A Ansiedade Ataca-me Quando Tenho de Sair de Casa

Fico ansioso cada vez que tenho de alterar as minhas rotinas. Preciso de equilíbrio. Preciso do equilíbrio de uma vida previsível para poder estar bem.
Levanto-me sempre à mesma hora. Às vezes tenho de antecipar. Raramente fico na cama para além do que é normal. Mesmo em dias de noites mal dormidas. Levanto-me. Faço café. Torradas. Sento-me na mesa da cozinha e como. E bebo. Às vezes vou beber o café para a janela e olhar a rua. As pessoas na rua. O tempo que está. A chuva. O sol. Os vizinhos no prédio em frente. A rapariga em camisa de dormir. A senhora que todos os dias estende roupa no estendal. A senhora que todos os dias põe o edredão a arejar. O rapaz que todos os dias vai fumar um cigarro à varanda. É nesta altura que me lembro que também fumo. E que gosto de fumar. Pego num cigarro e vou para a varanda. Quando está de chuva ou muito frio, abro a janela da cozinha e fumo ali mesmo. Já aconteceu ir nu para a varanda. Esqueço-me que é assim que durmo. Levantar e vir para a cozinha fazer café é automático. Esqueço-me de vestir uns boxers. Não tenho cá ninguém em casa para olhar para as minhas vergonhas. Esqueço-me da rua. E vou nu para a varanda. Muitas vezes.
O dia decorre sem sobressaltos. Faço o que tenho de fazer. Vou onde tenho de ir. Escrevo. Leio. Como e bebo. Vejo as notícias na televisão. Leio os jornais online. Às vezes compro um jornal ou outro em papel. Gosto de sujar os dedos com tinta da impressão. Gosto do cheiro. Do cheiro da tinta e do papel. Normalmente compro A Bola. Às vezes o Público. O Expresso já só muito raramente. As revistas nacionais não me chamam a atenção. As estrangeiras de que gosto, tenho de mandar vir. É difícil de encontrar por cá. Já os livros, não me queixo. Há de tudo. É uma questão de procurar e não me deixar vencer pelos lineares dos hipermercados.
Esteja onde estiver, quando tenho de sair de casa, sei que mais hora menos hora regresso. Aos meus cheiros. Ao meu canto. À minha paz, por vezes até, bastante barulhenta.
Hoje vou ter de sair de casa. Da cidade. Uma viagem. Tenho de ir uns dias para outro lado. Outra cidade. Outra casa. Outra cama. Outros cheiros. Conhecer pessoas que não conheço. Ter de falar com elas. Ver-lhes os dentes sujos. A caspa sobre os ombros. O cheiro a transpiração. Os lábios rugosos pintados com bâton, as senhoras. Os pêlos da barba mal cortada, os homens.
Levantei-me mal disposto. Passei uma hora na casa-de-banho. Acordei com o estômago às voltas. São os nervos. A ansiedade desta quebra de rotina. Já vomitei. Não consegui comer nada. Não bebi café para não agravar a tempestade que sinto nas entranhas. Transpirei muito. Fui à rua comprar desodorizante que já não tinha. Tive de ir a três farmácias. Não gosto de desodorizantes de álcool. Nem de spray. Nem com cheiro. Tive de ir a três farmácias. Só encontrei o que queria na última. Isto fez-me atrasar um pouco. Tive de correr para apanhar o expresso para o qual já tinha comprado o bilhete com antecedência.
Já estou dentro do expresso.
Vou aqui encafuado num espaço para anões. Não posso estender as pernas porque levo companhia na cadeira do lado. Já tentei ligar o iPad mas o wireless é intermitente. Vai e vem. E quando vem aguenta pouco. Tentei ler mas comecei a ficar enjoado. Parei antes de ter de vomitar novamente. Fumava um cigarro mas não se pode fumar nos autocarros. Tenho o estômago às voltas mas acho que o autocarro não tem casa-de-banho. E mesmo se tivesse. Não sei se conseguia lá ir. Aqui, à frente de toda a gente. E se fosse pedir ao motorista para parar numa Estação de Serviço? Toda a gente ia perceber que tinha sido eu a pedir. Não quero isso. Não quero que ninguém saiba. Não quero que ninguém olhe para mim. Tenho de aguentar.
Tenho de aguentar estes dias longe da minha casa. Do meu sofá. Da minha cama. Da varanda da minha cozinha onde gosto de fumar os meus cigarros a olhar as rotinas dos meus vizinhos do prédio em frente.
Estou nervoso. Trinco as peles nos cantos dos dedos. Não gosto de expressos. Não gosto de conhecer pessoas que não conheça. Não gosto de sair de casa. Não gosto de sair da minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/01]

Gente em Silêncio

Estava a acabar de comer o caldo verde, que tinha lá a boiar uma rodela de chouriço, com uma fatia de broa, quando me colocaram um copo de plástico com vinho à frente.
Rapei o prato, coloquei a rodela de chouriço em cima da fatia de broa e comi tudo, na companhia do vinho.
Só nessa altura é que reparei em quem estava ao pé de mim, na mesma mesa. Gente como eu. Gente triste e solitária. Gente em silêncio. Gente que não tinha sítio onde viver, que andava por aqui e ali, a tentar não morrer.
Estava frio. Muito frio. Nestes últimos dias tinha estado muito frio e havia pessoas que prescindiam das suas vidas, nestes dias, nestas noites, para nos ajudar um pouco. Não resolvia nada, mas ajudava a continuar a caminhar até onde quer que conseguíssemos ir.
Era vésperas de Carnaval. Havia assim uma certa agitação histérica na cidade. Anunciavam-se festas. Via-se gente mascarada. Grupos de jovens percorriam a cidade em alegres brincadeiras, fazendo barulheira até às tantas da manhã.
Nestes dias é-me mais difícil adormecer com tanta gente nas ruas. Fico mais desassossegado.
Um homem voltou a colocar mais um pouco de vinho no copo e, atrás dele, uma rapariga novinha, muito bonita, ia dando uns sacos de plástico com coisas para comermos mais tarde. Umas bolachas… Maçãs…
Bebi o vinho do copo de uma vez e levantei-me. Preferia sair logo dali antes de me bater a tristeza, antes da nostalgia fazer mossa. Antes que alguém metesse conversa. Antes de ser social e perceber a merda onde estou. Eu sei onde estou. Mas não quero falar nisso. Não quero pensar nisso. Quero passar ébrio por entre estas noites perdidas. Não ver ninguém. Não falar com ninguém. Não criar amizades solidárias. A minha miséria era solitária. Muda. Já nem sei como soa a minha voz. Os obrigados que vou deixando por aí já são quase só grunhidos. Que não soam a mais que isso. Grunhidos.
Saí do armazém. Cá fora estava muito frio. Cheguei a gola do casaco mais para cima e pus-me a andar pela cidade, à espera que ela adormecesse e eu pudesse, enfim, enfiar-me num buraco e descansar um pouco até ser dia outra vez. Estas rotinas ajudam-me a sobreviver. Mas ao mesmo tempo matam-me. Este cansaço prolonga-se no tempo e tudo passa a ser automático. Frio. Sem razão de ser, a não ser… Ser.
E então lembrei-me de, um dia, também estar assim numa festa de Carnaval e estar com um grupo de amigos a dançar na brincadeira e a cantar Lá vai o comboio, lá vai a apitar, e sorri, caiu-me uma lágrima pela cara e ouvi-me cantarolar Lá vai o comboio. E reconheci-me.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/09]