A Minha Mãe

Fui a casa da minha mãe. Fui dar-lhe banho. Aspirar a casa. Repôr frescos no frigorífico. Fornecer a despensa. Regar as plantas. Fazer a cama de lavado. Ligar a máquina de lavar roupa. Lavar uma ou outra peça de louça mais difícil de ser lavada à mão. Como um tacho. Uma panela. Uma frigideira.
Ela é autónoma. Mas precisa de alguma ajuda. Principalmente com coisas mais difíceis. Principalmente com coisas mais pesadas. Principalmente com coisas mais complicadas e minuciosas. Às vezes vou lá mesmo só para dizer que estou ali. Não só no outro lado do telefone, mas também ali, em casa. Ao vivo em casa dela. Ao lado dela. Para a ajudar. Para a ajudar quando for preciso.
Cheguei. Toquei a campainha e abri a porta com a minha chave. Toco sempre à campainha para ela não se assustar com a minha entrada de rompante em casa. Para não ser uma surpresa. Para não olhar para o lado e descobrir-me lá, feito parvo.
Estava sentada na mesa da cozinha a comer um iogurte. Viu-me e disse Olha! Estás aqui? e eu acenei a cabeça. Percebi que já me tinha esquecido. Às vezes esquece-me. Baralha os dias. Acha que vou no dia seguinte que é sempre o seguinte. Às vezes até eu me baralho.
Continuou a comer o iogurte. Eu arrumei no frigorífico os legumes que levei. Arrumei as mercearias na despensa. Por ordem. Mostrei-lhe umas conservas novas que lhe trouxe. Perguntou do que era. Filetes de cavala com tomate. Ela gosta de petiscar estas conservas. Às vezes acompanha com espinafres. Com rúcula. Às vezes até usa maionese. E eu pergunto-lhe Maionese, mãe? e ela responde Que é que queres? Sabe-me bem!
Acabou de comer o iogurte. Levantou-se e foi para a casa-de-banho. Eu dei-lhe tempo para se despir e segui-a. Molhei-lhe o corpo. A cabeça. Depois passei-lhe o chuveiro para as mãos e abri o champô. Saltou-me todo para cima. O que restava. Eu devia ter percebido que o frasco parecia muito leve. A embalagem estava no fim. Ela meteu água lá para dentro, para aproveitar tudo ao máximo. Quando abri a embalagem, estava à espera de uma massa pastosa e saiu um esguicho colorido para cima da minha camisola, das minhas calças e sobre as minhas sapatilhas. Que porra, pá!
Lavei-a. Sequei-a. Esfreguei-lhe o cabelo como uma toalha e ela disse que lhe estava a pôr a cabeça tonta. Depois fartou-se de rir com as cócegas que lhe fiz ao limpar-lhe os pés. Oh, mãe! Tantos anos e ainda tens cócegas nos pés? O que é que queres? Não mas tiraram! E riu-se mais ainda. Deixei-a na casa-de-banho a acabar de se arranjar sozinha e fui aspirar a casa.
Não é muito grande, a casa. Aspiro-a num instante. Mas frente ao sofá, tenho de aspirar com cuidado e atenção. Há por lá muitas migalhas. Às vezes come sentada no sofá enquanto vê televisão. Especialmente o pão. Ela que lhe ralhava a mim quando, em criança, me esquecia de levar um prato para comer uma sanduíche na sala, hoje diz que não precisa de prato. Que não faz migalhas. Não as vê! Não vê as que lhe mostro. Zanga-se comigo quando insisto. Às vezes preciso de muita paciência.
Fiz a cama de lavado. Pus a máquina a lavar.
Coloquei os comprimidos na caixinha. Pela ordem. Não anda a tomar os da manhã. Diz que lhe fazem fazer muito chichi e quando vai sair de manhã não os toma para não andar a correr para as casas-de-banho dos cafés. Algumas são muito porcas! As pessoas são muito porcas e sujam tudo! diz-me para me fazer entender porque deixa os comprimidos na caixinha.
Ela saiu da casa-de-banho e foi para o quarto vestir-se. Eu aproveitei para arrumar a casa-de-banho. Depois fui à varanda e fumei um cigarro. Ela foi lá ter comigo e perguntou-me Queres ir beber um café?
E eu sei que ela gosta de ir ao café comigo. Gosta que as pessoas me vejam com ela. Diz às raparigas do café que eu sou o namorado dela. Enfia a mão no meu braço e entra assim comigo no café.
Ela pede uma meia-de-leite com café, Mas mesmo café! Café de uma bica! Um pão-de-leite com fiambre e Um bocadinho de manteiga, mas mesmo manteiga, não margarina, e só um bocadinho, se faz favor, senão faz-me mal ao estômago, mas eu gosto muito de manteiga, mas tem de ser mesmo manteiga. Eu peço um café. Ela refila comigo. Que estou magro. Que não como. Só um café? pergunta. E eu acabo por pedir um rissol, como quase sempre.
Depois levanto-me para ir pagar. E vejo-a, pelo espelho, a dizer às miúdas do café para não receberem o meu dinheiro que é ela que vai pagar.
Volto à mesa. Dou-lhe dois beijos e digo Tenho de me ir embora. E ela responde Vai lá! Vai lá! Tens de ir trabalhar!
E eu vou embora, mas vou sempre com a sensação que devia ter ficado lá mais tempo. Que todo o tempo que estou com ela é pouco para ela. Mesmo que seja muito para mim. E penso no dia em que já não possa ficar mais tempo nenhum com ela. E sinto um nó na garganta. Acendo um cigarro. Abano a cabeça e tento esquecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/14]

Amanhã Haverá Sempre por Quem Chorar

Olho para trás e não gosto. Não gosto do que vejo. Não gosto principalmente do que acho que vejo. O meu olhar está condicionado pelo meu presente, mas tenho a arrogância de pensar que o passado é um erro e que tenho de o emendar hoje, à distância de várias vidas. Acabo por me contentar em tentar endireitar o presente. Dentro do possível.
Tenho uma barriga enorme. Uma barriga enorme adornada com um umbigo à proporção da minha barriga. Eu sou o centro do Universo. Tudo gira à minha volta. Eu sou a lâmpada que ilumina as vidas dos outros e encandeia os pobres coitados que ousam ter uma linha de pensamento discordante. Tocam-me. Morrem. Desaparecem.
Esqueço-me que o presente de hoje é o passado de amanhã. Um outro eu, na posse de outra linha civilizacional, vai olhar para mim, e para os meus erros, para os meus arrogantes erros, e mandar-me para o lixo. Como eu fiz.
Mas não. Não sou assim. Não tenho a arrogância de pensar como se fosse o único. Como se a minha concepção fosse a única. Como se estivesse, sempre, repleto de razão. Mesmo que esteja. É difícil perceber. É difícil compreender. É difícil ver para além do horizonte da minha barriga e do meu bonito umbigo. É assim que querem que eu pense. Mas não consigo. Eu sei que preciso do outro. Dos outros. Do passado com todos os seus erros. Do presente com todas as minhas dúvidas. A desejar ainda ter um futuro.
Preparo um gin. Lá está. Uma bebida da moda. Mas eu já gostava de gin antes dele ser inundado de coisas esquisitas a boiar em copo do tamanho de piscinas em vivendas da periferia. Gosto de um gin muito clássico. Um Bombay Sapphire. Ou um Tanqueray. Num copo alto. Também pode ser redondo, mas não precisa de ser muito grande. Com bastante gelo. Limão exprimido. Ou lima. Não sou esquisito. E água tónica. Schweppes. E mexo com uma colher comprida e fina. Para misturar tudo bem.
Acendo um cigarro. E atenção, estou em casa. Mas está bem, estou sozinho. Fumo o cigarro em casa. Sinto o fumo invadir-me os pulmões e penso Faz-me mal, mas sabe-me bem. O futuro que me castigue. A mim e à minha bronquite.
Pego no copo de gin tónico sem frescuras modernistas e vou até à janela. Vejo as pessoas passar. Apressadas. Preocupadas com o seu tempo presente. Preocupadas com o trabalho onde não podem faltar. Preocupadas em ter trabalho que lhes garanta um salário. Um sustento. Uma miséria que possam trocar por umas migalhas de pão de véspera.
Vejo as pessoas passar. Atarefadas. Vão buscar os filhos ao Jardim de Infância. Cada minuto mais é um extra na conta no final do mês. Uma conta que pagam já com dificuldade. Uma conta que pagam com dificuldade para garantir gente a um país envelhecido e que destrata os seus filhos. Depois ainda vão buscar as filhas à Escola C+S e levá-la ao ballet. Porque precisam de actividades extra-curriculares. Gastar energia. Estarem ocupadas enquanto os pais trabalham em prol da nação.
Vejo as pessoas passar. Ensimesmadas. Que fazer para o jantar? Tenho de fazer uma máquina de lavar roupa. Tenho roupa para passar a ferro. Qual é a novela que sigo? Já as confundo todas. Também não interessa muito. O que é que hei-de preparar para o almoço de amanhã? Que se lixe. Nada. Como uma sopa e um rissol no café do lado. Ele que se amanhe. E os miúdos comem na escola.
Vejo as pessoas a passar. E onde vão elas? Ao cinema? Ao teatro? A um concerto? A uma poetry-slam? À ópera? A uma esplanada relaxar, beber uma cerveja e ler um livro?
As pessoas passam rápidas a caminho dos seus afazeres e não têm tempo para serem cidade e a cidade não quer saber delas. Envia-as para a periferia. Para os subúrbios. Para distâncias longínquas que têm de refazer todos os dias. Cansadas ou não. Com vontade ou não.
Algumas destas pessoas estou a vê-las pela última vez. Umas vão pendurar-se numa corda no final do dia. Encharcar-se em barbitúricos. Ligar o gás do fogão e sentar-se no sofá a respirar a eternidade. Algumas delas vão levar os filhos. Algumas delas vão levar os seus amores. Amanhã iremos chorá-las. Depois esquecemos. Haverá mais por quem chorar. Depois de amanhã. Depois de depois de amanhã. Depois… Sempre. Enquanto estivermos vivos.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/11]

A Mulher Triste

Estava a jantar aqui no restaurante da rua. Era Natal e, como quase sempre nestes últimos anos, janto sozinho por aqui. O Natal é, para mim, uma noite igual às outras. Quase igual às outras. É difícil arranjar um restaurante aberto. E os que estão abertos oferecem orgias gastronómicas. Eu só preciso de um bife. Mal passado, se possível. Umas batatas fritas. Uns legumes. De preferência, brócolos. Mas também pode ser umas couves.
No restaurante aqui da rua já me conhecem. Fico numa mesa um pouco mais arredada para o canto para fugir à fúria natalícia familiar. E não fico ao balcão para não estar no meio do furacão. O sítio onde fico permite-me olhar para a televisão e liberta-me o telemóvel. E dali também consigo ver a sala. Observá-la.
Há sempre umas criancinhas cheias de energia aos berros por todo o lado. Uma vez uma delas veio comer um chupa-chupa para ao pé de mim. Acho que foi o ano passado. Sentou-se à minha frente. A olhar para mim. Entre lambidelas perguntou-me o nome. Hambúrguer McDonald’s, respondi. Ela arregalou os olhos e disse Não és nada! Mas por via das dúvidas, e ficando ali a encarar-me, perguntou, esticando a mão com o chupa-chupa Queres? E eu acenei a cabeça. Ela esticou-se mais. Eu agarrei no chupa-chupa. Pu-lo na boca. Trinquei-o. Mastiguei-o. Ouvi o barulho dos meus dentes a triturar o chupa-chupa. Ela também. Tirei o pauzinho e devolvi-lho. Ela agarrou no pauzinho sem o chupa e começou a fazer beicinho. Começaram a cair umas lágrimas pela face abaixo. Ia começar a chorar. Ia começar aos berros. Rápido, pedi ao empregado do restaurante para lhe dar um chupa-chupa. Ele trouxe-mo. Eu agarrei-o e estendi-o à criancinha. Ela olhou-o na minha mão. Novinho em folha. Inteiro. Ainda embrulhado. Agarrou nele. Desembrulhou-o. Colocou-o na boca. Fungou. Limpou as lágrimas e o ranho com as costas da mão. Levantou-se da minha mesa. E foi embora, sempre a olhar para trás. Para mim. Depois encontrou outras criancinhas e esqueceu-me. Mas nunca mais veio ter comigo. Nem ela nem outra.
Tenho jantado em sossego. Bebo uma garrafa de vinho tinto. Como um queijinho fresco com sal e pimenta. Às vezes um rissol ou um croquete, quando há. E depois o bife. Umas vezes na frigideira, com um ovo a cavalo e molho. Outras vezes no prato. Mais seco. Normalmente termino com uma salada de frutas ou uma fatia de pudim. Bebo um café e uma aguardente velha. Depois vou para casa. Vou para casa fumar um cigarro à janela e ver o nevoeiro a tombar sobre as luzes da cidade e a torná-la feérica, mágica.
Mas desta vez chamou-me a atenção uma mesa, não muito grande, só de mulheres. Cinco mulheres. Várias gerações. Pelo menos três. Não descobri as relações. Mas eram familiares. Talvez um casal. Talvez uma avó. Uma neta. As diferenças entre a mais velha e a mais nova levava-me para aí. Estavam a usufruir do jantar de Natal. O menu especial do restaurante para aquela noite. As farripas de presunto de entrada. As azeitonas com alho. A manteiga caseira. O polvo. O bacalhau cozido. As filhoses. O Bolo Rei. Só o vinho não era o do menu. Era um vinho bom. Era gente de posses. Via-se pelas roupas. Pelos objectos discretos que as ornamentavam. Trocaram presentes entre si. Percebi alguns deles. Coisas com gosto. Requintadas. Caras.
Uma das mulheres, contudo, estava ausente. Estava ali, mas não estava. Sorria quando era o centro das atenções, mas depressa tentava fugir. Tentava que não reparassem nela. Tinha uns olhos tristes. A boca descaída. A cabeça sempre pendente. Era bonita. Todas elas eram bonitas. Esta, talvez um pouco mais. Mas estava triste. As outras não. Havia sempre conversa na mesa. Ela às vezes respondia. Parecia que não podia não responder. Era educada. Eram todas educadas. Ela era única que não bebia vinho. Ela e a criança. Levantou-se várias vezes para ir à casa-de-banho. Da primeira vez ia distraída e acabou a entrar na cozinha. Ficou encarnada de vergonha. Pediu muitas desculpas. Os olhos no chão.
Às vezes eu ouvia algumas frases. Nada completo. As vozes. Palavras sem sentido. A ela não conseguia ouvir a voz. Falava muito baixinho. Como se pedisse desculpas. Acho que se anulava. Acho que queria desaparecer. Acho que gostava de estar ali mas ao mesmo tempo gostava de não estar. Estar ali talvez fosse uma obrigação.
Ela comeu pouco. Depenicou mais do que comeu. Remexeu muito a comida no prato. Talvez para dar ideia de estar a comer. Eu via. Via-a a remexer a comida no prato. Mas quase não a vi levar o garfo à boca. A meio do jantar percebi que tirou discretamente um comprimido da bolsa e enfiou-o na boca. Parecia em sofrimento.
Eu, entretanto, acabei o café a aguardente velha. Levantei-me e fui ao balcão pagar para facilitar as coisas no meio da confusão em que os empregados estavam. Ao sair, passei ao lado da mesa das mulheres. Passei mesmo ao lado daquela que tinha estado a observar e me parecia triste. E ao passar ao pé dela, cheguei-me um pouco mais, baixei-me ao seu lado e dei-lhe um beijo na cara. Ela assustou-se com a acção e o meu atrevimento. Por instantes pareceu-me mesmo ver um certo pânico nos olhos dela. Coloquei-lhe a mão no ombro e disse-lhe Peço desculpa se a assustei. Só lhe queria desejar um feliz Natal. Pareceu-me triste. Pareceu-me precisar de um beijo, e ergui-me e segui o meu caminho até à porta da rua. Ao sair ainda olhei para trás e vi que ela tinha a mão na cara, onde a beijei, e acho que lhe vi um pequeno, suave e imperceptível sorriso a nascer entre os lábios e os olhos que, e isso eu tinha a certeza, estavam brilhantes.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/19]

O Domingo É uma Neura

O Domingo é dia de gastar tempo com o tempo.
Ao Domingo não se pode pedir demasiadas coisas. Não se pode esperar milagres.
Ao Domingo não devia sair de casa. Eu sabia-o e, no entanto, continuo sempre a acreditar que dias-não-são-dias e os milagres esperam-me ao virar de uma esquina.
Levantei-me de manhã cedo, completamente desperto. Abri os olhos e não consegui voltar a fechá-los. Tomei banho. Estava sol. Vesti uma roupa leve e calcei umas sapatilhas. E fui à rua beber café.
Ia a meio da rua quando começou a chover. A chover com força. Bátegas grossas. Daquelas que nos batem na cabeça e magoam. Cheguei ao café todo encharcado e com as sapatilhas ensopadas.
O dono do café virou-me uns olhos mal dispostos quando me viu entrar café dentro a largar poças de água.
Pedi um café. Olhei a vitrina e escolhi um rissol. O café estava queimado. Amargava, mesmo com um pacote inteiro de açúcar. O rissol estava seco. A massa rija com o panado a desfazer-se. Um desconsolo.
Procurei por um jornal do dia. Não havia nada. Nem A Bola. Andava pelas mesas uma Nova Gente, mas já havia fila para a consultar.
Voltei para casa.
Comecei a lavar louça à mão, quando fiquei sem água. Não teria sido por falta de pagamento, que tinha as facturas em dia. Tentei telefonar para o SMAS. Interrompido.
Fui à casa-de-banho. Entrei e parei. Que é que estou aqui a fazer? Não posso lavar os dentes. Nem as mãos. Olhei para o cesto de roupa suja e disse E também não te posso lavar.
Voltei para a sala e sentei-me no sofá. Liguei a televisão. Não havia imagem. Só estática como era dantes, quando a antena retransmissora de Monsanto estava com problemas técnicos. Liguei para a NOS. Música. Voltei a ligar para o SMAS. Interrompido.
Não quis desanimar. Olhei para o céu e parecia tranquilo. Pelo sim, pelo não, calcei botas gortex, vesti anoraque e peguei no chapéu de chuva. Arranquei para o Estádio Municipal Magalhães Pessoa para ver o jogo da União de Leiria.
O tempo estava quente e, com o trajecto, fiquei ainda com mais calor. Transpirei.
Cheguei ao Estádio e não se passava nada. Estava fechado. Não havia ninguém à vista. Só uns autocarros parados lá no meio. Devia ter percebido mal, a União devia jogar fora ou já não jogava mesmo no Estádio Municipal. Não sabia em que estado as coisas estavam. Que porra.
Voltei para casa. De botas, anoraque, chapéu de chuva na mão e a transpirar.
Cheguei a casa. Larguei o chapéu no corredor. Despi o casaco e tirei as botas. Estava cansado e cheio de sede. Abri o frigorífico e agarrei num pacote de leite. Levei-o à boca, comecei a beber e, imediatamente, cuspi tudo para a frente. Estava azedo.
Acabei a encomendar uma pizza. De enchovas, alcaparras e alcachofras. Enquanto esperei, sentei-me no sofá. Uma hora mais tarde ainda não tinha chegado. Meia-hora mais tarde lá acabou por chegar, fria, de bacon e ananás. Disse que aquele não era o meu pedido e que tinha demorado mais que meia-hora e então não tinha de pagar. O entregador de pizzas disse Isso é só nos filmes. Paguei. Não consegui comer.
Despi-me e fui deitar-me na cama. Enfiei-me debaixo dos cobertores. Depois comecei a pensar se tinha fechado, ou não, as torneiras para o caso da água voltar. Levantei-me, nu, e corri a casa a garantir as torneiras fechadas. Voltei a telefonar para o SMAS. Lá consegui. Segui um corredor apertado de números a discar e acabei por ir dar a uma mensagem gravada. Rebentara um conduta e os técnicos não esperavam ter o assunto resolvido antes do dia seguinte à tarde. Segunda-feira, dia de trabalho, portanto.
Olhei para a televisão, mas não quis saber. Sentia-me cansado. Cansado e desanimado. Fui tomar um xanax para acalmar e conseguir descansar um pouco. Talvez até dormir.
Enganei-me e acabei a tomar uma anfetamina que alguém deixara cá por casa. Em vez de me ir deitar, acabei por vestir o fato-de-treino e ir para a rua fazer parkour. Sim, nem sei o que é isso. Não sei correr nem dar saltos nem pular na medida do que é necessário para ultrapassar os obstáculos. Acabei por cair de um segundo andar para cima de um roseiral. Fiquei deitado no chão sem conseguir levantar-me, picado pelos espinhos das rosas, rodeado de gente que me conhecia e me fez sentir vergonha ao ser levado numa maca pelos paramédicos para o hospital distrital.
A única coisa boa nisto tudo, é que é quase meia-noite e, não tarda, é Segunda-feira e acaba-se a desgraça do Domingo.
Só que, entretanto a ambulância teve um acidente e eu estou aqui, de pernas para o ar, dentro da ambulância, à espera que alguém me venha ajudar. O paramédico que estava aqui atrás comigo, acho que morreu. Ainda é Domingo. Espero que não por muito mais tempo.

[escrito directamente no facebook em 2018/03/18]

Não És Tu, Sou Eu

Acordei ansioso.
Percebi que o dia se estava a preparar para me dar cabo da vida. E não me enganei.
Mal cheguei ao trabalho fui chamado à gerência. Que gostavam muito do meu trabalho, que era mesmo uma das pessoas mais qualificadas que por ali andava, que sabia fazer, quando fazer e o que fazer. Mas precisavam de controlar despesas. E a maneira mais rápida e eficiente era mandar embora alguns colaboradores. Colaboradores, não empregados. Não era nada de pessoal comigo. Era mesmo um problema deles. Não és tu, sou eu. Downsizing, percebes?
E tiveram de procurar razões para ser uns e não outros. Eu era bom, e eficiente, mas era rebelde, chato, insatisfeito, sempre de mau feitio e a refilar com tudo. E já estava a entrar numa idade avançada. É preciso dar lugar aos novos, aos jovens turcos. E era um alivio verem-se livres de mim.
Final de contrato. Sem direito a indemnização. Arranjei-a bonita. E agora? O que é que iria fazer, agora? Com esta idade?
E podia ir embora. Já não valia a pena fazer o que tinha planeado para fazer. Podia ir tratar da minha vida.
Percebi que era um cancro. Que estava a ser arrancado antes de espalhar metástases por todo o lado.
E percebi que não importava se eras bom, quanto eras bom, se não agradavas a quem tinhas de agradar. No fundo, mesmo na lógica liberal não se abandonam os preceitos da célula. Quem está em cima manda em quem está em baixo. E o respeitinho é uma coisa muito bonita.
Peguei nas minhas poucas coisas e fui embora.
Entrei num snack-bar. Sentei-me ao balcão e pedi uma cerveja. E a manhã foi passando na companhia das cervejas. Ao almoço comi uma sopa e entrei no vinho. A meio da tarde comi um rissol. Era de noite quando pedi um cachorro, daqueles à antiga, duas salsichas Nobre abertas ao meio e fritas na frigideira e colocadas numa carcaça previamente torrada e barrada com um pouco de manteiga. Depois espremi lá para dentro um pouco de mostarda. Acho que continuei na companhia do vinho. Depois bebi um café e uma Macieira. A partir daí, as coisas estão envoltas numa nebulosa.
Acordei na casa-de-banho do snack-bar, caído entre a retrete e a parede. A casa-de-banho estava imunda e acho que eu também. Reparei que tinha vomitado sobre mim. Tentei levantar-me, escorreguei no vomitado e voltei a cair. Quando consegui sair, fiz toda a distância até à porta da rua quase a correr para manter o equilíbrio e não voltar a cair.
Cheguei à rua e vi que a noite tinha caído. O ar fresco despertou-me um pouco.
Cheirava mal. Olhei para mim, de cima a baixo, e vi que estava molhado e sujo. Faltava-me uma sapatilha. Não tinha comigo as coisas que tinha… Que coisas? Já não me lembrava, mas sei que tinha umas coisas.
Não sabia o que fazer. Não sabia para onde ir. Olhei à volta para perceber onde estava e não reconhecia nada.
E, de repente, lembrei-me que tinha sido dispensado do trabalho. Caiu-me um enorme peso em cima. As pernas fraquejaram. Começou a faltar-me o ar. Fiquei com taquicárdia e pensei que o coração me ia saltar peito fora. Comecei a morder os lábios e a arrancar as peles com os dentes e a abrir e fechar as mãos. Os dedos estalavam. Pus-me a atravessar a estrada e, então, só vi um enorme clarão…

…agora estou aqui em cima a olhar para mim, lá em baixo. Há gente à minha volta. Há gente a chorar. Eu estou calmo, tranquilo. Mas penso É por mim que estão a chorar? Agora? Agora que já não estou lá? É por mim?

[escrito directamente no facebook em 2018/01/17]

Seis Euros

Quando saí de manhã não estava a chover. Cruzei a cidade a pé. A cidade não é grande e evito o pára-arranca de hora de ponta na única rua que cruza a cidade. Assim, a pé, faço exercício e vou olhando o desespero de alguns condutores como se estivessem numa grande metrópole.
O pior foi à hora do almoço. Fiquei de ir almoçar a casa e, já a caminho, começou a cair uma carga de água daquelas potentes, que criam inundações, arrasam culturas, mas enchem barragens.
Enfiei-me no primeiro café que encontrei. Não evitei contudo uma ligeira molha que tentei sacudir à entrada do café e para desagrado do homem que me olhava do lado de dentro do balcão.
Aproximei-me e sentei-me num dos bancos altos. Pedi um copo de branco e um rissol. A televisão estava a dar o noticiário e o meu olhar e atenção ficou por lá.
Aprendi que em Janeiro iria haver um aumento extraordinário das pensões, até quinhentos euros, de seis euros. Estava a bebericar um pouco do branco do copo quando explodi num riso tonto e espalhei o vinho que tinha na boca à minha frente, pelo balcão fora. Seis euros? Durante algum tempo não consegui parar de rir. Seis euros de aumento extraordinário nas pensões mais pequenas?
O homem do outro lado do balcão fez má cara à minha explosão e foi limpar o que eu tinha sujado.
Depois lá consegui beber um golo de vinho. E trinquei o rissol de camarão mas, azar dos azares, só apanhei massa. O recheio escorregou todo para a ponta do rissol.
Na televisão continuavam as notícias. Agora era sobre a Ilha de Man. Parece que não pertence à União Europeia, nem ao Reino Unido, embora a soberana seja a Rainha de Inglaterra. É um paraíso fiscal. E há mil e duzentos portugueses que depositaram lá mais de quatro mil milhões de euros. Não me ri. Voltei a trincar o rissol, mas achei-o muito seco. Seco e amargo. Só massa. Sem recheio. Bebi o resto do copo de vinho. Há muito dinheiro no mundo, pensei. E depois voltei a pensar nos seis euros e voltei a rir.
Senti o telefone a vibrar. Era ela. Devia querer saber onde andava. Mas já não me apetecia ir almoçar a casa. Não me apetecia vê-la. Não me apetecia ver ninguém. Larguei umas moedas no balcão e saí para a rua.
Lá fora ainda chovia, menos, mas ainda chovia e fui andando debaixo dos beirais para fugir à chuva. Até que cheguei à paragem dos autocarros. Entrei no primeiro que me levava até ao cinema. E fui ver um filme. Precisava urgentemente de um pouco de ficção. A realidade estava a deixar-me angustiado e triste. Mas, vá lá, pensei de novo nos seis euros e voltei a rir. Não estava tão triste assim. Ou se calhar estava. Já não sei. Mas precisava de estar sozinho. Fugir das pessoas. E desta vida miserável onde estava metido. E sem saber muito bem o que fazer.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/28]