A Celebrar o Equinócio de Outono

Estava toda a gente contente e triste ao mesmo tempo.
Estavam contentes porque celebravam o equinócio de Outono e, ao mesmo tempo, tristes por dizerem adeus ao Verão, às férias, ao calor e à vitamina D.
Mas estavam enganados.
O Verão não estava a acabar. Agosto já tinha partido, sim, era verdade. Setembro estava a chegar ao seu fim. O equinócio de Outono dizia-nos que estávamos a mudar de estação mas, na verdade, e eu sentia-o nos ossos, o frio ainda vinha longe e a praia ainda tinha muito para me dar.
Tenho ido todos os dias à praia. Ainda não é tempo das marés-vivas. Tenho mergulhado no mar. Todos os dias. Deito-me na areia e deixo-me lamber pelo sol.
Ainda ando de calções. T-shirt. Uso o cabelo curto. Às vezes boné para proteger a cabeça dos excessos de raios solares, principalmente nas horas mais quentes.
Mas já ninguém mais vem à praia. Pelo menos a esta aqui, onde estou agora, nu, com ela em cima de mim, a saltar em cima de mim a celebrar o equinócio. Com doçura. Com violência. Arranhou-me o peito. Fez sangue.
Celebra, miúda. Celebra comigo.
O mar está tranquilo. A água está fria, mas é o Atlântico, não é de se esperar outra coisa.
Estou deitado de costas na areia. Ela está sentada em cima de mim. Pula devagar. Por vezes mais depressa. Ginga as ancas com mestria. Eu olho o cimo das arribas e penso se ainda andarão por lá os mirones de Agosto. Se alguém está lá ainda a masturbar-se com a visão da performance sexual dela ou se está a gravar a nossa história para fazer um filme e colocá-lo no PornHub.
Estamos, também, a celebrar o equinócio à nossa maneira. Mais ela que eu. Eu estou mais concentrado em listar a equipa do Benfica que jogou no Sábado passado e não me vir depressa demais e deixá-la frustrada e furiosa com os seus desejos não cumpridos.
As cidades voltaram a encher-se de carros. Os transportes públicos voltaram a encher. Os estudantes ocupam as ruas com as suas manifestações pelo clima. Os partidos políticos, alheados do presente, mantêm as suas campanhas velhas e com cheiro a mofo, em arruadas, festas e debates onde não se fala de nada que interesse às gerações mais novas mas a mesma lenga-lenga de sempre, a esquerda, a direita, a maioria absoluta, os funcionários públicos, os professores, os enfermeiros, a tourada, a carne de vaca, a social-democracia na boca de todos e todos a jurar, a pés-juntos, que só eles conseguem estancar o aumento da pobreza e a falta de perspectivas de trabalho digno para o grosso da população que não tem as valências necessárias para as exigências do futuro.
Ela grita agora um pouco, embora tente abafar o grito, e eu penso que o salário mínimo são seiscentos euros. Seiscentos euros.
E acabo por me esquecer da equipa do Benfica e do valor do salário mínimo nacional e deixo-me ir com ela, para dentro dela e sinto-a tombar sobre mim e não sei se é verdade ou mentira, se ela chegou onde queria chegar ou só não quer que eu me sinta diminuído na minha evidente fragilidade sexual perante ela.
Enfim.
Ela levanta-se. Dá-me a mão. Ajuda-me a levantar. Vamos os dois de mãos dadas ao mar. Mergulhamos no Atlântico. Gritamos com o frio da água, mas rimos de estarmos ali assim, sozinhos, a viver o nosso Verão dentro do Outono e a pensar que Agosto é quando queremos e nós queremos Agosto agora, em plena celebração de um equinócio que também nós vivemos.
Aproveitamos uma onda para sair do mar e voltamos para as toalhas para aproveitar mais um pouco de vitamina D.
Mais tarde sairemos daqui. Subiremos à arriba. Iremos beber um copo de vinho branco. Petiscar uns camarõezinhos da Figueira. Olhar um para o outro. E iremos rir como parvos.
Como gostamos de ser parvos! E iremos rir de novo. E eu irei pensar se, um dia, irei encontrar a minha cara no PornoHub. Mas não estarei preocupado. Nem triste.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/23]

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Sábados Tristes

Acordava ao Sábados sem vontade de sair da cama.
Mas antes de me levantar tinha de ter o sexo semanal com ela. Mesmo que não me apetecesse. Tinha de ser rápido e intenso, como se fosse dentro do carro no antigamente. Antes da criançada se levantar e transformar a casa num inferno
Mas tinha de ir passear o cão. Levar uns sacos de plástico para apanhar os cagalhões que ia deixando pelo caminho e passeá-los pela cidade até encontrar um caixote do lixo.
Mas tinha de preparar o pequeno-almoço para os miúdos enquanto a mãe fazia a sua aula de yoga. E depois tomar o pequeno-almoço com eles, entre os seus gritos histéricos e pedaços de torrada a voarem pela cozinha.
Mas tinha de ir lavar o carro que a família gostava de se passear no Audi limpo como se tivesse acabado de sair do stand, como novo, mesmo que ainda não estivesse pago.
Mas tinha de ir à Praça comprar peixe fresco, porque ao Sábado era dia de almoçar peixe fresco. E devia ter ido mais cedo, eu sei. Àquela hora já ia aos restos, mas não conseguia levantar-me mais cedo. Estava cansado. Não queria levantar-me. Não queria sair da cama.
Mas tinha de ir fazer as brasas. Para grelhar no carvão o peixe fresco comprado tardiamente na Praça. Sardinhas. Carapaus. Peixe-Espada. Robalos. Douradas. Às vezes também grelhava carne. Umas lentriscas. Uma morcela. Mas pouco, porque ela não gostava muito de morcela.
Até um dia.
Um dia arranjei uma pistola através de um antigo colega de tropa. Uma pistola e umas balas.
E foi durante o momento em que estava a assar os pimentos. Eram verdes e vermelhos. Não gosto muito dos amarelos. Embora a cor fique bem na salada. Estava a assar uns pimentos e antes de assar as sardinhas. Peguei na pistola, rápido e, sem pensar, disparei na cabeça. E tudo se fez negro.
Não morri.
A bala entrou e saiu. Provocou umas lesões graves que me afectaram o corpo e a vida. Mas não morri.
Estou na cama. É Sábado e estou na cama. Já não tenho de me levantar. Mas queria. Queria poder levantar-me e fazer coisas que não consigo como passear o cão e comprar o jornal. Talvez assar umas sardinhas.
Estou na cama e tenho o cão deitado sobre os meus pés. Mas não o sinto. Não sinto nada. Nem as papas que ela se esforça por me enfiar na boca à espera que escorram pela goela.
Sei que ela começa a ficar farta de mim. Tenho pena das coisas terem terminado assim. Para ela e para mim.
Hoje é Sábado e estou na cama. Mas queria não estar.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/14]

Abro uma Garrafa de Mouchão para Comemorar

Primeiro chegou-me o cheiro. Um cheiro a torradas. Abriu-me o apetite. Gosto de torradas. Depois pensei que fosse o vizinho a fazer brasas. Ao Sábado costuma assar sardinhas.
Foi então que ouvi a sirene dos bombeiros.
Fui ao alpendre. Nada em frente. Desci as escadas. Virei à direita e vi. Uma coluna de fumo escuro. O céu começava a estar pintado em tons de cinza. O mato estava a arder. Pinheiros e eucaliptos. Mas também havia uns olivais. E depois, vegetação rasteira, arbustos, silvas. Havia umas casas lá para aquele lado. E se continuasse em frente, chegava cá.
Vi uns camiões dos bombeiros a passar ao fundo da estrada. Iam a apitar.
Acendi um cigarro e fiquei ali a vê-los desaparecer na curva da estrada e ouvir as sirenes extinguirem-se.
Estava um dia quente. Talvez tenha sido combustão espontânea. Talvez tenha sido fogo posto. Há gente para tudo.
Conhecia alguém que tinha um pedaço de terreno lá para aqueles lados. Resolvi telefonar-lhe. Acabei primeiro o cigarro.
Telefonei. Ninguém atendeu.
Fui buscar uma mangueira. Liguei-a a uma torneira exterior e comecei a molhar a casa. As árvores. Os arbustos. Reguei as flores.
Fiquei com calor. Fui buscar uma cerveja e fiquei a olhar para a coluna de fumo que se elevava no horizonte. E pensei O que é que posso fazer? e não sabia o que mais podia fazer.
O telemóvel tocou. Sim? atendi. Do outro lado era o telefone da pessoa que eu conhecia, mas a voz não era dela. A voz disse Sou um bombeiro e encontrei este telemóvel no meio do mato. Aqui à volta está tudo a arder.
Desliguei.
Acendi um cigarro.
Fui sentar-me no alpendre. Não era propriamente amigo da pessoa. Mas já tínhamos bebido uns copos. Já tinha os partilhado uns caracóis. Um dia encontrei-o na Nazaré e fomos ao Santo comer uns berbigões.
Percebi que fora apanhado no fogo. Percebi que a vida era isto assim. Umas vezes estávamos ali, uns com os outros, a comer, a beber, a conversar, a namorar, a foder. E depois já não estávamos. Desaparecíamos da vida uns dos outros de um momento para o outro. E a dor ficava com quem ficava. Quem ficava é que sofria. E penso que também sofri um pouco, apesar de não ser propriamente amigo dele. É uma ausência que se instala. Uma falta.
O telemóvel voltou a tocar. O mesmo número. Atendi e disse Sim? E ouvi do outro lado Sou eu. Isto ardeu tudo. E eu ia indo com o mato. Consegui fugir a tempo. Um bombeiro encontrou o meu telemóvel e disse que tinha falado contigo.
Sorri. Sorri e disse Passa por aqui. Tenho uma garrafa de Mouchão que vou abrir. Vamos despejá-la.
E percebi que, lá do outro lado, ele estava a chorar. Acho que naquele momento senti que passei a ser amigo dele.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/07]

Alguém Tem de Fazer Alguma Coisa

Eu vi-as chegar. Chegaram devagar. Foram chegando devagar mas, mal chegaram, instalaram-se e não foram mais embora. Cobriram tudo e trouxeram o medo.
Estava no alpendre a ler, pela enésima vez, O Segredo do Espadão, das Aventuras de Blake e Mortimer, a fabulosa série de banda-desenhada de Edgar P. Jacobs. Bebia um gin. Fumava um cigarro. E, de repente, comecei a perder leitura. A luz a ir embora. Eram três da tarde. Olhei para o céu e, ao fundo, umas nuvens escuras a cobrirem o céu e a taparem o caminho à luz do sol.
Pensei Vem aí temporal.
Pousei o livro. Levantei-me e cheguei-me à frente no alpendre. Olhei com mais atenção. Não pareciam nuvens de tempestade. O ar estava abafado. Sentia-se cheiro a queimado. Como porco no espeto.
Pensei São os chineses. Vêm aí os chineses.
Entrei dentro de casa. Voltei a sair. Agarrei n’ O Segredo do Espadão e levei-o para dentro de casa. Arrumei-o. Fui ao fundo do armário do meu quarto buscar a caçadeira. Agarrei nuns cartuchos e voltei ao alpendre. Liguei o iPad à procura de notícias. Liguei a TSF. Nada. Facebook. Fiz scroll. Comecei a encontrar umas notícias partilhadas de um enorme incêndio a lavrar na Amazónia.
Pensei O que é que isto tem a ver com aquilo?
As nuvens já estavam quase por cima de mim. A cobrir o céu. A cobrir-me a cabeça. Eu estava ali, no alpendre, com a caçadeira nas mãos, à espera dos chineses quando percebi que não eram os chineses.
Pensei São os brasileiros, porra! Como raio é que estas nuvens chegaram aqui?
A luz do dia desaparecera por completo. O dia fez-se noite. O céu coberto por nuvens de fumo pretas. Um cheiro incrível a queimado.
Entrei para dentro de casa. Fechei tudo. Portas e janelas. Liguei a televisão. Nada. A greve às horas-extra. Pedro Pardal no PDR por Lisboa, nas legislativas. Bas Dost e o Sporting. O clássico Benfica – Porto no Sábado. Mais nada. Nada sobre a noite comer o dia. O mundo ter enegrecido. E o Brasil ter ensandecido.
Peguei no iPad. Voltei às redes sociais. Ali, toda a gente comentava. E finalmente percebi. A Amazónia estava toda a arder. Atearam fogo à Amazónia para vender a madeira e aumentar o pasto para o gado. É a economia, estúpido.
Enquanto o mundo corria para o seu apocalipse na mão de idiotas demasiado estúpidos para perceber os erros que estavam a cometer, a outra mão, supostamente mais ponderada e inteligente, não estava a fazer nada. Estava perdida na sua própria inércia, motivada pela ideologia, economia, medo, diplomacia e, acima de tudo, não ingerência num país estrangeiro. Sem perceberem que éramos nós. A Amazónia éramos nós.
Ao fim de três dias de noite escura e cerrada, ninguém parecia ainda ter tomado alguma decisão que fosse para pôr termo ao que parecia a morte da floresta amazónica.
Então, eu peguei na caçadeira. Em várias caixas com cartuchos. Arranjei um farnel. Um naco de pão do Soutocico, Um bocado de queijo da ilha. Um chourição. Três maçãs e quatro laranjas. E uma garrafa da Cooperativa de Reguengos. Enfiei tudo numa mochila. A caçadeira na mão. Peguei no carro e fui até à Nazaré.
Entrei pelo porto dentro. Ninguém me impediu. Encontrei uma traineira. Subi à cabina. Liguei o motor. Saí do porto.
Pensei Em frente é para a América. Para sul, chego ao Brasil. Alguém tem de fazer alguma coisa.
Ando há umas horas no mar. Não vejo grande coisa mas, se continuar a direito, vou lá dar. Alguém tem de fazer alguma coisa.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/21]

Sobre uma Crónica do Vasco Pulido Valente

E, de repente, assim quase do nada, passei a ódio de estimação de um país, e saco de pancada de todos os haters que circulam pelas redes sociais.
Era Sábado. Um calor danado. Eu estava no alpendre a beber uma sangria de frutos vermelhos que escorria como um refresco. Um tempo sonolento. Eu era embalado pelo pouco ruído constante das cigarras e da festa de Verão da aldeia mais próxima e que se ouvia lá muito ao fundo, depois das várias camadas de cigarras.
Já tinha sido acordado, de manhã, com o rebentar dos morteiros a anunciar a festa. Uma festa de Agosto dedicada a um santo qualquer e aos emigrantes que vêm de França para arejar as maisons que foram construindo ao longo dos anos de muito trabalho. Depois, chegam cá, e guerreiam-se entre eles para verem qual deles põe mais oferendas no andor. Eu ouvia tudo isto à distância de quilómetros, mas que o calor e o silêncio traziam até mim.
Entre a sonolência e os copos de sangria, ia fazendo scroll no iPad, agarrado à frente dos olhos, aumentados pelos óculos para conseguir ver melhor as letras pequeninas no ecran, quando li a caixa a publicitar a crónica de Vasco Pulido Valente no jornal Público. E rezava assim Não se deve tolerar que um sindicato, ou um conjunto de sindicatos, imponha as suas condições a uma sociedade inteira. É só isso que importa saber sobre a greve dos motoristas de matérias perigosas.
E reli.
E voltei a ler outra vez. Não a crónica de Vasco Pulido Valente, que é de Conteúdo Exclusivo e está fechado ao público geral, mas este excerto retirado para promoção. E pensei O Vasco Pulido Valente está mais tonto que nunca. Ele que já fora contundente, está irrelevante. E comentei o anúncio da caixa de promoção com a seguinte nota Não, não se deve tolerar. Mas deve-se tolerar que uma associação de patrões possa impor as suas condições a um país inteiro, mesmo que daí resultem fugas a tributações.
E mal tinha postado o meu comentário já estavam a chover comentários ao comentário.
Primeiro senti-me uma pessoa muito importante, sentada à sombra do meu alpendre, a beber a minha sangria de frutos vermelhos, longe do reboliço das festas sagradas e das crónicas do Vasco Pulido Valente, mas no meio das preocupações de gente anónima que tinha lido o meu comentário como um excerto do apocalipse relatado pelo próprio Diabo do fundo do seu império de chamas na cave dos Infernos.
Depois comecei a pensar que nem eu era uma pessoa importante nem o que escrevera tinha alguma importância digna de nota maior que o desabafo sobre um artigo de alguém a quem me habituei a ver destilar fel. Foi só o que quis fazer. Fel ao fel. E porque achei que Vasco Pulido Valente estava a ser parvo. Quer dizer, mais parvo que o normal quando está a ser parvo. E que não tinha razão no que estava a dizer.
Afinal, e depois de ler alguns dos comentários ao meu comentário, descobri que Vasco Pulido Valente não era mais que uma caixa de ressonância de um grupo de gente que, afinal, sente mesmo aquilo. Gente com fel no coração e na cabeça. Gente irritada. Gente cheia de ódio. Gente que não consegue pensar para além do seu próprio egoísmo. Nada que fosse novo, não! Já há uns dias tinha assistido a algo parecido numa notícia sobre Salvini e a sua luta contra os refugiados. Salvini teria chão para caminhar em Portugal. Este país não viveu quarenta e oito anos em ditadura porque foi castrado nas suas liberdades por uma polícia de Estado muito eficaz. Este país viveu quarenta e oito anos em ditadura porque uma grande maioria das pessoas deste país foi conivente com a ditadura.
É claro que era fácil para mim pensar estas coisas sentado ali, na sombra do alpendre, com o jarro de sangria de frutos vermelhos vazio ao meu lado. Não amarrado numa cadeira de metal com um foco de luz a incidir sobre os olhos e uns cabos eléctricos a aproximarem-se, perigosamente, dos meus mamilos. Mas acabei por aceitar que os comentários ao meu comentário, provavelmente também teriam saído de personagens de cu no sofá, a barriga proeminente cheia de cerveja e ódio a vidas mais interessantes que as delas próprias.
Eu não era o centro do ódio deles. Na verdade, estas pessoas odiavam-se a si próprias por terem umas vidas tão pequenas e merdosas, solitárias, fechadas em frente aos ecrans das redes sociais.
O número dos comentários ia aumentando. Já não conseguia dar vazão a tudo o que me era destinado. A certa altura, desisti de querer saber o que me queriam todos aqueles anónimos que me prometiam ir ao focinho.
Desliguei o iPad. Acendi um cigarro. As cigarras ainda estavam em cantoria. A festa continuava, lá ao fundo.
E eu pensei Tenho de ir fazer outra sangria de frutos vermelhos.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/17]

O Circo Chegou à Aldeia

Foi na Quinta-feira de manhã que as vi chegar. As auto-caravanas.
Ainda o sol não tinha despontado por trás das montanhas, já as primeiras auto-caravanas estavam a passar aqui em frente. Com elas vinha um altifalante a anunciar-se. Começam cedo, estes, pensei.
Eu estava no alpendre a fumar um cigarro. O cão começou a ladrar. Passaram as primeiras auto-caravanas. Depois uns camiões TIR. Uns deles transportavam jaulas. A primeira que vi trazia um tigre. Um enorme tigre de Bengala. Pensava que tinham sido proibidos.
Passaram aqui em frente e desapareceram. O altifalante morreu em fade.
À hora do almoço voltei a ouvir o altifalante. Mas desta vez parecia que não queria ir embora. Fui à janela. Olhei. Estava uma carrinha estacionada na estrada aqui em frente. Uns rapazes andavam de um lado para o outro a colocar umas placas nos postes de electricidade e nas árvores. Um deles estava parado a fumar um cigarro e a olhar aqui para cima. Aqui para casa. Eu deixei-me estar quieto onde estava. Não me mexi para não me detectarem.
Depois do almoço desci à estrada. Fui ver. Tinham andado a colocar publicidade. Era o Circo. O Circo Chegou a Esta Localidade, informava um cartaz. Assim, sem identificar a localidade e dando para todas as localidades por onde passassem. Também informava 30 Animais na Arena. Voltei a pensar que tinha sido proibido haver animais no circo.
Voltei para casa.
À noite, depois de jantar, dei uma volta a pé. Fui até ao circo. Estava cheio de gente à entrada. Era dia de semana e havia muita gente pronta para assistir ao espectáculo de circo. Gente que entrava em magote para dentro da enorme tenda. Ao lado da entrada, um rapaz fumava um cigarro e olhava as pessoas. O olhar dele cruzou-se com o meu. Desviei o olhar.
Há anos que não ia ao circo. Sempre achei que era deprimente. Triste. Mas pensei em ir. Olhei o cartaz à entrada. De Quinta-feira a Domingo às 21:30’. Sábado e Domingo também às 16:30’. Tinha tempo, pensei.
Acendi um cigarro e voltei para casa a fumar.
Passaram os dias. E as noites. Foi-se o fim-de-semana. A carrinha com o altifalante continuou a passar várias vezes na estrada lá em baixo para me convidar a entrar na tenda grande e assistir à vida na arena. Mas fui empurrando a vontade, que não era nenhuma, até deixar passar a última sessão.
Era já Segunda-feira de manhã quando as vi partir. As auto-caravanas.
Ainda o sol não tinha despontado por trás das montanhas, já as primeiras auto-caravanas estavam a passar aqui em frente. Desta vez iam em silêncio. Não havia altifalantes a anunciar a partida. Vão cedo, estes, pensei.
Eu estava no alpendre a fumar um cigarro. Primeiro passaram as auto-caravanas. Depois os camiões TIR. O último a passar transportava uma jaula. Uma jaula com o tigre de Bengala. E eu vi-o afastar-se ao longo da estrada enquanto fumava o cigarro. Depois desapareceu. Chegou o silêncio.
E estava instalado o silêncio quando ouvi o primeiro grito. Logo depois o segundo. E, em seguida, vários gritos em confusão. A localidade estava toda a acordar ao gritos. Vi gente a correr na estrada lá em baixo. Vi passar um jipe da GNR. Um vizinho viu-me no alpendre, aproximou-se do muro, ao fundo, e gritou-me As crianças! As crianças desapareceram todas! E eu perguntei-me Que crianças?

[escrito directamente no facebook em 2019/07/04]

Eu Também Sou uma Vítima

Os meus anos de liceu foram complicados.
Era um miúdo enfezado. Aluno mediano. Algumas borbulhas. Vestia a roupa que a minha mãe escolhia. Tinha poucos amigos. Ou nenhum. As miúdas não me viam e era sempre dos últimos a ser escolhido para as equipas de desporto. Mesmo nos trabalhos de grupo era sempre dos últimos a ser escolhido. E até era mais ou menos aplicado. Mas os outros miúdos tinham tendência a não me ver ou a esquecer-me. Quase sempre ignorado. Era raro ser convidado para as festas de aniversário dos outros. Mesmo na rua as coisas também não eram muito melhor. Na rua tinha um grande amigo. O único. E passava os dias de férias sempre em casa dele.
Eu nasci já os meus pais eram velhotes. Pareciam meus avós. Fui uma espécie de restolho. O último de três irmãos. O mais fraquito. Problemas respiratórios. Músculos atrofiados. Pés chatos. Vista curta, o que me levou a usar óculos desde sempre. Na escola não gostava de ginástica. Mas a ginástica também não gostava de mim. E os meus colegas evitavam ter-me na equipa. Não conseguia dar um chuto na bola. Não tinha força para levantar uma bola ao cesto. Uma nulidade no vólei. E, no andebol, não conseguia agarrar a bola que me passavam sem a deixar cair. Normalmente punham-me à baliza. Pior o soneto. Eu tinha medo das bolas. Das bolas lançadas com força pelos adversários. Fosse com os pés ou com as mãos. Virava as costas aos remates e, com sorte, a bola batia-me no corpo. Nódoa negra na certa.
Não era mau aluno, mas também não era um grande aluno. Era um aluno mediano. Mas era um aluno mediano para não dar nas vistas. Às vezes dava respostas erradas, mesmo sabendo as respostas certas, para que não achassem que eu era marrão. É que não era marrão, mesmo. Sabia as coisas com uma certa naturalidade. Mas isso ia levar-me para as luzes da ribalta e eu não gostava de ser o centro das atenções. Se fosse bom aluno tinha os maus alunos a pedirem para copiar por mim, para lhes fazer os trabalhos, para lhes explicar as coisas. E eu preferia não dar nas vistas. Durante todo o liceu esforcei-me por ser um aluno mediano. Dá trabalho ter que não ser bom.
Fisicamente era muito enfezadito. Pernas magrinhas. Sem músculos. Quase só pele e osso. Sem rabo. A pilinha pequenina e, até muito tarde, sem pêlos. Como a minha mãe dizia, um pau de virar tripas. Tive sempre muitas borbulhas. Mas como a barba também apareceu muito tarde, nunca tive muitos problemas por escavacar a cara borbulhosa. Simplesmente não precisava de fazer a barba. Mas isso também não me granjeou grande sucesso com as miúdas. Não tive nenhuma namorada durante os anos de liceu. Talvez fossem as borbulhas. Talvez fosse a minha inépcia para exercícios físicos. Talvez fosse não ter lábia para nada nem ninguém. O facto de vestir a roupa que a minha mãe me escolhia também não abonava muito em meu favor. Eu era um menino. Chegava a Primavera e a minha mãe insistia nos calções, meias de renda pelos joelhos e sapatinho de verniz. Claro que isto foi em criança. Mais velho ainda lutei pelas calças de ganga. E as sapatilhas. As sapatilhas foi mais fácil. Toda a gente usava Sanjo. A minha mãe também as comprou. Eram baratas. As calças de ganga foi mais complicado. Nunca consegui explicar porque é que as Lois eram as calças mais fixes. Tinha de me contentar com sucedâneos da feira de Sábado, como as Gois, as Loise e as Louise.
Durante os anos de liceu nunca fui dormir a casa de nenhum amigo. Nenhum amigo meu, dos poucos que ainda consegui ter, veio dormir a minha casa. Nem o meu melhor amigo lá da rua. Contam-se pelos dedos de uma mão às vezes que fui a festas de aniversário sem ser às da Malta da Rua. Dançar, só dançava em casa, frente ao espelho do guarda-fatos dos meus pais, quando eles não estavam em casa.
Foi só quando fui para a universidade que tive a minha primeira namorada. Namorada?! Uma miúda com quem tive umas experiências sexuais. Que não correram lá grande merda. Foi também com ela que tive as minhas primeiras experiências com drogas.
Aliás, para mim, o sexo e a droga andam juntos, percebes? Um traz o outro. É por isso que cheirei este frasquinho. Conheces? Queres cheirar? Vá lá! Só um cheirinho. Não? Pronto, está bem. Mas ia ajudar-te, sabes? Quando eu te espetar a faca. Porque eu vou espetar-te a faca. Tenho de te espetar a faca. Preciso de espetar-te a faca.
A culpa não é minha, percebes? Eu também sou uma vítima. A culpa não é minha. Eu tenho mesmo de te fazer o que te vou fazer. Não chores, vá lá. Não adianta. Eu tenho mesmo de te espetar a faca. Sabes, a culpa é da minha mãe. Não consigo deixar de pensar naqueles sapatinhos de verniz com uma fivela prateada. Tive de os levar para a escola várias vezes. Sabes que eu sou uma vítima, também. A culpa não é minha. Mas tenho de te espetar a faca.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/20]