Andar às Voltas, de Carro, em Silêncio

Íamos os dois em silêncio. Íamos os dois no carro. Eu a conduzir. Ela no banco do lado. Íamos em silêncio. Não estávamos chateados. Estávamos só em silêncio. Estamos muita vez em silêncio. Não precisamos de falar para nos compreendermos. Às vezes bastava olharmos um para o outro. E percebíamos. Tínhamos conversas enormes em silêncio. Eram conversas tranquilas. Mas cheias.
Íamos em silêncio no carro. Ouvíamos o rádio. Ou não ouvíamos. O rádio ia ligado. Mas acho que nenhum de nós estava a ligar ao que o rádio transmitia. Eu passava de estória em estória. A minha cabeça voava. Viajava. Constantemente. Como não sonho, no sono, sonho quando estou acordado. Sonhos estúpidos e muitas vezes incoerentes. Saltito de um para outro, sem me aperceber disso. Por vezes agarro-me a pequenas notícias de jornal. Outra vezes, em vidas alternativas. Se…
Ela não sei. Talvez saltite de estória em estória, como eu. Ou não. Talvez pense em coisas sérias. Talvez pense nos problemas. Todos temos problemas. Alguns de nós ignoram-nos. Outros tentam resolvê-los. Mas não sei. Nunca lhe perguntei.
Entrámos por uma pequena aldeia dentro. A estrada cruzava a aldeia. Um semáforo a meio para desencorajar a velocidade. Estava vermelho. Parei. O carro a trabalhar. O pé na embraiagem. A primeira engatada. A mão na alavanca das velocidades. E, depois, a mão dela sobre a minha. Acontecia muito. A mão dela sobre a minha sobre a alavanca das velocidades. A mão dela quente. Sobre a minha mão fria. Aquela mão dava-me conforto.
O semáforo passava a verde. Eu largava a embraiagem. Carregava levemente o acelerador, o carro arrancava e, antes de engatar a segunda, agarrava com os dedos da minha mão a mão dela, que estava sobre a minha, para que não se perdesse quando eu puxasse a alavanca para trás, ao engatar a segunda.
Saímos da aldeia. Já não sei para onde íamos. Andávamos muitas vezes assim. Ao deus-dará. De carro. Às voltas. A passear. A olhar o mundo que nos rodeava. Depois parávamos o carro e deixávamos que o mundo nos engolisse. Eu sentava-me num sítio qualquer e fumava um cigarro. Ela dava uma volta e tirava fotografias. Algumas vezes com o telemóvel. Para alimentar as redes sociais. Outras vezes com a câmara. Nessas alturas era mais cuidadosa com o que fotografava. Espaços. Objectos. Arquitectura. Pedaços de arquitectura. Memórias. Sobretudo memórias. Às vezes fotografava-me a mim. Mas eu não gostava de ser fotografado. São as minhas melhores fotografias.
Às vezes dava grandes voltas, enquanto eu fumava cigarro atrás de cigarro, e depois aparecia com uma garrafa de vinho. Com um queijinho seco. Um pão caseiro. Às vezes ainda quente. Eu deitava fora o cigarro e bebíamos e comíamos e, às vezes, muitas várias vezes, acabávamos enrolados um no outro. Chegámos a fazer amor assim, debaixo do sol, numa qualquer ruína, num qualquer miradouro, à sombra de uma árvore velha e frondosa.
Tudo em silêncio. Sempre em silêncio. Não precisávamos de falar para nos compreendermos. Não precisávamos de falar para dizer tudo o que queríamos.
Ainda hoje é assim. Ela continua aqui ao lado. Eu estou a conduzir. O rádio ligado. E os meus pensamentos andam assim, de um lado para o outro, numa roda-viva, a pensar em coisas simples e sem jeito nenhum.
Ela não sei. Nunca lhe perguntei. Mas tem um ar feliz.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/27]

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A Viagem em Itália e a Grande Onda da Nazaré

Estávamos na cama. Os dois. Abraçados. Estávamos num quarto. Numa pensão. Na Nazaré. À beira da praia. O sol a entrar pela janela. O vento a soprar lá fora. A assobiar pelas frinchas da janela. O tempo estava bom. Fazia sol. Mas caminhava para o mau. Vinham lá nuvens. Uma massa polar, diziam. Que vinha da Islândia, diziam. Nunca fui à Islândia, disse eu. Em voz alta.
Ela disse E agora a água do mar desaparecia toda, puxada lá para dentro, para dentro do mar, para fazer uma onda, uma onda gigante, gigantesca, uma onda que vinha tombar sobre a Nazaré, e arrasar com a cidade e connosco. Connosco nesta cama. E morríamos assim, abraçados, os dois. E abraçou-me muito. Apertou-me muito. Beijou-me. Mordeu-me.
E eu pensei no filme de Roberto Rossellini, Viagem em Itália. E disse. E disse-lhe. E comecei O George Sanders e a Ingrid Bergman estão em Itália. Estão lá por causa de uma herança e aproveitam para passar férias. Mas descobrem que não estão habituados a estar juntos. Juntos e sozinhos. Juntos e sozinhos e durante tanto tempo. E tudo serve para se distanciarem. Para se distanciarem ainda mais. O país. Os italianos. As italianas. O calor. A porra do calor. E nasce o azedume. Um azedume cada vez maior. Cada vez mais azedo. Ele vai para os negócios. E sai à noite. Diverte-se. Ela visita as ruínas de Itália. Faz turismo. Turismo de história. De ruínas. Visita Pompeia. A Pompeia destruída pelo Vesúvio no ano 79. As mesmas ruínas onde os Pink Floyd tocaram para um filme, Live at Pompeii, em 1972. E é ali que ela tem o primeiro choque. As pessoas estão abraçadas. Como nós aqui, a sermos levados pela onda gigantesca que se abateria sobre a Nazaré. Nós abraçados. Eles abraçados. Eles as pessoas mortas. As vítimas do Vesúvio. Envolvidas pela lava. Queimadas vivas. Abraçadas. Amantes. Amados. Amantíssimos. Descobertos agora. Como estátuas ao amor. De amor. Um amor de horror. Mas não são estátuas. São gente. Gente que morreu. Gente que morreu junta. Abraçada. A amarem-se. E ela chora. Acho. Acho que a Ingrid Bergman chora. Já não tenho certeza. Mas acho que ela chora. E vai transformar-se. Quer renovar-se. Quer recuperar o marido. Recuperar o amor que acha que já teve. Que já viveu. Mas é já quase no final do filme, quando George Sanders e Ingrid Bergman passam de carro por Itália, pela Itália profunda, pelo meio de uma aldeia em festa, festa religiosa, festa católica, católica como Roberto Rossellini, e o carro fica bloqueado entre as inúmeras pessoas, no meio das pessoas, daquela multidão, e eles os dois discutem, discutem forte e ela sai do carro e ele sai também para a ir buscar e a procissão vem, vem como a onda gigante da Nazaré e leva-a, leva-a para longe dele, e ele vê-a ser engolida pela multidão que se arrasta e ambos perdem o outro de vista, e sentem que, afinal, ainda há ali qualquer coisa entre eles que não está morto, qualquer coisa que está a acordar e procuram-se, procuram-se um ao outro, não querem perder-se, não se querem perder. É um filme lindíssimo. Triste, mas muito bonito. Um filme que afasta Roberto Rossellini do neo-realismo e abre as portas para um cinema existencialista. Mas agora preciso de ir fumar um cigarro que fiquei cansado de tanto falar, disse.
Ela sorriu-me, abriu os braços para eu sair da cama e disse Traz-me um copo de vinho, antes que venha a onda. E eu disse Se vier a onda abraço-te ainda mais. E sorri enquanto acendia um cigarro, afastava as cortinas da janela e olhava lá para fora e via os primeiros pingos de chuva a chegar. As gaivotas a voar. Mas o mar, o mar ainda lá estava.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/27]