Uma Brasileira na Rua Direita

Fazia a Rua Direita. Caminhava devagar à procura do número. A numeração não era certa, ou então tinha-a perdido lá para trás. Havia saltos de números e os mesmos números com A e B e até C. A rua estava um bocado decadente. Lojas fechadas. Casas degradadas. As portas da rua das casas abertas ou inexistentes. Candeeiros públicos sem iluminação. As poucas lojas em funcionamento tenham pouca ou nenhuma luz nas montras e as montras não eram feitas há muitos anos. Se calhar, desde o primeiro dia, desde o dia de abertura de portas que as montras se mantinham inalteradas. Havia uma montra com um papel, escrito à mão, a informar Montra em Execução, e eu só me perguntava, em silêncio e de mãos nos bolsos, Que montra?
Em todas as cidades há uma Rua Direita. Quase sempre é uma rua torta, esconsa e que já viu melhores dias. Esta também era assim. Enorme, eu fartei-me de andar, aos esses, numa rua aos esses e em fim de ciclo. Mas este era também um mal dos centros históricos das cidades, estrangulados lentamente pelos centros comerciais luminosos e com parques de estacionamento gratuito nas periferias das cidades e a especulação imobiliária que tentava aguentar os prédio quase vazios até morrerem todos os velhos que os habitam e depois apresentar, na Câmara Municipal, um projecto de recuperação da zona. Há sempre uma recuperação da zona histórica para encher os bolsos a alguns. No outro dia vi uma caixa multibanco colocada num buraco feito numa muralha histórica. Depois da queixa da população, retiraram a caixa multibanco e taparam o buraco com cimento. E assim vão as cidades, vivendo desgraçadamente entre remendos e ambições desmedidas da ganância alheia.
Mas às vezes havia gente que punha estas casas degradadas a render. Eu procurava uma casa dessas. Tinha visto o anúncio no Correio da Manhã Jovem brasileira nova na cidade. No centro da cidade. Com número de telefone. E eu telefonei. Precisava de telefonar. Precisava de umas mãos suaves de uma mulher no meu corpo velho, ressequido e triste. E telefonei. Ouvi a voz da brasileira. Era na Rua Direita. E fui assim para a Rua Direita. À procura do número que a brasileira me dera.
Depois de muito caminhar ao longo da Rua Direita, lá encontrei o número. Olhei o pequeno prédio. Sem luzes nas janelas. Uma antiga loja fechada no rés-do-chão, com a montra tapada com folhas de jornais. Folhas do Correio da Manhã. A porta da rua estava aberta. A casa tinha porta da rua, uma porta de madeira, e estava fechada, fechada mas aberta, encostada, porque o trinco não funcionava, e eu empurrei a porta para trás e a porta abriu e eu entrei e procurei o interruptor da luz das escadas e não encontrei e acabei por acender a luz do telemóvel e subi as escadas até ao primeiro andar, como a brasileira me tinha dito para fazer, e depois bati à porta da direita. Ao subir as escadas íngremes, sujas e tristes, pensei que tinha feito bem em ter levantado só duas notas de vinte euros e não levar mais dinheiro comigo. Nunca se sabe onde se vai quando se vai a sítios como este. Nem se sabe quem se vai encontrar quando nos vamos encontrar com alguém que não conhecemos. Mas depois, despimos-nos com a facilidade do desejo que nos come a alma e o corpo. É a tesão. E já não queremos saber de mais nada, nem de medos e de onde é que nos metemos e com quem, porque depois só manda a lei da tesão. E era para isso que eu estava ali, para me libertar da tesão às mãos jovens de uma bela brasileira.
Subi ao primeiro andar. Bati à porta. Ninguém respondeu. Voltei a bater com as nozes dos dedos da mão direita, enquanto a esquerda aguentava a lanterna feita do telemóvel. Estava para dar meia volta e ir embora, desiludido, quando a porta se abriu. Vi, em contraluz, um corpo na transparência de uma combinação. Uma cabeleira volumosa. O corpo parecia elegante. E uma voz disse Oi!, enquanto abria a porta para trás e me franqueava a entrada. E eu entrei. Levei dois beijinhos na cara. Senti um cheiro demasiado doce, talvez baunilha, vindo da jovem brasileira. Agoniei-me. Ela conduziu-me para o interior da casa. Não passámos por lado nenhum. Fui levado directamente para um quarto. Ela tirou-me o casaco. Agora que já não estava em contraluz, a jovem brasileira já não parecia tão jovem. Nem tão elegante. Nem sequer era bonita. Tinha buracos na cara. Talvez de bexigas. Os cabelos volumosos mudavam de cor entre o preto da raiz e o louro das pontas. Senti uma certa repulsa. Mas já ali estava e ali acabei por ficar. E ela disse Despe-te que eu já venho, e deu-me um beijo na cara e passou a mão pela minha pila, prometendo-me o céu, e saiu do quarto e eu despi-me rápido e sentei-me nu em cima da cama e comecei a olhar para a coberta da cama e pensei que era melhor nem pensar em olhar para a coberta da cama. Suspirei. A porta abriu-se. A não-tão-jovem-assim brasileira regressou ao meu convívio. Aproximou-se. Empurrou-me sobre a cama, sentou-se em cima de mim e eu senti uma picada no braço.
Depois não senti mais nada.
Quando acordei estava sozinho na cama. Estava com dores. Com dores no corpo. Mais tarde percebi que tinha uma costura nas costas. Não havia luz. Procurei o telemóvel. Não havia telemóvel. Procurei a minha roupa. Encontrei-a. Vesti-me. Vesti-me com muita dificuldade. Saí do quarto. Saí do quarto a apalpar as paredes da casa até chegar à porta da rua. Saí da casa. Saí do prédio. Regressei à rua. À Rua Direita. Doía-me o corpo. Tinha sangue nas mãos. Arrastava os pés. Procurei outra rua. Procurei um táxi. Pedi o hospital.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/03]

O Miúdo a Tocar Guitarra Eléctrica na Varanda do Prédio em Frente

As pessoas gostam disto. Das borlas. Da gratuitidade cultural. A arte tem de ser grátis que o tipo que a faz fá-lo por gosto e quem corre por gosto não cansa. E se for a pagar, ninguém vai.
Estou à janela a fumar um cigarro. E vejo, lá mais à frente, naquela casa antiga, mais pequena, rés-do-chão e primeiro andar, e um pequeno quintal à frente com o projecto de jardim mas onde existe, efectivamente, uns verdes e não são couves portuguesas, na varanda, um miúdo com a guitarra eléctrica. Começa a tocar uns acordes sónicos, distorção, coloca uma voz por cima mas não é uma letra, são uns sons vocais que acompanham a sonoridade ácida da guitarra. Estranho. Estranho, mas interessante. E bonito. Em frente, no passeio, a olhar para o miúdo, outros miúdos e miúdas como ele. Não muitos. O sítio é um bocado escondido. O miúdo não tem nome. A sua música não é para todos. E foi empurrado para ali. Para o sítio escondido onde só ocorrem os amigos. As massas ficam-se pelo centro. Onde tocam os nomes com nome. Os que contam. Mas eu agradeço ter o miúdo ali em frente. A tocar um som que me agrada. Aos amigos dele e a mim.
A cidade está em polvorosa. A música, a dança, a performance, a ginástica saíram das paredes das salas de ensaio, das salas de espectáculo e vieram para a rua. Para as ruas. Para o público. À borla para um público que não gosta de pagar para ver arte. Mas o resto paga-se. Os PAs. As cervejas. O comércio que vive ali à volta e não vai ter mãos a medir a servir cervejas, torradas, hambúrgueres, tostas mistas, cafés, águas em garrafas de plástico, Coca-Colas, Pastéis de Natas, Brisas do Liz, oh, as famigeradas Brisas do Liz. Tudo se paga. Tudo, menos a arte. O artista é um sujeito que vive do ar e das palmas do público. Não precisa de dinheiro. Nem para a droga. Um músico tem sempre droga e ela cai-lhe do céu ou é patrocínio do dealer.
Entro em casa e apago o cigarro.
Estou indeciso entre ir à rua e ficar em casa. Ainda agarro no casaco, que os fins-de-dia já tendem a ficar frescos. Mas acabo por decidir que fico em casa. Não quero ir meter-me na confusão.
Arranjo um copo de vinho. Acendo outro cigarro. Volto para a janela. O miúdo continua lá a tocar. Gosto do que faz. Talvez um dia regresse à cidade e dessa vez lhe paguem. Depois ainda podem dizer que foram eles os primeiros que lhes deram a oportunidade. E o prestígio de tocar neste evento à borla, para gáudio de burgueses forretas que deixam sempre a carteira em casa e só têm cartões de plástico.
A noite aproxima-se. O miúdo continua lá a tocar. Se calhar não há mais ninguém para tocar no mesmo sítio. Se calhar esqueceram-se do miúdo. Olha, pá! Continua a tocar que estou a gostar de te ouvir.
O que é que eu vou jantar, hoje? Não me está a apetecer cozinhar. Acho que vou fazer umas torradas. Umas torradas com manteiga.
E depois vou reflectir. Amanhã é dia de eleições. E vota-se de graça, também. Pelo menos, até ver.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/05]

O Camionista de Materiais Perigosos

O tipo era o meu vizinho mais próximo. Morava numa pequena casa com quintal a cerca de quinhentos metros, para sul, da minha casa. Era o Camionista. Nem sei o nome dele. Acho que nunca soube. Aqui, na zona, ele era conhecido assim, por Camionista. Porque era o que ele era. Camionista. Transportava materiais perigosos. Gasolina e assim.
Também era conhecido como o marido da loira. Mas esse nome só era soprado nas suas costas. O Camionista era bastante ciumento. Se sonhasse que o tratavam por uma característica da mulher, haveria sangue, com certeza. Haveria. Agora já é tarde. O Camionista foi-se embora. Não aguentou a vergonha do par de cornos que lhe plantaram na testa.
O Camionista era um filho da terra. Nascido e criado aqui. Nasceu mesmo no meio da localidade. Na loja dos pais. Os pais tinham uma pequena casa de rés-do-chão e primeiro andar, viviam na parte de cima e tinham uma pequena loja na parte de baixo. Uma daquelas lojas que vendia tudo o que era necessário à vida do dia-a-dia de uma casa. Arroz e massa. Carne seca. Velas de cera. Fósforos. Pilhas. Bolachas. Fogareiros. Forquilhas. Coisas assim. A mãe estava sozinha quando ele nasceu. O pai andava embarcado no mar. Estava sempre muitos meses fora de casa. Quando o Camionista nasceu, a mãe estava sozinha a cuidar da loja e foi logo ali, na loja, que abriu as pernas e o deu à luz. No dia seguinte já lá estava outra vez a trabalhar. O Camionista enfiado debaixo de uma prateleira, dentro de uma caixa de fruta. Quando o pai regressou a casa, o Camionista já tinha três anos. O pai deu uma surra à mãe porque achou que o filho não era dele. Teve de lá ir a GNR e tudo mas, naquela tempo, ninguém metia o bedelho em casa alheia. Mas o pai acabou por aceitá-lo. Deu-lhe cama, comida e roupa lavada. Mandou-o para a escola. Para o serviço militar. Deu-lhe a Carta de Pesados e arranjou-lhe um emprego a conduzir camiões de mercadorias pela Europa. Aproveitava para fazer contrabando nos camiões do filho. Não era segredo por aqui.
Quando o pai morreu, o Camionista deixou-se das mercadorias e lançou-se às matérias perigosas, trabalho mais difícil, mas muito mais bem pago. Foi numa dessas viagens que apareceu aí com a loira. Era bielorrussa. Nessa mesma altura construiu a casa ali, abaixo da minha. E deixou a mãe sozinha com a loja. Pelo menos, foi assim que me contaram a história.
Entretanto a mãe morreu. A loja fechou. A casa está para ali a degradar-se.
O Camionista nunca foi muito dado ao social. Bebia, de vez em quando, um copo ao balcão com a malta que lá estivesse quando ele lá ia, ao café, também ia ver os jogos do Benfica, aparecia nas festas da aldeia em Agosto, mas era só. Quando trouxe a loira, começou a fazer uns churrascos lá em casa. No quintal. Convidava alguns tipos da aldeia, os seus antigos colegas de escola, e as suas mulheres, as crianças, e eu nessa altura já estava aqui a viver, éramos vizinhos, e também era convidado. Mas às vezes as coisas corriam mal. A mulher era muito simpática. Outra cultura, não é? Os homens também eram simpáticos para com ela. O Camionista, contudo, não achava grande piada. Várias vezes o churrasco acabava à paulada, com o Camionista bêbado a esmurrar algum dos rapazes da aldeia e a dar um par de tabefes na mulher.
Mas não foi por aí que a corda rompeu.
O Camionista virou-se para a política. Tornou-se um activista do sindicato. Uma altura começou aí a aparecer um dirigente sindical a conduzir um Maserati. Tinham reuniões de trabalho. Reuniões que se prolongavam noite dentro. Discutiam formas de luta. Desenhavam novas acções. O tipo do Maserati continuou a aparecer mesmo quando o Camionista não estava.
Um dia o Camionista chegou a casa e a casa estava vazia. A loira bielorrussa foi embora e levou tudo. O Maserati nunca mais cá regressou.
O Camionista andou aí uns tempos aos caídos. Pôs-se a beber. Armou zaragatas. Chegou a ser detido várias vezes pela GNR. Um dia, depois de sair da cadeia, pegou no camião, arrancou estrada fora e nunca mais cá voltou. Já lá vão uns bons anos. Não sei se chegou a vender a casa. Se chegou a vender a casa e a loja dos pais. Se vendeu, nunca ninguém cá veio tomar conta das coisas. As casas estão para aí a degradar-se. Os miúdos partiram os vidros da casa ali de baixo e vão para lá fumar charros e brincar com as miúdas.
Às vezes penso naqueles churrascos. E na loira. Na verdade eram os únicos motivos de interesse aqui da localidade. Aqui não se passa nada. As pessoas não têm interesse nenhum. Nem eu. Já a loira!…

[escrito directamente no facebook em 2019/08/13]

Um Domingo a Ouvir The Las Vegas Story dos Gun Club

Era Domingo. Fui acordado pelo sol a lamber-me os olhos Acorda, mandrião!, disse.
Levantei-me da cama. Espreitei pela janela. Era Domingo. Um dia igual aos outros mas com menos gente na rua. Menos gente atarefada. Menos gente a caminho do trabalho. Menos gente a trabalhar. Menos gente no café no rés-do-chão do prédio. Mais gente a comprar pão que a beber café e a tomar o pequeno-almoço.
Estava sol e calor. Ia para a praia, pronto. Decidido. Ia dormir para a praia. Mergulhar no mar. Ver as miúdas. Beber umas cervejas.
Fui lavar o carro. Tomei banho. Desci ao café e comprei pão. Fiz duas sandes de fiambre com manteiga. Agarrei num pêssego.
Ainda não eram dez da manhã e o tempo mudara de cara. O sol tinha ido embora. O tempo, agora, estava cinzento. Começou a levantar-se vento.
Resolvi esperar. Larguei o pêssego na mesa da cozinha.
Ao meio-dia começou a chover.
Ao meio-dia e meio caiu granizo. O tempo ficou frio.
Acendi um cigarro e fui até à janela. Olhei para o meu carro lavado. A ser fustigado pela chuva. A ser sovado pelo granizo.
Começou a doer-me a cabeça. Tomei um Ben-U-Ron Caff. Vesti uma camisola de algodão. Com capuz. Enfiei o capuz na cabeça. Sentei-me no sofá. Fechei os olhos. Comecei a zunir. O corpo a baloiçar. Para a frente e para trás. Para a frente e para trás.
Levantei-me. Fui pôr um disco na aparelhagem. The Las Vegas Story dos Gun Club
A dor de cabeça tinha-se dissipado.
Pus-me a aspirar a casa. Não ouvia a música. Aumentei o volume para ouvir por cima do barulho do aspirador.
Na rua continuava a chover.
Haviam várias festas nas aldeias aqui à volta. E estava a chover.
Havia um concerto do Zé Café & Guida. E estava a chover.
Não saí de casa.
Acabei de aspirar. Puxei a agulha do prato para o início do disco.
Acendi um cigarro. Voltei à janela para fumar. Olhei de novo para o carro. Estava realmente bem lavadinho. Mandei o resto do cigarro para a rua.
Fui à casa-de-banho. Mijei. Olhei-me ao espelho. Mandei um murro no espelho e parti-me em mil-e-um estilhaços que se espalharam por toda a casa-de-banho.
Fiz sangue. Sangue no espelho. No lavatório. Na bancada de pedra. A mão passeou-se pela cara. Levou-me sangue à boca. Senti um pedaço de vidro espetar-se no lábio. Cuspi-o.
Saí da casa-de-banho. Entrei no quarto. Enfiei-me debaixo do edredão. Enrolei-me nele. Estava a tremer. Estava com frio. Estava ansioso. Sentia-me cansado. Sentia-me sozinho.
Estes Domingos cinzentos de chuva e frio deixam-me assim. Ao fundo ouvia o Give Up the Sun. E foi assim.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/30]

O Controle

Hoje pensei em M.
Hoje lembrei-me do que aprendi com M. ao escutar uma conversa alheia. Viajei no tempo, regressei a uma época de juventude e à descoberta do meu eu sádico. Sexualmente falando, claro.
Descobri o meu sadismo através do masoquismo de M. Tive medo. Nunca mais lá regressei. Pelo menos àquela dimensão.
Hoje fui almoçar à cervejaria no rés-do-chão aqui do prédio. O prato do dia era Ovos Escalfados com Ervilhas. Motivo mais que suficiente para me fazer sair de casa. Desci as escadas. Não tive lugar ao balcão, o meu lugar por excelência. Estava cheio de comensais. Acabei por me sentar solitário numa mesa no meio da sala. Fui olhando a televisão lá ao fundo enquanto esperava pela minha meia-dose do prato do dia e do pequeno jarro de vinho tinto da casa (da região das Cortes, aqui nas berças da cidade).
Ouvia várias vozes. Várias conversas. Coisas soltas. Coisas sem grande interesse. Até que algo me captou a atenção. Entre um bocado de pão com manteiga e uma azeitona, algo captou-me a atenção. Um pedaço de conversa. Uma voz feminina que contava E ele só dizia para me controlar. Controla-te que controlas tudo o resto, dizia-me isto ao ouvido, e toda eu era arrepios. Estava com os braços e as pernas arrepiadas e a perder a força nos joelhos ao ouvir a voz sussurrada dele ao meu ouvido, Controla-te.
Virei a cabeça. Foquei o olhar. Tentei perceber de onde vinha aquela conversa que me chamara a atenção. Havia uma mesa próxima da minha com duas senhoras. Senhoras jovens. À volta dos seus quarenta anos. Supus que a conversa viesse de lá. Imaginei-as. Primeiro uma. Depois a outra. De encontro a uma parede. E uma voz de homem sussurrada a arrepiá-las. Mas não tive certeza de nada. Apurei os ouvidos. Não voltei a captar nada com o mesmo grau de interesse. Não que me interessasse a vida sexual da senhora, das senhoras, ali do lado. Era a curiosidade de saber para onde evoluía aquela conversa que me tinha captado o interesse. Debalde.
Chegou a minha meia-dose. O jarro de vinho. Enchi o copo. Comecei a beber. E foi aí que me lembrei de M. O controle de M. O controle para atingir um fim.
M. gostava que lhe desse umas palmadas. Com força. E dei por mim a descobrir que gostava de lhe dar umas palmadas. Gostava de ver as minhas mãos marcadas no rabo dela. Mas havia um ritmo. Uma ordem. Uma cadência. No início ela dirigia-me. Dizia-me o que fazer. E como o fazer. E dizia-me precisamente isso É tudo uma questão de controle. Fui adquirindo esse controle. E, por uns tempos, as coisas andaram equilibradas. Ela gostava que lhe batesse. Eu descobri que retirava algum prazer em fazê-la feliz daquela forma. Aprendi que gostava de lhe bater.
Um dia passou-me uma caixa para as mãos. Pediu-me que a espetasse. Eu não percebi. Abri a caixa. Tinha agulhas. Várias agulhas. Agulhas mais grossas que as de acupunctura. Fiquei sem saber o que fazer. Ao início assustei-me. Ela insistiu. Experimentei. Uma. Duas. Três. Quarto. No rabo. Depois queria nas pernas. Fui espetando.
Comecei a sentir-me excitado.
Percebi que estava a gostar de espetar as agulhas no corpo dela. Percebi, assustado, que estava a gostar. E não fui capaz de continuar. Assustei-me comigo. Retirei as agulhas. Coloquei-as na caixa. Ela virou-se para mim e perguntou Então?!
Eu abanei a cabeça.
Levantei-me da cama. Vesti-me e saí do quarto dela. De casa dela. Da vida dela. Perdi o controle.
Nunca mais a vi. Há muitos anos que não pensava nela.
Comecei a comer as ervilhas. Beberiquei o vinho. Olhei para a televisão. Via umas imagens a passar mas não percebia nada do que é que se tratava.
Olhei à volta. Muitas conversas. Muito barulho. Muita gente.
Continuei a comer as ervilhas com o ovo escalfado. Perdi o controle. Foi isso.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/13]

Um Domingo de Páscoa Igual aos Outros

É Páscoa. Domingo de Páscoa.
É dia de folar. De amêndoas. De cabrito. Há quem leve com borrego. Uma espécie de gato por lebre.
É dia de padrinhos e de afilhados.
Tento lembrar-me dos meus padrinhos. Sei que os tive. Por ventura ainda os tenho. Mas já não os recordo. Não lhes consigo ver as caras. Não sei quem são. Desapareceram na minha infância. É ainda da minha infância a única memória que lhes pertence. Acho. O volume de banda-desenhada O Adivinho, da coleção do Astérix, o irredutível gaulês de Albert Uderzo e René Goscinny. Não sabia o que era. Quem era. Quem eram. Fiquei a conhecer por intermédio desse livro. Pelos meus padrinhos. Acho. Hoje não me recordo deles. Fiquei com o Astérix. Perdi os meus padrinhos. Porque é a memória tão fraca e selectiva, por vezes?
Volto a almoçar sozinho. Como ontem. Como antes-de-ontem. Como amanhã. Desci as escadas do prédio e fui ao restaurante no rés-do-chão. Estava cheio. Cheio de famílias. Crianças. Uma barulheira infernal. Criancinhas a correr por todo o lado aos berros e aos gritinhos. Os pais não têm mãos nestas crianças. Permitem-lhes tudo. Quando começam a querer comer descansados, ligam o tablet com desenhos-animados.
Como ao balcão. Sou a única pessoa a comer ao balcão. Como ao balcão, como sempre. Mas hoje estou sozinho. Hoje não tenho a companhia dos outros solitários. Hoje sou só eu. E o empregado avisa-me Não se esqueça que hoje à noite estamos fechados. Ainda avanço com a pergunta Porquê?, mas não recebo resposta. Talvez não tenha ouvido a minha pergunta. Eu estou mais inclinado para que me tenha ignorado. Porquê!?, deve ter perguntado a ele próprio. Porquê!? Oh que caralho! Sim, sou um chato. Acham que não percebo que as pessoas gostam de celebrar estes dias religiosos. A Páscoa. O Natal. O Corpo de Deus. E não, não percebo. Na verdade, para a maioria destas pessoas, este dia é só mais um dia de feriado. Não os vejo a rezar. A celebrar a morte e ressurreição de Jesus Cristo. É só um feriado. Vão à praia. Ao mar. Lotam as esplanadas. Despejam barris de cerveja. Devoram travessas de camarão. Pedem crédito ao banco para sustentar estes dias. Devia chover. Devia chover a potes para eles ficarem em casa. Eles e as criancinhas.
Mas não.
Está sol. Está calor.
Está um belo dia de praia. Não um dia de celebração de Cristo Aleluia. Está um dia de celebração da praia, das esplanadas, do mergulho no mar, de encher a pança de cerveja e decidir onde ir nas férias com o resto do crédito concedido pelo banco.
Aqui não. Aqui ao balcão está escuro. Sombrio. Só não tão escuro porque as horríveis lâmpadas fluorescentes brancas iluminam o prego no pão para onde espremo uma bisnaga de mostarda enquanto desfaço uma imperial de um só gole.
Pelo espelho à minha frente vejo as famílias em volta do cabrito. Comem de boca aberta. Sorriem com a carne presa nos dentes. Os fios verdes dos grelos que escapam dos garfos e caem para cima das camisas que já não são imaculadas tendem a fugir-lhes das gengivas. Empinam copos de tinto, do jarro que transporta o vinho dos pacote de cartão, com mais glamour e mais barato que as garrafas DOC.
Como um pudim flan. Dias-não-são-dias.
Bebo um café.
Uma Aliança Velha.
Fumava um cigarro mas vou ter de esperar até sair daqui. Vou ter de fumar em casa. Enquanto ligo a televisão nas notícias e aguardo que más novas é que o dia de hoje me traz. É que estes dias trazem sempre más novas. Já não espero outras.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/21]