Ao Passar a Ponte Sobre o Tejo

Íamos de carro a atravessar a ponte sobre o Tejo. Eu e ela. Ainda não estávamos bem no tabuleiro da ponte. Estávamos a caminho do tabuleiro, naquela parte em que todos os acessos já deram acesso e é tempo de continuar em frente, passar a ponte, e escolher a A2 e ir para o Algarve ou virar à direita e ir para a Costa da Caparica. Também se pode virar à direita e ir para Almada, Cacilhas e Cova da Piedade, mas não era esse o caso. Íamos seguir em frente, pela A2, e virar à direita mais à frente para irmos para o Meco.
Eu ia de calções. Uma t-shirt velha e muito coçada, de um material que fazia lembrar os pólos, mas não era um pólo, era uma t-shirt. Não tinha botões.
Ela ia de vestido leve e esvoaçante. Um vestido transparente que deixava ver o biquíni por baixo.
Ainda não tínhamos chegado ao tabuleiro da ponte, eu estava a mexer nos botões do rádio à procura de uma música que me agradasse, quando senti a mão dela a pousar na minha perna, na minha perna cá em cima, já na coxa, mesmo na pele, a fugir à perneira curta dos calções, e senti-me excitado, os pêlos eriçaram-se, fiz girar o botão do volume que largou o rádio num berreiro e eu tirei, por momentos, o olhar da estrada para ver o que é que estava a acontecer com o rádio e a retirar a mão dela de cima de mim, pelo menos enquanto eu estivesse assim, tão susceptível, quando senti o carro a dar uma pequena guinada, senti uma pancada seca, seca mas não muito forte e, logo de seguida, a buzina de um automóvel que, vim a perceber, me era dirigida.
Levantei a cabeça, procurei de onde vinha a buzina que não se calava e vi um sujeito a esbracejar dentro de um carro. Ao lado dele, uma mulher também esbracejava. Continuava a apitar e a agitar os braços, as mãos, os dedos e apontava, apontava para mim, parecia-me, e apontava para o rio e continuava a apitar.
Ela estava sentada no banco, afundada no banco, assustada. E disse Acho que batemos no carro. E eu pensei Se calhar batemos. Mas foi um pequeno toque sem consequências. E ela continuou Se calhar é melhor pararmos. E eu pensei Parar, onde? Estamos na ponte. E como se tivesse ouvido a minha pergunta, ela disse Vira à direita, como se fôssemos para a Costa. Há aí uma estação de serviço.
Fiz o resto da ponte com o outro carro a seguir-me e a buzinar, depois virei à direita e acabei por parar na estação de serviço a caminho da Costa da Caparica.
O outro carro seguiu-nos e parou atrás de nós. Finalmente a buzina calou-se e senti alívio.
Saí do carro mas ainda nem tinha os dois pés fora do carro, o tipo já me estava a agarrar pela t-shirt e a puxar-me para fora. Rasgou-me a t-shirt. Não era preciso muita força para rasgar a t-shirt. Estava coçada. Tinha muitos anos. Já tinha viajado muito comigo. Estava cansada. Como eu fiquei quando o tipo me puxou para fora do carro, rasgou-me a t-shirt e empurrou-me contra o capot. Senti-me cansado. Ao lado dele a mulher. Os dois estavam aos berros comigo. Não sei o que diziam. Não conseguia ouvir. Berravam. As bocas abriam-se e pareciam querer engolir-me. A ele faltavam-lhe dois ou três dentes à frente, na boca, a mulher tinha os lábios pintados de cor-de-rosa, mas com um batom muito pastoso.
Eu olhei dentro do carro e vi-a cheia de medo, afundada no banco. Levantei os braços a dizer ao tipo que estava tudo bem. Íamos falar. Íamos ver o que tinha acontecido e íamos falar. E ouvi-o dizer Cem euros! Cem euros!
Olhei para o carro deles à procura de estragos e o carro era um chaço todo batido e cheio de ferrugem. Se lhe bati, nem se notava.
Perguntei-lhe Queres cem euros? Porquê?
E o tipo e a mulher dele recomeçaram a cuspir-me palavras para cima, muito irritados, muito próximos de mim, sentia-lhes o bafo, o bafo azedo e a cheirar a tabaco frio, e levei as mãos aos bolsos e vi que não tinha nem a carteira nem dinheiro, nada.
Ainda disse Podemos chamar a polícia, e ai foi ela que me agarrou a t-shirt e ainda ma rasgou mais. Pensei que era nessa altura que me iriam mesmo bater. Os tipos estavam furiosos. Se calhar até tinham razão para estarem furiosos. Se calhar bati-lhes mesmo com o carro. E eles não tinham culpa de terem um carro tão velho e estragado e sem tinta e não se perceber o que é que eu tinha estragado, quando olhei para dentro do carro e vi que ela já não estava lá, olhei em volta, por entre as cabeças e os braços e as mãos dos outros dois e vi-a vir do interior da estação de serviço, e vinha com duas notas de cinquenta euros na mão e aproximou-se deles e deu-lhes o dinheiro.
Foi a mulher que agarrou no dinheiro. Pôs o dinheiro dentro do soutien e cuspiu para o chão. O tipo largou-me e ainda disse Para a próxima toma mais atenção. E foram os dois embora para o carro deles.
Ela acendeu um cigarro e passou-mo. Eu levei o cigarro à boca. Foi então que percebi que estava nervoso. O cigarro começou a acalmar-me e eu percebi, então, que estava mesmo muito nervoso.
O carro dos tipos passou por nós para voltar à estrada e vi que no banco de trás estava uma alcofa com uma criança de colo. A alcofa ia solta sobre o banco de trás. A criança ia solta na alcofa e a agitar os braços e as pernas. A mulher fez-me um pirete e o carro voltou à estrada.
Respirei fundo.
Ela veio encostar-se ao meu lado a fumar um cigarro também.
E disse-me Acho que batemos mesmo no carro deles. Mas não temos nada estragado no carro. Eu acenei, em silêncio.
Acabámos de fumar os cigarros. Apagámos as beatas no chão.
Eu perguntei Vamos?
Ela disse Estás todo rasgado. Ergueu-se um pouco e deu-me um beijo. Senti-me de novo excitado.
Antes de entrarmos para o carro disse-lhe Não me voltes a tocar até chegarmos à praia. E ela riu-se.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/01]

Uma Paisagem de Bilhete-Postal

O céu está escurecido. Riscado a grafite. As nuvens perderam as suas formas, a sua cor. O céu mudou de ambiente. Já não é o céu azul de mergulho livre nas águas quentes do rio. Agora é o céu de um filme de Hollywood em cenário pós-apocalíptico.
Cheira a queimado. Cheira a um misto de borracha queimada e churrasco em fim-de-semana grande e vizinhos convidados para o jardim onde os cães fogem dos gatos e as crianças chapinham em piscinas de borracha, de soprar na pipeta, e compradas na feira de Verão do Continente com desconto em cartão.
Verão que se prese não aparece de manhã em São Pedro de Moel e tem incêndios para alegrar o futuro. Da mesma forma que hoje as comunidades abrem as bocas desdentadas para mastigar o frango de aviário assado em brasas ecológicas nas manifestações de um idílico passado Medieval, também daqui a uns anos outras comunidades irão homenagear os mostrengos lusitanos que não descansaram enquanto não puxaram o Sahara cá para cima.
Primeiro destruíram a costa algarvia. Depois a alentejana. Aos poucos o resto do país.
Portugal haveria de se tornar o primeiro estado-nação da celulose. O país virou uma enorme fábrica. Toda a gente tinha emprego, valia-lhes isso. No único empregador do país. A enorme fábrica de celulose acima do vale do antigo rio Tejo, sulco preservado em memória colectiva do maior rio da Península Ibérica que os ibéricos acabariam por matar. Como em tudo onde puseram as mãos. Resta-lhes a memória. Mas não lhes tem servido de muito.
Sorte a minha que já cá não estava para assistir à destruição do país como ele era no tempo em que eu ainda tinha tempo. Acabaria por descobrir que, afinal, não era muito.
Mas lembro-me do ano do grande incêndio de Vila do Rei. Dois anos após o enorme incêndio de Pedrogão Grande. O país estava fadado aos grandes incêndios. Era o Euromilhões em que toda a gente acertava Este ano vai haver um grande incêndio numa grande, e ainda resistente, mancha verde. E havia. E toda a gente acertava. E toda a gente estaria rica se o conhecimento significasse milhões.
Nesse ano, dois meses antes, eu tinha andado por Vila do Rei quando subi o Tejo. Descobri um Zêzere a morrer antes de desaguar no Tejo. Descobri um Portugal abandonado. Triste. Perdido na sua distância das janelas do poder. De Lisboa não se conseguia ver para além do Campo Grande. Aquele era o país da paisagem em bilhete-postal, em fotografia de fim-de-semana na visita à terra dos avós e à casa na terra, herdada, que permanece fechada o ano inteiro à espera de ser vendida num bom negócio que favoreça a vida na capital.
Andei quilómetros sem ver vivalma. Quilómetros de verde. Seco. Aqueles dias em que subi o Tejo esteve um calor infernal. O país estava seco. Estalava. E a manutenção do país não saiu das boas intenções de decretos legislativos. E depois? Como aplicá-los? Com que gente? Com que dinheiro?
Recordo as casas perdidas nas manchas verdes. Recordo quem ainda resistia. Quem não queria partir. Quem ainda acreditava que um país não são só os passos do poder.
Recordo passar por aquelas manchas de verde, naquele país seco e abandonado, enquanto fumava um cigarro, e pensar Bastava só uma beata. Só uma beata.
Hoje o céu já não chora. Está só negro. Zangado. E quando chorar, já será tarde. Como tudo neste país de gabinetes insonorizados e ar condicionado.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/22]

Malpica do Tejo

Malpica do Tejo. Duas da tarde. Um calor infernal.
Vejo o alcatrão da estrada a ferver. A linha de horizonte da estrada está desfocada. Parece que o mundo está a arder. Sinto as gotas de transpiração a caírem-me pelas frontes. O cabelo está colado à cabeça. Está molhado. A cabeça está quente.
Vejo à minha frente um restaurante. Já passei por dois cafés e uma tasca. Tudo aberto. Tudo de porta aberta à minha espera. Sinto-me no paraíso. Acabei de vir de uma Niza de portas fechadas a quem chega de fora. Ao Domingo, Niza leva a sério as palavras de D. Manuel Linda. O Domingo deve ser para a família. Os supermercados devem fechar ao Domingo. Em Niza, tudo fecha ao Domingo. Malpica do Tejo salva-me o dia.
Entro no restaurante. Sei que já é tarde. Peço uma bifana grelhada. Uma Sagres média. Cinco minutos, informam-me. Sento-me cá fora. À sombra de umas árvores. Ainda há árvores por aqui. Há sombras. E está-se bem à sombra destas árvores. O que as cidades têm a aprender com Malpica do Tejo.
Como. Bebo. Cimento tudo com um café.
Preciso dar um mergulho no Tejo. Quero dar um mergulho no Tejo. Preciso de refrescar o corpo. A cabeça. Vejo uma placa que diz Rio Tejo. Entro no carro e arranco na direcção da placa.
Entro numa floresta de eucaliptos. Vejo outra placa que me informa Parque Natural do Tejo Internacional. Sigo em frente. A estrada é alcatroada. Durante alguns quilómetros. Depois acaba. Entro numa picada. Terra batida. Subo e desço. Quando subo, pergunto-me para onde é que vou. Preocupo-me. O Tejo é lá em baixo, digo baixinho para mim próprio. Quando desço, sinto-me ir na direcção certa. Sorrio.
A floresta adensa-se. Já não é só eucaliptos. Alguns pinheiros. Acho que passei por alguns sobreiros, mas não tenho a certeza.
Começo a ficar com algum receio. Algumas descidas são tão íngremes que tenho medo de não conseguir subi-las no regresso. Mas sigo em frente. Quero mergulhar no Tejo. No Tejo internacional. Páro num alto. Saio do carro. Não ouço nada. Há um silêncio quase total. Sinto o som de uma pequena aragem. Não vejo ninguém em lado nenhum. Nem casas. Nem carros. Só árvores. Verde. Pareço estar sozinho no mundo. Mas não. Por cima de mim planam duas águias. Assobio-lhes. Mas não me ligam nenhuma.
Volto a entrar no carro e continuo em frente. Volto a descer. A subir. Penso que se houver um incêndio, fico ali preso. A estrada de terra batida é estreita. Um caminho para um só carro. Não consigo dar a volta. Há, de vez em quando, umas pequenas bermas arredondadas para dentro da mata onde posso dar a volta ao carro e regressar. Mas já cheguei até aqui. Continuo em frente. Não quero regressar. Devo estar a chegar ao Tejo.
De repente, depois de subir um pouco, vem uma descida mas não consigo ver a estrada. É muito íngreme. Páro o carro. Saio. Olho em frente. É uma descida muito íngreme e com areia solta. Difícil de subir por ali. Acho que não consigo regressar se arriscar descer. Volto a entrar no carro e faço marcha-atrás. Estaciono-o no mato. E desço a pé. A meio da descida vejo o Tejo a passar lá ao fundo. É bonito o Tejo. Passa numa garganta. Continuo a descer. Vou mergulhar.
Um miradouro. Um miradouro interpõe-se. Olho para a outra margem. Espanha. Lá em baixo. A outra margem, a margem espanhola, vai até ao rio. Vai até lá abaixo. Vejo um pequeno cais. Há gente do lado espanhol a tomar banho no rio. As vozes da brincadeira chegam cá acima. Ouço crianças. Adivinho lá famílias. Quero ir até lá abaixo. Mas não consigo. O miradouro é onde termina o caminho que fiz. O lado português do Tejo é uma escarpa. Porra! O Tejo afinal é espanhol. Para os espanhóis.
Sento-me numa pedra. Acendo um cigarro. Penso que gostava de ser espanhol. Hoje. Agora. Agora gostava de ser espanhol. E estar lá em baixo a mergulhar nas águas frescas do Tejo. Recupero o calor. Agora que percebo que não consigo chegar ao rio, volto a sentir o dia quente. A minha transpiração. As gotas de suor e o cheiro.
O cigarro sabe-me mal.
Ouço os gritinhos da satisfação dos espanhóis lá em baixo.
E penso Que é que falta acontecer?
E é nesta altura que ouço o barulho de um carro. Um carro lá em cima. Ao pé do meu. Olho para lá. Sinto um calafrio nas costas. Como um pressentimento. Não consigo voltar a colocar o cigarro na boca. Tenho a boca seca. Tenho a garganta seca. Tenho os olhos irritados. Sinto um arrepio de frio.
Olho lá para cima e vejo dois homens a descer até ao miradouro. O miradouro onde estou.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/12]

Subir o Tejo

Decidi subir o Tejo. À procura de… À procura de quê? Na verdade à procura de nada. Subir o Tejo e deixar-me levar contra-corrente. Ele desce. Eu subo. Mas há momentos em que nos encontramos. E nos amamos.
Passo a ponte. Deixo Lisboa e rumo à margem sul. Direcção Almada. Mas vou até Cacilhas. Vejo o que restou da Lisnave. Respiro a História. Muito do PREC passou-se ali. Agora morreu. A Lisnave está vazia. Cheia de fantasmas. Mas vazia. O rio continua lá. Vejo-lhe as ondinhas a bater nos ferrys que se resguardam nas docas abandonadas. Um dia há-de lá nascer algum empreendimento imobiliário. Qualquer coisa de luxo. À beira-rio. Talvez com um Espelho-de-Água. Lisboa em frente. Quem inveja quem? Definitivamente os operários já não moram ali. A margem sul já não é a mesma. A cintura industrial estrebucha. Ainda restam bolsas. Mas tendem todas a morrer.
Volto para trás. Deixo Cacilhas nas costas. Passo pela Cova da Piedade. Amora. É difícil voltar ao Tejo. Por onde vão as estradas? Quero subir o Tejo pela margem esquerda mas não é fácil.
Chego ao Seixal. Não sei onde é a Academia do Benfica. Não passo por lá. Vou ao rio. Vou directo ao rio. Vejo o estuário do Tejo. Garças. Muito trânsito. O Seixal parece a rotunda do Marquês de Pombal em noite de campeonato do Benfica. Tanto carro. Em fila. Gente. Muita gente. Motores a trabalhar. Tubos de escape a deitarem bufadas de gasóleo. Cheira muito a gasolina. Gasóleo. Combustível. Mas ninguém refila. Ninguém buzina. Há uma calma que estranho. Eu fico nervoso e, logo que posso, fujo dali e rumo a Alcochete.
Chego a Alcochete e vejo o rio ferroso. Não sei se aquela água tem ferro mas, a cor, sugere-me isso. Lembra-me o café-com-leite de Manaus, quando o Rio Negro se mistura com o Rio Amazonas. Alcochete parece uma terra-montra. Limpa. Arranjada. Pintada. Caiada. Restaurantes chiques com esplanadas cheias de gente com criancinhas. Há calma. Silêncio. Ouvem-se vozes. Límpidas. Claras como a localidade.
Sigo mais para cima. Perco o nome das terras. Umas misturam-se com outras. Eu misturo nomes. Esqueço outros. Invento ainda outros. Há uma grande confusão de terras, locais, gentes. Laranjeiro. Corroios. Paio Pires. Fogueteiro. Baixa da Banheira. Matosinhos. Não, Matosinhos acho que não é por aqui. Sinto-me baralhado. Ao Tejo é mais difícil de se chegar. Vejo-o. Sei que está lá. Ali. Corre-me paralelo. Mas tenho dificuldade em chegar até ele. Caído do nada, uma placa indica-me uma Praia Fluvial. Outra, um Miradouro. Uma outra ainda um Passeio Fluvial. De repente o Tejo está rico e puxa-me até ele. Afinal, não foge de mim.
Vejo. Observo. Respiro. Registo. E sigo.
Chego a Almourol. Estou na margem esquerda e chego a Almourol. Estou em frente ao castelo. Por cima dele. Num Miradouro abandonado. Uma estátua que me parece do Cutileiro, está altaneira, de guarda ao castelo. É a única coisa que se mantém de pé. Um bar fechado. Vidros partidos. Um vandalismo serôdio em paisagem de cortar a respiração.
Dou a volta. Vila Nova da Barquinha. E vejo Almourol por trás. É diferente. É outra coisa. Igualmente bonito. Tiro fotografias. Talvez as venda a turistas em Lisboa.
Apetecia-me mergulhar nas águas do Tejo. Aqui há muitos bancos de areia. Provavelmente conseguia cruzar o rio a pé. Pondero dar um mergulho. Mas vejo a água suja. Muitos mosquitos. Nuvens de mosquitos. Desisto. Vou comer um gelado num café de apoio ao visitante.
Volto à estrada.
Aproxima-se a noite.
Passo em Constância. Vejo o Zêzere beijar o Tejo. Sigo até Abrantes. Procuro onde ficar. Procuro onde comer. Estou cego. Não encontro nada. Se calhar a falha é minha. Provavelmente é. Por vezes tenho dificuldade em ver coisas que não estejam absurdamente plantadas à minha frente.
Zango-me.
Decido avançar mais uns quilómetros até ao Sardoal.
Vejo luzes. Luzes a convidarem-me. Encontro um sítio onde comer.
Páro o carro. Sento-me a uma mesa. Como uma bifana. Bebo um copo de vinho tinto. Antes de chegar o café, adormeço. Adormeço à mesa. Os braços tombados ao lado do corpo. Durmo ali mesmo. Sentado. À mesa. O café a arrefecer.
Irei acordar no dia seguinte e continuar a subir o Tejo. Prevejo subir até Vila Velha de Ródão. Prevejo avistar Espanha. Talvez vá até Almaraz. Olhar pela última vez para a Central Nuclear. E acreditar que vai fechar em 2020.
Gosto do Tejo. Da vida no Tejo. Mas há morte a rondar.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/11]