Quando o Velho Morreu

Quando o velho morreu, a aldeia entrou-lhe, literalmente, pela casa dentro.
O velho tinha fama de forreta. Guardava tudo o que ganhava. Tinha vários terrenos. Terrenos rurais, com árvores de frutos, pinheiros, vinhas, oliveiras. Não deviam dar muito, hoje em dia estas coisas já não dão muito ao produtor mas, quando não se gasta nada, o pouco que se ganha vira muito. Tinha vários terrenos espalhados à volta da aldeia. O velho passava os dias de motorizada a andar de uns terrenos para os outros, a cuidar da sua vida e da vida dos seus terrenos, a ver se tudo estava bem, se ninguém tinha roubado nada.
O velho não tinha nenhuma conta no banco. Pelo menos, não nos bancos com balcões na vila mais próxima, que houve gente que tratou de o saber. Nestes meios pequenos, tudo se sabe. Ou quase tudo.
A verdade é que o velho era um miserável que vivia miseravelmente. Ninguém o via em lado nenhum a gastar um tostão. Ia de vez em quando à mercearia da aldeia comprar algumas coisas, mas nunca comprava muito. E regateava o preço das coisas como na feira, como quando ia à feira vender alguns dos seus animais ou os frescos que amanhava nas hortas que ia mantendo.
Andava sempre roto. Roto e sujo. Não sei se alguma vez tomou banho. Pelo menos, não depois de ficar sozinho na casa.
Os filhos, e tinha dois filhos, um rapaz e uma rapariga, um casal, há muito que tinham abandonado a aldeia. Tinham ido para Coimbra estudar e nunca mais regressaram. Nem um nem outro. A mulher, seguiu os passos dos filhos. Mais concretamente da filha, a mais nova. Saiu com ela. Foi com a filha para Coimbra, parece. Consta que o velho nunca lhes dava dinheiro para nada. E que a mulher levava de vez em quando. Ele tinha mau feitio, está de ver. Ela aproveitou a saída dos filhos e saiu também. Nunca mais regressou. O velho também não foi à procura dela. Acho que o velho gostava de viver assim. Era um solitário. Era uma alma de outro tempo. Um velho zangado com a sua própria existência.
A casa onde vivia estava a cair de podre. O velho não fazia a manutenção da casa. Que como estava, estava muito bem, dizia a quem o interrogava. Acho que depois que a mulher o abandonou, aquela casa nunca levou uma barrela. Nunca vi os tapetes da casa a arejar na rua. Nunca vi roupa estendida ao sol. Nunca vi uma janela aberta a arejar a casa. Mas vi o branco da cal a ficar cinzento. Vi as portadas a cair. Um vidro da janela partido e trocado por um saco de plástico de supermercado.
Na vida do velho não havia fins-de-semana, Natal, Carnaval ou Páscoa. Todos os dias eram dias de trabalho. Você não come todos os dias? Os animais também, voltava a dizer a quem o questionava sobre as suas ausências da missa e das festas da aldeia.
Quando os organizadores das festas lá iam bater à porta a pedir ajuda para a organização, dava-lhes meia-dúzia de ovos. E era o que dava. Era o que dava sempre. Um dia, os bombeiros da vila próxima também andaram pela aldeia a angariar fundos, Bombeiros Voluntários precisam sempre de apoio, não é?, pois também os presenteou com uma meia-dúzia de ovos. Os bombeiros não se fizeram rogados, levaram os ovos e fizeram uma omeleta no quartel. Não deu para muitos deles, mas não os estragaram.
Dizia-se que o velho tinha muito dinheiro escondido em casa. Dizia-se. Era o que o povo dizia. E o povo diz sempre muita coisa, tem sempre razão e sabe de tudo. O povo tem um nariz grande e enfia-o em todo o lado.
Quando o velho morreu, foi toda a gente da aldeia para casa do velho à procura do dinheiro.
Não sei como é que se soube da morte do velho, mas estas coisas sabem-se sempre, não é?
Até eu soube. Parece que o velho caiu ao poço. Caiu ao poço que tinha lá em casa, nas traseiras da casa, e que ele ainda usava para regar as couves que tinha por lá plantadas.
Não sei como é que se soube da queda do velho mas, ainda antes dos bombeiros chegarem a casa e tentar recuperar o corpo (ainda não se sabia se estava vivo ou não), já andava gente pelo quintal a escavar terra. Depois dos bombeiros recuperarem o corpo, e confirmarem que o velho estava efectivamente morto, acabou por ir para lá toda a aldeia. Até os miúdos que fugiam assim que o viam. Entraram por casa, pelo barracão onde guardava as alfaias agrícolas, escavaram o quintal, alguns até foram palmilhar os terrenos que eram do velho, os terrenos em volta da aldeia, pelo menos os terrenos que se sabia serem do velho. Mas é provável que até houvessem outros.
Eu deixei-me ficar sentado no muro de minha casa, cigarro aceso na mão, uma garrafa de vinho tinto ao lado e um copo de vidro. Aquilo era melhor que ir ao cinema.
Acabei por assistir à chegada da família. Foi no dia seguinte. A mulher e os dois filhos. Mais tarde ainda chegaram uns sobrinhos. Mas quando chegaram a mulher e os filhos, tiveram de chamar a GNR para colocar toda a gente na rua. Chegou a haver alguma confusão. As pessoas não queriam sair. Diziam que a mulher e os filhos já não tinham o direito de estar ali porque tinham abandonado o velho e a aldeia é que o tinha aturado todos aqueles últimos anos. A GNR acabou por dar voz de prisão a uns quantos mais afoitos. Chegaram a disparar para o ar. Não sei se balas verdadeiras. Também não sei se a GNR tem munição de borracha. Aqui é o campo. Aqui, quando as coisas dão para o torto, é para matar. Aqui os vizinhos levantam muros para roubar meio-metro de terreno ao lado. Aqui as pessoas cortam veios de água para não chegarem ao terreno do vizinho. Aqui abrem-se poços, mesmo quando não são precisos, para se ter acesso a água se um dia for necessário e bloquear o caminho para o vizinho seguinte. Aqui, quando as pessoas se zangam, discutem com uma espingarda nas mãos ou uma forquilha. Aqui, quando a GNR é chamada, vai armada porque nunca sabe o que é que a espera. E, no entanto, cruzam-se todos na igreja aos Domingos.
Então, a GNR teve de disparar para o alto para dispersar as pessoas que estavam no quintal e na casa do velho. As pessoas saíram, mas saíram a contra-gosto.
O funeral do velho foi dois dias depois deste acontecimento com a guarda e três dias depois da morte do velho. Não houve autópsia. Aqui é o campo. Quando alguém cai num poço, morre da queda e cai porque é o que acontece quando se têm poços sem estarem tapados.
Só os dois filhos do velho foram ao funeral. Os dois filhos e o padre. Os homens da funerária ajudaram o coveiro a enterrar a urna. Não havia mais ninguém. Não havia mais nenhum familiar. Não havia um amigo. Nenhum conhecido. Nada. Ninguém.
A mulher e os sobrinhos ficaram em casa. Suponho que à procura do que ainda ninguém tinha encontrado.
Sentado no muro do meu quintal, a fumar um cigarro e com um copo de vinho tinto nas mãos (o vinho desta zona é muito mau mas, os pequenos produtores, que fazem vinho para consumo próprio, oferecem-me, às vezes, algumas garrafas de um vinho que, ao segundo copo, se revela, afinal, muito bom), vejo-os a andar lá pela casa. Ouvem-se barulhos vindos lá de dentro. As gentes da aldeia vão passando aqui pela casa, a dar fé. Mas a GNR está à entrada. Ninguém entra. Andor, andor! dizem os guardas.
Depois chegam os filhos. Entram em casa. Saem todos. Pegam nos carros e vão-se embora. Foram-se todos embora. Os filhos e a mãe e os sobrinhos. A GNR, ao fim de algum tempo, também se foi embora. As pessoas voltaram a entrar em casa. Voltaram a escavar no quintal, desceram ao poço, levantaram o chão da casa e ninguém encontrou nada. A casa que estava em mau estado ficou ainda pior.
Isto já aconteceu há uns anos. Os filhos e a mulher nunca mais cá voltaram. A casa está em ruínas. O mato tomou conta de tudo. Aquilo agora é campo de víboras. Já chamei várias vezes a GNR. Já fui fazer queixa à Junta de Freguesia. Dizem que não podem fazer nada. É terreno privado. Ninguém quer saber porque ninguém encontrou o dinheiro do velho.
Um dia destes deito-lhe fogo.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/11]

Andar às Voltas, de Carro, em Silêncio

Íamos os dois em silêncio. Íamos os dois no carro. Eu a conduzir. Ela no banco do lado. Íamos em silêncio. Não estávamos chateados. Estávamos só em silêncio. Estamos muita vez em silêncio. Não precisamos de falar para nos compreendermos. Às vezes bastava olharmos um para o outro. E percebíamos. Tínhamos conversas enormes em silêncio. Eram conversas tranquilas. Mas cheias.
Íamos em silêncio no carro. Ouvíamos o rádio. Ou não ouvíamos. O rádio ia ligado. Mas acho que nenhum de nós estava a ligar ao que o rádio transmitia. Eu passava de estória em estória. A minha cabeça voava. Viajava. Constantemente. Como não sonho, no sono, sonho quando estou acordado. Sonhos estúpidos e muitas vezes incoerentes. Saltito de um para outro, sem me aperceber disso. Por vezes agarro-me a pequenas notícias de jornal. Outra vezes, em vidas alternativas. Se…
Ela não sei. Talvez saltite de estória em estória, como eu. Ou não. Talvez pense em coisas sérias. Talvez pense nos problemas. Todos temos problemas. Alguns de nós ignoram-nos. Outros tentam resolvê-los. Mas não sei. Nunca lhe perguntei.
Entrámos por uma pequena aldeia dentro. A estrada cruzava a aldeia. Um semáforo a meio para desencorajar a velocidade. Estava vermelho. Parei. O carro a trabalhar. O pé na embraiagem. A primeira engatada. A mão na alavanca das velocidades. E, depois, a mão dela sobre a minha. Acontecia muito. A mão dela sobre a minha sobre a alavanca das velocidades. A mão dela quente. Sobre a minha mão fria. Aquela mão dava-me conforto.
O semáforo passava a verde. Eu largava a embraiagem. Carregava levemente o acelerador, o carro arrancava e, antes de engatar a segunda, agarrava com os dedos da minha mão a mão dela, que estava sobre a minha, para que não se perdesse quando eu puxasse a alavanca para trás, ao engatar a segunda.
Saímos da aldeia. Já não sei para onde íamos. Andávamos muitas vezes assim. Ao deus-dará. De carro. Às voltas. A passear. A olhar o mundo que nos rodeava. Depois parávamos o carro e deixávamos que o mundo nos engolisse. Eu sentava-me num sítio qualquer e fumava um cigarro. Ela dava uma volta e tirava fotografias. Algumas vezes com o telemóvel. Para alimentar as redes sociais. Outras vezes com a câmara. Nessas alturas era mais cuidadosa com o que fotografava. Espaços. Objectos. Arquitectura. Pedaços de arquitectura. Memórias. Sobretudo memórias. Às vezes fotografava-me a mim. Mas eu não gostava de ser fotografado. São as minhas melhores fotografias.
Às vezes dava grandes voltas, enquanto eu fumava cigarro atrás de cigarro, e depois aparecia com uma garrafa de vinho. Com um queijinho seco. Um pão caseiro. Às vezes ainda quente. Eu deitava fora o cigarro e bebíamos e comíamos e, às vezes, muitas várias vezes, acabávamos enrolados um no outro. Chegámos a fazer amor assim, debaixo do sol, numa qualquer ruína, num qualquer miradouro, à sombra de uma árvore velha e frondosa.
Tudo em silêncio. Sempre em silêncio. Não precisávamos de falar para nos compreendermos. Não precisávamos de falar para dizer tudo o que queríamos.
Ainda hoje é assim. Ela continua aqui ao lado. Eu estou a conduzir. O rádio ligado. E os meus pensamentos andam assim, de um lado para o outro, numa roda-viva, a pensar em coisas simples e sem jeito nenhum.
Ela não sei. Nunca lhe perguntei. Mas tem um ar feliz.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/27]

A Viagem em Itália e a Grande Onda da Nazaré

Estávamos na cama. Os dois. Abraçados. Estávamos num quarto. Numa pensão. Na Nazaré. À beira da praia. O sol a entrar pela janela. O vento a soprar lá fora. A assobiar pelas frinchas da janela. O tempo estava bom. Fazia sol. Mas caminhava para o mau. Vinham lá nuvens. Uma massa polar, diziam. Que vinha da Islândia, diziam. Nunca fui à Islândia, disse eu. Em voz alta.
Ela disse E agora a água do mar desaparecia toda, puxada lá para dentro, para dentro do mar, para fazer uma onda, uma onda gigante, gigantesca, uma onda que vinha tombar sobre a Nazaré, e arrasar com a cidade e connosco. Connosco nesta cama. E morríamos assim, abraçados, os dois. E abraçou-me muito. Apertou-me muito. Beijou-me. Mordeu-me.
E eu pensei no filme de Roberto Rossellini, Viagem em Itália. E disse. E disse-lhe. E comecei O George Sanders e a Ingrid Bergman estão em Itália. Estão lá por causa de uma herança e aproveitam para passar férias. Mas descobrem que não estão habituados a estar juntos. Juntos e sozinhos. Juntos e sozinhos e durante tanto tempo. E tudo serve para se distanciarem. Para se distanciarem ainda mais. O país. Os italianos. As italianas. O calor. A porra do calor. E nasce o azedume. Um azedume cada vez maior. Cada vez mais azedo. Ele vai para os negócios. E sai à noite. Diverte-se. Ela visita as ruínas de Itália. Faz turismo. Turismo de história. De ruínas. Visita Pompeia. A Pompeia destruída pelo Vesúvio no ano 79. As mesmas ruínas onde os Pink Floyd tocaram para um filme, Live at Pompeii, em 1972. E é ali que ela tem o primeiro choque. As pessoas estão abraçadas. Como nós aqui, a sermos levados pela onda gigantesca que se abateria sobre a Nazaré. Nós abraçados. Eles abraçados. Eles as pessoas mortas. As vítimas do Vesúvio. Envolvidas pela lava. Queimadas vivas. Abraçadas. Amantes. Amados. Amantíssimos. Descobertos agora. Como estátuas ao amor. De amor. Um amor de horror. Mas não são estátuas. São gente. Gente que morreu. Gente que morreu junta. Abraçada. A amarem-se. E ela chora. Acho. Acho que a Ingrid Bergman chora. Já não tenho certeza. Mas acho que ela chora. E vai transformar-se. Quer renovar-se. Quer recuperar o marido. Recuperar o amor que acha que já teve. Que já viveu. Mas é já quase no final do filme, quando George Sanders e Ingrid Bergman passam de carro por Itália, pela Itália profunda, pelo meio de uma aldeia em festa, festa religiosa, festa católica, católica como Roberto Rossellini, e o carro fica bloqueado entre as inúmeras pessoas, no meio das pessoas, daquela multidão, e eles os dois discutem, discutem forte e ela sai do carro e ele sai também para a ir buscar e a procissão vem, vem como a onda gigante da Nazaré e leva-a, leva-a para longe dele, e ele vê-a ser engolida pela multidão que se arrasta e ambos perdem o outro de vista, e sentem que, afinal, ainda há ali qualquer coisa entre eles que não está morto, qualquer coisa que está a acordar e procuram-se, procuram-se um ao outro, não querem perder-se, não se querem perder. É um filme lindíssimo. Triste, mas muito bonito. Um filme que afasta Roberto Rossellini do neo-realismo e abre as portas para um cinema existencialista. Mas agora preciso de ir fumar um cigarro que fiquei cansado de tanto falar, disse.
Ela sorriu-me, abriu os braços para eu sair da cama e disse Traz-me um copo de vinho, antes que venha a onda. E eu disse Se vier a onda abraço-te ainda mais. E sorri enquanto acendia um cigarro, afastava as cortinas da janela e olhava lá para fora e via os primeiros pingos de chuva a chegar. As gaivotas a voar. Mas o mar, o mar ainda lá estava.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/27]