Às Vezes…

Às vezes pego no carro e vou até à Praia do Norte. Estaciono nas arribas para norte do Forte e fico lá em cima, dentro do carro, a fumar um cigarro e a olhar o mar a bater forte na areia lá ao fundo.
Às vezes o mar está furioso e fico contente por estar a esta distância da sua fúria.
Às vezes deixo o carro na arriba e desço as dunas até à praia. Passeio-me pela areia deserta. Caminho desengonçado. Caminho, com dificuldade, pela areia até à beira do mar. Aproximo-me tanto dele que sinto o sal colar-se-me à pele da cara e das mãos. Os olhos fecham-se com os salpicos. O barulho das ondas ensurdece-me.
Olho para um lado e para o outro. Não há ninguém. Às vezes não há ninguém na Praia do Norte. Só eu.
Vou ao longo da linha do mar. Atento às ondas. Atento à fúria das ondas. Pronto a fugir para não ser apanhado pelo espraiar de uma onda mais afoita.
Às vezes subo ao Forte.
Às vezes dou a volta ao Forte pelo lado do mar. Ponho pé-ante-pé naquelas pedras escorregadias. Desço as escadas íngremes. O mar sempre presente. Ali aos meus pés. Às vezes molha-me como se fosse um regador. Como se fosse um chuveiro.
Às vezes páro nas amuradas. Frente ao mar. Ponho um cigarro na boca. Tento acendê-lo e nunca consigo. É o vento. É o mar. É o medo.
Às vezes fico lá. Assim parado. A olhar. A olhar para o mar. E penso… Às vezes, às vezes estou parado no muro que contorna o Forte, a olhar o mar, ali aos meus pés, furioso, a bater com força contra as rochas que suportam aquilo tudo e penso como seria fácil. É tão fácil, digo para mim. Digo em silêncio para ninguém ouvir. Só para mim. Era tão fácil. Tão fácil.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/05]

Ericeira

A última vez que fui à Ericeira, a vila ainda existia. Estávamos em dois mil e dezanove. Fui de passagem. Ia de Lisboa até à Figueira da Foz, em trabalho, e resolvi subir o país pelo Litoral Oeste de carro. Primeiro pensei em ir de comboio, mas depressa percebi que a Linha do Oeste não existia. Era uma linha-de-comboio fantasma. A linha estava lá, passavam por lá comboios, mas não serviam a ninguém. Nem às populações nem à própria CP. A quem serviria aquele montículo ferroviário de estações abandonadas, horários perdidos e viagens eternas? Ainda me lembrava de uma viagem de Lisboa a Leiria que me tinha levado cinco horas. Mas naquela altura andava apaixonado e a viagem serviu para o namoro. Entretanto acabou-se a paixão e cinco horas de comboio por cento e vinte quilómetros é demasiado.
Adiante.
Cheguei cedo. Fui à Praia do Sul. Estive deitado ao sol. Mergulhei nas águas calmas e frias da praia. Bebi uma cerveja no Quiosque da Praia do Sul. Passeei pelos Foles. Ouvi o mar a gritar. Senti aquele cheiro a iodo, a maresia. Almocei na Marisqueira das Furnas. A entidade patronal patrocinou o almoço e soube-me bem.
Depois de almoço dei uma volta higiénica e subi até à Praça da República para beber um café e comer um Ouriço no Pão da Vila. Escolhi precisamente o único café que não tinha o doce típico da terra. Acabei por não comer doces. Fumei um cigarro. Acabei por fumar outro cigarro enquanto bebia um segundo café e reparava nas moças de prancha de surf debaixo do braço com o buço aloirado, penugem mal aparada nas pernas e rastas no cabelo. Eram giras as miúdas, estavam queimadas do sol e do sal, mas um pouco peludas demais para os meus gostos.
Retomei viagem. Antes ainda comprei uma lata com Ouriços e outra com Areias. Para oferecer. Pequenas lembranças de um país cheio de pequenas particularidades.
Nunca mais lá voltei.
Entretanto, aconteceu o tsunami.
A Ericeira foi varrida do mapa.
Lembro-me das notícias. Lembro-me de ver algumas imagens do tsunami a atingir a Ericeira. Não houve uma destruição imediata. A enorme onda que atingiu a vila destruiu algumas casas, mas o facto de uma grande parte estar muito acima do nível do mar, só sofreu com a queda de água da explosão da onda contra as arribas. Uma espécie de chuva que, não vinda do céu, vinha do mar. De baixo para cima. E depois, em furiosa queda. O problema foram mesmo as arribas. O mar entrou pelos foles. Forçou o interior das rochas. Bateu nas arribas e provocou ondas de choque que fizeram tremer a terra e provocou sismos superficiais que levaram ao deslizamento das arribas e ao arrastamento da vila da Ericeira e das outras terras que já lhes viviam coladas como se fosse já só uma.
A Ericeira desapareceu do mapa. Ficaram uma dúzia de casas para contar a história. Com os anos essas mesmas casas foram preservadas e tornadas uma espécie de museus da memória do que tinha existido ali, desde o tempo dos fenícios, e deixado de existir devido à acção terrorista da natureza.
É a primeira vez que aqui regresso depois da minha viagem em dois mil e dezanove. Como isto era e como isto é. Agora, o que era a Ericeira é um penhasco vazio e deserto sobre o mar agitado do Atlântico. O que era a Reserva Mundial de Surf é hoje só uma placa numa das novas arribas onde grassam placas alusivas à história da vila, ao lado de outras que avisam para a possível queda dessas mesmas arribas.
Ainda me lembro das imagens que vi na televisão. Uma onda gigantesca que se deslocava em câmara lenta no mar e se aproximava ameaçadora de terra. O confronto da onda com as arribas. O choque. A explosão de água como uma nuvem cheia de água que termina em chuveiro sobre o alto das arribas. O silêncio. A calma. As pessoas surpresas a saírem das suas casas. E depois o barulho ensurdecedor, vindo das tripas da terra. E as arribas a deslizarem para o mar, como um pequeno monte de areia no estaleiro de uma casa em obras, e a vila inteira a ser arrastada pelas arribas abaixo. E as pessoas. As pessoas que se viam no meio da enxurrada. O pó que se levantou. E depois, o nada. As águas acalmaram e a terra tinha recuado. A Ericeira já não existia. E tudo tinha sido gravado. E eu tinha visto. E nunca mais cá tinha voltado.
Até hoje.
E depois de tantos anos, ainda parece que ouço os gritos das pessoas que foram arrastadas pelo deslizamento das arribas para dentro dos foles. E ainda as imagino vivas, a viverem em bolhas de ar, a comerem os moluscos agarrados às rochas, à espera de um outro tsunami que os traga de volta à terra e reerga a antiga vila da Ericeira. Mas isto é só um sonho desesperado. Na verdade, a Ericeira foi-se e nunca mais irá voltar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/15]

Estava uma Velha Sentada numa Cadeira de Praia

A velha estava sentada numa cadeira de praia, pernas estendidas, pés descalços, os chinelos ali ao lado, a olhar os carros que passavam. Quando eu passei, também olhou para mim. Os olhos dela nos meus. Senti-os. E acompanhou-me enquanto eu a olhei. Depois voltei-me de novo para a estrada, aproximei-me da rotunda, abrandei e acabei por parar. Não tinha prioridade e tive de esperar.
E pensei na velha. A velha sentada na cadeira de praia. O mato atrás dela. Ainda terá clientes?
E depois pensei que aquilo era o Calhau. Uma terra às portas da Nazaré. Do outro lado da estrada já havia muitas casas com tabuletas Alojamento Local. A velha devia estar a vender estadia. Arrendar quartos, rooms, chambres, habitaciones e zimmers. Não o corpo. Não o corpo deitado na caruma à sombra dos pinheiros que sobreviveram ao incêndio de dois mil e dezassete. Aquele corpo queimado do sol e do sal, do peixe transportado à cabeça, vendido na lota e comido nos restaurantes da marginal no Verão, É de aproveitar!
Desci à Nazaré e vi outras como aquela. Farandol no cabelo em falsas ruivas. Algumas vestidas com as sete-saias. Aldrabadas, claro, que o calor não permite tanto trapo sobre trapo sobre a pele. E as nazarenas acompanham a modernidade. Já não arrendam casas, partes de casas, quartos ou anexos. Agora é tudo Alojamento Local. Assim, paredes meias com as pevides, os tremoços, os nougat, as pinhoadas, as bolachas de amendoim e as gomas de mil-e-um-sabor e feitio que afinal sabem todas ao mesmo. Todas não, que algumas são bastante ácidas que eu já provei e até gostei. Já lá vai o tempo em que vendiam percebes e navalheiras que agora já são proibidos por causa do bem estar público, não vão estar estragados debaixo desta torreira de sol e provocar alguma intoxicação alimentar e depois não há médicos porque nesta altura nunca há porque vão todos de férias para o Algarve ou para o Club Med com pensão completa para não saírem do resort e conhecer o país miserável onde estão feitos reis de papo para o ar a beber piñas-coladas.
Parado com o carro no trânsito, numa enorme e já habitual fila do pára-arranca a pensar Mas por que raio é que me meto aqui se já sei que é sempre assim quando chega o Verão, quando passou uma nazarena com as suas aldrabadas sete-saias a rodar na cintura, farandol no cabelo, vários colares grossos de ouro ao pescoço, e estes não são falsos que o orgulho das nazarenas não permite mentir quanto ao ouro que trazem pendurado no pescoço nem nas orelhas nos pulsos e nos dedos, pôs a cabeça dentro do carro e perguntou Não querem um quarto? E saiu-me assim, rápido e sem anestesia, automático Não, não é preciso que nós fodemos no carro. A nazarena apanhada de surpresa desatou a rir, a rir, a rir tanto que se ia engasgando e eu ainda saí do carro para executar a manobra de heimlich, mas já não foi preciso que a nazarena regulou a respiração e, a chorar de tanto rir, ainda colocou a mão dela no meu braço e disse Aproveita, filho! Aproveita que isso não dura para sempre!

[escrito directamente no facebook em 2019/06/29]

Um Hambúrguer Gourmet no Prato

Fiz um hambúrguer para o jantar.
Fiz uma torre de comida que não consegui colocar inteira na boca para dar uma trincadela.
A minha composição era tão dramaticamente grande que acabei por desfazê-la e comer tudo no prato, em separado. Fiquei triste. E furioso.
Tanto trabalho.
Tento tempo despendido.
E um esforço inglório.
Pensei que bastava abrir muito a boca, mas a minha boca, afinal, não abre assim tanto.
Até comprei pão de hambúrguer. Um pão que parece bolo. Uma coisa nojenta. Tem umas sementes em cima e tudo, que se enfiam entre os dentes e chateiam. Foi difícil tirá-las. Tive de usar fio dentário. Mas pronto…
Uma fatia de pão, um bocadinho torrado. Não muito para não ficar rijo. Um bocado de ketchup picante em cima do pão. O hambúrguer grelhado sobre o ketchup. Uma fatia de queijo da ilha, que o calor do hambúrguer foi derretendo. Não tinha bacon, mas tinha presunto. Uma fatia de tomate, grande, do mesmo diâmetro do pão. Umas pedrinhas de sal. Umas folhas de rúcula selvagem. Um bocado de maionese. Pickles. Uma fatia de peru fumado. Um ovo estrelado. Pimenta sobre o ovo. Cebola frita. E a outra metade do pão a fechar a obra.
Estava orgulhoso.
Primeiro, foi muito difícil manter o hambúrguer em pé. Mais difícil ainda foi conseguir agarrar no hambúrguer inteiro, precisei de esticar os dedos das duas mãos, e conseguir trincá-lo de forma a abocanhar todos os elementos utilizados na composição.
À primeira trincadela começaram a sair pedaços do interior da estrutura. Os molhos esguicharam para as mãos. O ovo rebentou. O hambúrguer, propriamente dito, escorregou para fora. A rúcula morreu. Caiu tudo no prato, com excepção da quantidade de coisas que acabou por cair para o meio do chão e me obrigou a andar lá, de cu para o ar, a apanhar, a limpar e a ficar com dores de costas, que já não tenho idade para estas acrobacias.
Foda-se!
Fiquei irritado.
Mas não me dei por vencido. Espalhei os elementos pelo prato. Ajeitei tudo com as mãos. Fui buscar talher. Um garfo e uma faca. Nada de frescura com as mãos para comer, mesmo que elas já estivessem todas gordurosas. Não tinha vinho em casa, mas fui ao vizinho do lado. Tinha um Esporão que me dispensou. Não sei onde vou arranjar dinheiro para lhe comprar uma.
Juntei umas azeitonas. Abri um pacote de batatas fritas Matutano Ruffles com sabor a presunto e dei cabo do assunto.
Soube-me bem. Matei a fome.
Mas ainda estou irritado.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/01]