No Mad

Estava no Mad. O Mad é o bar/restaurante do Slavo. O Slavo é um chef. Um bom chef. Na verdade, um excelente chef. Da esplanada do Mad vê-se o mar Atlântico, a norte da Praia do Norte. O Mad fica no Vale Furado, no destruído Pinhal do Rei, e é uma praia que fica no fundo de uma falésia. O Mad fica na falésia, mas não junto à arriba. Junto à arriba há um pequeno miradouro do qual se pode ver toda a costa para sul até à Praia do Norte e se pode adivinhar a Nazaré, se o tempo estiver limpo. Do norte, há muitos anos, chegava o cheiro da Leirosa, a celulose nas cercanias da Figueira da Foz. Ultimamente o cheiro não tem cá chegado. Ou ando constipado.
Estava no Mad. Bebia umas imperiais sentado na esplanada. Via ao longe o mar cheio de carneiros. Estava vento no mar e levantava espuma na crista das ondas. Também estava vento no Vale Furado. Do Mad não se consegue ver a praia. Só do miradouro. Há dois caminhos para a praia. Um pelo lado direito do miradouro, que é também um parque de estacionamento, e outro pelo lado esquerdo. Desço sempre pelo lado esquerdo que é a descida oficial, embora seja tudo muito oficioso e arcaico e arrancado à força dos braços e da vontade das pessoas que gostavam de ir para a praia do Vale Furado e escavaram degraus na terra e nas rochas e depois colocaram algum cimento e fabricaram uma descida íngreme, que também é uma subida abrupta. Sempre que está na hora de subir rezo aos santinhos que me ajudem a galgar todos aqueles degraus e que os meus pulmões aguentem o esforço. Nunca fui pelo lado direito.
Estava no Mad a beber umas imperiais na esplanada e a comer uns tremoços que o Slavo lá foi deixar, barrados em piri-piri e sal, quando senti uma vontade enorme de me levantar e ir até ao miradouro olhar para o mar.
Levantei-me. Deixei a imperial a meio, no copo, mas agarrei um punhado de tremoços que fui a comer enquanto cruzava o parque de estacionamento em terra batida e vazio, até chegar ao miradouro e deitar as cascas fora para o mar.
Olhei para sul e não conseguia ver a Praia do Norte. O tempo estava enublado. Mas via as enormes praias que faziam a costa até ao Vale Furado. Pouca areia. Muito mar. Via-o agitado a alongar-se pela areia. Só não consegui ver a praia do Vale Furado que o mar tinha comido e agitava-se lá em baixo, ao fundo, espumoso, agressivo, batido pelo vento, e então falou-me Vem cá abaixo, meu filho-da-puta! Vem cá abaixo ter comigo! e senti uma enorme vontade física de me envolver nos braços tempestuosos do Atlântico, mesmo se, na cabeça, não queria.
Levantei uma perna e depois a outra. Passei para o outro lado da varanda do miradouro. Senti-me impelido a aproximar-me da arriba. Sentia a forte maresia a subir pela arriba e inundar-me os pulmões, o cérebro, o coração. Senti-me encorajado a dar um passo mais em frente. Porquanto a minha cobardia ser mais forte que a coragem que me era transmitida não sei por quem, senti-me empurrado e acabei por dar o último passo. No vazio.
E caí.
Mas ainda vou a cair. Ainda não cheguei ao fundo do Vale Furado. Estou em queda e não sei quando é que lá chegarei.
Vou estragar as sapatilhas novas.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/17]

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Dia de Sopa de Peixe

Hoje é dia de sopa de peixe no café da Avenida. Pensei em levantar-me. Gosto de sopa de peixe. Esta sopa tem muita farinha, cascas de camarão e delícias, e tenho de ter cuidado com as espinhas, mas gosto do sabor. Vem numa malga pequenina. Tenho de me curvar para comer a sopa. Se a sopa for muito líquida, salpico-me todo. Por isso até é bom a sopa ter farinha. Fica mais espessa. Quando me cai da colher não salpica tanto.
Depois como um rissol de peixe. Ou de camarão. Gosto dos dois. Às vezes só há de leitão. Não gosto dos rissóis de leitão. São muito fortes. Dão-me cabo do estômago.
Nos dias como os de hoje, se vou ao café da Avenida comer uma sopa de peixe, trago outra para o jantar. Eles põem a sopa numa pequena tigela de plástico. Tenho de ter cuidado quando a trago para casa. Já não é a primeira vez que perco metade da sopa. As tampas de plástico não vedam muito bem. À noite como a sopa. Depois como uma maçã ou uma fatia de melão e passo assim. Passo bem.
Mas hoje não me está a apetecer levantar. Está muito calor. Sinto-me dormente. Estou bem aqui deitado na cama. Em cima do lençol. O edredão puxado para os pés da cama. A janela aberta mas os estores meio fechados. Cortam-me a luminosidade e dão-me alguma frescura. Já bebi uma garrafa de litro e meio de água. Já a fui encher de novo na torneira.
Acho que não consigo levantar-me.
Há dias em que o corpo me puxa para a cama. Nem a sopa de peixe me consegue fazer levantar.
Tenho ainda dois pães de ontem. Uma lata de cavalas com tomate. Bem dividido dá para o almoço e jantar. E como uma fatia de melão ao almoço e uma maçã ao jantar. Pois.
Não me apetece ver televisão. Viro-me para o outro lado e vejo as sombras da rua a moverem-se ao longo da parede. Parece a televisão mas mais clama e sem gritaria. Eu também fico mais calmo.
Amanhã é dia de sopa de cozido no restaurante aqui debaixo de casa. Amanhã tenho de me levantar. A sopa de cozido é muito boa. Traz muita carne. Muitos legumes. Normalmente tiro a carne da sopa e ponho-a dentro de uma carcaça. Como a sopa e depois o pão com a carne. Gosto muito da sopa de cozido. Também gosto muito da sopa de peixe. Só é pena ter tanta farinha.
Hoje não me levanto. Mas amanhã tenho de me levantar. Preciso de fazer exercício. Preciso de me mexer. De andar. Preciso de ver pessoas. Preciso de respirar o ar da cidade. E ouvir barulho. Quero sentar-me numa mesa do café e ficar atento às conversas alheias. Ouvir as pessoas a conversar. Gosto de ouvir as pessoas a conversar. A dizer o que não se pode ouvir.
Mas hoje não. Não me apetece levantar. Nem pela sopa de peixe no café da Avenida. Como um bocado de cavala com tomate num pão. E fico bem assim. Não preciso de muito para ficar bem. Sim, fico bem.
Gosto de ver as sombras na parede. Às vezes preciso de as ouvir falar. Só para ouvir as vozes. O barulho. Mas só às vezes.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/04]

Malpica do Tejo

Malpica do Tejo. Duas da tarde. Um calor infernal.
Vejo o alcatrão da estrada a ferver. A linha de horizonte da estrada está desfocada. Parece que o mundo está a arder. Sinto as gotas de transpiração a caírem-me pelas frontes. O cabelo está colado à cabeça. Está molhado. A cabeça está quente.
Vejo à minha frente um restaurante. Já passei por dois cafés e uma tasca. Tudo aberto. Tudo de porta aberta à minha espera. Sinto-me no paraíso. Acabei de vir de uma Niza de portas fechadas a quem chega de fora. Ao Domingo, Niza leva a sério as palavras de D. Manuel Linda. O Domingo deve ser para a família. Os supermercados devem fechar ao Domingo. Em Niza, tudo fecha ao Domingo. Malpica do Tejo salva-me o dia.
Entro no restaurante. Sei que já é tarde. Peço uma bifana grelhada. Uma Sagres média. Cinco minutos, informam-me. Sento-me cá fora. À sombra de umas árvores. Ainda há árvores por aqui. Há sombras. E está-se bem à sombra destas árvores. O que as cidades têm a aprender com Malpica do Tejo.
Como. Bebo. Cimento tudo com um café.
Preciso dar um mergulho no Tejo. Quero dar um mergulho no Tejo. Preciso de refrescar o corpo. A cabeça. Vejo uma placa que diz Rio Tejo. Entro no carro e arranco na direcção da placa.
Entro numa floresta de eucaliptos. Vejo outra placa informativa que me informa Parque Natural do Tejo Internacional. Sigo em frente. A estrada é alcatroada. Durante alguns quilómetros. Depois acaba. Entro numa picada. Terra batida. Subo e desço. Quando subo, pergunto-me para onde é que vou. Preocupo-me. O Tejo é lá em baixo, digo baixinho para mim próprio. Quando desço, sinto-me ir na direcção certa. Sorrio.
A floresta adensa-se. Já não é só eucaliptos. Alguns pinheiros. Acho que passei por alguns sobreiros, mas não tenho a certeza.
Começo a ficar com algum receio. Algumas descidas são tão íngremes que tenho medo de não conseguir subi-las no regresso. Mas sigo em frente. Quero mergulhar no Tejo. No Tejo internacional. Páro num alto. Saio do carro. Não ouço nada. Há um silêncio quase total. Sinto o som de uma pequena aragem. Não vejo ninguém em lado nenhum. Nem casas. Nem carros. Só árvores. Verde. Pareço estar sozinho no mundo. Mas não. Por cima de mim planam duas águias. Assobio-lhes. Mas não me ligam nenhuma.
Volto a entrar no carro e continuo em frente. Volto a descer. A subir. Penso que se houver um incêndio, fico ali preso. A estrada de terra batida é estreita. Um caminho para um só carro. Não consigo dar a volta. Há, de vez em quando, umas pequenas bermas arredondadas para dentro da mata onde posso dar a volta ao carro e regressar. Mas já cheguei até aqui. Continuo em frente. Não quero regressar. Devo estar a chegar ao Tejo.
De repente, depois de subir um pouco, vem uma descida mas não consigo ver a estrada. É muito íngreme. Páro o carro. Saio. Olho em frente. É uma descida muito íngreme e com areia solta. Difícil de subir por ali. Acho que não consigo regressar se arriscar descer. Volto a entrar no carro e faço marcha-atrás. Estaciono-o no mato. E desço a pé. A meio da descida vejo o Tejo a passar lá ao fundo. É bonito o Tejo. Passa numa garganta. Continuo a descer. Vou mergulhar.
Um miradouro. Um miradouro interpõe-se. Olho para a outra margem. Espanha. Lá em baixo. A outra margem, a margem espanhola, vai até ao rio. Vai até lá a baixo. Vejo um pequeno cais. Há gente do lado espanhol a tomar banho no rio. As vozes da brincadeira chegam cá a cima. Ouço crianças. Adivinho lá famílias. Quero ir até lá abaixo. Mas não consigo. O miradouro é onde termina o caminho que fiz. O lado português do Tejo é uma escarpa. Porra! O Tejo afinal é espanhol. Para os espanhóis.
Sento-me numa pedra. Acendo um cigarro. Penso que gostava de ser espanhol. Hoje. Agora. Agora gostava de ser espanhol. E estar lá em baixo a mergulhar nas águas frescas do Tejo. Recupero o calor. Agora que percebo que não consigo chegar ao rio, volto a sentir o dia quente. A minha transpiração. As gotas de suor e o cheiro.
O cigarro sabe-me mal.
Ouço os gritinhos da satisfação dos espanhóis lá em baixo.
E penso Que é que falta acontecer?
E é nesta altura que ouço o barulho de um carro. Um carro lá em cima. Ao pé do meu. Olho para lá. Sinto um calafrio nas costas. Como um pressentimento. Não consigo voltar a colocar o cigarro na boca. Tenho a boca seca. Tenho a garganta seca. Tenho os olhos irritados. Sinto um arrepio de frio.
Olho lá para cima e vejo dois homens a descer até ao miradouro. O miradouro onde estou.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/12]

Como Vim Parar Aqui

Estou no passeio. Na borda do passeio. Tenho o pé já um pouco fora do lancil. Quase a tombar sobre a estrada. Sobre a passadeira. Espero o semáforo verde para colocar o pé em baixo. Na passadeira que me vai levar ao outro lado. E quando passa a verde, quando o semáforo passa a verde e me liberta, o meu pé não se mexe. Já não sei se quero ir para o outro lado. Já não sei se quero ficar aqui. Já não sei nada e isso dá-me uma grande dor de cabeça.
Estou indeciso.
E digo indeciso para não ter que dizer que estou inerte. Não quero voltar a pensar em mim assim, dessa maneira.
Não estou inerte.
Levantei-me da cama, hoje de manhã. Tomei banho. Calcei os chinelos para tomar banho numa casa-de-banho pública. E isso foi uma grande decisão. Tomei banho. Vesti-me. Saí de casa. Cruzei-me com pessoas. Ouvi os carros a correr no asfalto. Ouvi as buzinas dos impacientes. Cheirei os vapores dos combustíveis. Senti o embate de um possível acidente.
E aqui estou eu.
Na rua. Com o pé suspenso e sem conseguir pensar o que é que quero fazer.
Apetece-me dizer que não me apetece nada a não ser ir a correr para casa, fechar a porta à chave, sentar-me no sofá munido de um volume de cigarros, um pacote de cinco litros de vinho tinto e uma vontade enorme de não fazer nada.
Mas não posso dizer. Na verdade não posso dizer porque, realmente, não sei o que quero fazer.
O pé está suspenso no vácuo entre as pedras do passeio e o asfalto da estrada. E não tomo a decisão final. O pé não cai. E eu nem sei se quero que o pé caia.
Lá está. Não sei o que quero fazer, o que deva fazer, o que pretendem que eu faça.
Todos estes anos que levo por aqui só para terminar assim, de pé no ar sem saber o que fazer?
O que me trouxe para aqui?
Estou sentado numa mesa do McDonald’s. Como um McRoyal Cheese e sinto o corpo a aumentar a cada dentada. Sinto o peso do hambúrguer a cair no estômago. O hambúrguer é pesado. Empurro batatas fritas pela boca aberta. Bebo uma cerveja de lata morna, vertida para um copo de plástico onde, em letras garrafais, diz que é Reciclável. Trinco o hambúrguer enquanto olho. Um grupo de jovens atletas. Rapazes. São uns dez ou quinze. Adolescentes. Cada um leva quatro hambúrgueres, batatas fritas e uma bebida grande que não descortino o que é. Devoram tudo num instante. Eu ainda estou de volta do meu e já eles terminaram. Deixam os tabuleiros nas mesas. Há uns homens mais velhos, de fato-de-treino, que não lhes ensinam a levarem os tabuleiros para os carros-depósito e libertarem as mesas para os outros. Duas raparigas partilham uma salada. Há um rapaz que devora um Sunday, enquanto uma rapariga o olha a comer. Um miúdo brinca com um boneco-brinde. Depois larga-o. Agarra num tablet. Tem um pequeno pacote de Nuggets, batatas fritas e um sumo de laranja e ainda não tocou em nada. Os pais, suponho que sejam os pais, comem cada um o seu hambúrguer em silêncio. Toda a gente come em silêncio. Não se partilham palavras. Mas alguém conversa. Não sei onde, mas alguém conversa. Não há picos de som. Há um bruá constante. Como um ruído. Que me embala. Acabo de comer o hambúrguer. E as batatas fritas. A cerveja despejo-a de uma só vez. No fim arroto. Sinto o estômago pesado. E penso Porque raio vim comer aqui? E penso que é porque estou sozinho. Sozinho no meio de gente sozinha. Famílias sozinhas. Namorados sozinhos. Há pouca comunicação. Cada um está fechado no seu mundo. Estou sozinho mas acompanhado. Uma triste alegria que vamos cimentando nos dias que correm. É o progresso!, dizem-me.
E saio do restaurante. Caminho pela cidade. Sem saber para onde vou. Para onde quero ir. Estou sem destino. Sem vontade. Sinto-me personagem de um filme de Antonioni, mas sem a Monica Viti. Estou sem rumo. Morto-vivo. Caminho. Calcorreio ruas, estradas. Passo de um passeio a outro. Subo ladeiras. Volto a descê-las. Vou ver uma montra mas perco o interesse. Entro numa pastelaria e percebo que acabei de comer um hambúrguer. Volto a sair. O que é que vim aqui fazer? Rodo sobre mim. Onde estou?
Estou na borda do passeio. Tenho o pé já um pouco fora do lancil. Quase a tombar sobre a estrada. Sobre a passadeira. Mal coloco o pé na passadeira. Passa um carro. Passa um carro a grande velocidade e bate-me na perna. Com força. Com tanta força que me leva o pé e me deixa a dançar entre o passeio e a passadeira e, enquanto caio, vejo o meu pé voar por cima das pessoas que olham assustadas para mim e para o meu pé voador.
Caio. Vejo, à frente, as luzes vermelhas de travão de um carro. Um carro parado. E vejo o carro a arrancar. Ouço ainda os pneus a chiarem no asfalto. As luzes vermelhas desaparecem. Sinto alguém aproximar-se de mim. Ouço alguém dizer Não lhe toquem! Mas não sei de quem falam. Sinto-me cansado. Acho que estou todo fodido mas não tenho a certeza. Não sei nada. Mas não estou inerte.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/01]

Alguém Bate na Janela do Quarto

Já passa da meia-noite. Desço a Mouraria. Há silêncio no bairro. Ouço, ao longe, um rádio que transmite uma canção. Não distingo o idioma. Está muito distante. Mas não é português. Não saberia dizer o que é. Não reconheço estas línguas asiáticas. Soam-me todas ao mesmo. Sei que não são. A falha é minha.
Desço devagar com medo de escorregar nesta calçada suja e escorregadia. Não há ninguém nas ruas. Ou quase ninguém. Vejo um homem a fumar um cigarro à janela, emoldurado por uma luz amarela que vem por trás. Está de camisola de alças. Está calor. Ele olha para mim e segue-me com o olhar enquanto fuma o cigarro. Não está a observar-me. Exercita o olhar. Descontrai. Olha para mim porque estou em movimento.
Mais à frente cruzo-me com alguém que deve ser autoridade. Pela farda. Mas não me parece polícia. Talvez seja um guarda-nocturno. Não sabia que ainda existiam.
Continuo a descer. A Mouraria é sempre a descer. Sinto, no ar, cheiros diferentes do meu habitual. Mas não tão intensos quanto os que sinto quando aqui passo de dia e os restaurantes indianos, paquistaneses, nepaleses, do Bangladesh e até um chinês, na rua mais em baixo, estão a funcionar em pleno para servir, na maior parte dos casos, gente da terra.
Gosto de vir comer por aqui. No início cheguei a ter algum receio de me fazer mal ao estômago. Não estou habituado a estas especiarias. Mas passei incólume pelo baptismo. Já lá vão muitos anos desde que andei por aqui a primeira vez. Mas está quase tudo na mesma. Quase. Os anos não passam por estas ruas. Mas já começaram a chegar os novos empreendedores.
Já passa da meia-noite e o bairro parece dormir. Não há um bar. Um café. Um restaurante mais tardio. Está tudo fechado. As luzes desligadas. Pelo menos pelas ruas que eu vou serpenteando enquanto vou para baixo, para a baixa da cidade. Permanecem os candeeiros públicos. De luz amarela. Não intrusiva.
Ouço os meus passos ecoados nas paredes silenciosas do bairro. Não há ninguém.
Atrevo-me a descer por ruas mais esconsas e escuras. Ruas onde nunca passei. Procuro vida. Mas acho que está toda a repousar.
Do fundo vejo subir um homem. De mãos nos bolsos. Mochila às costas. Como eu. Também desço de mãos nos bolsos. De mochila às costas. Cruzamos-nos a meio da descida e ele diz-me Boa-noite! Eu respondo com outro Boa-noite! É brasileiro. O sotaque dançado em forma de samba. A cara, um pouco na sombra de uma iluminação pública suave, e vista somente de relance, não parecia a de um homem a dar largas ao seu samba, mas já imerso no fado. Acho que senti dor. Mas talvez a dor fosse minha. Talvez me tivesse visto nele. Sozinho. De mochila às costas. Perdido na cidade. A tombar sobre qualquer coisa que me magoa o corpo e que só vou descobrir mais tarde quando me lançarem uma mão para me levantarem.
Acabo de descer a ladeira. Não escorreguei. Não caí.
Ao contrário do resto do caminho que fiz, agora aqui, em baixo, nesta rua sinuosa e comprida, há gente. Pouca gente, mas alguma. Gente com má vida às costas. Dois rapazes estão tombados nos degraus do pequeno largo que pontua a rua. Uma rapariga, fuma um cigarro e olha em frente. Não me vê. Não me sente passar por trás dela. Eu continuo. Depois ouço, sonoro na noite Oh, foda-se! Acorda, caralho! Levanta-te. Temos de ir lá acima senão o gajo vai-se embora.
Eu ainda viro ligeiramente a cabeça para trás e vejo a rapariga. A abanar um dos rapazes. Cigarro ao canto da boca a cuspir palavras. Anda, porra!
Há muito lixo na rua. Nesta rua. Lixo ao lado dos caixotes. Mas espalhado em volta. Como se alguém tivesse andado a remexer nele. Cheira mal. Vejo restos de comida. Parece-me comida. Caixotes. Muitos cartões. Papel. Algum plástico. Não vejo cães. Nem gatos. Talvez ratos. Acho que vi ali agora um a passar.
Encontro a porta do meu destino. Está aberta, a porta. Está sempre aberta. Acendo a luz do telemóvel para ver nas escadas. Para ver onde ponho os pés. Há muita sujidade. Papéis. Beatas. Uma bota rota. Não vejo seringas. Já não é mau.
Abro a porta do apartamento e sigo para o meu quarto. Está abafado. Cheira a humidade. Abro a janela do quarto e lembro-me que a janela não dá para a rua. Dá para outro quarto. Só me lembro quando abro a janela para trás, para entrar um pouco de fresco da noite, e vejo passar, molhada, com uma toalha enrolada à volta do corpo, uma mulher que, pelos vistos, é a minha vizinha.
Corro a fechar rápido a janela. Fecho-me no quarto. Eu e o cheiro a humidade.
Deito-me sobre a cama. Acendo um cigarro. Penso que não devia estar a fumar no quarto fechado. Mas não me apetece ir à rua para fumar. Quero estar na cama. Quero enterrar-me na cama. Afundar-me na cama. Fundir-me com a cama.
E é então que ouço bater na janela do quarto.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/30]

Um Domingo de Páscoa Igual aos Outros

É Páscoa. Domingo de Páscoa.
É dia de folar. De amêndoas. De cabrito. Há quem leve com borrego. Uma espécie de gato por lebre.
É dia de padrinhos e de afilhados.
Tento lembrar-me dos meus padrinhos. Sei que os tive. Por ventura ainda os tenho. Mas já não os recordo. Não lhes consigo ver as caras. Não sei quem são. Desapareceram na minha infância. É ainda da minha infância a única memória que lhes pertence. Acho. O volume de banda-desenhada O Adivinho, da coleção do Astérix, o irredutível gaulês de Albert Uderzo e René Goscinny. Não sabia o que era. Quem era. Quem eram. Fiquei a conhecer por intermédio desse livro. Pelos meus padrinhos. Acho. Hoje não me recordo deles. Fiquei com o Astérix. Perdi os meus padrinhos. Porque é a memória tão fraca e selectiva, por vezes?
Volto a almoçar sozinho. Como ontem. Como antes-de-ontem. Como amanhã. Desci as escadas do prédio e fui ao restaurante no rés-do-chão. Estava cheio. Cheio de famílias. Crianças. Uma barulheira infernal. Criancinhas a correr por todo o lado aos berros e aos gritinhos. Os pais não têm mãos nestas crianças. Permitem-lhes tudo. Quando começam a querer comer descansados, ligam o tablet com desenhos-animados.
Como ao balcão. Sou a única pessoa a comer ao balcão. Como ao balcão, como sempre. Mas hoje estou sozinho. Hoje não tenho a companhia dos outros solitários. Hoje sou só eu. E o empregado avisa-me Não se esqueça que hoje à noite estamos fechados. Ainda avanço com a pergunta Porquê?, mas não recebo resposta. Talvez não tenha ouvido a minha pergunta. Eu estou mais inclinado para que me tenha ignorado. Porquê!?, deve ter perguntado a ele próprio. Porquê!? Oh que caralho! Sim, sou um chato. Acham que não percebo que as pessoas gostam de celebrar estes dias religiosos. A Páscoa. O Natal. O Corpo de Deus. E não, não percebo. Na verdade, para a maioria destas pessoas, este dia é só mais um dia de feriado. Não os vejo a rezar. A celebrar a morte e ressurreição de Jesus Cristo. É só um feriado. Vão à praia. Ao mar. Lotam as esplanadas. Despejam barris de cerveja. Devoram travessas de camarão. Pedem crédito ao banco para sustentar estes dias. Devia chover. Devia chover a potes para eles ficarem em casa. Eles e as criancinhas.
Mas não.
Está sol. Está calor.
Está um belo dia de praia. Não um dia de celebração de Cristo Aleluia. Está um dia de celebração da praia, das esplanadas, do mergulho no mar, de encher a pança de cerveja e decidir onde ir nas férias com o resto do crédito concedido pelo banco.
Aqui não. Aqui ao balcão está escuro. Sombrio. Só não tão escuro porque as horríveis lâmpadas fluorescentes brancas iluminam o prego no pão para onde espremo uma bisnaga de mostarda enquanto desfaço uma imperial de um só gole.
Pelo espelho à minha frente vejo as famílias em volta do cabrito. Comem de boca aberta. Sorriem com a carne presa nos dentes. Os fios verdes dos grelos que escapam dos garfos e caem para cima das camisas que já não são imaculadas tendem a fugir-lhes das gengivas. Empinam copos de tinto, do jarro que transporta o vinho dos pacote de cartão, com mais glamour e mais barato que as garrafas DOC.
Como um pudim flan. Dias-não-são-dias.
Bebo um café.
Uma Aliança Velha.
Fumava um cigarro mas vou ter de esperar até sair daqui. Vou ter de fumar em casa. Enquanto ligo a televisão nas notícias e aguardo que más novas é que o dia de hoje me traz. É que estes dias trazem sempre más novas. Já não espero outras.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/21]

Três Cartazes à Beira da Estrada

Vinha a descer a estrada de S. Jorge para a Batalha, ali na antiga EN1, estrada que prometia ser protegida para proteger o Mosteiro, estrada que seria protegida desviando o grosso do trânsito, em especial os camiões que vêm de Pataias, Chão Pardo, Cruz da Légua, Cumeira e Albergaria, para a A19, quando decidiram que a A19 era a pagar e, afinal, o trânsito que era para ser desviado continuou a fluir pelas mesmas vias de comunicação de sempre, passando por ali, junto ao Mosteiro, quando vi a cabeça do Nuno Melo, sim, esse que estão a pensar, a cabeça dele a berrar-me à vista Portugal. A Europa é aqui., e assustei-me com o berro visual, a cabeça do Nuno Melo e com o que ele queria dizer com aquilo, que me ia enfaixando no próprio cartaz, ali plantado à entrada da Batalha, na curva que a EN1 faz à esquerda para continuar para Leiria e em frente vai-se para a terra onde D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável, tem estátua equestre em clara afronta aos espanhóis. Que Europa?
Evitei, in extremis, o choque com o rapaz do CDS e segui em frente, para Leiria, a pensar se a Europa era ali a Batalha (porquê a Batalha?) ou o rapaz Nuno Melo, o da melena capilar (porquê o Nuno Melo?), quando pensei que, afinal, podia ser um cartaz para as eleições europeias mas a mensagem era errada ou então eu já não percebia nada disto: não foi a Batalha, como S. Jorge e Aljubarrota, símbolos da portugalidade contra Castela? Espanha? Europa?
Na verdade não queria muito saber disso. Só me irritei por o ver aos berros para mim que vinha descansado, a pensar, junto com os meus botões, na morte da bezerra, a descer a estrada para ir à minha vida.
Mais à frente, em Santo Antão (há muitos santos nesta zona, mas poucos milagres!), reparei que a Aldeia, um famoso restaurante onde antigamente os Leões de Alvalade faziam a sua festa já não era a Aldeia, mas um restaurante chinês do qual não decorei o nome mas reparei que era Buffet com grande variedade de Sushi e fui levado a concordar com as pessoas que clamam que Leiria é a capital mundial do Sushi, que basta chutar uma pedra do calçada e lá está uma peça de peixe cru, porque na verdade é mais fácil encontrar Sushi que Morcela de Arroz em Leiria. De qualquer forma admirei-me porque o novo restaurante chinês de Buffet com grande variedade de Sushi está já para trespasse, assim dizia o enorme cartaz colocado no parque à frente do restaurante para bem se ver da estrada de velocidade controlada porque dantes havia por lá muito acidente.
Fiquei a pensar que a culpa disto tudo era do Nuno Melo que anda lá fora a ganhar a vida e, de repente, apeteceu-me uma Aldeia Velha e pensei que a televisão cria vícios.
Parei o carro. Já não sabia para onde é que ia. Nem sabia de onde é que vinha. E que raio estava eu ali a fazer? Em Santo Antão? Quem é que vai a Santo Antão? O que é que se pode fazer em Santo Antão? E então, vi. Vi o enorme cartaz (outro) com seta a indicar-me a porta para que não passasse despercebida: Baila Comigo “como se baila na tribo”. Danceteria. E um parque repleto de camiões. Há lá melhor que uma discoteca vespertina para gente com idade avançada? Lembrei-me ao que ia. Tentar dançar com uma velhota que ainda tivesse dentes e a anca inteira.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/02]