Demora a Fazer Efeito

Um breu.
Uma escuridão total. Não vejo um boi. Nada.
Tiro os óculos escuros, mas não ganho grande visão. São dezassete e trinta e já é de noite. Quase. Mas no meio do pinhal, onde eu estou, na estrada que passa pelo pinhal, já é noite quase cerrada. Não há iluminação pública. Não há luar. As luzes do carro são pouco mais que uma vela de cera a queimar no altar em Fátima. Brilha, mas não ilumina.
Este anoitecer tão cedo deixa-me deprimido. Não gosto desta escuridão. Não gosto do frio. Não gosto do Inverno. Não gosto de chá, nem de chocolate quente, nem de um conhaque à lareira. Não gosto da chuva fria e incómoda, da neve e do vento destruidor. Tudo se agrava por se aproximar o Natal. Vejo as pessoas com camisolas grossas de lã e gola-alta. De botas. Casacos de pelo. De penas. De lã. Meias grossas. Gorros. Cachecóis. Ponche quente. Bagaço para a constipação.
Sinto-me deprimir.
Tomo um Cipralex.
Penso que me vai reduzir a libido. Tirar a tesão. E deprimo ainda mais. Esta merda demora a fazer efeito.
Continuo pela estrada ao longo do pinhal e acelero. Tenho pressa em sair daqui. Sinto-me preso. Oprimido pela escuridão nocturna do Inverno. Nem uma estrela para amostra.
Saio do pinhal. Agora cruzo-me com feixes de luz de outros carros. Mas tudo me soa triste. Estas luzes brancas deixam-me nervoso. Irritado. Dirigem-se não-sei-para-onde mas até esse não saber me irrita. Fodam-se, pá!
Chego. Largo o carro e corro para casa. Entro. Acendo uma luz de candeeiro. Duas luzes de candeeiro. Sento-me no sofá e respiro fundo. Gostava de beber uma cerveja no alpendre. Beber uma cerveja e comer uns camarões da Figueira da Foz. Ou umas navalheiras do Tonico, ali da praia das Paredes de Vitória. E ver o sol ir caindo, devagar, lá ao fundo, atrás do mar. No Verão.
O sol já caiu. A lua, não sei por onde anda. Vadia.
Respiro fundo.
Levanto-me e acendo a lareira. Despejo um bocado de brandy num copo de balão e volto a sentar-me no sofá.
Acho que o Cipralex já começou a fazer efeito. Tenho de deitar fora a caixa. Antes deprimido que sem tesão.
Chego-me à lareira. Sento-me no chão. Beberico o brandy. Estou com frio. Mas a começar a aquecer.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/08]

E Mergulho…

Era de madrugada quando saí de casa.
Havia já uma pequena claridade a querer despontar nas minhas costas quando me pus a caminho.
Levantei-me em silêncio da cama. Ela não acordou. Vesti-me na casa-de-banho. Passei no quarto deles. Beijei-os. Viraram-se para o outro lado, sonolentos.
Passei na cozinha. Bebi um copo de água. O cão olhou para mim. Deu duas voltas sobre si próprio e voltou a dormir. Olhei à volta. Fotografei tudo no olhar.
Deixei o telemóvel no cinzeiro sobre a mesa da cozinha. Deixei as chaves. As de casa e as do carro. Deixei também a carteira com os documentos e o dinheiro. Saí de casa. Era de madrugada.
Fui a caminhar pela cidade madrugada fora. Quando os primeiros raios de luz começaram a iluminar-me as costas, já estava fora da cidade. A periferia é feia às primeiras horas da manhã.
Começaram a surgir os primeiros carros em direcção à cidade. Cheirava mal. Gasolina. Gasóleo. Estrume. Um barulho ensurdecedor. Motores. Buzinas. Música.
Afastei-me da periferia. Os carros começaram a rarear. As casas, também. Agora era uma aqui. Outra ali. Apareceram as motorizadas. As bicicletas. Os tractores. O silêncio fazia-me ouvir os barulhos mais longínquos. Algures, uns foguetes. Ainda há festas na aldeia.
Ao meio-dia o sol estava lá no alto. Mas estava fresco. Havia algumas nuvens. Eu estava a atravessar o pinhal. O que restava dele. Já não havia carros. Nem motorizadas. Nem bicicletas. Nem tractores. Já não havia ninguém no mundo. Só eu e o meu silêncio. E a minha respiração forçada.
Continuei a andar pela berma da estrada.
Era já final do dia quando larguei o pinhal para trás. Vi o mar no horizonte. Ouvi o barulho das ondas. Senti o cheiro da maresia. E uma agitação dentro de mim.
Do penhasco olhei lá para baixo e ainda consegui ver o mar. A noite aproximava-se. O mar estava agressivo. Desci as escarpas. Com cuidado. Estava escorregadio. Havia vento. Caminhei pela areia e aproximei-me da beira do mar.
Estava frio. Eu estava transpirado, mas senti o frio que vinha do mar. Senti as gotas salgadas a atingirem-me a cara. A salgarem-me a boca.
Despi-me. Dobrei a minha roupa e empilhei-a. Coloquei as sapatilhas por cima. E caminhei devagar até à beira do mar.

As ondas rebentam e correm até mim. Molham-me os pés. Tento perceber o que estou aqui a fazer, mas não consigo. Aproximo-me mais. Entro dentro de água. Está fria. Gelada. Mas aguento-me. Sinto uma profunda angústia. Queria um motivo, uma razão, para não estar aqui. Para voltar atrás. Mas não arranjo nenhuma.
A força do mar puxa-me. Puxa-me lá para dentro. E eu deixo-me ir. Respiro fundo. Tento aguentar as lágrimas. Prendo a respiração. E mergulho…

[escrito directamente no facebook em 2018/11/24]

Black Friday

Vejo-me ao espelho. Vejo o sangue a escorrer pela cara abaixo. É a minha cara. É o meu sangue.
Abro a torneira de água fria. Baixo a cabeça. Molho a cara, com suavidade. Não esfrego. Enxaguo. Sabe-me bem, a água fria na cara. Fecho os olhos. Sinto-me bem. Fresco.
Levanto a cabeça. Abro os olhos. Vejo-me ao espelho. A cara molhada. Dois fios de sangue, aguados, saem de uma ferida na testa. Uma ferida com quadradinhos pequeninos gravados na testa. Volto a baixar a cabeça. Molho a testa. Lavo a ferida. E lembro-me.
Estava na cozinha. Sentado à mesa da cozinha. Bebia uma caneca grande de café. E senti-o atrás de mim. A minha cabeça foi jogada para a frente. A caneca de café caiu no chão. Partiu-se. Espalhou café por todo o lado. A cabeça bateu na mesa. No individual de palhinhas aos quadradinhos em cima da mesa. Vi estrelas. Era de dia, mas vi estrelas. Depois tudo embaciou. Ficou vermelho. Começou tudo a desaparecer numa névoa vermelha.
Corri para a casa-de-banho. Pus a chave. Abri a porta. Entrei. Fechei a porta à chave. Agarrei-me ao lavatório. Respirei fundo. Olhei o espelho. Tudo embaciado. Embaciado e vermelho. Levei as mãos aos olhos e limpei-os. E vi. Vi o sangue a escorrer-me pela cara abaixo.
Limpo a cara à toalha. A toalha tinge de vermelho. O meu sangue. O meu sangue na toalha. Sinto-me um pouco tonto. Dói-me um dente. Olho de novo para o espelho. Abro a boca. Tento ver o dente que me dói. Tento ver a gengiva. Passo com a língua pelos dentes. Tento ver qual o dente que me dói. E então grito. Toco num dente. No dente. Dói-me. Mexo com a língua. Abana. Abana e cai. Cai no lavatório. Ouço-o a cair no esmalte do lavatório. Baixo a cabeça. Aproximo a boca da torneira. Com a mão, ponho água na boca. Bochecho. Cuspo. Volto a por mais água na boca. Volto a bochechar. Volto a cuspir. Levanto a cabeça. Abro a boca e vejo o buraco no espelho. Um buraco vermelho. Mais sangue. Porra para tanto sangue!
No meio de tanto sangue, vejo uma borbulha no nariz. Uma borbulha pequena de ponta branca. Luzidia. Aproximo mais a cara do espelho. Levo os dedos à cara. Ao nariz. À borbulha. Espremo. Disparo uma massa branca que se estatela no espelho em frente. Fico com um pequeno buraco encarnado na ponta do nariz.
Respiro fundo.
Sossego.
Já não tenho borbulha com ponta branca no nariz. Já não me dói o dente. Já não cai sangue da testa. O dente está caído no lavatório.
Respiro fundo.
Abro a porta da casa-de-banho e saio. Volto a fechar a porta à chave nas minhas costas.
Regresso à cozinha. Vou até à janela aberta. Agarro num cigarro. Acendo-o. Cuspo para a rua e vejo que o cuspo ainda é vermelho. Ainda vai demorar algum tempo, penso. Viro-me para trás e digo Não vais vencer, pá! Não vais vencer! Não vejo ninguém. Nunca vejo ninguém. Mas sei que está lá. Está sempre lá. Está sempre lá para me fazer mal. Para me magoar. Mas não vou deixar-me vencer. Não vou. Não vou, estás a ouvir? Sim, está a ouvir. Eu não o vejo, mas ele vê-me. Ouve-me. E toca-me.
Deito o resto do cigarro fora. Fecho a janela. Olho a sala. Está escuro. Chegou a noite. A televisão desligada. O silêncio. Vou até ao quarto. Abro a porta com a chave. Entro. Fecho a porta. Fecho a porta nas minhas costas. Fecho a porta à chave. Sento-me em cima da cama. Com as sapatilhas calçadas em cima do edredão. E fico assim, sentado vestido em cima da cama. À espera que o sono chegue. Estou cansado.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/23]

Welcome to Everywhere

Vou de viagem.
Estou entre sítios. Nem sei bem onde estou. Estou aqui, mas não sei onde.
Estou parado numa encosta. À minha frente abre-se o vale e lá em baixo corre um rio.
Sento-me a entrada do quarto. Estou num pequeno motel nas montanhas. Ouço o chilrear dos pássaros. Os rápidos a correr lá ao fundo.
Agarro na guitarra, ligo o Fostex e ponho-me a gravar uma música.
Tinha o início de uma letra e uma malha para a guitarra e parto daí. Vou improvisando. No fim ouço o resultado. Não está mal. Agarro na Moleskine e aponto as alterações a fazer. Rescrevo a letra. Assento umas notas. Umas linhas musicais.
Acendo um cigarro. Dou uma volta a pé, ao redor do meu quarto até acabar o cigarro. Aproximo-me da recepção. Apago a beata num canteiro de flores. Entro.
Dou uma vista de olhos nos jornais e revistas. E depois vejo. Vejo a revista Time. Vejo a capa da revista Time. Welcome to America.
Foda-se.
Welcome to America.
Paragem de digestão.
Febre.
Vómitos.
Os braços tremem. As pernas também.
Largo a revista no balcão e saio da recepção.
Volto ao quarto. À entrada do quarto.
Estou nervoso.
Agarro na guitarra.
Agarro na guitarra, levanto-a acima da cabeça e faço-a descer rápido e com força contra o chão. E repito o gesto várias vezes até não restar já nada de aproveitável.
Welcome to America.
Respiro fundo. Repito. Respiro fundo.
Ligo o Fostex e deixo-o a gravar o ambiente. Os pássaros. O rio. Os rápidos lá ao fundo.
Lá do fundo vem um grito. Vários. Um tiro. Dois. Três tiros. Confusão. Gritos. Mais tiros.
Continuo sentado. Deixo o Fostex continuar a gravar. Olho para o rio, tão bonito, ladeado de árvores frondosas, a correr lá em baixo, ao fundo. Gente a correr numa das suas margens. Gente a fugir. Gente a fugir com medo.
Welcome to everywhere.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/21]

Estou na Vida Errada

Parou de chover. E chegou o frio.
Há uma massa polar qualquer que desceu por aí a baixo e veio desdizer a teoria do aquecimento global. Faz frio. Faz muito frio.
Ao contrário do resto da Europa que nasce às portas de Badajoz, aqui a energia é cara e aquecer as casas é luxo de alguns.
É fim-de-semana e não fui trabalhar. Saí da cama porque a perna não me deixou estar deitado mais tempo. Dói-me. Bastante. E só pára comigo levantado.
Vim para o sofá. Liguei a televisão e estou a ver um qualquer programa sobre animais. Mas não ligo muito. Não quero saber dos animaizinhos selvagens aos pulos em plena selva. Vejo um chita a abocanhar um antílope e fico mal disposto. Eu, que nem posso pular aqui em casa. Vejo aquele sangue nos dentes do chita e apetece-me vomitar. Mas não vomito.
Estou a comer umas torradas e a beber um chá de limão.
Estou embrulhado num cobertor porque o frio é mesmo muito. Não posso ligar o aquecimento. Não tenho. A minha casa não tem aquecimento central. Tenho um radiador. Mas gasta demasiado. Demasiado para o que ganho.
Acabo de comer as torradas e de beber o chá e penso que me apetecia ir ler um livro. Mas o frio não me deixa concentrar na leitura. Os dedos estão congelados e as mãos tremem ao agarrar o livro. Desisto.
Vou até à varanda para fumar um cigarro. À saída para a varanda ganho coragem para sair para a rua. Respiro fundo. E lá vou eu.
Acendo um cigarro e olho lá para baixo. E vejo gente de t-shirt e de camisa. Vejo senhoras de vestidos vaporosos. Vejo crianças a correr de manga curta e calções. Vejo idosos a passear de bengala na mão em mangas de camisa.
O cigarro cai ao chão. Abaixo-me para o agarrar e volto a colocá-lo na boca.
Algo se passa.
Algo se passa e é comigo.
Estou no tempo errado. Na estação errada. Na vida errada.
Começo a pensar que estou, também, uma pessoa errada.
Afinal, quem sou eu? Onde estou? Que merda é esta? O que é que se passa?
Mãe? Onde é que tu estás, mãe? Mãe?…

[escrito directamente no facebook em 2018/01/06]