O Dia em que Não Vi o Meu Pai em Cannes

Nunca fui muito de lembrar os mortos. Nem de lembrar os mortos nem de pensar neles quando ainda não eram mortos. Quer dizer, sempre fiz um luto às pessoas mais próximas, um luto muito meu mas, depois, depois era só uma sinalização na linha da minha vida.
Foi assim com o meu pai. Quando morreu, morreu. Chorei. Chorei baba e ranho. Arranhei-me. Fiz sangue. Ainda fiquei com uma cicatriz. Fumei um volume de cigarros numa noite. Embebedei-me. Fui para a rua gritar caralhadas. Andei aos murros, ou tentei, com um desconhecido, a descer a Cruz d’Areia, frente ao portão da Prisão Escola. Cheguei nu a casa. Lembrei momentos. E, depois, segui em frente.
Nunca fui ao cemitério visitar-lhe a campa. Não senti necessidade de olhar para algo que não me dizia nada. Uma pedra. Que não era ele. Não era dele. Não tinha sido escolhida por ele. Uma pedra que não tinha nenhuma relação com ele, a fazer dele. Um marco para o futuro. Qual futuro? Futuro de quem? Percebo que se marque. É uma identificação. Talvez como um Cartão do Cidadão para memória futura. Para quem precisar. Eu não preciso.
Mas naquele dia… naquele dia pensei nele. Não pensei na falta que me fazia. Nem nas saudades que tinha dele. Pensei que devia ter estado ali, ali naquele sítio, naquele momento, para me ver agarrar na Palma de Ouro e poder receber o agradecimento que eu lhe iria fazer. E que não fiz.
Fiz a passadeira vermelha em Cannes. Sentei-me no meu lugar no Teatro. Rodeado de gente que me dava os parabéns por estar ali. Já era uma vitória, diziam. Conheci gente. Muita gente. Muitas raparigas. Ofereceram-me bebidas. Convidaram-me para festas. Propuseram-me sexo, a três, a quatro, em grupo, com gajas, com gajos, com gajas e gajos, numa Villa, na praia, num iate. Deram-me drogas. Levei algumas à boca. As mais coloridas. Fumei coisas de que nunca tinha ouvido falar. Vomitei. Tive espasmos. Alucinei. Tive partes do corpo dormentes. Pensei que ia morrer. Pensei mesmo que ia morrer. E, depois, chamaram-me para me darem a Palma de Ouro pela minha versão de A Vida Depois de Deus do Douglas Coupland. Ao princípio nem percebi que era eu. Que era para mim. Que me estavam a chamar.
Foi enquanto subia as escadas para o palco que me virei para trás e olhei para a Plateia. Para o Balcão. Para todo aquele auditório à procura do meu pai. Sabia que não estava ali, mas procurei-o na mesma. Para lhe agradecer. Não a Palma de Ouro. Não o facto de ser cineasta. Um cineasta premiado. Mas o ser eu. O ter-me dado a hipótese de ser o que era.
E gostava de ter saído dali e não ir para festas privadas nem públicas. Não ir tomar mais drogas nem foder todas as mulheres do mundo. Mas sair dali e ir com ele beber uma cerveja de pressão e comer uns amendoins torrados sentados ao balcão de um bar qualquer e falar de banalidades das nossas vidas comezinhas. O que estavam a fazer à memória do seu Sá Carneiro. As ruas da amargura por onda andava a União de Leiria. Os fabulosos rissóis de peixe da mulher dele, minha mãe. E depois eu ia à rua fumar um cigarro e ele acompanhava-me, não que fumasse, que não fumava, mas para me dizer Isso faz-te mal, rapaz! Olha a bronquite! e dávamos um abraço e ele ia embora e eu regressava lá não sei para onde, não sem lhe garantir que iria a casa nas férias de Verão e poderíamos ir comer umas sardinhas com salada de pimentos à Vieira.
Mas não foi o que aconteceu. Agarrei na Palma de Ouro. Disse Obrigado! E vim-me embora do palco que sou muito tímido e não gosto de me sentir assim, nu, à frente de tanta gente cujo o olhar não me larga.
Depois ainda pensei que, se fosse de me lembrar dos mortos, ia visitar a campa do meu pai para lhe mostrar a Palma de Ouro do Festival de Cannes. Afinal, era a única pessoa da Cruz d’Areia com uma Palma de Ouro. Mas não fui.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/28]

Na Pista de Manutenção

Fui dar uma volta. Fui dar uma volta a pé. Sinto-me inchado. Talvez mesmo um pouco gordo. Não que coma muito. Mas como mal. E estou muito tempo sentado.
Não vesti nenhum equipamento especial para ir dar a volta. Fui dar uma volta como quem dá um passeio. Calças de ganga. T-shirt. Sapatilhas. Levei um chapéu por causa do sol mas, como tenho o cabelo comprido, descobri-me como o palhaço Bozo quando me olhei no espelho do café onde parei para beber uma bica.
Sim, não tinha andado cinco minutos e parei no primeiro café para beber um café. Precisava de acordar. E vi um pastel de Tentúgal a olhar para mim. E como não queria que o café ficasse sozinho, ofereci-lhe o pastel. Soube-lhe bem. Sacudi as migalhas daquela espécie de massa filo que tombou sobre mim quando a trinquei. Sacudi-as para o chão. Voltei à minha caminhada.
Segui um caminho que passa por um pequeno jardim e que acaba por entrar pelo mato adentro. É uma espécie de trilho de manutenção, para onde vai gente correr vestida de cores coloridas, mas por onde eu nunca tinha passado. E fui.
Tanto ar fresco e puro começaram a dar-me azia. Tentei respirar pelo nariz. Não era fácil. Estava um pouco entupido. Fui insistindo.
Caminhei por entre o verde dos arbustos. Caminhei por baixo das ramagens das árvores. Caminhei paralelo ao rio. Nuns sítios onde o rio fazia uma curva, acumulava-se lixo. Uma quantidade indistinta de lixo. Plásticos. Garrafas. Embalagens de gelados. Preservativos. E coisas que, à distância, não consegui identificar. Havia também muito pólen a flutuar.
A meio do trajecto descobri um pequeno bar de apoio. Com umas mesas e umas cadeiras numa pequena esplanada no meio da natureza. Cheguei-me ao balcão e olhei para o que havia no interior. Nada de convidativo. Vi uns pacotes de Capri Sun (devem ser os sucessores do Capri-Sonne). Umas garrafas de água de plástico da Makro. Uma máquina de café Nespresso. Uns pastéis de nata e uns rissóis já ressequidos. Perguntei por aguardente. Sim, havia. Caseira. Sem rótulo. Numa garrafa de cinco estrelas. Nem sabia que ainda existiam. Pedi um cálice de aguardente. Bebi de um gole. Pedi um segundo copo. Acendi um cigarro. Virei-me ao contrário e encostei-me ao balcão. Para ver quem passava por ali.
Acabei de fumar o cigarro. Acabei o segundo bagaço. Ninguém passou.
Paguei e fui embora. Regressei à minha caminhada.
Ao fim de algum tempo comecei a ficar farto de verde e de árvores. Ansiava por um pouco de cheiro a gasóleo. Barulho de motores de automóveis. Gente a discutir. Confusão.
Não, é mentira. Não ansiava nada. Mas já estava um bocado farto desta cena tão bucólica.
Acabei por sair do mato.
Regressei ao asfalto. Já tinha passado quase uma hora desde que saíra de casa. Já tinha caminhado bastante.
Merecia um prémio.
Passei por uma cervejaria. Fui para o balcão. Uma imperial. Não havia tremoços. Mas havia azeitonas. Com azeite e alho. E orégãos. Bebi duas imperiais.
Fui para casa.
Andei cerca de hora e meia a caminhar.
Ainda me sentia inchado. Com um pouco de azia.
Acho que esta coisa de caminhadas não é para mim.
Precisava de me sentar frente ao computador. Abrir uma página em branco. E ficar a olhar para ela com um cigarro a fumegar na mão.

[2019/05/16]

Dantes Era Assim

Eram cinco da manhã e o meu pai carregava-me ao colo até ao carro. Depositava-me no banco traseiro. A minha almofada já lá estava à espera da minha cabeça sonolenta. Trazia comigo o cheiro a fritos dos rissóis que a minha mãe estava a fritar. Mais umas bifanas. Uns ovos mexidos. Eu não sei bem, que estava a dormir. O meu pai carregava-me em peso até ao carro. Não lavava a cara. Nem os dentes. Nem fazia xixi. Ia da cama para o carro. A dormir. Isto tudo que sei, contava-me depois o meu pai. E a minha mãe. Descobria eu próprio ao remexer na cesta do farnel.
Eram cinco da manhã e o porta-bagagens estava cheio. Cheio e bem arrumado que o meu pai tinha mestria para pôr o Rossio na Betesga.
O meu pai a conduzir. A minha mãe ao lado. Eu atrás. Deitado no banco, a dormir. Com a cabeça enfiada na almofada que me acompanhava para todo o lado.
Era com os primeiros raios de sol, em dias que prometiam calor, que a minha mãe me acordava. Acorda, mandrião! Olha o sol! dizia.
E eu acordava, admirado por estar ali. No carro. Em andamento. Com o sol a bater-me nos olhos. Eles a não quererem abrir. Eu a esfregá-los. Olhava pela janela e via as árvores a passarem lá para trás. Os outros carros que nos ultrapassavam. E eu apertava as pernas. Com vontade de fazer xixi. E o meu pai parava o carro na berma da estrada, algures, onde fosse, e íamos os dois, eu e o meu pai, fazer xixi junto a uma árvore. Os outros carros passavam e apitavam. O meu pai levantava a mão e dizia adeus, lá para trás. Sem se virar.
Voltávamos ao carro e a minha mãe já tinha desmontado a mala que era uma mesa de campismo com quatro bancos lá dentro. Já tinha acendido um pequeno bico de gás. Fazia café para ela e para o meu pai. Aquecia leite para mim. Uma bifana para cada um. Um rissol. E regresso ao carro e à estrada.
E lá íamos nós.
Para onde quer que fosse. Naquela altura todas as viagens começavam assim. Daquela maneira. Sempre igual. Sempre fascinante. Acordava no carro. Com o sol a bater nos olhos. Fazia xixi na rua. A minha mãe tinha umas sandes substanciais para o pequeno-almoço.
Gostava de comer uma bifana assim, no meio do pinhal. Com os carros a passar por nós e a apitar. A fazer xixi contra uma árvore. E o mais importante, ir a caminho da praia.
Chegávamos junto ao Sado. Um rio que se confundia com o mar. Setúbal. Depois de já termos passado Lisboa. Depois de já termos voado sobre o Tejo. E o coração apertado. O medo. O medo das alturas. O medo de cair. Mas a sensação de estar acima de tudo e de todos. E depois esperávamos na fila com os outros carros. Entrávamos no ferry e zarpávamos para Tróia. Saía do carro e tentava ver os golfinhos. Nunca vi nenhum.
Houve um ano que almoçámos num restaurante self-service e eu ainda pude tomar banho numa das piscinas de Tróia. Foi uma boa viagem, essa. Levar o almoço num tabuleiro, como gente grande. Nadar numa piscina nova, bonita, no meio de gente desconhecida, a espreitar os meus pais na esplanada para confirmar que não fugiam e me deixavam ali no meio de estranhos.
Depois o regresso à viagem. As uvas que a minha mãe me dava. A minha mão a surfar o vento à janela até o meu pai me mandar fechar o vidro.
Chegava a saturação. Já chegámos? Ainda falta muito? E agora?
E agora tinha de beber água que a minha mãe me obrigava. Para não desidratar. E agora o meu pai tinha de parar o carro para fazer, de novo, xixi. E agora, comia umas bolachas. Queria um gelado mas não havia. Não tenho aqui gelados!, dizia a minha mãe. Pois não!, confirmava o meu pai. E eu contentava-me com umas bolachas Torrada barradas com manteiga, duas-a-duas, que a minha mãe sabia serem as minhas preferidas.
E agora chegávamos à cento e vinte cinco. A estrada.
E agora o meu pai dizia que já estávamos quase.
E agora eu via a noite cair. O carro sem parar. E já então sabia que o quase dele era diferente do meu.
E quando, finalmente, chegávamos, eu estava, de novo, a dormir. Deitado no banco de trás do carro, com a cabeça enfiada na almofada. E o meu pai iria pegar em mim e levar-me ao colo para a cama, o divã, o sofá onde eu iria dormir nos próximos dias.
E quando acordasse na manhã seguinte, então sim, estava oficialmente de férias.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/29]

Ir à Bola com o Meu Pai

Era miúdo e ia ao futebol com o meu pai.
Pegava na bandeira, com ripa de madeira que ninguém proibia de entrar no Estádio que ainda era Campo da Bola, numa almofada para sentar o rabo suavemente nas bancadas de cimento, passávamos na senhora dos tremoços e comprávamos um saquinho de tremoços e outro de pevides e, em dias de festa, uma fiada de pinhões que eram caras como o raio.
Antes de entrar no Estádio passávamos no Lagoa. O meu pai bebia um copo de três ou uma mini e eu bebia uma Superfresco de laranja ou um Canada Dry. Isto foi antes das imperiais e do bagaço. Agora já ninguém me deixa ir com o bagaço para a bola.
Lembro-me de uma época no Estádio da Luz, em jogos da UEFA, jogos que eram à noite mas em que entrávamos no Estádio a meio da tarde, armados de Tupperwares com rissóis e croquetes e pastéis de bacalhau e torresmos que depois embebíamos em cerveja adquirida nas bancadas que havia sempre gente a vender as coisas necessárias à nossa satisfação.
Nessa altura não havia claques de futebol. Os adeptos eram toda uma claque que incentivava os jogadores, chamava ladrão ao árbitro e cabrão ao jogador adversário.
Havia sítios onde as coisas eram mais perigosas. Acompanhar a União de Leiria aos Marrazes, à Marinha Grande, à Nazaré ou à Vieira de Leiria poderia ser perigoso. Especialmente se fôssemos uns adeptos daqueles que nunca se calam. E éramos. As Caldas também era grande rival mas nunca rivalizou grande coisa.
Nessa altura A Bola saía três vezes por semana, havia dois canais de televisão e só um tinha um programa sobre bola e o indicativo do Domingo Desportivo era o Blue Monday dos New Order.
Era normal encontrar nas imediações dos Estádios vários carros onde as senhoras esperavam os seus maridos fazendo renda ou tricot.
Tudo mudou com a chegada da morte.
Com a chegada da morte do meu pai, deixei de ter companhia para os jogos e deixei de ir com tanta frequência. Com a morte de um adepto no Estádio e depois a ascensão das claques de futebol, deixei mesmo de ir.
O futebol é somente a porra de um jogo. Gosto de me empolgar, mas é só um jogo. Não quero que a minha vida seja posta em causa por causa de um jogo. Gosto de me sentir livre.
Continuo a gostar de futebol, mas o futebol para mim é já um jogo de televisão. Um jogo de televisão e em casa. Em casa posso comer e beber o que quiser. Em casa posso ter bandeiras com paus, ripas ou o que for. Em casa posso ver o jogo nu. Em casa posso desligar a televisão quando as coisas não correm de feição. Em casa posso mandar toda a gente para o caralho que ninguém se sente ofendido. Em casa mando eu. Em casa mando eu quando a minha mulher me deixa mandar.
Mas tenho saudades. Saudades de ir livre a um Estádio ver um jogo de futebol.
Acho que é isto a velhice. A saudade de um tempo que já não é.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/11]

Dia de Aniversário

Era o meu aniversário.
Estava sentado à mesa. À mesa grande da sala onde o meu pai tinha colocado o acrescento para tornar a mesa ainda maior. Mais comprida.
À volta da mesa muitos amigos meus. Eu estava sentado ao meio. Estávamos todos um bocado histéricos. Falávamos muito alto. Todos queríamos a atenção dos outros. Eu como eles. Eu mais que eles.
A minha mãe chegou por trás de mim com uma caixa de fósforos e acendeu as nove velas do bolo de aniversário que ela própria tinha feito. Era o bolo das cerimónias. Uma espécie de pão-de-ló feito com iogurte. Eu adorava a parte de cima do bolo, o vinco exterior, uma espécie de rebordo, mais queimado, e que estalava quando o trincava.
A minha mãe era uma boa cozinheira. Uma boa cozinheira como só as mães e, às vezes, as avós, conseguem ser. Para além do bolo das cerimónias, havia outros bolos que ela tinha feito e que estavam na mesa grande à espera de serem devorados por uns miúdos esfomeados e sedentos de bolos e doces que só tínhamos autorização de comer nessas alturas de festa. Havia um bolo de mármore, uma torta de laranja, rissóis, croquetes, pastéis de bacalhau, pastéis de massa-tenra, frango frito no qual a minha mãe espremia um bocado de limão, gelatinas e salada de frutas. Para beber era sumo de laranja, daquele em pó, ao qual se juntava água e não tinha gás.
O meu pai estava do outro lado da mesa com uma máquina fotográfica, que tinha pedido emprestada, para registar o momento.
Apagaram-se as luzes, cantaram-se os parabéns e eu, e todos os outros miúdos, começámos numa rebaldaria a soprar as velas para ver quem conseguia apagar mais e mais depressa. O caos.
Perdi o rasto a essas fotografias. Aliás, não tenho registos nenhuns da minha infância.
Às vezes ainda me pergunto se as memórias que eu tenho são mesmo as minhas memórias, e memórias do que vivi, ou se são memórias implantadas para me fazerem acreditar em algo que nunca existiu.
Acho que vou continuar na dúvida. E todos os anos, como tem sido até aqui, vou continuar a colocar em causa as histórias de quando eu era criança.
Mas, de todas as formas, era o meu aniversário. Eu estava com os meus pais e os meus amigo. E era feliz.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/26]

Estou na Estatística

Faço tudo aquilo que esperam de mim.
Lavo os dentes depois de comer, antes de deitar e depois de acordar. Corto as unhas dos pés e das mãos com regularidade. Tomo banho de duche todos os dias, às vezes mais que uma vez por dia. Lavo o cabelo no banho, em todos os banhos. Corto o cabelo uma ou duas vezes por ano. Faço a barba todos os dias e trago a cara limpa, fresca e lavada. Também lavo as orelhas e limpo os ouvidos.
Trabalho. Pago os meus impostos. Pago a renda da casa, a electricidade, o gás, a água, o telefone, o cabo.
Cozinho em casa e, às vezes, almoço ou janto fora. Como pão sem glúten, manteiga sem sal, queijo light, maçãs de Alcobaça, pêras do Bombarral, cerejas do Fundão, tangerinas do Algarve, bananas da Madeira, carne de porco pata negra de Barrancos, fumeiro de Montalegre, bebo leite dos Açores, vinho do Alentejo e espumante da Bairrada.
Gosto de Pastéis de Nata e de Bolas de Berlim. Também gosto de Pastéis de Tentúgal. E de rissóis, croquetes, pastéis de bacalhau e de massa-tenra e de chamuças.
Ao almoço como sempre um prato de sopa.
Bebo um litro e meio de água por dia. Engarrafada e da torneira.
Bebo café. Três por dia. Às vezes quatro. Um bagaço e, por vezes, uma aguardente velha.
Passo férias na Costa Alentejana, em São Pedro de Moel e em Moledo.
Vou regularmente ao cinema. A um concerto ao vivo. E ao futebol.
Compro móveis em Paços de Ferreira, sapatos em Oliveira de Azeméis e roupa no Vale do Ave.
Ando a pé bastantes vezes e também de bicicleta.
Compro um jornal por dia. Leio um livro por mês. Leio poesia quando calha. Ouço música diariamente. Vejo séries na televisão e vejo os noticiários.
Voto.
Compro os postais da UNICEF. Dou dinheiro nas campanhas para o Coração, para o Cancro e compro o Pirilampo Mágico para ajudar a CERCILEI.
Estudei em colégios privados e na escola pública. Frequentei o politécnico e a universidade. Joguei andebol, futebol e futsal.
Casei e divorciei-me. Tive filhos. Sobrinhos. Amigos. E amantes.
Faço sexo quando calha.
Jogo todas as semanas no Euromilhões. Mas nunca me saiu nada.
Porra! Sou um português normal e estou na estatística.
Que mais querem?

[escrito directamente no facebook em 2018/03/01]