logo a resposta automática Estava com os pés frios e vi-me deitar. Estava a chover. A televisão não estava a dar nada de jeito. O que é que estava ali a fazer, ao frio? A tremer de frio? Com os pés gelados?
Sento-me na cama, longe dela, mas perto o suficiente para não ter de gritar. E pergunto-lhe Mas não íamos sair? E ela logo responde Sair? Com esta chuva? Com este frio? Quem é que quer sair com este tempo?
E eu digo-lhe Precisas de sair, mãe. Quase dois meses fechada em casa, precisas de ir à rua. Mas ela não desarma. Primeiro não queres que eu saia. Agora queres que saia. Ninguém te entende. Vê lá se atinas de uma vez. Ou é para ficar em casa ou é para sair. Não vou cansar-me a vestir para ficar cá por casa. Ou para ir dar uma simples volta ao quarteirão. Já vais dizer que não posso ir ao café. Que o café só serve café e é para ir a beber na rua e com a mala e a bengala não consigo agarrar o copo de plástico que ainda por cima vai queimar-me a mão. Nem posso lanchar. Nem bater-papo com ninguém. Dizes que não posso ir ao supermercado porque não posso andar lá a mexer em nada porque há muita gente a pôr a mão em tudo onde se pode pôr a mão. Já nem sei por onde andam os velhos com quem conversava. Não me vou vestir só para ir ao talho, porque dizes que ao talho eu posso ir contigo, mas para ir contigo, vais lá tu sozinho. Não é que eu não goste de sair contigo, porque gosto, mas estar a vestir-me só para dar uma volta aqui à volta dos prédios, sem poder entrar em lado nenhum, nem sentar-me numa esplanada a lanchar e a beber um Compal e a ver as pessoas a passar, se é que já há pessoas a passar, que eu da varanda aqui de casa continuo sem ver muita gente, e depois vir logo para casa e ter de me despir toda outra vez, não. Nã!… Não vale a pena. E além do mais preciso de ir primeiro à cabeleireira que este cabelo está uma miséria e não vou assim para a rua, nem tu queres que eu vá assim para a rua, não é?
Eu percebi que a pergunta era retórica. Na verdade não estava à espera que eu respondesse, mas aproveitei a deixa para lhe dizer Oh, mãe, olha que o cabeleireiro agora é só por marcação. Queres que marque? E tens de ir com máscara. Tenho uma para ti. E tiro a máscara de uma pequeno saco de plástico, uma máscara de tecido, como a minha, e mostro-lha e ela olha para mim e olha para a máscara e volta a olhar para mim e diz Deves estar doido! e volta a deitar-se na cama. Ainda disse Está uma lista de compras na mesa da cozinha. Põe a máscara na cara e vai lá ao supermercado, vá!

[escrito directamente no facebook em 2020/05/11]

A Precisar de Desanuviar

Estou a precisar de desanuviar. Adeus.
Foi assim que ela se foi embora, de boleia com o fim do confinamento.
Estava à porta da rua, de mala na mão, casaco vestido, quando eu ia a sair da sala com um livro do Harari na mão. Parei a olhar para ela e perguntei Onde é que vais? e ela colocou a mão na maçaneta da porta da rua, virou-se para mim como se eu fosse um estranho de passagem e disse Estou a precisar de desanuviar. Adeus.
Tínhamos vivido juntos os últimos seis meses. Mais intensamente neste último mês e meio de confinamento. Passámos a maior parte desse tempo na cama. Nus. Transpirados. A foder. Deixei acumular o tele-trabalho. Cozinhei para ela. Até me tornei um semi-vegetariano por causa dela. Deixei que me espremesse pontos negros nas costas. Deixei que me cortasse o cabelo. E depois, Estou a precisar de desanuviar. Adeus.
No início nem percebi muito bem. Pensei que ia dar uma volta pela cidade. Para desanuviar. Claro que achei estranho a mala na mão. Mas nem pensei muito nisso. Pensei que ia só dar uma volta à beira do rio, coisa que eu faço com regularidade. Ou que ia beber um café expresso a sério e não aquela miséria do Nespresso que sempre me pareceu a chicória que a minha mãe fazia aos Domingos, em Dezembro, para acompanhar as filhoses.
Olhei para o livro que trazia na mão e não sabia muito bem o que é que estava ali a fazer, no corredor, à saída da sala, com o livro na mão, e ela ao fundo do corredor, a porta da rua aberta e o Adeus a ecoar. Vi-a afastar-se de mim. O olhar dela largar o meu, virar-se de costas, puxar a porta da rua e ela bater com violência e eu despertei de uma pequena letargia momentânea e percebi que ia a caminho da casa-de-banho quando fui interrompido pela saída furtiva dela.
Fui para a casa-de-banho. Não consegui ler nada. Não consegui estar calmo. Voltei ao corredor. Abri a porta da rua. Espreitei o patamar. Fui à janela da sala. Pus a cabeça de fora e olhei a rua, de um lado, de outro. Pouca gente. E ela não era nenhuma delas. Depois deixei-me cair sobre o sofá.
O livro?
Deixei-o na casa-de-banho. Devia tentar ler. Ler para esquecer. Passar à frente. Tinha de me levantar. Mas não conseguia levantar-me. Não conseguia ler o livro. Não queria ler o livro. Só me revia na cama. Na cama com ela. O meu corpo tombado sobre a cama. Os lençóis encharcados. Ela sobre mim. A mão dela na minha garganta. A mão a apertar a minha garganta. E a dizer Tosse! Tosse! E eu a tossir. A tossir. Depois ela tombava sobre mim. Ficava morta, sobre mim. E eu ficava quieto debaixo dela para não a incomodar. Sentia-lhe o coração a bater muito rápido contra o meu. Depois a respiração a acalmar. E por fim levantava-se e ia buscar um cigarro. Acendia-o e passava-mo. Eu esticava a cabeça para fora da cama, procurava a janela do quarto, sentia a cabeça cair fora da cama, ficar pendurada, mas procurava a varanda do prédio em frente e o tipo estava lá. A olhar para mim. Para o meu quarto. Para a minha cama. Puxava uma passa do cigarro e devolvia-o a ela que ia fumar, nua, para a janela.
Levantei-me do sofá e fui a correr até ao quarto, abri a janela e olhei para a varanda do prédio em frente. Não estava lá ninguém. A varanda estava deserta.
Eu acendi um cigarro e fiquei lá, à janela do quarto, a fumar o cigarro e a olhar para uma varanda vazia à espera que aparecesse alguém.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/04]

Ela Aparecia Lá por Casa e Ficava a Dançar Comigo

Naquele tempo eu trabalhava como assistente de realização em pequenos filmes de baixo orçamento. Tínhamos de ser pau para toda a obra. Às vezes para além do nosso trabalho também tínhamos de ser pais e mães de muita gente, especialmente dos realizadores e dos actores, personagens sempre tão cheias de dúvidas e a precisarem de um certo conforto e de uma palavra de ânimo.
Chegava a trabalhar doze, treze, quatorze hora por dia só em plateau, a dirigir as várias equipas, a aguentar os egos dos realizadores, a minimizar os danos financeiros dos produtores, a garantir menos horas de trabalho e horas extra pagas ao resto da equipa, a dar carinho aos actores, tantas vezes abandonados por realizadores indecisos e demasiado nervosos para conseguir tirar dos actores o que eles tinham para ser tirado. Mas também, naqueles filmes de série B não havia muito a desejar tirar. Era o que era. E tinha de ser feito. E alguém tinha de garantir que se fazia. E eu era esse alguém.
Depois destas doze, treze, quatroze horas de trabalho em plateau, mal chegava a casa, abria uma garrafa de vinho tinto, sentava-me na mesa da cozinha, computador aberto, e preparava a folha de serviço do dia seguinte, deixando-a depois em stand-by à espera de eventuais alterações de última hora, coisa que acabava quase sempre por acontecer. Depois acendia um cigarro, pegava no telemóvel e telefonava aos chefes de equipa a perguntar se estava tudo pronto para o dia seguinte, confirmava com os actores se já sabiam os horários para a maquilhagem, cabelos e guarda-roupa e acabava a noite de trabalho a falar com a produção. Confirmar transportes, locais de filmagens, autorizações. Às vezes dois ou três dedos de conversa com o produtor sobre como é que estava a correr o filme, a prometer que mantinha o realizador dentro das datas e do orçamento, sabendo à partida que nada do que eu dizia iria alguma vez ser verdade. Mas tentava-se.
No fim desligava o telemóvel. Fechava a tampa do computador. Olhava à volta da cozinha. Precisava de comer alguma coisa. Nunca sabia o que me apetecia comer. Acabava sempre por fazer uma sandes de presunto. Quando não havia presunto fazia com mortadela. Mais um copo de vinho tinto. E depois ia finalmente para a sala. Sentava-me pesadamente no sofá, cansado, ligava a televisão que ficava a trabalhar para o boneco e aguardava que ela chegasse, porque essa era a altura em que ela chegava.
E ela chegava, sentava-se no outro sofá e olhava para mim. Sorria-me. Um sorriso doce. Eu voltava a acender outro cigarro e começava a conversar com ela. Falava de tudo com ela. As dificuldades nas filmagens, os problemas com os realizadores, com os produtores, a dificuldade em manter a tranquilidade nos actores, a falta de dinheiro no projecto, a crónica falta de dinheiro no projecto, o desespero por um local de filmagens que se tinha tornado impraticável, um fato que se estragara, os figurantes para o dia seguinte, demasiados para eu conseguir tratar deles todos, poucos para as necessidades do filme, até chegar às partes mais íntimas da conversa e dizer-lhe Fazes-me falta! e ela sorrir outra vez, um sorriso de simpatia, um sorriso de quem percebia a falta que me fazia mas que não podia fazer nada para mudar o estado das coisas. Era assim a vida. A minha vida. Às vezes punha uma música a tocar, uma música melosa do tempo em que ainda dançava e dançava com ela, abraçados, eu sentia-lhe o cheiro do cabelo acabado de lavar, e é estranho como às vezes me esqueço da cara dela, da voz dela, mas não me esqueço do cheiro dos seus cabelos acabados de lavar, e dançávamos durante toda a noite, até que o telemóvel tocava e eu perguntava sempre Quem será a estas horas? e ela largava-me, eu ia buscar o telemóvel, ela despedia-se de mim, lançava-me um beijo com a mão e desaparecia. Eu agarrava o telemóvel, perguntava Quem é? Quem é?, mas nunca era ninguém, era o despertador, eram horas de me levantar, era já outro dia, outro dia de trabalho, e eu levantava-me do sofá, desligava o alarme do telemóvel e despia-me para ir tomar um duche e vestir roupa lavada que estava a nascer mais um dia de trabalho duro e eu tinha de me preparar para ele.
E enquanto ia a caminho do banho, perguntava-me sempre pelo dia em que eu chegasse a casa e ela já lá não estava para partilhar comigo os pequenos problemas do dia-a-dia. E não queria que esse dia chegasse.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/19]

A Velha Morta Dentro da Cama

Abri a porta com um cartão de crédito. Forcei a porta, enfiei o cartão pela nesga da porta forçada até chegar ao trinco da fechadura. Depois foi só tentativa e erro até conseguir abrir a porta e empurrá-la para trás.
O trinco cedeu mas tive de empurrar a porta com força. Algo estava a travá-la. Mal forcei a porta um pouco para dentro, senti logo o cheiro. Um cheiro a podre. Um cheiro pestilento que me fez recuar para trás, para as escadas do prédio, e me provocou vómitos. A vizinha que estava comigo no patamar das escadas, e que eu quase atropelei no recuo, percebeu o cheiro. Levou a mão ao nariz. Tirou a écharpe que tinha ao pescoço e deu-ma para as mãos. Eu levei a écharpe ao nariz e voltei a empurrar a porta para dentro. Tive de forçar. Fazer força. A casa estava às escuras. Estiquei o braço para a parede. Encontrei o interruptor da luz. Cliquei para cima. Cliquei para baixo. Não havia luz. Não havia luz em casa. Fui às escuras até à parede do fundo, até à janela, com cuidado para não bater com as pernas nem com a cabeça em lado nenhum. Encontrei a janela, apalpei à volta e puxei as estores. Abri a janela de par-em-par. Pus a cabeça de fora e respirei o ar da rua. Virei-me para dentro, para a sala. Olhei para o fundo, para a porta de entrada e vi um monte de pêlo no chão junto à porta. Parecia um casaco de peles tombado. Depois percebi que era o cão. O cão morto atrás da porta da rua.
Voltei a colocar a écharpe no nariz e avancei dentro da sala. Estava tudo em ordem. Tudo em ordem mas cheio de pó. Como se a casa tivesse sido abandonada. A televisão de cinescópio com um naperon por cima. Uma mesa ao lado com inúmeras fotografias emolduradas. A mesa de apoio, em frente ao sofá, com o comando da televisão e do cabo, lado-a-lado. Um pequeno vaso com uma planta morta. Uma mantinha dobrada sobre o sofá. Vários quadros clássicos, de representação da vida de antigamente, pendurados pelas paredes. Circulei com cuidado. Saí da sala, entrei num corredor. Ao fundo percebi a cozinha. Havia alguma luz da rua a iluminar ao fundo do corredor, a cozinha. No corredor, uma porta à direita. Outra à esquerda. Fechadas. Abri uma. Abri a outra. O cheiro era ainda mais insuportável. Um cheiro a qualquer coisa podre. Mais forte. Mais azedo. As duas portas davam para a escuridão. Fui à cozinha. Louça no escorredor no lava-loiça. Um chaleira sobre o fogão. Uma fruteira com algumas peças de fruta já podres. Algumas desfeitas e alguns tufos de bolor. No chão, debaixo da janela aberta e sem estores, duas tigelas vazias. Deviam ser do cão. Mas não havia nem comida nem água. Encontrei fósforos e regressei ao corredor, às portas abertas para buracos negros. Prendi a écharpe no bolso das calças e acendi um fósforo. Entrei pela porta à direita. Uma casa-de-banho. Lavatório. Bidé. Retrete. Polibã. Um pequeno banco. Uma toalha para as mãos ao pé do lavatório. Uma toalha de banho junto do polibã. Uma prateleira com alguns frascos. Tudo organizado. Tudo cheio de pó.
Voltei ao corredor e entrei na porta da esquerda. O cheiro era demasiado forte. Prendi a respiração. Senti os pulmões a quererem saltar. Acendi novo fósforo. Uma cama. Algo na cama. Uma janela na parede. Fui abrir a janela. Puxei os estores. Abri os vidros. Enfiei a cabeça na rua. Respirei profundamente. Várias vezes. Virei-me ao contrário. Os olhos a habituarem-se ao escuro do quarto. A cama. Um corpo dentro da cama. Debaixo dos cobertores. Um corpo que era cadáver. Se calhar o cadáver da velha da casa. Não reconhecia a cara. A cara também já não era bem uma cara. Saí do quarto, refiz o corredor até à sala e saí pela porta da rua. A vizinha aguardava no patamar das escadas por mim. Entreguei-lhe a écharpe. Ela olhava ansiosa para mim, como se perguntasse Então? Então? Agarrou na écharpe e amarrotou-a entre as mãos. Estava nervosa. E eu disse-lhe Está na cama. Está morta. E a senhora soltou um grito, levou as mãos à boca e libertou o choro. Agarrou-se a mim a soluçar. Eu abracei-a com um braço e com a outra mão agarrei no telemóvel. Era preciso avisar o INEM. Ou a Polícia? Ia ligar para o cento e doze.
Enquanto o telemóvel chamava, e a senhora soluçava o choro no meu peito, pensei na morte solitária da velha. Há quanto tempo ninguém a via na rua? no prédio? à janela? Mesmo o cão, que era mandado sozinho à rua fazer as suas necessidades, há quanto tempo ninguém o via? A velha abria a porta de casa ao fim da tarde, o cão saía e esperava que alguém chegasse do trabalho para lhe abrir a porta da rua e ir fazer as suas necessidades lá fora. Depois regressava da mesma maneira. Ficava à espera que alguém chegasse ou saísse. Eu às vezes ficava à espera que ele desse a sua volta para o deixar entrar no prédio. Há quanto tempo não via o cão? nem pensava nele? Senti-lhe a falta?
Vivemos de costas voltadas uns para os outros e acabamos todos a morrer sozinhos. Quer dizer, uns mais que outros. O que é que me esperava? a mim? Uma morta solitária, também?
Do outro lado do telemóvel alguém atendeu e eu disse Sim?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/17]

Para um Diário da Quarentena (Décimo Andamento)

Hoje acordei cedo. Eram oito da manhã quando me levantei. Na rua, nem chuva nem sol. Um dia assim-assim. Olhei-me ao espelho. Cabelo muito grande. Olheiras. Cara macilenta. Barba mal aparada. Vesti um fato-de-treino, calcei as sapatilhas e saí de casa. Fui dar uma corrida ali à volta. De início, e por falta de hábito, respirei pela boca. Dez minutos depois estava cheio de azia. Fechei a boca e comecei a respirar pelo nariz. Um quarto de hora mais tarde parei para dar uma bombada de Ventilan e fui a passo no quarto de hora seguinte. Recomecei a correr no regresso a casa. Transpirei. Cansei-me.
Na casa-de-banho peguei numa tesoura e, olhando-me ao espelho, dei uns cortes no cabelo. Não importava ficar bem cortado. Tinha de desbastar. E foi o que fiz. Desbastei. Não ficou assim muito mal. Acho que fiquei mais novo. Também aparei a barba
Tomei banho.
Vesti-me.
Bebi café. Não comi nada.
Eram dez da manhã. Peguei no carro e fui ao supermercado. Uma luva numa mão. um pequeno frasco com álcool. Levei saco de casa. Peixe. Pedi para amanhar e cortar em pedaços pequenos. Algum frango. Umas iscas de vaca. Algumas conservas. Vinho. Sumos. Legumes. Fruta. Duas broas. Pão. Paguei com multibanco. Marquei as teclas com a borracha de um lápis.
No carro separei as compras por dois sacos. Tirei a luva e coloquei-a no lixo. Passei álcool nas mãos, no cartão multibanco e na borracha do lápis. Passei em casa da minha mãe. Um dos sacos era para ela. Não almoças?, perguntou-me. Pode ser, disse. Comemos uma sopa de feijão que ela tinha feito. Depois partilhámos um resto de massada de peixe da véspera. Eu não gosto de massada de peixe, mas comi e não disse nada. Já não se lembra que nunca gostei de massada de peixe. Acompanhámos com um copo de vinho tinto. Eu descasquei uma maçã e foi metade para cada um. Polvilhei com um pouco de canela e ela gostou. No fim de almoço ela tomou os comprimidos e eu lavei a louça. Reabasteci-lhe a caixinha dos comprimidos. Disse-lhe que o Xanax estava esgotado. Ela disse que ainda tinha uma caixa. Menos mal. Ela foi até à sala ver as notícias. Eu aspirei-lhe a casa num instante. Depois perguntei-lhe se queria ir dar uma volta à rua. Ela começou a rir e disse Está a chover! Pois está! pensei eu. Não tinha reparado. Fica para a próxima! disse-me com um sorriso. Ela foi deitar-se um pouco. Eu vi-me embora.
Eram duas da tarde. Regressei a casa. Despi a roupa e pu-la a lavar. Tomei banho. Voltei a vestir um fato-de-treino.
Fiz um chá verde. Sentei-me à mesa da cozinha a fumar um cigarro, a beber o chá e a ler as notícias online. No Facebook descobri mais gente que me dá nervos. Havia uma petição contra a Organização Mundial de Saúde por erros grosseiros e defesa da China. E perguntei-me o que é que aquela gente sabia? E se aquela seria a melhor altura para fazer o que se propunham fazer?
Quatro da tarde. Abri uma página do Word. Escrevo. Escrevo durante muito tempo. Escrevo tanto que esqueci as horas e a passagem do tempo.
Quando dou por mim, são oito da noite. Já é quase noite lá fora. Páro de escrever. Abro uma garrafa de vinho. Olho para o fogão mas não me apetece cozinhar. Rasgo um pedaço de pão para ensopar o vinho. Vou até à janela. Acendo um cigarro. Não há ninguém na rua.
Logo mais à noite irei ver um filme. Não sei ainda o que é que me apetece ver. Há-de ser qualquer coisa. Qualquer coisa há-de servir. Qualquer coisa de ficção há-de ser melhor que esta realidade. Depois do filme irei para a cama. Irei ler um livro como leio todas as noite. Talvez uma novela gráfica. Reler uma das novelas gráficas. Tenho poucos livros aqui comigo, mas não consigo dormir sem ler. Releio.
Quando estiver para me deitar hei-de lembrar-me do dente que se quebrou ontem e do qual estive esquecido durante todo o dia. Na altura de apagar a luz e deitar a cabeça na almofada, a língua há-de passar pelo dente quebrado e eu hei-de lembrar-me que está quebrado, embora não me doa, e que nos próximos tempos não vou poder ir ao dentista e então irei pensar se os meus outros dentes irão resistir a estes dias ou quebrar-se como este se quebrou e irei deprimir um bocado até adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/16]

O Último Almoço de Páscoa em Casa dos Meus Pais

Foi num Domingo como o de hoje. Um Domingo de Páscoa.
A minha mãe tinha passado o Sábado a tratar do cabrito. A temperá-lo. A assá-lo. A limpar a loiça das cerimónias, a louça que só via a luz do dia duas vezes por ano, no Natal e na Páscoa. O meu pai tratava de escolher o vinho ideal para o almoço de Domingo. Entre todas as garrafas sem rótulo que tinha guardadas na garagem onde faziam companhia ao carro que tratava como se fosse um dos filhos, ele sabia de que produtor era cada uma delas e qual a mais indicada para a ocasião.
Nesse Domingo, ainda de manhã, já quase hora de almoço, cheguei a casa dos meus pais. A minha mãe ainda estava a cozer uns grelos. O meu pai estava a preparar um Martini branco com um pouco de gin para mim. Ele gostava de preparar umas bebidas mas, raramente bebia. Um copo de tinto em algumas refeições mais especiais. Era provável que bebesse um copo de vinho tinto naquele Domingo de Páscoa. Já a minha mãe, acompanhava-me quase sempre. Só não me acompanhava na quantidade. Ela sabia quando parar. Eu ainda não sei.
Naquele dia agarrei o Martini que o meu pai me estendeu e fui até à cozinha dar um beijo à minha mãe. Fizemos um brinde. Ela estava a beber um vinho branco. Eu comi umas azeitonas. Um pedaço de broa. Provei uma das batatinhas assadas, e a minha mãe acabou por me pôr fora da cozinha porque a estava a estorvar no meu deambular de um lado para o outro a depenicar coisas apetecíveis.
Voltei para a sala onde estava o meu pai. Ele estava a pôr um disco de vinil da Amália a tocar na aparelhagem. Lamentámos a ausência de jogos de futebol no Domingo de Páscoa. Lamentámos não podermos ver um jogo do Benfica. Ele perguntou-me como é que eu ia. Eu menti, como mentia sempre. Ele percebia que eu mentia, mas não dizia nada. Depois fui à rua fumar um cigarro.
Passeei-me pelo quintal da casa dos meus pais, uma casa que também tinha sido a minha, e fui até à figueira que ainda existia. A figueira que eu subia até ao coruto. Olhava para ela, olhava lá para cima, e perguntava-me como é que eu subia aquilo? Como é que eu subia aquilo e nunca tinha caído, nem partido a cabeça ou um braço? Ainda estava lá pendurado o baloiço que o meu pai tinha posto para mim e para a minha irmã. Sentei-me e baloicei-me um pouco, mas sem tirar os pés do chão. Um suave ondular com o rabo enquanto fumava o cigarro. Já não havia cão. Dantes, na minha infância e depois adolescência, havia sempre um cão naquele quintal. A maior parte das vezes, cães rafeiros que davam aos meus pais. Cães que a minha mãe encontrava perdidos na rua, especialmente no Verão. Chegou a haver lá três cães de uma vez. Agora já não havia nenhum cão. Acabei por descobrir um gato deitado em cima do muro a olhar para mim. Não o conhecia. Nem sei se era ali de casa ou da vizinhança. Chamei-o, mas o gato ficou onde estava.
Acabei o cigarro e voltei para dentro de casa. O meu pai estava a levar umas travessas para a sala, para a mesa na sala. Eu voltei à cozinha. A minha mãe perguntou-me A tua irmã? e eu não sabia. Nunca sabia. E disse-lhe Deve estar a chegar. E foi nesse momento que o meu telemóvel tocou.
Atendi.
Era o namorado da minha irmã.
Eu fiquei calado a ouvir o que ele dizia. O que ele tentava dizer.
A minha mãe parou o que estava a fazer e ficou a olhar para mim. Para a minha cara. E acho que percebeu primeiro que eu o que tinha acontecido.
O meu pai voltou a entrar na cozinha e perguntou Quem é? e a minha mãe pousou a mão no braço dele para que ficasse quieto. Quieto e atento. Para o acalmar. Para lhe dizer que ela estava ali. Mas o meu pai era pior que eu. Não tinha grande intuição. E quando desliguei o telemóvel e senti os olhos a ficarem molhados, e vi a minha mãe levar a mão à boca para impedir um grito de sair, o meu pai voltou a perguntar Quem era?
Naquele Domingo já não almoçámos. A minha mãe foi despejar o tabuleiro com o cabrito na tigela de comida do cão da vizinha que lhe perguntou o que se passava e a quem ela não respondeu. Nunca mais a minha mãe voltou a cozinhar cabrito. Nunca mais houve almoço de Páscoa em casa dos meus pais. Naquele dia o meu pai deixou de falar e assim continuou até morrer. A última vez que ouvi a voz do meu pai foi quando ele me perguntou Quem era? Naquele dia a tristeza entrou naquela casa e nunca mais se foi embora. Eu continuei a mentir aos meus pais porque não queria que eles também se preocupassem comigo.
Hoje, Domingo de Páscoa, continuo a mentir, agora a mim, para me enganar e fazer-me crer que a vida é bela e que depois da tempestade vem sempre a bonança. Mas não é verdade. Quando a tempestade assenta arraiais, nunca mais se vai embora.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/12]

Para um Diário da Quarentena (Nono Andamento)

Estou quase a fazer um mês de confinamento em casa. Mais dois dias e faço um mês. Um mês fechado aqui em casa. Sozinho.
A ideia de um diário deste confinamento ficou-se pelas promessas. A inércia tomou conta de mim. Os dias repetem-se. Uns a seguir aos outros. Sempre iguais. As noites como os dias. Já os confundo. Durmo quando calha. Como quando tenho fome. Tenho sempre fome. Engordei. Engordei bastante. Não sei quanto que tenho medo da balança. Fujo-lhe.
Perdi as rotinas antigas e ganhei outras. Nem sei se são rotinas. São uma ausência de actividade. Perdi a vontade. Perdi a vontade de tudo. Não quero ler mais nenhum livro. Não quero ver mais nenhum filme. Não quero acompanhar mais nenhuma série. Estou farto da música. Ainda me lembro das festas unipessoais que fiz na sala, ao início. Eu a dançar feito louco ao som dos Chemical Brothers até cair, derreado, no fundo do sofá. Agora não me apetece dançar nem ouvir música.
A televisão está sempre ligada, dia e noite, para me fazer companhia e me manter na ilusão de que não estou só.
Mas almoço sozinho. Janto sozinho. Durmo sozinho. Bebo café de manhã sozinho e, o primeiro cigarro do dia, é fumado sozinho. Dantes ainda fumava o cigarro à janela. A olhar a rua. A olhar a vida que ainda existia na rua. Agora fumo na cama. E já não é o primeiro cigarro do dia porque já não tenho dia. Os dias e as noites são já só a mesma coisa, sempre a mesma coisa, nunca acabam nem nunca começam. Só continuam, imparáveis.
Deixei de acompanhar as conferências da DGS. Agora só ouço o número de mortos. Depois, desligo. As vozes continuam a debitar números, informação, mas eu já não ouço. Tenho os ouvido e o cérebro programados para o dia em que alguém disser Terminou.
Mas ainda ninguém disse.
O número de mortos continua a somar.
Eu ainda estou vivo.
Pergunto-me para o que é que me estou a preservar. Ainda haverá mundo depois do Covid-19?
A cama tem sido o meu útero. Deito-me e tapo-me com o edredão. Tapo a cabeça. Respiro debaixo de edredão. Acabo por adormecer. Já não como há… Há quanto tempo? Não tenho fome. Não tenho vontade de comer. Bebo água. E bebo água porque às vezes fico com a boca seca e pastosa. Já nem vinho bebo. Acabou-se o vinho. Ainda tenho alguns cigarros. Vou fumando na cama. Tenho o cinzeiro cheio. Esqueço-me de o despejar quando me levanto. E só me lembro quando já estou de regresso à cama. Não volto a levantar-me. E volto a esquecer-me. A minha memória já não é a mesma. Acho que tudo isto me está a afectar. Não estou com o Covid-19, pelo menos acho que não estou contaminado, mas estou a sofrer de problemas colaterais.
Estar em casa está a matar-me. Eu gosto de estar em casa mas por opção. Obrigado, começo a odiar. Odiar tudo. E no cimo de tudo, odiar a vida. Odiar a vida e tudo o que fizemos dela.
Estou na cama. Vou continuar na cama. Espreito por cima do edredão e vejo, através da janela, um céu esbranquiçado. Anémico. Um dia morto.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/11]

Para um Diário da Quarentena (Sétimo Andamento)

Não estava a fazer conta sair de casa. Levantei-me a meio da manhã, vesti umas calças de fato-de-treino, uma t-shirt, calcei os chinelos e fui para a cozinha espremer laranjas para um sumo. Fui para o alpendre beber o sumo e ler as notícias nos jornais online.
Nada de muito substancialmente diferente, nas notícias. As mesmas coisas mas com os números a aumentar constantemente.
Enquanto lia os números assustadores de mortos, e lia esses números com uma indiferença que já me era transmitida pelos jornais e pelos responsáveis que todos os dias actualizam os números em conferência de imprensa, carregando nos números para aliviar as pessoas, deixando que as pessoas se tornem números e, dessa forma, perderem um pouco da carga emocional que transportam, pensei que podia guisar o coelho que a vizinha, que mora duas casas mais abaixo, veio cá oferecer.
Tocou o telemóvel. Era a minha mãe. Olá, mãe!, disse. E ela começou Vens cá logo? Preciso de ovos e de sumos de manga para o pequeno-almoço. Já não tenho nenhuns. E sacos do lixo… Ah, e antes que me esqueça, preciso de álcool que já não tenho nada cá em casa. E eu respondi Oh mãe!, mas eu não posso ir ao supermercado dia sim, dia não, e senti-a em silêncio lá do outro lado. E continuei Está bem. Vou aí depois de almoço. E damos um passeio à volta do quarteirão. E alegre, ela respondeu Está bem.
E onde é que vou arranjar álcool? pensei.
Troquei os chinelos por umas sapatilhas. Vesti uma camisola. Fui a uma vizinha na aldeia e comprei uma dúzia de ovos. Passei na farmácia, mas não havia álcool. Passei na mercearia mas não havia sumos de manga. Voltei a casa para ir buscar o carro. Já não ia cozinhar o coelho. Levei-o para a minha mãe. Ela até gosta mais de coelho que eu.
Saí com o carro. Ainda tinha combustível. Passei no Pingo Doce. Estava fechado. Só abria mais tarde. Fui ao Lidl. Uma fila enorme. Mais à frente o Modelo-Continente. Aberto. Sem fila. Comprei dois packs de quatro garrafas pequenas de sumo de manga. Um rolo de sacos do lixo de trinta litros. Procurei álcool. Não havia. Lembrei-me do sabão azul e branco. Também não. Procurei luvas e máscaras. Nada.
Fui até casa da minha mãe. Antes de subir fui à pastelaria comprar-lhe pão fresco. Estava fechada. Novo horário. Este será o maior problema destes tempos. O conhecimento dos horários de funcionamento de lojas onde precisamos de ir porque cada uma funciona com o seu próprio horário.
É uma porra, é o que é!
Subi a casa dela. Estava na sala. Larguei as coisas na cozinha. Aspirei a casa. Depois passei uma esfregona molhada na cozinha e na casa-de-banho. Pedi-lhe para ir para a cozinha arrumar as coisas que já íamos sair e aspirei a sala.
Ficou muito contente com o coelho. Ficou triste pela falta de álcool.
Saímos. Descemos no mesmo elevador. Mas ela ia ao fundo. Eu mais próximo da porta. Eu é que ia abrindo e fechando tudo o que precisava de ser aberto e fechado. Na rua começamos a andar ao longo do passeio. Não havia vivalma. Ela sentiu-se triste. E disse-me Eu sei que as pessoas estão em casa mas ver a cidade assim é diferente. Mesmo visto da varanda é diferente. É uma cidade muito triste.
Sim, era uma cidade muito triste. A cidade quase deserta. Quase vazia. Quase silenciosa. Irreal. Mais à frente vimos algumas pessoas. Ela conhecia algumas delas. Sorriu-lhes e cumprimentou alguns conhecidos à distância de um aceno com a mão, ou com um adeus. Andámos à velocidade dela. Distantes um do outro mas próximos o suficiente para ele conversar. Ela é que fazia a maior parte da despesa da conversa. Estava há muito tempo fechada. Precisa de ser ouvida. Ela falava. Eu ouvia. E respondia. Às vezes parava a ver uma montra. Eu dizia-lhe para ter cuidado e não se encostar. Demos a volta ao quarteirão e regressámos a casa dela. Levei-a a casa. Eu ia abrindo e fechando tudo o que precisava de ser aberto ou fechado. Dissemos adeus. Pedi-lhe de novo, e a saber que não valia de nada pedir, para me ir dizendo o que precisava com antecedência para eu anotar tudo e tratar das coisas todas de uma vez. Ela disse que sim, claro. Como diz sempre. Mas acho que já nem se lembra com o que é que está a concordar. Levei o lixo dela para baixo.
Fui embora.
Ao despejar o saco de lixo no caixote, na rua, reparei que haviam luvas e máscaras espalhadas pelo chão. Perguntei-me de onde vinha aquilo. E porque raio estava espalhado pelo chão em vez de estar dentro de sacos dentro do caixote.
No carro, ainda parado, pensei que não tinha luvas, nem máscaras, muito pouco álcool e só um pequeno pedaço de sabão azul e branco. Não conseguia arranjar em lado nenhum. Também não ia de propósito à procura das coisas mas, em todo o lado que ia para comprar outras coisas, procurava e nunca havia. Via muita gente com estes produtos na rua. Se calhar açambarcaram logo no início. Se calhar têm tido sorte em apanhar as novas remessas. Eu não gosto de açambarcar coisas. Não encho jerricãs de combustível. Limitei-me a ter o depósito cheio. E só o enchi uma vez. Não comprei papel-higiénico. Não mais do que o que compro normalmente. Não comprei conservas para além das habituais. Não comprei álcool porque tinha uma garrafa em casa, e é com essa garrafa que me tenho desinfectado antes de entrar em casa da minha mãe e no regresso à minha. Quando tentei comprar máscaras e luvas, percebi que já era tarde. Não havia nem para os profissionais de saúde que estavam na linha da frente do combate e eles precisam mesmo destas protecções, haveria para mim? Mas via muitas pessoas na rua com máscaras.
Depois de chegar a casa, fui lavar as mãos. Despi-me. Tomei banho. Lavei a roupa que tinha utilizado. Depois cortei umas peças de fruta, uma laranja, uma maçã, uma pêra e um kiwi, era o que tinha em casa, despejei um iogurte numa tigela e coloquei a fruta em pedaços à volta. E fui para o alpendre comer. Hoje não via as montanhas. Não estava sol. O cão estava a dormir enrolado nele próprio e nem me ligou. Os gatos olharam-me à distância mas nenhum me veio incomodar. Comi sozinho no alpendre.
Chegaram umas mensagens ao telemóvel que não quis ler.
Deixei-me adormecer.
Acordei com frio e com um arrepio nas costas. O cão continuava no mesmo sítio. Agora também lá estavam os gatos. O telemóvel voltou a acusar a recepção de uma mensagem. Pus o telemóvel no bolso e entrei em casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/26]

Para um Diário da Quarentena (Sexto Andamento)

Estou a contabilizar treze dias de reclusão. Na verdade estou aqui em casa como tenho estado ao longo dos últimos anos, saio para me abastecer, cuidar da minha mãe e pouco mais. A diferença é que se ia pouco a sítios de convívio, agora deixei mesmo de ir.
Não estou em quarentena, mas estou em reclusão. Uma falsa reclusão já que tenho saído de casa. Todos os dias desço a pequena alameda e vou até à estrada. Mas até os carros deixaram de passar aqui em frente. Sinto-me só, principalmente porque a minha vizinhança sonora agora é o silêncio. O silêncio e os grilos que me prometem um Verão quente, um Verão, por ventura, também recluso em casa.
Ainda se ouvem, ao longo do dia, os sinos da igreja. Talvez sejam as horas. Não sei se será mais alguma coisa. Talvez para avisar os fiéis que a missa da hora está a passar em directo na internet? Ou que está gravada para poder ser degustada como os fiéis preferirem às horas que preferirem?
Agora que me dizem para estar por casa tenho mais dificuldade em estar por cá. Quer dizer, estar, estou, mas apetecia-me não estar. É o meu desejo de ser do contra. A porra de um feitio que me leva ao não por defeito. Não vou. Não quero. Não sei. Não gosto. Foda-se!
Estou há treze dia em casa, com todas estas minhas saídas por necessidade lá pelo meio, mas ao final do dia de hoje, e depois de ter ficado toda a manhã na cama a prometer levantar-me Daqui a cinco minutos! até terem passado quatro horas e depois de ter andado toda a tarde a engonhar entre a sala e a cozinha, a ida ao alpendre para fumar um cigarro, o regresso ao quarto para arrumar alguma coisa que tenha ficado por arrumar que ando a fazer isto às mijinhas, talvez para não me cansar, talvez para ter uma desculpa para lá voltar, talvez mesmo só para me obrigar a fazer coisas ao longo do dia e não ficar com aquela sensação com que fico, afinal de contas passou-se um dia novo e inteirinho e eu acabei por não fazer a ponta de um corno.
São tempos excepcionais!, digo-me como desculpa para não ter feito o que devia ter feito, que estou em casa mas tenho coisas para fazer, coisas tão importantes como lavar as mãos e os dentes e acabo sempre por esquecer, não querer fazer, estar-me a marimbar para estes rituais que deveriam ajudar-me a manter um certo equilíbrio emocional mas acho que já estou todo quebrado e não há volta a dar.
Estou há treze dias por aqui, mas com a sensação de fim dos tempos e ao final do dia, de um dia geralmente de merda, como o dia de hoje, sento-me no sofá com um copo de vinho tinto, e descobri hoje num jornal online que os espanhóis apresentaram um estudo que revelava que tão importante como lavar as mãos e usar álcool-gel e a distância social é o copo de vinho, ligo a televisão e ponho-me a par das últimas notícias e, normalmente, acabo por ficar maldisposto.
Estou, portanto, há treze dias assim, mais ou menos por casa, mais preocupado que normalmente e sento-me no sofá com um copo de vinho numa mão, acendo um cigarro e ligo a televisão.
Hora das notícias.
Há coisas que já sei. Sei de véspera e que fui ouvindo ao longo do dia.
Sei que o presidente brasileiro é um merdas evangélico que acha esta crise que pode dizimar milhões nas favelas das principais cidades não será mais que uma gripezinha para um atleta como ele. E fui ver ao Youtube como ele é atleta. Ri-me cheio de vontade. Com esperança que o vírus acertasse no caminho.
Também sei que o presidente americano, religioso-fanático como é está preocupado com a Páscoa e o facto das pessoas não irem à missa e, acima de tudo, não gastarem dinheiro. Da família de presidentes e primeiros-ministros imbecis, o presidente norte-americano acha que a América é forte o suficiente para dar cabo do vírus chinês em duas semanas. Foi o que ele disse.
Ouvi também que o governador do Texas garante que os velhos texanos não se importarão de dar a vida pela economia do país. Nada como o templo capitalista para se apelar à fé no santo Dólar.
Sobre Itália e Espanha, já perdi a noção dos números. Estão sempre a serem actualizados e já estão para lá da minha compreensão. Isto numa altura em que a Organização Mundial de Saúde avisa que o epicentro da crise pode mudar para os EUA num prazo de duas semanas. E ainda continuo a ouvir gente afirmar que a gripe normal mata mais, muito mais. Cansado de pessoas sem formação lançarem-se à sabedoria adquirida na universidade da vida.
Por cá vamos bem lançados para entrar nos números da Europa. Ao menos que sejamos Europa nisto, já que não somos em quase nada ou, pronto está bem, não quero ser muito mau nem mal-agradecido, em pouca coisa, então que sejamos Europa nisto, mesmo que as verbas da Europa não cheguem cá como chegaram as dos anos oitenta que enriqueceu muita gente mas acabou por não afinar o país nem os seus empresários.
Vim aqui para registar o meus diários dos dias difíceis e acabei a falar do que me tem atormentado durante estes dias. Ainda por cima não é por mim que me atormento, mas pelas pessoas de quem gosto e que gostaria de não ver nestas situações de perigo.
A UEFA adiou o Europeu de Futebol. O COI adiou os Jogos Olímpicos. O Festival da Eurovisão foi cancelado. O Festival de Cannes foi adiado. Os festivais de Verão não sei o que vai ser deles. As pessoas, principalmente as mais velhas, vão continuar a morrer. Outras vão continuar a sair em grupo porque são imunes. Há muita gente que vai ser despedida. Muitas empresas, especialmente PME, que irão à falência. As pessoas podem ficar sem dinheiro para as despesas correntes. Renda da casa. Luz. Água. Gás. A fome vai chegar. As outras doenças estão a perder prioridade e podem levar outras pessoas também à morte por outros caminhos. O Estado avança com linhas de crédito através dos bancos, os únicos que não dão nada a ninguém e acabam por ganhar com a crise. As concessionárias das auto-estradas podem vir a ser indemnizadas por falta de utentes e a Padaria Portuguesa pede ajuda ao Estado para pagar mal e porcamente aos seus empregados. Acho que estou a assistir em directo ao fim do neo-liberalismo.
Estou aqui sentado há um tempo no sofá com o copo de vinho ainda intacto na mão e o cigarro inteiro transformado em cinza pronto a tombar sobre o tapete. Na televisão passam anúncios publicitários e nem percebo a quê e pergunto-me quem será o público-alvo. Estou um pouco perdido nos meus dias. Preciso de me colocar em ordem.
Amanhã vai ser um dia mais organizado.
Amanhã vai ser um dia melhor.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/25]