Escondido, parte 02

[continuação de ontem]

Corri pelas ruas esconsas à volta da Rua Direita, na zona histórica de Leiria, no sopé do monte do castelo. Ouvia gritos. Ouvia gente a chorar. Percebia o pânico a correr por aquelas mesmas ruas por onde eu tentava fugir. Uma grande confusão.
Mais uma vez, quase a chegar ao fim de uma rua, percebi que estava também bloqueada por uma carrinha da caixa aberta com uns quantos carecas fardados de militares, ou para-militares ou milícia. Voltei para trás. Outra vez. Contra o fluxo de gente que corria, uns atrás dos outros, sem saber muito bem para onde é que iam, indo só para sair de onde estavam, para fugir, para escapar aquela gente que parecia estar ali para lhes dar caça. Nos dar caça.
Parei frente a uma casa abandonada. Olhei em volta. Estava sozinho. Via pessoas a correrem ao fundo, numa perpendicular. Dei um pontapé na porta e abri-a para trás. Entrei no prédio e fechei a porta nas minhas costas, o melhor que consegui.
Fiquei parado ali, ao fundo das escadas, a tentar ouvir. A tentar ouvir algum barulho vindo de dentro da casa. Só percebia o barulho da rua, das ruas adjacentes. De vez em quando, sentia alguém a correr do outro lado da porta, naquela rua mais escondida. Ninguém parou lá em frente, em frente à porta, em frente ao prédio.
Subi as escadas devagar. A casa estava muito destruída. Ainda estava em pé. Ainda mantinha a estrutura do prédio, dos vários apartamentos, mas havia muitas janelas quebradas, vidros partidos, pedaços de tijolo, lixo, muito pó. Subi as escadas com cuidado até ao último andar. Talvez fosse um terceiro andar. Ali na zona histórica de Leiria, os prédios são antigos e não muito altos. Alguns prédios, como este, estavam assim, abandonados, a acumular valor. Um dia seriam vendidos por bom dinheiro. Onde não há para venda, a venda atinge valores incalculáveis. Mesmo numa terra pequena e ignorada como Leiria.
Cheguei ao último patamar. Havia duas portas de entrada para dois apartamentos. Um à direita e outro à esquerda. As duas portas abertas. Abertas, não. Ausentes. Entrei para o apartamento do lado esquerdo e fui entrando até chegar ao que terá sido um quarto. Um quarto que ainda tinha janela com vidros. Entrei dentro desse quarto e sentei-me no chão, encostado a uma parede húmida, a descansar. A descansar e a pensar no que tinha acontecido.
E que raio tinha acontecido?
Estava numa manifestação pacífica, numa cidade pacífica. Estava numa manifestação pacífica que mais parecia uma festa. Estava toda a gente contente por sair do confinamento a que tínhamos sido sujeito durante tanto tempo. E, depois, aquilo.
Aquilo era o quê? Um grupo de gente de cabeça rapada, vestidos de igual, como se fossem militares, ou milícia, com tacos de baseball nas mãos. Chegaram em carrinhas de caixa aberta. Começaram a bater em toda a gente. A bater a eito. Não era uma contra-manifestação. Era mesmo um ataque. Não, uma caça. Era uma caça. Toda a gente começou a fugir e não havia por onde fugir. As ruas estavam todas cortadas. Tínhamos sido apanhados numa ratoeira. Sem escapatória. Vi muita gente a tombar. Vi muita gente a ser atingida pelos tacos de baseball. Vi cabeças a rebentar. Vi gente a ser espezinhada.
Onde é que estariam os meus amigos?
Alguém teria conseguido sair dali?
E a polícia? Porque é que não tinha visto nenhum polícia?
Apetecia-me fumar um cigarro mas sabia que era melhor estar sossegado. Não podia correr o risco de dar nas vistas, de me descobrirem. Devia manter o silêncio. Não fazer fumo. Não dar nenhum motivo, a ninguém, de me descobrirem ali dentro. Não tarda seria noite e depois logo se veria. Talvez, então, pudesse sair. Ir embora. Voltar para casa. Encontrar outras pessoas. Tentar perceber o que é que se teria passado. O que é que teria saído no noticiário das oito horas da noite.
Deixei-me estar sentado no chão, encostado à parede húmida. Até o rabo me começar a doer e eu me levantar. Fui com cuidado até à janela. Estava a começar a escurecer. Espreitei a rua. Não via ninguém. Mas continuava a ouvir vozes, gritos, vindos das ruas em volta.
Estava a começar a ficar com fome. Não que tivesse fome. Acho que eram os nervos que me estavam a atacar. Depois da agitação das últimas horas e depois de, finalmente, ter recuperado a respiração na tranquilidade daquele pequeno prédio velho e abandonado, comecei a chorar. Um choro nervoso. Um choro de medo e incompreensão.
E dei comigo, incrédulo, a perguntar-me como tudo aquilo tinha sido possível no século XXI? Como é que tudo aquilo tinha acontecido com toda a tecnologia que, aparentemente, nos dava toda a informação e conhecimento e nos protegia para que nada daquilo voltasse a acontecer?
Finalmente era noite.
As coisas não pareciam mais calmas. Continuava a haver barulho de gente em fuga. De gente atrás de outra gente. De gente em pânico. De gritos histéricos. De gritos de confronto.
Afinal, ainda iria ficar por ali bastante mais tempo do que o tempo que estava a pensar ficar.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/19]

Escondido

Tínhamos ido todos juntos. Amigos, amigos de amigos, conhecidos. Era uma manifestação em jeito de festa. Tínhamos pintado os cartazes em casa. Uns em português. Outros em inglês. Uns a preto e branco. Outros muito coloridos. Ensaiámos palavras de ordem. Uns amigos, com uma banda de música, iam dar um concerto na manifestação, ali no meio dos manifestantes, sem palco, sem som de retorno, em jeito acústico. A girar entre as pessoas que tinham saído dos seus buracos de segurança, dos seus sofás, das suas redes sociais, para irem para a rua gritar, lutar, contestar, chamar a atenção. Afinal, toda a gente pensava da mesma maneira.
Anti-racistas. Anti-xenófobos. Anti-homofóbicos. Pela liberdade.
Era uma manifestação que era também uma festa. Depois de tanto tempo em reclusão por causa do contágio, sabia bem voltar à rua, voltar a ver amigos, e sentirmos-nos úteis por estarmos a lutar por aquilo em que acreditávamos.
De início, parecia mesmo uma festa.
Vivíamos numa bolha. Todos os amigos e os amigos dos amigos e os conhecidos, todos eles eram assim, pensavam assim, manifestavam-se por esses valores.
Depois, acabámos todos por perceber que o mundo não é a nossa bolha.
Eu tinha marcado encontro na esplanada do Jardim Luís de Camões, em Leiria. A concentração era na Praça Rodrigues Lobo e depois subiríamos até aos paços do concelho para entregar um manifesto na Câmara Municipal.
Bebi um café na esplanada do jardim. Estava muita gente. O ambiente era de franca euforia. Era Verão, estava sol e muito calor, e as pessoas estavam contentes com os reencontros. Depois começámos a ir para a Praça Rodrigues Lobo.
Alguém fazia um discurso com megafone. Parecia vir do lado dos arcos, onde estão os cafés. Pelo menos era para lá que estava toda a gente virada. Encontrei amigos. Cumprimentei-os acenando a cabeça. Ainda não estava preparado para tocar em ninguém. Sem vacina, eu fazia o meu papel. Máscara na cara, uma certa distância das outras pessoas e sem tocar nos outros. No bolso, um pequeno frasco com álcool.
Alguém tentava dizer alguma coisa, mas não se percebia. O som do megafone e o bruá de toda aquela gente não permitiam grandes conversas mais íntimas entre as pessoas sem que elas se aproximassem. Eu não me aproximava.
Foi então que veio uma carrinha de caixa aberta vinda do Largo Cinco de Outubro. Primeiro não percebi muito bem o que estava a acontecer, embora tivesse percebido alguma agitação. Uns tipos carecas, com farda para-militar e uma braçadeira vermelha no braço esquerdo, saltaram de cima da carrinha para o meio dos manifestantes, com tacos de baseball, e começaram a bater em toda a gente com quem se cruzassem. Batiam a torto e a direito. Primeiro, fiquei bloqueado. Deixei de ouvir o megafone. O bruá elevou-se. Agora ouviam-se mais gritos. Havia gente a correr. As pessoas corriam para uma qualquer das ruas que saem da Praça Rodrigues Lobo. Levado pelo pânico, também eu despertei do meu torpor e acabei a correr pela Rua Rodrigues Cordeiro, passei em frente ao restaurante Porto Artur e vi as pessoas que estavam na esplanada a olharem espantadas para toda aquela gente em fuga. Ao chegar à Rua Direita, virei à esquerda para subir ao Terreiro, quando reparei que estava uma outra carrinha de caixa aberta com outros carecas fardados munidos de tacos de baseball à espera, ao fundo da rua, à entrada do Terreiro. Voltei para trás. Enfiei-me numa das ruas da zona histórica que sobe até ao castelo. Perdi os meus conhecidos. Mas ia no meio de um mar de gente. Gente que fugia como eu. Gente que fugia não sabia bem de quê. Quer dizer, saber sabíamos, mas não queríamos acreditar que essas coisas acontecessem ali, exactamente ali, em Leiria, uma cidade pacata onde nunca acontece nada. O que é que se estava a passar na cidade? Quem eram aqueles tipos fardados, com fardas a lembrar os militares, que estavam a bater em toda a gente, sem olhar a quem? E a polícia? Onde é que estava a polícia?

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/18]

Fui às Putas

Um dia fui, ao que popularmente se diz, às putas.
Fui às putas com um amigo mais velho, frequentador habitual da casa onde me levou. Eu já tinha tido umas relações sexuais, mas nunca tinha, realmente, fodido com uma rapariga. Tinha tido umas brincadeiras com uma prima mais velha. Brincadeiras essas, posso dizer, que me agradavam bastante. Mas eram só mesmo umas brincadeiras. E eu já estava a passar da idade da brincadeira. Agora queria ser um homem.
Devo dizer que, nessa altura, eu já tinha ido à inspecção militar a Coimbra. Já tinha estado com uns rapazes que passaram a noite na Rua Direita, quiseram que eu fosse com eles e eu recusei. Mas naquele dia, naquele dia fui.
Tinha ido comer um meio-bife ao Liz Bar. Já comeram um meio-bife no Liz Bar? Um meio-bife frito numa frigideira de barro que depois vem para a mesa com um ovo estrelado por cima e emoldurado numas batatas fritas e num arroz branco frito, tapados por um guardanapo de papel para não estornicar os comensais com os pingos da gordura a ferver, e que nos faz lamber os beiços com especial prazer. Uma maravilha! Acompanhei o meio-bife com várias imperiais. Eu e ele. E depois ele disse E agora vamos às putas! e eu perguntei Vamos? e ele afirmou Vamos!
Eu deixei-me levar. Na verdade não sabia muito bem o que era isso de ir às putas. Quer dizer, sabia o que eram as putas, claro, mas não sabia nada sobre elas e sobre lá ir e que que é que era preciso fazer quando se lá ia e todas essas coisas que são precisas para se fazer aquilo que muita gente faz. Mas ele só me dizia Não te preocupes. E eu não me preocupei.
Saímos do Liz Bar e fomos a pé pelas ruas da cidade. Era noite, início de noite, as luzes da rua já estavam acesas, estava calor e, à medida que nos íamos aproximando da casa, eu ia ficando ainda com mais calor. Comecei a ficar nervoso. E quase perdi a vontade. Quando chegámos ele disse Voilá! e apresentou-me uma casa sem nada de especial, num bairro mal-afamado na periferia da cidade mas que já tinha tido o seu tempo e eu até cheguei a ter amigos, no colégio da freiras onde estudei, que eram daquele bairro que, naquele tempo, não era como chegou a ser mais tarde, quando eu lá fui levado por ele e ele tocou à campainha e uma velha gorda e feia (não é para chatear ninguém nem para fazer qualquer género: a mulher era velha e gorda e feia como o raio) em camisa de dormir, reconheceu o meu amigo, abriu-nos a porta, sorriu para mim e fez-nos entrar. Senti-me uma tira de lentrisca assada olhada pelo cão da vizinha.
Entrei para uma espécie de pequena sala de estar com cheiro a velas de cheiro (não sei a que é que cheirava, mas era enjoativo) que estavam acesas e davam um ar irreal a tudo aquilo e às raparigas que iam chegando, todas elas com pouca roupa, se é que posso chamar roupa às tiras de panos que iam tapando, mal, as partes sexuais das moças que se chegavam à frente, peitos rijos, pelo menos firmes, rabos volumosos e lábios carnudos e pintados de vermelho-paixão, todas elas com uma enorme vontade de me levarem a mim para um dos quartos lá de dentro.
Elas aproximavam-se. Roçavam-se em mim. Cheiravam-me. Sorriam. Algumas beijaram-me no pescoço e, então, uma delas disse Se não quiseres preservativo, não precisas de usar! e foi aí que tudo parou.
Eu parei. Elas pararam. O mundo parou.
Há gente que vem aqui e tem relações sem preservativo? E elas aceitam?
Há gente para tudo. Neste mundo, há gente para tudo. E a maior prostituição nem é a destas raparigas. Há muita gente que se prostitui por tuta-e-meia e por mil-e-uma coisa, algumas delas sem jeiteira nenhuma. Há muita prostituição fina, fina e parva.
Foi então que percebi que aquilo não era bem o que eu queria para mim. Acendi um cigarro. Dei um beijo a todas as raparigas que estavam por ali, à minha volta, dei uma palmada nas costas dele e disse-lhe Vou ao cinema.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/09]

Uma Brasileira na Rua Direita

Fazia a Rua Direita. Caminhava devagar à procura do número. A numeração não era certa, ou então tinha-a perdido lá para trás. Havia saltos de números e os mesmos números com A e B e até C. A rua estava um bocado decadente. Lojas fechadas. Casas degradadas. As portas da rua das casas abertas ou inexistentes. Candeeiros públicos sem iluminação. As poucas lojas em funcionamento tenham pouca ou nenhuma luz nas montras e as montras não eram feitas há muitos anos. Se calhar, desde o primeiro dia, desde o dia de abertura de portas que as montras se mantinham inalteradas. Havia uma montra com um papel, escrito à mão, a informar Montra em Execução, e eu só me perguntava, em silêncio e de mãos nos bolsos, Que montra?
Em todas as cidades há uma Rua Direita. Quase sempre é uma rua torta, esconsa e que já viu melhores dias. Esta também era assim. Enorme, eu fartei-me de andar, aos esses, numa rua aos esses e em fim de ciclo. Mas este era também um mal dos centros históricos das cidades, estrangulados lentamente pelos centros comerciais luminosos e com parques de estacionamento gratuito nas periferias das cidades e a especulação imobiliária que tentava aguentar os prédio quase vazios até morrerem todos os velhos que os habitam e depois apresentar, na Câmara Municipal, um projecto de recuperação da zona. Há sempre uma recuperação da zona histórica para encher os bolsos a alguns. No outro dia vi uma caixa multibanco colocada num buraco feito numa muralha histórica. Depois da queixa da população, retiraram a caixa multibanco e taparam o buraco com cimento. E assim vão as cidades, vivendo desgraçadamente entre remendos e ambições desmedidas da ganância alheia.
Mas às vezes havia gente que punha estas casas degradadas a render. Eu procurava uma casa dessas. Tinha visto o anúncio no Correio da Manhã Jovem brasileira nova na cidade. No centro da cidade. Com número de telefone. E eu telefonei. Precisava de telefonar. Precisava de umas mãos suaves de uma mulher no meu corpo velho, ressequido e triste. E telefonei. Ouvi a voz da brasileira. Era na Rua Direita. E fui assim para a Rua Direita. À procura do número que a brasileira me dera.
Depois de muito caminhar ao longo da Rua Direita, lá encontrei o número. Olhei o pequeno prédio. Sem luzes nas janelas. Uma antiga loja fechada no rés-do-chão, com a montra tapada com folhas de jornais. Folhas do Correio da Manhã. A porta da rua estava aberta. A casa tinha porta da rua, uma porta de madeira, e estava fechada, fechada mas aberta, encostada, porque o trinco não funcionava, e eu empurrei a porta para trás e a porta abriu e eu entrei e procurei o interruptor da luz das escadas e não encontrei e acabei por acender a luz do telemóvel e subi as escadas até ao primeiro andar, como a brasileira me tinha dito para fazer, e depois bati à porta da direita. Ao subir as escadas íngremes, sujas e tristes, pensei que tinha feito bem em ter levantado só duas notas de vinte euros e não levar mais dinheiro comigo. Nunca se sabe onde se vai quando se vai a sítios como este. Nem se sabe quem se vai encontrar quando nos vamos encontrar com alguém que não conhecemos. Mas depois, despimos-nos com a facilidade do desejo que nos come a alma e o corpo. É a tesão. E já não queremos saber de mais nada, nem de medos e de onde é que nos metemos e com quem, porque depois só manda a lei da tesão. E era para isso que eu estava ali, para me libertar da tesão às mãos jovens de uma bela brasileira.
Subi ao primeiro andar. Bati à porta. Ninguém respondeu. Voltei a bater com as nozes dos dedos da mão direita, enquanto a esquerda aguentava a lanterna feita do telemóvel. Estava para dar meia volta e ir embora, desiludido, quando a porta se abriu. Vi, em contraluz, um corpo na transparência de uma combinação. Uma cabeleira volumosa. O corpo parecia elegante. E uma voz disse Oi!, enquanto abria a porta para trás e me franqueava a entrada. E eu entrei. Levei dois beijinhos na cara. Senti um cheiro demasiado doce, talvez baunilha, vindo da jovem brasileira. Agoniei-me. Ela conduziu-me para o interior da casa. Não passámos por lado nenhum. Fui levado directamente para um quarto. Ela tirou-me o casaco. Agora que já não estava em contraluz, a jovem brasileira já não parecia tão jovem. Nem tão elegante. Nem sequer era bonita. Tinha buracos na cara. Talvez de bexigas. Os cabelos volumosos mudavam de cor entre o preto da raiz e o louro das pontas. Senti uma certa repulsa. Mas já ali estava e ali acabei por ficar. E ela disse Despe-te que eu já venho, e deu-me um beijo na cara e passou a mão pela minha pila, prometendo-me o céu, e saiu do quarto e eu despi-me rápido e sentei-me nu em cima da cama e comecei a olhar para a coberta da cama e pensei que era melhor nem pensar em olhar para a coberta da cama. Suspirei. A porta abriu-se. A não-tão-jovem-assim brasileira regressou ao meu convívio. Aproximou-se. Empurrou-me sobre a cama, sentou-se em cima de mim e eu senti uma picada no braço.
Depois não senti mais nada.
Quando acordei estava sozinho na cama. Estava com dores. Com dores no corpo. Mais tarde percebi que tinha uma costura nas costas. Não havia luz. Procurei o telemóvel. Não havia telemóvel. Procurei a minha roupa. Encontrei-a. Vesti-me. Vesti-me com muita dificuldade. Saí do quarto. Saí do quarto a apalpar as paredes da casa até chegar à porta da rua. Saí da casa. Saí do prédio. Regressei à rua. À Rua Direita. Doía-me o corpo. Tinha sangue nas mãos. Arrastava os pés. Procurei outra rua. Procurei um táxi. Pedi o hospital.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/03]

Revolução? Qual Revolução, Meu Capitão?

Era hoje.
Era hoje à noite. Eu já andava em pulgas. Há semanas que andava em pulgas. Era hoje que eu ia deixar de ser virgem. Um colega tinha prometido ir comigo às putas da Rua Direita. Perder a virgindade antes de abalar para o Ultramar. Comer uma rata antes de ser comido pelos turras.
Andei semanas a preparar esta noite. A saída desta noite. Vinte e quatro de Abril. Mil nove e setenta e quatro. Ia ficar para a história. Para a história da minha vida. A noite em que me tornei homem. Até comprei um sabonete Lux. Aquele das estrelas. Queria ir cheiroso para os braços da minha primeira mulher.
Passei o dia nervoso.
Até pensei que me ia mijar todo na parada.
Estive horas debaixo do chuveiro. A ensaboar-me. Até gozaram comigo, aqueles cabrões dum raio.
Passei a roupa a ferro. Nem um vinco. Nem uma nesga. Tudo limpo e bem passado a ferro. As botas engraxadas e escovadas. Tão brilhantes que me ofuscavam a vista. Se tivesse bigode também o teria aparado e penteado. Mas não tenho. Não tenho bigode. Mas fiz a barba. Não que precisasse muito. Tenho meia dúzia de pêlos no buço. Mas um rapaz que quer ser homem… Um rapaz que vai ser homem tem que fazer a barba até não ter nenhum pêlo na cara. Pelo menos que passe no teste da folha do sargento.
E foi quando já estava a salivar. Foi quando já estava a antecipar a noite em que ia ser homem. Quando já tinha contado três vezes o dinheiro que levava no bolso. Para pagar. Para pagar o que teria de pagar e não mais do que teria que pagar. Já tinha comprado mais um maço de cigarros. Estava a fumar muito. Eram os nervos. A excitação. A antecipação. E foi nessa altura, de cigarro no dedo, olhos brilhantes e expectativa ao rubro que caiu a notícia. Todas as saídas revogadas. Não havia licenças para ninguém. Porra!
Havia qualquer coisa. Não sabia o que era. Mas havia qualquer coisa. Qualquer coisa que me fodeu a noite. Raios partam estes gajos, pensei eu.
Despi a farda de saída.
Preparei a arma. A mochila. Avisaram-nos Vamos como se fossemos para a guerra. Raios os partam. Está bem! Está bem!
Reunimos com o capitão. E ele disse Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. O estado socialista, o estado capitalista e o estado a que isto chegou. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que isto chegou! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos embora para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!
Saímos e formámos. Até parecia mal. Virei-me para baixo, para a braguilha fechada e disse Olha, fica para a próxima!
Arrancámos em coluna.
Íamos para Lisboa. Nunca tinha estado em Lisboa. Queria conhecer a capital. Ouvi dizer que também havia miúdas giras em Lisboa.
Chegámos a Lisboa. Ruas largas. Casas muito altas. Muitos carros. Muitas luzes. E eu com uma enorme vontade de mijar.
A coluna parou num semáforo vermelho. Decidi aproveitar. Disse ao meu colega do lado Vou só ali verter águas! Já venho! e abalei. Enfiei-me entre dois carros. Bonitos, os carros. E comecei a mijar.
E então ouvi-o chegar à minha beira. E disse-me Isto lá é hora de mijar, soldado? Vamos embora que a revolução não espera por nós.
Eu virei-me para trás, ainda a fechar os botões das calças, e perguntei Revolução? Qual revolução, meu capitão?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/24]

Eu Ia, mas Voltava. Voltava Sempre

Saía a correr da Faculdade, com a mochila cheia de roupa suja. Chegava à Casal Ribeiro a transpirar de tanto correr e ficava nervoso a arrastar o passo, centímetro-a-centímetro, na fila para comprar o bilhete para o quase-expresso. Às vezes já não havia lugar. Tinha de esperar por outro horário. No meio dos cheiros tóxicos do gasóleo, do barulho, das pessoas transpiradas como eu, dos gritos, das conversas tontas e aos berros, dos motores agressivos das camionetas, das sandes secas de fiambre tipo york e queijo de barra e das imperiais mortas.
Na hora de ponta podia demorar-se uma hora a sair de Lisboa.
Em Aveiras acabava a auto-estrada. Parava-se no Pôr-do-Sol. Às vezes no Bigodes. Ou no Dom Abade. Comia uma sandes de panado. Uma mini. Fumava no autocarro. Naquele tempo ainda se podia fumar nos autocarros. Era uma festa de fumo de cortar à navalha. Por vezes nem via o condutor. Por vezes aviava-se um charrito. As janelas abertas. Não havia ar-condicionado.
Vinha pelo país profundo. Passávamos ao lado do Cartaxo. Vínhamos pelas Caldas da Rainha. Por Rio Maior. Horas e horas a fio dentro do autocarro. O nervoso. Nunca mais chego. Estou atrasado.
A chegada a Leiria. Passar pelo Panaceia. Pelo Amadeus. Largar lá o saco da roupa suja que a mãe iria lavar. Mais tarde. Era tempo de beber uma imperial. Comer uns tremoços. Encontrar os amigos. Os que tinham ido para o Porto. Os que tinham ido para Coimbra. Os que não tinham ido para lado nenhum. Todos tínhamos novidades. Novas músicas. Novas bandas. Novos grupos portugueses. Novos concertos. E as notas, pá? Ah, sei lá, meu!…
Jantávamos por lá, pela cidade. Íamos às Cortes. Ao Drácula e ao Pião. Íamos ao Salvador. Ao Pátio das Cantigas. A outros sítios que não me lembro. Comíamos e bebíamos e conversávamos tertúlias culturais. Tínhamos vontade. E desejo. E capacidade.
Criávamos conhecimento. Novos namoros.
Dávamos uma fugida até à Rua Direita. Fumávamos um charro às escondidas. Este veio de Amesterdão, pá!
Ouvíamos à porta É só para clientes habituais. Mas não era para mim. E não era só em Lisboa. Leiria também tinha a sua selecção. Querer entrar era um desejo. Entrar era só para quem podia.
E passava-se o fim-de-semana nisto. Em coisas assim. Numa grande rotação. O que a idade permitia. O que o corpo conseguia. O desejo. A vontade. As coisas novas. O que estávamos a descobrir. E trazíamos tudo para a cidade. Trazíamos a gasolina que alimentava a nossa pequena cidade.
Leiria podia ser provinciana, mas conhecia coisas. As coisas que os leirienses que andavam pelo mundo traziam.
No final de Domingo, às vezes ainda de ressaca, lá ia com a roupa lavada, passada-a-ferro e bem dobrada na mochila, à vezes com um segundo saco com tupperwares e comida congelada. Eram as saudades de casa. Tornadas feijoada. Dobrada. Rancho. Uma morcela de arroz para assar lá na capital.
A semana servia para descansar dos fins-de-semana cheios e intensos. Armazenar conhecimento e estórias para vir depositar na terrinha que, às vezes, te cospe e deita fora. Mas cagas nisso.
É que é de novo Sexta-feira e estás com vontade de regressar e encontrar tudo como tudo era.
Até que tudo muda.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/15]

Algo Está a Acontecer na Cidade

Acordo debaixo de um pinheiro manso frente à Câmara Municipal de Leiria.
Não sei o que é que estou aqui a fazer.
Estou enrolado em mim. Encostado ao tronco do pinheiro. Estico-me. Faço-me crescer. Endireito-me. Sento-me no pequeno muro que serve de vaso gigante e moldura paisagista ao pinheiro, desço os pés até ao chão e piso aqueles pequenos cubinhos da calçada portuguesa.
Olho em frente para o edifício da Câmara. E penso O que é isto? E acendo um cigarro. Tossico um bocado quando o fumo me invade os pulmões. E vejo o edifício da Câmara rasgar ao meio como uma folha de papel.
Levanto-me do muro e sigo para a minha direita, para o centro da cidade. Para o centro histórico da cidade. Não quero que pensem que tenho algo a ver com o declínio do edifício camarário.
Na Rua Machado dos Santos olho o semáforo e está verde para peões. Cruzo a passadeira para o outro lado.
Atrás de mim ouço o som de um carro a acelerar, potente, próximo, e depois um baque seco. Viro-me e ainda vejo um corpo a voar pelo ar e a cair, lento, no asfalto, a esguichar sangue, enquanto, ao fundo, o carro se afasta a alta velocidade.
Continuo em frente, para a Rua Mártires da Pátria, mas desvio no último momento e desço a Rua de Alcobaça. Começa a chover e o piso fica escorregadio. Mando fora a beata do cigarro e vou com cuidado.
Vejo, à minha frente, uma mulher a empurrar um carrinho de bebé. Vejo, à minha frente, a mulher escorregar e cair e o carrinho de bebé arrancar, rápido, passeio fora. Lá de dentro, do carrinho, vem o choro de um bebé.
Passo pela mulher que continua caída no chão com um pé partido, um osso de fora, e continuo em frente. Chego ao Largo Cândido dos Reis e reparo, ao fundo, caído atrás de uma laranjeira, o carrinho de bebé, torto, partido, virado ao contrário, com uma roda pequenina a girar nhec-nhec-nhec e, do bebé, não ouço nada.
Passo por ele e desvio o olhar. Continuo em frente, sempre em frente, e entro na Rua Barão de Viamonte. Deixo o Terreiro para trás e ganho a Rua Direita. Todas as cidades têm uma. Ficam sempre no centro histórico. São sempre tortas. E cheiram sempre a mijo.
A rua é sombria. Estreita, sinuosa e sombria. O sol fica lá no alto, não entra cá em baixo. Há zonas que me assustam. Ouço barulhos, mas continuo. Olho para trás, mas vou perdendo o olhar, vou perdendo a rua nas suas curvas. Cruzo-me com cadáveres. Putas. Homens gordos, de fato e gravata, dedos grossos e sebosos a segurarem enormes charutos mal-cheirosos com notas de euro a caírem-lhes dos bolsos do fato, a olharem para as janelas de onde se lançam homens e mulheres frágeis. Não morrem porque a altura é curta. Não chega para o suicídio. O suicídio tem caderno de encargos próprio. Mas partem pernas e braços e cabeças. Um homem morre porque parte o pescoço.
Começo a correr. Quero sair da rua Direita depressa. Com urgência. Estou com medo. Com medo dos homens gordos, do suicídio, da rua.
Chego ao Largo da Sé. E olho para a Sé. E não a vejo. O largo está cheio de carros. Carros, carros, carros. Não consigo ver a Sé, a fachada da Sé, a torre da Sé. Só vejo carros. Carros estacionados, carros a circular, carros a arder. Um carro levanta voo.
Então ouço. Ouço as badaladas das… Das quantas? Que horas são? Estou na Sé? Porque é que só há carros aqui?
Quero acordar. Por favor, quero acordar.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/04]