Sem Arranjo

Caiu-me um dente. Estão a desfazer-se. Pareço ter a boca cheia de areia. São os dentes apodrecidos que se desfazem. Já não consigo comer sólidos.
Agora acordo com a almofada cheia de cabelos. A banheira também fica cheia de cabelos depois de lavar a cabeça. Até quando terei cabelos para poderem cair?
Vomito depois de comer. Todas as vezes depois de comer, deito fora tudo o que ingeri. Já não consigo manter nada no estômago. Nem os líquidos e as papas que são as únicas coisas que o estado dos dentes me permite ingerir.
As unhas estão a partir-se. Algumas esfarelam-se.
A caspa deu lugar à seborreia. Cai tudo sobre os ombros. Não adianta sacudi-los. Dois minutos depois está tudo na mesma.
O estômago está inchado. O interior chocalha. Pareço ter um lago dentro de mim, dentro da minha barriga. Está mole.
A pila encolheu. De manhã tenho dificuldade em encontrá-la para urinar. Quando a agarro, nem parece minha. Não a sinto. Não sinto nada.
Dói-me os rins. As costas. As dores de cabeça vão e vêm. Alternam com as enxaquecas. Os pulmões parecem cheios de ar e dificultam-me a respiração. Alivio quando fumo um cigarro.
Apareceram-me mais uns caroços debaixo do braço esquerdo. E também na virilha.
Na semana passada mijei sangue.
Hoje cuspi sangue. Cuspi sangue depois da queda do dente. Pode ter sido da queda do dente. Quero acreditar que sim.
Tenho acordado todas as noites, a meio da noite, com cãibras nas pernas. Massajo-me mas custa a aliviar os músculos. Levanto-me para ir urinar e estou meia-hora na casa-de-banho sem conseguir fazer nada.
Sinto-me um produto em fim de vida e sem arranjo. Penso se não valerá a pena arranjarem outro eu novo. É que este eu, está uma miséria. E não lhe antevejo melhoras. Muito menos um regresso a um tempo funcional.
Deito-me em cima da cama e tento pensar em quando as coisas ainda não eram assim. Tento pensar nas férias de Verão da minha adolescência. Nos mergulhos nas águas frias da costa atlântica. Nos meus amores. Nos primeiros dias de aulas. No primeiro beijo. Na primeira noite de sexo. Na primeira vez que conduzi um carro. No primeiro charro. No assalto que fizemos e na adrenalina que senti.
Cai-me outro dente. Sinto-o solto na boca. Cuspo-o para cima da cama. Cuspo sangue. Babo-me. Perco a vontade. Perco a vontade de ter vontade.

[escrito directamente no facebook em 2020/09/21]

Agir sem Pensar

O tipo chamou-me ao escritório. Não havia lay-off. Alguns iam ser despedidos. Aos outros teria de baixar o salário. Era a crise. A crise atinge-nos a todos, não é? Ele queria que eu ficasse. Com menos um terço de salário. A fazer o meu trabalho e o do tipo que ia mandar embora. Eu mandei-o para o caralho e vim-me embora.
Vim para casa.
Agora estou aqui em casa sem trabalho nem dinheiro e sem saber o que fazer.
Acendo um cigarro, olho para a ponta incandescente e pergunto o que é que seria da minha vida se não pudesse fumar? Se a minha bronquite se agravasse e eu não pudesse mais fumar? Quando o dinheiro se me acabar e não puder comprar mais tabaco?
Abro a porta da despensa. Olho para as prateleiras. Prateleiras vazias. Ou quase. Um quilo de arroz. Duas latas de conserva de atum com feijão frade. Uma lata de salsichas. Um pacote de pevides para a canja. Já está ali há anos. Há quantos anos não faço uma canja? Desde que a minha mãe deixou de me dar galinhas caseiras, que ela própria criava no quintal das traseiras de casa, da casa que era a casa dela e onde eu nasci e vivi até vir embora, a mesma casa que ela deixou quando o meu pai morreu e ela decidiu ir para a cidade, para não estar sozinha, para andar pelas ruas a ver montras e pessoas. Para ver pessoas! O que importam as pessoas? Por causa disso fiquei sem as galinhas dela, galinhas cheias de gordura com as quais fazia uma bela canja e, às vezes, uma cabidela, quando ela me guardava o sangue das galinhas degoladas no quintal das traseiras pelas suas mãos firmes e decididas. Eu nunca consegui degolar uma galinha.
Olho para a despensa e pergunto o que é que vou fazer com isto. Também há uma lata de feijão encarnado. E milho. Quem é que comprou milho? Eu nem gosto de milho. Milho em lata. Para fazer salada?
Sinto uma tontura.
Acho que reajo mais depressa do que penso. É o que se chama agir sem pensar. Talvez devesse pensar um pouco mais antes de fazer as merdas que faço. Ser mais pragmático. Um salário mais baixo é melhor que salário nenhum, não? Mas mais trabalho por menos salário?
Oh, foda-se!
Saio de casa rápido e deito fora o resto do cigarro. Saio a correr. Preciso de correr. Cansar-me. Impedir a cabeça de pensar no que não deve. Desço a alameda a correr. Para baixo todos os santos ajudam. Levanto bem os joelhos. Estico os braços. Saio o portão e viro à esquerda para a aldeia. Não sei se chego a fazer quinhentos metros. Não chego às portas da aldeia. Falta-me o ar. Páro. Encosto-me com uma mão a uma árvore. É difícil respirar. Sinto a pieira. A pieira na minha respiração. Preciso de um cigarro, mas é melhor não fumar agora. Descanso um pouco aqui em pé, encostado à árvore, e regresso a casa.
Oh, foda-se! E agora começa a chover!

[2020/08/18]

Um Mergulho de Cabeça

Eu vi quando ele mergulhou lá de cima, do pilar, do pilar que ficava acima da terceira prancha, que já não era trampolim, mas uma varanda em tijolo e cimento que avançava para além das escadas e ficava mesmo sobre a piscina de saltos, suspensa sobre a piscina de saltos, uma piscina funda, tão funda que eu nunca consegui bater com as mãos no fundo.
Ele estava em pé no pilar. Não era a primeira vez que alguém subia ao pilar, que ficava acima da terceira prancha, a prancha de mergulhos mais alta no complexo de piscinas de São Pedro de Moel. Já tinha visto outros rapazes mergulharem dali, do pilar. Mergulhavam com elegância. Entravam na parede de água como uma agulha num pedaço de chita.
Naquele dia era ele que lá estava. Não sei se ele alguma vez tinha mergulhado do pilar. Eu nunca o vi mergulhar dali. Aliás, eu nunca o tinha visto mergulhar acima do trampolim que fica a meio metro da água, preso à borda da piscina, o único sítio de onde eu mergulhava, também. E não conheci ninguém que mo tivesse confirmado.
Ele estava lá no pilar. Percebi-lhe a concentração. Ficou recto. Erecto. Respirou fundo. Deitou fora o ar. E depois deu o impulso. Com os pés deu um pequeno impulso para cima e para a frente e vi o corpo dele saltar no vazio, saltar do pilar para o ar e começar a descer em direcção ao espelho de água muito direito, de mãos estendidas à frente dele, como se fosse um traço, um ponto de exclamação. A mesma exclamação que eu soltei quando o vi furar o espelho de água quase sem levantar ondas. Foi um mergulho bonito. Muito elegante. O corpo entrou inteiro dentro de água. Ouvi palmas a baterem à volta da piscina. Eu soltei um ligeiro sorriso e pensei Gostava de ser assim.
Depois, algumas pessoas aproximaram-se da borda da piscina de saltos para o receber. Mas ele tardava. Tardava em aparecer. Tardava a vir lá de baixo, do fundo do seu mergulho. As pessoas olhavam umas para as outras. Senti medo no ar. Medo na cara das pessoas. Ele ainda não tinha subido. Alguém mergulhou na piscina. Alguém foi ver o que se passava.
Então, apareceu um corpo a boiar à superfície. O rapaz que tinha mergulhado pegou no corpo e levou-o até à borda. Outras pessoas agarraram nele e puxaram-no para fora. Para fora da piscina. Ele estava inerte. Tinha sangue. Uma pequena ferida na cabeça. Respirava. Respirava mas não se mexia. Então, abriu os olhos. Mas não se mexia. Respirava de olhos abertos, mas não se mexia. Não se mexia.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/26]

Violência Gera Violência

Estava a almoçar. Tinha feito dois ovos mexidos com chouriço cortado aos bocadinhos e ajudava o garfo com um bocado de pão saloio do Zé dos Frangos. A caminho da boca, o garfo ficou em suspenso frente à bocarra aberta, ao ver o polícia a disparar sete vezes. Sete tiros. Sete tiros à queima-roupa. Sete tiros pelas costas num homem preto. O homem não estava a fugir. O homem não era nenhuma ameaça. O homem não tinha nenhuma arma nas mãos. O polícia disparou-lhe sete tiros nas costas.
Pousei o garfo. Senti o estômago às voltas. As garfadas de ovos mexidos que já tinha engolido, pareciam querer voltar para trás. Subir pelo esófago, voltar à boca e disparar para fora, sobre o prato, sobre a mesa, pela cozinha. Espalhar-se, azedo, por todo o canto da cozinha.
Peguei no comando do cabo e puxei a notícia atrás.
Um homem preto, perseguido por vários polícias, tenta entrar num carro. Um dos polícias puxa o homem pela camisola. Vejo a camisola esticar-se pelo puxão. O homem preto parece não querer parar. O polícia puxa de uma arma e dispara sete tiros à queima-roupa sobre as costas do homem preto. Repito para eu próprio perceber o que estou a relatar: O polícia puxa de uma arma e dispara sete tiros à queima-roupa sobre as costas do homem preto.
Foda-se! Respiro fundo.
Sinto o estômago às voltas. Percebo os ovos mexidos a voltarem para trás. Levanto-me a correr da mesa e vou até ao lava-loiças. Abro a boca e vomito. Vomito uma massa amarelada com laivos cor-de-rosa, provavelmente do chouriço e do vinho. Deito tudo fora até já não restar mais nada dentro de mim. Transpiro. Sinto o suor a cair pelas têmporas. Cuspo. Cuspo várias vezes para o lava-loiças. Cuspo mesmo quando já não tenho mais saliva na boca para cuspir.
Levo água à boca. Lavo os lábios, a cara, molho o cabelo. Bochecho. Deito fora. Volto a bochechar. Volto a deitar fora. Tento acalmar. Respiro fundo.
Volto para a mesa. Na televisão, a notícia já é outra. Já nem sei o quê. Eu olho para a televisão e o que vejo é um homem preto a ser alvejado pelas costas, sete vezes, alvejado sete vezes à queima-roupa, pelas costas.
Afasto o prato com o resto dos ovos mexidos. Não consigo comer mais. Mas devia que agora não tenho nada no estômago. Bebo um gole de vinho tinto. Acendo um cigarro.
Como chegámos aqui?
Faço tantas vezes esta pergunta e nunca chego à resposta.
O homem branco está com medo de perder o seu privilégio de raça privilegiada. O homem branco heterossexual está com medo das transformações do mundo. O homem branco está com medo de, um dia, ao sair de casa, estar num prédio, numa rua, numa cidade, cheia de pessoas pretas e pessoas homossexuais e mulheres independentes e seguras de si e tem medo do que o destino lhe reserva. Este homem branco tem medo de ser o único e de se sentir só.
Agora, neste momento não consigo pensar em mais nada. Não quero pensar em mais nada. Não quero pensar em ódio. Não quero pensar em fanatismo. Em religião. Em clubes de futebol. Em nós contra eles. Até porque, em qualquer altura, nós somos eles. Eu sou ele.
E a violência gera violência. E sinto o meu olhar a desviar até ao canto da cozinha onde tenho um taco de basebol vindo directamente da América. A violência gera violência. Levanto-me da mesa e caminho até ao canto da cozinha.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/25]

Escondido, parte 04

[continuação de ontem]

Ficámos os dois em silêncio durante algum tempo. Eu via um sombreado onde ela estaria. Não sei se ela me via a mim. Eu estava no canto do quarto, numa zona ainda mais escura que a escuridão nocturna que tinha caído sobre a cidade, sobre a rua, sobre aquela casa.
Finalmente ela tossiu, como que para aclarar a voz. E depois perguntou Estavas na manifestação? e eu endireitei-me um pouco no meu canto, voltei a sentir as dores no rabo e nas costas por estar ali assim, sentado, mal sentado, num chão desconfortável e húmido e disse Sim.
Eu também estava na manifestação. Estava com amigos. Não sei onde é que eles estão. Perdi-me deles. Também estavas com amigos? perguntou, e eu voltei a dizer Sim. Sim estava com amigos e também não sei o que é feito deles. Perdi-me, ou perdi-os.
Voltou o silêncio. Senti os pés dela a arrastarem-se pelo chão para mais próximo do corpo. Percebi, pela silhueta, que abraçou as pernas e deixou tombar a cabeça sobre os joelhos. E pensei que eu já não conseguia fazer aquilo. Ainda conseguia abraçar as pernas encostadas a mim mas, tombar a cabeça sobre os joelhos, era pedir demais a este corpo velho e cansado. Não vou para novo, eu. Ela parece nova. E parecia.
Quantos anos tens? perguntei-lhe. Ela sorriu perante a minha ousadia e disse Vinte seis. E perguntou E tu? Eu suspirei fundo e disse-lhe Eu já passei dos cinquenta. E acrescentei Já estou velho para estas merdas. E ouvi um pequeno risinho vindo da minha companheira de infortúnio.
Regressou o silêncio. E foi então que reparei que estava mesmo silêncio. Lá de fora já não chegava o bruá caótico. Se calhar já tinha tudo terminado. Se calhar, já tinham ido todos embora, perseguidos e perseguidores. Se calhar já era altura de também irmos embora. E foi isso que disse à rapariga Já não há barulho. Já devemos poder sair.
Eu levantei-me. Tinha o corpo dorido. Estive a massajar as pernas que estavam com pequenas cãibras. Levantei o olhar para a frente e vi a silhueta dela a levantar-se também. Vi-a sacudir o pó das calças e ficar erguida à minha espera. Eu ergui-me e comecei a andar, não sem uma certa dificuldade. Passei em frente a ela e chamei-a Vamos. E fomos.
Fomos devagar. A descer as escadas do prédio na escuridão. Com cuidado para escapar à destruição, aos tijolos, ao pó, ao corrimão quebrado. Eu ia marcando o passo, um passo diante do outro, num passo tranquilo e cuidadoso e sentia-a atrás de mim, a fazer o que eu fazia, tendo o cuidado de não ficar para trás.
Descemos as escadas. Fomos parando nos patamares dos andares para recuperarmos fôlego e aguçarmos os ouvidos à procura de barulhos preocupantes. Mas continuava o silêncio.
Chegados ao rés-do-chão, abri a porta da rua e saí, logo seguido por ela. Acendi um cigarro. E depois, olhei-a. Foi a primeira vez que a vi, que a vi inteira, iluminada, e não só uma silhueta. Era bonita, a miúda. Estiquei-lhe o braço com o maço de cigarros na mão, a oferecer-lhe um. Ela abanou a cabeça. Foi então que percebi que estava nervosa. E ela deve ter percebido o que eu tinha percebido e esticou o braço e agarrou-me a mão com o maço de cigarros e disse Afinal, aceito um cigarro. Tirou um cigarro, eu dei-lhe lume e começou a fumar. Eu disse-lhe Bom, até um dia destes. Boa-sorte! antes de ir embora. Mas ela parou-me, de novo com a mão e disse Preciso de companhia para fumar o cigarro.
Anui. Nem pensei muito no que estava a acontecer. Há gente que só fuma socialmente. Há gente que só fuma quando está com outras pessoas a fumar. Mas voltei a notar o nervosismo dela. Um nervosismo que não tinha detectado lá em cima, no quarto no último andar do prédio em ruínas onde estivemos escondidos. Mas há gente nervosa.
Ouvimos alguns ruídos próximos. Eu disse Não é seguro ficarmos por aqui. É melhor irmos embora. E, então, ela deitou fora o cigarro ainda meio, abriu a boca e gritou a plenos pulmões Aqui! Está um aqui!
Eu bloqueei. Por momentos não percebi o que tinha acontecido. E o que primeiro me saiu, rápido, automático, foi Cala-te! Eles podem andar por aí! Sem ter percebido que ela era um deles e que estava a chamá-los porque me tinha capturado. Mas isto já sou eu a pensar mais tarde. Na altura não pensei logo nisso. Na altura o que me saiu foi Cala-te! Eles podem andar por aí!
Cheguei-me à frente e agarrei-lhe nos braços e abanei-a como que para a despertar para o que estava a fazer, para o que tinha acontecido, para o que podia vir a acontecer.
E foi então que ela forçou os braços dela das minhas mãos, esticou uma perna e empurrou-me e levou-me a cair na estrada de pedras de basalto bastante irregulares que me magoaram as mãos e me fizeram sangue. Perdi o cigarro. Ela voltou a gritar Aqui! Aqui! E eu ouvi o barulho de passos que se aproximavam. Recuperei-me da queda traiçoeira e pensei rápido. Mais rápido do que poderia pensar. Levantei-me de um salto e desferi um murro com a mão direita no nariz da rapariga e ouvi-o quebrar. Vi um jorro de sangue a sair pelo nariz antes dela levantar as mãos para o agarrar. Percebi que começou a chorar. Um choro que se tornou grito de desespero. E eu aproveitei e comecei a correr para sair dali, daquela rua. Corri rua acima, em direcção ao castelo mas, a meio da subida, virei à direita e parti em direcção ao Arrabalde, nas traseiras do castelo, até à zona do estádio de futebol abandonado.
Fui sempre a correr, primeiro a subir e, depois de uma pequena recta, a descer. E como dizia o meu pai, a descer todos os santos ajudam e eu senti toda a santidade católica apreendida nos anos do colégio a empurrarem-me estrada abaixo até chegar ao pé da escola do Arrabalde.
Foi ao pé da escola que parei. Estava cansado. A respiração ofegante. Dobrei-me sobre mim até recuperar a calma. Depois sentei-me num lancil à beira da estrada e pus-me à escuta. Não ouvia barulho nenhum. Nenhuma voz. Nenhum carro. Nenhuns passos. Nada.
Acendi um cigarro.
Vi a estátua do Rui Patrício à entrada do parque do estádio, que estava agora tudo ao abandono, e perguntei-me alto Como é que chegámos aqui?
Não soube responder. Nem o Rui Patrício me respondeu.
Mas a resposta, sabia que estaria algures por aí. E queria encontrá-la.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/21]

Escondido, parte 03

[continuação de ontem]

Apetecia-me fumar um cigarro. Estava a começar a ficar nervoso. Agora que o tempo já tinha passado, o dia já se tinha ido e a noite já tinha chegado, eu já estava mais calmo mas, ao mesmo tempo, estava a doer-me o rabo e as costas de estar ali assim, sentado no chão de uma casa abandonada e em avançado estado de destruição, sem fazer nada a não ser esperar, de ouvido à escuta, que tudo já tivesse passado e eu pudesse finalmente sair daquele buraco e regressar a casa.
Mas eu podia regressar a casa? Depois do que acontecera, eu podia regressar a casa como se nada tivesse acontecido? A vida continuaria a sua marcha imparável em direcção ao futuro? Bom, isso achava que sim. Fosse como fosse, iríamos em direcção ao futuro. Mas que futuro?
Ainda ouvia alguns barulhos vindos da rua, mas já não como anteriormente. Talvez já tudo tivesse acabado. Talvez já fosse seguro sair dali e voltar à rua. Procurar os meus amigos. Tentar saber o que lhes tinha acontecido. Procurar os noticiários. Procurar saber o que é que tinha, afinal, acontecido.
Ia então levantar-me para esticar as pernas e as costas e aliviar-me de ter estado sentado no chão todas aquelas horas, quando senti a porta da rua a abrir-se. Era a porta do prédio. A porta do rés-do-chão. Um som muito sumido, mas que eu percebi. Quem era, estava a tentar não fazer barulho. Mas eu estava já há muito tempo naquele prédio em silêncio. Já lhe conhecia a respiração. Fui contando os passos a subirem as escadas. As pausas nos patamares dos andares. Quem era, estava a tentar perceber se havia gente naqueles apartamentos. Se sentia alguma respiração. Uns ossos a estalar. Um piscar de olhos. Um cheiro a cigarro acabado de fumar. Depois recomeçava a subir as escadas. Voltava a parar no patamar. Eu sentia a pausa à procura de barulho, de alguma vida. E, depois, de novo o recomeçar a subir o último lance de escadas, o que levava até ao último andar, o andar onde eu estava. Parecia-me só um par de pés a caminhar, a subir pelos degraus de madeira envelhecida do prédio. Um andar silencioso e calmo. Cada vez que um pé quebrava um pedaço de tijolo, os passos paravam. Esperavam um bocado e retomavam a subida.
Eu ia chegando-me cada vez mais para o canto. O quarto estava escuro. Já era de noite e aquela rua era sombria. Entrava alguma luz através da janelas partidas, e menos através das janelas sujas, mas o ambiente era de escuridão. O meu olhar habituado aquela escuridão, quase que não conseguiam abarcar todo o espaço do quarto, tão pequeno. No entanto, tentava ir mais para o canto, mais para o escuro, esconder-me, desaparecer.
Ouvi os passos chegarem ao patamar do último andar. Pararem. Percebi a dúvida daqueles passos. A mesma que eu tinha tido. Direita ou esquerda?
Foda-se!
Os passos optaram pela esquerda. Vinham ter comigo. Eu sentia-lhes o andar. Os pés a pisarem o chão cheio de ruídos. A aproximarem-se de mim, cada vez mais perto. E eu camuflei-me de parede em ruínas, fui papel de parede bolorento e cheio de humidade, fui um resto de estuque, tabique.
Os passos deram a volta ao apartamento e aproximaram-se do quarto. Eu vi a silhueta à entrada da porta. Vi a sombra entrar no quarto e ir até à janela e olhar lá para fora. Depois encostou-se à parede e deixou-se escorregar pela parede abaixo e sentou-se. Como eu. Mas na parede em frente.
Eu tentei manter calma a minha respiração. Rezei para não ter nenhum ataque de bronquite. Eu tentava manter-me ausente daquele espaço. Ouvia a respiração cansada do meu companheiro de quarto. Depois um suspiro. Um pequeno choro. Ele estava a chorar. A chorar baixinho. Percebi o braço a passar debaixo do nariz para limpar as lágrimas e o ranho.
E então, arranjei coragem, respirei fundo e disse Não tenhas medo. E o corpo na parede em frente pareceu agitar-se, levantou-se, vi-o meio iluminado pela pouca luz da janela e senti os passos a afastarem-se do quarto de volta para o interior da casa. E voltei a dizer Não tenhas medo. Também estou escondido.
Os passos pararam. Eu mal via a silhueta à entrada do quarto a olhar para de onde eu tinha falado, a olhar para mim. A olhar é como quem diz, que eu só via uma silhueta e não via mais nada. E então ouvi Estás escondido? E eu respondi Sim! E percebi, pela voz, que era uma rapariga.
A rapariga voltou para onde já tinha estado enquanto silhueta. Voltou a encostar-se à parede do lado da janela e voltou a deixar-se escorregar parede abaixo até se sentar como já tinha estado sentada. Sentada como eu estava sentado.
E eu disse Não tenhas medo. Eles não vêm aqui.
E ela perguntou Estás aqui há muito tempo?
E eu disse Desde meio da tarde. Desde que tudo começou.
E ela disse Ah! E foi tudo o que disse durante algum tempo.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/20]

Escondido, parte 02

[continuação de ontem]

Corri pelas ruas esconsas à volta da Rua Direita, na zona histórica de Leiria, no sopé do monte do castelo. Ouvia gritos. Ouvia gente a chorar. Percebia o pânico a correr por aquelas mesmas ruas por onde eu tentava fugir. Uma grande confusão.
Mais uma vez, quase a chegar ao fim de uma rua, percebi que estava também bloqueada por uma carrinha da caixa aberta com uns quantos carecas fardados de militares, ou para-militares ou milícia. Voltei para trás. Outra vez. Contra o fluxo de gente que corria, uns atrás dos outros, sem saber muito bem para onde é que iam, indo só para sair de onde estavam, para fugir, para escapar aquela gente que parecia estar ali para lhes dar caça. Nos dar caça.
Parei frente a uma casa abandonada. Olhei em volta. Estava sozinho. Via pessoas a correrem ao fundo, numa perpendicular. Dei um pontapé na porta e abri-a para trás. Entrei no prédio e fechei a porta nas minhas costas, o melhor que consegui.
Fiquei parado ali, ao fundo das escadas, a tentar ouvir. A tentar ouvir algum barulho vindo de dentro da casa. Só percebia o barulho da rua, das ruas adjacentes. De vez em quando, sentia alguém a correr do outro lado da porta, naquela rua mais escondida. Ninguém parou lá em frente, em frente à porta, em frente ao prédio.
Subi as escadas devagar. A casa estava muito destruída. Ainda estava em pé. Ainda mantinha a estrutura do prédio, dos vários apartamentos, mas havia muitas janelas quebradas, vidros partidos, pedaços de tijolo, lixo, muito pó. Subi as escadas com cuidado até ao último andar. Talvez fosse um terceiro andar. Ali na zona histórica de Leiria, os prédios são antigos e não muito altos. Alguns prédios, como este, estavam assim, abandonados, a acumular valor. Um dia seriam vendidos por bom dinheiro. Onde não há para venda, a venda atinge valores incalculáveis. Mesmo numa terra pequena e ignorada como Leiria.
Cheguei ao último patamar. Havia duas portas de entrada para dois apartamentos. Um à direita e outro à esquerda. As duas portas abertas. Abertas, não. Ausentes. Entrei para o apartamento do lado esquerdo e fui entrando até chegar ao que terá sido um quarto. Um quarto que ainda tinha janela com vidros. Entrei dentro desse quarto e sentei-me no chão, encostado a uma parede húmida, a descansar. A descansar e a pensar no que tinha acontecido.
E que raio tinha acontecido?
Estava numa manifestação pacífica, numa cidade pacífica. Estava numa manifestação pacífica que mais parecia uma festa. Estava toda a gente contente por sair do confinamento a que tínhamos sido sujeito durante tanto tempo. E, depois, aquilo.
Aquilo era o quê? Um grupo de gente de cabeça rapada, vestidos de igual, como se fossem militares, ou milícia, com tacos de baseball nas mãos. Chegaram em carrinhas de caixa aberta. Começaram a bater em toda a gente. A bater a eito. Não era uma contra-manifestação. Era mesmo um ataque. Não, uma caça. Era uma caça. Toda a gente começou a fugir e não havia por onde fugir. As ruas estavam todas cortadas. Tínhamos sido apanhados numa ratoeira. Sem escapatória. Vi muita gente a tombar. Vi muita gente a ser atingida pelos tacos de baseball. Vi cabeças a rebentar. Vi gente a ser espezinhada.
Onde é que estariam os meus amigos?
Alguém teria conseguido sair dali?
E a polícia? Porque é que não tinha visto nenhum polícia?
Apetecia-me fumar um cigarro mas sabia que era melhor estar sossegado. Não podia correr o risco de dar nas vistas, de me descobrirem. Devia manter o silêncio. Não fazer fumo. Não dar nenhum motivo, a ninguém, de me descobrirem ali dentro. Não tarda seria noite e depois logo se veria. Talvez, então, pudesse sair. Ir embora. Voltar para casa. Encontrar outras pessoas. Tentar perceber o que é que se teria passado. O que é que teria saído no noticiário das oito horas da noite.
Deixei-me estar sentado no chão, encostado à parede húmida. Até o rabo me começar a doer e eu me levantar. Fui com cuidado até à janela. Estava a começar a escurecer. Espreitei a rua. Não via ninguém. Mas continuava a ouvir vozes, gritos, vindos das ruas em volta.
Estava a começar a ficar com fome. Não que tivesse fome. Acho que eram os nervos que me estavam a atacar. Depois da agitação das últimas horas e depois de, finalmente, ter recuperado a respiração na tranquilidade daquele pequeno prédio velho e abandonado, comecei a chorar. Um choro nervoso. Um choro de medo e incompreensão.
E dei comigo, incrédulo, a perguntar-me como tudo aquilo tinha sido possível no século XXI? Como é que tudo aquilo tinha acontecido com toda a tecnologia que, aparentemente, nos dava toda a informação e conhecimento e nos protegia para que nada daquilo voltasse a acontecer?
Finalmente era noite.
As coisas não pareciam mais calmas. Continuava a haver barulho de gente em fuga. De gente atrás de outra gente. De gente em pânico. De gritos histéricos. De gritos de confronto.
Afinal, ainda iria ficar por ali bastante mais tempo do que o tempo que estava a pensar ficar.

[continua amanhã]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/19]

Estou Cansado

Chego ao cima da montanha. Estou ofegante. Há muito tempo que não fazia uma caminhada destas. Dobro-me e suporto-me com as mãos nos joelhos. Fico de cócoras. Tento recuperar a respiração.
Primeiro descubro o silêncio. Faz-me confusão nos ouvidos esta ausência de barulho. Depois percebo a pieira da minha respiração cansada. Uma respiração forçada. O tempo não foi complacente com a minha bronquite. Os médicos diziam aos meus pais que ela desapareceria com a idade. Não desapareceu. A idade foi passando e a bronquite continua por cá.
Levanto o corpo. Já me sinto melhor. Com a respiração mais normalizada. Viro-me para trás e tento ver a minha casa na lonjura do vale. Mas não consigo. A minha vista está cansada. Tão cansada quanto eu. Tudo o que vejo é uma enorme massa desfocada. Percebo uma estrada. Uma fábrica. Uns postes de alta-tensão. Uns tufos de verde. Imagino o mar lá ao longe. Não mais que isso.
Agora já me chegam sons. Sons distantes. Sons que voam lá de baixo cá para cima. Ouço um cão a ladrar. Ainda tento perceber se é o ladrar do cão lá de casa. Mas não consigo perceber. Ouço uma motorizada. Há sempre uma motorizada a esgalhar o motor até à exaustão e que se propaga através do espaço. Não vejo a motorizada na estrada, mas ouço-a. Começo a pensar que o som é mais importante que a imagem. Que quando ficar cegueta, ainda me restará a capacidade de ouvir. Talvez descubra no sentido para captar o som, uma espécie de radar. Como o que tem o Demolidor.
Acendo um cigarro e fico ali em cima, de pé, a olhar o vale aos meus pés, com a respiração normalizada, a fumar e a pensar no que é que vou fazer. Não me apetece fazer nada. Agora gostava de estar sentado no alpendre a ler o Serotonina do Houellebecq antes que o mundo acabe.
Depois percebo que tenho de fazer o caminho todo de regresso. A pé. E pergunto-me porque é que não pensei nisso antes. Antes de vir. Antes de vir a pé. Não tarda é noite. Ainda vou estar a descer a montanha quando começar a escurecer.
Sento-me numa rocha. Continuo a fumar o cigarro. E penso que tudo se irá resolver. Tudo se resolve. É preciso é não entrar em pânico.
Deito fora o cigarro e acendo outro. Acho que estou nervoso. Penso que devia ter trazido uma garrafa de vinho tinto. Alentejano, de preferência. Mas olho para o interior da mochila e vejo que só tenho uma garrafa de meio-litro de água e que já está quase vazia. Vejo as horas no telemóvel e percebo que está a ficar sem bateria.
Sorrio, sentado na rocha, e digo alto para mim Estou fodido.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/12]

Eu Sou um Artista

Eu sou um artista.

Eu sou um artista com uma enorme necessidade de criar. Não crio para ser o melhor nem o maior artista do mundo. Eu crio porque sinto necessidade. Não é para afagar o ego. Não é para as palminhas nas costas. Não é para sentir as mãos alheias a passarem-me pelo pêlo. Eu crio porque preciso de criar da mesma forma que preciso de respirar.
Eu conto estórias. Sou um contador de estórias.
Desenho. Pinto. Escrevo. Realizo. Fotografo. Estórias.
Desenho estórias. Pinto estórias. Escrevo estórias. Realizo estórias. Fotografo estórias. Este é o meu contributo, o contributo da minha arte para o mundo, as minhas estórias nas suas mais diversas formas.
Eu sou um artista.
Não faço arte para agradar a terceiros. Faço arte para mim. Faço arte para me satisfazer a mim. Claro que gosto que me apreciem, me vejam, me leiam, me saboreiem, gosto que entrem no meu mundo e o devorem. Mas não é esse o meu interesse último. Não é o meu interesse último ser adorado pela multidão. A multidão dá-me medo.
Produzo alguma arte que é efémera. Arte que morre ao nascer. Que desaparece ao ver a luz. Arte que só existe na criação e pelo momento de criação. Que deixa de ser quando cumpre a sua função.
Também produzo arte para ficar e ser apreciada quando for apreciada. Quando passarem de moda as modas. Quando não houver medo nem fraqueza para apreciar o arroto, o choro, o berro, a ejaculação.
A minha arte não precisa de ser filha do seu tempo e medida pela medida desse tempo. A minha arte não é devedora dos corredores do poder. Não precisa de obedecer às mesmas regras nem às mesmas leis que a minha vida. Mas não é uma arte ignorante. A minha arte não é de natureza espontânea. Mas é repentista. Há estudo. Conhecimento. Procura.
Gosto de consumir arte. De procurar arte. Arte que me satisfaça. Não me contento com o que me querem dar. Não me contento com o que me querem oferecer. Não me contento com o que me querem impingir. Não me contento com arte normalizada, certinha, bonitinha, escanhoada. Embrulhada em papel colorido cheio de purpurinas e odores hipnotizantes. Eu procuro a arte que me provoca, que me magoa, que me incomoda, que me irrita, que me faz gritar e desejar morrer. Eu procuro arte que me dê vertigem e me faça vomitar.
Eu sou um artista. Um artista que gosta de arte. De arte suja, imperfeita, inacabada, triste, maldita, gorda, seca, desdentada e esfomeada, bêbada, afilhada, malcastrada, mas cheia de tesão para entrar por nós dentro e nos fazer tremer as pernas como o primeiro beijo, a primeira noite, a primeira vez.
Corro sozinho, mas corro pelos caminhos que quero. Não sou obediente. Não lambo-cus. Escrevo o que me apraz, sem rede, mal escrito, mal digerido, mas furioso, rápido, urgente. Capaz.
Sou um artista que não troca a sua arte por uma montra. Sou um artista descalço. Descamisado. Esquecido. Ignorado, mas não ignorante. Sou um artista faminto que prefere a rua ao ar condicionado. Sem trela nem açaime. Sou um artista que morde. Que rasga. Sou um artista que incomoda. Que chateia.
Eu sou um artista e sou indomável. Não cabo em salões nem em festivais. Cuspo na ordem e no respeitinho.
Eu sou um artista. Um artista que corre livre como um cavalo sem freio num campo de girassóis.
Eu sou um artista, e um tolo, também. Mas sou um artista. Sem cheta, mas um artista.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/03]

Ao Passar a Ponte Sobre o Tejo

Íamos de carro a atravessar a ponte sobre o Tejo. Eu e ela. Ainda não estávamos bem no tabuleiro da ponte. Estávamos a caminho do tabuleiro, naquela parte em que todos os acessos já deram acesso e é tempo de continuar em frente, passar a ponte, e escolher a A2 e ir para o Algarve ou virar à direita e ir para a Costa da Caparica. Também se pode virar à direita e ir para Almada, Cacilhas e Cova da Piedade, mas não era esse o caso. Íamos seguir em frente, pela A2, e virar à direita mais à frente para irmos para o Meco.
Eu ia de calções. Uma t-shirt velha e muito coçada, de um material que fazia lembrar os pólos, mas não era um pólo, era uma t-shirt. Não tinha botões.
Ela ia de vestido leve e esvoaçante. Um vestido transparente que deixava ver o biquíni por baixo.
Ainda não tínhamos chegado ao tabuleiro da ponte, eu estava a mexer nos botões do rádio à procura de uma música que me agradasse, quando senti a mão dela a pousar na minha perna, na minha perna cá em cima, já na coxa, mesmo na pele, a fugir à perneira curta dos calções, e senti-me excitado, os pêlos eriçaram-se, fiz girar o botão do volume que largou o rádio num berreiro e eu tirei, por momentos, o olhar da estrada para ver o que é que estava a acontecer com o rádio e a retirar a mão dela de cima de mim, pelo menos enquanto eu estivesse assim, tão susceptível, quando senti o carro a dar uma pequena guinada, senti uma pancada seca, seca mas não muito forte e, logo de seguida, a buzina de um automóvel que, vim a perceber, me era dirigida.
Levantei a cabeça, procurei de onde vinha a buzina que não se calava e vi um sujeito a esbracejar dentro de um carro. Ao lado dele, uma mulher também esbracejava. Continuava a apitar e a agitar os braços, as mãos, os dedos e apontava, apontava para mim, parecia-me, e apontava para o rio e continuava a apitar.
Ela estava sentada no banco, afundada no banco, assustada. E disse Acho que batemos no carro. E eu pensei Se calhar batemos. Mas foi um pequeno toque sem consequências. E ela continuou Se calhar é melhor pararmos. E eu pensei Parar, onde? Estamos na ponte. E como se tivesse ouvido a minha pergunta, ela disse Vira à direita, como se fôssemos para a Costa. Há aí uma estação de serviço.
Fiz o resto da ponte com o outro carro a seguir-me e a buzinar, depois virei à direita e acabei por parar na estação de serviço a caminho da Costa da Caparica.
O outro carro seguiu-nos e parou atrás de nós. Finalmente a buzina calou-se e senti alívio.
Saí do carro mas ainda nem tinha os dois pés fora do carro, o tipo já me estava a agarrar pela t-shirt e a puxar-me para fora. Rasgou-me a t-shirt. Não era preciso muita força para rasgar a t-shirt. Estava coçada. Tinha muitos anos. Já tinha viajado muito comigo. Estava cansada. Como eu fiquei quando o tipo me puxou para fora do carro, rasgou-me a t-shirt e empurrou-me contra o capot. Senti-me cansado. Ao lado dele a mulher. Os dois estavam aos berros comigo. Não sei o que diziam. Não conseguia ouvir. Berravam. As bocas abriam-se e pareciam querer engolir-me. A ele faltavam-lhe dois ou três dentes à frente, na boca, a mulher tinha os lábios pintados de cor-de-rosa, mas com um batom muito pastoso.
Eu olhei dentro do carro e vi-a cheia de medo, afundada no banco. Levantei os braços a dizer ao tipo que estava tudo bem. Íamos falar. Íamos ver o que tinha acontecido e íamos falar. E ouvi-o dizer Cem euros! Cem euros!
Olhei para o carro deles à procura de estragos e o carro era um chaço todo batido e cheio de ferrugem. Se lhe bati, nem se notava.
Perguntei-lhe Queres cem euros? Porquê?
E o tipo e a mulher dele recomeçaram a cuspir-me palavras para cima, muito irritados, muito próximos de mim, sentia-lhes o bafo, o bafo azedo e a cheirar a tabaco frio, e levei as mãos aos bolsos e vi que não tinha nem a carteira nem dinheiro, nada.
Ainda disse Podemos chamar a polícia, e ai foi ela que me agarrou a t-shirt e ainda ma rasgou mais. Pensei que era nessa altura que me iriam mesmo bater. Os tipos estavam furiosos. Se calhar até tinham razão para estarem furiosos. Se calhar bati-lhes mesmo com o carro. E eles não tinham culpa de terem um carro tão velho e estragado e sem tinta e não se perceber o que é que eu tinha estragado, quando olhei para dentro do carro e vi que ela já não estava lá, olhei em volta, por entre as cabeças e os braços e as mãos dos outros dois e vi-a vir do interior da estação de serviço, e vinha com duas notas de cinquenta euros na mão e aproximou-se deles e deu-lhes o dinheiro.
Foi a mulher que agarrou no dinheiro. Pôs o dinheiro dentro do soutien e cuspiu para o chão. O tipo largou-me e ainda disse Para a próxima toma mais atenção. E foram os dois embora para o carro deles.
Ela acendeu um cigarro e passou-mo. Eu levei o cigarro à boca. Foi então que percebi que estava nervoso. O cigarro começou a acalmar-me e eu percebi, então, que estava mesmo muito nervoso.
O carro dos tipos passou por nós para voltar à estrada e vi que no banco de trás estava uma alcofa com uma criança de colo. A alcofa ia solta sobre o banco de trás. A criança ia solta na alcofa e a agitar os braços e as pernas. A mulher fez-me um pirete e o carro voltou à estrada.
Respirei fundo.
Ela veio encostar-se ao meu lado a fumar um cigarro também.
E disse-me Acho que batemos mesmo no carro deles. Mas não temos nada estragado no carro. Eu acenei, em silêncio.
Acabámos de fumar os cigarros. Apagámos as beatas no chão.
Eu perguntei Vamos?
Ela disse Estás todo rasgado. Ergueu-se um pouco e deu-me um beijo. Senti-me de novo excitado.
Antes de entrarmos para o carro disse-lhe Não me voltes a tocar até chegarmos à praia. E ela riu-se.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/01]