Os Anos Passam Rápido

Passaram os anos. Passaram à velocidade da luz. Ainda ontem apanhei a minha primeira bebedeira. Lembro-me de me sentir a morrer, a cabeça à roda, o corpo atrás da cabeça, o mundo a fugir de mim e eu enjoado. Vejo-me a vomitar. A vomitar para cima de mim. A vomitar-me a camisola, as calças, as botas. A transpirar. Eu todo um nojo de suor e restos líquidos vermelhos com qualquer coisa pastosa que se arrastava para fora da boca e rolava pelo peito abaixo com um cheiro azedo à volta, e a miúda a meu lado, a mão quente na testa fria, a aguentar aquele cheiro a podridão e a dizer, numa ladainha, Está tudo bem! Vais ficar bem! Isto vai passar! E eu a querer que ela se calasse. A sentir que ia morrer. Morrer para sempre. Morrer sem ter visto uma miúda nua. Sem ter tocado uma pele de seda do corpo nu de uma miúda, que o álcool apareceu primeiro que o sexo e está resolvida a questão do ovo e da galinha: mais tarde foi a bebedeira que desbloqueou o caminho para a cama de uma outra miúda, a primeira, agora já rapariga, mais crescida, assim como eu. Adolescentes, contudo. E foi ontem. Foi ontem que aconteceu. E aconteceu muitas vezes. Todas elas ontem. E recordo-as a todas. E eu não morri. Ou morri e ressuscitei de todas as vezes necessárias para me satisfazer e ficar com aquele sorriso parvo na cara, aquele sorriso parvo que tem quem se sente desfalecer nos braços de uma mulher.
Passaram os anos. Passaram rápido. Tão rápido que perdi tudo o que tinha. Perdi tudo o que tinha sem me aperceber. Todos os meus amigos. Todas as minhas amantes. Todos os meus filhos. Os meus pais. Ainda hoje aqui estavam, ao meu lado. Ainda hoje aqui estavam todos, na conversa. Na brincadeira. Nas conquistas. No amor. E depois, e depois nada, que nada se pensa quando estamos a girar loucamente, a acompanhar a rotação da Terra, e não queremos acreditar que deixámos coisas para trás, mas tão só que as largamos momentaneamente porque quisemos correr livremente de encontro a expectativas que se abriram no mundo e Eu volto! Eu volto!, ouço-me dizer e sei que não volto porque o tempo não volta, nem o tempo nem eu nem mais nada, a não ser a memória e isso é o pior de tudo porque fica aqui e tudo aconteceu agora e é sempre impossível fugir e esquecer o agora porque o agora está a acontecer e é o momento da eternidade e de quando tudo mais dói e não queremos que algum dia deixe de doer.
Passaram os anos. Tantos anos e tão rápido. Agora percebo o quão rápido tudo passou. Não houve tempo para corrigir os erros. Emendar a mão.
Agora só há tempo para este cigarro. Para este copo de vinho. E esperar que não doa mais do que tem doído. E que passe muito mais rápido do que o que já passou.
Sento-me no alpendre a olhar o horizonte. Um cigarro numa mão. Um copo de vinho na outra. A pensar que no meio de tudo isto houve muita beleza. Como este verde-azul que tenho pincelado à minha frente, a tentar deixar gravado na memória como a última imagem, como se fosse uma canção de amor eterno que irá perdurar para além de mim.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/25]

É Importante Mostrar que Sofremos

Há anos que não a via. Tinha deixado de a querer ver. Na verdade ela estava para mim aquilo que se diz muitas vezes de pessoas com quem quebrámos todos os laços: estava morta. Para mim. Sim, para mim estava morta.
As pessoas são boas. Quero dizer, na sua essência. Mas depois deixam de ser. Algumas delas até querem ser. Mas não conseguem. Não é sequer o instinto de sobrevivência que as condiciona. É porque têm de ser melhor. Maior. Mais comprida. Mais brilhante. Mais rica. Mais esperta. Mais amada. Mais desejada. Elas são princesas e suspiram. Eles são gestores, vão ganhar rios de dinheiro e enriquecer antes dos 30 anos. No intervalo fazem um interlúdio e fodem-se uns aos outros. Lembro-me sempre do Psicopata do Bret Easton Ellis.
Mas isso foi nos anos ’80. Isso foram os yuppies. Sim, claro, os grandes homens de grandes negócios especulativos. Vejam onde isso nos levou.
Hoje também é assim. Continua a ser assim. E vejam para onde vamos.
Nunca mais a quis ver. Estava morta.
Ressuscitou.
Encontrámos-nos agora. No funeral da mãe. Da nossa mãe.
Agora chorou. Gritou. Arranhou a cara. Puxou os cabelos. Mostrou que sofria a saudade. É importante mostrar. Mostrar saudade.
Veio falar comigo. Que não podíamos estar assim. A vida era dois dias. Se não for a família o que nos resta? Que devíamos reatar relações. Tinha saudades. Saudades minhas. Também já tinha dela, da mãe, claro. Viram? Viram as minhas lágrimas? Viram como sofro a sua ausência? Deixem-me tirar uma selfie para mostrar ao mundo a minha dor. Anda para aqui, dizia ela. Anda para aqui tirar uma selfie comigo. Anda.
Eu vi uma figura pequenina e perdida. Só. Triste. Triste mas cheia de lantejoulas e purpurinas porque a vida é cor e brilho.
Eu deixei-a falar. Estava assim um pouco histérica. Deixei-a falar até se cansar. Eu não disse nada. Depois virei costas e fui embora.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/01]