Para um Diário da Quarentena (Nono Andamento)

Estou quase a fazer um mês de confinamento em casa. Mais dois dias e faço um mês. Um mês fechado aqui em casa. Sozinho.
A ideia de um diário deste confinamento ficou-se pelas promessas. A inércia tomou conta de mim. Os dias repetem-se. Uns a seguir aos outros. Sempre iguais. As noites como os dias. Já os confundo. Durmo quando calha. Como quando tenho fome. Tenho sempre fome. Engordei. Engordei bastante. Não sei quanto que tenho medo da balança. Fujo-lhe.
Perdi as rotinas antigas e ganhei outras. Nem sei se são rotinas. São uma ausência de actividade. Perdi a vontade. Perdi a vontade de tudo. Não quero ler mais nenhum livro. Não quero ver mais nenhum filme. Não quero acompanhar mais nenhuma série. Estou farto da música. Ainda me lembro das festas unipessoais que fiz na sala, ao início. Eu a dançar feito louco ao som dos Chemical Brothers até cair, derreado, no fundo do sofá. Agora não me apetece dançar nem ouvir música.
A televisão está sempre ligada, dia e noite, para me fazer companhia e me manter na ilusão de que não estou só.
Mas almoço sozinho. Janto sozinho. Durmo sozinho. Bebo café de manhã sozinho e, o primeiro cigarro do dia, é fumado sozinho. Dantes ainda fumava o cigarro à janela. A olhar a rua. A olhar a vida que ainda existia na rua. Agora fumo na cama. E já não é o primeiro cigarro do dia porque já não tenho dia. Os dias e as noites são já só a mesma coisa, sempre a mesma coisa, nunca acabam nem nunca começam. Só continuam, imparáveis.
Deixei de acompanhar as conferências da DGS. Agora só ouço o número de mortos. Depois, desligo. As vozes continuam a debitar números, informação, mas eu já não ouço. Tenho os ouvido e o cérebro programados para o dia em que alguém disser Terminou.
Mas ainda ninguém disse.
O número de mortos continua a somar.
Eu ainda estou vivo.
Pergunto-me para o que é que me estou a preservar. Ainda haverá mundo depois do Covid-19?
A cama tem sido o meu útero. Deito-me e tapo-me com o edredão. Tapo a cabeça. Respiro debaixo de edredão. Acabo por adormecer. Já não como há… Há quanto tempo? Não tenho fome. Não tenho vontade de comer. Bebo água. E bebo água porque às vezes fico com a boca seca e pastosa. Já nem vinho bebo. Acabou-se o vinho. Ainda tenho alguns cigarros. Vou fumando na cama. Tenho o cinzeiro cheio. Esqueço-me de o despejar quando me levanto. E só me lembro quando já estou de regresso à cama. Não volto a levantar-me. E volto a esquecer-me. A minha memória já não é a mesma. Acho que tudo isto me está a afectar. Não estou com o Covid-19, pelo menos acho que não estou contaminado, mas estou a sofrer de problemas colaterais.
Estar em casa está a matar-me. Eu gosto de estar em casa mas por opção. Obrigado, começo a odiar. Odiar tudo. E no cimo de tudo, odiar a vida. Odiar a vida e tudo o que fizemos dela.
Estou na cama. Vou continuar na cama. Espreito por cima do edredão e vejo, através da janela, um céu esbranquiçado. Anémico. Um dia morto.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/11]

Faz Agora Cem Anos, a Pandemia

Primeiro colocaram-nos em casa e trancaram as portas. Depois fecharam o país. Nada entrava e nada saía.
Era preciso estancar a disseminação do vírus. Isolar toda a gente. Impedir a propagação trazida de fora. Em casa, sem contactos físicos uns com os outros, não éramos veículos transmissores.
Só estavam a funcionar os grandes centros de distribuição alimentar. Toda a alimentação era acumulada nesses centros, criavam-se cabazes alimentares para uma, duas, três e quatro pessoas e os militares estavam encarregados de fazer a distribuição por todo o país. De porta em porta. Em todas as portas de todas as casas do país inteiro.
As únicas pessoas com autorização para saírem eram as pessoas envolvidas neste processo de distribuição, os técnicos das empresas de energia, das empresas de água e os médicos e enfermeiros que continuavam a trabalhar nos hospitais, muitos deles improvisados em tendas de campanha, pavilhões gimnodesportivos e escolas C+S, que tentavam minorar os danos da pandemia.
No início ainda haviam aulas não-presenciais dadas através da internet. Ainda havia quem fizesse tele-trabalho. Mas as redes de distribuição de internet começaram a colapsar. Demasiada gente ao mesmo tempo durante demasiado tempo a circular informação online. Os alunos começaram a desistir das aulas recebidas através dos ecrãs dos telemóveis, muitos deles com o vidro quebrado, coisa de miúdos. Os pais que estavam em tele-trabalho depressa se fatigaram de trabalharem em pijama, sem horário, a terem de proverem aos filhos e às mulheres. E o trabalho, na verdade, deixou de existir. O que havia para fazer para um mundo que estava a ficar parado?
Ao fim de algum tempo, o ócio transformou as semanas de filmes e séries em discussões violentas. Começaram a voar livros pelas janelas. Os jogos de tabuleiro eram lançados às peças para durar mais. O ódio começou a destilar. E apareceram as primeiras mortes fora do quadro directo do vírus.
Foi logo ao fim do primeiro mês de distribuição alimentar que os cabazes começaram a deixar de vir com a mesma regularidade. Foi logo ao fim do primeiro mês que os cabazes de distribuição alimentar começaram a chegar com menos quantidade e menos qualidade de alimentos. As pessoas começaram a manifestar-se nas janelas. As cidades passaram a serem coros de revolta. Um bairro inteiro a gritar palavras de ordem. A bater em tachos e panelas. Contra. Contra. Contra. Já nem se sabia bem do quê, em concreto. Contra o estado geral das coisas. O cansaço do confinamento. A fadiga da companhia. A falta da solidão. A ausência de rotinas que se foram perdendo. Já ninguém tomava banho. Ninguém lavava o cabelo. Os homens não faziam a barba. As mulheres já não pintavam as unhas, os lábios as raízes negras dos cabelos loiros. Era preciso gritar. Era preciso explodir.
Os trabalhadores do centro de alimentação e os produtores de frescos, frutas, lacticínios, carne e peixe andavam exaustos. Demasiado trabalho para tão pouca gente com a responsabilidade de milhões.
E, depois, depois a comida começou a escassear. As fronteiras fechadas. A insuficiência. E quanto mais escasseava mais escasseava ainda mais porque havia quem, na cadeia, começasse a desviar para proveito próprio.
Foi ao final do segundo mês que as coisas aconteceram.
A fome começava a instalar-se. Havia algumas pessoas mais afoitas que faziam saídas à rua, à noite, às escondidas, e negociavam no mercado negro que tinha começado a funcionar. Mas o grosso, o grosso das pessoas começava a enfrentar uma enorme fome. Muita gente já só tinha a água que continuava a correr nas canalizações. Começaram a aparecer cadáveres na rua, atirados pelas janelas e varandas dos enormes prédios das cidades-dormitório.
Quando o governo se preparava para declarar vencida a pandemia, os sobreviventes saíram para a rua e revoltaram-se contras as autoridades que encontravam pela frente. Houve muitas mortes. Mortes de parte a parte. Embora o exército estivesse armado e mais bem preparado, as pessoas traziam a fúria dos desesperados que, enclausurados durante quase três meses, e o primeiro mês foi quase um exercício de estilo pós-moderno na forma de uma quarentena auto-infligida, como umas férias forçadas para ler os livros comprados e nunca lidos à espera do dia certo, e fora esse o dia certo, cansados do ócio e do confinamento com gente com quem nunca tinham estado mais do que algumas horas por dia e a maior parte delas a dormir, partiram furiosos para cima do único inimigo que conheciam e sobre o qual queriam despejar todas as frustrações.
Muita gente morreu naquele período. E não foi só cá, neste país. Foi igual em todo o lado. Em todos os países. Em todos os continentes. A globalização normalizou-nos. E reagimos todos da mesma maneira.
No final, restaram uma minoria. Uma minoria por país. A economia estava de rastos. Era necessário recomeçar tudo. Recomeçar tudo de novo. Do zero. Só que desta vez as coisas foram diferentes. Desta vez as coisas não foram deixadas ao acaso.
Desta vez havia um único governo mundial. Um governo composto por um grupo de sábios. As pessoas tinham as suas vidas programadas desde a infância. Ninguém podia fazer menos, ninguém podia fazer mais. Ninguém passava fome, ninguém era obeso. Mas haviam contra-medidas para esta segurança da vida das pessoas. Ninguém podia ser o que quisesse. Fazer o que quisesse. Quando quisesse. Se quisesse. Toda a gente tinha de contrair matrimónio aos dezoito anos. Todos os casais deveriam ter três filhos. A manipulação genética garantia as necessidades de género. E os casais tinham de ser, obrigatoriamente, compostos por um homem e uma mulher.
Todas as pessoas tinham a sua vida programada. Desde o nascimento à morte. Cada pessoa era destinada a determinado objectivo consoante as necessidades do mundo e essas necessidades eram decididas e controladas pelo conselho de sábios.
Mas algumas pessoas não estavam de acordo.
A pandemia do Covid-19 aconteceu faz agora cem anos. Setenta por cento da população mundial pereceu nesses terríveis meses de contágio e, mais ainda, durante as revoluções pós-confinamento.
O meus bisavós foram dos poucos sobreviventes. Os meus avós aguentaram os primeiros anos de regime mundial. Depois cometeram suicídio-social. Desapareceram do mapa e criaram a primeira rede clandestina global. Os meus pais já nasceram na clandestinidade. Os dois.
E a história que vos contei hoje foi a história que me foi contada a mim, durante as longas e escuras noites que tivemos de passar escondidos, a lutar pela liberdade de todos nós, mesmo daqueles que nem sabem o que é a liberdade. A liberdade de poder escolher o seu destino ou de poder fumar um cigarro, beber um copo de vinho tinto e mandar alguém para o caralho.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/20]

Para um Diário da Quarentena (Terceiro Andamento)

Hoje foi um dia bizarro. Tudo o que não fiz ontem, fiz hoje.
Levantei-me cedo, seduzido pelo sol matinal. Lancei logo o edredão para os pés da cama. Saí de um salto, vesti uma t-shirt e fui à cozinha pôr o café a fazer. Liguei o iPod à coluna e deixei em modo aleatório. Arrancou com PJ Harvey. Uh Huh Her. Acendi um cigarro e fui fumá-lo para o alpendre. Os gatos vieram roçar-se nos meus pés descalços, dengosos, a ronronar.
Lancei o cigarro para o meio do quintal e entrei em casa para ir tomar um duche.
Sentia-me bem-disposto.
Pensei se eu seria mesmo eu.
Tomei o duche. Vesti-me. Bebi café. Comi uma banana. Lavei os dentes e peguei na chave do carro. Desliguei o iPod antes de sair de casa.
Hoje tinha de sair. Por motivos de trabalho, tinha de sair do meu refúgio. Largar as minhas rotinas. Tinha de ir longe. Não ia estar com muita gente. Nem ia demorar muito tempo. Mas era longe. Tinha de ir encher o depósito do carro. Ia aproveitar para registar o Euromilhões. Comprar pão fresco. Umas garrafas de vinho, que andam a esvaziar-se muito depressa.
Tinha umas máscaras e umas luvas no carro caso precisasse. Algumas moedas. O multibanco. Um lápis com borracha para marcar o código do cartão e fazer os pagamentos. E um frasco aspersor com álcool.
Fui.
Fiz o que tinha a fazer.
E regressei.
Entrei em casa. Despi-me ainda na cozinha. Pus a roupa na máquina e lavei-a a quarenta graus. Depois lavei-me a mim e vesti um fato-de-treino.
Abri uma garrafa de Adega de Pias, das mais baratas. Sentei-me à mesa da cozinha, frente ao computador e comecei a escrever. E escrevi bastante e durante bastante tempo. Tanto tempo que tive tempo de despejar a garrafa de vinho. Só então parei e acendi um cigarro. E reparei que já era de noite.
Este foi um bom dia, pá! pensei.
Lembrei-me que havia o Festival Eu Fico em Casa e liguei o Instagram. E deixei a tocar. Nem sei quem era que estava a tocar. Acho que nem conhecia. Deixei na coluna.
Abri outra garrafa de Adega de Pias. Cortei uns legumes. Desfiei um resto de frango assado que tinha no frigorífico. Salteei tudo no wok. Depois misturei uns bocados de sementes de sésamo e uma azeitonas.
Desliguei o festival e liguei a televisão. Hora do noticiário. Jantei os legumes salteados com o resto de frango desfiado na companhia do vinho tinto a tomar atenção às novidades do Covid-19, aos infectados e aos mortos. Afinal estávamos em emergência, ou não?
As coisas estavam cada vez pior.
Mas eu continuava bem disposto.
Quem seria eu, afinal?
Desliguei a televisão da cozinha. Baixei a tampa do computador. Arrumei a louça suja na máquina. Agarrei num copo e despejei-lhe dois dedos de Bushmills. Sem gelo. Fui para a sala. Liguei a televisão. Ao fim de algum tempo de permanência nos canais de notícias, comecei com o zapping.
Comecei a sentir a melancolia a instalar-se.
Relaxei.
Afina, eu era eu. Sou eu. E aqui estou, de rabo enfiado no fundo do sofá, a ganhar coragem para ir à cozinha buscar mais um bocado de whiskey e trazer para aqui o cinzeiro. Mas não me consigo levantar. Apetece-me, mas não me apetece. Tenho qualquer coisa a tremer dentro de mim.
Sorrio, mas não sei de quê.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/17]

A Ansiedade Ataca-me Quando Tenho de Sair de Casa

Fico ansioso cada vez que tenho de alterar as minhas rotinas. Preciso de equilíbrio. Preciso do equilíbrio de uma vida previsível para poder estar bem.
Levanto-me sempre à mesma hora. Às vezes tenho de antecipar. Raramente fico na cama para além do que é normal. Mesmo em dias de noites mal dormidas. Levanto-me. Faço café. Torradas. Sento-me na mesa da cozinha e como. E bebo. Às vezes vou beber o café para a janela e olhar a rua. As pessoas na rua. O tempo que está. A chuva. O sol. Os vizinhos no prédio em frente. A rapariga em camisa de dormir. A senhora que todos os dias estende roupa no estendal. A senhora que todos os dias põe o edredão a arejar. O rapaz que todos os dias vai fumar um cigarro à varanda. É nesta altura que me lembro que também fumo. E que gosto de fumar. Pego num cigarro e vou para a varanda. Quando está de chuva ou muito frio, abro a janela da cozinha e fumo ali mesmo. Já aconteceu ir nu para a varanda. Esqueço-me que é assim que durmo. Levantar e vir para a cozinha fazer café é automático. Esqueço-me de vestir uns boxers. Não tenho cá ninguém em casa para olhar para as minhas vergonhas. Esqueço-me da rua. E vou nu para a varanda. Muitas vezes.
O dia decorre sem sobressaltos. Faço o que tenho de fazer. Vou onde tenho de ir. Escrevo. Leio. Como e bebo. Vejo as notícias na televisão. Leio os jornais online. Às vezes compro um jornal ou outro em papel. Gosto de sujar os dedos com tinta da impressão. Gosto do cheiro. Do cheiro da tinta e do papel. Normalmente compro A Bola. Às vezes o Público. O Expresso já só muito raramente. As revistas nacionais não me chamam a atenção. As estrangeiras de que gosto, tenho de mandar vir. É difícil de encontrar por cá. Já os livros, não me queixo. Há de tudo. É uma questão de procurar e não me deixar vencer pelos lineares dos hipermercados.
Esteja onde estiver, quando tenho de sair de casa, sei que mais hora menos hora regresso. Aos meus cheiros. Ao meu canto. À minha paz, por vezes até, bastante barulhenta.
Hoje vou ter de sair de casa. Da cidade. Uma viagem. Tenho de ir uns dias para outro lado. Outra cidade. Outra casa. Outra cama. Outros cheiros. Conhecer pessoas que não conheço. Ter de falar com elas. Ver-lhes os dentes sujos. A caspa sobre os ombros. O cheiro a transpiração. Os lábios rugosos pintados com bâton, as senhoras. Os pêlos da barba mal cortada, os homens.
Levantei-me mal disposto. Passei uma hora na casa-de-banho. Acordei com o estômago às voltas. São os nervos. A ansiedade desta quebra de rotina. Já vomitei. Não consegui comer nada. Não bebi café para não agravar a tempestade que sinto nas entranhas. Transpirei muito. Fui à rua comprar desodorizante que já não tinha. Tive de ir a três farmácias. Não gosto de desodorizantes de álcool. Nem de spray. Nem com cheiro. Tive de ir a três farmácias. Só encontrei o que queria na última. Isto fez-me atrasar um pouco. Tive de correr para apanhar o expresso para o qual já tinha comprado o bilhete com antecedência.
Já estou dentro do expresso.
Vou aqui encafuado num espaço para anões. Não posso estender as pernas porque levo companhia na cadeira do lado. Já tentei ligar o iPad mas o wireless é intermitente. Vai e vem. E quando vem aguenta pouco. Tentei ler mas comecei a ficar enjoado. Parei antes de ter de vomitar novamente. Fumava um cigarro mas não se pode fumar nos autocarros. Tenho o estômago às voltas mas acho que o autocarro não tem casa-de-banho. E mesmo se tivesse. Não sei se conseguia lá ir. Aqui, à frente de toda a gente. E se fosse pedir ao motorista para parar numa Estação de Serviço? Toda a gente ia perceber que tinha sido eu a pedir. Não quero isso. Não quero que ninguém saiba. Não quero que ninguém olhe para mim. Tenho de aguentar.
Tenho de aguentar estes dias longe da minha casa. Do meu sofá. Da minha cama. Da varanda da minha cozinha onde gosto de fumar os meus cigarros a olhar as rotinas dos meus vizinhos do prédio em frente.
Estou nervoso. Trinco as peles nos cantos dos dedos. Não gosto de expressos. Não gosto de conhecer pessoas que não conheça. Não gosto de sair de casa. Não gosto de sair da minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/01]

Gente em Silêncio

Estava a acabar de comer o caldo verde, que tinha lá a boiar uma rodela de chouriço, com uma fatia de broa, quando me colocaram um copo de plástico com vinho à frente.
Rapei o prato, coloquei a rodela de chouriço em cima da fatia de broa e comi tudo, na companhia do vinho.
Só nessa altura é que reparei em quem estava ao pé de mim, na mesma mesa. Gente como eu. Gente triste e solitária. Gente em silêncio. Gente que não tinha sítio onde viver, que andava por aqui e ali, a tentar não morrer.
Estava frio. Muito frio. Nestes últimos dias tinha estado muito frio e havia pessoas que prescindiam das suas vidas, nestes dias, nestas noites, para nos ajudar um pouco. Não resolvia nada, mas ajudava a continuar a caminhar até onde quer que conseguíssemos ir.
Era vésperas de Carnaval. Havia assim uma certa agitação histérica na cidade. Anunciavam-se festas. Via-se gente mascarada. Grupos de jovens percorriam a cidade em alegres brincadeiras, fazendo barulheira até às tantas da manhã.
Nestes dias é-me mais difícil adormecer com tanta gente nas ruas. Fico mais desassossegado.
Um homem voltou a colocar mais um pouco de vinho no copo e, atrás dele, uma rapariga novinha, muito bonita, ia dando uns sacos de plástico com coisas para comermos mais tarde. Umas bolachas… Maçãs…
Bebi o vinho do copo de uma vez e levantei-me. Preferia sair logo dali antes de me bater a tristeza, antes da nostalgia fazer mossa. Antes que alguém metesse conversa. Antes de ser social e perceber a merda onde estou. Eu sei onde estou. Mas não quero falar nisso. Não quero pensar nisso. Quero passar ébrio por entre estas noites perdidas. Não ver ninguém. Não falar com ninguém. Não criar amizades solidárias. A minha miséria era solitária. Muda. Já nem sei como soa a minha voz. Os obrigados que vou deixando por aí já são quase só grunhidos. Que não soam a mais que isso. Grunhidos.
Saí do armazém. Cá fora estava muito frio. Cheguei a gola do casaco mais para cima e pus-me a andar pela cidade, à espera que ela adormecesse e eu pudesse, enfim, enfiar-me num buraco e descansar um pouco até ser dia outra vez. Estas rotinas ajudam-me a sobreviver. Mas ao mesmo tempo matam-me. Este cansaço prolonga-se no tempo e tudo passa a ser automático. Frio. Sem razão de ser, a não ser… Ser.
E então lembrei-me de, um dia, também estar assim numa festa de Carnaval e estar com um grupo de amigos a dançar na brincadeira e a cantar Lá vai o comboio, lá vai a apitar, e sorri, caiu-me uma lágrima pela cara e ouvi-me cantarolar Lá vai o comboio. E reconheci-me.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/09]