A Resposta

Desde que fiquei sem trabalho tenho vindo até à Nazaré.
Gosto de caminhar ao longo da marginal. É o calçadão do Oeste.
Caminho debaixo da chuva e do sol. Em dias de frio e de calor. Cheiro a maresia. Encho o peito e os meus dias.
Às vezes vou até à beira-mar. Às vezes molhos os pés. Às vezes caminho ao longo da rebentação. Vou a ouvir aquele rebentar das ondas ao meu lado, quase hipnótico, sedativo. O mar atrai-me. Gosto dele. Tenho-lhe medo.
Às vezes saio lá de baixo encharcado dos pingos das ondas furiosas. Às vezes é só mesmo da água da chuva que ignoro e esqueço que cai.
Às vezes fico ali parado na marginal, perto da antiga lota que hoje é uma outra coisa qualquer cultural, acho que nunca lá entrei dentro, fico ali a olhar para os barcos parados como um museu vivo. Ali vejo as cascas de noz com que os homens corajosos da Nazaré se lançavam ao mar, onde muitos deles morreram e por quem muitas mulheres, mães, filhos gritaram as dores da ausência. Agora são uma memória.
Às vezes, quando tenho algum dinheiro, compro uns carapaus secos nas peixeiras de rua para turista. Mas os carapaus são bons na mesma. Trago-os para casa. Junto-lhes azeite e alho e acompanho com um copo de vinho tinto. Às vezes também os vou comendo assim, simples, enquanto caminho pela marginal, e vou cuspindo as espinhas para o chão.
Às vezes sento-me na calçada, com as pernas caídas para a areia, e fico ali a olhar o mar lá ao fundo, às vezes ali perto de mim que, em dias furiosos o mar ainda chega à estrada e assusta os comerciantes e os turistas que fogem da morte que o Atlântico promete.
Às vezes também fico por ali a escrever. Às vezes vendo contos no calçadão da Nazaré. Escrevo estórias a pedido. Pequenas estórias que cabem numa folha A4. Pergunto por um facto ou outro, uma pessoa ou duas e invento ali uma estória qualquer, geralmente triste, geralmente sem esperança, em troca de algumas moedas que me pagam uma sardinha na nova Batel ou um gelado na Conchanata. Mas é raro ir à praça. Não gosto de ir à praça. É talvez o único local que não gosto na Nazaré. As marquises invadiram a calçada. Já não há praça. Há uma ideia de praça comida pelo acrílico e o alumínio das barracas que servem de esplanadas fechadas como prisões que afastam as pessoas do ar fresco da praia.
Às vezes cruzo a praça em passo acelerado e passeio-me pela zona velha ali ao lado, debaixo das enormes pedras do Sítio. Gosto daquelas ruas pequenas e esconsas. Ruas onde quase que me perco no seu labirinto. Gosto dos cheiros dos restaurantes que nasceram por lá. Gosto de ver as pessoas que andam à cata da fotografia certa para o Instagram. Gosto de me sentir longe da praça, embora tão perto.
Regresso à marginal. Recomeço a andar no calçadão do Oeste.
Às vezes conheço pessoas.
Ontem conheci uma.
Ela estava sentada na marginal a vender bijuteria que ela própria fazia. Fazia lá mesmo em directo, à frente das pessoas. Anéis, pulseiras, colares, brincos, tudo em ligas metálicas que ela manobrava, dobrava, soldava, construía.
Eu sentei-me ao pé dela. A vê-la trabalhar com as mãos. Depois pus-me a escrever contos. Ainda vendi alguns. Ainda escrevi alguns ali em directo. Perto dela.
Acabámos por ir beber uns copos.
Subimos a pé ao Sítio.
Eu cheguei lá acima de rastos. Ela estava pronta para outra. É mais nova que eu.
Fomos até ao forte.
Comprámos tremoços e pevides e estivemos a ver alguns surfistas a cavalgar as ondas. Não havia muitos surfistas. Nem havia grandes ondas. Mas deu para passarmos um bocado.
Afastei-me para ir mijar numa arriba e contei o dinheiro que tinha. O dia não tinha sido mau para mim. Os contos renderam algum dinheiro.
Voltei para ao pé dela. Convidei-a para jantar uma caldeirada. Aceitou.
Descemos de novo à Nazaré.
Fomos jantar uma caldeirada num pequeno restaurante que esqueci o nome. Bebemos vinho de jarro. Passeámos pela marginal à noite. Ficou frio. Ela levou-me para o quarto que tinha alugado numa pensão perto da praia.
A meio da noite convidou-me para ir com ela para o Algarve. Com passagem pela costa alentejana.
Passou a noite. Já vejo a luz do dia a entrar pelas frinchas das portadas da janela. Ainda não lhe respondi. Acho que ela está acordada. Acho que está acordada à espera da minha resposta.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/28]

A Cidade-Subúrbio

Desço à cidade. Às vezes dá-me para isso. Desço à cidade para matar saudades. Normalmente arrependo-me. O passado não regressa e, este presente parece envenenado.
Vejo as montras das lojas da cidade transformadas em montras de lojas chinesas. Máscaras. Mentiras. Enganos. Roupagens tipo. Super-homens. Super-mulheres. Cowboys. Índios. Polícias. Bruxas. Princesas, tantas princesas. Médicos. Enfermeiras (não deixo de reparar na dimensão extremamente curta da bata das enfermeiras e do seu enorme decote) – parece a montra de uma sex-shop, mas não é, é uma montra de loja que, se não é de chineses é de alguém que lhes quer roubar o monopólio do mau-gosto da má-qualidade e baixo-custo.
Coço-me ao ver as roupas. Imagino-as sintéticas. Sinto arrepios pelas costas. Os pêlos dos braços eriçam-se. Sinto comichão. Coço-me. Coço-me até fazer sangue nos braços.
O Carnaval está abandalhado. Parece que as Matrafonas de Torres Vedras com as suas meias de vidro rotas e soutiens XXL coçados e com roupas de mulheres de outros tempos, de cores que já nem me lembro o nome, em corpos de homens musculados e peludos, sem curvas nas ancas e sem saber andar em saltos-altos, tomaram de assalto o país. Parece que somos um imenso subúrbio.
Por outro lado, está tudo asséptico. Procuro nestas montras e não vejo. Onde estão as bombinhas de Carnaval? Os estalitos que se lançavam ao chão e assustavam as moças? Os estalitos que rebentávamos nas mãos fechadas em concha como pipocas a pipocar num tacho ao lume? As bombinhas de mau-cheiro? Os fulminantes para as pistolas de cowboys? As pistolas de água, que enchíamos com água tintada e, às vezes, de outras coisas que jurámos nunca revelar?
Entro num snack-bar que não reconheço. É novo, parece. Ouvi dizer que nos últimos tempos têm aberto e fechado restaurantes e cafés e pastelarias à medida de vários por semana. Toda a gente acha que pode gerir um estabelecimento de restauração. Depois descobrem que aqueles horários e aquela vida não estão de acordo com a família. Abrem e fecham. Abrem e fecham. Abrem e fecham.
Ao balcão peço um extracto de Absinto. Não há. Uma Ponte de Amarante. Não há. Uma Macieira. Não há. Um brandy Croft. Não há. Uma 1920. Não há. Uma Aldeia Velha. Não há. Então, o que há? Há um gin muito bom, com muitas coisas a boiar, que custa oito euros. Peço uma imperial que vem morta.
Regresso à rua.
Acendo um cigarro.
Hoje não há sol. O dia está cinzento.
Pergunto-me o que é que vim aqui fazer?
Os carros caminham parados uns-atrás-dos-outros. Ninguém tem pressa. Ninguém tem para onde ir. Já foram ao Shopping. Agora estão ali. Uns-atrás-dos-outros. A encher a cidade de gases tóxicos. Quem se passeia a pé, como eu, o único a pé na cidade, é que sente o cheiro da gasolina queimada. Salva-me o cigarro. Acalma-me.
Vou embora. Regresso a casa. Regresso a casa arrependido.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/16]

Os Almoços com a Minha Mãe

Não era só aos Domingos. Nem era sempre aos Domingos. Mas era muitas vezes aos Domingos. Eu telefonava de véspera à minha mãe e dizia-lhe que a ia buscar no dia seguinte para irmos almoçar fora. Ela gostava de almoçar fora. E gostava muito mais ainda de almoçar fora comigo. Gostava de se amparar no meu braço, como fazia com o meu pai. E depois dizia às moças dos restaurantes que eu era o namorado dela. É bonito, não é? perguntava às moças, que riam, e eu corava de vergonha e dizia baixinho Oh, mãe!
Às vezes ia com ela à Barosa e partilhávamos uma picanha. Uma dose de picanha vinha com quatro fatias jeitosas de picanha, batata-frita, arroz branco, feijão preto e uma salada de tomate, a que a minha mãe acrescentava sempre o pedido de Um bocadinho de alface, se faz favor! Uma dose de picanha, que era para uma pessoa, chegava para nós os dois. Às vezes a minha mãe ainda conseguia levar uma fatia de picanha para o jantar. Ali, na Barosa, mas não só, também à volta da cidade era assim, em quase todo o lado ali à volta, as doses eram cavalares e enfartavam brutos.
Nesses dias em que almoçávamos no D. Duarte, na Barosa, sentados frente-a-frente, eu bebia uma imperial e ela bebia um panaché. Comíamos uns bocadinhos de pão tostado com pasta de atum enquanto esperávamos pela picanha, que demorava sempre mais que o franguinho que estava sempre a sair porque também vendiam para fora e era uma fila que se juntava ali no parque de estacionamento a partir das onze da manhã que quem não conhecesse o local julgava tratar-se da missa das onze.
Nunca fazia reserva de mesa. E, no entanto, a partir do meio-dia já era difícil arranjar. Ao meio-dia já havia gente a almoçar. As mesas das duas salas ou estavam ocupadas ou reservadas, com as mesmas mesas reservadas para horas diferentes e lá tinha eu de fazer o choradinho, Só para duas pessoas, somos rápidos, e a mesa a ser desencantada com um passe de mágica, junto à enorme janela que dava para o campo e que a minha mãe se arregalava de olhar. Principalmente em dias de chuva Chove, chove que é necessário, coitadas das hortaliças.
Enquanto trincávamos os pedacinhos de pão tostado com pasta de atum e azeitonas banhadas em azeite e alho, eu despejava a imperial e pedia outra e ela dizia Mas será que é possível? Já bebeste tudo? Não sei a quem sais! A mim não é, de certeza! E ao teu pai também não que ele não era muito de beber. E depois contava-me as peripécias da semana. O que se passava na novela que andava a ver, mas andava a ver sem grande entusiasmo que os actores eram sempre os mesmos e as histórias também. Que se deitava cedo porque tinha frio e na cama estava mais quentinha principalmente porque encontrara o cobertor castanho, grosso e muito fofinho que já não se lembrava onde é que o tinha guardado. Ou que se levantara a meio da noite para ir à casa-de-banho e acabou a sentar-se um pouco à janela a ver quem passava lá em baixo, na rua, sob as iluminações de Natal Tão bonitas, este ano, devias ver! e eu a acenar a cabeça, sim-sim, enquanto empinava a segunda imperial debaixo do olhar reprovador que me lançava.
Vinha a picanha. Eu servia um prato. Cortava a picanha aos bocadinhos. Ela dizia para deixar a gordura, se ela fosse fininha, que gostava do sabor da gordura e sim, era fininha e eu deixava a gordura nos pedaços de picanha que ela comia devagar e cheia de prazer. Tínhamos duas fatias para cada um. Às vezes ela só comia uma fatia e levava a outra para casa e dizia Assim já tenho jantar! e assim já tinha jantar, cortava a fatia também aos pedaços, punha dentro de uma carcaça, acompanhava com um copo de vinho tinto e ficava satisfeita e pronta para voltar à sua dieta semanal de peixe, principalmente cozido.
Por vezes, a meio do almoço, lembrava-se de algo e dizia-me para que eu me lembrasse mais tarde Lembra-te quando lá fores a casa, abre-me a garrafa de vinho que eu não consigo, e eu dizia Sim, mãe, mas esquecia-me que a minha cabeça estava pior que a dela, mas invariavelmente ela acabava por se lembrar quando eu lá estivesse em casa e pedir-me-ia que abrisse a garrafa.
Depois perguntava-lhe se queria sobremesa mas já sabia a resposta Não me apetece doces. E tenho fruta em casa, e então eu pedia um café para mim, um carioca para ela, que o descafeinado deixava-a maldisposta e eu ainda lhe perguntava, a brincar, se ela queria uma aguardente ao qual ela me respondia Queres ver-me a dançar a valsa, é? e ria-se da sua resposta ao meu atrevimento.
No fim de almoço levava-a a casa. Normalmente levava-a por um caminho mais comprido para que visse as alterações da cidade e para que se recordasse do que era e como está. Ela ia descansar um pouco. Sentar-se no sofá, se calhar adormecer e passar pelas brasas frente a qualquer filme de acção que ela gostava de ver e que ia vendo aos pedaços que não se preocupava muito se perdia o fio à narrativa, o que ela gostava mesmo de ver eram as cenas de acção, principalmente se fossem com o Jackie Chan com quem, dizia, Farto-me de rir!

[escrito directamente no facebook em 2019/12/01]

Estava uma Velha Sentada numa Cadeira de Praia

A velha estava sentada numa cadeira de praia, pernas estendidas, pés descalços, os chinelos ali ao lado, a olhar os carros que passavam. Quando eu passei, também olhou para mim. Os olhos dela nos meus. Senti-os. E acompanhou-me enquanto eu a olhei. Depois voltei-me de novo para a estrada, aproximei-me da rotunda, abrandei e acabei por parar. Não tinha prioridade e tive de esperar.
E pensei na velha. A velha sentada na cadeira de praia. O mato atrás dela. Ainda terá clientes?
E depois pensei que aquilo era o Calhau. Uma terra às portas da Nazaré. Do outro lado da estrada já havia muitas casas com tabuletas Alojamento Local. A velha devia estar a vender estadia. Arrendar quartos, rooms, chambres, habitaciones e zimmers. Não o corpo. Não o corpo deitado na caruma à sombra dos pinheiros que sobreviveram ao incêndio de dois mil e dezassete. Aquele corpo queimado do sol e do sal, do peixe transportado à cabeça, vendido na lota e comido nos restaurantes da marginal no Verão, É de aproveitar!
Desci à Nazaré e vi outras como aquela. Farandol no cabelo em falsas ruivas. Algumas vestidas com as sete-saias. Aldrabadas, claro, que o calor não permite tanto trapo sobre trapo sobre a pele. E as nazarenas acompanham a modernidade. Já não arrendam casas, partes de casas, quartos ou anexos. Agora é tudo Alojamento Local. Assim, paredes meias com as pevides, os tremoços, os nougat, as pinhoadas, as bolachas de amendoim e as gomas de mil-e-um-sabor e feitio que afinal sabem todas ao mesmo. Todas não, que algumas são bastante ácidas que eu já provei e até gostei. Já lá vai o tempo em que vendiam percebes e navalheiras que agora já são proibidos por causa do bem estar público, não vão estar estragados debaixo desta torreira de sol e provocar alguma intoxicação alimentar e depois não há médicos porque nesta altura nunca há porque vão todos de férias para o Algarve ou para o Club Med com pensão completa para não saírem do resort e conhecer o país miserável onde estão feitos reis de papo para o ar a beber piñas-coladas.
Parado com o carro no trânsito, numa enorme e já habitual fila do pára-arranca a pensar Mas por que raio é que me meto aqui se já sei que é sempre assim quando chega o Verão, quando passou uma nazarena com as suas aldrabadas sete-saias a rodar na cintura, farandol no cabelo, vários colares grossos de ouro ao pescoço, e estes não são falsos que o orgulho das nazarenas não permite mentir quanto ao ouro que trazem pendurado no pescoço nem nas orelhas nos pulsos e nos dedos, pôs a cabeça dentro do carro e perguntou Não querem um quarto? E saiu-me assim, rápido e sem anestesia, automático Não, não é preciso que nós fodemos no carro. A nazarena apanhada de surpresa desatou a rir, a rir, a rir tanto que se ia engasgando e eu ainda saí do carro para executar a manobra de heimlich, mas já não foi preciso que a nazarena regulou a respiração e, a chorar de tanto rir, ainda colocou a mão dela no meu braço e disse Aproveita, filho! Aproveita que isso não dura para sempre!

[escrito directamente no facebook em 2019/06/29]

Tenho Saudades da Feijoada à Transmontana da Minha Mãe

Apetecia-me comer uma feijoada à transmontana.
Não tenho os ingredientes aqui em casa. Nem há sítios, agora, a estas horas da noite, onde ir comer uma feijoada como deve ser. A feijoada, tal como o cozido à portuguesa e a dobrada, tem dias específicos para ser confeccionado nos restaurantes da cidade. Não se come feijoada quando se quer. Só quando há. Claro que se pode fazer em casa. Mas se tivessem provado a feijoada à transmontana da minha mãe, dificilmente comeriam outra feijoada qualquer feita por quem quer que fosse.
A feijoada à transmontana da minha mãe era a feijoada. Divina. E serve, servirá, de baliza para todas as outras feijoadas da minha vida.
Há alturas, contudo, em que comeria uma feijoada qualquer. À transmontana, à brasileira, de lata ou de pacote.
Nunca será a mesma coisa. Mas às vezes não importa. Às vezes não importa mesmo nada. Bastava eu ter uma lata de feijão cá por casa que a devorava. Devorava como se fosse uma feijoada. Não da minha mãe, claro.
Às vezes sabemos que as coisas não são o que queremos. E, no entanto, abrimos-nos a elas. É como mijar contra o vento. Sabemos ao que vamos. E, no entanto, lá vamos nós. Dar o peito às balas. Arriscar o couro e o cabelo. Esquecer e mergulhar.
Já fiz várias feijoadas. E não são más, as feijoadas que eu faço. Na verdade até são muito boas. Mas não são como a da minha mãe. E há muito que ela deixou de a fazer. Por isso nunca se degradou. A minha mãe deixou de a fazer, como deixou de fazer outras coisas boas que fazia, antes de conseguir deixar de fazer. Assim retenho tudo em bom na memória. Intacto. Como era. Como era quando ela fazia. E fazia sempre bem.
Lembro-me dos Domingos. Dos Domingos de ressaca. Dos Domingos em que entrava na cama de madrugada, já o galo tinha sido morto para a cabidela e o sol ia alto, na companhia de uma valente cabra, e era acordado poucas horas depois pela minha mãe a avisar que a feijoada estava na mesa. Não que o Domingo fosse o dia da feijoada. Não. A feijoada, como todas as comidas que a minha mãe fazia, era quando lhe apetecesse fazer. E aos Domingos apetecia-lhe muito fazer feijoada. Ou cozido à portuguesa. E então lá ia eu, em cuecas, sem ter tomado banho, cheio de ramelas, o cabelo desgrenhado, a boca empastelada, a cheirar a álcool, cigarros e transpiração, sentar-me à mesa, deixar-me inebriar pelo cheiro das carnes estufadas, as couves, o arroz branco que polvilhava sobre tudo aquilo e ouvir a minha mãe refilar comigo por ir para a mesa naqueles preparos. E eu dizia-lhe Oh, mãe! Mas somos só nós! e ela respondia-me Nem que fosses só tu! Isso não são maneiras! e eu pensava que mal ela sabia como era a minha vida quando ela não estava presente. A javardice que me guiava. Mas eu também não lhe dizia mais nada. A conversa sobre o estado em que ia para a mesa de Domingo comer a feijoada morria ali, porque tudo era vencido pelo prazer de estar a almoçar com o filho.
Depois que ela deixou de cozinhar estas coisas, eu tentei recuperar a sua mão. Mas nunca consegui. Uma vez até a convidei para uma feijoada feita por mim. Disse que tinha gostado muito. Mas acho que foi só por simpatia.
Mas aos Domingos, e quando durmo em casa dela, continuo a ir para a mesa saído directamente da cama. No Verão, até vou sem camisola. E ela continua a refilar comigo. Agora ainda diz Julgas que tens dezoito anos, não é? Mas não tens! Olha-me essa barriga!

[escrito directamente no facebook em 2019/04/12]

O Dia Dois. O Dia de Hoje

É o dia dois.
É o dia de hoje.
Uma semelhança fonética transforma o segundo dia do ano no dia presente. No dia de que se fala. No dia de todas as desilusões. É hoje. Agora.
Não houve nenhuma transformação. Nenhuma metamorfose. Nenhum milagre operado num estalar de dedos.
Os problemas não se resolveram. A vida não se tornou bestial. A conta no banco continuou a zeros. As contas continuam a acumular-se à entrada de casa.
Afinal, passar de ano é o mesmo passar do dia à noite e de regresso ao dia de todos os dias. Com falso glamour. Sempre uma justificação para nos extravasarmos. Beber até cair. Comer até rebentar. Drogar até deixarmos de ser quem somos. Ou passar a sê-lo.
Afinal, a vida continua a rolar da mesma maneira como rola todos os dias.
Afinal, uma porra! é o que é.
São sete e trinta quando o despertador toca. Abro os olhos. Desligo o despertador. Penso que é hoje que recomeço. Ganho coragem. Afasto o edredão. Sinto o frio mas ignoro-o. Levanto-me. Abro a janela. Um dia ainda por nascer. Pouca ou nenhuma luz. Uma hora mágica.
Vejo o carro do vizinho a sair. Sai cedo para o trabalho. Ainda não leva os miúdos para a escola. Ainda não há escola. Ainda são férias de Natal. Os miúdos já estão levantados a ver televisão. Vejo-os pela janela da sala. Amanhã não vão levantar-se a esta hora.
Espreguiço-me. Arrepio-me. Vou para a casa-de-banho. Urino. Tomo um duche. Visto-me. Faço café. Uma torrada com pão do ano passado. Isto antigamente era uma piada. Porque não se podia comprar nada no dia um de Janeiro. Estava tudo fechado. Com excepção de um ou outro café. Que vendia bicas. E uns chupa-chupas. E pastilhas. Agora já não faz muito sentido. Já há muita coisa aberta. Cafés. Restaurantes. Farmácias. Padarias. A massa já está feita. É só colocá-la naqueles fornos eléctricos. Pão-borracha. Bom na primeira hora. Uma desgraça logo depois. Ah, as saudades das panificadoras e do papo-seco!
Há um ano que não te vejo, dizem. Uma piada velha e gasta. Mas há sempre quem a diga.
Vou à janela fumar o primeiro cigarro do dia. Do dia dois. Do dia de hoje.
As coisas nunca mudam. Mantêm sempre a mesma caminhada, dia-após-dia. Ano-após-ano. De manhã, fumo sempre o primeiro cigarro do dia. Logo depois do café. E da torrada. Todos os dias. Todos os anos.
Não há rupturas. Não há transformações. Tomam-se resoluções que se esquecem com o primeiro copo de espumante barato mal tocam as doze badaladas. Que se perdem nos lábios quentes e pastosos que nos oferece o primeiro segundo do primeiro dia do novo ano. Mas é tudo ilusão. Os lábios são os mesmos. O batom é que é novo. Talvez um Red Tango. Promessas. Promessas de novidade. Promessas de desejo. Promessas de promessas.
Mas desta vez já decidi. Desta vez é a sério.
Desta vez as coisas mudam.
Sento-me frente ao computador. Abro o Word. Crio uma nova pasta: Boa-Sorte, Lá Fora.
E começo a escrever Capítulo I:
Estás bem, pai?
Se ele estava bem? Achava que sim, mas não tinha a certeza…
Desta vez vou abrir esta pasta todos os dias. E todos os dias vou contar a estória deste homem. Não sei ainda como se chama, este homem. Mas vou saber. O homem que nasceu no dia dois. No dia de hoje.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/02]

Embalado pelo Mar

Acabou o Agosto. Está a acabar o Verão. Os emigrantes já foram lá para onde estão emigrados. As festas de todos os santos possíveis também terminaram.
Vou à praia e estou sozinho. O mar está calmo. A ondulação é tranquila. Adormece. Deito-me no colchão-de-ar e deixo-me ir ao sabor das correntes fracas que por aqui andam agora. Acho que o mar esperou que toda a gente se fosse embora para me presentear com uma praia de sonho.
O senhor das Bolas de Berlim já não passa por aqui. Mas trago um tupperware com pedaços de melão, do verde e do amarelo, com pedaços de meloa, de melancia.
Sento-me na toalha, molhado, o cabelo a pingar, e dou cabo de todos os pedaços enquanto o diabo esfrega um olho.
Olho à volta e vejo um casal estrangeiro muito branco. Ele espalha Factor 50 pelas costas dela.
Lá mais ao fundo, uma avó com o neto. Ele come um gelado. Ela faz renda.
Não há mais ninguém.
Há gente que se passeia pela calçada marginal.
Sente-se o cheiro das sardinhas assadas. Ainda há pessoas suficientes para fazer mexer os restaurantes e snacks e cafés e bares, mas são outro tipo de pessoas que procura outro tipo de experiências.
Por momentos sinto-me só. Quase sozinho no mundo.
Olho para este mar tão convidativo e penso no que é que poderia querer mais.
Sorrio. Sorrio para mim. Cá por dentro.
Pego no colchão-de-ar e lanço-me ao mar. Deixo-me embalar. Os olhos fecham-se. Deixo-me adormecer. Sinto-me a ser levado para longe. Suavemente. Sinto os poucos barulhos da praia a ficarem cada vez mais longe. Mas não abro os olhos. Deixo-me tombar nas mãos do mar e deixo-me levar onde ele me quiser levar.
Não estou preocupado. Acredito que me vai levar a bom porto. Deixo-me ir. No suave embalo deste mar em final de Verão.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/12]