A Playlist do Miguel Guedes

Sabem aquela sensação de querer respirar e não conseguir? De parecer ter algo a bloquear a traqueia? De sentir que se vai desmaiar a qualquer momento por falta de ar? E que nessa altura só queriam ter um revólver nas mãos e apontá-lo à cabeça? Ou à cabeça dela que não se cala? Sabem? E sabem essa sensação de quando começam a mover o dedo no gatilho e já antecipam o tiro, o disparo, a bala a sair do revólver a cruzar o ar e a entrar num pedaço de carne fragmentando tudo à sua volta? E que nesse momento, nesse preciso momento recuperam a capacidade de respirar e mandam um berro, um berro tão grande que tudo à vossa volta cai em silêncio? Sabem? Pois foi o que me aconteceu.
Só não tinha o revólver na mão, que eu não tenho nenhum revólver em casa. Não tenho nenhuma arma para além das facas de cozinha. Mas foi como se tivesse. Mandei o berro e saí de casa. Abri a porta da rua bruscamente e fechei-a com estrondo nas minhas costas. Toda a gente do prédio haveria de ficar a saber que espécie de besta era eu.
Voei pelas escadas do prédio e aterrei no carro. Liguei-o e arranquei.
Na rádio a voz do Miguel Guedes na Playlist da TSF e eu pensei Que porra! Odeio este gajo! Vozinha arrogante. Raios o partam!, mas começou a música e deixei ficar. A música acalma as bestas, não é?
Deixei o carro levar-me estrada fora enquanto fui ouvindo a selecção musical do Miguel Guedes e só pensava Como podemos não gostar de pessoas que têm um gosto musical igual ao nosso? É que era uma selecção de primeira e que podia ter sido feita por mim. De Mazzy Star a Anna Calvi, passando por Arcade Fire, Dark Dark Dark, Elliott Smith, Jorge Palma, Nick Drake e sem esquecer Dylan, Bowie, Cave e Springsteen.
O carro levava-me estrada fora. A música escolhida por Miguel Guedes tinha-me acalmado. Já não queria berrar. Já não queria agarrar num revólver. Nem apertar no gatilho. Já conseguia respirar e estava a respirar bem. Bem e calmamente.
Cheguei a São Pedro de Moel. O carro levara-me até lá. Estava a chover uma chuva miudinha. Uma chuva que mais parecia cacimbo. Desci até à praça. Talvez umas pevides e olhar o mar, pensei.
Mas não.
A descer, quase a chegar à praça, o mar por companhia. O mar comera a praia e galgara as escadas até chegar à praça. Era impossível passar para o outro lado. Não estava lá a senhora dos tremoços. Não estava lá ninguém. Na rádio continuava a Playlist do Miguel Guedes. Continuava a achá-lo um sujeito arrogante, duma arrogância que se detectava logo na voz. O facto dele ser do FC Porto também contribuía para a construção que fazia dele. Mas tinha bom gosto, o cabrão. Um gosto igual ao meu. E foi aí que pensei se não seríamos nós todos, esta gente que gosta de boa música, todos uns arrogantes de merda por conhecerem aquilo que os outros não sonham sequer conhecer?
Abri o vidro do carro e acendi um cigarro. Fiquei ali algum tempo a fumar e a olhar a espuma suja que o mar trazia para a praça. Ainda pensei no que é que ela estaria a fazer em casa. Mas foi um pensamento rápido, que logo se esvaneceu.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/15]

Boca Doce

Aproximava-se o aniversário da minha filha e eu tinha de fazer alguma coisa. Alguma coisa que compensasse estes dias de chumbo que temos vivido. Procurava uma pequena alegria. Procurava colocar-lhe um pequeno sorriso nos lábios e que esse sorriso a fizesse esquecer estes últimos meses.
Levantei-me de manhã cedo. Não a acordei. Deixei-a dormir. Não havia tele-escola e podia dormir um pouco mais. Lavei as mãos. Lavei a cara. Lavei os dentes. Os boxers estavam já demasiado rotos. Nem dava mais para remendar. Tomei nota mental para tentar arranjar mais um ou dois boxers. Vesti umas calças. Calcei as botas com biqueira de aço. Uma camisola. Uma casaco com bolsos. Uma mochila às costas. O cartão multibanco, um lápis com borracha na ponta, algumas moedas e umas notas. Depois calcei umas luvas. Coloquei uma máscara cirúrgica na cara, sobre a boca e o nariz. Apertei a mola sobre a cana do nariz. Agarrei no revólver e coloquei-o preso no cós das calças, nas minhas costas, e uma faca de mato, afiada, dentro das botas. Antes de sair de casa pus os óculos escuros. Não me benzi porque não sou religioso mas, no momento mesmo antes de sair de casa virei-me para trás e olhei para a casa silenciosa e quase na penumbra, os estores estavam corridos até baixo, deixando somente os buracos abertos para passar alguma luz mas não deixar entrar mais nada, para deixar a casa em segurança, e esse momento foi como se me tivesse benzido e rezado uma Avé Maria e um Padre Nosso. Depois saí e fechei a porta à chave nas minhas costas.
Nunca gostei de usar as máscaras. Dificultam-me a respiração, fazem-me comichão e muito calor. Mas sei que tenho de as usar. Se quero sair à rua, tenho de ir protegido. Protegido de todas as formas.
Tinha o carro na garagem. O carro atestado. Mas achei melhor ir a pé. Nem sequer levar bicicleta. Provavelmente teria de ir a vários sítios. O melhor era não estar preocupado que me roubassem o carro, a gasolina, a bicicleta. Ir a pé era a melhor escolha. Mesmo que uma escolha perigosa. E assim fiz.
Cheguei à rua e olhei para um lado e para outro. A rua estava vazia. Aquele era um bairro essencialmente residencial. Era muito raro encontrar alguém na rua. Mesmo nos quintais, quem os tinha, já era difícil encontrar alguém. As pessoas barricavam-se em casa. As que podiam trabalhar em casa trabalhavam. As outras tentavam sobreviver. Ficavam fechadas em casa o dia inteiro. A noite inteira. A semana quase toda. Mas às vezes, às vezes faziam pequenas saídas para procurar alimentos e remédios. Vasculhar os caixotes do lixo. Tentar algum assalto e evitar ser assaltado.
Ainda havia algum comércio durante o dia. A maior parte das lojas já só funcionava no mercado-negro. Eram protegidas por milícias. E continuavam a ser os sítios onde ainda se podia encontrar algumas coisas. Ainda se aceitava cartões multibanco e MBWay. Já ninguém aceitava cartões de crédito. O dinheiro em género era a forma mais imediata de se fazer compras mas, a troca de uns produtos por outros, estava a ganhar o seu espaço. Principalmente porque a maior parte das pessoas já não trabalhava e já não tinha dinheiro.
Eu ainda era um dos poucos sortudos com algum trabalho e algum dinheiro. Mas até para pessoas como eu as coisas estavam a ficar complicadas porque os próprios governos estavam a desintegrar-se. A perder as ruas. O Estado ainda tinha os militares e alguma polícia. Mas as milícias, os grupos armados, os grupos de piratas começavam a estender as suas malhas por todo o lado. Os Mercados já não existiam. Pelo menos, não como eram entendidos antes de tudo isto começar. Agora tudo se comprava e vendia directamente. Troca por troca. Mão havia mercados futuros. Fundos de investimento. Compra e venda de acções. Nada dessas coisas. Agora o que tinha valor era o real. Uma alface. Uma vaca. Um par de sapatilhas Adidas. Uma Glock.
Havia ainda produção no campo. E gente a garantir essa produção. A maior parte eram já protegidos por estes mesmos grupos de piratas. Quem tinha as armas é que mandava. Quem tinha as armas e os homens e a coragem. Os outros todos, obedeciam.
Eu ainda trabalhava para o Estado. Todos os meses ainda recebia o meu dinheiro através do banco. Os bancos ainda funcionavam. Afinal, era lá que os grupos de piratas guardavam o dinheiro. Na verdade, os piratas já tomavam conta dos bancos. Mas eles ainda funcionavam. Funcionavam era já de uma maneira diferente. Com outros objectivos. Agora eram essencialmente cofres-fortes. Guardavam ouro e outros metais preciosos. Pagavam-se entre eles para trocas entre clientes. Era assim que se fazia chegar um carregamento de uvas da Beira-Alta até Lisboa, por exemplo.
Mas enfim, saí de casa, cheguei à rua e virei à esquerda e fiz a rua toda até ao fim, até ao fim do bairro e depois continuei por ali fora, quase uma hora a caminhar pela estrada até chegar ao baldio, um antigo e enorme parque de estacionamento do estádio de futebol abandonado, terreno perigoso quando é noite, mas que se faz relativamente bem durante o dia. Depois faria mais cinco ou seis quilómetros em frente e estaria na periferia da cidade mas numa zona comercial onde, eventualmente, poderia encontrar alguma coisa do que procurava.
Fazer a rua do bairro foi muito penoso. A rua estava deserta. Alguns carros parados nas bermas junto aos passeios, mas já só umas carcaças metálicas. Esqueletos de antigos carros, despojados dos seus acessórios, desmontados e vendidos individualmente para renderem mais no mercado negro.
Havia gente dentro das casas. Via algumas caras à janela. Um homem saiu e disse Vais à cidade? Espera por mim que vou contigo! e voltou a entrar dentro de casa. Eu não esperei. Prefiro ir sozinho. Não levantar ondas. Passar despercebido. Manter-me invisível como sempre tinha sido toda a minha vida. Alguns quintais estavam abandonados. As casas ainda tinham gente mas as pessoas já não vinham à rua. Por medo do vírus. Por medo dos grupos armados. Por medo dos piratas. Por medo de tudo. Até da própria sombra. A vida, por estes dias, não vale um chavo.
Cheguei ao fim do bairro e fiz a estrada. Cerca de dez quilómetros até ao baldio do parque de estacionamento. Estrada deserta. Não passou um carro. Uma antiga estação de serviço abandonada e destruída. Cheguei ao antigo parque de estacionamento. Ao longe já se avistavam outras pessoas como eu, a ir para a cidade, a vir da cidade, atentos. Olhávamos uns para os outros a tentar perceber se éramos um perigo ou não. Agora ninguém sabe com quem se cruza. Há histórias de gente morta por amigos por causa de uma lamela de paracetamol. A vida tinha desvalorizado bastante na bolsa de valores. E a amizade mais ainda. Já não havia amigos. Era difícil encontrar gente em quem confiar. É por isso que precisava de encontrar qualquer coisa de especial. Para um dia especial de uma miúda especial.
Passei ao lado do antigo Estádio. Conta-se que lá dentro é o quartel-general de um dos grupos de piratas mais terríveis da zona. Mas pode ser só um mito urbano. As portas estão fechadas. Não se vê ninguém a entrar nem a sair do Estádio. Mas também se fala que existem túneis secretos. Na verdade não sabemos muito bem o que pensar de tudo isto.
Ao passar ao pé de uma das portas, levei a mão ao bolso onde tinha o revólver. Agarrei-o. Agarrei-o para o sentir. Vi qualquer coisa caída no chão por entre as ervas que cresciam no meio do asfalto rachado do antigo parque de estacionamento. Continuei a andar mas foquei melhor o olhar. Era um corpo. Um corpo de homem. Um cadáver ainda recente, provavelmente. Cuspi para o chão. Continuei em frente. Cruzei a estrada que vinha do norte e continuei até ao limite da cidade. Um quilómetro mais à frente começavam as primeiras lojas. Uns antigos supermercados adaptados aos novos tempos. Agora vendia-se de tudo, de tudo o que houvesse.
Lembro-me há muitos anos, em Luanda, ter ido ao Roque Santeiro, o maior mercado a céu aberto de África. Lá encontrava-se de tudo. Desde uma agulha para coser os meus boxers, quando eles ainda tinham salvação, até um míssil para disparar sobre a cidade vizinha. Agora, por aqui, era mais ou menos assim. Mas havia especializações nas lojas.
Cheguei ao primeiro supermercado logo à entrada da cidade. Era um antigo Minipreço. Mostrei o cartão multibanco ao segurança armado à entrada e entrei dentro do Minipreço. Dei uma volta pelo interior mas não havia nada que me interessasse. O antigo Minipreço era pequeno e não tinha muita variedade de coisas. Era essencialmente um entreposto de lacticínios e enchidos, tudo vindo directamente do produtor, algumas embalagens antigas, já tudo fora de prazo, mas muita coisa a granel. Só se leva o que se pode pagar. E não se pode levar tudo que as coisas são geridas de maneira a haver sempre quase tudo quase sempre.
Saí e entrei num antigo Pingo Doce. Fiz o mesmo ritual. Mostrei o cartão multibanco ao segurança e entrei. O Pingo Doce tinha muitas conservas. Era, essencialmente, um entreposto de latas de comida e bebida. Dei uma volta. Era bom se encontrasse uns pacotes de gelatina. Ela gostava de gelatina quando era miúda. Há quantos anos não comia gelatina? Mas não conseguia dar com nenhuma embalagem de gelatina. Até que, de repente, vejo-a a olhar para mim. Perdida numa prateleira. Fora de sítio, provavelmente, porque não havia ali mais nada daquilo. Uma embalagem de Boca Doce. Boca Doce! Uma embalagem de Boca Doce de Morango. O Boca Doce era uma espécie de pudim gelatinoso instantâneo. Agarrei logo na embalagem. Não precisava de procurar mais. Tinha encontrado o que procurava.
Paguei. Era caro. Paguei com o multibanco. Marquei o código com a parte de borracha do lápis. Depois desinfectei-a com um pouco de álcool e guardei o lápis no bolso do casaco. Pus a embalagem de Boca Doce na mochila. Podia voltar para casa. Não precisava de mais nada.
Saí.
Não tinha andado quinhentos metros, ainda estava dentro dos limites da cidade, quando fui abordado por um homem. Sem máscara. Afasta-te!, pedi. O tipo continuou a avançar para mim, mostrou-me uma faca na mão, uma faca grande, e disse O cartão! e tentou agarrar-me o braço. Eu levei a mão ao bolso do casaco e agarrei no revólver. Disse ao tipo Afasta-te, se fazes favor! Ele voltou a tentar agarrar-me. Deitou-me a mão ao braço e agarrou-me o braço e puxou-me para ele. Eu dei-lhe um pontapé com a biqueira de aço numa canela que o fez tropeçar. Enquanto ele se baixava cambaleante, eu tirei a mão do bolso com o revólver e disparei à queima-roupa. Disparei sobre o tipo. O tiro acertou-lhe em cheio na cara. Senti alguns salpicos a caírem sobre mim. Foda-se! disse. A mão do tipo largou-me o braço e ele caiu no chão. Dei-lhe um pontapé na mão e vi-a voar e cair quieta ao lado do corpo. Eu pequei no frasquinho de álcool e aspergi um pouco sobre mim.
Fui-me embora e deixei o corpo lá caído.
Enquanto passava ao lado do Estádio, enquanto caminhava pelo antigo parque de estacionamento, pensava que tinha de tomar um banho quando chegasse a casa e tinha de pôr a roupa para lavar e tudo isso antes da miúda acordar. E mais ainda pensava que à noite iria fazer o pudim-gelatinoso de Morango para o aniversário dela no dia seguinte. Achava que ela iria gostar de um Boca Doce. E sorri. Depois ainda pensei Não procurei os boxers para mim. E não pensei mais no tipo a quem tinha acabado de matar.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/06]

No Weapons

Há uns anos atravessei a fronteira entre Moçambique e a Suazilândia (acho que a Suazilândia agora tem outro nome). Saí de Maputo, cruzei a Matola em direcção à Namaacha, de passagem por Boane, até à fronteira. Estivemos parados algum tempo na fronteira à espera de sermos atendidos. Aquilo andava devagar. Numa rede separatória, do lado de cá era Moçambique e do lado de lá era a Suazilândia, uma rede que nos conduzia a um pequeno gabinete onde seríamos atendidos e os passaportes carimbados, estava uma folha a4, enfiada dentro de uma mica de plástico, com o desenho colorido de um revólver e os dizeres No Weapons escrito em Comic Sans e preso à rede com uns pequenos arames enfiados pelos buracos da mica.
Estranhei porque os moçambicanos, normalmente, andavam com catanas para desbastar o mato e cortar a cabeça às serpentes que se atravessassem no caminho (e é por isso que, no mato, as mulheres vão sempre atrás). Não costumam andar com revólveres. Com excepção das autoridades (e nem todas porque às vezes não há dinheiro para todas as autoridades terem armas) e dos corpos de segurança.
Cruzei a fronteira sem problemas e não vi nenhuma arma nem ninguém me perguntou se eu levava alguma arma (e eu não levava).
Pensei quão longe ficava aquele mundo do meu.
Hoje, em Leiria, todos andamos com um revólver à cintura. Aprendemos uns com os outros que o nosso pior inimigo não é um vírus mas o vizinho do lado.
Isto tudo começou nos Estado Unidos. Perante a propagação do novo coronavírus, e o caos que se adivinhava, as pessoas de todo o mundo começaram a armazenar papel-higiénico e latas de atum. Os norte-americanos começaram a comprar armas. No início todos nos rimos a pensar como é que os norte-americanos iam limpar o cu com o cano de uma espingarda. Depressa percebemos que, com uma arma, as pessoas conseguiam todo o papel-higiénico e todas as latas de atum que quisessem. A ideia demorou a chegar à Europa e a Portugal. Mas quando chegou, instalou-se. Em Leiria não foi diferente. Toda a gente se armou. Primeiro foram os caçadores a irem às compras na cidade com as espingardas de caça na mão para evitar serem roubados. Mas depressa começou a haver um mercado-negro de armamento pessoal. Chegaram as pistolas e os revólveres. Toda a gente se armou. Eu também.
Não gosto de armas. Nem sei se consigo disparar sobre alguém.
Lembrei-me deste pequeno episódio vivido na fronteira entre Moçambique e a Suazilândia quando ouvi, há pouco, o disparo de uma pistola e o baque de um corpo a cair no chão. As pessoas andam nervosas e, ter uma arma nas mãos, não as ajudam nada.
Ouvi o tiro e virei a cabeça. Ia a caminho de casa depois de ter ido às compras ao Pingo Doce quando ouvi o tiro. Virei a cabeça. Era numa fila para entrar no supermercado Pingo Doce no centro da cidade donde eu tinha acabado de sair. Um homem estava com uma pistola na mão e, à sua frente, aos seus pés, um corpo caído numa poça de sangue. O homem com a pistola na mão dizia sonoro Não mantinha a distância de segurança… Não mantinha a distância de segurança…
Ninguém ligou nenhuma. Só eu virei a cabeça. As pessoas continuaram a entrar no Pingo Doce. As que estavam atrás dele, foram-no ultrapassando. O homem ficou lá parado, com a pistola na mão e o corpo caído aos seus pés a dizer sem parar Não mantinha a distância de segurança…
Eu fui-me embora para casa. Deixei-os ficar para trás. A cidade estava a ficar perigosa. As pessoas não deviam ter acesso a armas e muito menos andar com elas na cidade. As pessoas não estão preparadas para ter uma arma nas mãos. Deviam haver cartazes a avisar No Weapons. Porque somos demasiado impulsivos. Demasiado nervosos. Explodimos por tudo e por nada. E disparamos ao menor problema ou contrariedade. No Weapons era a melhor maneira de não fazermos asneira.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/30]

Tocar a Rebate

E era o quê? O fim de uma época? O fim de uma história? E onde é que eu estava nela? Na história? Era o protagonista ou um mero figurante a quem davam as ordens a executar? Vira ali, faz assim e assado ao cabelo com a mão, acelera mais um pouco o passo e baixa a cabeça, e os olhos, toma especial atenção em baixar a cabeça. Era o respeito?
No fim de tudo aquilo só queria perceber se eu significava alguma coisa. Se era algum marco na história. Se tinha relevância. Senão, nada valia a pena e o melhor era mesmo acabar com tudo e de vez.
Depois de tantos anos a fazer como as galinhas de carne rija com que a minha mãe fazia a cabidela, a acartar pedra para o castelo, calejar as mãos, magoar as costas, perder a visão e os nervos fazerem-me cair o cabelo, a inação fazer-me crescer a barriga e a pila ficar cada vez mais sem tesão, vejo-me na eminência de perder tudo o resto, o pouco que me sobra, a vida. Uma vida sem grande valor, é certo, mas que é a minha.
Desanimado com tudo o que tem vindo a acontecer, sentei-me no sofá a ver a terceira temporada da série The Deuce. O coração da Big Apple na sua fase mais decadente mas, talvez, a mais criativa. Times Square é um balde de lixo mas onde jorra vida, a vida dos sobreviventes, dos sobreviventes da marginalidade que vinha de trás, a pornografia, a prostituição, a indústria de cinema pornográfico, as drogas e os clubes nocturnos onde toda a gente renascia para mais uma dose de loucura, entre a arte e os excessos. Já se morria de Sida. Eram os homossexuais, primeiro. Não tardaria a chegar a toda a gente. Mas a carga de doença homossexual iria sobreviver ao futuro, mesmo que já todos saibamos que não.
Num dos episódios uma personagem diz para outra, que está infectada com o HIV, Morre, mas morre a gritar, a fazer barulho, a chamar a atenção.
E foi aí que parei. Não vi o resto da temporada. Sei como é que terminou Times Square, agora limpo e higienizado, rico, glamoroso. Não sei como é que terminou a história de Vincent (o irmão gémeo, Frankie, esse foi morto a tiro nas ruas sombrias e decadentes), Candy, Abby, Lory e todos os outros construtores em negativo do sonho americano. Um sonho americano feito em cima de corpos vendidos em pensões baratas, no celulóide e mais tarde no vídeo, e nas ruas sujas e a cheirar a mijo.
Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Ao fundo do armário do quarto. À caixa escondida no fundo do armário do quarto. Agarrei no revólver. Prendi-o no cós das calças. Saí de casa. Parei no alpendre. Acendi um cigarro. Um dos gatos veio roçar-se em mim. Baixei-me e fiz-lhe uma festa. O gato caiu no chão de patas para cima à espera que lhe afagasse o peito. Assim fiz. Depois desci a alameda até à estrada. Vi o cão a olhar para mim do quintal. Os gatos acompanharam-me enquanto descia a alameda e pararam ao portão a ver-me fazer a estrada em direcção à aldeia.
Era um dia de sol. Estava sol e calor. Um céu azul como só no Verão. Ninguém diria que estávamos ainda em pleno Março, não era sequer a Páscoa e vivíamos na hora de Inverno.
Fiz a estrada a fumar o cigarro. Quando entrei na aldeia sentia a transpiração a escorregar-me pela testa, os sovacos a ficarem inundados e os olhos a fecharem-se com o excesso de claridade.
Não havia ninguém na rua. As pessoas, pelo menos as da aldeia, e pelo menos naquela altura, estavam a levar a sério a história do confinamento, da reclusão, da quarentena que nos tinham sugerido para não dizer imposto. Agora que tinham começado a morrer uns velhos. E estes já tinham nome. Eram vizinhos, amigos, família. Agora a morte existia e tinha rosto. Finalmente obedeciam à sugestão. Afinal estamos em democracia, não é? O povo é soberano. Pena que uma parte do povo não saiba ser povo e é tão só e ainda animal, animal feroz a aprovisionar para tempos difíceis para si e para os seus esquecendo que somos grupo, sociedade, e só assim, juntos e em grupo conseguimos sobreviver a todas as contrariedades que nos possam aparecer à frente.
Não havia então ninguém nas ruas da aldeia. Talvez fosse afinal por estar calor e terem aproveitado para dormir a sesta. Já que quase ninguém estava a trabalhar, às vezes ainda se via um ou outro aldeão a cuidar dos seus talhões de terra a plantar batatas e milho e outras coisas da época, mas aqueles que trabalhavam na cidade e estavam de regresso a casa, alguns deles despedidos num eufemístico lay-off e outros sem apelo nem agravo, já sem terem onde cair, a comer os últimos tupperware com sopa que uns velhos mais velhos faziam sempre a mais e chega sempre para mais um, a fome que começava a alastrar, a fome que, final, nunca tinha desaparecido desde antes da revolução dos cravos, porque há sempre uns que não encaixam, que são excedentários, que não interessam, chamam-lhes ervas daninhas ou as maçãs podres do cesto, porque há sempre quem saiba tudo e saiba bem e marque o destino dos outros porque antes os outros que eles, antes que eles se tornem nos outros, e então estariam a dormir a sesta porque enquanto se dorme a sesta afugentam-se as fomes, as tristezas e, ao despertar, há sempre um momento em que a história pode tombar para qualquer um dos lados e, um dia, até pode ser que tombe para o lado certo.
Não havia ninguém nas ruas quentes e brancas da aldeia. As portas da igreja estavam abertas. Mas não estava ninguém. Agora ninguém vinha à igreja. A missa era transmitida pela internet. As portas estavam abertas para se algum fiel quisesse, precisasse, de se sentir em comunhão, mas um de cada vez que as regras agora são essas. E eu entrei na igreja e fui direito à torre sineira e abri a porta e entrei e agarrei-me à corda do sino e comecei a puxá-la para baixo com toda a minha força e deixei-me subir com ela no embalo e voltei a puxar a corda e o sino começou a bater a bater com força um toque de rebate violento forte e eu a subir na corda no embalo e a regressar para bater de novo e outra vez e mais outra os pés no chão os pés no ar a puxar a voar a bater a rebate outra vez e mais outra e outra e gritei gritei alto a plenos pulmões todas as minhas dores gritei todo o calão aprendido no anos de liceu e com as mulheres dos pescadores da Nazaré até me deixar sem voz no berro final…
Deixei o sino embalado a tocar sem parar.
Estava transpirado. Cansado. Afónico. Os olhos muito abertos.
Agarrei no revólver que tinha preso no cós das calças e fui para a entrada de portas abertas da igreja. O revólver na mão.
Venham. Venham.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/28]

Quanto Tempo?…

Quanto tempo vou conseguir aguentar o tempo?

Quanto tempo para deixar de querer ficar em casa? de me contentar com a janela e a distância?
Quanto tempo para me fartar de tomar banho e vestir como se fosse sair? como se todos os dias fossem Sábado à noite?
Quanto tempo para perder a vontade de ver filmes e séries?
Quanto tempo para já não conseguir ouvir mais música deitado no chão da sala e não ter mais vontade de ler aqueles livros que estão há anos à espera deste dia, deste preciso dia, para serem lidos?
Quanto tempo para me fartar desta cozinha inventada como se fosse gourmet que vou desfiando dia-após-dia?
Quanto tempo irei suportar vestir o fato-de-treino?
Quanto tempo irei conseguir viver sem tomar banho? sem fazer a barba? sem cortar as unhas dos pés? e das mãos?
Quanto tempo até não suportar mais a presença dos filhos?
A tua presença?
Quanto tempo até começar a odiar-te?
A ti e a tudo o que disseres?
E o que hei-de fazer a todo este papel-higiénico?…
Quanto tempo para ir para a rua aos saltos e aos pinotes?
Quanto tempo para correr nu pelas ruas da cidade?
Quanto tempo até começar a ficar sem dinheiro?
Quanto tempo até não conseguir pagar a conta da luz? do gás? da água? do cabo? da internet?…
Quanto tempo para deixar de pagar a renda da casa?
Quanto tempo até já não ter o que comer? Nem uma mera conserva de sardinhas em molho de tomate?
Quanto tempo até começar a fome?
A fome a sério?
Quanto tempo até perder o desejo?
O desejo por ti…
O desejo pelos outros…
O auto-consolo…
Quanto tempo para começar a falar sozinho?
Quanto tempo para agarrar no revólver?
Quanto tempo para disparar um tiro nos cornos?
Quanto tempo para deixar de ter tempo?
Quanto tempo?…

[escrito directamente no facebook em 2020/03/24]

Alguém Ia Ter de Pagar

Quando, hoje, ia a sair de casa para ir ao café da aldeia beber uma amêndoa amarga e abrir o apetite para o almoço (estava a guisar um coelho que uma vizinha me ofereceu), vi o corpo do cão caído no chão do quintal. Senti um aperto no coração. Imaginei que não seria boa coisa. O cão anda sempre a correr de um lado para o outro com os gatos. Nunca está assim parado. Não seria boa coisa.
E não era.
O corpo estava parado. Vi espuma a sair-lhe da boca. Pus-lhe a mão sobre a barriga e percebi que estava morto. Envenenado, com certeza.
Acendi um cigarro. Senti um nervoso percorrer-me o corpo. Olhei em volta. Para os muros do quintal. Por cima dos muros do quintal. Para a estrada que passa lá em baixo. Para o terreno em frente. Não vi ninguém. Um Domingo como os outros. Nunca há ninguém nas ruas da aldeia antes de almoço. Uns estão na missa, outros a fazer o almoço e, os restantes, estão no café da aldeia. Não anda ninguém nas ruas. E hoje também não andava.
Dei uma volta em torno da casa. Olhei o chão com atenção. Espreitei atrás dos arbustos, das flores, dos troncos das árvores.
Espreitei atrás de todas as esquinas da casa. Levantei pedras. Subi ao muro e andei lá por cima a olhar para o lado de fora. Não sei do que é que andava à procura, mas saberia quando visse. Estava à espera de não ver. Não queria ter razão. Gostava que tivesse sido um acaso. Um azar.
Não vi nada de estranho.
Desci a pequena alameda até à estrada. Espreitei através das grades do portão. Caminhei ao longo do muro. Sempre a olhar para a estrada. Para o outro lado da estrada. Para as árvores do outro lado da estrada. Para os postes de electricidade. Vi os caixotes do lixo. Há ali, no fim do muro da casa, no outro lado da estrada, uma pequena ilha para separação de lixo. Há lá sempre alguns monstros. Tábuas de passar-a-ferro, esqueletos de máquinas de lavar, caixas de televisores de cinescópio. Que ficam por ali meses. Fiquei por momentos a olhar para os caixotes. Depois regressei a casa e subi a pequena alameda.
Estava furioso.
Entrei em casa. Fui ao quarto. Abri o guarda-fatos. Agarrei no cofre. Abri-o. Tirei o revólver. Confirmei que estava carregado. Prendi-o no cós das calças. Nas costas.
Passei na cozinha e agarrei num saco de lixo de 50 litros.
Saí de casa.
Enfiei no corpo mole do cão morto e enfiei-o no saco.
Desci a pequena alameda com o saco nas mãos. Fui à ilha e deixei-o no caixote de lixo RSU.
Acendi outro cigarro. Olhei em volta. Coloquei a mão atrás das costas para sentir o revólver. Estava lá. Estava lá à espera.
Voltei para trás na estrada. Olhei em volta. Fiz o caminho até à casa do vizinho mais próximo. Debrucei-me sobre o muro. O cão deles estava deitado no jardim. Viu-me e veio até ao muro a abanar o rabo. Esticou-se no muro. Fiz-lhe uma festa na cabeça. Voltei para trás. Ia fazer toda a aldeia. Olhar em todas as casas, em todos os quintais, em todos os jardins.
Alguém seria culpado. Alguém ia ter de pagar.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/09]

Atento

Quando o vi, a minha primeira reacção foi vomitar. Apoiei-me na parede, o corpo curvou-se para a frente e vomitei sobre as sapatilhas. Limpei a boca à manga da camisola. Virei-me e procurei-o de novo.
Já não o vi.
Ainda dei algumas voltas pelas ruas adjacentes, mas não voltei a vê-lo. Pensei que não estivesse por cá. Pensei que tivesse ido embora da cidade. Na verdade nunca pensei. Presumi que sim. Que depois de tudo o que se tinha passado, ele tivesse ido embora da cidade.
Agora estou a tremer. Fiquei nervoso. Fiquei nervoso ao vê-lo.
Sento-me no lancil do passeio. Não consigo andar. Preciso de descansar. Preciso de pensar noutras coisas. Acendo um cigarro. Encosto-me ao marco do correio.
Passa um polícia. Olha para mim. Aproxima-se e pergunta Está tudo bem?, ao que respondo Só uma quebra de tensão, senhor agente. Não quero ter de explicar tudo outra vez. Mais uma vez. Reviver tudo de novo. Não, não quero. Por isso digo Só uma quebra de tensão!
O polícia insiste. Se calhar pensa que estou na ressaca. Insiste Precisa de alguma coisa? Quer que chame os bombeiros? E eu volto a fugir à justificação. Obrigado, senhor agente. É só fumar este cigarro que já fico bem. Mostro-lhe o cigarro nos dedos. Também o olho.
O polícia ainda olha um pouco para mim. Depois levanta a mão, numa forma de cumprimento, e segue o seu caminho, de bloco na mão. Vai olhando os bilhetes nos tabliers dos automóveis.
Eu fumo o cigarro e sinto-me descontrair. Por instantes esqueci quem vi. Por instantes regressei ao esquecimento.
Acabo o cigarro. Levanto-me. Sinto-me mais calmo. Regresso ao meu caminho, mas vou atento. Os meus olhos percorrem todas as caras com que me cruzo, as que vejo à distância, as que passam, rápidas, pelo canto do olho.
No início pensei muitas vezes no que lhe faria se me cruzasse com ele. E desenvolvi muito modelos gráficos da minha vontade. Depois fui deixando de pensar nele e no que aconteceria se me cruzasse com ele. Não que tivesse esquecido, perdoado, ultrapassado tudo. Mas o tempo ajuda-nos a livrar do mal. Segui em frente. O melhor que consegui. Que pude. Ainda pensei mesmo que tivesse saído da cidade e ido, sei lá, para fora, para o estrangeiro, recomeçar a vida longe, longe de tudo isto, longe de mim e das minhas dores.
Lembro-me que cheguei a comprar um revólver. Ainda andei uns tempos com ele, mas acabei por o lançar ao rio. Não gostei daquilo em que me estava a tornar. Depois andei com um facalhão de mato. Pelo menos, não era a brutalidade de uma bala disparada à distância, sem pensar. Para o facalhão tinha de me aproximar dele e espetar-lho. Sentir-lhe a dor. O grito. Ver o sangue a jorrar, provavelmente para cima de mim. Guardei o facalhão na arrecadação, junto com as revistas do Tarzan do Burne Hogarth. Depois só trazia o canivete-suíço. Hoje, nem isso.
Mas agora que o voltei a ver, já não sei. Já não sei nada. Dói-me o estômago. E a cabeça. Espero não voltar a vê-lo. Nunca mais. Mas estou atento.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/16]