Ensopado de Borrego Temperado com Racumin Forte

Ela matou-o com Racumin Forte que misturou no ensopado de borrego que lhe deu de almoço num Sábado. Farta de ser saco de pancada do marido, que lhe batia porque sim e porque não, já lhe tinha começado a bater pouco depois de terem casado, que o namoro fora curto que ela tinha pressa em sair de casa para não aturar mais o pai bêbado que batia, todos os dias, nos filhos e na mulher, sentiu que tinha chegado a altura de pôr fim a uma situação que lhe podia pôr fim a ela, agora que ele já não tinha mais tanta força nas mãos e lhe começara a bater com a fivela do cinto. Da última vez abrira-lhe um lenho na cabeça. Já não fazia queixa na GNR. Já não fazia queixa desde há muitos anos. Desde que lá fora, quase no início, e a mandaram voltar para casa com paciência. Talvez ele mudasse com o tempo, com a idade. Talvez fosse ela a causadora das arrelias do marido. Talvez fosse o demónio. Talvez fosse bom falar com o padre. Nunca falou.
Depois habituara-se. Não se habituam todas? Havia o medo de ficar sozinha. Naquela idade o que é que iria fazer da vida? Sem dinheiro? Sem casa (a casa era dele, como tudo o que lá estava dentro, como ela, que ela também era dele, era tudo dele)? Sem filhos, que os filhos tinham-se posto a andar assim que puderam Desculpa lá, mãe! mas não podemos ir aí! Estamos a trabalhar! As viagens de regresso aí a casa são caras! Não temos condições para vires para cá!, o que é que lhe restava senão levar nos cornos e aguentar como as outras aguentavam? Sim, que ela não era a única. Às vezes punha-se a pensar se a culpa não seria dela. Talvez fizesse ou dissesse algumas coisas que não deveria fazer ou dizer. Talvez.
Eu via-a às vezes na aldeia. Cruzava-me com ela à entrada do minimercado. Às vezes ela tinha um olho roxo, um braço ao peito, um penso rápido à volta dos dedos. Toda a gente sabia. Eu também sabia. Mas o que é que havíamos de fazer?
Ela fez.
Comprou Racumin Forte e misturou-o no ensopado de borrego que ele até rapava o molho do prato com pedaços de pão. Depois foi para a fazenda cavar o que ele andava lá a cavar, coisas de pequeno agricultor com parcelas de terreno onde cultivava algumas coisas para consumo próprio e uns poucos excedentes que levava para vender no minimercado, mas à socapa que não passava recibo. Quem é que aqui dos velhos pode passar recibo de meia-dúzia de produtos que vendem e lhes rende não mais que meia-dúzia de tostões? E ainda querem receber impostos sobre estas misérias.
Então ele foi lá para o terreno e foi lá que o encontraram. Estava caído sobre o terreno cavado. Um terreno que tinha estado a cavar para semear alguma coisa. O que é que se semeava naquela altura? Ou será plantar? Ele estava caído, com a cara enfiada num vómito. Aliás, havia vários despejos de vomitado à volta, como se ele tivesse andado a tentar desfazer-se do veneno que lhe consumia o estômago. Um inferno que lhe ardia por dentro. A camisa rasgada. Os dedos rígidos. Cravados como os dentes de uma forquilha.
Depois de ser encontrado, a guarda foi logo a casa da mulher e levou-a sob custódia. O pretexto foi a segurança da própria mulher. Por causa da vizinhança. Por causa da família do marido. Por causa de qualquer outra coisa que não souberam bem explicar quando a foram buscar.
Mais tarde houve quem a ouvisse dizer que agora ela sentia-se mais calma. Muito mais calma que durante todos aqueles anos a viver ao lado do marido à espera de quando viria a próxima surra. Que já não tinha mais medo. Nem dele, nem de ficar sozinha. Que na cadeia haveria mais mulheres como ela. Mulheres partidas mas que já não seriam mais quebradas. Pelo menos, não mais do que eram, do que estavam.
Ela já não voltou mais a casa. A casa continua aí, vazia, triste, abandonada. Nem os filhos voltaram. Nem a casa nem à terra. Quem é que quer saber disto?

[escrito directamente no facebook em 2020/08/21]

Avalanche

A vida é feita de avalanches. Umas seguem-se às outras. E nós, as nossas vidas, seguem enrodilhadas nessas avalanches que nos levam pelo tempo. Quando estamos bafejados pela sorte, as coisas boas sucedem-se umas às outras e, por vezes, é comum ouvir-se falar em maré de sorte. Quando estamos amaldiçoados pelo azar, não há nada que possamos fazer que altere o nosso estado de alma: a única coisa que conseguimos atrair é o azar. Raios nos partam, dizemos.
Chego ao fim-de-semana. É Sábado mas podia ser qualquer outro dia. Mesmo dia da semana. Sei que é fim-de-semana porque o telemóvel informa-me. Mas tudo na minha vida se mantém igual desde há cerca de três meses.
Comecei por ficar em casa porque me aconselharam a tal. Um conselho prudente. E fui ficando. Fui percebendo que, se por um lado a vida não pode parar, porque se não morremos da doença morremos da fome, por outro lado, não precisamos de saltar da frigideira para o lume. Acelerar as coisas? Talvez seja mesmo isso que algumas pessoas andam a fazer.
Tenho ficado por casa. O meu azar é também a minha sorte, pelo menos aqui, nesta falta de necessidade de ter de sair de casa para trabalhar. Saio quando tenho de sair. Quando sou obrigado a sair. Com responsabilidade. Com cuidado. Em segurança. Levo luvas. Máscara. Uma garrafinha de álcool. Mantenho distâncias. E não me deixo influenciar pela ocorrência. Deixei de ouvir as pessoas. As pessoas normais, pelo menos. As pessoas como eu. Pessoas que não sabendo nada julgam que sabem tudo. Já ouvi todo o tipo de teorias. Já ouvi pessoas aconselharem uma coisa e o seu contrário. Chega. Não serve para nada usar álcool nas mãos? Também não fará muito mal. O álcool provoca problemas dermatológicos? Quando tiver um problema de pele, vou tentar resolvê-lo. Para já, uso. Chega de teorias e ultimatos de sabedoria.
Há três meses que deixei de frequentar o café. Gostava de me sentar numa esplanada a beber uma bica, uma água tónica, uma cerveja, um gin, a ler um livro, uma revista, o jornal do dia. Conversar com este e com aquele. Petiscar um rissol de camarão. Um pastel de nata queimado. Ver quem passava. Imaginar estórias. Há três meses que deixei de frequentar o café. Agora entro, bebo uma bica ao balcão e vou embora.
Ao princípio pensei sentir falta disto. Falta de pessoas. Falta de conversa. De discussões. Falta da amizade. Falta de jantares com companhia. Falta de toque. De beijos. De sussurros no ouvido.
Afinal, três meses passados e sim, sinto falta de estar sentado numa esplanada a ler um livro e sentir a aragem fresca do fim-de-tarde, mas não sinto falta das pessoas. Talvez a deficiência seja minha. Talvez seja um erro de programação. Talvez esteja somente numa maré de azar com as pessoas. Talvez eu me seja suficiente. Talvez a distância das redes sociais seja o meu conforto que impede de me magoar.
A vida é feita de avalanches. Umas a seguir às outras. Nada é definitivo. No final de uma, começa sempre outra. Depois do azar, a sorte. Agora estou numa avalanche solitária. Solitária mas responsável. Talvez amanhã regresse aos meus dezasseis anos e arranque eu mesmo com a minha própria avalanche sem me preocupar com as consequências. Afinal, amanhã é sempre outro dia.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/04]

Regressar a Casa, parte 05

[continuação]

A mão gira na maçaneta da porta e entro dentro do meu quarto. Ainda é o meu quarto, depois de todos os quartos por onde andei a viver estes anos todos?
Cheira mal. Não mais que nas outras divisões da casa, mas talvez por ser o meu quarto e ter o seu cheiro mais marcado. Está escuro como nos outros sítios. Mas conheço a geografia do quarto de cor. Se a minha mãe não mudou os móveis de sítio, não preciso de luz para ir até à janela e abrir tudo para trás e para cima e deixar entrar o dia cá dentro. Ainda seria capaz de ir às estantes, às prateleiras onde estão os livros e escolher alguns. Os livros de cinema que estarão na prateleira de cima, porque eram maiores e de formatos mais estranhos. A poesia em baixo, nas últimas prateleiras, porque eram os mais fininhos e ficavam para o fim. Talvez ainda descobrisse Os Filhos de Torremolinos porque era grosso. Ou Os Maias por ter a cota rasgada de tanto andar na mochila, para cima e para baixo, durante o nono ano sem nunca ter sido lido.
Afasto as cortinas. Puxo as persianas. Abro a janela. Respiro fundo. Olho para fora. Acendo um cigarro e debruço-me à janela a olhar para fora. Vejo a casa de L. Tantas vezes que saltei aquele muro. Para ir ter com ela. Para ir ter com ela ao quarto. Para fugir do pai. Às vezes do cão, cabrão, que não me reconhecia às tantas da manhã, ou não sentia o meu cheiro. Via-me a passar pelo quintal e punha-se a ladrar e eu parava. Ele também parava. Parávamos os dois a olhar um para o outro. Ele ficava quieto, mas a ladrar. Acendia-se uma luz em casa e eu corria para fugir de quem quer que lá viesse, talvez o pai dela, e ele começava a correr atrás de mim, a ladrar, a ladrar. Nunca me apanhou mas, chegou a estar muito perto disso. E L. à janela, a rir-se, a ver-me a ser perseguido pelo cão, a fugir ao pai dela, a largar a cama dela à pressa quando me esquecia das horas e nem percebia que era dia de semana, havia aulas e tinha de estar em casa onde era suposto estar e então tinha de correr e ela ria, ria.
Tenho saudades desses tempos.
Tenho saudades daquele meu eu.
Deixo cair a beata do cigarro no quintal. Viro-me de costas e encaro o meu quarto. Era assim. Era mesmo assim que era o meu quarto. Era assim que me lembrava dele, que sempre me lembrei dele. A cama a um canto, encostada a uma parede. A mesa-de-cabeceira com uma pilha de livros para ler e que nunca li. Fui embora sem que os conseguisse ler. E a minha mãe nunca os tirou de lá. Sorrio. Sorrio à memória da capacidade da minha mãe de respeitar as paranoias do filho. Que livros andava eu para ler? E vou à mesa-de-cabeceira e agarro nos livros. O primeiro tem tanto pó que nem sei o que é. Limpo-o na perna, às calças de ganga. Notícia da Cidade Silvestre… Lídia Jorge? Espanto-me. A Malcastrada de Emma Santos. Mas eu li este. Não me lembro quando. Nem onde. Mas li. Acho. Acho que li. Na verdade já não me lembro. Assim Falava Zaratustra do Nietzsche. Pois. O livro que andou por todo o lado. Comprei várias edições. Nunca o li. Também não vai ser agora, não é? E este? Pássaros Feridos. Colleen McCullough. Nem sei o que é isto. O que é que isto está aqui a fazer? É meu? Era, devia ser. Não me lembro nada disto.
Sento-me na cama com os livros na mão. Deixo-me cair para trás. Sinto o pó subir. Entra-me pelas narinas, pela boca, sinto o pó invadir-me os pulmões, sinto a asma a reclamar com o pó, mas deixo-me estar deitado de costas na cama, a olhar o tecto. Há duas rachas. Duas rachas que vão de ponta a ponta. Largo os livros e deixo-os cair em cima da cama. Mas eles rebolam e acabam por cair no chão. Ouço o barulho do tombo. Foda-se!, penso. Fecho os olhos. Não queria que os livros se estragassem. Tenho sempre muito cuidado com os livros. Como é que os deixei cair? a estes?
Olho para o cimo de uma das estantes e percebo uma pilha de jornais. Que jornais serão aqueles? Não me levanto, mas sinto um sorriso nos lábios e digo alto, estremeço um pouco quando ouço a minha voz a dizer Os Blitz! e percebo que julgava que a minha mãe os tinha deitado para o lixo. Dizia-me muitas vezes que Os jornais são um criador de bicharada, e sempre pensei que os tinha deitado fora. Já não existe, o Blitz, não enquanto jornal. Será que valem ainda alguma coisa? Não devem valer. No fundo é só papel amarelecido que já nem suja as mãos. Hoje já nada tem valor.
Depois sinto a cama a mexer-se, o colchão a estremecer e vejo M. a gatinhar em cima da cama até chegar ao pé de mim, pôr-se em cima de mim e enfiar a língua na minha orelha, eu estremecer, abanar a cabeça e dizer Na orelha não! e sentir a orelha húmida da lambidela da língua marota de M. que o fazia sempre de propósito só para me irritar. Mas gostava de mim. Gostava bastante de mim, M. Eu também gostava dela. Como é que acabou? Como é que acabámos?
E depois ocorre-me uma gravidez. Ocorre-me um aborto. Ocorre-me os pais. Os pais dela. Os pais dela primeiro. Os meus pais depois. Como é que me esqueci disto? Como é que consegui esquecer uma coisa destas? O que será feito de M.?
E, de repente, sinto-me sem forças.
Estou deitado na cama do meu antigo quarto a olhar para as duas rachas do tecto a pensar numa merda que já não me lembrava e a porta da rua está aberta e as janelas também estão todas abertas e eu já não vinha aqui há tantos anos e já não sei quem são os vizinhos nem sei o que é feito dos meus amigos de infância e acho que vou chorar e sinto a tua falta mãe e também a tua falta pai e porque é que esquecemos coisas e lembramos outras e dói-me o peito e estou com dificuldade em respirar e devia levantar-me mas não quero só quero fechar os olhos e adormecer e voltar a acordar e estar deitado nesta cama a comer uma torradas com manteiga e a ler umas histórias do Príncipe Valente e sentir o cheiro das amêijoas de Sábado…

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/23]

O Último Almoço de Páscoa em Casa dos Meus Pais

Foi num Domingo como o de hoje. Um Domingo de Páscoa.
A minha mãe tinha passado o Sábado a tratar do cabrito. A temperá-lo. A assá-lo. A limpar a loiça das cerimónias, a louça que só via a luz do dia duas vezes por ano, no Natal e na Páscoa. O meu pai tratava de escolher o vinho ideal para o almoço de Domingo. Entre todas as garrafas sem rótulo que tinha guardadas na garagem onde faziam companhia ao carro que tratava como se fosse um dos filhos, ele sabia de que produtor era cada uma delas e qual a mais indicada para a ocasião.
Nesse Domingo, ainda de manhã, já quase hora de almoço, cheguei a casa dos meus pais. A minha mãe ainda estava a cozer uns grelos. O meu pai estava a preparar um Martini branco com um pouco de gin para mim. Ele gostava de preparar umas bebidas mas, raramente bebia. Um copo de tinto em algumas refeições mais especiais. Era provável que bebesse um copo de vinho tinto naquele Domingo de Páscoa. Já a minha mãe, acompanhava-me quase sempre. Só não me acompanhava na quantidade. Ela sabia quando parar. Eu ainda não sei.
Naquele dia agarrei o Martini que o meu pai me estendeu e fui até à cozinha dar um beijo à minha mãe. Fizemos um brinde. Ela estava a beber um vinho branco. Eu comi umas azeitonas. Um pedaço de broa. Provei uma das batatinhas assadas, e a minha mãe acabou por me pôr fora da cozinha porque a estava a estorvar no meu deambular de um lado para o outro a depenicar coisas apetecíveis.
Voltei para a sala onde estava o meu pai. Ele estava a pôr um disco de vinil da Amália a tocar na aparelhagem. Lamentámos a ausência de jogos de futebol no Domingo de Páscoa. Lamentámos não podermos ver um jogo do Benfica. Ele perguntou-me como é que eu ia. Eu menti, como mentia sempre. Ele percebia que eu mentia, mas não dizia nada. Depois fui à rua fumar um cigarro.
Passeei-me pelo quintal da casa dos meus pais, uma casa que também tinha sido a minha, e fui até à figueira que ainda existia. A figueira que eu subia até ao coruto. Olhava para ela, olhava lá para cima, e perguntava-me como é que eu subia aquilo? Como é que eu subia aquilo e nunca tinha caído, nem partido a cabeça ou um braço? Ainda estava lá pendurado o baloiço que o meu pai tinha posto para mim e para a minha irmã. Sentei-me e baloicei-me um pouco, mas sem tirar os pés do chão. Um suave ondular com o rabo enquanto fumava o cigarro. Já não havia cão. Dantes, na minha infância e depois adolescência, havia sempre um cão naquele quintal. A maior parte das vezes, cães rafeiros que davam aos meus pais. Cães que a minha mãe encontrava perdidos na rua, especialmente no Verão. Chegou a haver lá três cães de uma vez. Agora já não havia nenhum cão. Acabei por descobrir um gato deitado em cima do muro a olhar para mim. Não o conhecia. Nem sei se era ali de casa ou da vizinhança. Chamei-o, mas o gato ficou onde estava.
Acabei o cigarro e voltei para dentro de casa. O meu pai estava a levar umas travessas para a sala, para a mesa na sala. Eu voltei à cozinha. A minha mãe perguntou-me A tua irmã? e eu não sabia. Nunca sabia. E disse-lhe Deve estar a chegar. E foi nesse momento que o meu telemóvel tocou.
Atendi.
Era o namorado da minha irmã.
Eu fiquei calado a ouvir o que ele dizia. O que ele tentava dizer.
A minha mãe parou o que estava a fazer e ficou a olhar para mim. Para a minha cara. E acho que percebeu primeiro que eu o que tinha acontecido.
O meu pai voltou a entrar na cozinha e perguntou Quem é? e a minha mãe pousou a mão no braço dele para que ficasse quieto. Quieto e atento. Para o acalmar. Para lhe dizer que ela estava ali. Mas o meu pai era pior que eu. Não tinha grande intuição. E quando desliguei o telemóvel e senti os olhos a ficarem molhados, e vi a minha mãe levar a mão à boca para impedir um grito de sair, o meu pai voltou a perguntar Quem era?
Naquele Domingo já não almoçámos. A minha mãe foi despejar o tabuleiro com o cabrito na tigela de comida do cão da vizinha que lhe perguntou o que se passava e a quem ela não respondeu. Nunca mais a minha mãe voltou a cozinhar cabrito. Nunca mais houve almoço de Páscoa em casa dos meus pais. Naquele dia o meu pai deixou de falar e assim continuou até morrer. A última vez que ouvi a voz do meu pai foi quando ele me perguntou Quem era? Naquele dia a tristeza entrou naquela casa e nunca mais se foi embora. Eu continuei a mentir aos meus pais porque não queria que eles também se preocupassem comigo.
Hoje, Domingo de Páscoa, continuo a mentir, agora a mim, para me enganar e fazer-me crer que a vida é bela e que depois da tempestade vem sempre a bonança. Mas não é verdade. Quando a tempestade assenta arraiais, nunca mais se vai embora.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/12]

Uma Gota de Transpiração

Este tempo bipolar tomou conta da minha vida. Todos os dias espreito pela janela para saber se posso ir mijar nu ou se tenho de vestir qualquer coisa. Entre o calor de Verão e o frio do Inverno têm passado vinte e quatro horas. Começo a pensar que o verdadeiro problema não é o Covid-19 mas estas misturas temporais que nos empurram para a praia e acabamos a fazer ski na neve, duna abaixo em direcção a um mar gelado vindo directamente da escrita de um argumentista de série B.
Ontem estava calor. O céu azul belenenses. Levantei-me nu da cama e foi assim que fui mijar à casa-de-banho depois de ter espreitado pela janela do quarto para a rua.
Enquanto esperava pelo café, fui tomar um banho de mangueira ao quintal. Os gatos fugiram. O cão andou a ladrar à minha volta mas acho que era para a água que saía da mangueira.
Dei duas voltas a correr à volta da casa para secar. A pila dançava para cima e para baixo. Ainda a consigo ver. Não engordei assim tanto. Fiquei com os pés sujos. Voltei a lavar os pés e calcei umas havaianas de imitação velhas que andam sempre perdidas pelo quintal, às vezes os gatos mijam-lhes em cima, às vezes o cão deita-se a roê-las, ficam ao vento e à chuva, mas dão sempre jeito. Como ontem.
Depois de beber o café e de fumar um cigarro no alpendre, a melhor parte da casa, vesti uns calções e uma t-shirt e fui dar uma volta pela aldeia. Estava deserta. Demasiado calor para os velhos andarem na rua. Demasiado cedo para os mais novos saírem da cama. Optaram todos pelo confinamento. Pelo menos ontem. Ontem de manhã. Tudo em casa. Tudo? Tudo não, que uma moça da aldeia, filha dos donos do Minimercado, estava num terreno que têm para os lados do ribeiro a cavar terra para plantar batata-doce. É o tempo dela. Da batata-doce. Estava de camisa aberta, transpirada, a saia rodada presa à cintura cruzada por baixo das pernas tornada calções. Vi a transpiração a escorrer pelo decote aberto no peito. Ela viu-me. Parou de cavar. Aproveitou para descansar daquele calor e apoiou-se no cabo do sacho, a olhar para mim. E depois levantou o braço numa saudação. Eu também a saudei. Levantei o braço e gritei-lhe Bom-dia! que não deve ter ouvido porque me engasguei e a voz saiu fininha. E pensei Se não fosse o distanciamento social…
Hoje já está frio. O céu cinzento, daquele cinzento urbano-depressivo que me fazia as delícias quando tinha dezasseis anos. Mas já não tenho mais dezasseis anos. Chove. Chove uma pequena e irritante chuva tocada a vento. Visto umas calças de fato-de-treino e uma sweat antes de ir mijar. Mijo. Faço café. Fumo um cigarro na cozinha enquanto leio as últimas notícias sobre os milhares de mortos que continuam a acontecer por todo o lado e aos quais já parecemos imunes.
Com o tempo que está e as notícias matinais que leio chega-me a melancolia de Domingo, mesmo que seja ainda só Sábado.
Largo a chávena vazia na mesa da cozinha e volto para o quarto. Volto para a cama. Tapo-me com o edredão e desejo voltar a adormecer e só voltar a acordar quando o tempo regressar em bom. Quando o tempo regressar em formato de Verão, com sol forte e quente e umas nuvens à Simpsons. Desejo adormecer e sonhar com a gota de transpiração a percorrer o peito branco da filha dos donos do Minimercado.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/04]

Quanto Tempo?…

Quanto tempo vou conseguir aguentar o tempo?

Quanto tempo para deixar de querer ficar em casa? de me contentar com a janela e a distância?
Quanto tempo para me fartar de tomar banho e vestir como se fosse sair? como se todos os dias fossem Sábado à noite?
Quanto tempo para perder a vontade de ver filmes e séries?
Quanto tempo para já não conseguir ouvir mais música deitado no chão da sala e não ter mais vontade de ler aqueles livros que estão há anos à espera deste dia, deste preciso dia, para serem lidos?
Quanto tempo para me fartar desta cozinha inventada como se fosse gourmet que vou desfiando dia-após-dia?
Quanto tempo irei suportar vestir o fato-de-treino?
Quanto tempo irei conseguir viver sem tomar banho? sem fazer a barba? sem cortar as unhas dos pés? e das mãos?
Quanto tempo até não suportar mais a presença dos filhos?
A tua presença?
Quanto tempo até começar a odiar-te?
A ti e a tudo o que disseres?
E o que hei-de fazer a todo este papel-higiénico?…
Quanto tempo para ir para a rua aos saltos e aos pinotes?
Quanto tempo para correr nu pelas ruas da cidade?
Quanto tempo até começar a ficar sem dinheiro?
Quanto tempo até não conseguir pagar a conta da luz? do gás? da água? do cabo? da internet?…
Quanto tempo para deixar de pagar a renda da casa?
Quanto tempo até já não ter o que comer? Nem uma mera conserva de sardinhas em molho de tomate?
Quanto tempo até começar a fome?
A fome a sério?
Quanto tempo até perder o desejo?
O desejo por ti…
O desejo pelos outros…
O auto-consolo…
Quanto tempo para começar a falar sozinho?
Quanto tempo para agarrar no revólver?
Quanto tempo para disparar um tiro nos cornos?
Quanto tempo para deixar de ter tempo?
Quanto tempo?…

[escrito directamente no facebook em 2020/03/24]

Sábado de Carnaval

É Sábado à noite. Sábado de Carnaval. As pessoas divertem-se. Mascaram-se, embebedam-se, drogam-se, dançam, dançam muito. Riem. Brincam umas com as outras. Estamos em Portugal e estamos bem. Isto é uma espécie de cantinho do céu. Às vezes.
Na TSF está a dar uma gravação do Estado de Sítio. De novo, e sempre, a Síria. Continuam os bombardeamentos. Há quase um milhão de pessoas em êxodo em direcção à Turquia que tem as fronteiras fechadas. Continua a morrer gente. Todos os dias. Todos os dias nascem mais crianças. Há gente que se torna pai e mãe debaixo de bombardeamentos. Há crianças que nunca experimentaram uma vida sem bombardeamentos. Estas pessoas ainda desencantam comida. Mantêm hospitais em caves. Ainda riem. Ouço o testemunho de alguém que está lá, na Síria, que vive numa dessas cidades sitiadas e bombardeadas. E enquanto ele fala, ouve-se a queda de duas bombas muito próximo. Ele pára, mas logo recomeça o testemunho. Há quase dez anos que a Síria está assim, em guerra. Com os russo a bombardear. E os americanos… O que é feito dos americanos?
É Sábado de Carnaval. É Sábado de Carnaval e as pessoas divertem-se.
Vejo, no feed do Facebook, nem sei como nem porquê, numa página da Cruz Vermelha, uma criança contente, aos saltos, a dançar e a cantar, a experimentar a sua nova prótese que lhe permite andar sem muletas e ser autónomo.
É Sábado de Carnaval. E o direito à vida é inviolável.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/23]

A Serra Onde Eu Passeava

Naquela época, quando vim para cá viver, aos fins-de-semana pegava no carro e ia até à serra. Ia de carro até ao sopé da serra. Havia um cafezinho lá mesmo onde começava o trilho para subir a serra. Eu parava o carro debaixo de uma oliveira, para o proteger do sol, bebia um café expresso, queimado, era uma característica daquele cafezinho, tinha sempre o café queimado, fumava um cigarro à entrada, a olhar a subida que me esperava, e depois ia por ali fora, arranjava um cajado, havia sempre uns paus, uns ramos de árvore caídos, e eu aproveitava a ajuda de um qualquer cajado que me impulsionava os passos serra acima.
Levava uma garrafa de água e umas peças de fruta numa mochila às costas, uma máquina fotográfica, uns binóculos, e lá ia eu, trilho acima. Fotografava muito. Procurava identificar as aves. Tentava não me cruzar com os lobos. Sentava-me em enormes pedras a fumar um cigarro e a descansar da subida. Às vezes a minha respiração ressentia-se do esforço. Repousava um pouco. E recomeçava. Às vezes saía dos trilhos e aventurava-me pela serra dentro. Mas nunca achei que a serra fosse muito perigosa. Lá de cima via sempre casas cá em baixo. Nunca me senti isolado. Só. Nunca imaginei que poderia vir a perder-me ou outra coisa qualquer pior. Mais tarde, no entanto, vim a saber de pessoas que tinham desaparecido na serra e nunca chegaram a ser encontradas. Nem nunca apareceu nenhum corpo. É verdade que a serra estava cheia de buracos, entradas para grutas, algumas delas ainda desconhecidas e por explorar. Às vezes as rochas impediam a progressão do caminho e tinha de voltar para trás. Às vezes perdia-me naquela beleza e via a noite tombar comigo fora dos trilhos. Sempre soube regressar ao trilho, ao sopé da montanha, ao carro. Essas pessoas que desapareceram, isso só soube mais tarde. Só soube isso numa altura em que já não podíamos passear assim pela serra.
Nas primeiras décadas do novo milénio, começaram a montar turbinas eólicas ao longo do cume. O cimo da serra, outrora orgulhosamente careca e de horizonte aberto, começava a ser inundado de turbinas eólicas numa tentativa verde de prescindir dos combustíveis fósseis. Não demorou muito para que, o que começou por serem pequenos actos de vandalismo, se tornarem verdadeiros actos de terrorismo.
Logo quando montaram as primeiras turbinas, os postes onde as hélices estavam plantadas foram grafitados. Nada de novo. Tudo o que era passível de ser grafitado, era grafitado. Qualquer muro, parede, superfície em branco era um convite ao grafite selvagem. Mas logo começaram os ataques à próprias hélices. Algumas delas já tinham sido deitadas ao chão antes ainda de estarem a funcionar.
Não tardou que a serra fosse vedada. Começava logo no sopé. Umas redes impediam a progressão de quem queria subir a serra. Mas havia vários níveis de protecção. As primeiras redes ainda se conseguiam ultrapassar. Depois, lá mais para cima, vinha o arame-farpado e mais acima, as cerca electrificadas. Também havia umas guaritas, em vários pontos da serra, com guardas-florestais recuperados por causa das turbinas eólicas.
A serra que tinha sido de toda a gente, um oásis de natureza tão rico, com tantos pássaros (ainda se viam, hoje, inúmeras águias e falcões e milhafres) e alguns animais no seu estado selvagem (lobos e linces), para além de algumas árvores que já só se encontravam ali, estava agora fechada ás pessoas. Só as empresas responsáveis pelas turbinas eólicas e as autoridades florestais lá podiam entrar. No início ainda houve algumas reclamações. Mas não deram em nada. E a serra acabou numa espécie de privatização de estado.
Mesmo assim, não acabaram os atentados terroristas. Diminuíram, mas não terminaram.
Agora eu passava os fins-de-semana no alpendre aqui de casa a olhar a serra à distância e a recordar as belas tardes em que me perdia nos seus trilhos. Tenho saudades desses tempos. Do silêncio que me acompanhava lá em cima. Da solidão que me permitia estar mais em contacto comigo próprio.
E pensava se todas estas coisas valiam a pena. Perder o acesso à beleza natural do mundo para ter acesso à beleza tecnológica do mesmo mundo. É claro que com tudo isto vinha o conforto, o prazer, o descanso. O conhecimento. E isso era bom, claro que era bom. Mas, e eu? O que é que eu podia fazer agora nas minhas tardes de Sábado e Domingo, agora que não podia subir à serra e ver todas as belezas que já só há nos livros de história?

[escrito directamente no facebook em 2020/02/20]

Tinder

Abri uma conta no Tinder. Motivado pela Mónica, aliás Eliete, moça de vida normal, fui levado a abrir conta no segmento da foda barata. Isto se não se tiver em conta o preço dos motéis. Ao contrário da Mónica, aliás Eliete, eu não frequento a IC19 e muito menos os seus motéis. Mas tenho o Motel Caribe, que fica aqui a caminho a Nazaré, e um quarto custa a partir de 39€ segundo anuncia o cartaz publicitário à saída de Leiria, não especificando se é por hora, partes de hora ou noite inteira com direito, ou não, a pequeno-almoço. Suponho que não haja pequenos-almoços neste motéis. Talvez uma garrafa de espumante da Bairrada ou garrafinhas de Magos como também havia, faz tempo, no Calhegas. E há sempre a hipótese do Ibis que, sendo um pouco mais caro, permite a noite toda garantidamente que já lá fiquei. O pequeno-almoço é à parte.
Tirei umas fotografias em contraluz para não me reconhecerem. Ainda ponderei procurar alguém pelo Facebook, alguém longe daqui e de mim a quem pudesse roubar umas fotografias, fazê-las minhas e deixar as mulheres a suspirarem por um eu escolhido a dedo a pensar nelas. Mas não. Já que ia mentir no nome, e menti, chamei-me um nome que não é o meu, mas escolhi um nome real, plausível, nada de nickname estúpido como os que se encontram na net. Não. Era um nome verdadeiro, só que não era o meu. A silhueta em contraluz nas fotografia, sim, essa era eu. Tirei as fotografias na casa-de-banho, contra a janela da rua. Nem eu percebia que era eu. Tirei umas a mais, de partes do corpo, de partes íntimas do meu corpo, com pouca luz, claro, a precaver o futuro próximo e as demandas das parceiras a quererem saber e ver mais de mim.
E foi então que comecei a pensar se, em vez de mulheres de meia-idade, como eu, fartas do mesmo parceiro, dos filhos, do trabalho e da lida da casa, mulheres à procura de um escape como dantes eram a Crónica Feminina, o Simplesmente Maria, a Burda ou a Casa Cláudia, mulheres que imaginavam um mundo de vivenda rés-do-chão/primeiro andar, labrador preto, um casalinho e a cerca pintada de verde, repintada todos os anos por altura da Primavera para compensar os rigores do Inverno, e que deixaram de imaginar quando descobriram que a realidade nunca é igual ao sonho, e que afinal eram só mulheres a tentar sentirem-se vivas para além das paredes fechadas de um casamento em velocidade-cruzeiro com as suas rotinas chatas de foda ao Sábado de manhã, à pressa, porque é dia de ir ao mercado comprar peixe fresco, lavar o carro à mão para não estragar a pintura e levar uma das crias ao futebol e a outra ao cinema com as amigas e rezar para que quando fosse para ir à discoteca houvesse outros pais com capacidade para estarem acordados às cinco da manhã para as ir buscar e fazer a entrega ao domicílio, e conseguir um orgasmo de vez em quando, mesmo que por procuração, fosse, afinal, um esquema manhoso para apanhar tipos estúpidos como eu que são apanhados em quartos anónimos de hotéis e são deixados desmaiados nos polibãs com um saco de gelo sobre a costura de um rim que se ia vender como ouro na Dark Web.
Foda-se!
Foda-se!
Acabei por desactivar a conta do Tinder. Liguei-me ao PornHub.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/13]

Quatro em Cima de uma Sachs

Lembro-me quando chegava o Verão. O tipo lá arranjava um fim-de-semana livre, ou pelo menos o Sábado, e era ele e a mulher, os dois filhos e a tralha toda em cima de uma Sachs K125 a caminho da Praia das Paredes.
Aquilo fazia-me muita impressão. Uma montanha em cima de um triciclo. Primeiro montava ele. Punha a motorizada a trabalhar. Depois montava o filho mais velho, atrás do pai, com um chapéu-de-sol nas mãos. A seguir, a mãe, cheia de sacos, de um lado e do outro. Depois o pai agarrava na mais pequena e sentava-a em cima do depósito de gasolina, à sua frente, presa entre os seus braços.
Se os filhos eram os dois lingrinhas, já os pais, os dois, eram bastante volumosos. Não gordos, gordos. Mas já com alguns quilos a mais. A mãe mais pequena, cada vez mais redonda, o pai a cuidar de uma barriga proeminente regada a cerveja.
Quando a motorizada arrancava lá de casa, a espremer-se toda debaixo daquele peso, os cães das redondezas vinham ladrar às rodas e acompanhavam a motorizada e os seus ocupantes até estes saírem da aldeia. E depois ficavam nos limites da aldeia, junto à placa de cimento com o nome que indicava a quem chegava onde estavam a chegar, a ladrar para o fundo da estrada até deixar de se ouvir o motor arrastado da motorizada.
Gostaria de tê-los visto a subir a estrada antes da recta do pinhal que levava à Praia das Paredes, mas tal nunca aconteceu. Ainda hoje me pergunto como é que a motorizada conseguia subir aquela inclinação com tanta gente lá em cima.
Aqueles dias de Verão eram de enorme festa para os filhos. Nunca iam a lado nenhum e então, naquela altura, iam para a praia. Havia fins-de-semana em que acabavam por ficar por lá, pela praia. Levavam um pano que penduravam à volta do chapéu-de-sol e transformavam-no numa tenda onde se abrigavam durante a noite na praia e, às vezes, o filho mais velho contou-me, tinham de andar a fugir ao mar, que as ondas vinham furiosas, entravam pelo chapéu-de-sol dentro, molhavam tudo e eles tinham de levantar o chapéu-de-sol tornado barraca em peso, e transportá-lo para mais longe, às vezes sonolentos, com a miúda de dedo na boca e a mãe a rezar o terço.
Pelo menos ele tinha sempre história para me contar. Como daquela vez em que o pai ajudou os pescadores a puxarem uma rede e acabaram a noite a assar carapaus numa fogueira, no meio da praia, com um grupo de jovens que apareceram por lá com guitarras e cervejas, comeram dos carapaus assados, cantaram músicas e ainda foram todos ao mar de madrugada tomar banho nus.
Uns anos mais tarde o tipo conseguiu comprar um Mini. E o Mini ainda levava mais gente. Nessa altura iam para a praia com o irmão da mulher e a família dele que também incluía dois miúdos. Iam os dois homens à frente no carro e as duas mulheres atrás. Os dois filhos deles iam atrás, com as mulheres, mais um dos miúdos do irmão. E o outro, o mais novo, ia ao colo do pai, à frente. A tralha ia no tejadilho do Mini, atada com cordas que mais pareciam formar uma teia-de-aranha a qual, às vezes, viam-se gregos para conseguir abrir os nós e tirar as coisas que precisavam e que estavam em caixas de plástico presas no tejadilho.
Nunca foi multado. E nunca teve carta de condução. Nem da motorizada nem do carro.
Quando o tipo morreu, num Inverno chuvoso, foi toda a gente a pé. Toda a gente das pessoas que foram ao funeral, o que não era muita gente, mesmo tendo em conta a pouca quantidade de pessoas que ainda vivia na aldeia. Ele não era uma pessoa muito querida. Eu conhecia-o porque éramos vizinhos. E não tenho nenhuma queixa dele nem da família. Eu e o filho mais velho éramos amigos. Às vezes ainda bebemos um copo juntos. Mas eles eram uma família pobre, era o que eram. Pobres. Não que houvesse gente muito rica na aldeia, mas toda a gente tinha uns terrenos, com umas árvores. Uns pinheiros. Umas laranjeiras. Até umas vinhas. Coisas que davam mais despesa do que lucro, mas eram proprietários. Pequenos proprietários. Eles não. Eles trabalhavam à jorna nos terrenos de todos os outros. Por isso é que ir à praia, que nem era assim tão longe, era dia de festa para os meus vizinhos.
No dia em que o tipo morreu, eu bebi um bagaço com o filho mais velho na taberna da aldeia. Ele não chorou. Eu dei-lhe um abraço.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/01]