Más Memórias de Coimbra

Ir a Coimbra traz-me sempre más memórias.
Nos meus últimos anos, Coimbra tem sido os Covões e o IPO. Com passagens rápidas pelo Fórum para comer junk food.
Nem sempre foi assim. Coimbra já me foi a cena da música, dos festivais de Música Moderna, do States, dos É Mas Foice e dos Tédio Boys. Também já foi do teatro. E dos Caminhos do Cinema Português. Coimbra já me foram as madrugadas a vomitar pelo Quebra Costas e os pequenos-almoços em tascas com história depois de noites loucas no Via Latina. O que Coimbra nunca foi, para mim, foi a cidade dos estudantes e a universidade, se bem que até tenha por lá passado durante uma queima-das-fitas e tenha andado ao murro com uns gajos do rugby por causa de uma gaja.
Esse tempo já lá vai. Envelheci. Deixei de andar ao murro e aprendi a nunca mais me meter com os tipos do rugby. Deixei de ir a discotecas e bares e deixei de vomitar pelas sarjetas nas ruas da cidade. E acho que Coimbra acompanhou este meu envelhecimento. Esta outra Coimbra, pelo menos. A dos médicos e enfermeiras e medicamentos e consultas.
Nestes últimos anos tenho andado a pagar a factura dos anos de irreverência juvenil. Sinto-lhes a culpa.
Começou com os Covões. Ultimamente é o IPO.
Tudo isto seria suportável. O difícil é cá vir. Sair de casa. Sair de casa de manhã, num dia de chuva como o de hoje, fazer a auto-estrada atrás de um camião que mija de chuveiro para cima do pára-brisas. Parar na estação de serviço de Pombal para beber um café queimado e fumar um cigarro, à pressa, como um agarrado necessitado da próxima dose de nicotina, e que me deixa enjoado. Apanhar a hora de ponta de entrada na cidade. Arranjar um lugar, só um!, lugar vago para o carro enquanto vou ao IPO. Procuro em ruas cada vez mais distantes do portão de entrada. Às vezes penso estacionar o carro em Leiria e apanhar o expresso. E depois são as horas de espera em salas fechadas, de janelas seladas, sem ar-condicionado, na companhia de gente tão mais triste que eu. Ouço-lhes as tosses e as respirações pesadas. Vejo-lhes os cabelos rapados. E o cheiro? O cheiro a humidade, mistura de perfumes baratos e transpiração. Em dias como o de hoje é difícil fugir ao cheiro a mofo. No Verão é o chulé de pés enfiados em sandálias de plástico compradas numa loja do chinês onde a grande maioria das pessoas ainda têm carteira. E sempre, sempre, o cheiro a mijo.
Aguardo. Aguardo sentado em cadeiras rijas, impróprias para quem está com problemas de saúde, ao lado de gente a sofrer mais que eu, em frente de gente que tosse e espirra para cima de mim. Estamos todos juntinhos, colados uns aos outros, transpiração colada a transpiração. Quase que ouvimos os pensamentos uns dos outros. As esperanças frustradas. Os futuros hipotecados. A morte no horizonte. A desgraça. A puta da desgraça. A puta da desgraça do outro que é sempre pior que a minha.
Acabo sempre por pensar que, no meio de tudo aquilo, sou um sortudo. Não sou dos piores. Eu ainda tenho futuro. Um futuro de merda quando olho para a conta bancária. Mas um futuro, mesmo assim.
Passam minutos. Que se tornam horas. O rabo fica dormente naquelas cadeiras rijas. Já me coço todo. A cabeça. Os tornozelos. Já não sei como estar. Levo um livro que não leio. O telemóvel que não apanha Wi-Fi. Levanto-me. Dou o lugar porque já não consigo mais estar sentado.
E finalmente lá vou eu. Entro e saio. Temos de controlar, ouço. Tomar atenção, ouço de novo. Olha para uns exames. Analisa. Decifra. Eu não percebo nada do que vejo, do que ele vê. Ouço o que diz e esqueço. Há quem queira saber tudo. Ouça tudo. Tente decifrar. Procurar na net. Eu não. Eu não quero saber. A minha ignorância mata o mal e livra-me da ansiedade. Não quero saber. A minha morte será inesperada. Pelo menos, para mim.
Saio para a rua. Continua a chover. Mas sabe-me bem as gotas de chuva na cara. Sentir aquele frio sobre mim. A água que escorre pelo pescoço abaixo. Vou para o carro com o guarda-chuva fechado. Caminho à chuva. E sinto-me recuperar.
Antes de por o carro a trabalhar penso que é melhor ir comer qualquer coisa antes de ir embora.
É então que vou ao Fórum. Mais uma vez vou comer ao Fórum. Penso que no meio de tanta oferta gastronómica, poderei escolher qualquer coisa de diferente. E acabo, invariavelmente, de cada vez e todas as vezes, a optar por um McRoyal Cheese. Coca-Cola. Batatas fritas. Sozinho numa mesa solitária. Afastado de toda a gente. Grupos de miúdos da escola à galhofa. Rapariguinhas do shopping a contar segredos umas às outras. E eu ali, num canto, solitário, com um hambúrguer na mão, a pensar… Não, não estou a pensar. Naquela altura não estou a pensar em nada. Deixo-me estar em silêncio a enfiar o hambúrguer pelas goelas e a despejar a cola para desembuchar. E vejo a vida dos outros. Se eles soubessem!…
Depois pego na minha solidão e levo-a de novo para casa. Mas volto atrás. Pego no tabuleiro e liberto a mesa.
Faço o caminho de regresso à chuva, outra vez, com a rádio ligada e as notícias do dia em loop. Mas esqueço-me que vou na estrada. Na auto-estrada. A cabeça voa. Vai não sei onde. Perco-me a mim e a ela. Quando desperto, estou parado à porta de casa.
E antes de sair abano a cabeça e tento esquecer Coimbra. Coimbra traz-me más memórias.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/21]

Convite para Jantar

Todos os dias eu saía e ia fumar um cigarro à rua enquanto esperava que ela viesse almoçar a casa. Eu fumava o cigarro. Ela chegava. Entrávamos em casa e almoçávamos. Normalmente ela fazia o almoço de véspera. Depois aquecíamos no micro-ondas. Às vezes eu fazia o almoço no próprio dia, em dias de mercado.
E foi sempre assim, durante muitos dias, até ao dia em que ela não veio almoçar.
Depois desse dia, eu nunca mais fui à rua fumar um cigarro enquanto esperava por ela. Ela já não vinha. Passei a fumar à janela.
Foi também depois desse dia em que ela já não veio que me afastei ainda mais do mundo exterior. Isso já tinha acontecido por causa dela. Tinha deixado de sair à noite. Tinha deixado de estar com os meus amigos. Bebia copos em casa com ela. Conversava com ela. Petiscava com ela. Discutia com ela. Fazia amor com ela. Vivia para ela.
Quando ela deixou de existir cá em casa, eu não soube bem o que fazer. Mas já não conseguia voltar no tempo. Já não conseguia voltar aos amigos que tinha deixado em determinada altura da minha vida.
Passei a ficar em casa. Sozinho. A beber sozinho em casa. A comer sozinho em casa. Às vezes falava alto para comigo para ouvir a minha voz. Para ouvir uma voz. Para ouvir uma voz em casa. Às vezes até me zangava comigo.
E passou muito tempo, e eu passei muito tempo assim. Passaram mesmo alguns anos. E habituei-me a estar sozinho. Gostava de estar sozinho.
Por isso foi com estranheza que recebi aquela mensagem no telemóvel.
Estava à mesa da cozinha, a escrever no computador, na companhia de um copo de vinho tinto e um cigarro aceso que os pulmões estavam a fumar, quando ouvi o sinal sonoro de chegada de mensagem ao telemóvel. Olhei em volta à procura dele. Vi a luz acesa em cima da bancada. Levantei-me. Agarrei o telemóvel, abri a mensagem e li Vamos jantar no Sábado ao sítio do costume. Temos saudades tuas. Aparece. Assim, três pequenas frases com pontuação.
Larguei o telemóvel de novo na bancada. Apaguei o cigarro na água da torneira do lava-louças. Fui até à mesa e bebi um gole de vinho.
O que é que aquela mensagem quer dizer? perguntei-me.
Fui até à janela. Olhei para a rua. A cidade continuava a viver indiferente à minha ausência.
Porquê agora, ao fim de tanto tempo? continuei a perguntar-me.
Agarrei no telemóvel e respondi Está bem.
No Sábado seguinte tomei um banho de imersão. Fiz a barba. Rapei mesmo os pêlos. Com lâmina. No fim nem me reconhecia. Vesti roupa lavada. Meias que não estavam rotas. Uma camisa passada a ferro. Um casaco sem nódoas e sem vincos.
Ao início da noite saí de casa.
Estava a chover.
Levei chapéu-de-chuva e fui andando pela cidade, debaixo dos beirais, até ao restaurante. Quando vi a entrada, do outro lado da estrada, parei e acendi um cigarro. E fiquei ali à chuva, debaixo do chapéu, a fumar o cigarro. Vi gente a entrar. Não sei se conhecia alguém. Estava demasiado longe da porta para perceber quem seriam as pessoas que vi entrar. Estava demasiado nervoso. Acabei o cigarro e arranquei até ao restaurante. Cruzei a estrada. Olhei para um lado. Para o outro. E passei. Levei a mão à porta para abri-la e parei. Olhei lá para dentro. Para dentro do restaurante. Vi uma mesa que eram várias. Uma mesa comprida para muita gente. Muita gente que estava lá em pé, a socializar, de copo de imperial na mão, na conversa. Na conversa uns com os outros. E eu não reconheci ninguém. Mesmo os que conhecia, não reconhecia. Quem eram aquelas pessoas? Para onde é que eu estava a ir? Com quem é que ia ter?
Ouvi um Desculpe! Com licença!, e cheguei-me para o lado e, um casal, um homem e uma mulher, entraram dentro do restaurante e vi-os irem ter com as outras pessoas que já lá estavam e cumprimentarem-se. Estavam contentes. Viam-se alguns sorrisos.
Afastei-me do restaurante. Caminhei por algum tempo pelo meio da estrada. Não havia trânsito. Mas chovia. Chovia bastante.
E depois disse, baixo, mas alto o suficiente para me ouvir Vou passar pelo Pingo Doce e comprar uma coxa de frango assada.
Acendi um cigarro e pus-me a fazer o mesmo caminho que tinha acabado de fazer, mas no sentido contrário. Ia regressar a casa. Com um desvio pelo Pingo Doce. E ainda pensei Que pena não haver outro supermercado na cidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/20]

O Banco de Jardim

A primeira vez que tivemos relações sexuais foi num banco de jardim, junto ao rio, no Marachão, depois de uma festa dos anos ’80 a que acabámos por não ir.
Foi a única vez que fizemos sexo, um com o outro, na rua. Foi também a melhor e mais intensa noite de sexo que alguma vez tivemos juntos. A partir daí, e enquanto durou a relação, foi sempre a descer. Mais para cumprir calendário que por desejo.
Não sei se ela se equivocou comigo ou se aquela noite foi só o resultado de uma bebedeira. A verdade é que estávamos os dois ardentes e cheios de vontade um do outro. A verdade é que, naquele frio, junto ao rio, ardemos.
Tínhamos estado num bar. Foi aí que metemos conversa um com o outro. Amigos comuns. Uma gargalhada. Uma resposta mais irónica. Um sorriso nos lábios. Um pouco de arrogância. Algumas opiniões avulsas sobre a vida e a morte, e o desejo acabou por fazer o resto. Perdemos os amigos comuns que se evaporaram na noite. Ficámos a beber. Eu e ela. Primeiro andámos pela cerveja, mas depressa migrámos para o gin. Acho que queríamos acelerar a noite. Eu pelo menos sim, queria acelerar a noite e ir longe com ela.
Hora de fechar. Fomos postos na rua. Havia uma festa dos anos ’80 na cidade. Lancei a ideia. Foi aceite. Cruzámos a cidade na conversa. Eu a fumar. Cigarro atrás de cigarro. Eram os nervos. Ela não fumava. Nem falava. Eu falava. Eu falava e fumava. Ela ouvia. Ouvia-me.
Chegámos aos anos ’80. Eu estava um bocado maldisposto. Tinha perdido a conta aos gins. Ela disse para darmos uma volta. Para eu arejar. Acabámos por não entrar pelos anos ’80. Ela nem era assim tão fã de festas, muito menos dos anos ’80, disse. Assim Não faço grande questão em entrar. Nem gostei muito dos anos ’80. Vamos dar uma volta. E fomos. Fomos passear junto ao rio. Pelo circuito da Polis. Seriam, o quê?, três, quatro da manhã. Já me tinha passado a má disposição. Acendi um cigarro. Ela sentou-se num banco de jardim. Sentei-me lá ao lado dela. Depois, mão-na-mão. Boca-na-boca. Mão numa mama. A língua solta. Esperar a reacção. Quando dei por mim já estava com as calças ao fundo das pernas. Ela também. Foi tudo assim muito rápido, muito intenso, muito desejo.
Ficámos lá sentados por muito tempo, no depois, sentados no banco de jardim. Em silêncio. De mãos dadas. A sentir a água a correr no rio que não víamos porque estava escuro. Eu fumei outro cigarro. E depois ela disse Está frio. E estava. Estava frio. Dei-lhe o meu casaco. Fiquei de t-shirt a berrar frio. Senti um arrepio. E ela disse É melhor ir para casa. E eu acompanhei-a.
À porta de casa disse que era melhor eu não subir. Era tarde. E era cedo.
Foi a primeira e a única vez que não subi. Na semana seguinte estava a viver com ela.
Eu continuei a beber. Passei da cerveja e do gin para o vinho tinto. Ela passou para o chá. Desencontrei-me dela. Ela perdeu-me. Depois já éramos só a lembrança de uma noite.
Um dia ela disse Já não vale a pena. É melhor ires embora. E eu fui.
Nunca mais a vi.
Sempre que passo no Marachão, junto ao banco de jardim onde estive com ela, lembro-me dela. E do que aconteceu.
Hoje passei ao pé do banco. Estava vazio. O rio cheirava mal. Estava sujo. E corria uma aragem desagradável.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/18]

Regresso à Cama

Acordo. Há pouca luz. Já é de manhã mas, o tempo cinzento e a chuva escondem a luz que podia já estar a iluminar o quarto.
Estou de olhos bem abertos. Podia virar-me para o lado e tentar dormir, mas sei que não vou conseguir. Muitos anos a acordar a esta hora. Já conheço a rotina. Sei que não consigo voltar a adormecer.
Ela está aqui ao lado. Dorme. Sinto-lhe a respiração profunda, descansada.
Saio nu da cama. A casa está quente. Foi uma boa ideia, o recuperador de calor.
Vou à cozinha. Ponho café a fazer. Espreito à janela. Chove. Chove muito. Chove tanto que não se vê nada para além de dois ou três metros daqui da janela. Mal vejo o prédio em frente. Deve estar frio na rua. A casa está quente. Estou nu e estou bem. Foi uma boa ideia o recuperador de calor.
Tomo banho.
Visto uma calças. Bebo café. Vou até à janela de novo. Acendo um cigarro. As manhãs de Domingo são difíceis. Nunca sei muito bem o que fazer. Vou à rua. Compro o jornal. Bebo um café expresso. Como um croissant folhado simples. Às vezes com manteiga. Às vezes com doce de morango. Fumo um cigarro. Venho para casa. Faço o almoço. Almoço. À tarde passeio junto ao rio. Vou ao futebol. Leio um livro. Quando dou por mim já é de noite. Vou comer uma bifana às rulotes. Gosto de estar ali assim, ao frio, a comer uma bifana grelhada e a beber uma mini na companhia de gente que não conheço de lado nenhum mas que, como eu, gostam de estar ali assim, ao frio, a comer de pé, encostados ao balcão da rulote. Há noites em que vou a pé até ao McDonald’s. Como um Royal Cheeseburguer. Bebo uma Cola. Desfaço tudo no caminho de regresso a casa. Depois faço um chá e sento-me no sofá a ver o Trio d’Ataque.
Estou cansado deste ritmo.
Acabo o cigarro. Abro a janela e mando-o para a rua. Molho-me na chuva que entra pela janela aberta naquele breve momento em que abro o vidro. Está muito frio na rua. Sinto o corpo arrepiar-se. Mas a casa está quente. Fecho a janela.
Olho para a tempestade lá fora e digo, em silêncio, só na minha cabeça, para me ouvir Não. Hoje não vou à rua.
Largo a chávena de café na mesa da cozinha. Retorno ao quarto. Gosto de sentir o chão de madeira debaixo os meus pés descalços.
Dispo as calças. Ela continua a dormir. Entro outra vez na cama. Ela vira-se para mim e abraça-me. E, sem abrir os olhos, diz Estás frio. E depois continua Cheiras a café. E a tabaco. E a champô. E a sabonete. Gosto destes teus cheiros todos.
Eu sorrio. Abraço-a a deixo-me ficar dentro da cama junto dela. Os dois nus, na cama, numa manhã de Domingo, a ouvir a chuva a cair lá fora.
Sinto a mão dela a percorrer-me o corpo. Ela repete Estás frio.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/17]

O Falhado

Sou um falhado.
Nunca consegui fazer nada que se visse da minha vida. A única coisa que um falhado faz bem é reconhecer outro falhado.
Cruzei-me com ele à entrada do café. Estendi-lhe a mão. Ele estendeu-me a dele. Apertámos. Sacudimos. Então? Como estás? Tudo bem? e as cabeças a acenar que sim, como a cabeça daqueles cães-bonecos que se abanavam nas traseiras dos carros de antigamente quando a auto-estrada começava no Carregado e antes de lá haver Campera e de podermos comprar roupas de marca a preço de saldo, num ritual sem sentido nenhum. Um ritual falso. Um ritual que é só mesmo isso, um ritual oco e mentiroso que se cumpre porque sim. Um automatismo. Na verdade nem eu nem ele queríamos estar ali. Mas estávamos. É o que acontece aos falhados. Estão lá. Estão sempre lá.
E então, dois falhados entram no café.
O que é que faz de mim um falhado? Talvez o nunca ter feito nada de jeito da minha vida. Pelo menos nada que seja traduzível em euros, honrarias e reconhecimentos.
Acabei um curso superior que não me levou para lado nenhum.
Fui abandonado por todas as mulheres que amei.
Fui despedido de todos os empregos onde trabalhei.
Perdi todos os amigos que fiz ao longo da vida.
Não estive presente na morte dos meus pais.
Não estive presente no nascimento dos meus filhos.
Todos os convites que tenho é para fazer algo à borla. Quando há orçamento não é a mim que chamam.
Tenho uma única conta no banco e, invariavelmente, está a zeros.
O meu cão mordeu-me.
O meu gato arranhou-me.
O preservativo estava roto.
Os números da minha chave para o euromilhões são sempre ao lado. Literalmente ao lado. Um número acima ou um número abaixo dos números vencedores.
Nunca ganhei nenhum prémio. Nunca ganhei nenhum concurso.
Nunca recebi nenhum subsídio.
Nunca plantei uma árvore. Nunca escrevi nenhum livro.
Escrevi poemas de merda adolescentes sobre problemas existenciais.
Antigamente era a mim que saía a fava no Bolo-Rei. O brinde, quando me calhava em sorte, ficava preso na garganta e engasgava-me. Ainda bem que os Bolos-Rei deixaram de trazer favas e brindes. De qualquer forma, não gosto de Bolo-Rei. Nunca gostei.
Aposto sempre no cavalo errado.
Todas as empresas que tentei erguer nunca saíram do chão.
Se o Benfica estiver a perder, num jogo que esteja a ver, é só deixar de ver para dar a volta ao marcador.
A canção que mais gosto na Eurovisão nunca ganha.
Nunca consegui comprar um carro e uma casa com uma cerca branca e uma casota para o cão que agora dorme na varanda.
Não tenho onde cair morto.
Sou mesmo um perdedor. Um falhado.
Mas reconheço os que são como eu. Os falhados.
Cruzei-me com ele à entrada do café. Estendi-lhe a mão. Ele estendeu-me a dele. Apertámos. Sacudimos. Então? Como estás? Tudo bem? e reconheci-me nele. Ele era eu antes de eu ser o que sou. Na altura ainda não sabia que era um falhado. Como ele ainda não sabe. Mas virá a saber. Porque vai aprender. Porque lhe vão dizer. Várias vezes. Alguns até lhe vão cuspir na cara És a merda de um falhado! como se fosse uma gripe e um tipo tivesse culpa de ter gripe.
E então, dois falhados entram no café.
Ele foi beber a sua bica. Eu acabei por voltar para trás e ficar na rua a fumar um cigarro e a pensar como a vida nos trucida. Rimos uns para os outros mas sentimos, cá dentro, o azedume que nos consome. Mentimos para que não nos julguem falhados. Rimos. Está tudo bem! Despenteamos o cabelo. Desalinhamos a roupa. Não fazemos a barba. Fumamos um cigarro. Bebemos um copo de vinho tinto. Está sempre tudo bem! Mesmo que estejamos a morrer de fome, com os bolsos cheios de comprimidos e uma navalha afiada.
Eu sou um falhado porque não consigo ser outra coisa. Eu sou um falhado porque não consigo ser um filho-da-puta.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/15]

Deitado no Chão do Corredor

Abro-lhe a porta da rua. Ela entra em casa. Estica o pescoço para o beijo da praxe. Eu agarro nela e encosto-a à parede do corredor. Ela deixa-se prender. A porta da rua aberta. Beijo-a nos lábios e deixo a minha língua percorrer-lhe o pescoço. Sinto-a ficar arrepiada. Mando-a ao chão. Puxo-lhe as calças para baixo. Ponho-me em cima dela. Estou ofegante. Ela também. Há um respirar roufenho. É tudo muito rápido. Tudo muito intenso. E como começa, acaba.
Eu ainda estou dentro dela quando ela diz A miúda precisa de dinheiro para uma visita de estudo. Eu saio de dentro dela e deixo-me escorregar para o lado, para o chão.
Ela levanta-se. Está sobre mim. Puxa as calças para cima e continua A mensalidade do carro não foi paga. Eu olho-a de baixo e vejo-a grande, gigante. Ela vai fechar a porta da rua. Faz o corredor até ao fim e entra na cozinha.
Eu fico ali deitado a pensar na vida de merda que temos. Salários baixos. Ela com trabalho certo mas um salário pouco mais que o salário mínimo e eu, eu recebo um pouco mais, com os trabalhos avulso que faço, mas nem sempre tenho trabalho. Muita ginástica para chegarmos ao fim do mês.
Ela aparece ao fundo do corredor. Vem a fumar um cigarro. Senta-se em cima do meu peito. Coloca-me o cigarro na boca, olha-me nos olhos, séria, e diz Precisamos de dinheiro para a miúda. Não lhe vou dizer que não vai. Dá-me um beijo na face, levanta-se e diz Puxa as calças para cima! e desaparece de novo ao fundo do corredor. Talvez de novo na cozinha. Talvez na casa-de-banho. Não vi para onde entrou.
Onde vou arranjar dinheiro para a miúda?
Levanto o corpo em arco e puxo as calças para cima. Mas deixo-me lá ficar deitado, no chão. Fumo o cigarro. E penso onde posso ir arranjar dinheiro.
Acabo de fumar o cigarro. Coloco a beata em pé no soalho de madeira até morrer. Tomo cuidado para não a deitar abaixo. Posso sempre vender a câmara. Sempre é uma Canon 7D. Mas quem é que vai dar o que ela vale? O que ela vale para mim?
Ela aparece outra vez do fundo do corredor com um telemóvel a tocar. É o meu. Ela passa-mo para a mão. Eu atendo. Ela vê a beata caída no chão. Faz-me má cara. Baixa-se e apanha a beata que já estava a queimar a madeira do soalho. Eu respondo Sim, está bem! para o telemóvel. Ela levanta-se e dá-me um pontapé nas pernas. Um pontapé fraco. Só para me chatear. E eu volto a dizer Sim, está bem! para o telemóvel. E desligo.
Digo-lhe Já tenho dinheiro para a miúda. E para a mensalidade do carro. E para uma garrafa de vinho. E sorrio-lhe. E ela responde Boa!, mas sem grande alegria. E eu continuo Um texto. Dois, três dias. Ela acena a cabeça ali, sobre mim.
Eu continuo deitado no chão do corredor a olhar para ela e digo-lhe Merecia um copo e vinho tinto. Ela sorri. Vai corredor fora com a beata na mão e diz Vem buscar.
Eu olho para o tecto e penso Tenho uma vida de merda mas é a minha! Levanto-me e vou atrás dela.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/13]

Dia de São Martinho

Aproximava-me de casa e sentia o cheiro. O cheiro de lareira. A lenha queimada.
A vizinha do lado já tinha inaugurado a época da lareira. Agora era diário. Todos os dias acendia a lareira. Eu sentia o cheiro logo ao início da rua. E dava-me uma certa inveja. Este ano, como no anterior, aliás, não tive dinheiro para encher o canto da garagem. Consegui só meia-dúzia de pequenos toros que roubei no que resta do incêndio do Pinhal do Rei. A caminho do Vale Furado ou da Praia do Norte, há pilhas de troncos à espera de serem levados para qualquer lado. Há dois anos. Ainda não foram. Já tentei lá ir buscar alguns, mas são pesados e não me cabem no carro. Apanhei uns toros pequenos que encontrei caídos por lá, mais uns gravetos e umas pinhas. Estou a guardar isso para a noite de Natal. Talvez também para a Passagem de Ano. Assim vou poder estar no quente enquanto vejo, na televisão, as festas dos outros. Talvez passe outra vez Do Céu Caiu uma Estrela.
Ao chegar a casa tinha sempre a esperança que a vizinha me convidasse para lá ir comer umas castanhas assadas na lareira. Mas não. Mal nos falávamos. Quando me cruzava com ela nas escadas do prédio ela olhava para mim, olhava-me nos olhos, à espera que eu dissesse alguma coisa, mas a única coisa que me saía era um monossílabo que acho que ela nem ouvia.
Sou uma pessoa tímida.
Ela também deve ser.
Eu subia as escadas. O cheiro era cada vez mais forte. No patamar do andar, encostava o ouvido à porta de casa dela, mas não ouvia nada. Nunca ouvia nada. Mas todos os dias repetia o mesmo ritual. O ouvido encostado à porta à escuta. O crepitar na lareira. A respiração ofegante da minha vizinha com algum putativo namorado. Nah! Ela não tinha namorado. Nunca vi ninguém entrar lá em casa. Mas não ouvia nada. Nenhum barulho.
Depois ia para a minha porta, abria-a e entrava em casa.
Largava a mochila com o computador no chão do corredor, à entrada, ia até à sala e deixava-me cair no sofá.
A maior parte das vezes acendia um cigarro e fumava-o enquanto olhava para o ecrã negro da televisão. Não ligava a televisão. Limitava-me a olhar para ela. E fumava o cigarro. E, depois, invariavelmente, adormecia. Acordava horas mais tarde cheio de frio e de fome. Agarrava numa manta que, afinal, estava sempre em cima do sofá e enrolava-me nela. Ia à cozinha ver o que havia para comer. Quase nunca havia nada para comer. E eu dizia, de novo, e outra vez Amanhã tenho e ir ao Supermercado! mas nunca ia. Esquecia-me de ir.
Bebia um copo de água. E ia para a cama. Às vezes deitava-me assim vestido e enrolado na manta. Mas custava-me adormecer porque me sentia preso. Assim, deitava-me vestido e enrolado, até me sentir quente e depois tirava a manta para fora. Despia-me debaixo do edredão e, então, deixava-me adormecer.
No outro dia a campainha tocou quando estava no sofá a fumar um cigarro. A mochila com o computador estava caída no corredor à entrada de casa. Perguntei da sala Quem é? E uma voz respondeu Sou eu! Eu aproximei-me da porta e espreitei pelo óculo. O eu era ela. A minha vizinha. Abri a porta. E ela disse É dia de São Martinho. Tenho castanhas assadas e água-pé. Os miúdos estão com o pai. Preciso de companhia. Eu olhei para ela surpreendido com o convite, com o cigarro preso entre os dedos da mão, e ela ainda disse E podes trazer o cigarro.
Eu fui e ainda não voltei.
Agora estou sentado na cama dela a fumar um cigarro. Ela dorme agarrada a mim. Estamos os dois nus. Eu estou a pensar no que aconteceu. E ainda não consegui perceber muito bem.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/12]