Estava uma Velha Sentada numa Cadeira de Praia

A velha estava sentada numa cadeira de praia, pernas estendidas, pés descalços, os chinelos ali ao lado, a olhar os carros que passavam. Quando eu passei, também olhou para mim. Os olhos dela nos meus. Senti-os. E acompanhou-me enquanto eu a olhei. Depois voltei-me de novo para a estrada, aproximei-me da rotunda, abrandei e acabei por parar. Não tinha prioridade e tive de esperar.
E pensei na velha. A velha sentada na cadeira de praia. O mato atrás dela. Ainda terá clientes?
E depois pensei que aquilo era o Calhau. Uma terra às portas da Nazaré. Do outro lado da estrada já havia muitas casas com tabuletas Alojamento Local. A velha devia estar a vender estadia. Arrendar quartos, rooms, chambres, habitaciones e zimmers. Não o corpo. Não o corpo deitado na caruma à sombra dos pinheiros que sobreviveram ao incêndio de dois mil e dezassete. Aquele corpo queimado do sol e do sal, do peixe transportado à cabeça, vendido na lota e comido nos restaurantes da marginal no Verão, É de aproveitar!
Desci à Nazaré e vi outras como aquela. Farandol no cabelo em falsas ruivas. Algumas vestidas com as sete-saias. Aldrabadas, claro, que o calor não permite tanto trapo sobre trapo sobre a pele. E as nazarenas acompanham a modernidade. Já não arrendam casas, partes de casas, quartos ou anexos. Agora é tudo Alojamento Local. Assim, paredes meias com as pevides, os tremoços, os nougat, as pinhoadas, as bolachas de amendoim e as gomas de mil-e-um-sabor e feitio que afinal sabem todas ao mesmo. Todas não, que algumas são bastante ácidas que eu já provei e até gostei. Já lá vai o tempo em que vendiam percebes e navalheiras que agora já são proibidos por causa do bem estar público, não vão estar estragados debaixo desta torreira de sol e provocar alguma intoxicação alimentar e depois não há médicos porque nesta altura nunca há porque vão todos de férias para o Algarve ou para o Club Med com pensão completa para não saírem do resort e conhecer o país miserável onde estão feitos reis de papo para o ar a beber piñas-coladas.
Parado com o carro no trânsito, numa enorme e já habitual fila do pára-arranca a pensar Mas por que raio é que me meto aqui se já sei que é sempre assim quando chega o Verão, quando passou uma nazarena com as suas aldrabadas sete-saias a rodar na cintura, farandol no cabelo, vários colares grossos de ouro ao pescoço, e estes não são falsos que o orgulho das nazarenas não permite mentir quanto ao ouro que trazem pendurado no pescoço nem nas orelhas nos pulsos e nos dedos, pôs a cabeça dentro do carro e perguntou Não querem um quarto? E saiu-me assim, rápido e sem anestesia, automático Não, não é preciso que nós fodemos no carro. A nazarena apanhada de surpresa desatou a rir, a rir, a rir tanto que se ia engasgando e eu ainda saí do carro para executar a manobra de heimlich, mas já não foi preciso que a nazarena regulou a respiração e, a chorar de tanto rir, ainda colocou a mão dela no meu braço e disse Aproveita, filho! Aproveita que isso não dura para sempre!

[escrito directamente no facebook em 2019/06/29]

Tenho Saudades da Feijoada à Transmontana da Minha Mãe

Apetecia-me comer uma feijoada à transmontana.
Não tenho os ingredientes aqui em casa. Nem há sítios, agora, a estas horas da noite, onde ir comer uma feijoada como deve ser. A feijoada, tal como o cozido à portuguesa e a dobrada, tem dias específicos para ser confeccionado nos restaurantes da cidade. Não se come feijoada quando se quer. Só quando há. Claro que se pode fazer em casa. Mas se tivessem provado a feijoada à transmontana da minha mãe, dificilmente comeriam outra feijoada qualquer feita por quem quer que fosse.
A feijoada à transmontana da minha mãe era a feijoada. Divina. E serve, servirá, de baliza para todas as outras feijoadas da minha vida.
Há alturas, contudo, em que comeria uma feijoada qualquer. À transmontana, à brasileira, de lata ou de pacote.
Nunca será a mesma coisa. Mas às vezes não importa. Às vezes não importa mesmo nada. Bastava eu ter uma lata de feijão cá por casa que a devorava. Devorava como se fosse uma feijoada. Não da minha mãe, claro.
Às vezes sabemos que as coisas não são o que queremos. E, no entanto, abrimos-nos a elas. É como mijar contra o vento. Sabemos ao que vamos. E, no entanto, lá vamos nós. Dar o peito às balas. Arriscar o couro e o cabelo. Esquecer e mergulhar.
Já fiz várias feijoadas. E não são más, as feijoadas que eu faço. Na verdade até são muito boas. Mas não são como a da minha mãe. E há muito que ela deixou de a fazer. Por isso nunca se degradou. A minha mãe deixou de a fazer, como deixou de fazer outras coisas boas que fazia, antes de conseguir deixar de fazer. Assim retenho tudo em bom na memória. Intacto. Como era. Como era quando ela fazia. E fazia sempre bem.
Lembro-me dos Domingos. Dos Domingos de ressaca. Dos Domingos em que entrava na cama de madrugada, já o galo tinha sido morto para a cabidela e o sol ia alto, na companhia de uma valente cabra, e era acordado poucas horas depois pela minha mãe a avisar que a feijoada estava na mesa. Não que o Domingo fosse o dia da feijoada. Não. A feijoada, como todas as comidas que a minha mãe fazia, era quando lhe apetecesse fazer. E aos Domingos apetecia-lhe muito fazer feijoada. Ou cozido à portuguesa. E então lá ia eu, em cuecas, sem ter tomado banho, cheio de ramelas, o cabelo desgrenhado, a boca empastelada, a cheirar a álcool, cigarros e transpiração, sentar-me à mesa, deixar-me inebriar pelo cheiro das carnes estufadas, as couves, o arroz branco que polvilhava sobre tudo aquilo e ouvir a minha mãe refilar comigo por ir para a mesa naqueles preparos. E eu dizia-lhe Oh, mãe! Mas somos só nós! e ela respondia-me Nem que fosses só tu! Isso não são maneiras! e eu pensava que mal ela sabia como era a minha vida quando ela não estava presente. A javardice que me guiava. Mas eu também não lhe dizia mais nada. A conversa sobre o estado em que ia para a mesa de Domingo comer a feijoada morria ali, porque tudo era vencido pelo prazer de estar a almoçar com o filho.
Depois que ela deixou de cozinhar estas coisas, eu tentei recuperar a sua mão. Mas nunca consegui. Uma vez até a convidei para uma feijoada feita por mim. Disse que tinha gostado muito. Mas acho que foi só por simpatia.
Mas aos Domingos, e quando durmo em casa dela, continuo a ir para a mesa saído directamente da cama. No Verão, até vou sem camisola. E ela continua a refilar comigo. Agora ainda diz Julgas que tens dezoito anos, não é? Mas não tens! Olha-me essa barriga!

[escrito directamente no facebook em 2019/04/12]

O Dia Dois. O Dia de Hoje

É o dia dois.
É o dia de hoje.
Uma semelhança fonética transforma o segundo dia do ano no dia presente. No dia de que se fala. No dia de todas as desilusões. É hoje. Agora.
Não houve nenhuma transformação. Nenhuma metamorfose. Nenhum milagre operado num estalar de dedos.
Os problemas não se resolveram. A vida não se tornou bestial. A conta no banco continuou a zeros. As contas continuam a acumular-se à entrada de casa.
Afinal, passar de ano é o mesmo passar do dia à noite e de regresso ao dia de todos os dias. Com falso glamour. Sempre uma justificação para nos extravasarmos. Beber até cair. Comer até rebentar. Drogar até deixarmos de ser quem somos. Ou passar a sê-lo.
Afinal, a vida continua a rolar da mesma maneira como rola todos os dias.
Afinal, uma porra! é o que é.
São sete e trinta quando o despertador toca. Abro os olhos. Desligo o despertador. Penso que é hoje que recomeço. Ganho coragem. Afasto o edredão. Sinto o frio mas ignoro-o. Levanto-me. Abro a janela. Um dia ainda por nascer. Pouca ou nenhuma luz. Uma hora mágica.
Vejo o carro do vizinho a sair. Sai cedo para o trabalho. Ainda não leva os miúdos para a escola. Ainda não há escola. Ainda são férias de Natal. Os miúdos já estão levantados a ver televisão. Vejo-os pela janela da sala. Amanhã não vão levantar-se a esta hora.
Espreguiço-me. Arrepio-me. Vou para a casa-de-banho. Urino. Tomo um duche. Visto-me. Faço café. Uma torrada com pão do ano passado. Isto antigamente era uma piada. Porque não se podia comprar nada no dia um de Janeiro. Estava tudo fechado. Com excepção de um ou outro café. Que vendia bicas. E uns chupa-chupas. E pastilhas. Agora já não faz muito sentido. Já há muita coisa aberta. Cafés. Restaurantes. Farmácias. Padarias. A massa já está feita. É só colocá-la naqueles fornos eléctricos. Pão-borracha. Bom na primeira hora. Uma desgraça logo depois. Ah, as saudades das panificadoras e do papo-seco!
Há um ano que não te vejo, dizem. Uma piada velha e gasta. Mas há sempre quem a diga.
Vou à janela fumar o primeiro cigarro do dia. Do dia dois. Do dia de hoje.
As coisas nunca mudam. Mantêm sempre a mesma caminhada, dia-após-dia. Ano-após-ano. De manhã, fumo sempre o primeiro cigarro do dia. Logo depois do café. E da torrada. Todos os dias. Todos os anos.
Não há rupturas. Não há transformações. Tomam-se resoluções que se esquecem com o primeiro copo de espumante barato mal tocam as doze badaladas. Que se perdem nos lábios quentes e pastosos que nos oferece o primeiro segundo do primeiro dia do novo ano. Mas é tudo ilusão. Os lábios são os mesmos. O batom é que é novo. Talvez um Red Tango. Promessas. Promessas de novidade. Promessas de desejo. Promessas de promessas.
Mas desta vez já decidi. Desta vez é a sério.
Desta vez as coisas mudam.
Sento-me frente ao computador. Abro o Word. Crio uma nova pasta: Boa-Sorte, Lá Fora.
E começo a escrever Capítulo I:
Estás bem, pai?
Se ele estava bem? Achava que sim, mas não tinha a certeza…
Desta vez vou abrir esta pasta todos os dias. E todos os dias vou contar a estória deste homem. Não sei ainda como se chama, este homem. Mas vou saber. O homem que nasceu no dia dois. No dia de hoje.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/02]

Embalado pelo Mar

Acabou o Agosto. Está a acabar o Verão. Os emigrantes já foram lá para onde estão emigrados. As festas de todos os santos possíveis também terminaram.
Vou à praia e estou sozinho. O mar está calmo. A ondulação é tranquila. Adormece. Deito-me no colchão-de-ar e deixo-me ir ao sabor das correntes fracas que por aqui andam agora. Acho que o mar esperou que toda a gente se fosse embora para me presentear com uma praia de sonho.
O senhor das Bolas de Berlim já não passa por aqui. Mas trago um tupperware com pedaços de melão, do verde e do amarelo, com pedaços de meloa, de melancia.
Sento-me na toalha, molhado, o cabelo a pingar, e dou cabo de todos os pedaços enquanto o diabo esfrega um olho.
Olho à volta e vejo um casal estrangeiro muito branco. Ele espalha Factor 50 pelas costas dela.
Lá mais ao fundo, uma avó com o neto. Ele come um gelado. Ela faz renda.
Não há mais ninguém.
Há gente que se passeia pela calçada marginal.
Sente-se o cheiro das sardinhas assadas. Ainda há pessoas suficientes para fazer mexer os restaurantes e snacks e cafés e bares, mas são outro tipo de pessoas que procura outro tipo de experiências.
Por momentos sinto-me só. Quase sozinho no mundo.
Olho para este mar tão convidativo e penso no que é que poderia querer mais.
Sorrio. Sorrio para mim. Cá por dentro.
Pego no colchão-de-ar e lanço-me ao mar. Deixo-me embalar. Os olhos fecham-se. Deixo-me adormecer. Sinto-me a ser levado para longe. Suavemente. Sinto os poucos barulhos da praia a ficarem cada vez mais longe. Mas não abro os olhos. Deixo-me tombar nas mãos do mar e deixo-me levar onde ele me quiser levar.
Não estou preocupado. Acredito que me vai levar a bom porto. Deixo-me ir. No suave embalo deste mar em final de Verão.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/12]

Quando É que Estávamos?

A rádio transmitia o I Could Be Happy dos Altered Images. Acho que era a TSF.
Nós vínhamos de carro, pela nacional, ali entre Águeda e Anadia.
I would like to climb
High in a tree
I Could Be Happy
E lembrei-me Queres ir comer uma sandes de leitão ali na Mealhada?, Sim, pode ser, respondeu.
Continuámos estrada fora. Eu ia a bater os dedos no volante. E chegámos à Mealhada. Onde queres ir?, perguntei. Um qualquer, respondeu.
E eu ia a virar no primeiro e ela disse Aí não que há muitos autocarros de turistas, e desviei o carro de regresso à estrada e no seguinte, Esse não que está muito cheio, e depois, Esse não que está muito vazio, e continuou, Fui a esse uma vez com os meus pais e foi muito mau, e a seguir estava fechado e o seguinte também e depois acabou-se e disse-lhe Acabaram-se os restaurantes, o leitão e a Mealhada. Não me respondeu. Mas percebi a cara fechada dela. Ainda ia sobrar para mim.
All of these things I do
All of these things I do
To get away from you
Fomos andando. Acabei por apanhar a A1.
Viemos calados o tempo todo.
Saímos em Leiria.
Perguntei-lhe Queres ir ao Mac?, Sim, pode ser, resmungou baixinho, assim num sussurro para que ninguém ouvisse que ela até ia ao McDonalds.
Chegámos à rotunda, e a fila de carros para o McDonalds era enorme e ela disse Caga nisso, vamos para casa, e eu até a compreendi, percebi a frustração, eu também estava assim e então acelerei o carro, acelerei prego a fundo Avenida da Comunidade Europeia acima, acelerei tanto e com tanta raiva que desapareci, melhor, a estrada desapareceu, houve uma explosão a branco como se nos tivessem tirado uma fotografia com um flash gigantesco e, quando regressámos, ou a estrada regressou, não havia estrada, estávamos no campo, num caminho de terra batida entre videiras pontuadas com algumas oliveiras, com uma carroça a ser puxada por uma parelha de bois conduzida por um moço de barrete na cabeça e duas moças roliças e coradinhas sentadas em cima de um monte de roupa branca em cima da carroça.
Já não ouvia o rádio. Não havia rádio. Nem estática.
Mas continuava a ouvir na minha cabeça:
Get away
Runaway
Far away
How do I
Get away
Runaway
Far away
How do I escape from you
Olhei para o lado e vi que ela estava assustada.
Eu também estava assustado.
Onde raio é que estávamos?
Ou melhor, Quando é que estávamos?

[escrito directamente no facebook em 2018/07/08]

A Felicidade, Nem que Seja à Bruta

Logo que me foi possível corri para casa. Fechei a porta da rua à chave e corri o ferrolho. Fechei todas as persianas e janelas da casa com excepção da janela da cozinha, a minha libertação para o fumo do tabaco – não gosto do cheiro frio das beatas de cigarro acumuladas no cinzeiro nem do que resta de fumo impregnado nos móveis, nos cortinados, na roupa.
Desliguei as luzes e fui até à varanda espreitar lá para baixo. E esperei. Durante algum tempo. E reinava o silêncio num deserto. Até que…
Até que as hordas vindas da periferia da cidade começaram a invadir as ruas, as estradas, entrando pelas portas dos poucos restaurantes e cafés e bares abertos para os receber e dar-lhes aquilo que vinham à procura, alimentação, álcool, música e muita alegria e felicidade. Tudo em doses industriais e brutalizadas. Em excesso. Até ao vómito, símbolo de que se chegou a algum lado.
Gente que não se falava, amigos desavindos, amantes atraiçoados e traiçoeiros, famílias de relações cortadas encontraram-se e percorreram juntos a cidade à procura da felicidade. Onde estás?
Não, em minha casa não. Aqui, a pouca felicidade que havia era minha e só minha. E não a partilharia com ninguém. As pessoas em grupo assustam-me. Não as quero aqui e por isso lhes fechei a porta.
Deixo-as procurar a felicidade onde quiserem, mas longe. Nas casas dos amigos, dos familiares, nas discotecas, em barracas improvisadas, debaixo de uma torneira de cerveja… Deixo-os exercer os seus rituais, mas à distância.
Daqui, daqui da minha varanda via-os passar em direcção ao vórtice da felicidade temporal: agora, neste momento, neste preciso momento, haveriam de ser felizes, mesmo que à bruta. Ou vai ou racha. Amanhã logo se veria. Amanhã logo lidariam com as frustrações, as ressacas, os arrependimentos, as tristezas misturadas ao sabor amargo que lhes empestaria a boca, os dentes, as línguas que guerrearam umas com as outras em batalhas inglórias e inúteis, em desejos frustrados, em ilusões que morreriam logo à nascença, em sexo forçado e provocado.
Não foi à chegada que eu quis sobreviver a esta invasão. Foi à partida. Quando a festa terminou e tombou como uma chuvada monumental, fria e agreste, a frustração de uma noite perdida. E agora? O que resta? O que fica? Para onde vou? Que braços me recebem? Que braços me acodem?
E quando os via partir, cabisbaixos, ressacados, cansados, tristes e invadidos de frustração, sentei-me na varanda e fumei o meu cigarro descansado, pensando que a seguir me ia deitar e sonhar que finalmente teria sobrevivido a mais uma passagem de ano sem ter cortado as veias de arrependimento e loucura.
E nem reparei no fogo de artifício. Nem nas mensagens caídas no telemóvel. Nem nas chamadas não atendidas. Nem que havia gente na minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/31]

À Espera que o Tempo Passe

É Sábado. Vésperas de Natal. Há uma espécie de histeria no ar. A cidade é inundada de pessoas. As lojas, de portas abertas, estão cheias de gente que mexe em tudo como se tivessem olhos nas pontas dos dedos. Ir ao Centro Comercial é suicídio e decidir estar uma hora numa fila de trânsito que não anda.
Os restaurantes estão cheios. Alguns já quase só funcionam por marcação como nas grandes metrópoles.
Eu também decidi sair de casa. Estou sem luz. Não paguei a conta a tempo e cortaram-na na Quinta-feira passada, à noite. Agora só posso ir pagar na Segunda-feira. Até lá estou às escuras. Sem televisão. Sem aquecedores. Sem água quente para o banho. Nem a comida posso fazer. Não sei se foi boa política ter tudo eléctrico em casa. Por isso, que é que faço aqui? Saí.
Fui até às rulotes. Vou muito às rulotes. Por vezes até fica mais caro que em alguns restaurantes da cidade, mas fica a impressão de que se poupa. Estar a comer em pé, ao frio, um bocado de pão com uma bifana, e acompanhar com uma mini, parece mesmo uma refeição triste e barata.
Não era o único. Nunca sou. Aliás, as três rulotes que estavam a funcionar estavam à pinha. Havia ali muita gente como eu. Uma bifana, frita ou grelhada, um hamburger, ou um cachorro-quente que mais não é que uma salsicha cozida com batata palha e uma série de molhos. Mas as pessoas gostam. É pena não haver batatas fritas ruffles da Matutano.
Saio da rulote de estômago composto e, antes de me ir enfiar na cama, passeio um pouco pela cidade. E vejo que ela fervilha de gente. Grupos de miúdos, de raparigas. Grupos de capa e batina. Namorados. Casais. Parezinhos. Gente que parece divertida e que se diverte. Gente que sorri. Que ri. Gente que se beija. Passeia de mãos dadas. Gente que conversa. Que discute. Gente que vive e que ama.
Passo por isso tudo e sinto-me emocionado. Tenho pena de não sentir o mesmo. Tenho pena que tudo isto me passe ao lado. Mas não poderia ser de outro modo.
Já em casa, vou até à varanda fumar um cigarro. Parece que amanhã chega a Ana. Um furacão feminino. Não tenho nada em casa para lhe oferecer. Acho que vou ficar deitado na cama o dia inteiro. Acho que não vou ter pachorra para a receber. Vou adormecer e esperar que surja a Segunda-feira para poder tomar um banho de água quente.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/09]