Melancolia

Forço-me a sair de casa.
Não posso estar sempre deitado na cama. Preciso de me mexer. Mexer o corpo. Sentir o sol sobre mim. Ver claridade. Respirar o CO2 dos automóveis em despique.
Saio de casa com as mão nos bolsos. Os ombros descaídos. Está um dia claro de sol amarelo, nem quente nem frio. Algumas nuvens. Uma ligeira aragem. Um dia sem história.
Caminho.
Caminho ao longo do passeio. Circulo perdido pela cidade. Vou onde me levam os passos. Os meus pés numas All Star rotas, todas escavacadas, sapatilhas que já calcorrearam mundo, mas confortáveis. Espero que não chova. As calças de ganga caem sobre as sapatilhas e prendem-se debaixo do rasto. Rasgam-se. Vejo um fio da ganga a bailar com os meus passos, perdido que estou pelas ruas da cidade.
Caminho.
Caminho até ao rio. Sento-me num banco de madeira a olhar o rio frio que está parado no seu leito. Uns miúdos brincam no muro mais à frente. Um deles cai. Cai ao rio. Devia ir ajudar. Talvez mergulhar no rio. Talvez telefonar à polícia. Talvez telefonar aos bombeiros. Talvez ligar ao cento e doze. Mas não o faço. Não consigo fazer. Nem coloco a mão no bolso das calças à procura do telemóvel. Nem me levanto do banco, excitado, nervoso, curioso com o sucedido. Deixo-me ficar sentado. Suspiro sem grande força. O olhar perdido na direcção dos outros miúdos que chegam com um agente da polícia. E eu olho. Limito-me a olhar. Depois deixo cair o olhar no chão. Levanto-me.
Caminho.
Caminho de novo com as mãos nos bolsos. De novo os ombros descaídos. Os pés arrastam-se pelo macadame e puxam o meu corpo quase-morto. Deixo o miúdo caído ao rio nas mãos do polícia. Dos amigos. Do socorro que o polícia há-de providenciar. Deixo tudo lá para trás. Para trás de mim. Devia ter trazido o iPod. Devia estar a ouvir música. Os ouvidos mudos à cidade. Mas não me apetece. Não me apetece ouvir música. Quero silêncio. Quero vazio. Quero nada. Não quero o iPod.
Acendo um cigarro. Os patos cruzam o macadame a caminho do rio. Um miúdo passa a correr e, rápido, apanha um dos patos e foge com ele a grasnar debaixo do braço. Eu viro-me. Vejo-o desaparecer entre as árvores que acompanham o rio. Vejo-o desaparecer e deixar de existir. Aconteceu o que eu julgo que vi? Ou não aconteceu nada? Nem eu vi nada? Passou por aqui um miúdo? Ou não? Mas continuo. Continuo em frente. Não sei para onde vou.
Caminho.
Só caminho em frente. Vejo as folhas a cair das árvores. Ouço o barulho que faço ao pisá-las. É mesmo uma manhã outonal.
O sol amarelo que clareava o dia acabou por se ir, envergonhado. O céu ficou cinzento. Levantou-se um ligeiro vento. Caiu o frio. Estou sem casaco. Mas vou continuar em frente.
Queria regressar a casa. À cama. Ao conforto da minha cama.
Ultrapasso uma velhota que treme no seu passo inseguro apoiada a uma bengala. Penso que não vai chegar ao seu destino. Afasto-me, devagar. Mas o meu devagar é muito rápido para a velhota. Ouço um barulho seco atrás de mim. Imagino que a velha caiu. Mas não me viro. Não me quero envolver.
Caminho em frente. E depois páro.
Não sei mais para onde ir. Os pés não se mexem. Posso virar à direita. Posso ir para a esquerda. Mas não tomo nenhuma decisão. Os meus pés não se mexem. O meu corpo não sugere. E então começa a chover. Primeiro uma pequena e leve borranha. Depois as gotas engrossam. E começa a chover copiosamente. Chove sobre mim. Mas eu não me mexo. Os meus pés parados. Os buracos nas All Star a deixar entrar a água fria. Sinto as meias a encharcar e os pés molhados. Suspiro de novo.
Já não caminho. Estou aqui. Não sei o que estou a fazer, mas parece-me que não estou a fazer nada. Estou só aqui porque não consigo não estar. Não me mexo. Não me apetece fazer nada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/29]

As Broas de Batata Doce da Minha Vizinha de Cima

Estava em casa a curtir a depressão do noticiário televisivo. Era Hong Kong. A Catalunha. O Chile. O Líbano. Explosões sociais por todo o lado. Os lúmpen fartos de o serem. As massas sociais na mó de baixo, em maioria, em extrema maioria, estavam a revoltar-se contra os poucos que se mantinham por cima. Os poucos que se mantinham por cima e os seus cães de guarda. Eu estava a ver as imagens editadas pela televisão. Imagens assustadoras. O caos nas ruas. Os governos em colapso. Descobria mais uns sítios. Agora também no Equador e na Bolívia. Até ao fim do dia ainda aparecem mais, pensei. E na net encontro as imagens em bruto, voltei a pensar. E, então, tocou a campainha da porta da rua.
Levantei-me a custo do sofá. Estes dias deixam-me sem força. Sem reacção. Com vontade de sair para a rua a gritar a minha indignação, dar o meu apoio à revolução social, mas sem conseguir levantar o rabo do sofá. Acho que andava descrente. Ou tão só cansado. A vida como a estava a viver estava a deixar-me gasto. Inerte. Corria o risco de desaparecer. Puf. Fosse afundado no sofá, com um copo de vinho na mão ou um comprimido colorido no bucho, fosse caído e esborrachado no chão da rua ao fundo da minha varanda. Fiz o corredor à velocidade possível. Espreitei pelo óculo da porta e vi a minha vizinha de cima. Trazia um prato na mão. Um prato tapado com papel de alumínio.
Abri a porta.
Ficámos em frente um do outro. Ela esticou o braço e ofereceu-me o prato, com um sorriso na cara. Agarrei o prato. Levantei a folha de alumínio e vi umas broas, ainda quentinhas, a fumegar. Ela disse São de duas qualidades. Estas, e apontou com o dedo, têm batata doce. As outras não, mas têm passas e nozes.
Eu olhei para ela. Puxei-a para mim, apertei-a nos meus braços e beijei-a. Ela beijou-me. Beijámos-nos. Ali, à entrada da porta. Eu com um prato numa mão e a outra a agarrar a mão dela que dobrei para trás das suas costas, para a envolver e apertá-la contra mim. Ela tocou-me no peito, com a mão, suavemente. Parámos o beijo e senti-a ofegante. Os olhos nos olhos. As bocas abertas, próximas, a respirarem o hálito uma da outra. Ela cheirava bem. Um hálito fresco. Talvez da pasta dentífrica. Eu não tomava banho desde a véspera. Altura em que também tinha lavado os dentes pela última vez. Ela pareceu não se importar. E depois, com o calcanhar da perna levantada, fechou a porta de minha casa e deixou-nos lá dentro.
Tirou-me o prato da mão e colocou-o na mesa de entrada, ao lado do cinzeiro onde estavam as chaves do carro. Agarrou-me na mão e puxou-me para o interior de casa. Entrou no meu quarto. Puxou-me para dentro do meu quarto, para junto dela. E fechou a porta. Fechou-me a porta na cara.
Eu estava lá dentro com ela e não estava. Eu estava lá dentro do quarto com ela e no corredor com a porta do quarto fechada na minha cara.
Experienciei os avanços dela e não assisti a nada. Rebolei com ela na cama e não conseguia contar nada do que nada via.
Senti-me excitado e frustrado.
Voltei a sentar-me no sofá enquanto continuava no quarto com ela. De porta fechada. Com alguns sons ouvidos na surdina.
Voltei à depressão destes dias. Sentei-me no fundo do sofá. A olhar para a televisão. E vi os Mossos de Esquadra a carregarem a torto-e-a-direito sobre tudo o que se mexia. Vi chineses com máscaras hospitalares a partirem montras, furiosos. Vi chilenos frustrados a deitarem abaixo estátuas das praças, largos e rotundas de Santiago. Vi gente na rua de punho no ar. A gritar palavras de ordem. Vi crianças. Velhos. Mulheres. Índios. Caucasianos. Asiáticos.
Tentei imaginar o que se passava no quarto comigo e a vizinha de cima mas não consegui ver, ouvir, imaginar nada. Um vazio. Um nada, era tudo a que conseguia ter acesso.
Então, ouvi a porta do quarto a abrir. E ouvi. Ouvi a voz dela a chamar-me. Anda. Anda cá. Eu levantei-me e imaginei-me numa ménage com ela e eu em duplicado. E então ela disse o meu nome. Ela disse o meu nome.
E eu, apático, respondi Hum?!
E ela estava à entrada da porta de minha casa e chamava-me pelo meu nome para me despertar do torpor em que tinha caído, com o prato coberto por uma folha de alumínio na mão.
Senti-me envergonhado. Por ter pensado o que pensei dela. Por ter feito o que fiz dela. Pelo que ela possa ter percebido do que eu tinha imaginado fazer com ela.
E respondi-lhe Obrigado!, e fechei a porta da rua devagar sobre a cara dela. Uma cara admirada com a minha falta de educação.
Regressei ao sofá. Deixei-me afundar no sofá. Tirei uma broa e dei uma deitada. Soube-me bem.
E disse Gosto destas broas de batata doce. Obrigado, vizinha! E continuei a comer o resto da broa, enquanto, na televisão, uns polícias com ar de Exterminadores Implacáveis corriam toda a gente à bastonada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/27]

Atento

Quando o vi, a minha primeira reacção foi vomitar. Apoiei-me na parede, o corpo curvou-se para a frente e vomitei sobre as sapatilhas. Limpei a boca à manga da camisola. Virei-me e procurei-o de novo.
Já não o vi.
Ainda dei algumas voltas pelas ruas adjacentes, mas não voltei a vê-lo. Pensei que não estivesse por cá. Pensei que tivesse ido embora da cidade. Na verdade nunca pensei. Presumi que sim. Que depois de tudo o que se tinha passado, ele tivesse ido embora da cidade.
Agora estou a tremer. Fiquei nervoso. Fiquei nervoso ao vê-lo.
Sento-me no lancil do passeio. Não consigo andar. Preciso de descansar. Preciso de pensar noutras coisas. Acendo um cigarro. Encosto-me ao marco do correio.
Passa um polícia. Olha para mim. Aproxima-se e pergunta Está tudo bem?, ao que respondo Só uma quebra de tensão, senhor agente. Não quero ter de explicar tudo outra vez. Mais uma vez. Reviver tudo de novo. Não, não quero. Por isso digo Só uma quebra de tensão!
O polícia insiste. Se calhar pensa que estou na ressaca. Insiste Precisa de alguma coisa? Quer que chame os bombeiros? E eu volto a fugir à justificação. Obrigado, senhor agente. É só fumar este cigarro que já fico bem. Mostro-lhe o cigarro nos dedos. Também o olho.
O polícia ainda olha um pouco para mim. Depois levanta a mão, numa forma de cumprimento, e segue o seu caminho, de bloco na mão. Vai olhando os bilhetes nos tabliers dos automóveis.
Eu fumo o cigarro e sinto-me descontrair. Por instantes esqueci quem vi. Por instantes regressei ao esquecimento.
Acabo o cigarro. Levanto-me. Sinto-me mais calmo. Regresso ao meu caminho, mas vou atento. Os meus olhos percorrem todas as caras com que me cruzo, as que vejo à distância, as que passam, rápidas, pelo canto do olho.
No início pensei muitas vezes no que lhe faria se me cruzasse com ele. E desenvolvi muito modelos gráficos da minha vontade. Depois fui deixando de pensar nele e no que aconteceria se me cruzasse com ele. Não que tivesse esquecido, perdoado, ultrapassado tudo. Mas o tempo ajuda-nos a livrar do mal. Segui em frente. O melhor que consegui. Que pude. Ainda pensei mesmo que tivesse saído da cidade e ido, sei lá, para fora, para o estrangeiro, recomeçar a vida longe, longe de tudo isto, longe de mim e das minhas dores.
Lembro-me que cheguei a comprar um revólver. Ainda andei uns tempos com ele, mas acabei por o lançar ao rio. Não gostei daquilo em que me estava a tornar. Depois andei com um facalhão de mato. Pelo menos, não era a brutalidade de uma bala disparada à distância, sem pensar. Para o facalhão tinha de me aproximar dele e espetar-lho. Sentir-lhe a dor. O grito. Ver o sangue a jorrar, provavelmente para cima de mim. Guardei o facalhão na arrecadação, junto com as revistas do Tarzan do Burne Hogarth. Depois só trazia o canivete-suíço. Hoje, nem isso.
Mas agora que o voltei a ver, já não sei. Já não sei nada. Dói-me o estômago. E a cabeça. Espero não voltar a vê-lo. Nunca mais. Mas estou atento.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/16]

A Malta de Chicago

Tudo começou quando os ultraliberais chegaram ao Parlamento. Não demorou até conseguirem maioria e formarem governo. A Malta de Chicago, como entre eles se denominavam, puseram o país de pernas para o ar. Às vezes, virar as pernas para o ar pode não ser mau. Aqui, naquela altura, foi. Ainda é.
Logo na chegada ao Parlamento gritaram ao que vinham. Ocuparam espaço nas redes sociais a ilustrar os amanhãs gloriosos onde o homem poderia ter direito de escolha. Não era Liberdade. Não era Segurança. Nem era Riqueza. Era Escolha. Essa era a palavra de ordem que começaram a disseminar como vírus: Escolha. Como se a Escolha fosse uma possibilidade para a maior parte da população.
A juventude e a comunicação fácil criou algum élan ao grupo e, desde o início, a aprovação das ruas superou a representação no Parlamento. Não causou, por isso, estranheza quando, nas eleições seguintes, a meio do mandato por queda do governo de esquerda que começou, aos poucos, a perder a rua, ganhou as eleições com maioria absoluta.
A Malta de Chicago foi buscar votos a muitos lados do espectro político. À direita mais conservadora, que os viam como o mal menor (antes ultraliberais que socialistas), aos sociais-democratas, em extinção depois de uma guerra fratricida entre as várias cambiantes dentro do partido, que acharam por bem migrarem para aquele que já tinha sido um sonho de uma parte do partido, à esquerda desiludida com a falta de investimento na saúde, na educação, e iludida com esse chamariz da Escolha, de poderem colocar os filhos nas escolas preferidas. O Estado não paga a escola, paga o aluno. Pois, mas as escolas escolhem os alunos. Não há lugar para todos. Não há, com certeza, lugar para alguns deles. Há que fazer selecção. E foi o que foi feito.
Não tardou que a escola pública se degradasse e fosse residual. Muitas crianças já não conseguiam ir à escola. Mas havia trabalho. Havia sempre trabalho para os jovens empreendedores que não tivessem medo de fazer dinheiro.
Não tardou que os hospitais públicos se degradassem e os que restavam fossem meia-dúzia ao longo do país. Poucos médicos nos hospitais públicos. Poucas condições. O INEM, deficitário, foi extinto. Sociedades privadas de bombeiros e paramédicos começaram a fazer o trabalho do INEM. Mas era necessário ter seguro. Seguro privado. Seguro privado pago e em dia. Seguro que a maioria da população não tinha. Começou a morrer gente nas ruas, nas estradas, à entrada das portas fechadas dos hospitais.
Eu penso sempre que foi aqui que morreu a época do humanismo e começou a época da ganância financeira extrema. O dinheiro era Deus e a religião o pão e a filosofia.
A verdade é que tudo começou a ser pago. Um bebé já nascia com a dívida dos pais. Com dívidas não se podia votar. A Malta de Chicago eternizou-se no poder. Não havia quem não tivesse dívidas. Dívidas criadas para se poder viver. A única coisa que ainda não se pagava era o ar que se respira. Mas não sei até quando. Já ouvi uns zun-zuns.
O Estado ficou mesmo mínimo e as grandes corporações conduzem o Estado que finge que conduz o país.
É estranho tudo isto. Olho para trás e lembro-me como a vida era. Difícil, mas correcta. Não há muito tempo. Quase ontem.
Acendo um cigarro. Tusso. Dói-me a perna.
Um paramédico chega-se a mim e diz Se fumar esse cigarro terá de pagar uma taxa extra no transporte. Se houver transporte!…
Eu continuo a fumar o cigarro. Desvio o olhar do paramédico. Estou sentado no lancil do passeio. Tenho a perna em sangue. Acho que não está partida, mas deita muito sangue. Os paramédicos não a podem verificar nem levar-me para o hospital até confirmar que o seguro está pago. Eu já disse que está pago. Mas eles têm de confirmar a minha conta. Parece que há uns problemas no site. Ainda não conseguiram aceder à conta.
E eu espero.
Sentado no lancil com a perna a sangrar e cheio de dores.
Olho o fumo que sai do cigarro. Através do fumo do cigarro vejo a mota que me bateu. A mota está caída no asfalto. Aquilo é sucata. Está toda partida. Destruída. O miúdo que me atropelou já foi para o hospital. Golden Card. Eu tenho de esperar. O meu cartão… O meu cartão não é Golden Card. Não sou um gajo de Chicago.
Acho que ainda vou acabar por ir a pé para casa. Espero ter lá betadine.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/10]

A Celebrar o Equinócio de Outono

Estava toda a gente contente e triste ao mesmo tempo.
Estavam contentes porque celebravam o equinócio de Outono e, ao mesmo tempo, tristes por dizerem adeus ao Verão, às férias, ao calor e à vitamina D.
Mas estavam enganados.
O Verão não estava a acabar. Agosto já tinha partido, sim, era verdade. Setembro estava a chegar ao seu fim. O equinócio de Outono dizia-nos que estávamos a mudar de estação mas, na verdade, e eu sentia-o nos ossos, o frio ainda vinha longe e a praia ainda tinha muito para me dar.
Tenho ido todos os dias à praia. Ainda não é tempo das marés-vivas. Tenho mergulhado no mar. Todos os dias. Deito-me na areia e deixo-me lamber pelo sol.
Ainda ando de calções. T-shirt. Uso o cabelo curto. Às vezes boné para proteger a cabeça dos excessos de raios solares, principalmente nas horas mais quentes.
Mas já ninguém mais vem à praia. Pelo menos a esta aqui, onde estou agora, nu, com ela em cima de mim, a saltar em cima de mim a celebrar o equinócio. Com doçura. Com violência. Arranhou-me o peito. Fez sangue.
Celebra, miúda. Celebra comigo.
O mar está tranquilo. A água está fria, mas é o Atlântico, não é de se esperar outra coisa.
Estou deitado de costas na areia. Ela está sentada em cima de mim. Pula devagar. Por vezes mais depressa. Ginga as ancas com mestria. Eu olho o cimo das arribas e penso se ainda andarão por lá os mirones de Agosto. Se alguém está lá ainda a masturbar-se com a visão da performance sexual dela ou se está a gravar a nossa história para fazer um filme e colocá-lo no PornHub.
Estamos, também, a celebrar o equinócio à nossa maneira. Mais ela que eu. Eu estou mais concentrado em listar a equipa do Benfica que jogou no Sábado passado e não me vir depressa demais e deixá-la frustrada e furiosa com os seus desejos não cumpridos.
As cidades voltaram a encher-se de carros. Os transportes públicos voltaram a encher. Os estudantes ocupam as ruas com as suas manifestações pelo clima. Os partidos políticos, alheados do presente, mantêm as suas campanhas velhas e com cheiro a mofo, em arruadas, festas e debates onde não se fala de nada que interesse às gerações mais novas mas a mesma lenga-lenga de sempre, a esquerda, a direita, a maioria absoluta, os funcionários públicos, os professores, os enfermeiros, a tourada, a carne de vaca, a social-democracia na boca de todos e todos a jurar, a pés-juntos, que só eles conseguem estancar o aumento da pobreza e a falta de perspectivas de trabalho digno para o grosso da população que não tem as valências necessárias para as exigências do futuro.
Ela grita agora um pouco, embora tente abafar o grito, e eu penso que o salário mínimo são seiscentos euros. Seiscentos euros.
E acabo por me esquecer da equipa do Benfica e do valor do salário mínimo nacional e deixo-me ir com ela, para dentro dela e sinto-a tombar sobre mim e não sei se é verdade ou mentira, se ela chegou onde queria chegar ou só não quer que eu me sinta diminuído na minha evidente fragilidade sexual perante ela.
Enfim.
Ela levanta-se. Dá-me a mão. Ajuda-me a levantar. Vamos os dois de mãos dadas ao mar. Mergulhamos no Atlântico. Gritamos com o frio da água, mas rimos de estarmos ali assim, sozinhos, a viver o nosso Verão dentro do Outono e a pensar que Agosto é quando queremos e nós queremos Agosto agora, em plena celebração de um equinócio que também nós vivemos.
Aproveitamos uma onda para sair do mar e voltamos para as toalhas para aproveitar mais um pouco de vitamina D.
Mais tarde sairemos daqui. Subiremos à arriba. Iremos beber um copo de vinho branco. Petiscar uns camarõezinhos da Figueira. Olhar um para o outro. E iremos rir como parvos.
Como gostamos de ser parvos! E iremos rir de novo. E eu irei pensar se, um dia, irei encontrar a minha cara no PornoHub. Mas não estarei preocupado. Nem triste.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/23]

O Prego

Eu olhava o pé e via o prego lá espetado. Havia sangue a escorrer para os lados.
A minha mãe tinha-me avisado Não andes descalço, rapaz! e eu, enfadado, dizia Estou de chinelos, mãe! ao que ela respondia É a mesma coisa!
Ela tinha razão. Nos sítios por onde eu andava, naquele Verão quente e solitário, o único miúdo da rua a ficar em casa nas férias, não havia dinheiro para os habituais quinze dias na praia da Vieira, andar com aqueles chinelos de borracha de enfiar no dedo era o mesmo que andar descalço.
E era.
Quando pisei a tábua com o prego, comprovei. O prego furou a borracha e o meu pé como se cortasse manteiga quente. Só dei por ela quando o prego estava já todo enfiado.
Nem percebi.
Andava pelos estaleiros da rua. Tempos de prosperidade no país. Novas casas. Novos prédios. Novas ruas. Nunca se tinha visto nada assim ali na zona.
Nós, eu e os outros, subíamos ao alto dos prédios e voávamos para os montículos de areia que estavam por ali, como pequenas dunas, à espera de fabricarem cimento. Quem não voasse era medricas. Quem é que não voava?
Naquele Verão solitário vagueava por lá, a fazer tempo, a queimar dias até à chegada dos outros miúdos, parceiros da bola.
De manhã ficava em casa a ler. Li muito nessas férias. Depois de almoço, saía de casa e aventurava-me sozinho pelas ruas novas. Os calções a cair pelo cu abaixo, os chinelos a bater na planta dos pés, chlep-chlep.
Procurava tubos de PVC para fazer cornetas. Martelos perdidos. Cheguei a trazer uma porta de madeira, dois cavaletes e uma plaina.
Já me tinha arranhado. Nunca tinha espetado um prego no pé.
Agora já tinha um. Olhava para ele. O prego espetado no pé. O sangue a cair. Comecei a sentir náuseas. Dor de cabeça.
Pensei Puxo o pé de uma vez.
Tentei, mas não consegui. Não consegui sequer mexer o pé.
Lembro-me da primeira vez que voei para um monte de areia. Saltei do primeiro andar. De uma varanda aberta de um primeiro andar. Lembro-me de me sentir o Super-Homem enquanto voava da varanda para cima do monte de areia. Um pássaro. Um avião. Eu!
Baixei-me para ver o tamanho do prego. O tamanho do buraco. A quantidade de sangue. Senti o olhar fugir. A cabeça começou a rodar numa espiral. O sangue desapareceu. O prego desapareceu. O buraco não existia. Doía-me a barriga. Chegaram os vómitos.
Eu disse, baixinho Mãe!
E ouvi-a dizer Eu avisei-te! mas se calhar imaginei.
Vomitei. E depois senti que o chão já não existia debaixo de mim e o mundo era uma mancha preta no vácuo.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/30]

Alguém Bate na Janela do Quarto

Já passa da meia-noite. Desço a Mouraria. Há silêncio no bairro. Ouço, ao longe, um rádio que transmite uma canção. Não distingo o idioma. Está muito distante. Mas não é português. Não saberia dizer o que é. Não reconheço estas línguas asiáticas. Soam-me todas ao mesmo. Sei que não são. A falha é minha.
Desço devagar com medo de escorregar nesta calçada suja e escorregadia. Não há ninguém nas ruas. Ou quase ninguém. Vejo um homem a fumar um cigarro à janela, emoldurado por uma luz amarela que vem por trás. Está de camisola de alças. Está calor. Ele olha para mim e segue-me com o olhar enquanto fuma o cigarro. Não está a observar-me. Exercita o olhar. Descontrai. Olha para mim porque estou em movimento.
Mais à frente cruzo-me com alguém que deve ser autoridade. Pela farda. Mas não me parece polícia. Talvez seja um guarda-nocturno. Não sabia que ainda existiam.
Continuo a descer. A Mouraria é sempre a descer. Sinto, no ar, cheiros diferentes do meu habitual. Mas não tão intensos quanto os que sinto quando aqui passo de dia e os restaurantes indianos, paquistaneses, nepaleses, do Bangladesh e até um chinês, na rua mais em baixo, estão a funcionar em pleno para servir, na maior parte dos casos, gente da terra.
Gosto de vir comer por aqui. No início cheguei a ter algum receio de me fazer mal ao estômago. Não estou habituado a estas especiarias. Mas passei incólume pelo baptismo. Já lá vão muitos anos desde que andei por aqui a primeira vez. Mas está quase tudo na mesma. Quase. Os anos não passam por estas ruas. Mas já começaram a chegar os novos empreendedores.
Já passa da meia-noite e o bairro parece dormir. Não há um bar. Um café. Um restaurante mais tardio. Está tudo fechado. As luzes desligadas. Pelo menos pelas ruas que eu vou serpenteando enquanto vou para baixo, para a baixa da cidade. Permanecem os candeeiros públicos. De luz amarela. Não intrusiva.
Ouço os meus passos ecoados nas paredes silenciosas do bairro. Não há ninguém.
Atrevo-me a descer por ruas mais esconsas e escuras. Ruas onde nunca passei. Procuro vida. Mas acho que está toda a repousar.
Do fundo vejo subir um homem. De mãos nos bolsos. Mochila às costas. Como eu. Também desço de mãos nos bolsos. De mochila às costas. Cruzamos-nos a meio da descida e ele diz-me Boa-noite! Eu respondo com outro Boa-noite! É brasileiro. O sotaque dançado em forma de samba. A cara, um pouco na sombra de uma iluminação pública suave, e vista somente de relance, não parecia a de um homem a dar largas ao seu samba, mas já imerso no fado. Acho que senti dor. Mas talvez a dor fosse minha. Talvez me tivesse visto nele. Sozinho. De mochila às costas. Perdido na cidade. A tombar sobre qualquer coisa que me magoa o corpo e que só vou descobrir mais tarde quando me lançarem uma mão para me levantarem.
Acabo de descer a ladeira. Não escorreguei. Não caí.
Ao contrário do resto do caminho que fiz, agora aqui, em baixo, nesta rua sinuosa e comprida, há gente. Pouca gente, mas alguma. Gente com má vida às costas. Dois rapazes estão tombados nos degraus do pequeno largo que pontua a rua. Uma rapariga, fuma um cigarro e olha em frente. Não me vê. Não me sente passar por trás dela. Eu continuo. Depois ouço, sonoro na noite Oh, foda-se! Acorda, caralho! Levanta-te. Temos de ir lá acima senão o gajo vai-se embora.
Eu ainda viro ligeiramente a cabeça para trás e vejo a rapariga. A abanar um dos rapazes. Cigarro ao canto da boca a cuspir palavras. Anda, porra!
Há muito lixo na rua. Nesta rua. Lixo ao lado dos caixotes. Mas espalhado em volta. Como se alguém tivesse andado a remexer nele. Cheira mal. Vejo restos de comida. Parece-me comida. Caixotes. Muitos cartões. Papel. Algum plástico. Não vejo cães. Nem gatos. Talvez ratos. Acho que vi ali agora um a passar.
Encontro a porta do meu destino. Está aberta, a porta. Está sempre aberta. Acendo a luz do telemóvel para ver nas escadas. Para ver onde ponho os pés. Há muita sujidade. Papéis. Beatas. Uma bota rota. Não vejo seringas. Já não é mau.
Abro a porta do apartamento e sigo para o meu quarto. Está abafado. Cheira a humidade. Abro a janela do quarto e lembro-me que a janela não dá para a rua. Dá para outro quarto. Só me lembro quando abro a janela para trás, para entrar um pouco de fresco da noite, e vejo passar, molhada, com uma toalha enrolada à volta do corpo, uma mulher que, pelos vistos, é a minha vizinha.
Corro a fechar rápido a janela. Fecho-me no quarto. Eu e o cheiro a humidade.
Deito-me sobre a cama. Acendo um cigarro. Penso que não devia estar a fumar no quarto fechado. Mas não me apetece ir à rua para fumar. Quero estar na cama. Quero enterrar-me na cama. Afundar-me na cama. Fundir-me com a cama.
E é então que ouço bater na janela do quarto.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/30]