Não É Nada de Grave

Ouço os gritinhos histéricos das miúdas na cama elástica nas traseiras da casa.
Quando vim para esta casa, a cama elástica já cá estava. E ficou. Não a uso. Nunca a usei. Estou velho para andar aos saltos em cima de uma espécie de trampolim gigante, para cima e para baixo, a deixar o coração e os pulmões longe do corpo.
Mas as miúdas aqui da zona sabiam da cama. Um dia apareceram aqui a pedir para vir dar umas cambalhotas e eu deixei. Agora estão por aí quase todos os dias. Vêm ao final da tarde e passam lá cerca de uma hora aos pulos, a rir que nem umas perdidas e a filmar brincadeiras com os telemóveis que depois mandam para o Instagram.
Eu tento sempre abstrair-me das brincadeiras delas, mas não consigo. Não conseguem estar caladas um minuto. Durante essa hora fico aqui assim, a fumar uns cigarros e a beber uns gins tónicos. Quando elas se vão embora, regresso às minhas leituras.
Gosto de as ter por cá. São simpáticas. Alegres. Trazem cor aqui a casa. Compensam a minha natural má-disposição. Às vezes trazem-me umas uvas, umas ameixas, uns pêssegos que roubam em casa dos pais para me serem simpáticas. Eu aceito sempre com prazer. E até sorrio quando lhes agradeço.
De repente os gritinhos mudam. Agora não parecem de alegria. Há gritos assustados. Ouço um choro. Levanto-me e contorno a casa. Corro até às traseiras. Corro até à cama elástica.
Uma miúda está caída no chão a agarrar o joelho e a soprar-lhe. Aproximo-me. Tem o joelho em sangue e algumas escoriações nas mãos e nos braços. Pergunto O que aconteceu? E uma delas diz Caiu pelo buraco da rede de protecção para fora da cama elástica. Um pequeno azar, penso eu. Mas não me parece nada de muito grave. Olho a cara e a cabeça da miúda. Foi mais o susto. Volto ao interior de casa para buscar a farmácia.
Limpo as feridas com água oxigenada. Sopro. Só pequenos arranhões. No joelho arranhou mais fundo e fez mais sangue mas, depois de limpo, percebo que é superficial. Ponho betadine no joelho e faço um penso com gaze. E digo-lhe Não é nada de grave.
Telefono aos pais da miúda que se magoou. O pai parece-me muito ansioso.
Chegam cá a casa em pouco tempo. Descarrega a buzina do automóvel para eu abrir o portão. Eu desço a alameda. Abro a porta. O pai entra sem me dirigir a palavra e vai a correr, a subir a alameda a correr, à procura da filha. A mãe vai devagar, ao meu lado e diz Desculpe, ele fica sempre muito ansioso com a filha.
E estamos a chegar ao cimo da alameda quando o pai já vem com a miúda pela mão. Ela vem a chorar. O pai puxa-a. Olha para mim com um olhar de morte. Se pudesse, penso, fuzilava-me.
O pai vira-se para a mãe e diz-lhe A culpa é tua! E continua a descer a alameda a puxar a filha que vai a toque-de-caixa. A mãe ainda se vira para mim, com ar muito preocupado e diz-me, outra vez Desculpe! e vai atrás do marido.
Eu vejo-os cá de cima até saírem pelo portão. O carro arranca, nervoso.
Noto as outras miúdas, todas juntas, na esquina da casa. Não sabem o que fazer. Não sabem o que dizer.
Eu viro-me para elas e digo Acontece! e sento-me na minha cadeira no alpendre.
Uma delas pergunta Podemos cá voltar, amanhã? e eu sorrio e respondo Claro que sim.
Elas sorriem e dão pequenos gritinhos entre elas, em grupo, num qualquer ritual adolescente. Viram-se para mim e dizem Então adeus! Até amanhã! e eu digo Até amanhã! e vejo-as descer a alameda. Saem pelo portão e fecham-no nas suas costas.
Eu pego finalmente no Público e começo a ler o editorial de hoje.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/18]

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Uma Raspadinha para Dulce Maria Cardoso

Comprei uma raspadinha. Comprei uma raspadinha de um euro. Agarrei numa moeda de cinco cêntimos e raspei logo ali o cartão. Tinha pressa. Tinha pressa em aumentar o meu pecúlio.
Prémio. Dois euros.
Comprei duas raspadinhas. Comprei duas raspadinhas de um euro cada. Agarrei na mesma moeda de cinco cêntimos e raspei logo ali os dois cartões. Tinha pressa. Tinha pressa em ganhar mais prémios.
Nada no primeiro cartão.
Prémio no segundo. Vinte euros. O homem abriu a caixa registadora e deu-me uma nota. Uma nota azul. Agarrei-a e estalei-a entre os dedos das mãos. E disse-lhe Tens destino.
Corri à livraria da esquina. Pedi A Eliete se faz favor. Desculpe…, disse a menina ao balcão que não percebeu o que eu tinha dito. Refiz-me A Eliete da Dulce Maria Cardoso, edição Tinta da China, se faz favor. Abriu os olhos e as sobrancelhas acompanharam-nos para cima, em arco, e pediu Um momento, por favor e agarrou-se ao computador. Escreveu lá umas coisas. Clicou em teclas. Fez scroll. Andou para baixo e para cima. Com o rato, clicou em vários sítios. Depois saiu detrás do balcão e foi pôr-se a olhar para uma estante. Mirou-a por momentos. Aproximou a cara. Os olhos. O nariz. Afastou-se. Virou-se para mim e disse É só um momento, por favor, saiu da loja e entrou por uma porta que se fechou nas suas costas.
Fiquei sozinho na livraria. Olhei em volta. Tanto livro que poderia levar comigo, pensei. Roubar livros não devia ser considerado crime, continuei. Agarrei num livro à sorte. Virei-o e tentei ler o texto da contra-capa. Não era fácil. Afastei o livro para longe da vista e li. Já não recordo o que li. Já não recordo que livro era. Mas a rapariga voltou a entrar na loja. Não roubei nenhum livro.
Vi a capa laranja nas mãos da rapariga. Estendeu-me o livro e sorriu nervosa. Agarrei-o Estendi-lhe a nota de vinte euros. Deu-me algumas moedas de troco. Sentei-me no pequeno café da livraria e pedi um café. As moedas deviam chegar, pensei. Estava com urgência de começar a ler o livro.
Abri a capa. Olhei o papel de entrada, uma espécie de flores-borboleta num pé-de-feijão vermelho, com umas cristas cremes em fundo preto. Aproximei o nariz. Cheirei o livro. Gosto do cheiro dos livros novos.
Chegou o café. Esqueci-me de pôr açúcar. Bebi-o assim. Amargo e quente. De uma vez. E fiz uma carantonha. Queimei a língua. Soprei. Virei a folha e vi o logótipo da Tinta da China. Virei outra folha e li Eliete A Vida Normal. Virei de novo e li Eliete Parte I A Vida Normal Dulce Maria Cardoso Lisboa Tinta-da-China MMXVIII. Virei outra vez a folha. Li a ficha técnica. Já não me recordo. Mas sei que avisava 1ª edição: Novembro de 2018. E depois, na página ao lado, Ao Clude e à Ru. Ao Tomás e ao Vicente, recém-chegados a este desmundramento. Virei novamente a folha e li em epígrafe Y no sabe morir ni vivir: Y no sabe que el mañana es tan sólo el hoy muerto. Dulce María Loynaz.
E finalmente, no virar de página seguinte, a entrada em Eliete Eu sou eu e o Salazar que se foda. Um ditador governa Portugal quase meio século, quase outro meio passa desde a sua morte, até que aparece na minha vida. De repente, foi como se sempre aqui estivesse estado e tomasse conta de tudo. Eu não podia deixar que isso acontecesse.
Foda-se, que gosto tanto desta gaja!

[escrito directamente no facebook em 2019/06/17]

Ouro

As paredes eram douradas. Douradas de ouro. Havia homens de picareta a esburacar as paredes. As paredes do quarto. Ela estava sentada na poltrona a olhar. Zangada. Não estava zangada por os homens andarem ali a retirar o ouro das paredes. Estava zangada porque lhe estavam a dar cabo das paredes e a incomodar-lhe o descanso. Principalmente depois de almoço quando gostava de fazer a sua sesta retemperadora. Do ouro nem queria saber, Não é meu!, dizia. Mas o estardalhaço que lhe faziam no quarto, isso sim, incomodava-a.
Ela olhava para os homens em tronco nu, transpirados, de cigarro ao canto da boca a mandarem as picaretas contra as paredes douradas e dizia Vão-se embora! Estão a dar-me cabo das paredes! O que é que o senhorio vai dizer? E depois telefonou-me e disse-me Não consigo respirar com o fumo dos cigarros destes homens. E eu disse-lhe Eu já aí vou para os pôr na ordem.
E fui.
Mandei-os todos embora. E eles foram. Era obedientes. Antes isso.
Ela mostrou-me as paredes esburacadas. As paredes ainda douradas, ainda cheias de ouro, todas esburacadas. Já lá faltava algum ouro, mas não muito porque, afinal, os homens das picaretas eram uns nabos e não tinham muito jeito para aquilo. Abriu as janelas para deixar sair o fumo dos cigarros e aquele cheiro a homem transpirado. E disse-me Amanhã vais avisar o senhorio! Se não, vou lá eu! E eu respondi Está bem!
Deixei a casa arejar. Antes de me ir embora fechei as janelas. Dei-lhe dois beijos e disse-lhe Até amanhã. Ela acenou a cabeça. Ainda estava zangada. Não estava zangada comigo, mas estava zangada.
De manhã ligou-me. Para me avisar que os jornalistas estavam lá. Foi avisar o senhorio. Já sabia que eu não ia dizer nada. Foi avisar o senhorio que lhe estavam a dar cabo da casa. Depois avisou os jornalistas das paredes douradas cheias de ouro. E depois telefonou-me. Para me avisar que os jornalistas tinham lá ido fotografar as paredes douradas. Para me avisar que o senhorio foi lá buscar o ouro que ainda restava. Para me avisar que os homens das picaretas já não regressaram mais porque já não havia mais ouro nas paredes para roubar. O senhorio tinha levado tudo. E eu respirei de alívio.
Ela estava contente. Já não havia cheiro a transpiração de homem. Nem cheiro a tabaco. E o senhorio mandara arranjar as paredes e agora o quarto estava como novo. E isto era ela a dizer-me que tinha resolvido o assunto sozinha porque já sabia que eu não iria resolver nada. E eu fiquei calado. Não lhe disse nada. E ela ainda me pediu Amanhã quando cá vieres traz as revistas. A noticia vai sair nas revistas. Com fotografias minhas, do quarto e do ouro. E eu disse Está bem!
No dia seguinte entrei em casa dela e perguntou-me As revistas? E eu tive de lhe dizer Esgotaram! Já não havia nem uma para amostra!
Depois foi até ao sofá e, com o comando, ligou a televisão. E pôs-se a ver o Programa da Cristina. Eu sentei-me ao lado dela. A ver o Programa da Cristina. Com ela. A olhar para a parede da sala e a pensar E se estas paredes também fossem de ouro?
Mas as paredes agora já não era douradas. Eram de um branco ovo.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/27]

O Mês de Agosto em Casa da Minha Avó na Aldeia

Eu devia ter uns dez, onze anos. Não mais. Se calhar, um pouco menos. Era ainda um miúdo. Uma criança.
Estávamos em Agosto. Nesse ano fui passar o mês de Agosto a casa da minha avó, numa aldeia não muito longe da cidade. Mas no campo.
Nessas férias andei aos pássaros. Fiz uma funda e ainda apanhei alguns passarinhos que a minha avó fritou. Roubei uns morangos. E uvas. E a minha avó disse-me que não devia fazer isso mas, já que estava feito, era melhor não desperdiçar. Era pecado desperdiçar. Andei a chapinhar do ribeiro que passava lá perto. E foi precisamente quando fui ao ribeiro que a vi.
Havia um telheiro com tanques públicos, para lavar a roupa, ao lado do ribeiro. E foi aí que a vi.
Eu estava no ribeiro, a construir um forte, quando ela chegou. Chegou com uma bacia de roupa à cabeça. Ela não me viu. Eu fiquei a olhar para ela.
Ela era mais velha que eu. Talvez quinze, dezasseis anos. Tirou a roupa da bacia e colocou-a num tanque. Enxaguou-a. Agarrou num bocado de sabão e começou a esfregar a roupa. Eu aproximei-me do telheiro. Fiquei atrás do muro. A olhar. A olhar para ela.
E vi-a esfregar a roupa. E ela esfregava, esfregava. Com a mão ensaboada afastava farripas de cabelo da cara e acabava por ficar com bocados de espuma no cabelo, na cara.
Mudou a roupa para outro tanque e passou-a por água até tirar o sabão.
Agarrou na roupa toda e voltou a colocá-la na bacia.
Depois enfiou a mão por baixo da bata que vestia, e eu vi a bata a subir pelas pernas, e vi as pernas, e tirou as cuecas. Lavou-as.
Puxou a bata para cima, baixou-se e começou a fazer chichi no rego de cimento por onde passava a água suja que saía do tanque.
Eu fiquei hipnotizado a olhar para ela. Para ela a fazer chichi.
Depois levantou-se e vestiu as cuecas molhadas. Molhadas mas lavadas.
E eu vi a humidade das cuecas molhadas a repassarem pela bata e a formarem o desenho das cuecas.
Pôs a bacia à cabeça e foi-se embora.
Eu fiquei ali um bocado quietinho. Sentado no chão. Encostado ao muro. Não sabia muito bem o que tinha visto.
Durante o resto do mês de Agosto que fiquei em casa da minha avó, regressei todos os dias à mesma hora ao telheiro. Voltei a ver a rapariga. Ela não ia todos os dias, mas foi bastantes vezes. Sempre à mesma hora. E de todas as vezes que ia, lavava as cuecas e fazia chichi. E eu tinha a sensação de estar a ver algo de proibido mas que gostava muito de ver.
Nesse primeiro dia, voltei para casa da minha avó e, pela primeira vez desde que ali estava, peguei n’Os Três Mosqueteiros e, finalmente, comecei a lê-lo. Li-o todo até ao final do mês de Agosto.
Depois daquele mês de Agosto, nunca mais voltei a ver aquela rapariga.
Depois daquele mês de Agosto, nunca mais voltei a casa da minha avó.
Depois daquele mês de Agosto, percebi que a minha vida tinha mudado. E nunca mais fui aos passarinhos.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/21]

Entre Velharias

Estou no meio da Praça. E como vim aqui parar?
Estou no meio da Praça e à minha volta uma quantidade de velharias. São bancas e banquinhas, cavaletes com portas a servir de mesas, ripas, placas, umas mais curtas umas mais compridas. Umas leves. Outras fortes. Depende do que estão a suportar. Há de tudo, para minha desgraça.
Não gosto de velharias. De antiguidades. De bibelots. De objectos artísticos feitos de madeira exótica. Não gosto de acumuladores de lixo e pó. Não gosto de casas encavalitadas em objectos parados e inúteis a ocupar espaço e a requerer, a cada duas horas, uma limpeza que não posso, não quero, dar.
Mas não sei como vim aqui parar. Nem para quê. Nem por quê.
Olho em volto e sinto tonturas. Perco-me entre chávenas de porcelana com asa partida, colecções inteiras do Top Star, Pop Star, Euro Star e PolyGram de discos em vynil, bicicletas, trotinetas, triciclos, uma mota a pedais ou uma bicicleta a motor, enxadas, sachos, encinhos, pás, podões, machados, uma foice, serras e uma serra-elétrica e vejo-me a agarrar na serra-eléctrica, puxo-lhe a corda, ponho-a a trabalhar, ouço o rrrrrrrrrrrrrrr do motor e vejo a serra a circular à volta e eu a cortar em metades, metades-verticais e metades-horizontais, gente que não conheço, a largar pedaços de carne ensanguentada por cima dos bibelots, e vejo-os a partir uma colecção completa de copos da Ivima, daqueles com piquinhos de todas as cores do arco-íris como uma bandeira do Orgulho Gay, e uma chuva ácida, vermelha, vermelha de sangue a tombar sobre a cabeça dos meninos e meninas excitados com todas aquelas velharias que entram em casa e ficam esquecidos a um canto até que uma prima faz anos e é preciso uma prenda de última hora.
Não! Afinal estou ainda parado no meio da Praça. Volto a olhar à volta. Uma colecção de louça inglesa, uma caixa com singles em vynil de 45rpm, máquinas fotográficas cheias de pó, máquinas de Super-8, tripés, máquinas de projectar, máquinas de escrever, uma delas sem a letra A, solitários, vasos, penicos, moedas, uma quantidade absurda de moedas, penso em roubar aquilo tudo e penso que provavelmente não valem um chavo, camisolas da Nazaré, casacos da Serra-da-Estrela, samarras alentejanas, uma colcha de retalhos e uma outra em renda não-sei-de-quê, talvez de bilros, talvez de Peniche, uma pasteleira, um cão velho que não sei se está para venda se é companhia do dono também ele velho e a dormir com a cabeça pendente sobre o peito e um fio de cuspo a cair do canto da boca pelo queixo abaixo.
Porque é que estou aqui?
E ouço Anda! Anda, vá lá!
Alguém agarra na minha mão e puxa-me. Alguém diz anda.
Eu abro os olhos. Estou sentado num sofá. Estou sentado num sofá numa loja do IKEA. Alguém agarra na minha mão e chama-me. Quem é? Quem me agarra na mão?
Levanto-me do sofá. Corro atrás de quem me puxa. Uma mão-na-mão, entre os corredores labirínticos da loja, entre famílias que se passeiam de mãos atrás das costas a olhar, que a carteira é sempre curta, até chegar ao pé de uma estante, cheia de prateleiras, parar e dizer É esta! É esta! É bonita, não é?
E eu ainda pergunto E quem é que vai montar isto?, mas já sei a resposta e quero voltar para a feira das velharias e agarrar na serra-eléctrica.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/19]

Fome

Sobrevivo com o pouco que consigo roubar a esta gente já de si com tão pouco.
Hoje tiro um pão desta saca. Ontem tirei daquela ali atrás. Amanhã, vou tirar da saca daquela porta ali à frente. Aqui ainda se deixa uma saca de pano pendurada na porta para o padeiro encher na sua passagem madrugadora.
Ontem foram umas batatas nuns terrenos lá em baixo. Hoje já foram umas espigas de milho, aqui ao lado. Amanhã vão ser umas batatas doces que já vi lá mais em cima, para os lados do cemitério. Vou repartindo as minhas dores pelas dores alheias. No fim acabo por fazer um belo cabaz. Eles não dão por nada. E eu ainda acabo por ajudar quem ainda tem menos do que eles. Menos do que eu. E bem menos capacidade para roubar.
Sim, roubar é feio. Aprendi na catequese. Na escola. Em casa. Mas às vezes, é o que nos resta depois de nos roubarem, a nós, todo o pouco que temos.
E custa. Custa fazê-lo. Mas às vezes é isso ou a morte. E deixarmos-nos morrer, também é pecado.
Às vezes vou à caixa das esmolas da igreja. Especialmente nestas alturas. Nestas épocas de grande santidade. Como a Páscoa, agora. No treze de Maio. No Natal. Há sempre muitas contribuições. E eu só lá vou buscar alguma, pouca, ajuda financeira.
Custa-me ir à caixa das esmolas da igreja. Tenho sempre a sensação de Deus está a ver-me. Mas depois penso que se está a ver-me, sabe da minha condição. Sabe da minha necessidade. E sabe que também vou ajudar quem precisa. Quem precisa e não consegue estender a mão. Não consegue estender a mão para pedir ajuda nem para a enfiar na caixa da esmolas.
Normalmente levo as notas maiores. São as que foram dadas pelos abastados aqui da zona. Não farão falta a ninguém. Não estou a roubar de ninguém desesperado. E vou dar bom uso ao que levo. No fundo não acumulo nada. Não acumulo riqueza. Desfaço tudo no estômago. No meu e dos outros como eu. Quando morrer fica cá tudo. Não levo nada. Talvez o estômago aconchegado.
Às vezes vou à biblioteca. Trago alguns livros. Mas esses devolvo-os. Não os quero aqui para nada. Leio-os e devolvo-os para outras leituras. Outros olhos. Outras fomes.
Esta semana gostaria de deitar a mão a um folar. Mas isso é bem mais difícil. Estão debaixo dos olhares. Não quero arranjar problemas. Já me bastam os que me bastam.
É Segunda-feira Santa. É dia dos arrependimentos. Também tenho os meus. Mas não são os que pensam.
Há um cordeiro lá em baixo. No pasto. Acho que não vou arrepender-me de o ir buscar. Vai matar a fome a muita gente. E de onde vem este, há muitos outros. Eles às vezes perdem-se. O campo é grande. Do tamanho da minha fome.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/15]

Pizza

Ia jantar com a minha mãe. A casa dela. Apareci lá com uma Pizza média, de risco ao meio. Numa metade Cogumelos, Bacon e Alcaparras. Na outra metade Cogumelos, Pimentos e Alcachofra. Entrei em casa dela e, ainda não tendo fechado a porta nas minhas costas, ouvi És tu? Cheira-me a Pizza. Trazes Pizza? Não me apetece nada Pizza.
Fiquei parado à entrada de casa. A porta por fechar. E disse, mentalmente, Foda-se!
Fechei a porta nas minhas costas. Entrei em casa. Fui até à sala. Não estava ninguém. Fui até à cozinha. A minha mãe estava sentada à mesa. A mesa posta para duas pessoas. Pratos. Talheres. Guardanapos. Copos. O dela com vinho tinto.
Coloquei a caixa com a Pizza na mesa da cozinha. Perguntei Mas não queres Pizza? Já não comes há tanto tempo! E ela abanou a cabeça e disse Não gosto de Pizza, sabes bem! Sabes que não gosto de Pizza! Só como por tua causa!
Não me apetecia discutir. Olhei o relógio. Vi as horas. Virei-me para ela e perguntei O que é que te apetece comer? Ainda posso ir ao Rei dos Frangos! E ela respondeu Ah, não sei. Qualquer coisa. Sabes que sou boa boca. Como o que for.
Eu acenei a cabeça. Soube que tinha perdido a batalha. Não adiantava contestar. Para quê? Peguei na garrafa de vinho. Enchi o copo. Bebi-o de um trago. A minha mãe exclamou Então?!, e eu fiz Ah!, satisfeito. Sorri-lhe e saí porta fora.
Fui ao Rei dos Frangos ver o que havia. Era bom haver Arroz de Pato que ela gosta, pensei.
Mas não havia Arroz de Pato.
Acabei por trazer uma tira de Entrecosto e Arroz de Feijão.
Voltei a entrar em casa. Fui directo à cozinha. A minha mãe estava a acabar a terceira fatia de Pizza. Da minha metade.
E disse Mãe? Não querias Pizza!, não querias Pizza!, e comeste a minha metade? E ela disse Olha, começou a cheirar-me tão bem! Abriu-me o apetite e não consegui resistir. E achei piada a estas bolinhas pretas, provei e olha!, adorei! Um bocado salgadas, é verdade, por isso já bebi mais dois copitos, o que vale é que a cama é já ali, mas adorei!
Sentei-me em frente dela. Tirei as embalagens do saco de plástico e disse-lhe Bom, já ficas com almoço. Arroz de Feijão e Entrecosto. E ela disse-me, muito admirada Entrecosto? Como é que queres que roa o Entrecosto com estes dentes?
Fiquei a olhar para ela a pensar que tinha razão.
Enchi o copo. Bebi-o de um trago. Enchi-o outra vez. A minha mãe disse Não gosto que bebas muito vinho. E eu respondi-lhe E tu podes falar muito!, enquanto agarrava uma fatia da metade vegetariana da Pizza, a metade dela, e comecei a comer.
No fim lavei a louça. Arrumei o resto da Pizza numas caixas de plástico e pu-las no frigorífico juntamente com as caixinhas com o Arroz de Feijão e o Entrecosto.
Fechei a garrafa de vinho. Olhei-a. Era só um restinho. Dei cabo dele. Garrafa para o lixo.
A minha mãe estava no sofá a ver a televisão. Dei-lhe um beijo. Disse-lhe Até amanhã e ela respondeu Tem cuidado! Bebeste vinho! Sim, mãe.
Saí de casa com os sacos do lixo.
Na rua dirigi-me aos caixotes. Estava um carro lá parado. Mesmo em frente aos caixotes do lixo. Dois rapazes. Duas raparigas. Elas fumavam. Os quatro conversavam. Eu cheguei. Parei. Esperei. E tive de dizer Com licença. A rapariga chegou-se para o lado enquanto virava a cara para mim. Sorriu-me. Eu abri o caixote e mandei os sacos do lixo lá para dentro. Depois enfiei a garrafa de vinho no vidrão.
Os quatro continuaram na conversa ali ao pé dos caixotes de lixo. Não cheirava muito mal, mas eram os caixotes do lixo. Com tanto sítio, tiveram de escolher os caixotes do lixo.
Aproximei-me do carro. Abri a porta. Ia a entrar e bati com a cabeça no carro enquanto puxava ao mesmo tempo a porta que me bateu com força no outro lado da cabeça e prensou-a. Disse Porra! Eu estou maior ou mais gordo!
E nessa altura senti-me desmaiar…
Acordo. Olho em volta. Estou caído no chão. Ao lado do carro. Entre a porta aberta e o banco. O cu no chão. As pernas no interior do carro. Tenho sangue na camisola. Dói-me a cabeça. Levo a mão à cara. Tenho sangue. Tenho sangue na cara. Escorregou da cabeça. Olho o relógio. São duas da manhã. Estou aqui há quatro horas. Ninguém me ajudou. Ninguém me roubou. Ninguém me viu. Sou invisível. Ninguém me vê.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/09]