Uns Petiscos em Famalicão

Lembro-me de irmos no carro. Éramos quatro. Dois à frente. Dois a trás. Em altos berros, nas colunas fanhosas do carro, o Black Room, o primeiro álbum dos Editors. Uma surpresa. Uma boa surpresa.
Tínhamos estado nos petiscos em Famalicão, ali para os lados da Nazaré. Queijinhos frescos. Salada de polvo. Orelha de porco. Moelas estufadas. Duas imperiais cada um, só para matar a sede, e depois o vinho tinto do jarro a acompanhar os petiscos.
Uma tarde. Era tão só uma tarde de passeio. De mesa. De conversa entre amigos. Era uma tarde a passear de carro. Ouvir música. Viver.
Enchemos o depósito na Estação de Serviço da Galp na rotunda para a Guimarota. E saímos da cidade. Para onde? alguém perguntou. Em frente, alguém respondeu.
E fomos em frente, para fora da cidade.
Alguém tinha comprado o Black Room. Foi posto no leitor. Primeiro, ouvimos o disco todo. Uma novidade já conhecida. Nada de novo. Bom como são as coisas já conhecidas.
Janelas do carro abertas. O vento a despentear os cabelos. Alguém berrou Fechem as janelas. E todos fechámos as janelas. Depois um charro chegou-me as mãos. Veio do lado. Fumei. Passei à frente. Ainda deu mais uma volta. Duas. E alguém disse Vamos à Praia dos Salgados tomar banho. E todos dissemos Sim!
E fomos à Praia dos Salgados.
Chegámos. Largámos o carro e fomos a correr até junto da água. A rir. A rir que nem uns parvos. Um despiu-se. E mergulhou na água fria. Os outros, nós todos, fomos atrás. Nus. Mergulho rápido para fugir ao frio. Um gelo, a água. Umas braçadas para aquecer. Mas logo a desistência. Todos a fugir. Não havia toalhas. Eu sequei-me com a t-shirt. E vesti-a molhada.
Depois chegou a fome. E foi aí que alguém sugeriu uma tasca em Famalicão. E partimos. Estávamos todos com fome. Fome e sede. E uma vontade de cantar. E foi assim que começámos a cantar o disco dos Editors. À frente, alguém batia no tablier a marcar o ritmo. Alguém abriu o vidro e sentou-se à janela a cantar aos berros para os pinheiros que iam passando. Não era eu. Não era o condutor. Não era o marcador de ritmo que ia à frente. Só podia ser o tipo que ia sentado comigo atrás. Sim, provavelmente era ele. Ou, se calhar, era o condutor. Já não sei. Já não me recordo de alguns pormenores.
Chegámos a Famalicão esfaimados. Sequiosos. Saímos do carros e bebemos logo duas imperiais enquanto esperávamos pelos petiscos. Depois migrámos para o vinho. O vinho do jarro de barro. Se calhar saído de uma caixa de cartão de dez litros. Mas não importava. O que os olhos não vêm o coração não sente, não é o que diz o corno?
Então, bebemos. Comemos. Conversámos. Conversámos muito. Sobre tudo e sobre nada. Atropelámos-nos uns aos outros na ânsia de nos fazermos ouvir. Eu atropelei-me a mim próprio, com uma língua que parecia ter ganho vida própria. Fumámos na sala. Estávamos sozinhos. Foi-nos permitido. Ou fomos nós que nos permitimos.
Saciados, voltámos a partir. De regresso ao carro. A fazer as estradas do pinhal. Os Editors em altos berros na companhia das nossas vozes, e risos, e alegria e bebedeira e estupidez. Muita estupidez.
Chegou-me novo charro às mãos.
Não cheguei a desfazer-me dele. Foi naquela curva. Naquela curva na estrada ladeada de pinhal já depois de sairmos de Famalicão. Eu levei o charro à boca. Ouvia, aos gritos, People ar fragile things / You should know by now / You’ll speak when you’re spoken to… E ainda estava a puxar o fumo para os pulmões quando senti o carro a fugir da estrada, rodopiar, vi os braços do condutor no ar e senti uma pancada muito forte no carro, senti o charro a ser cuspido da minha boca com o impacto. Lembro-me do meu corpo aos trambolhões dentro do carro, e depois tudo começou a rebolar, andei eu a rebolar dentro do carro, estive agarrado a alguém e perdi-o, senti vidros a partirem-se e algo a espetar-se em mim e depois, não sei, acho que senti o carro a deslizar durante algum tempo até parar no meio de um ribeiro.
Devo ter adormecido momentaneamente. Acordei com água do ribeiro a passar-me pela cara e a cara começar a arder. Acordei de um pulo, mas sem ter pulado, que estava preso e não me conseguia mexer, muito menos pular. E a primeira coisa que lembro de ter pensado, no meio de todo aquele silêncio, foi Onde está a música?
Depois devo ter desmaiado de novo.
Voltei a acordar numa cama de hospital. Havia gente a chorar à minha volta. Perguntei pelos outros. Ninguém me respondeu. Uma rapariga saiu do meu quarto, rápida. Outra foi atrás dela. Acho que iam a chorar.
Este foi o início da luta que me esperava. Quatro anos de terapia. Vivo numa cadeira de rodas. Mas mexo os braços. Consegui criar músculo. Adaptei-me. A vida adaptou-se. Tenho lido. Tenho lido muito. É o que mais faço.
Às vezes penso naquele dia. Eu fui o que teve azar. Eu fui o que ficou vivo. Vivo nesta cadeira de rodas. Às vezes gostaria de ter tido um pouco mais de sorte. E ter ido na companhia daqueles que eram os meus amigos.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/21]

O Mundo a Fazer uma Barrela

Olhei para o céu e vi passar os aviões cheios de munições. Mais tarde haveria de os ver regressar bem mais leves, vazios de munições, depois de não-sei-quantos curdos mortos no norte da Síria.
Estava no alpendre. Sentei-me na cadeira. Acendi um cigarro.
Na casa do outro lado da estrada havia festa. Uma festa popular. Muito popular. Muita gente a dançar ao som de música popular. Havia vinho. Cerveja. Espumante. Umas jovens em biquínis diminutos mergulhavam numa piscina. Nas varandas, nas várias varandas da casa, apareceram várias pessoas, uma em cada varanda. A música foi desligada. As pessoas pararam de dançar. Pararam de beber. Ficaram paradas com os copos nas mãos. As raparigas pararam de nadar na piscina e toda a gente prestou atenção. Todos olharam para as varandas. Em silêncio. Atentos. Cada um olhava para a sua mas toda a gente parecia estar a olhar para todas as varandas ao mesmo tempo. Numa varanda estava Jair Bolsonaro. Na outra, ao lado, Donald Trump. Na outra a seguir estava Nicolás Maduro. Depois Viktor Orbán. E Recep Erdogan. Ao lado, Vladimir Putin. A seguir estava Boris Johnson. Logo depois Mohammad bin Salman. Colado estava Xi Jinping. Depois outras personagens que não identifiquei logo. E lá no canto, na última varanda, que afinal não era uma varanda mas uma janela, estava André Ventura. Que raio é isto? Como é que a casa em frente tem tantas varandas? E janelas? E toda esta gente? Quem é esta gente toda? E o que está aqui a fazer à frente de minha casa?
Os homens nas varandas, e o que estava à janela, começaram a discursar. Todos a uma voz como se fossem um só. Em todas as línguas do mundo que eram uma só. E toda a gente atenta a ouvir. Os homens que discursavam estavam com os olhos vermelhos, injectados de sangue, escorria-lhes uma baba verde, ácida, pelos cantos da boca e cuspiam perdigotos sobre as pessoas enquanto falavam com elas, enquanto lhes cuspiam palavras de ódio. As pessoas pareciam hipnotizadas. Batiam palmas. Uivavam. Anuíam. Concordavam. E começaram também elas a babar. Babar ódio. O terreno em frente começou a ficar inundado de tanta baba. Depois os discursos pararam. Apareceram uma moças quase despidas, de seios proeminentes, a erguer umas placas sobre a cabeça com alguns dizeres: Eu Primeiro; Eu à Frente; Eu De Novo em Primeiro; Ordem e Progresso; Acima de Todos Eu, Acima de Mim Deus.
Achei tudo muito interessante. Mas estava com sede. Levantei-me e fui buscar um copo de vinho. Regressei ao alpendre. Acendi novo cigarro.
Ao fundo, vi as montanhas a abanar, como se fossem de gelatina. Tremiam como varas verdes. As vacas que sobreviveram deixaram de ter leite e passaram a dar manteiga. As ovelhas perderam os caracóis e ficaram com o pêlo liso e escorrido. Depois um furação passou por cima das montanhas e levou as turbinas eólicas pelos ares. Deixou umas nuvens escuras, carregadas de água, que largaram tudo sobre as pedreiras que devastavam as montanhas e inundaram os vales, arrastaram casas e carros e os camiões de transporte de pedras das pedreiras e devastaram as quintas e quintais como as pedreiras tinham devastado as montanhas.
A água veio pela montanha abaixo, o rio e o ribeiro galgaram as margens, houve inundação em todo o lado e acabou por terminar com a festa na casa em frente, do outro lado da rua. As varandas foram destruídas e as pessoas que lá estavam foram arrastadas pelas águas furiosas e zangadas. Ainda vi a cabeça do André Ventura a tentar manter-se à tona da água que corria violenta.
Não chegou cá acima, felizmente.
Deu-me uma certa agonia. Cuspi para o chão do alpendre. Pensei que eu vivia num cantinho do céu guardado por Deus. Via todas as desgraças a acontecerem lá longe. Do outro lado da estrada. Longe do meu alpendre.
Depois senti um trovão a ribombar sobre mim, sobre a minha cabeça, e pensei Falei cedo demais, porra!
Foi então que me levantei da cadeira do alpendre e resolvi entrar em casa. Nesse momento voltavam os aviões turcos, mais leves, depois de terem despejado toda a munição sobre os curdos que, coitados, andaram a salvar-nos do Daesh e agora estavam a ser dizimados.
Ainda antes de entrar em casa senti um aperto no coração. Virei-me para trás e percebi. Ao ver a enxurrada levar toda a gente na fúria das águas, percebi. Alguns amigos de infância estavam naquela embrulhada. Eram levados. Eram levados para longe. Alguns morriam. Morriam cheios de ódio. E senti-me triste. Triste por eles. Depois pensei que isto era o mundo a dar uma barrela.
Entrei em casa e fechei a porta nas minhas costas.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/13]

No Rio Lena

Desço a Serra dos Candeeiros. Tirei boas fotografias. A Serra é bonita na sua austeridade. Vegetação rasteira. Pedras. Pedregulhos. Uma certa aridez. Depois, uns tufos de árvores muito verdes. Assim muito juntas. Como um ramo. Uma casa ou outra à distância. E a omnipresença da torres eólicas. Gosto da sua dimensão majestosa. Mas é difícil fugir-lhes.
Lá pelo meio, umas cabras. Umas ovelhas. Encontrei uns namorados. Estavam nus. Encostados ao carro. Fotografei-os. Não deram por mim.
Estou a descer a Serra. Cruzo-me com uns vendedores de fruta. Estão num cruzamento. Páro o carro. Compro umas cerejas. Mas estão um pouco esbranquiçadas. Compro também uma melancia. Cheira bem. É pesada. Mas as pontas estão macias. Pago. Volto a arrancar.
Na rádio, percebo que está a começar o jogo da final da Taça de Portugal entre o Sporting e o Porto. Estou perto de Porto de Mós. Estou nas margens do rio Lena. Volto a parar o carro. Estou no pinhal. Saio. Ouço a água do rio a correr suavemente. Este rio é pouco caudaloso. Às vezes seca. Mas agora ainda leva água. Refresca o ambiente. Tiro uma manta do porta-bagagens. Olho para as cerejas, mas vejo-as tão pouco convidativas que as ignoro. Agarro na melancia. E no canivete-suíço que anda sempre no porta-luvas do carro. Deixo a porta aberta para ouvir o relato no rádio do carro. Sento-me na manta. Começo a cortar a melancia. A tarefa não é fácil porque a lâmina é curta e não chega ao fim da melancia. Corto pedaços pequenos. Vou comendo-a aos poucos. Devagar. E ouço o relato.
Sabe-me bem a melancia. Não está muito fresca. Mas está saborosa.
Acendo um cigarro. Deixo-me cair na manta. Olho para o céu. Não há nuvens. Não posso imaginar caras, bonecos, animais nas nuvens brancas do céu porque não estão lá. Olho o céu azul limpo. Um azul chroma. Vejo o fumo do cigarro a subir. Ouço o Lena a correr ali ao lado. O Sporting a medir forças com o Porto. Gosto desta calma. Gosto desta solidão.
Levanto-me da manta e vou até ao rio que mais parece um pequeno ribeiro. As margens estão verdes. Há uma mulher a molhar os pés nas águas frescas do rio que mais parece um ribeiro. Levanta ligeiramente o vestido, com as mãos, para não o molhar. Ela vira-se para trás. Olha para mim. É belíssima. A mulher mais bonita que vi na vida. Ela sorri. Eu vou até ela. Entro com as sapatilhas e as calças dentro de água. Aproximo-me dela. Vou para falar mas não sai nada. Estou mudo perante a sua beleza. Ela levanta uma mão à minha cara. Afaga-a. Puxa-me. Abraça-me. Envolve-me. Beija-me. E eu deixo-me ir. Beijo-a. Abraço-a. Sinto uma força electrificada a percorrer-me o corpo. Sinto que caímos abraçados. Caímos no rio. Caímos mas flutuamos. Abraçados um ao outro. Num beijo longo e molhado. As mãos percorrem os corpos. As minhas e as dela. No meu e no dela. E parece que temos quatro. Oito. Doze mãos. Mãos que libertam os corpo e os levam para fora da realidade. Para lá do rio. Para lá do céu azul.
E depois ouço Grandes penalidades. E não entendo. Grandes penalidades. Um bruá geral. Gritos. Palmas. E está tudo azul. Um azul menos forte. Mas ainda azul. É o céu que está azul. Um céu sem nuvens. Tenho uma beata apagada entre os dedos. Há cinza na manta. Uma melancia quase inteira. Ouço a água a correr no Lena, ali ao lado.
E alguém muito histérico grita Sporting, Sporting, Sporting!
E percebo que estava a sonhar. Não existe a mulher mais bonita que já tinha visto. Ouço o final da Taça de Portugal. Percebo que o Sporting venceu o Porto nas grandes penalidades. Depois de noventa minutos empatados. Depois de mais um prolongamento empatado. Venceu nas grandes penalidades.
Levanto-me. Arrumo a melancia. A manta. Desço ao rio para lavar as mãos. E vejo uma mulher no rio. A mulher mais bonita que vi na vida. Está a molhar os pés nas águas frescas do rio. Com as mãos, levanta ligeiramente o vestido para não o molhar. Olha para mim. Olha para mim e sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/25]

O Mês de Agosto em Casa da Minha Avó na Aldeia

Eu devia ter uns dez, onze anos. Não mais. Se calhar, um pouco menos. Era ainda um miúdo. Uma criança.
Estávamos em Agosto. Nesse ano fui passar o mês de Agosto a casa da minha avó, numa aldeia não muito longe da cidade. Mas no campo.
Nessas férias andei aos pássaros. Fiz uma funda e ainda apanhei alguns passarinhos que a minha avó fritou. Roubei uns morangos. E uvas. E a minha avó disse-me que não devia fazer isso mas, já que estava feito, era melhor não desperdiçar. Era pecado desperdiçar. Andei a chapinhar do ribeiro que passava lá perto. E foi precisamente quando fui ao ribeiro que a vi.
Havia um telheiro com tanques públicos, para lavar a roupa, ao lado do ribeiro. E foi aí que a vi.
Eu estava no ribeiro, a construir um forte, quando ela chegou. Chegou com uma bacia de roupa à cabeça. Ela não me viu. Eu fiquei a olhar para ela.
Ela era mais velha que eu. Talvez quinze, dezasseis anos. Tirou a roupa da bacia e colocou-a num tanque. Enxaguou-a. Agarrou num bocado de sabão e começou a esfregar a roupa. Eu aproximei-me do telheiro. Fiquei atrás do muro. A olhar. A olhar para ela.
E vi-a esfregar a roupa. E ela esfregava, esfregava. Com a mão ensaboada afastava farripas de cabelo da cara e acabava por ficar com bocados de espuma no cabelo, na cara.
Mudou a roupa para outro tanque e passou-a por água até tirar o sabão.
Agarrou na roupa toda e voltou a colocá-la na bacia.
Depois enfiou a mão por baixo da bata que vestia, e eu vi a bata a subir pelas pernas, e vi as pernas, e tirou as cuecas. Lavou-as.
Puxou a bata para cima, baixou-se e começou a fazer chichi no rego de cimento por onde passava a água suja que saía do tanque.
Eu fiquei hipnotizado a olhar para ela. Para ela a fazer chichi.
Depois levantou-se e vestiu as cuecas molhadas. Molhadas mas lavadas.
E eu vi a humidade das cuecas molhadas a repassarem pela bata e a formarem o desenho das cuecas.
Pôs a bacia à cabeça e foi-se embora.
Eu fiquei ali um bocado quietinho. Sentado no chão. Encostado ao muro. Não sabia muito bem o que tinha visto.
Durante o resto do mês de Agosto que fiquei em casa da minha avó, regressei todos os dias à mesma hora ao telheiro. Voltei a ver a rapariga. Ela não ia todos os dias, mas foi bastantes vezes. Sempre à mesma hora. E de todas as vezes que ia, lavava as cuecas e fazia chichi. E eu tinha a sensação de estar a ver algo de proibido mas que gostava muito de ver.
Nesse primeiro dia, voltei para casa da minha avó e, pela primeira vez desde que ali estava, peguei n’Os Três Mosqueteiros e, finalmente, comecei a lê-lo. Li-o todo até ao final do mês de Agosto.
Depois daquele mês de Agosto, nunca mais voltei a ver aquela rapariga.
Depois daquele mês de Agosto, nunca mais voltei a casa da minha avó.
Depois daquele mês de Agosto, percebi que a minha vida tinha mudado. E nunca mais fui aos passarinhos.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/21]

Chega a Noite e Fecho-me em Casa

O tempo salta ao pé coxinho. Num dia com chuva. No outro com sol. Agora já não sei. Escureceu. Aproxima-se a noite.
Fechei a casa. As janelas. As portas. Já não saio para o alpendre durante a noite. Tenho medo. Fecho-me em casa.
Há uma semana que ouço passos à volta da casa. O cão a ladrar. Os gatos desaparecem. Já saí várias vezes, à rua, na escuridão da noite, cheio de coragem, com uma moca de Rio Maior e a luz ténue do telemóvel. Não vejo ninguém. Mas sinto. Sinto uma presença.
Tenho medo.
Chega a noite e fecho-me em casa. Tranco as portas e as janelas. Verifico de cinco em cinco minutos se tenho rede wi-fi. Se tenho rede telefónica. Se estou em contacto com o mundo se precisar.
Sento-me no sofá. As pernas cruzadas debaixo do rabo. A televisão ligada, mas sem som. O ouvido atento ao exterior. A dar fé de tudo o que se passa lá fora.
Ouço os cães da vizinhança. Ao longe. Uns ladram à Lua. Outros aos foguetes. Ladram quando ouvem algo fora do normal. Do seu normal. Do meu normal. Ladram aos barulhos que se escondem no escuro.
Ouço o vento a deslizar pelas folhas das árvores. A chocalhar as persianas. Ouço o vento a assobiar canções que não são de embalar.
E eu sentado no sofá. Com as pernas cruzadas debaixo do rabo. Não posso adormecer. Estou atento. Alerta.
Ouço o ribeiro a correr lá ao fundo. Nas traseiras da casa. Não ouço sempre. Só às vezes. Em dias muito frios. Silenciosos. Agora não estou a ouvir. Acho que não chove. Também não faz calor. Mas ainda não percebi em que estação estamos. Demasiado frio para Verão. Demasiado quente para Inverno. Demasiado chuvoso para Outono. Demasiado melancólico para Primavera.
Em casa não há estações do ano. Estou de camisa. Sentado no sofá. Com as pernas cruzadas debaixo do rabo. Em silêncio. Não tenho frio. Nem calor. Estou bem. Com um pouco de medo, contudo. Atento aos ruídos do exterior. Algo se passa lá fora durante a noite.
Ouço o sino da igreja. Quantas badaladas? Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete… Sete. Sete horas. Sete horas da tarde. Da noite. Já é de noite. Podia ser mais tarde. Parece mais tarde. Não ouço barulhos da vida. Da vida a acontecer. Ouço ruídos. Alguns ruídos. Ruídos na escuridão.
Ouço a minha respiração. Estou ofegante. Chio. A minha bronquite é ruidosa. Acendo um cigarro. Cago na minha bronquite. Fumo. Fumo um cigarro. Invado os pulmões. E acalma-me a respiração.
Ouço um helicóptero. As hélices de um helicóptero a girar. O que é que se passa? Não é normal os helicópteros voarem à noite. O helicóptero aproxima-se. Parece estar aqui mesmo em cima. O barulho cresce. É ensurdecedor. Tapo os ouvidos com as mãos. Mas o som do helicóptero fura tudo. As mãos. Os ouvidos. A cabeça. Está em cima de mim. Dentro da minha cabeça. Viro a cara para a porta da rua e vejo a maçaneta a girar. Como as hélices do helicóptero. Flap, flap, flap…
Está alguém à porta. Não ouço nada. Só as pás do helicóptero. E agora o The End dos Doors. Porra. Isto não é o Apocalypse Now!
Alguém está mesmo lá fora. Não consigo ouvir nada. Só barulho. Está lá gente. Ali. Na porta. Tenho de me esconder. Levo a moca de Rio Maior comigo. Largo o cigarro no chão da sala. Em cima do tapete da sala. Fujo. Escondo-me. Escondo-me no escuro.
Tenho medo.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/25]

A Casa Está Fria

Acabou-se a lenha. Fiz mal as contas. Comecei a acender a lareira antes de tempo. E agora já é tarde. Já não tenho dinheiro para mais. E está mais cara. Já não tenho força para ir cortar mais árvores, ali ao pinhal, às escondidas da GNR. Nem coragem tenho para ir à respiga, ao que resta do Pinhal do Rei, buscar aquela madeira queimada que ainda paira por lá.
A casa está fria.
Durante o dia ainda se aguenta com a sol a bater nas portas de alumínio e nos vidros duplos das janelas. Mas à noite, à noite é o diabo, com a queda da geada, o nevoeiro e o ribeiro a correr gelado lá em baixo.
Estive a dobrar roupa na mesa da cozinha. Algumas camisolas estão tortas, as costuras já estão enviesadas pelo tempo e pelo uso, o que dificulta a dobragem, e isso complica-me os nervos.
À tarde, e para desanuviar, fui dar uma volta. Acalmar os nervos e aquecer um pouco o corpo. Passei pela mercearia. Consegui roubar um pacote de vinho e meia broa. Partilhei o vinho com o gato. O cabrão do gato gosta de vinho. Acho que ficou um pouco grogue. A meia broa, comi-a com um bocado de chouriço. Pena que não pude assar o chouriço.
Agora já é de noite. Estou sentado no sofá, embrulhado no edredão da cama, a olhar para a televisão. Sinto frio. Respiro para dentro do edredão para me aquecer.
Vejo, debaixo da mesa da sala, bocados de cotão. Tomo nota, mentalmente, para aspirar a casa amanhã. Acho que o aspirador já está a funcionar. Senão, vai à vassourada.
O telemóvel morreu. Devia ir buscar o carregador. Mas não me apetece. Não consigo levantar-me.
A casa está silenciosa. Quero dizer, ouço o barulho da televisão. Não está muito alto. O suficiente para eu ouvir como um zumbido de fundo. Não estou a ligar ao que está a dar. É só pela companhia.
Rio.
A minha companhia, agora, é a televisão? Como é que cheguei aqui?
Sinto a porta da rua a abanar. Um arranhar. Alguém a querer entrar? Não. Deve ser só o vento. O que é que alguém iria querer daqui?
Estou com frio.
A casa está fria.
Acho que vou dormir aqui. Não consigo arrastar-me para a cama. Fico aqui. No sofá. Na companhia da televisão. Enrolado em mim próprio e no edredão da cama.
Adormeço. Adormeço dias fora e só volto a acordar na Primavera já entrada. Quando os dias estão maiores. E já há tomates nos campos para eu roubar. Para roubar e matar a fome.
Adormeço.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/17]

O Ribeiro sem Fundo

Estou numa aldeia. Numa aldeia qualquer. Não reconheço esta aldeia de lado nenhum. Não sei como é que aqui vim dar.
Estou frente à igreja. A igreja é branca. Restaurada. Tem azulejos alusivos a quadros bíblicos. Um tubo de plástico contorna-lhe a fachada. Penso que sejam luzes de Natal. Mas não tenho a certeza. É dia e não estão a funcionar.
Olho em frente. Uma casa de aspecto senhorial. Não está decadente, mas já teve dias mais gloriosos. É bonita. Um pequeno quintal em volta da casa comporta um jardim. Bem tratado, por sinal.
Eu não sei o que fazer. Não sei o que estou aqui a fazer. Começo a andar para a esquerda e a estrada sobe. A rua tem casas. Casas de pessoas. Pequenas casas de aldeia. Caiadas. Com rebordo azul. Algumas. Não todas. Portas de alumínio. As janelas também. A maior parte delas, pelo menos. Algumas têm as portadas fechadas. Há um cão no meio da rua. Um cão preto. Grande. Está parado a olhar para mim. Eu páro. Acendo um cigarro. Olho para o cão. Ele rosna. Eu volto para trás.
Desço a rua. Volto a passar em frente à igreja e continuo para baixo. Há um café. Café da Aldeia. Está escrito no vidro da janela, a letras desenhadas e já quase comidas pelo tempo, e no toldo sobre uma pequena esplanada de duas mesas e oito cadeiras e cinzeiros cheios de cinza e beatas.
Entro no café. Não está ninguém. Um porco-espinho cruza a sala, assustado por mim certamente. Há uma garrafa de aguardente no balcão. Olho à volta. Não há ninguém. Só uma televisão a debitar um programa da tarde. Por baixo da televisão uma árvore de Natal. Uma árvore a sério. Um pequeno pinheiro. Com luzes a piscar. E bolas coloridas. E fitas de muitas cores. Debruço-me sobre o balcão e apanho um copo. Um copo de galão. Despejo-lhe um bocado de aguardente e bebo-o de um trago. Saio do café.
Continuo a descer a rua. Há um pequeno mini-mercado. Está fechado. Continuo. As casas vão rareando.
Há uma galinha, parada na berma da estrada, a olhar para mim. As casa vão rareando cada vez mais. Até deixarem de existir. Mas a rua, a estrada, continua. Olho para trás e ainda vejo, lá ao fundo, a galinha a olhar para mim. É uma galinha preta. Só agora dou conta disso. É uma galinha preta.
Eu continuo pelo estrada. Já deixei as casas para trás. Já deixei a aldeia para trás. Já deixei a galinha preta para trás. Estou num campo. O asfalto deu lugar à terra batida. A estrada é agora um caminho. À minha direita pereiras. À esquerda laranjeiras. As árvores estão cheias. É época da pêra?
À minha frente há um ribeiro. Uma ponte de madeira cruza-o. Aproximo-me. O ribeiro fica lá no fundo. Num buraco. Não consigo ver a água a correr lá em baixo. É fundo, o buraco. Aproximo-me mais da margem, mas sinto algum receio de cair. Deve ter uma grande profundidade. Ouço a água a correr, mas não a vejo. Mando um pedregulho. Escuto. Mas não escuto. Chegou ao fim? Há fim? Ou fui eu que não ouvi?
Começo a atravessar a ponte de madeira. A ponte range. Sinto a madeira a ceder debaixo dos meus pés. Mas não consigo voltar para trás. Tenho medo. Estou a transpirar. Dói-me a cabeça. Começo a correr. Tropeço. Caio. Caio entre as grades laterais. Caio da ponte. Caio para o ribeiro. Caio naquele buraco enorme. Sem fundo. Sinto-me cair. Sinto-me a cair mas não chego ao fim. Não vejo nada. Está tudo escuro. Lanço os braços para a frente e para os lados. Procuro alguma coisa. Não encontro nada.
E depois…
E depois estou a pular na minha cama. A pular no colchão como se tivesse caído do tecto. Aos solavancos. Estou a transpirar. Estou assustado. Com medo. Acendo a luz da mesa-de-cabeceira. Sento-me na cama. Olho à volta. É o meu quarto. Reconheço a cama. O livro de Cormac McCarthy na mesa-de-cabeceira. As calças e as cuecas largadas no chão. O cheiro a chulé das sapatilhas. Acalmo. Ponho a mão no coração para me ajudar a acalmar. Estou em casa. Estou no quarto. Estou na cama. Estou acordado. Estou vivo. Estou calmo.
Tomo um zolpidem. Apago a luz. E tento voltar a adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/20]