Um Rio Furioso

Passa um rio furioso à minha porta. Vem com pressa e barulhento. Parece que está cá dentro de casa, ao meu lado, a olhar, comigo, para onde deve estar a televisão desligada. A luz foi-se há quase uma hora e ainda não voltou. O rio furioso está lá fora, passa lá fora, zangado com o mundo.
Tenho medo que comece a entrar por baixo das portas. Tenho medo que suba as paredes, parta os vidros e entre pelas janelas. Tenho medo de morrer afogado. Tenho medo de ser levado pelo turbilhão de águas revoltas que passam furiosas junto aqui a casa. Tenho medo de ir na enxurrada da tempestade.
Queria fumar um cigarro. Queria beber um copo de vinho. Queria acender uma vela (acho que ainda existem velas aqui por casa). Queria luz. Mas não consigo levantar-me. Não consigo mexer-me. Penso que se me mexer dou cabo do frágil equilíbrio da casa. Penso que se me mexer, a água vai forçar a entrada e vai arrastar-me encosta abaixo.
Tenho os olhos abertos como se estivessem fechados.
Ainda continua a chover muito. Às vezes ainda ouço a trovoada. Sinto as bátegas a martelarem o telhado da casa.
Junto às mãos à frente do peito. Quero rezar. Quero rezar mas não consigo. Ainda sei rezar. Ainda me lembro das orações que aprendi em casa e no colégio. E aprender as orações foi como aprender a andar de bicicleta. Não me esqueço. Nunca me esqueço. Mas não consigo. Não consigo mais.
Fico assim, de mãos juntas em frente ao peito, em prece. De olhos abertos como se estivessem fechados, na escuridão da casa, a ouvir o rio a berrar lá fora, um monstro galopante a ameaçar-me e eu só consigo dizer Não entres! Não entres!

[escrito directamente no facebook em 2020/08/19]

Escondido, parte 03

[continuação de ontem]

Apetecia-me fumar um cigarro. Estava a começar a ficar nervoso. Agora que o tempo já tinha passado, o dia já se tinha ido e a noite já tinha chegado, eu já estava mais calmo mas, ao mesmo tempo, estava a doer-me o rabo e as costas de estar ali assim, sentado no chão de uma casa abandonada e em avançado estado de destruição, sem fazer nada a não ser esperar, de ouvido à escuta, que tudo já tivesse passado e eu pudesse finalmente sair daquele buraco e regressar a casa.
Mas eu podia regressar a casa? Depois do que acontecera, eu podia regressar a casa como se nada tivesse acontecido? A vida continuaria a sua marcha imparável em direcção ao futuro? Bom, isso achava que sim. Fosse como fosse, iríamos em direcção ao futuro. Mas que futuro?
Ainda ouvia alguns barulhos vindos da rua, mas já não como anteriormente. Talvez já tudo tivesse acabado. Talvez já fosse seguro sair dali e voltar à rua. Procurar os meus amigos. Tentar saber o que lhes tinha acontecido. Procurar os noticiários. Procurar saber o que é que tinha, afinal, acontecido.
Ia então levantar-me para esticar as pernas e as costas e aliviar-me de ter estado sentado no chão todas aquelas horas, quando senti a porta da rua a abrir-se. Era a porta do prédio. A porta do rés-do-chão. Um som muito sumido, mas que eu percebi. Quem era, estava a tentar não fazer barulho. Mas eu estava já há muito tempo naquele prédio em silêncio. Já lhe conhecia a respiração. Fui contando os passos a subirem as escadas. As pausas nos patamares dos andares. Quem era, estava a tentar perceber se havia gente naqueles apartamentos. Se sentia alguma respiração. Uns ossos a estalar. Um piscar de olhos. Um cheiro a cigarro acabado de fumar. Depois recomeçava a subir as escadas. Voltava a parar no patamar. Eu sentia a pausa à procura de barulho, de alguma vida. E, depois, de novo o recomeçar a subir o último lance de escadas, o que levava até ao último andar, o andar onde eu estava. Parecia-me só um par de pés a caminhar, a subir pelos degraus de madeira envelhecida do prédio. Um andar silencioso e calmo. Cada vez que um pé quebrava um pedaço de tijolo, os passos paravam. Esperavam um bocado e retomavam a subida.
Eu ia chegando-me cada vez mais para o canto. O quarto estava escuro. Já era de noite e aquela rua era sombria. Entrava alguma luz através da janelas partidas, e menos através das janelas sujas, mas o ambiente era de escuridão. O meu olhar habituado aquela escuridão, quase que não conseguiam abarcar todo o espaço do quarto, tão pequeno. No entanto, tentava ir mais para o canto, mais para o escuro, esconder-me, desaparecer.
Ouvi os passos chegarem ao patamar do último andar. Pararem. Percebi a dúvida daqueles passos. A mesma que eu tinha tido. Direita ou esquerda?
Foda-se!
Os passos optaram pela esquerda. Vinham ter comigo. Eu sentia-lhes o andar. Os pés a pisarem o chão cheio de ruídos. A aproximarem-se de mim, cada vez mais perto. E eu camuflei-me de parede em ruínas, fui papel de parede bolorento e cheio de humidade, fui um resto de estuque, tabique.
Os passos deram a volta ao apartamento e aproximaram-se do quarto. Eu vi a silhueta à entrada da porta. Vi a sombra entrar no quarto e ir até à janela e olhar lá para fora. Depois encostou-se à parede e deixou-se escorregar pela parede abaixo e sentou-se. Como eu. Mas na parede em frente.
Eu tentei manter calma a minha respiração. Rezei para não ter nenhum ataque de bronquite. Eu tentava manter-me ausente daquele espaço. Ouvia a respiração cansada do meu companheiro de quarto. Depois um suspiro. Um pequeno choro. Ele estava a chorar. A chorar baixinho. Percebi o braço a passar debaixo do nariz para limpar as lágrimas e o ranho.
E então, arranjei coragem, respirei fundo e disse Não tenhas medo. E o corpo na parede em frente pareceu agitar-se, levantou-se, vi-o meio iluminado pela pouca luz da janela e senti os passos a afastarem-se do quarto de volta para o interior da casa. E voltei a dizer Não tenhas medo. Também estou escondido.
Os passos pararam. Eu mal via a silhueta à entrada do quarto a olhar para de onde eu tinha falado, a olhar para mim. A olhar é como quem diz, que eu só via uma silhueta e não via mais nada. E então ouvi Estás escondido? E eu respondi Sim! E percebi, pela voz, que era uma rapariga.
A rapariga voltou para onde já tinha estado enquanto silhueta. Voltou a encostar-se à parede do lado da janela e voltou a deixar-se escorregar parede abaixo até se sentar como já tinha estado sentada. Sentada como eu estava sentado.
E eu disse Não tenhas medo. Eles não vêm aqui.
E ela perguntou Estás aqui há muito tempo?
E eu disse Desde meio da tarde. Desde que tudo começou.
E ela disse Ah! E foi tudo o que disse durante algum tempo.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/20]

De um Lado para o Outro

Eu passei aqueles últimos dias caído sobre a mesa da taberna.
Ao fim da noite, o dono pegava em mim e despejava-me na rua, à frente da porta. Largava-me no passeio onde, não poucas vezes, acabava a vomitar e a desejar um dia sufocar no meu próprio vómito e deixar de passar por toda aquela tristeza a que não conseguia fugir.
Entrava lá me manhã para beber um café. Depois era um bagaço. E acabava por ficar por lá. Naquela altura já nem bebia tanto assim. Já não tinha corpo para isso. Bastava-me o primeiro, ou os dois primeiros bagaços do dia, logo depois do café, para já não ter forças para me levantar da mesa. E ficava por lá o resto do dia. A cabeça tombada sobre a mesa, em cima dos braços que a amparavam, que me amparavam. A meio da tarde levantava os olhos e bebia outro que alguém me oferecia. Mas desaparecia logo outro vez, na voragem do tempo e da minha lassidão.
Ao fim da noite, despejado na rua, arrastava-me até casa. Às vezes não conseguia abrir a porta e ficava ali mesmo, à entrada, a dormir em cima do tapete onde, antigamente, tinha força para limpar a sola dos sapatos. Às vezes passava por lá alguém que me abria a porta e puxava-me lá para dentro. A maior parte das vezes ficava ali mesmo, caído, à entrada de casa. Depois, de manhã, voltava a levantar-me e arrastava-me de volta até à taberna onde bebia um café. Depois um bagaço. Depois haveria alguém que dizia que eu cheirava mal. Que estava todo mijado. Que viam os piolhos a saltar na minha cabeça. Mas que queriam? Aquele era o ambiente da taberna. No fundo, eu era a cor local. Haveria de haver quem lá fosse só para me ver a dormir em cima da mesa, rir da minha vida e rezar para que nunca se tornassem nisto, e ouvir o White Traffic dos Go Graal Blues Band, um blues rock dos anos oitenta de companhia ao cavalo. Era assim, eu, aquele sítio, aquela época e o blues do Paulo Gonzo. Mas não se deixem enganar. Eu não andava no cavalo. Muitos outros andavam por lá, até o dono da taberna. Apanhei-o algumas vezes na casa-de-banho a fazer a sopa. Eu não. Eu só bebia. Bebia para esquecer, até que esqueci porque é que bebia e então só bebia porque era o que fazia. Não havia mais vida na minha vida para além daquele espaço, do café de manhã e dos bagaços que me entorpeciam ao longo do dia.
Quando conseguia entrar em casa, corria para a cama e deixava-me cair lá em cima. Evitava tudo o resto. Tudo o resto que já não existia lá em casa. A televisão, a alta-fidelidade, o leitor de dvds, o computador, os livros, os cds, a maior parte dos móveis, as roupas compradas em boa altura da qual restavam meia dúzia de camisolas e dois pares de calças, mas nunca mudava de roupa. Para quê? Por quê? O que é que me esperava para além da mesa da taberna onde repousava a cabeça e onde tentava não pensar mais no vazio em que tudo se tinha tornado?
Naquela última noite, quando o dono da taberna pegou em mim para me levar para a rua, parou mal me tocou. Colocou a mão no meu pulso. Colocou a mão no meu pescoço. Largou-me. Largou-me a mão e o braço caiu pesado sobre a mesa.
Eu estava a ver cá de cima e senti o braço bater com força na mesa. Vi que não me mexia. Ouvi o dono a telefonar para o INEM e dizer Acho que está morto. E lembro-me de sentir uma grande angústia, a garganta fechar-se e não conseguir respirar. Senti as lágrimas abeirarem-se dos olhos. Vi chegarem os paramédicos. Vi-os auscultarem-me. Vi-os darem-me descargas com o desfibrilador. Vi-os abanar a cabeça para o dono da taberna. Vi-os levarem-me. Vi-me na ambulância. Na morgue. No cemitério, num enterro simples e deserto no cemitério. Ninguém, nem mulheres ou ex-mulheres, nem filhos, nem mesmo o dono da taberna, para me dizer adeus, o último adeus na minha última viagem.
Agora ando por aqui a tentar perceber o que é que posso fazer, mas não posso fazer grande coisa. Nem beber. Ando de um lado para outro. Como se estivesse à espera de qualquer coisa. Não sei de quê. Nem sei se estou realmente à espera de alguma coisa. É só uma sensação. Uma sensação para que não regresse de novo ao vazio. Mas tudo parece ainda pior do que estava.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/16]

O Futuro É um Nada

Um de Maio. Podia ser o início de uma história de amor. Mas era somente um relato de ausência. Era o Dia dos Trabalhadores. Mas já não havia trabalhadores. Estavam desempregados. Estavam doentes. Tinham falecido. Restavam os colaboradores. E esses já não eram trabalhadores. Já não eram operários. Esses eram colaboradores. Chefes de si próprios. Igual-igual. Donos de pequenas empresas com um só cliente. O antigo patrão tornado cliente. Igual-igual. O antigo operário era agora burguês. Gel no cabelo e havaianas ao fim-de-semana a passear no areal da Costa da Caparica. Antes isso que ler um livro, gritam-me.
Ainda ouvi alguns relatos, ao longo do dia, de gente em manifestação na Alameda, em Lisboa. A Alameda onde se festejava o Dia do Trabalhador quando o Dia do Trabalhador era festejado. Agora já não havia ninguém para festejar nada. Ou quase ninguém. Ainda houve alguns que foram à Alameda participar numa coreografia norte-coreana. Os poucos trabalhadores que existiam foram contaminar-se uns aos outros. Haveriam de morrer infectados nas semanas seguintes.
O bizarro de tudo isto viria ainda mais tarde, quando os patrões começaram, eles próprios, a perceber o erro que tinham cometido e a começarem a festejar, eles próprios, sim, o Dia do Trabalhador. Para lembrarem. Para se lembrarem quando começaram a perder os seus consumidores. A razão da sua existência. Sim, porque a razão da sua existência não era a produção. Era a venda. Sem consumidores, não havia vendas. Sem trabalhadores, sem gente com trabalho e salário, sem gente com um Rendimento Básico Incondicional, sem gente, afinal, com capital para consumir, sem dinheiro a circular entre a base da pirâmide e o seu topo, com tudo estagnado, não havia capitalismo. Sem base para suportar o topo, o topo iria começar a descair. No fim, iria tudo terminar como terminam todas as coisas: em nada.
Claro que ninguém iria sobreviver à história para a poder contar, nem haveria ninguém a quem contar, nem haveria alguém a quem pudesse interessar a história e muito menos poderia haver alguém que pudesse dizer Eu bem avisei!
Mas eu sei. Eu daqui já espreitei o futuro e vi como era. E era um vazio. Um nada. Caminhamos para o nada. Estamos tornados irrelevantes.
Sentado no meu alpendre, a beber um copo de Herdade dos Grous tinto e a fumar um cigarro, assisto ao caminhar imparável da irrelevância. E já não faço nada para parar a sua caminhada porque já não vale a pena. O futuro é o que fizemos dele.
A vossa única esperança é que nos ofereçam uma segunda oportunidade num outro mundo semelhante a este e rezar para que não o fodamos como fodemos este.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/01]

Um Espirro num Autocarro Expresso Cheio de Gente

Em plena e dramática expansão do Covid-19, tomo, como é normal em mim, mais uma decisão repentina e absurda e apanho o autocarro expresso, mas que pára duas vezes em pouco mais de cem quilómetros, para a cidade grande em horário nobre, o que quer dizer que vai cheio e cheio de estudantes e de sacos de estudantes com roupa lavada e passada a ferro pela mamã e tupperwares com comida congelada que a mãe foi guardando ao longa da semana para o petiz não morrer de fome lá longe e parar de deixar as calças escorregarem pelo rabo abaixo e mostrar os boxers Intimissimi de tanta magreza, de hormonas aos saltos e à galhofa nos bancos traseiros, onde eu costumo esconder-me das multidões, lá está, e a contar anedotas de cariz sexual-badalhoco a que todos eles respondem com sonoras gargalhadas, algumas temperadas com expectoração solta na garganta e fungadelas profundas e profundamente sonoras e penso que estas camionetas já não abrem os vidros das janelas e os miúdos não costumam usar lenços de papel como não usam guarda-chuvas nem desodorizante e enterro-me na minha cadeira, que é sempre pequena, sempre muito mais pequena que eu, e por isso o enterrar é metafórico, e rezo para que a viagem se faça como no tempo d’A Gente do Amanhã, que colocavam as mãos na fivela do cinto (que era um tele-transportador) e desmaterializavam-se num lado para se materializarem noutro, quase instantaneamente, como num piscar de olhos, e é por isso que não fico preocupado quando ouço as preocupações dos jornalistas da ciência com os Exo-Planetas que ficam sempre longe, para cima de 100 anos-luz de distância, os mais próximos, e eu sei que a grande revolução da humanidade vai ser a viagem à velocidade da luz primeiro, depois a utilização de portais e, finalmente, e por último, o transporte-instantâneo.
De repente, um espirro.
Foda-se!
A odisseia começou antes. Podia ter comprado o bilhete por uma aplicação digital. Não comprei. Mas não comprometi nada. Ou quase. Não havia fila para a aquisição de bilhete, o que acabou por ser rápido e ainda pude escolher o lugar, que mais tarde percebi ter sido escolha errada, devia ter deixado funcionar a aleatoriedade. Com isto fui mais cedo. Mais cedo para a garagem central das camionetas. Meia-hora em pé à espera por um autocarro que atrasou mais de dez minutos, esperei de pé que os bancos de madeira estão enfiados numas reentrâncias na parede e é, de todo, e por isso, impossível algum ser-humano sentar-se e encostar as costas ao espaldar dos bancos. Uma vez tentei e ia partindo a nuca. Acho que as dores-de-cabeça que tenho hoje em dia começaram aí. Aguentei estoico o frio da corrente-de-ar que se passeia pela garagem velha, suja e decadente, onde um homem fustiga, desde madrugada, os ouvidos do povo com os berros para um microfone que explode nas colunas roufenhas que informam os cidadãos das camionetas em jogo, em que pista estão, para que destino irão partir e a que horas. Aguento estoico encostado ao pilar de mosaicos a que falta já mais de metade deles e os que restam estão pintados como se de uma mera parede de estuque se tratasse e noto que as camadas de tinta são já tantas que não há pintura que lhe restitua a dignidade. Ufa!
Entretanto assisto ao êxodo da juventude dos subúrbios e das aldeias dos arredores. Descem de camionetas que parecem gastar mais óleo que gasóleo. É uma fumarada dentro da garagem que me entoxica mais que o Português Suave sem Filtro que fumava nos meus anos da Faculdade de Letras. Os miúdos partem em magotes para as escolas. Para as várias escolas da cidade. Vêm de manga curta e de fato-de-treino. Sinto um arrepio nas costas. Não é assim que nos constipamos?
Finalmente o meu autocarro. Tem o símbolo do wi-fi na porta. Mas, lá dentro, é mentira. Ainda pergunto ao motorista Não há wi-fi? Ao que ele responde Está ligado!, e ficamos assim. Regresso ao meu lugar e tento enterrar-me no meu lugar (é agora o momento metafórico em que me enterro num banco que é pequeno demais para mim e para qualquer um dos miúdos que vai ali à minha volta). As únicas pessoas que cabem naqueles bancos e naqueles espaços são as velhotas que vão, invariavelmente, nos bancos da frente, a olharem muito compenetradas, o caminho por onde o condutor as leva.
Lá fora o tempo está cinzento. Chove um pouco. Não muito. Nem dá para dizer que choveu. Na verdade é só mais um preciosismo meu para que a viagem não termine já.
E então lembro-me: um espirro!
Foda-se!

[escrito directamente no facebook em 2020/03/04]

Tinder

Abri uma conta no Tinder. Motivado pela Mónica, aliás Eliete, moça de vida normal, fui levado a abrir conta no segmento da foda barata. Isto se não se tiver em conta o preço dos motéis. Ao contrário da Mónica, aliás Eliete, eu não frequento a IC19 e muito menos os seus motéis. Mas tenho o Motel Caribe, que fica aqui a caminho a Nazaré, e um quarto custa a partir de 39€ segundo anuncia o cartaz publicitário à saída de Leiria, não especificando se é por hora, partes de hora ou noite inteira com direito, ou não, a pequeno-almoço. Suponho que não haja pequenos-almoços neste motéis. Talvez uma garrafa de espumante da Bairrada ou garrafinhas de Magos como também havia, faz tempo, no Calhegas. E há sempre a hipótese do Ibis que, sendo um pouco mais caro, permite a noite toda garantidamente que já lá fiquei. O pequeno-almoço é à parte.
Tirei umas fotografias em contraluz para não me reconhecerem. Ainda ponderei procurar alguém pelo Facebook, alguém longe daqui e de mim a quem pudesse roubar umas fotografias, fazê-las minhas e deixar as mulheres a suspirarem por um eu escolhido a dedo a pensar nelas. Mas não. Já que ia mentir no nome, e menti, chamei-me um nome que não é o meu, mas escolhi um nome real, plausível, nada de nickname estúpido como os que se encontram na net. Não. Era um nome verdadeiro, só que não era o meu. A silhueta em contraluz nas fotografia, sim, essa era eu. Tirei as fotografias na casa-de-banho, contra a janela da rua. Nem eu percebia que era eu. Tirei umas a mais, de partes do corpo, de partes íntimas do meu corpo, com pouca luz, claro, a precaver o futuro próximo e as demandas das parceiras a quererem saber e ver mais de mim.
E foi então que comecei a pensar se, em vez de mulheres de meia-idade, como eu, fartas do mesmo parceiro, dos filhos, do trabalho e da lida da casa, mulheres à procura de um escape como dantes eram a Crónica Feminina, o Simplesmente Maria, a Burda ou a Casa Cláudia, mulheres que imaginavam um mundo de vivenda rés-do-chão/primeiro andar, labrador preto, um casalinho e a cerca pintada de verde, repintada todos os anos por altura da Primavera para compensar os rigores do Inverno, e que deixaram de imaginar quando descobriram que a realidade nunca é igual ao sonho, e que afinal eram só mulheres a tentar sentirem-se vivas para além das paredes fechadas de um casamento em velocidade-cruzeiro com as suas rotinas chatas de foda ao Sábado de manhã, à pressa, porque é dia de ir ao mercado comprar peixe fresco, lavar o carro à mão para não estragar a pintura e levar uma das crias ao futebol e a outra ao cinema com as amigas e rezar para que quando fosse para ir à discoteca houvesse outros pais com capacidade para estarem acordados às cinco da manhã para as ir buscar e fazer a entrega ao domicílio, e conseguir um orgasmo de vez em quando, mesmo que por procuração, fosse, afinal, um esquema manhoso para apanhar tipos estúpidos como eu que são apanhados em quartos anónimos de hotéis e são deixados desmaiados nos polibãs com um saco de gelo sobre a costura de um rim que se ia vender como ouro na Dark Web.
Foda-se!
Foda-se!
Acabei por desactivar a conta do Tinder. Liguei-me ao PornHub.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/13]

Quatro em Cima de uma Sachs

Lembro-me quando chegava o Verão. O tipo lá arranjava um fim-de-semana livre, ou pelo menos o Sábado, e era ele e a mulher, os dois filhos e a tralha toda em cima de uma Sachs K125 a caminho da Praia das Paredes.
Aquilo fazia-me muita impressão. Uma montanha em cima de um triciclo. Primeiro montava ele. Punha a motorizada a trabalhar. Depois montava o filho mais velho, atrás do pai, com um chapéu-de-sol nas mãos. A seguir, a mãe, cheia de sacos, de um lado e do outro. Depois o pai agarrava na mais pequena e sentava-a em cima do depósito de gasolina, à sua frente, presa entre os seus braços.
Se os filhos eram os dois lingrinhas, já os pais, os dois, eram bastante volumosos. Não gordos, gordos. Mas já com alguns quilos a mais. A mãe mais pequena, cada vez mais redonda, o pai a cuidar de uma barriga proeminente regada a cerveja.
Quando a motorizada arrancava lá de casa, a espremer-se toda debaixo daquele peso, os cães das redondezas vinham ladrar às rodas e acompanhavam a motorizada e os seus ocupantes até estes saírem da aldeia. E depois ficavam nos limites da aldeia, junto à placa de cimento com o nome que indicava a quem chegava onde estavam a chegar, a ladrar para o fundo da estrada até deixar de se ouvir o motor arrastado da motorizada.
Gostaria de tê-los visto a subir a estrada antes da recta do pinhal que levava à Praia das Paredes, mas tal nunca aconteceu. Ainda hoje me pergunto como é que a motorizada conseguia subir aquela inclinação com tanta gente lá em cima.
Aqueles dias de Verão eram de enorme festa para os filhos. Nunca iam a lado nenhum e então, naquela altura, iam para a praia. Havia fins-de-semana em que acabavam por ficar por lá, pela praia. Levavam um pano que penduravam à volta do chapéu-de-sol e transformavam-no numa tenda onde se abrigavam durante a noite na praia e, às vezes, o filho mais velho contou-me, tinham de andar a fugir ao mar, que as ondas vinham furiosas, entravam pelo chapéu-de-sol dentro, molhavam tudo e eles tinham de levantar o chapéu-de-sol tornado barraca em peso, e transportá-lo para mais longe, às vezes sonolentos, com a miúda de dedo na boca e a mãe a rezar o terço.
Pelo menos ele tinha sempre história para me contar. Como daquela vez em que o pai ajudou os pescadores a puxarem uma rede e acabaram a noite a assar carapaus numa fogueira, no meio da praia, com um grupo de jovens que apareceram por lá com guitarras e cervejas, comeram dos carapaus assados, cantaram músicas e ainda foram todos ao mar de madrugada tomar banho nus.
Uns anos mais tarde o tipo conseguiu comprar um Mini. E o Mini ainda levava mais gente. Nessa altura iam para a praia com o irmão da mulher e a família dele que também incluía dois miúdos. Iam os dois homens à frente no carro e as duas mulheres atrás. Os dois filhos deles iam atrás, com as mulheres, mais um dos miúdos do irmão. E o outro, o mais novo, ia ao colo do pai, à frente. A tralha ia no tejadilho do Mini, atada com cordas que mais pareciam formar uma teia-de-aranha a qual, às vezes, viam-se gregos para conseguir abrir os nós e tirar as coisas que precisavam e que estavam em caixas de plástico presas no tejadilho.
Nunca foi multado. E nunca teve carta de condução. Nem da motorizada nem do carro.
Quando o tipo morreu, num Inverno chuvoso, foi toda a gente a pé. Toda a gente das pessoas que foram ao funeral, o que não era muita gente, mesmo tendo em conta a pouca quantidade de pessoas que ainda vivia na aldeia. Ele não era uma pessoa muito querida. Eu conhecia-o porque éramos vizinhos. E não tenho nenhuma queixa dele nem da família. Eu e o filho mais velho éramos amigos. Às vezes ainda bebemos um copo juntos. Mas eles eram uma família pobre, era o que eram. Pobres. Não que houvesse gente muito rica na aldeia, mas toda a gente tinha uns terrenos, com umas árvores. Uns pinheiros. Umas laranjeiras. Até umas vinhas. Coisas que davam mais despesa do que lucro, mas eram proprietários. Pequenos proprietários. Eles não. Eles trabalhavam à jorna nos terrenos de todos os outros. Por isso é que ir à praia, que nem era assim tão longe, era dia de festa para os meus vizinhos.
No dia em que o tipo morreu, eu bebi um bagaço com o filho mais velho na taberna da aldeia. Ele não chorou. Eu dei-lhe um abraço.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/01]

Dias Loucos, os de Chuva

Em dias como este, entrávamos no carro e íamos andar à doida para a Estrada Nacional.
Mesmo com duas auto-estradas, uma de cada lado da cidade, a A8 mais junto ao litoral, a A1 mais pelo interior, mas as duas muito próximas de Leiria, os grandes camiões TIR continuavam a circular pela EN1 para pouparem nas portagens, extremamente caras.
Então, em dias assim como o de hoje, dias de muita chuva, pegávamos no carro e íamos para a EN1 acelerar entre os grandes camiões que por ali passavam sempre com muita pressa. Ultrapassávamos os camiões no limite. Prego a fundo. O pé quase a furar o chassis.
E riamos. Riamos os dois que nem perdidos.
Dávamos um beijo à porta de casa, com as montanhas a servir de fundo, eu tirava o carro debaixo do telheiro onde estava resguardado, conduzia com cuidado enquanto ela fazia um charro e, antes de chegarmos ao IC2, que se fundia na EN1, já o tínhamos fumado e já eu estava a fumar um cigarro.
Os vidros do carro fechados por causa da chuva e o fumo a acumular-se no interior, criando uma nuvem tão espessa e escura que, por vezes, nos impedia de ver o que se passava à nossa volta na estrada.
Foram tempos loucos esses. Bebíamos muito. Fumávamos muito. Fodíamos muito. Sempre nos limites. Às vezes ela levava a PC4 e gravava as nossas aventuras na estrada. Quando estávamos mais calmos, de ressaca por casa, a arrastar o cu pelos sofás, víamos as gravações e eu perguntava-me o que é que andávamos a fazer. Ela ria. Acabávamos os dois a rir. Voltávamos à estrada. À EN1. Passávamos junto às raparigas sentadas, em cadeiras de praia, de pernas abertas e olhar alheado, à beira da estrada. Acelerávamos na estrada que passava pela Benedita, pela Venda das Raparigas e seguia para Rio Maior ou para Aveiras. Sempre que víamos um traço descontinuo, lá íamos nós à aventura, a ultrapassar enormes camiões, alguns com dois eixos, a espremer o motor, a rezar para que não surgisse outro carro, e muito menos outro camião, na faixa contrária.
Uma vez, ia de camioneta para Lisboa, e nessa época as camionetas faziam também aquela estrada porque a auto-estrada só começava em Aveiras, vi um carro, um carro pequenino, um Renault 5 GTI, cravejado com tubos de cimento que deviam ter saído disparados de algum camião e entraram, como flechas, pelo pára-brisas do pequeno Renault. Lembro-me de ver, através da janela da camioneta, um corpo tombado no asfalto. Um corpo desfigurado. Um corpo em sangue. Inerte.
Várias foram as vezes em que me lembrei desse corpo enquanto me punha a ultrapassar os camiões debaixo de fortes quedas de água, com ela ao meu lado a gritar Vai! Vai! Vai! Vai, meu caralho! e eu ia. Prego a fundo. Cheio de adrenalina. A ultrapassar camiões na EN1, uma estrada cheia de buracos e bermas baixas, e eu de cigarro ao canto da boca com o fumo a entrar-me pelos olhos e a fazer-me chorar.
Um dia, foi o último dia, saímos de casa assim, debaixo de uma chuvada como a de hoje. Demos um beijo sem as montanhas como pano de fundo que o nevoeiro não as deixava ver. Ela fez um charro enquanto eu chegava à EN1. E entrámos. E disparámos por ali fora. Como loucos.
Só eu é que voltei.
Arrisquei passar um camião TIR que estava a respingar água para os lados e, quando ia a meio da ultrapassagem, deixei de ver a estrada com toda aquela água a tombar-me no pára-brisas e ela, ela tinha-se agarrado a mim, estava a dar-me um beijo no pescoço, em êxtase, o corpo sobre o travão de mão, e eu guinei um pouco o volante, aproximei-me demasiado do camião, levei um toque que me projectou para o outro lado da estrada, bati nos rails de protecção laterais, o carro virou-se, capotou e andou a derrapar pela faixa de rodagem até ser atingido por um outro camião, que vinha em sentido contrário. Eu tive sorte e fui cuspido do carro. Ele ficou entalada na chapa e, segundo os peritos, deve ter tido morte instantânea. O funeral dela foi de caixão fechado, tal o estado do corpo. Eu não fui ao funeral. Estive hospitalizado durante alguns meses. Alguns meses para voltar a andar.
Nunca a visitei no cemitério. Não ouso.
Voltei a conduzir, dois anos após o acidente. Agora já conduzo sozinho. Mantenho-me dentro dos limites de velocidade. Opto, sempre que possível, por andar em auto-estradas. Não tenho medo de conduzir mas, vou sempre muito atento.
Às vezes, quando chove assim, como está a chover hoje, penso nela. Penso nela e nas loucuras que vivemos. Penso em como a matei. Eu sei que não devo pensar assim. A minha psicóloga está sempre a dizer-me isso. Que a culpa não tinha sido minha. Eu digo que sim com a cabeça, aceno, para cima e para baixo, mecânico, às vezes até me ouço dizer sonoramente Sim, mas é só para a sossegar.
Eu sei que a culpa foi minha. É uma dívida que, um dia, vou ter de pagar.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/26]

Uma Mulher Vai Destruir a Minha Vida, Outra Vai Salvá-la

Tudo começou na época em que fui despedido. A primeira vez em que fui despedido, bem entendido. Depois disso, já fui despedido muito mais vezes. Mas esses despedimentos foram consequência deste primeiro.
Na altura trabalhava num pequeno hotel. Fazia as noites. Dava entrada de pessoas que chegavam de madrugada, poucas, a maior parte delas vinha para aquecer a cama durante algumas horas antes da manhã, em encontros casuais, começados na boîte ali mesmo ao lado, e que continuavam nas camas do hotel, que eu às vezes ouvia-lhes os gritos, e cheguei mesmo a ter que pedir contenção a um ou outro casal mais afoito, e preparava as coisas para o pequeno-almoço dos clientes, antes ainda de me ir embora, e que a pessoa que me vinha substituir mantinha a funcionar até meio da manhã.
Eu estava casado há pouco tempo. O dinheiro que ganhava no hotel não era muito, mas era importante para aquele início de vida. O facto de trabalhar à noite, começou a minar a relação logo ao fim de algum tempo depois de termos casado. E o ter sido despedido acabou por ser a gota de água que fez transbordar o copo. O meu casamento não durou muito tempo.
Ao fim de uma semana depois de ter sido despedido, ela foi-se embora. Os papéis para assinar o divórcio acabaram por chegar mais tarde, através do advogado dela.
De um dia para o outro descobri-me sem trabalho, sem dinheiro e sem mulher.
Achei que a minha vida andava azarada. Aquilo era mau-olhado, com certeza. Inveja. Mas inveja de quê?, perguntava-me. Ora, as pessoas são muito invejosas, não importa do quê! É só inveja pura. Pura maldade.
Como a minha vida parecia não descolar, nem trabalho nem amor e o totoloto também não queria nada comigo, pensei mesmo que havia ali obra do demo.
Fui à bruxa.
Tinha ouvido falar num mulher que havia ali na Gândara dos Olivais, ali à saída de Leiria, a caminho da Figueira da Foz. Disseram-me que não cobrava nada, que era um dom que tinha e não podia cobrar por esse dom, mas que as pessoas deixavam sempre uma lembrança monetária porque a senhora também precisava de comer, pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás e o telefone para onde as pessoas ligavam a pedir ajuda. Eu não telefonei, que não sou pessoa de telefonar, e fui lá directamente.
Estive muito tempo parado dentro do carro à porta da casa da senhora. A ganhar coragem para lá entrar. A rezar para que ninguém me visse e me reconhecesse.
Respirei fundo. Abri a porta do carro e fui até à casa, de olhos a rojar chão fora. Se não visse ninguém, ninguém me via.
Toquei à campainha. Alguém abriu a porta. Fizeram-me entrar. Levaram-me para uma sala onde me fizeram sentar. E esperar.
Esperei.
Esperei algum tempo.
Vieram buscar-me e levaram-me para uma espécie de sala de estar, mais pequena e vazia, mais sombria, mas com santinhos e fotografias e terços e velas a arder e incenso, numa espécie de altar… A senhora estava sentada numa poltrona a um canto. Ela indicou-me a outra poltrona. Em frente a ela. Olhou para mim. Para os meus olhos. Pediu-ma as mãos. Agarrou-as nas dela. Fechou os olhos. Inspirou fundo. E disse-me Os amores, os amores!… E eu não disse nada. Ela também não perguntou nada. Depois voltou a dizer Vão existir duas mulheres muito importantes na sua vida. Uma vai fazer-lhe muito mal. Outra vai fazer-lhe muito bem. Cabe-lhe a si a ordem pela qual as vai encontrar.
Depois abriu os olhos de novo. De novo fixou o olhar em mim. Nos meus olhos. Largou as minhas mãos e sorriu-me. E ainda disse Não há mal que sempre dure, nem sorte que perdure.
A mesma rapariga que me abriu a porta da rua foi buscar-me à sala.
À porta da rua, antes de a abrir, ficou parada a olhar para mim. As mãos presas uma à outra, à frente do colo. A olhar para mim. Em silêncio. E só então percebi. Tirei uma nota de vinte euros do bolso das calças e dei-lhos. Ela agarrou no dinheiro. Dobrou-o na palma da mão. Abriu a porta da rua e deixou-me sair. Boa sorte, disse-me.
Eu entrei para dentro do carro. Estava nervoso com o que tinha assistido. Acendi um cigarro. Fiquei ali parado a pensar no que tinha acontecido. Ou não tinha acontecido. O que é que fui ali fazer? O que é que isto ia resolver a minha vida? Quem seriam aquelas mulheres?
Passaram já alguns anos depois desta minha ida àquela casa. Bastantes, na verdade. Já fui despedido outras vezes. Aliás, fui sempre despedido dos trabalhos que tenho feito. Já tive várias relações. Nenhuma delas muito séria.
Ainda hoje estou à procura dessas mulheres de quem a senhora falou. A mulher que ia destruir a minha vida. A mulher que ia salvar a minha vida. Estava esperançado em encontrar primeiro a mulher que me ia destruir a vida. Não sabia se já a tinha encontrado ou não. Tenho dúvidas. A vida tem-me sido madrasta, mas não tenho a certeza que tenha sido destruída. E não quero encontrar a mulher que me vai salvar sem antes ter encontrado a mulher que me vai destruir. Porque prefiro ser salvo depois de ser destruído, que destruído depois de me julgar salvo.
Cada vez que uma mulher olha para mim, penso sempre qual delas será? Aconteceu agora mesmo. No linear dos frescos. A mulher olhou-me nos olhos e sorriu. Era um sorriso nos lábios, que eu percebi bem. Mas qual delas é que será esta mulher? E será mesmo alguma delas?
Tenho a vida condicionada pelo que me foi contado. Às vezes preferia não ter lá ido.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/22]

A Senhora que Vem Cá a Casa Falou-me na Aliança

Há uma senhora que vem cá a casa uma vez por semana. Vem cá ajudar-me a tratar da casa. Não que a casa precise muito de ajuda, que eu trato bem dela. Mas vem fazer coisas que eu às vezes me esqueço fazer ou nem sequer penso na necessidade de ser feito. Limpar os vidro das janelas, por exemplo. Ia lá lembrar-me disso? Mas ela tem razão, os vidros ficam bem melhor quando ela os limpa com Ajax, e depois passa um jornal para ficarem brilhantes e sem dedadas. É ela que traz os jornais. Normalmente, o Correio da Manhã do dia anterior que pede no café da aldeia. Eu às vezes aproveito para passar os olhos pelas catacumbas do país. Também olho para as páginas do Relax. Já tive tentado a ligar a alguns daqueles números, principalmente quando vêm acompanhados de fotografias com medidas generosas. Mas depois penso que tenho de sair de casa e ir não-se-onde, confraternizar e mais-não-sei-o-quê e desisto.
A senhora que vem cá a casa é muito prática nas suas escolhas e diz tudo o que tem para dizer com uma voz um pouco esganiçada. Ela, coitada, não tem culpa de ter a voz tão aguda. Mas às vezes abusa do tom. Gosto muito dela, é muito simpática mas, às vezes, espeta-me navalhas nos ouvidos. Trata-me sempre por doutor embora eu já lhe tenha dito, mais que uma vez, que não sou doutor. Ela responde sempre que todas as pessoas que trabalham em casa, como eu, são doutores. Doutores disto e daquilo, mas doutores. Alguns até são doutores da mula-ruça. Eu calo-me.
Quando decide que tem de lavar os tapetes, põe-se de gatas, a esfregar com uma escova e um balde de água quente e detergente a fazer espuma. Anda a manhã toda com o braço esquerda-direita, cima-baixo, a esfregar a escova nos tapetes. O rabo dela, espetado para o céu, dança de um lado para o outro a acompanhar a força com que o braço expurga o pó entranhado nos tapetes. É por isso que ela tem um braço mais grosso que outro. São os músculos. Os músculos por andar a esfregar a escova nos tapetes. Já fiquei assim, encostado a uma porta, a ver a dança do rabo. Mas nunca lhe disse que, às vezes, a apreciava.
De tempos-a-tempos aparece cá em casa com metades de notícias que não percebeu completamente mas que acha que me poderá interessar a mim, eu que vivo aqui isolado do mundo. Hoje apareceu aqui em casa com uma história que eu ainda não percebi logo bem o que era. Segundo ela, houve uma aliança que invadiu uma sede qualquer para exigir justiça.
?
Ainda lhe perguntei de estava a falar da Arca. Da Arca da Aliança que podia ter visto nalguma repetição dos Salteadores da Arca Perdida, mas ela não sabia o que era os Salteadores da Arca Perdida, nem a Arca da Aliança. Que a outra era só uma aliança, achava, sem Arca.
Perguntei-lhe se tinha algo a ver com a Amazónia, o Brasil, Macron ou a Melania Trump e o primeiro-ministro do Canadá, mas ela disse-me que achava que era em Portugal.
Fiquei curioso.
Liguei a televisão. SICN. RTP3. TVI24. CMTV. Nada. Quer dizer, muita coisa. Não, muita coisa não. Muita repetição da mesma pouca informação sobre os mesmos assuntos dos últimos três dias. Má-educação. Mulheres mais novas que outras. Homens boçais. Algum cinismo. Interesses vários.
E, então, vi, no oráculo, a passar rápido em letras pequeninas Pedro Santana Lopes invade ERC para exigir cobertura noticiosa ao Aliança.
Desatei-me a rir.
Fui acender um cigarro. Abri uma garrafa de Herdade dos Grous 23 Barricas que me tinham oferecido. Servi dois copos. E fui oferecer um à senhora que estava a passar-me as camisas a ferro. E pensei Então é assim que as camisas ficam esticadas, sem vincos e com aquela goma!
Ela disse Eu não devia!, mas aceitou. Eu rezei para as camisas continuassem a vir sem vincos.
Eu fui beber o meu copo para a varanda e fumar o cigarro. E dei comigo a pensar no que é que teria passado pela cabeça do Pedro Santana Lopes. Falta de mimo, de certeza!

[escrito directamente no facebook em 2019/08/27]