Não Quero Ser Feliz, Quero Viver

Ser feliz? Eu não quero ser feliz! Eu quero viver, foda-se,

subir o Amazonas, descer o Mississippi, mergulhar no Ganges, no Ganges não que aquele rio está nojento e cheio de merda, mas podia mergulhar no Tejo, ali na Amieira, se houvesse água suficiente porque agora nunca se sabe, embora o ministro garanta a pés juntos que água é coisa que nunca falta ao Tejo, e eu acho que o ministro nunca viu o Tejo para além das janelas do seu gabinete no Terreiro do Paço, se é que é no Terreiro do Paço que o ministro tem o gabinete, eles são tantos e nunca sabemos quantos são, quem são, onde estão, e eu gostaria de subir o Kilimanjaro, o Himalaias e o K2, deslizar pelas encostas dos Alpes abaixo, cruzar o Atlântico até à Terra do Fogo e subir as Américas, as Américas todas, desde a América do Sul até à América do Norte, passando devagar, e com paciência, pela América Central, e apreender bem toda a América Latina, subir o Chile até ao deserto do Atacama, fazer o trem da Morte do Pacífico ao Atlântico, nadar nas Caraíbas mas com atenção aos tubarões que também são gente e gente perigosa, mas não são maus, são assim, visitar Fernando de Noronha e Paraty, beber uma Skol em Manaus e deixar-me transpirar até ficar magrinho e elegante, navegar por entre os manguezais do Maranhão e dançar Nação Zumbi em Pernambuco, ir ao terreiro na Bahia, visitar os pueblos no México e comer chili até deixar a língua vermelha, mastigar folhas de coca na Bolívia e sobreviver à ditadura da Bíblia que persegue o continente, e comer um bife de chorizo, que saudades tenho de um bife de chorizo barrado de chimichurri, ir até ao Alaska, pular o Pólo Norte e descer à Sibéria caminhar pelos tãos todos, Azerbaijão, Turquemenistão, Uzbequistão, Cazaquistão, Tajiquistão, Afeganistão, Paquistão, Quirguistão, que já foi Quirguízia e outras coisas porque já todos foram outras coisas que os homens não conseguem estar sossegados, raios os partam, a ver a vida fluir, têm de estar sempre a fazer uma merda qualquer, guerras, batalhas, revoluções, a chatear o vizinho pelo simples prazer de colocar uma bota cardada na cabeça de uma criança que só quer ouvir o vento, o chilrear dos pássaros, a erva a crescer como uma vez me disseram que era o que acontecia no Laos, as pessoas sentavam-se a ouvir a erva a crescer nos campos e sim, gostava de passear por lá, pelo Laos, Vietname, Cambodja e partilhar tigelas de arroz com velhos mais velhos que a Terra, e esqueci-me que também queria andar a cavalo pela Mongólia e cruzar a China pela Grande-Muralha e poder ser visto da Lua por algum selenita que possa existir, e o Neil Armstrong não os viu porque se esconderam todos quando viram chegar o boneco da Michelin que podia levar também, não se sabe, nunca se sabe, uma Bíblia na mão para evangelizar toda a gente e pôr toda a gente de arma na mão, dar um passo de uma Coreia à outra, e no que foi um Vietname ao outro se descobrisse onde já foi a fronteira, e regressar à Indochina que também há-de ficar lá para esses lados mas só os franceses e a Marguerite Duras é que sabem, e tenho saudades de ler Marguerite Duras, na verdade tenho saudade de ter a idade que tinha quando tinha tempo e vontade de ler os livros da Marguerite Duras e da Yourcenar, e navegar ao Deus-dará pelos Mares da China com o Corto Maltese, e descer às nésias, a Polinésia, a Micronésia e a Melanésia, mergulhar no Mar de Coral, cruzar a pé o deserto australiano, apascentar ovelhas nas montanhas neo-zelandesas, navegar até aquele ponto, aquele ponto exacto, que é o ponto mais solitário do mundo, onde no meio do Oceano Pacífico estamos o mais longe possível de terra, de gente, de civilização, de dor, de obrigação, e regras e deveres, e da religião e da Bíblia e de todo o consumo a que sou obrigado, mas isto não iria durar muito tempo que eu iria querer voltar para o meio de gente, cruzar o canal do Panamá para regressar ao Atlântico e descer a África onde nasci, onde nascemos, nós todos, onde todos temos origem, uma só raça e várias cores, o suficiente para o ódio dos néscios, e fazer o caminho de Capelo e Ivens de Angola a Moçambique, e mergulhar nas águas tépidas do Índico mas com cuidado que é uma zona de muitos tsumanis, e eu quero conhecer tudo e ver tudo e perceber tudo, mas há coisas que não quero ver, e não quero ver um tsunami no Índico, nem o Stromboli em actividade, nem a falha de Santo André a tremer, nem uma avalanche nos Alpes, mas dar voltas e mais voltas à Terra, a pé, a cavalo, de bicicleta, de barco, a subir e a descer, a comer, a beber, a ler, a ver, a apreender, a renascer, a sorrir, a chorar, a correr, a gatinhar nos braços de uma mulher, de um homem, branco, preto, vermelho, amarelo, às bolinhas cor-de-rosa, comer queijos, uvas, tâmaras, fios-de-ovos, beber vinhos, cervejas, licores, cheirar perfumes, odores, descer cascatas, nadar em rios e mares, amar nas dunas, nas praias, deitado no musgo, em camas alegres e bem resolvidas, ouvir música, ver concertos, ler ainda mais livros e revistas e jornais, passear com animais e passear de chinelos, sapatilhas, botas, ao frio, ao calor, no Verão, no Outono, no Inverno, na Primavera, no Hemisfério Norte, no Sul, no Médio Oriente e visitar Veneza enquanto não é Atlântida, e ser tudo e todos, e falar todas as línguas do mundo, e acordar em todas as camas do mundo, em todos os cantos do mundo, em paz com toda a gente do mundo, mesmo com os que ainda não sabem que a vida é muito mais interessante se for vivida assim, desta forma, vivida

e depois ficar furioso ao ser acordado por duas mulheres cinzentas que tocam a campainha de casa para me falarem da Sentinela e eu percebo que sonhava, não vivia, e então faço uma pequena mochila, e parto de casa nesse mesmo momento, embarco num barco para o outro lado do equador, e vou finalmente subir o Amazonas, preâmbulo para uma viagem a conhecer todo o mundo e tudo o que o mundo tem para me dar antes de encetar a minha viagem derradeira para Marte, onde me espera, finalmente, a imortalidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/19]

O Banco de Jardim

A primeira vez que tivemos relações sexuais foi num banco de jardim, junto ao rio, no Marachão, depois de uma festa dos anos ’80 a que acabámos por não ir.
Foi a única vez que fizemos sexo, um com o outro, na rua. Foi também a melhor e mais intensa noite de sexo que alguma vez tivemos juntos. A partir daí, e enquanto durou a relação, foi sempre a descer. Mais para cumprir calendário que por desejo.
Não sei se ela se equivocou comigo ou se aquela noite foi só o resultado de uma bebedeira. A verdade é que estávamos os dois ardentes e cheios de vontade um do outro. A verdade é que, naquele frio, junto ao rio, ardemos.
Tínhamos estado num bar. Foi aí que metemos conversa um com o outro. Amigos comuns. Uma gargalhada. Uma resposta mais irónica. Um sorriso nos lábios. Um pouco de arrogância. Algumas opiniões avulsas sobre a vida e a morte, e o desejo acabou por fazer o resto. Perdemos os amigos comuns que se evaporaram na noite. Ficámos a beber. Eu e ela. Primeiro andámos pela cerveja, mas depressa migrámos para o gin. Acho que queríamos acelerar a noite. Eu pelo menos sim, queria acelerar a noite e ir longe com ela.
Hora de fechar. Fomos postos na rua. Havia uma festa dos anos ’80 na cidade. Lancei a ideia. Foi aceite. Cruzámos a cidade na conversa. Eu a fumar. Cigarro atrás de cigarro. Eram os nervos. Ela não fumava. Nem falava. Eu falava. Eu falava e fumava. Ela ouvia. Ouvia-me.
Chegámos aos anos ’80. Eu estava um bocado maldisposto. Tinha perdido a conta aos gins. Ela disse para darmos uma volta. Para eu arejar. Acabámos por não entrar pelos anos ’80. Ela nem era assim tão fã de festas, muito menos dos anos ’80, disse. Assim Não faço grande questão em entrar. Nem gostei muito dos anos ’80. Vamos dar uma volta. E fomos. Fomos passear junto ao rio. Pelo circuito da Polis. Seriam, o quê?, três, quatro da manhã. Já me tinha passado a má disposição. Acendi um cigarro. Ela sentou-se num banco de jardim. Sentei-me lá ao lado dela. Depois, mão-na-mão. Boca-na-boca. Mão numa mama. A língua solta. Esperar a reacção. Quando dei por mim já estava com as calças ao fundo das pernas. Ela também. Foi tudo assim muito rápido, muito intenso, muito desejo.
Ficámos lá sentados por muito tempo, no depois, sentados no banco de jardim. Em silêncio. De mãos dadas. A sentir a água a correr no rio que não víamos porque estava escuro. Eu fumei outro cigarro. E depois ela disse Está frio. E estava. Estava frio. Dei-lhe o meu casaco. Fiquei de t-shirt a berrar frio. Senti um arrepio. E ela disse É melhor ir para casa. E eu acompanhei-a.
À porta de casa disse que era melhor eu não subir. Era tarde. E era cedo.
Foi a primeira e a única vez que não subi. Na semana seguinte estava a viver com ela.
Eu continuei a beber. Passei da cerveja e do gin para o vinho tinto. Ela passou para o chá. Desencontrei-me dela. Ela perdeu-me. Depois já éramos só a lembrança de uma noite.
Um dia ela disse Já não vale a pena. É melhor ires embora. E eu fui.
Nunca mais a vi.
Sempre que passo no Marachão, junto ao banco de jardim onde estive com ela, lembro-me dela. E do que aconteceu.
Hoje passei ao pé do banco. Estava vazio. O rio cheirava mal. Estava sujo. E corria uma aragem desagradável.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/18]

Regresso à Cama

Acordo. Há pouca luz. Já é de manhã mas, o tempo cinzento e a chuva escondem a luz que podia já estar a iluminar o quarto.
Estou de olhos bem abertos. Podia virar-me para o lado e tentar dormir, mas sei que não vou conseguir. Muitos anos a acordar a esta hora. Já conheço a rotina. Sei que não consigo voltar a adormecer.
Ela está aqui ao lado. Dorme. Sinto-lhe a respiração profunda, descansada.
Saio nu da cama. A casa está quente. Foi uma boa ideia, o recuperador de calor.
Vou à cozinha. Ponho café a fazer. Espreito à janela. Chove. Chove muito. Chove tanto que não se vê nada para além de dois ou três metros daqui da janela. Mal vejo o prédio em frente. Deve estar frio na rua. A casa está quente. Estou nu e estou bem. Foi uma boa ideia o recuperador de calor.
Tomo banho.
Visto uma calças. Bebo café. Vou até à janela de novo. Acendo um cigarro. As manhãs de Domingo são difíceis. Nunca sei muito bem o que fazer. Vou à rua. Compro o jornal. Bebo um café expresso. Como um croissant folhado simples. Às vezes com manteiga. Às vezes com doce de morango. Fumo um cigarro. Venho para casa. Faço o almoço. Almoço. À tarde passeio junto ao rio. Vou ao futebol. Leio um livro. Quando dou por mim já é de noite. Vou comer uma bifana às rulotes. Gosto de estar ali assim, ao frio, a comer uma bifana grelhada e a beber uma mini na companhia de gente que não conheço de lado nenhum mas que, como eu, gostam de estar ali assim, ao frio, a comer de pé, encostados ao balcão da rulote. Há noites em que vou a pé até ao McDonald’s. Como um Royal Cheeseburguer. Bebo uma Cola. Desfaço tudo no caminho de regresso a casa. Depois faço um chá e sento-me no sofá a ver o Trio d’Ataque.
Estou cansado deste ritmo.
Acabo o cigarro. Abro a janela e mando-o para a rua. Molho-me na chuva que entra pela janela aberta naquele breve momento em que abro o vidro. Está muito frio na rua. Sinto o corpo arrepiar-se. Mas a casa está quente. Fecho a janela.
Olho para a tempestade lá fora e digo, em silêncio, só na minha cabeça, para me ouvir Não. Hoje não vou à rua.
Largo a chávena de café na mesa da cozinha. Retorno ao quarto. Gosto de sentir o chão de madeira debaixo os meus pés descalços.
Dispo as calças. Ela continua a dormir. Entro outra vez na cama. Ela vira-se para mim e abraça-me. E, sem abrir os olhos, diz Estás frio. E depois continua Cheiras a café. E a tabaco. E a champô. E a sabonete. Gosto destes teus cheiros todos.
Eu sorrio. Abraço-a a deixo-me ficar dentro da cama junto dela. Os dois nus, na cama, numa manhã de Domingo, a ouvir a chuva a cair lá fora.
Sinto a mão dela a percorrer-me o corpo. Ela repete Estás frio.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/17]

Os Riscos nas Folhas de Papel

Todos os dias a via. Sentada no banco do jardim, virada para o rio, a desenhar. Estava ali ao pé do Moinho de Papel, depois da pequena queda de água que fazia o rio saltar de uma plataforma para outra para continuar a correr até à praia da Vieira e se transformar em espuma suja que morre na areia.
Eu passava por ali todos os dias. Passava a correr. Desde que tinha sobrevivido ao acidente que tive há cerca de três anos que comecei a correr. Corro como catarse. Fazia todos os dias o mesmo trajecto. Corria ao longo da Polis. Corria nas margens do rio Liz. Às vezes corria ao lado de um leito de rio deserto. Outras vezes ao lado de um rio que corria veloz, mais veloz que eu.
Sempre que cruzava a estrada, ali ao pé da Estação de Serviço da Total, depois de ver a pequena cascata do rio que tombava sobre um pequeno lago rodeado de árvores verdes e frondosas que tapavam a entrada de sol e tornavam aquela zona bastante fria, húmida e fria, e antes mesmo de chegar ao Moinho de Papel, o Moinho que Alvaro Siza Vieira recuperou, que a via sentada. Sentada num banco de jardim a desenhar. Desenhava o rio. As pessoas a correr. A andar. Sozinhas, aos pares e em grupo. Os homens mais sozinhos. As mulheres mais em grupo. No Verão desenhava os miúdos aos mergulhos no pequeno lago na queda de água. Desenhava o Moinho de Papel. A cascata. Às vezes levava fotografias e desenhava outras coisas. Coisas que gostava. Algumas delas pintava-as com aguarelas. Um dia esqueceu-se das aguarelas e foi ao café buscar uma bica. Pintou o desenho com o café. O café na ponta do dedo. Eu sei porque vi. Ela mostrou-me. Eu às vezes sentava-me ao lado dela a descansar. Fumava um cigarro e ela mostrava-me os desenhos com que enchia as páginas dos diferentes cadernos da Moleskine que preenchia. Folhas e folhas e folhas. Muitas delas só com rabiscos. Esboços a carvão. Experiências. Preenchia cadernos grandes. Pequenos. Cadernos japoneses com folhas que se desenrolavam em leque. Pequenas sebentas quando não havia mais Moleskines.
Acho que passava lá os dias inteiros. Mesmo nos dias de chuva. Encontrava-a lá de manhã cedo, a minha hora normal de correr pela Polis. Mas aconteceu ter de correr ao final do dia e voltei a cruzar-me com ela. E os seus desenhos, as cores dos seus desenhos, reflectiam essa diferença de luz, a queda do dia, a aproximação da noite.
E um dia passei por lá e ela não estava. Sentei-me no banco de jardim onde costumava estar sempre a desenhar e fumei um cigarro. Fumei um cigarro sozinho. E senti o vazio. Percebi que se tinha ido. Percebi que ela já não estava mais ali. Nem ali nem em mais sítio nenhum.
Larguei o resto do cigarro nas águas do rio. Continuei a correr.
Nunca mais corri ao longo da Polis. Não queria voltar a passar por ali. Por onde a via a desenhar. A desenhar-me. Desenhou-me várias vezes. Desenhou-me nas minhas calças de fato-de-treino azuis da Converse. Nas minhas sapatilhas amarelas fluorescentes da Asics Tiger. Nas minhas t-shirts velhas, algumas rasgadas, que ele reproduzia fielmente, o buraco feito pela ponta incandescente do cigarro, as garras dos gatos, o desgaste do tempo e das lavagens ao longo dos anos.
Depois dela ter desaparecido passei a subir à Cruz d’Areia, descer a São Romão, cruzar o rio ao pé do McDonalds e ir até ao Vale Sepal, subir a estrada do Vale Sepal, aquela estrada sem passeio, e descer, descer até à cidade, lá em baixo, passar ao lado da morgue e chegar às ruas entupidas de carros em aceleração e buzinas a apitar.
Arranjei uma moldura e pendurei um dos desenhos que ela me deu na parede do escritório e, todos os dias, depois de ler as notícias online enquanto bebo uma caneca de café, e antes de sair para a minha corrida matinal, olho-me desenhado naquela folhar grossa arrancada de uma Moleskine e pintado a aguarela, e recordo-a, sentada no banco de jardim, a desenhar, a pintar, a olhar tudo com muita atenção, o rio, as margens, a queda de água, o Moinho de Papel, a pessoas a correr nas suas roupas coloridas e os adeus que muitas delas lhe ofereciam quando passavam a correr e a viam a desenhar.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/03]

Melancolia

Forço-me a sair de casa.
Não posso estar sempre deitado na cama. Preciso de me mexer. Mexer o corpo. Sentir o sol sobre mim. Ver claridade. Respirar o CO2 dos automóveis em despique.
Saio de casa com as mão nos bolsos. Os ombros descaídos. Está um dia claro de sol amarelo, nem quente nem frio. Algumas nuvens. Uma ligeira aragem. Um dia sem história.
Caminho.
Caminho ao longo do passeio. Circulo perdido pela cidade. Vou onde me levam os passos. Os meus pés numas All Star rotas, todas escavacadas, sapatilhas que já calcorrearam mundo, mas confortáveis. Espero que não chova. As calças de ganga caem sobre as sapatilhas e prendem-se debaixo do rasto. Rasgam-se. Vejo um fio da ganga a bailar com os meus passos, perdido que estou pelas ruas da cidade.
Caminho.
Caminho até ao rio. Sento-me num banco de madeira a olhar o rio frio que está parado no seu leito. Uns miúdos brincam no muro mais à frente. Um deles cai. Cai ao rio. Devia ir ajudar. Talvez mergulhar no rio. Talvez telefonar à polícia. Talvez telefonar aos bombeiros. Talvez ligar ao cento e doze. Mas não o faço. Não consigo fazer. Nem coloco a mão no bolso das calças à procura do telemóvel. Nem me levanto do banco, excitado, nervoso, curioso com o sucedido. Deixo-me ficar sentado. Suspiro sem grande força. O olhar perdido na direcção dos outros miúdos que chegam com um agente da polícia. E eu olho. Limito-me a olhar. Depois deixo cair o olhar no chão. Levanto-me.
Caminho.
Caminho de novo com as mãos nos bolsos. De novo os ombros descaídos. Os pés arrastam-se pelo macadame e puxam o meu corpo quase-morto. Deixo o miúdo caído ao rio nas mãos do polícia. Dos amigos. Do socorro que o polícia há-de providenciar. Deixo tudo lá para trás. Para trás de mim. Devia ter trazido o iPod. Devia estar a ouvir música. Os ouvidos mudos à cidade. Mas não me apetece. Não me apetece ouvir música. Quero silêncio. Quero vazio. Quero nada. Não quero o iPod.
Acendo um cigarro. Os patos cruzam o macadame a caminho do rio. Um miúdo passa a correr e, rápido, apanha um dos patos e foge com ele a grasnar debaixo do braço. Eu viro-me. Vejo-o desaparecer entre as árvores que acompanham o rio. Vejo-o desaparecer e deixar de existir. Aconteceu o que eu julgo que vi? Ou não aconteceu nada? Nem eu vi nada? Passou por aqui um miúdo? Ou não? Mas continuo. Continuo em frente. Não sei para onde vou.
Caminho.
Só caminho em frente. Vejo as folhas a cair das árvores. Ouço o barulho que faço ao pisá-las. É mesmo uma manhã outonal.
O sol amarelo que clareava o dia acabou por se ir, envergonhado. O céu ficou cinzento. Levantou-se um ligeiro vento. Caiu o frio. Estou sem casaco. Mas vou continuar em frente.
Queria regressar a casa. À cama. Ao conforto da minha cama.
Ultrapasso uma velhota que treme no seu passo inseguro apoiada a uma bengala. Penso que não vai chegar ao seu destino. Afasto-me, devagar. Mas o meu devagar é muito rápido para a velhota. Ouço um barulho seco atrás de mim. Imagino que a velha caiu. Mas não me viro. Não me quero envolver.
Caminho em frente. E depois páro.
Não sei mais para onde ir. Os pés não se mexem. Posso virar à direita. Posso ir para a esquerda. Mas não tomo nenhuma decisão. Os meus pés não se mexem. O meu corpo não sugere. E então começa a chover. Primeiro uma pequena e leve borranha. Depois as gotas engrossam. E começa a chover copiosamente. Chove sobre mim. Mas eu não me mexo. Os meus pés parados. Os buracos nas All Star a deixar entrar a água fria. Sinto as meias a encharcar e os pés molhados. Suspiro de novo.
Já não caminho. Estou aqui. Não sei o que estou a fazer, mas parece-me que não estou a fazer nada. Estou só aqui porque não consigo não estar. Não me mexo. Não me apetece fazer nada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/29]

Atento

Quando o vi, a minha primeira reacção foi vomitar. Apoiei-me na parede, o corpo curvou-se para a frente e vomitei sobre as sapatilhas. Limpei a boca à manga da camisola. Virei-me e procurei-o de novo.
Já não o vi.
Ainda dei algumas voltas pelas ruas adjacentes, mas não voltei a vê-lo. Pensei que não estivesse por cá. Pensei que tivesse ido embora da cidade. Na verdade nunca pensei. Presumi que sim. Que depois de tudo o que se tinha passado, ele tivesse ido embora da cidade.
Agora estou a tremer. Fiquei nervoso. Fiquei nervoso ao vê-lo.
Sento-me no lancil do passeio. Não consigo andar. Preciso de descansar. Preciso de pensar noutras coisas. Acendo um cigarro. Encosto-me ao marco do correio.
Passa um polícia. Olha para mim. Aproxima-se e pergunta Está tudo bem?, ao que respondo Só uma quebra de tensão, senhor agente. Não quero ter de explicar tudo outra vez. Mais uma vez. Reviver tudo de novo. Não, não quero. Por isso digo Só uma quebra de tensão!
O polícia insiste. Se calhar pensa que estou na ressaca. Insiste Precisa de alguma coisa? Quer que chame os bombeiros? E eu volto a fugir à justificação. Obrigado, senhor agente. É só fumar este cigarro que já fico bem. Mostro-lhe o cigarro nos dedos. Também o olho.
O polícia ainda olha um pouco para mim. Depois levanta a mão, numa forma de cumprimento, e segue o seu caminho, de bloco na mão. Vai olhando os bilhetes nos tabliers dos automóveis.
Eu fumo o cigarro e sinto-me descontrair. Por instantes esqueci quem vi. Por instantes regressei ao esquecimento.
Acabo o cigarro. Levanto-me. Sinto-me mais calmo. Regresso ao meu caminho, mas vou atento. Os meus olhos percorrem todas as caras com que me cruzo, as que vejo à distância, as que passam, rápidas, pelo canto do olho.
No início pensei muitas vezes no que lhe faria se me cruzasse com ele. E desenvolvi muito modelos gráficos da minha vontade. Depois fui deixando de pensar nele e no que aconteceria se me cruzasse com ele. Não que tivesse esquecido, perdoado, ultrapassado tudo. Mas o tempo ajuda-nos a livrar do mal. Segui em frente. O melhor que consegui. Que pude. Ainda pensei mesmo que tivesse saído da cidade e ido, sei lá, para fora, para o estrangeiro, recomeçar a vida longe, longe de tudo isto, longe de mim e das minhas dores.
Lembro-me que cheguei a comprar um revólver. Ainda andei uns tempos com ele, mas acabei por o lançar ao rio. Não gostei daquilo em que me estava a tornar. Depois andei com um facalhão de mato. Pelo menos, não era a brutalidade de uma bala disparada à distância, sem pensar. Para o facalhão tinha de me aproximar dele e espetar-lho. Sentir-lhe a dor. O grito. Ver o sangue a jorrar, provavelmente para cima de mim. Guardei o facalhão na arrecadação, junto com as revistas do Tarzan do Burne Hogarth. Depois só trazia o canivete-suíço. Hoje, nem isso.
Mas agora que o voltei a ver, já não sei. Já não sei nada. Dói-me o estômago. E a cabeça. Espero não voltar a vê-lo. Nunca mais. Mas estou atento.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/16]

O Mundo a Fazer uma Barrela

Olhei para o céu e vi passar os aviões cheios de munições. Mais tarde haveria de os ver regressar bem mais leves, vazios de munições, depois de não-sei-quantos curdos mortos no norte da Síria.
Estava no alpendre. Sentei-me na cadeira. Acendi um cigarro.
Na casa do outro lado da estrada havia festa. Uma festa popular. Muito popular. Muita gente a dançar ao som de música popular. Havia vinho. Cerveja. Espumante. Umas jovens em biquínis diminutos mergulhavam numa piscina. Nas varandas, nas várias varandas da casa, apareceram várias pessoas, uma em cada varanda. A música foi desligada. As pessoas pararam de dançar. Pararam de beber. Ficaram paradas com os copos nas mãos. As raparigas pararam de nadar na piscina e toda a gente prestou atenção. Todos olharam para as varandas. Em silêncio. Atentos. Cada um olhava para a sua mas toda a gente parecia estar a olhar para todas as varandas ao mesmo tempo. Numa varanda estava Jair Bolsonaro. Na outra, ao lado, Donald Trump. Na outra a seguir estava Nicolás Maduro. Depois Viktor Orbán. E Recep Erdogan. Ao lado, Vladimir Putin. A seguir estava Boris Johnson. Logo depois Mohammad bin Salman. Colado estava Xi Jinping. Depois outras personagens que não identifiquei logo. E lá no canto, na última varanda, que afinal não era uma varanda mas uma janela, estava André Ventura. Que raio é isto? Como é que a casa em frente tem tantas varandas? E janelas? E toda esta gente? Quem é esta gente toda? E o que está aqui a fazer à frente de minha casa?
Os homens nas varandas, e o que estava à janela, começaram a discursar. Todos a uma voz como se fossem um só. Em todas as línguas do mundo que eram uma só. E toda a gente atenta a ouvir. Os homens que discursavam estavam com os olhos vermelhos, injectados de sangue, escorria-lhes uma baba verde, ácida, pelos cantos da boca e cuspiam perdigotos sobre as pessoas enquanto falavam com elas, enquanto lhes cuspiam palavras de ódio. As pessoas pareciam hipnotizadas. Batiam palmas. Uivavam. Anuíam. Concordavam. E começaram também elas a babar. Babar ódio. O terreno em frente começou a ficar inundado de tanta baba. Depois os discursos pararam. Apareceram uma moças quase despidas, de seios proeminentes, a erguer umas placas sobre a cabeça com alguns dizeres: Eu Primeiro; Eu à Frente; Eu De Novo em Primeiro; Ordem e Progresso; Acima de Todos Eu, Acima de Mim Deus.
Achei tudo muito interessante. Mas estava com sede. Levantei-me e fui buscar um copo de vinho. Regressei ao alpendre. Acendi novo cigarro.
Ao fundo, vi as montanhas a abanar, como se fossem de gelatina. Tremiam como varas verdes. As vacas que sobreviveram deixaram de ter leite e passaram a dar manteiga. As ovelhas perderam os caracóis e ficaram com o pêlo liso e escorrido. Depois um furação passou por cima das montanhas e levou as turbinas eólicas pelos ares. Deixou umas nuvens escuras, carregadas de água, que largaram tudo sobre as pedreiras que devastavam as montanhas e inundaram os vales, arrastaram casas e carros e os camiões de transporte de pedras das pedreiras e devastaram as quintas e quintais como as pedreiras tinham devastado as montanhas.
A água veio pela montanha abaixo, o rio e o ribeiro galgaram as margens, houve inundação em todo o lado e acabou por terminar com a festa na casa em frente, do outro lado da rua. As varandas foram destruídas e as pessoas que lá estavam foram arrastadas pelas águas furiosas e zangadas. Ainda vi a cabeça do André Ventura a tentar manter-se à tona da água que corria violenta.
Não chegou cá acima, felizmente.
Deu-me uma certa agonia. Cuspi para o chão do alpendre. Pensei que eu vivia num cantinho do céu guardado por Deus. Via todas as desgraças a acontecerem lá longe. Do outro lado da estrada. Longe do meu alpendre.
Depois senti um trovão a ribombar sobre mim, sobre a minha cabeça, e pensei Falei cedo demais, porra!
Foi então que me levantei da cadeira do alpendre e resolvi entrar em casa. Nesse momento voltavam os aviões turcos, mais leves, depois de terem despejado toda a munição sobre os curdos que, coitados, andaram a salvar-nos do Daesh e agora estavam a ser dizimados.
Ainda antes de entrar em casa senti um aperto no coração. Virei-me para trás e percebi. Ao ver a enxurrada levar toda a gente na fúria das águas, percebi. Alguns amigos de infância estavam naquela embrulhada. Eram levados. Eram levados para longe. Alguns morriam. Morriam cheios de ódio. E senti-me triste. Triste por eles. Depois pensei que isto era o mundo a dar uma barrela.
Entrei em casa e fechei a porta nas minhas costas.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/13]