Regressar a Casa, parte 04

[continuação]

E então, o cheiro. O cheiro dos refogados da minha mãe. A cebola a aloirar no azeite, na companhia do alho picado, a abrir caminho para as amêijoas de Sábado, compradas no Mercado da cidade, o Sábado era sempre dia de peixe fresco, sardinhas, carapau, peixe-espada, às vezes uma posta de safio, às vezes berbigão ou amêijoa, o que eu gostava mais, que a minha mãe fazia com pedacinhos de toucinho para dar Um gostinho, como ele dizia, e um pouco de vinho branco para embebedar as amêijoas, e eu sentado na cama a ler uma banda-desenhada e já depois de ter despachado uma fatia de pão saloio torrado, barrado com manteiga, sentia chegar-me os odores do meu almoço predilecto de Sábado, e então, de banho tomado de véspera, levantava-me da cama, vestia-me e ia perguntar se a minha mãe precisava de alguma coisa e já sabia a resposta, Não, meu querido, obrigada, e eu afinal queria era rasgar um bocado de pão para ir ao molho que se formava no tacho enquanto se transformava aquelas conchas sem jeito nenhum num manjar dos deuses se os deuses tivessem uma cozinheira como a minha mãe, não era mãe?
Não abro os armários da cozinha mas imagino a colecção de pratos e de copos desirmanados que para lá deve haver que a minha mãe guardava tudo e nunca deitava nada fora e o que estivesse bom era guardado e por isso manteve alguns pratos que já desapareceram do imaginário de toda a gente, mas eu, quando vejo conjuntos de pratos e copos de vidro verde ou castanho (se calhar é vermelho, mas não vou abrir a porta do armário para confirmar) onde quer que seja sinto uma enorme empatia porque ter aqueles pratos e aqueles copos é uma referencia de época e apetece-me dizer Sobrevivemos, apesar de tudo.
Passo pela mesa da cozinha, deixo o meu dedo percorrer a mesa onde comi, estudei, escrevi, onde ouvi os sermões da minha mãe e do meu pai, a mesa onde disse à minha mãe que tinha entrado na universidade e ia sair de casa, e vejo o risco que o dedo deixa ao limpar uma linha de pó que tem tombado sobre a mesa depois que os meus tombaram na vida.
Antes de sair ainda reparo na máquina de lavar louça e penso que me daria jeito que a minha está avariada e mandar reparar é quase tão caro quanto comprar uma nova e agora não é boa altura para estas despesas, e por mais que goste de lavar a louça à mão, às vezes é melhor não gastar tanta água e detergente e pôr a louça na máquina (é o que me dizem: Gastas muita água gás e detergente para lavar meia-dúzia de pratos).
Regresso ao corredor. Olho para o fundo, onde ficam os quartos, e onde reina a escuridão, tenho de ir abrir as janelas, e vejo-me vir lá do fundo, pequenito, bola de cautchu nas mãos, de calções e sapatilhas, gritar um Ciao, mãe! para o ar, à espera que ela estivesse atenta e ouvisse que eu ia para o terraço jogar à bola com os amigos da rua, jogávamos Benfica-Sporting, às vezes outra coisa qualquer porque não havia paridade nas equipas, e depois chegava a casa com os joelhos esfacelados, os calções rasgados, as sapatilhas rotas, e o meu pai a ralhar comigo porque estive a jogar à bola à chuva Olha a bronquite! E eu passo por mim e não me ligo. Um de nós não está ali, é só um fantasma, uma memória que se atravessa à frente e me faz pensar se não gostaria de voltar lá atrás e refazer tudo outra vez?
Suponho que não.
Caminho pelo corredor. Entro no primeiro quarto, o quarto à direita, o quarto dos meus pais, e volto a abrir a janela, as cortinas, as persianas e os vidros e deixo entrar o ar fresco da rua naquela quarto abafado e cheio de humidade, e vejo a colcha de renda, uma colcha que a minha mãe fez, uma colcha pesada, uma vez peguei-a ao colo para levá-la à lavandaria e senti-lhe o peso, mas o quarto dos meus pais é a divisão de que tenho menos memórias aqui de casa. Recordo a época em que aguardava que o meu pai saísse de casa, sentia a porta da rua a bater, e vinha deitar-me ao lado da minha mãe. Gostava de sentir o cheiro do sono da minha mãe. A cabeça enterrada na almofada do meu pai. Não sei quando é que isso aconteceu mas é uma das poucas memórias que o quarto me traz, não era costume entrar aqui, talvez quando vinha à procura de moedas ou notas perdidas nos bolsos dos casacos e das calças do meu pai, abria a porta do guarda-fatos e enfiava as mãos nos bolsos e às vezes tinha sorte, um ano foi assim que alimentei as minhas idas aos carrinhos-de-choque na Feira de Maio.
À porta do quarto ainda olho para trás, ainda vejo a senhorinha cor-de-rosa da minha mãe mas nunca a vi lá sentada, nunca lá vi roupa caída (aliás, nunca vi roupa caída em lado nenhum, cá em casa, a não ser no meu quarto, aí havia às vezes calças caídas pelo chão, sapatilhas cada uma no seu canto, meias perdidas atrás da cama…).
Estou no corredor e avanço uns passos. Estou à frente da porta do meu quarto. Deito a mão à maçaneta.
Há quantos anos não entro na minha vida de adolescente?

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/22]

Regressar a Casa

Já lá não ia desde a morte dos meus pais. Agora precisava de ir. Não precisava mesmo. Podia não pensar em tudo o que está semeado por lá, tudo o que foi semeado por lá ao longo dos anos, dos meus anos também, durante a minha infância e adolescência, todos os segredos que fui guardando em cofres impossíveis de serem encontrados, em caixas do tempo que iria abrir alguns anos depois e que esqueci, ou perdi o interesse, não sei, há alturas na vida em que somos parvos e fazemos gala dessa parvoíce, como as cidades que deitam casas antigas, casas com história, abaixo, ou as árvores, que estão sempre doentes, nunca vi árvores para adoecer como as árvores da cidade e ao longo do rio, coitadas, sempre doentes, sempre a apodrecer, sempre a fazerem tudo para serem serradas, podadas, deitadas abaixo, às vezes também é porque tiram a vista a alguém importante, ou sujam a calçada, e para que é que interessa a sombra que fazem nas pedras de basalto da cidade quando se percorre as ruas da cidade de automóvel com motorista?
Na verdade não precisava de ir lá a casa. Podia deitar fora a chave, vender a casa a quem quisesse comprar, com ou sem recheio, segredos, livros, poemas escritos aos dezasseis anos, contos que se arrastavam em folhas soltas e que um dia iriam fazer um livro, um Epitáfio à Loucura, um nome assim pomposo na arrogância da minha adolescência, e depois largados por lá, perdidos em gavetas, no meio de livros que nunca mais abri, ficaram a apanhar pó que a minha mãe nunca mexia nas minhas coisas, era eu que limpava sempre o pó aos livros, aos discos, às prateleiras que ia enfiando no quarto, era preciso acomodar sempre mais livros que apareciam assim, às carradas, nasciam do dinheiro das senhas de almoço que não comprava, dos trabalhos que prometia à vizinhança, à minha mãe, ao meu pai, para poder ler quando descobri que havia mais gente no mundo que eu e que tinham histórias fantásticas de vidas absurdas, tão longe da minha para me contarem, e são ainda alguns destes livros que ficaram por lá, Os Cinco, os Sete, As Gémeas no Colégio de Santa Clara, O Colégio das Quatro Torres, a colecção Mistério, livros que guardei para os meus filhos e foram ficando por ali, eles cresceram, não ganharam hábitos de leitura, nunca lhes cheguei a dar os livros e eles agora não servirão para mais ninguém, nem para mim que não tenho vontade de regressar à infância, uma infância em que a vida ainda podia ser uma aventura nos Rochedos do Demónio, mas ainda por lá estarão outros livros, livros para alguém mais crescido, como os livros do Harold Robbins que devorei na cama noites dentro, de lanterna em punho e a porta encostada para os meus pais não verem a luz acesa tão tarde em dias de aulas, e cadernos inteiros com desenhos e riscos e palavras soltas e nomes de miúdas, miúdas de quem gostava, algumas já nem saberei quem são, quem foram, mas devem ter sido importantes que as miúdas sempre foram importantes na minha vida, mesmo as que não me ligavam nenhuma que eu sempre gostei das miúdas mesmo as que não gostavam de mim, algumas delas vieram a gostar anos depois mas já era tarde, não era?, que o comboio só passa uma vez na estação, li esta frase estúpida não sei onde e sempre pensei que a iria utilizar um dia e ainda estou à espera desse dia.
Quantos anos passaram desde que aqui entrei pela última vez?
Lembro-me de ver a minha mãe ali à janela, naquela janela ali, a janela da cozinha, onde ela ia chamar-me, chamar-me pelo meu nome em diminutivo, em altos berros para toda a rua e todo o bairro saberem que ela andava à minha procura, malandro, e onde é que eu andaria? Por aí, mãe, por aí.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/19]

No Início de um Novo Normal

O tipo foi para lá de madrugada. Estava ansioso. Farto de estar em casa com a mulher e os filhos, enfiado num T2 num bairro residencial onde só havia casas como a dele, gente como ele, famílias como aquela com quem estava confinado. Queria sair. Ver outras pessoas. Falar com outras pessoas. Trabalhar. Gostava do que fazia e fazia-o com gosto. Há gente que nunca encontra prazer nas coisas que faz, durante toda uma vida, e faz porque precisa de comer e pagar contas. Ele fazia precisamente o que gostava. Mas dois meses depois, dois meses fechado em casa sem poder exercer o seu trabalho, era demais. Estava a começar a dar em doido. A falar torto com a mulher. A ignorar os filhos, precisamente quando eles começavam a dar mostras de mais precisarem dele e do seu carinho.
Então, hoje de madrugada, levantou-se em silêncio. Tomou banho. Mexeu uns ovos. Fez umas torradas. Café fresco. Tomou o pequeno-almoço na cozinha a olhar pela janela a cidade ainda nocturna. Deu um beijo na mulher. Nos filhos. Deixou-os a dormir. Pegou no carro e foi até ao restaurante.
Antes de lhe meter a chave, olhou a porta de madeira forte, a montra com as cortinas corridas, o letreiro de néon que tem estado ligado todas as noites mesmo com o restaurante fechado, inspirou fundo e benzeu-se. Meteu a chave, abriu a porta e entrou.
Teve a sensação de estar a entrar num sítio desconhecido. Um sítio novo. Um sítio vazio. Cheio de vibrações, boas vibrações claro, mas vazio.
Viu as horas. Ainda era cedo. Muito cedo.
Colocou o Fairytales of Slavery dos Miranda Sex Garden nas colunas do restaurante, mais alto do que o que costuma estar com clientes e foi olhando para o trabalho que andaram, ele e os seu empregados, a finalizar na última semana. Dava um toque na perna de uma mesa. Alinhava as cadeiras que estavam mais que alinhadas. Verificou o stock de máscaras, de luvas, de viseiras, de calçadeiras para os sapatos, de álcool-gel, de desinfectante para as mesas, cadeiras, maçanetas, chão da sala, da casa-de-banho, do interior do balcão. Mediu o espaço entre as mesas e voltou a medir. Organizou, de novo, todas as garrafas de bebidas na parede atrás do balcão com o rótulo virado para a frente.
Foi buscar o cinzeiro de pé-alto e foi colocá-lo na rua, ao lado da porta de entrada. Depois pensou melhor, era ainda muito cedo, e voltou a colocar o cinzeiro de pé-alto no interior do restaurante.
Olhou em volta a perscrutar o espaço enquanto batia com a mão na perna ao som da música. Estava ansioso, mas contente.
Viu as horas. Já eram horas suficientes. Pegou no telemóvel e fez uma chamada. Sim, os frescos já vinham a caminho. Descansou.
Foi a um móvel e pegou numa pilha de folhas de papel. Eram as ementas. Uma despesa enorme fazer as ementas descartáveis. Todas iguais. Depois os pratos do dia escrito no pequeno quadro de xisto em cima do balcão.
A porta da rua abriu-se e entrou alguém. O primeiro empregado a chegar. Antes da hora. Também ele ansioso. Também ele desejoso de trabalhar. Cumprimentaram-se com um aceno de cabeça e grunhidos que ambos entenderam. O empregado fez-lhe sinal para a cara. Ele percebeu. Foi pôr uma viseira. A música continuava a tocar. Os outros empregados começaram a chegar. Os frescos também. Toda a gente começou a fazer o que tinha de fazer. Na cozinha, havia quase um ambiente de festa, mesmo se havia um cuidado, por vezes excessivo, em não se tocarem. Todos estavam contentes com terem voltado ao restaurante. Havia até quem dançasse nas suas voltas pela sala e pela cozinha enquanto se afinava tudo ao pormenor para o primeiro cliente.
E, então, eu entrei.
Fui o primeiro cliente do dia. E já eram catorze horas.
Até aquele momento, ainda não tinha lá entrado ninguém. Eu só soube isso depois.
Naquele momento, entrei. Fui à casa-de-banho lavar e desinfectar as mãos. Indicaram-me uma mesa. Uma mesa minimal num espaço deserto. Não havia mais ninguém a comer. Pedi um dos pratos do dia e vi a azáfama a tomar conta de toda a gente. Toda a gente precisava de se sentir a contribuir para o dia, para o primeiro dia, para o início de um normal que havia de ser outro mas que se iria tornar norma.
Enquanto esperava pelo prato do dia, que não haveria de demorar, bebi um copo de vinho tinto de uma garrafa das pequenas do vinho alentejano da casa, e o dono do restaurante sentou-se numa mesa perto da minha, mas distante, e começou a desabafar.
Eu vim para aqui, hoje, ainda de madrugada, sabe? Precisava disto. Os clientes é que parece que não. Devem estar com medo, percebe?
Tenho andado ansioso com este dia depois de tanto tempo fechado em casa com a mulher e os filhos. Filhos pequenos, percebe? Num T2, está a ver?
E eu acenava a cabeça. Percebi que ele precisava de falar. Eu não me importava de ouvir.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/18]

Queimado pelo Sol num Dia de Praia

Abri um olho e vi o dia. Senti calor. Empurrei o edredão com os pés e deixei o frio da manhã lavar-me a transpiração nocturna. Mas afinal não estava frio. Eu é que estava demasiado quente do edredão. Levantei-me da cama. Caminhei descalço ao longo do corredor até à cozinha. Abri a porta da rua e saí. Saí para o alpendre. Estava um sol luminoso. Quente. O céu azul. Um azul bebé e sem nuvens. Os pássaros numa orgia sonora nas árvores à volta. Os gatos dormitavam à sombra e nem levantaram a cabeça quando saí. Peguei nas tigelas dos gatos e do cão e despejei-lhes água da torneira. Os gatos nem ligaram. O cão apareceu e pôs-se a beber água, sofregamente. Eu decidi Vou à praia.
Entrei em casa. Agarrei num boné. Peguei numa toalha. E voltei a sair de casa. No pequeno relvado do quintal estendi a toalha e deitei-me ao sol.
Pus o boné entre a cabeça e a cara. O calor adormecia-me o corpo. Fechava-me os olhos. Embalava-me os pensamentos.
Fui levado de regresso a São Pedro de Moel. Deitado na areia, em baixo das piscinas que já não existem. Deitado de barriga para baixo na toalha sobre a areia da praia. Os olhos abertos, manhosos, espreitam a miúda ao meu lado. Mas eu sei que ela também está a olhar para mim. Também espreita para mim por baixo dos braços, sorrateira, a pensar que eu não percebo que ela está a olhar para mim. Depois eu tiro o braço da frente e olho descarado para ela. Ela faz o mesmo. Sorrimos. Estamos com os braços estendidos nas toalhas e as mãos tocam-se. Quem tomou a iniciativa? Já não sei. Mas estamos de mãos dadas e ela agora fecha os olhos. Já me agarrou. Já estou ali. Já estou ali com ela. Já sou dela. Não precisamos de falar. De explicar nada. Está tudo implícito.
Depois ela levanta-se e puxa-me. Vamos ao mar, diz. E eu vou. Vamos os dois. Mas vamos com cuidado. O mar de São Pedro de Moel não é uma brincadeira. É preciso ter atenção. Mas vamos. Vamos os dois. Com cuidado. De mãos dadas. Molhamos os pés. As pernas. Sentimos os pés enterrarem na areia molhada com o recuo violento da água do mar. Ela larga-me a mão de súbito, corre para uma onda que se aproxima e mergulha. E eu, apanhado de surpresa, fico ali a vê-la fazer o que eu devia ter feito e digo para mim Conas!
Mergulho a seguir. Mas saio logo. E ela também. O mar está a puxar. Estamos parvos um com o outro, como estão os apaixonados, mas não somos estúpidos. Saímos do mar cheios de areia nos calções. Ela deita-se de costas. Eu deito-me de bruços.
Então sinto uma dor. Como se estivesse arder. Sinto o peito a arder. As pernas a arder. A pila a arder. Abro os olhos, e chamo-a. Chamo-a. Mas ela parece não me ouvir. Está a olhar para mim e sorri. Sorri apaixonada. Será que é agora que me vai dar um beijo? Mas eu sinto-me a arder. E então levanto-me. Sento-me na toalha. Não estou em São Pedro de Moel. Estou em casa. No quintal. Já não sou um adolescente apaixonado em São Pedro de Moel. Sou um velho em casa que não tem paciência para confusões e pessoas. E estou mesmo a arder. Tenho o corpo vermelho. Não pus creme protector. Adormeci. Deixei-me levar pelo tempo. O sol já está alto. Queimo.
Que horas serão?
Que dia é hoje?
Em que ano estou, afinal?

[escrito directamente no facebook em 2020/05/17]

A Playlist do Miguel Guedes

Sabem aquela sensação de querer respirar e não conseguir? De parecer ter algo a bloquear a traqueia? De sentir que se vai desmaiar a qualquer momento por falta de ar? E que nessa altura só queriam ter um revólver nas mãos e apontá-lo à cabeça? Ou à cabeça dela que não se cala? Sabem? E sabem essa sensação de quando começam a mover o dedo no gatilho e já antecipam o tiro, o disparo, a bala a sair do revólver a cruzar o ar e a entrar num pedaço de carne fragmentando tudo à sua volta? E que nesse momento, nesse preciso momento recuperam a capacidade de respirar e mandam um berro, um berro tão grande que tudo à vossa volta cai em silêncio? Sabem? Pois foi o que me aconteceu.
Só não tinha o revólver na mão, que eu não tenho nenhum revólver em casa. Não tenho nenhuma arma para além das facas de cozinha. Mas foi como se tivesse. Mandei o berro e saí de casa. Abri a porta da rua bruscamente e fechei-a com estrondo nas minhas costas. Toda a gente do prédio haveria de ficar a saber que espécie de besta era eu.
Voei pelas escadas do prédio e aterrei no carro. Liguei-o e arranquei.
Na rádio a voz do Miguel Guedes na Playlist da TSF e eu pensei Que porra! Odeio este gajo! Vozinha arrogante. Raios o partam!, mas começou a música e deixei ficar. A música acalma as bestas, não é?
Deixei o carro levar-me estrada fora enquanto fui ouvindo a selecção musical do Miguel Guedes e só pensava Como podemos não gostar de pessoas que têm um gosto musical igual ao nosso? É que era uma selecção de primeira e que podia ter sido feita por mim. De Mazzy Star a Anna Calvi, passando por Arcade Fire, Dark Dark Dark, Elliott Smith, Jorge Palma, Nick Drake e sem esquecer Dylan, Bowie, Cave e Springsteen.
O carro levava-me estrada fora. A música escolhida por Miguel Guedes tinha-me acalmado. Já não queria berrar. Já não queria agarrar num revólver. Nem apertar no gatilho. Já conseguia respirar e estava a respirar bem. Bem e calmamente.
Cheguei a São Pedro de Moel. O carro levara-me até lá. Estava a chover uma chuva miudinha. Uma chuva que mais parecia cacimbo. Desci até à praça. Talvez umas pevides e olhar o mar, pensei.
Mas não.
A descer, quase a chegar à praça, o mar por companhia. O mar comera a praia e galgara as escadas até chegar à praça. Era impossível passar para o outro lado. Não estava lá a senhora dos tremoços. Não estava lá ninguém. Na rádio continuava a Playlist do Miguel Guedes. Continuava a achá-lo um sujeito arrogante, duma arrogância que se detectava logo na voz. O facto dele ser do FC Porto também contribuía para a construção que fazia dele. Mas tinha bom gosto, o cabrão. Um gosto igual ao meu. E foi aí que pensei se não seríamos nós todos, esta gente que gosta de boa música, todos uns arrogantes de merda por conhecerem aquilo que os outros não sonham sequer conhecer?
Abri o vidro do carro e acendi um cigarro. Fiquei ali algum tempo a fumar e a olhar a espuma suja que o mar trazia para a praça. Ainda pensei no que é que ela estaria a fazer em casa. Mas foi um pensamento rápido, que logo se esvaneceu.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/15]

O Som Ensurdecedor Sobre a Minha Cabeça

O som, porra! O som! Parecia que o mundo vinha abaixo, por baixo do som. Um som ensurdecedor. Um som que depois de se ter extinguido, ainda ficou aqui a pairar como vácuo. O silêncio total. Nem uma mosca. Tinha os ouvidos tapados. Entupidos. O som virado do avesso. Depois do barulho caótico, o silêncio sepulcral.
Abri e fechei a boca como se faz nos aviões, quando descolamos com destino a férias de sonho que se tornam pesadelo, por causa da pressão. Abri e fechei a boca. Aos poucos comecei a ouvir os cães. O de cá de casa e os das redondezas. E então, um estalo, como se umas portas se tivessem aberto do trinco e de novo os barulhos normais da casa. O zumbido do frigorífico. A ventoinha refrescante do computador em sobreaquecimento. Os pequenos barulhos normais lá de fora, que se ouvem à distância. Como se a vida retomasse a sua actividade depois de ter parado, por momentos, por breves momentos, enquanto aquele caos sonoro ocupava o espaço e o tempo.
Eu estava na cozinha. Depois do alpendre, a cozinha é o meu sítio preferido da casa. Estava na cozinha, sentado à mesa, na companhia de um copo de vinho e um cigarro, frente ao computador a escrever um pequeno texto para entregar num jornal aqui da região, porque não podia estar no alpendre, estava a chover e era uma chuva tocada a vento, e então fiquei na cozinha, e estava a escrever o texto quando senti chegar o som. Chegou sem aviso. Nem aproximação. O som como que caiu em cima de mim. Se calhar em cima de nós que, depois disto tudo, eu ainda ouvia os cães da aldeia a refilarem, coitados. Um som infernal que ocupava todos os espaços vagos que existiam à minha volta e dentro de mim. Perdi o raciocínio. Desliguei-me. O som ocupou-me.

Voltei após o momento de silêncio.
Pensei no que é que andariam a fazer por aqui, e a estas horas (como se houvessem horas certas para certas coisas), os aviões da Base Aérea de Monte Real?
Levantei-me da mesa. Percebi que ainda tinha o cigarro acesso na mão. Fumei. Levei o copo de vinho à boca e despejei-o de um trago. Abri a porta da rua e saí para o alpendre. Ainda chovia. Uma chuva tocada a vento. Via, ao fundo, as luzes tremeluzentes da aldeia. Já era quase noite. Ao fundo, um buraco negro que imaginei que fossem as montanhas, escuras, na solidão das trevas.
Não conseguia encontrar a Lua no céu pouco estrelado. Viam-se meia dúzia de estrelas, se tanto. O céu estava enublado.
E foi então que vi, no céu, uma luz vermelha a voar em círculos sobre o que seriam as montanhas. Circulou por ali durante algum tempo. Não fazia barulho. Pelo menos eu não ouvia barulho nenhum. Só o ladrar dos cães. E, os gatos, vim a descobri-los todos enrolados à volta dos meus pés, nem percebi de onde é que vieram. Depois a luz vermelha parou no seu circular por uns breves momentos e zarpou para cima, rumo ao espaço.
Os cães pararam de ladrar. Eu deitei fora o resto do cigarro. Entrei em casa e fui tentar acabar o texto para o jornal regional. Mas foi difícil concentrar-me. E tive de ir abrir outra garrafa de vinho tinto.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/14]

Em Processo de Desconfinamento sem Grande Efeito

Acabei de fumar o cigarro e deitei-o fora. Inspirei longamente o ar fresco da rua e sorri. Coloquei a máscara na cara. Presa entre o nariz e o queixo e nas duas orelhas. Entrei no prédio da minha mãe. Ia buscá-la para darmos uma volta ao quarteirão. Andava em processo de desconfinamento.
Entrei em casa e procurei-a. Na cozinha. Na sala. Fui descobri-la no quarto. Deitada na cama. Chamei-a Mãe! ela abriu os olhos e deu um berro. E gritou Vade retro, Satanás! Sou eu, mãe! acalmei-a. A máscara!, lembrei-me. Estou de máscara de tecido preta na cara. Tirei a máscara e voltei a dizer Sou eu, mãe! Vês? E ela acalmou, mas vi o medo ainda nos seus olhos.
De pé sobre a cama, sobre ela, pergunto O que é que fazes aí deitada? e recebo logo a resposta automática Estava com os pés frios e vi-me deitar. Estava a chover. A televisão não estava a dar nada de jeito. O que é que estava ali a fazer, ao frio? A tremer de frio? Com os pés gelados?
Sento-me na cama, longe dela, mas perto o suficiente para não ter de gritar. E pergunto-lhe Mas não íamos sair? E ela logo responde Sair? Com esta chuva? Com este frio? Quem é que quer sair com este tempo?
E eu digo-lhe Precisas de sair, mãe. Quase dois meses fechada em casa, precisas de ir à rua. Mas ela não desarma. Primeiro não queres que eu saia. Agora queres que saia. Ninguém te entende. Vê lá se atinas de uma vez. Ou é para ficar em casa ou é para sair. Não vou cansar-me a vestir para ficar cá por casa. Ou para ir dar uma simples volta ao quarteirão. Já vais dizer que não posso ir ao café. Que o café só serve café e é para ir a beber na rua e com a mala e a bengala não consigo agarrar o copo de plástico que ainda por cima vai queimar-me a mão. Nem posso lanchar. Nem bater-papo com ninguém. Dizes que não posso ir ao supermercado porque não posso andar lá a mexer em nada porque há muita gente a pôr a mão em tudo onde se pode pôr a mão. Já nem sei por onde andam os velhos com quem conversava. Não me vou vestir só para ir ao talho, porque dizes que ao talho eu posso ir contigo, mas para ir contigo, vais lá tu sozinho. Não é que eu não goste de sair contigo, porque gosto, mas estar a vestir-me só para dar uma volta aqui à volta dos prédios, sem poder entrar em lado nenhum, nem sentar-me numa esplanada a lanchar e a beber um Compal e a ver as pessoas a passar, se é que já há pessoas a passar, que eu da varanda aqui de casa continuo sem ver muita gente, e depois vir logo para casa e ter de me despir toda outra vez, não. Nã!… Não vale a pena. E além do mais preciso de ir primeiro à cabeleireira que este cabelo está uma miséria e não vou assim para a rua, nem tu queres que eu vá assim para a rua, não é?
Eu percebi que a pergunta era retórica. Na verdade não estava à espera que eu respondesse, mas aproveitei a deixa para lhe dizer Oh, mãe, olha que o cabeleireiro agora é só por marcação. Queres que marque? E tens de ir com máscara. Tenho uma para ti. E tiro a máscara de uma pequeno saco de plástico, uma máscara de tecido, como a minha, e mostro-lha e ela olha para mim e olha para a máscara e volta a olhar para mim e diz Deves estar doido! e volta a deitar-se na cama. Ainda disse Está uma lista de compras na mesa da cozinha. Põe a máscara na cara e vai lá ao supermercado, vá!

[escrito directamente no facebook em 2020/05/11]

A Tentar Dançar à Chuva

Acordei com os pés gelados. Pensei logo no tempo em que usava uma botija de água quente para aquecer a cama e os meus pés. Pensei na falta que as mães fazem nestes momentos. Bastava gritar Mãe! Oh, mãe! e a minha mãe vinha a correr acudir as necessidades básicas de sobrevivência ao meu dia-a-dia. Nunca tinha os pés frios. Quando saí de casa dos meus pais, acabaram-se os pés quentes. Ninguém nunca mais me aqueceu água para a botija.
Não foi por causa dos pés gelados que acordei. Acordei com a chuva a bater violenta contra a janela do quarto. Acordei assustado. Parecia mesmo que a tempestade estava com vontade de entrar pelo quarto dentro. Sentia o vento a soprar nas árvores aqui à volta. Ouvia o assobio terrível, provocador, do vento. Pensei se a casota do cão estava a aguentar o embate. Pensei por onde andariam os gatos. O alpendre devia estar inundado. O telheiro do carro talvez fosse uma solução. Às vezes vão para cima do carro e deixam-se lá estar a dormir. Já tive que os enxotar para poder sair com o carro. Já tive de parar ao portão para os tirar de cima do capot onde vão deitados a olhar para mim como se me perguntassem Que raio é que estás a fazer, pá?
Os olhos habituaram-se à escuridão e começaram a ver alguns contornos que a gretas abertas das persianas da janela e os números luminosos das horas do rádio-despertador digital acentuavam.
Virei-me de lado na cama. Senti dor na coxa. E na perna. E no braço. Tudo do lado esquerdo. Tinha-me esquecido da queda. Tinha dado uma queda na estrada, lá em baixo. Andava a passear na estrada. Andava a desconfinar. Estava de calções e t-shirt. Estava sol. Sol e calor. Estava um belo dia para usufruir do desconfinamento e sair à rua. Ouvi um barulho atrás de mim e virei-me. Desequilibrei-me e caí no chão. No asfalto. Tive uma espécie de vertigem que me fez dançar na estrada, prendeu-me os pés e fez-me tombar no chão. Escorreguei um pouco para a vala da berma, cheia de brita, e raspei o meu lado esquerdo e a palma das duas mãos. Fiz sangue no braço. Esfacelei a coxa e rasguei os calções. Regressei a casa. Furioso, claro. Tomei banho. Pus betadine. Abri a porta do congelador. Agarrei na garrafa de Moskovskaya e levei-a à boca. Bebi. Bebi como se não houvesse amanhã. Doía-me o corpo.
Olhei para a rua através da janela da cozinha. Ainda era de dia. Deu-me o desânimo. Senti um peso nos ombros. Senti uma nuvem escura sobre a cabeça. Uma nuvem escura e trovejante. Gritei. Gritei Foda-se! bem alto. Nem sei porquê. Gritei, só. Guardei a garrafa no congelador. Fui para o quarto. Abri a cama. Enfiei-me lá dentro. Fechei os olhos e pensei Dorme!
Quando acordei tinha os pés gelados. Os pés gelados e o corpo dorido. Mas só percebi o corpo dorido quando me virei na cama. A chuva batia intensamente na janela. Parecia querer entrar. Eu fechei os olhos mas estava desperto. Não conseguia voltar a adormecer.
Acendi a luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira. Sentei-me na cama. Peguei no iPad. Fui ao Facebook. Ao Instagram. Ninguém. Abri um programa de desenho e fiz um. Chamei-lhe A Tentar Dançar à Chuva. E mandei-o para as redes sociais. Depois levantei-me e fui fazer torradas. Estava com fome.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/10]

Às Vezes, Vomito

Almocei pataniscas de bacalhau e fiquei maldisposto. Já vomitei. Lavei os dentes e saí de casa. Fui ao café da aldeia. Ainda não está a funcionar a cem por cento mas, lá vai servindo uns copos e a malta fica lá por fora, sentada no lancil do passeio, a beber e a conversar.
Pedi uma aguardente para me compor o estômago. Acendi um cigarro e encostei-me à montra do café. O lancil estava quase todo ocupado e ao sol. Estava demasiado calor para me sentar ao sol. Fiquei em pé encostado à montra do café. O dono devia lavar o vidro da montra. Aliás, o café todo devia levar uma barrela. Agora é que se nota. Quando metemos a cabeça no interior para fazer o pedido, cheira ao chão do Lagoa dos anos setenta depois de uma vitória da União de Leiria.
Encostado à montra suja do café, de cigarro numa mão e uma aguardente noutra, ouço a conversa alheia.
E alguém diz O Ventura tem razão, os ciganos têm a mania que isto é tudo deles.
E outro alguém responde Tu também tens a mania que isto é tudo teu.
E o primeiro alguém remata Mas eu não sou cigano.
E o segundo alguém pontua Pois!
Ao lado vejo os sorrisos dos outros que não se meteram na conversa. Sorrisos que variavam entre o cínico e o condescendente. Alguns abanavam a cabeça. Concordavam. Mas concordavam com o quê? Com quem?
Eu empinei o copo de aguardente. Larguei-o no beiral da montra e, antes de sair dali disse Vocês vão mas é para o caralho!, conas de merda!
Passei em frente aos tipos sentados no lancil e ainda ouvi alguém perguntar Então, pá? e outro acentuar Xó?!, mas ninguém me disse mais nada. Enquanto ia indo embora, a descer a rua para sair do centro da aldeia, não voltei a ouvir a voz de nenhum deles. Devem ter lá ficado ensimesmados com a explosão de um gajo que normalmente entra mudo e sai calado e não mete conversa com quase ninguém e só o ouvem gritar Golo! quando se dá o caso de assistir por lá a algum jogo do Benfica, coisa que não tem acontecido vai para dois meses.
No caminho para casa senti-me irritado. Não devia ter dito o que disse. Não me devia ter metido numa conversa que não era comigo. Esta mania que eu tenho!
A mão onde levava o cigarro começou a tremer. O cigarro caiu. Enfiei a mão dentro do bolso das calças e desejei que a mão não estivesse a tremer e que tivesse sido só um espasmo muscular. Mas não voltei a tirar a mão do bolso para não ter de me confrontar com a evidência do que não queria.
Ainda antes de chegar a casa voltei a ter de vomitar. Encostei-me a uma árvore e vomitei o pouco que ainda tinha em mim. Eram quase só espasmos. Já não havia quase nada para deitar fora.
E foi então que percebi: As pessoas enjoam-me e fazem-me vomitar. Tenho de começar a vomitar em cima delas. Talvez isso me alivie mais depressa.
O sol batia-me na cabeça. Ergui-me e voltei à estrada. A caminho de casa. E ainda pensei Tenho de lavar os dentes. Odeio o sabor a vomitado na boca.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/07]

As Peças de Xadrez na Caixa das All Star Pretas

No dia em que decidi vir morar para esta casa, guardei as peças de xadrez numa caixa de sapatilhas All Star que durou mais, a caixa, que as sapatilhas, sempre presas nos pés desde o dia em que as comprei até ao dia em que, todas rotas, as enfiei no caixote do lixo. Eram umas All Star pretas, de costura a preto e uma estrela branca na lateral exterior das sapatilhas.
Mas não é das sapatilhas All Star que quero aqui falar. Nem sequer das peças de xadrez que meti dentro da caixa dessas sapatilhas, caixa essa que guardei na arrecadação daqui de casa e nunca mais as fui buscar. Não é que não goste de jogar xadrez, que gosto, mas não gosto de jogar xadrez sozinho e, no momento em que escolhi vir viver para aqui, para esta casa, perdida no campo, perto de uma aldeia que acho que nem vem no mapa, que eu sabia que estava a desistir de ter adversário para o jogo ou companhia para o resto que fosse da minha vida.
Escolhi isolar-me por deixar de gostar das pessoas. Por deixar de acreditar nelas. Claro que podem acusar-me de soberba. Claro que podem achar que me sinto superior a toda a gente e por isso não tenho paciência para aturar pessoas. Mas não, não é por me considerar superior. Também não me considero inferior. Não. Deixei foi de ter paciência para as pequenas guerrilhas diárias. Teorias da conspiração. Políticas manhosas. Falsas. Terrorismo de língua. As palavras começaram a matar. Mudaram-lhes o sentido. Chegámos à novilíngua. E tudo está mal. Tudo está sempre mal. Tudo é horrível. Nós somos maus. A culpa é deles. A culpa é nossa. A culpa é de quem a agarrar. Que importa a culpa, porra? Não é encontrar o culpado que me motiva. É resolver o problema. Superá-lo. Conseguir viver para além dele.
É preciso parar.
É preciso reaprender a respirar.
Peguei em mim. Arrumei as peças de xadrez. O tabuleiro enfeita uma das paredes que estava muito vazia. Demasiado vazia. Eu olhava para aquela parede vazia e via mais do que queria ver. Coloquei lá o tabuleiro de xadrez e o que passei a ver nessa parede foi o tabuleiro de xadrez cujas peças arrumei porque não gosto de jogar sozinho e não tenho adversário para jogar.
Quem sabe onde é que este sítio, onde vivo, fica?
Uso um prato. Um copo. Um talher. Um individual.
As garrafas de gin e as cervejas duram muito mais tempo porque não vem cá ninguém para as beber. O vinho gasto o mesmo. Afinal, já era eu sozinho que dava cabo dele. Como hoje. Bebo o mesmo que bebia. Fumo o mesmo que fumava. Mas tenho os dentes mais brancos. Os dedos não tão amarelos. Cheiro bem menos a tabaco. Passei a ter mais tempo para comigo. Lavo mais vezes os dentes. Lavo mais vezes as mãos. Tomo mais vezes banho. Arejo mais vezes a roupa. Ando mais pela rua. Gosto do alpendre. É a minha divisão preferida da casa. Passo a maior parte do tempo aqui. Posso olhar as montanhas ao fundo. Sei com antecedência quando vai chover ou fazer sol. Vejo quem está ao portão, lá em baixo, na estrada. Posso não abrir. Não fazer barulho. Não estar em casa. Morrer para as pessoas.
Deixei de comprar Ventilan. Deixei de comprar Zolpidem. Respiro melhor. Durmo melhor. Não me zango tanto. Sorrio mais.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/06]