Parabéns Porquê?

Parabéns a você nesta data querida muitas felicidades muitos anos de vida hoje é dia de festa cantam as nossas almas ao menino… ao menino… uma salva de palmas.
Faço sessenta anos.
Estou sentado à mesa nesta pequena sala, que também é uma cozinha, chama-se kitchenette, não é?, e onde às vezes também me deixo adormecer no pequeno sofá de dois lugares em frente à televisão para não me sentir tão só.
Hoje é o dia do meu aniversário. Sessenta anos. Faço sessenta anos e ainda ando por cá. Não sei o que é que ando por cá a fazer. Não sei o que é que deveria andar por cá a fazer. Mas ainda ando por cá.
Desci o elevador e comprei um pastel de nata na pastelaria aqui no rés-do-chão do prédio. A vela é a mesma. A mesma dos últimos anos. Tem durado. E, se eu continuar, a vela também há-de continuar comigo.
Sopro. Sopro a vela e apago a chama.
Retiro a vela do pastel de nata. Guardo a vela na caixa de fósforos. Trinco o bolo. Penso que devia ter pedido um bocado de canela. O pastel de nata não está muito queimado. Eu gosto deles queimados. Está muito doce. Um pouco enjoativo. Dou outra trinca. Quebro a massa que se espalha pela mesa. Apanho os pedaços de massa e meto-os na boca. Desfazem-se na língua e deixo de os sentir. Meto o resto do pastel de nata na boca. Mastigo. Engulo. Sinto-me um bocado embuchado. Um aniversário demasiado seco.
Levanto-me e vou ao frigorífico. Tenho um resto de vinho branco de pacote do Continente. Despejo-o num copo de vidro. Dobro o pacote de cartão e deito-o no lixo. Sento-me de novo à mesa, em frente ao pequeno prato vazio e algumas migalhas do pastel de nata, demasiado pequenas para as apanhar e meter na boca, e bebo um gole de vinho.
Parabéns! digo-me. Mas a voz sai um pouco enrolada, como se não quisesse sair cá de dentro. Às vezes custa sermos nós. Ser eu. Às vezes é difícil sermos o que somos. É difícil olhar em volta e ver que estamos sós. Nem pais, nem filhos, nem mulheres, nem amigos, nada.
No Natal é pior. Nem sei bem porquê. Não sou religioso. Mas devem ser as memórias. As memórias de outros tempos. As mesas cheias e fartas. As estórias. Os presentes. A família.
Sim, no Natal é pior.
Vinte vinte está a ser um ano muito mau. Péssimo. Um ano de merda.
Estar sem trabalho e já não ter perspectivas de voltar a ter. Não ter rendimento nem perspectivas de voltar a ter. Estar sozinho e sem perspectivas de voltar a ter mesas cheias, cheias e fartas.
Já me restam poucas coisas para vender. A televisão. O computador. O relógio de pulso do meu pai. O telemóvel. Meia dúzia de livros. Ainda meia dúzia de livros. Os óculos. Os óculos de sol e os de ler.
Olho a rua. Olho a rua através de uma nesga aberta na cortina que me esconde dos olhares lá de fora.
Já são sete da tarde e o telefone não tocou uma única vez. Não acusou nenhuma mensagem. Ninguém bateu à porta. Ninguém tocou a campainha.
Amanhã tenho uma consulta no hospital.
Não vou.
O meu olhar desvia-se da janela, demasiado alta para ver as pessoas na rua, alta o suficiente só para ver janelas tão tapadas como a minha, janelas iguais à minha, de casas iguais à minha e vidas possivelmente muito parecidas com a minha, e o meu olhar desvia-se da janela e passa pelo lava-loiças e vejo a faca de cozinha. A melhor faca que já tive. Gosto de cortar o alho com aquela faca. Deve valer algum dinheiro. Sim. Talvez. Mas aquela faca não vai para lado nenhum. Aquela faca fica aqui, comigo.
Bebo mais um gole de vinho branco. Sinto o peito a arder. Dá-me azia, o vinho. Não tenho Kompensan. Ardo.
Vejo os dedos das mãos a tremer. A pele com manchas. As unhas com riscos brancos. Dizem que isto é fígado. Sinto um arrepio no corpo. Mas não tenho frio. É ansiedade. Também já não tenho nenhum Xanax. Nenhum Valium. Já não tenho nada. Nem tesão. Miserável. Sou um miserável. Com uma vida miserável.
Sozinho no dia dos meus sessenta anos. Sozinho, em silêncio e de pila murcha.
O meu olhar regressa à janela. Volto a olhar a rua pela nesga da cortina. Não há sol, lá fora. Está um dia triste. Está um dia triste lá fora e cá dentro.
É dia do meu aniversário. Parabéns. E parabéns porquê?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/30]

Uma Disputa de Território

Naquela altura devia eu andar pelos meus treze, quatorze anos. Vivíamos numa antiga casa de caseiro de uma quinta feita em retalhos, lá para os lados da Boa Vista, para os antigos donos pagarem as dívidas acumuladas ao longo dos anos enquanto aguardavam a herança familiar. Herança recebida, herança desfeita. Foi tudo para os credores. Os meus pais acabaram por arrendar a antiga casa do caseiro ao homem que a comprou. A casa era grande. Rés-do-chão e primeiro andar. Os quartos em cima e o resto em baixo. Só havia casa-de-banho no rés-do-chão e, durante a noite, usava um penico para fazer xixi que enfiava debaixo da cama. No dia seguinte a minha mãe usava o meu xixi, que misturava com água, para regar as plantas e as hortaliças que se entretinha a plantar e a semear num pequeno terreno, anexo à casa, e que nós utilizávamos em proveito próprio. A minha mãe é que cuidava daquela pequena horta. O meu pai só a regava à noite e aos fins-de-semana durante o Verão. Mas era a minha mãe que fazia quase tudo e tratava de levar à mesa tudo o que retirava de lá.
No tempo em que vivemos naquela casa fora da cidade, tivemos sempre um cão. Na verdade vários cães. Sempre que um morria, vinha outro. Cães rafeiros. Cães que nos davam. Cães que apareciam por lá. Os cães estavam sempre presos à casota por uma corrente. Naquele tempo era assim. Os cães estavam presos. Os cães eram os alarmes das casas isoladas. Sempre que os cães ladravam, já sabíamos que alguma coisa se passava. Os cães chamavam-se todos Bobby.
Um dia também apareceu por lá um gato. E ficou. A minha mãe alimentou-o e o gato acabou por ficar. O gato chamava-se Tareco e tinha mais liberdade que o Bobby. Às vezes até entrava em casa mas a minha mãe não gostava e enxotava-o para a rua.
Aconteceu que em determinada altura, apareceu por lá um gatarrão, gordo, enorme, arraçado de persa, que começou a chatear o Tareco. Não sei se era uma disputa de território mas, a primeira vez que fomos alertados para a guerra despoletada entre eles os dois foi com a chinfrineira que fizeram, engalfinhados um no outro, chinfrineira de tal ordem que o meu pai saiu de casa com a vassoura nas mãos para as eventualidades. E descobrimos os gatos enrolados um no outros e uma nuvem de pêlos a voar. O Tareco ficou com mazelas. Várias peladas no corpo. Algum sangue. E isto começou a acontecer com alguma regularidade. Não sabíamos de onde vinha o gato. Não conhecíamos ninguém com gatos ali perto. E sempre que nos aproximávamos, o gatão fugia. Não sabíamos como enxotar o raio do gatão. O Tareco estava cada vez mais desanimado, com menos pêlo e começou a emagrecer a olhos vistos.
Um dia percebi que o gatão costumava vir das traseiras e contornava a casa antes de atacar o Tareco.
Levei um toro de madeira para lenha que o meu pai ainda não tinha cortado, para o meu quarto. E pus-me a fazer uma espera ao gatão.
Depois de jantar fui para o meu quarto, fiquei à janela e aguardei. Sempre a olhar para o fundo da casa. Mas adormeci. Não sei quanto tempo fiquei ali de guarda à espera do gatão, mas adormeci antes dele chegar. Nem sei se chegou. Mas não ouvi nenhum barulho nessa noite. De manhã desci para tomar o pequeno-almoço e regressei ao quarto. Estava de férias da escola. As férias grandes. Passava as tardes a tomar banho de mangueira em frente à cozinha. Mas naquele dia, naquele dia voltei para o quarto e fui colocar-me à janela. À espera.
Ainda não era meio-dia. Já me chegava lá acima o cheiro do refogado que a minha mãe estava a fazer. Vi o gatão a vir sorrateiro dos fundos da casa. Passar rente à parede. Parar. Olhar em volta. Voltar a andar mais um pouco. Eu peguei no toro de madeira. O gato parou debaixo da minha janela. A olhar à volta. À procura do Tareco. E eu deixei cair o toro de madeira, pela minha janela, que acertou em cheio no gato. Acho que lhe acertou na cabeça. Ouvi um baque seco. O gato ficou lá caído. Eu fiquei debruçado sobre a janela a olhar o gato que não se mexia. O toro de madeira rolou um pouco depois de cair sobre o gato e parou um pouco mais à frente. O gato continuou quieto. Deitado no chão encostado à parece de casa. Devia estar morto. Nunca tinha visto nada morto. E depois, comecei a chorar.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/22]

Moro num T1+1

Moro num rés-do-chão baixo, ao nível da rua. É um T1+1, o que quer dizer que tem um quarto, uma sala e um pequeno buraco que fazia parte da sala mas que foi separado por um tabique para quarto de empregada, ou de arrumação e fazer o apartamento subir um nível no valor do arrendamento. Fiz desse buraco uma espécie de escritório com uma mesa mais pequena que fui comprar ao Vassoureiro e os livros aguentam-se empilhados uns nos outros à espera de melhores condições de vida (minha) que lhes garantam outra dignidade (uma estantes seguras) num apartamento de divisões um pouco maiores e com vista para qualquer lado que não os ouvidos putrefactos da vizinhança.
A minha casa é pequena, mas é suficiente para mim. Tenho um quarto, uma sala, uma cozinha, uma casa-de-banho com uma pequena janela de vidro que abre e deixa entrar ar fresco e o buraco que me serve de escritório. Um pequeno corredor vai da sala à cozinha fazendo a distribuição das outras divisões.
A sala fica paredes meias com a rua. Quando vou à janela fumar um cigarro, fico à altura das pessoas que passam por lá. O pequeno buraco que me serve de escritório também. Também fica paredes meias com a rua. E também tem uma janela. Às vezes deito-me no chão do escritório, arredo a cadeira e deito-me no chão do escritório, entre as pilhas de livros, para endireitar as costas, e sinto as pessoas a passarem por mim, quase como se me tocassem na cabeça. Às vezes alguns miúdos da rua encostam-se à minha parede a fumar uma ganza e ouço-lhes as conversas. Conversas de merda, na maior parte das vezes. Mas já me ri desgraçadamente.
O quarto e a cozinha têm uma janela para um pátio nas traseiras dos prédios. Quando vim para esta casa, às vezes ia até lá, fumava um cigarro a passear entre as couves e as batatas que os porteiros dos prédios que formam aquele pátio interior lá iam plantando. Saltava a janela da cozinha e passeava por lá. Mais tarde cimentaram todo o pátio e os porteiros deixaram de ter sítio onde plantar hortaliças. Depois começaram a descer os vizinhos dos vários andares, desciam pelas escadas de incêndio e juntavam-se no cimento a jogar o Monopólio, à bola, a beber cerveja e a fumar umas ganzas. Eu deixei de frequentar o pátio. E é raro fumar à janela da cozinha para não dar com os vizinhos a fazer o mesmo que eu e a dar fé das vidas dos outros. Fumo no interior da cozinha com a janela aberta. Ou fumo no escritório também com a janela aberta. Mas é raro fumar no escritório porque é raro abrir a janela. O barulho é quase sempre ensurdecedor. O passeio tem dois metros de largura e depois há uma estrada de duas faixas em sentido único e os carros aceleram por ali. Às vezes há vizinhos que param os carros em segunda fila, com os quatro piscas ligados, às vezes nem isso, e provocam engarrafamentos e buzinadelas. O som é insuportável.
Era. Já não é. Era.
O meu T1+1 que me servia na perfeição, tornou-se, de repente, enorme e minúsculo. Os dois contrários ao mesmo tempo. Mesmo tempo, mesmo tempo, não. Em tempos diferentes.
Quando me deito no chão do escritório, que agora faço com muito mais assiduidade, já não escuto as conversas dos miúdos na rua, nem os carros a galgar asfalto, nem há carros a buzinar a outros carros parados em segunda fila. Agora já não há pessoas, nem carros, nem barulho. Agora só há silêncio. Por vezes estou na sala a ler um livro e fico admirado por o barulho da história ser maior que o barulho da minha vida.
Mas quando estou há mais de duas semanas em casa, fechado como agora, e só saio para ir ao pão ou para comprar alguns mantimentos à mercearia que fica cinquenta metros acima na rua, a casa parece minúscula, demasiado acanhada para a enormidade da minha neura, uma neura criada na obrigatoriedade de ficar em casa, coisa que eu até gosto de fazer. Mas não obrigado. Não por decreto. Não porque me mandam. Agora até a rua me parece pequena. As duas pastelarias fechadas. A oficina a trabalhar a meio-gás (estão de porta fechada mas ouço o barulho no interior). As escadas que levam à C+S lá mais acima, desertas. A casa dos tecidos encerrada. O restaurante onde ia por vezes comer uma alheira de caça, encerrada. Tudo fechado. Ou quase tudo. Tudo em silêncio. E eu. Eu aqui, fechado em casa. Não estou de quarentena. Estou só em isolamento. Estou recluso. Em fuga ao vírus.
Agora trocava o meu T1+1 por uma casa velha com um quintal mal amanhado e uma casota para um cão e um galinheiro para umas galinhas e uma vista sobre árvores e montanhas e um riacho e o barulho das cigarras e dos grilos e dos pássaros e até do raio das corujas que não se calam durante a noite inteira mas que me adormeceriam e me fariam ser mais bem-disposto. E há quanto tempo não chove?

[escrito directamente no facebook em 2020/03/23]

O que É que Lhe Teria Acontecido?

Naquele dia saí à hora certa do escritório. Desci sozinho no elevador. Os meus colegas ficaram a fazer mais uma hora de trabalho enquanto esperavam para ir ver o jogo do Benfica na cervejaria ali ao lado. Normalmente eu também ficaria lá com eles, à espera da hora do jogo. Não naquele dia. Naquele dia tinha combinado ir à praia com ela. Ela queria ir passear à praia. Queria andar descalça na areia. Queria molhar os pés. Andava a passar um período complicado e achei que a praia, o passeio à beira-mar, o molhar os pés na água gelada da Vieira, talvez seguido de uma imperial ou um copo de vinho branco num dos bares à beira-mar podiam fazer milagres e ajudá-la a ultrapassar aquela altura que se estava a revelar tão complicada.
O elevador chegou ao rés-do-chão. Saí do elevador. Saí do prédio. Fui andando até ao carro. Olhei em volta. Ela tinha ficado de ir ali ter comigo. Estava calor. Arregacei as mangas da camisa. Acendi um cigarro. Encostei-me ao capot do carro a fumar, enquanto esperava.
Fumei o segundo cigarro.
O terceiro.
Telefonei para o telemóvel dela. Desligado.
Fumei outro cigarro.
Telefonei para a mãe. Não sabia dela.
Telefonei para uma colega. Não a tinha visto.
Fumei mais um cigarro.
Ai a gaita!
Os meus colegas desceram do escritório para irem ver o jogo do Benfica. Chamaram-me. Não fui.
Entrei dentro do carro.
Agarrei no volante. E pensei E agora?
E arranquei para casa.
No caminho passei pelo sítio onde ela trabalhava. Passei devagar, a olhar. A olhar para todo o lado como se procurasse alguma coisa mas sem saber o quê. Não estava à espera de a encontrar por ali. Não sei o que é que estava à espera de encontrar. Mas não encontrei nada.
Segui para casa.
Estacionei.
Saí do carro. Entrei no prédio. Chamei o elevador que nunca está no mesmo andar que eu. Entrei. Subi. Saí. Entrei em casa. Chamei. Nada.
Dei uma volta por casa. Há procura de qualquer coisa. Evidências, sei lá. Evidências não sei bem de quê. Estava à procura de quê? Dela. Acho que estava à procura de alguma coisa que me dissesse onde é que ela estava. As roupas estavam lá, no roupeiro. A escova-de-dentes estava no copo, na bancada da casa-de-banho. Até os Poemas Quotidianos do António Reis, que ela andava a ler, estavam na mesa-de-cabeceira do lado dela.
Entrei na sala. Liguei a televisão. Estava a dar o jogo do Benfica. Fiquei a ver. Adormeci a ver o jogo.
Acordei e o jogo já tinha acabado. Como é que teria ficado o resultado?
E ela?
Fui ao quarto confirmar. Não tivesse voltado casa e estar a dormir na cama. Mas não. Nada. Nada ainda.
Fui à janela da cozinha fumar um cigarro. Desfiz as mangas arregaçadas da camisa. Estava a começar a ficar com frio.
O que é que se tinha passado? O que é que lhe tinha acontecido?
E foi nessa altura que liguei para a polícia.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/27]

Uma Brasileira na Rua Direita

Fazia a Rua Direita. Caminhava devagar à procura do número. A numeração não era certa, ou então tinha-a perdido lá para trás. Havia saltos de números e os mesmos números com A e B e até C. A rua estava um bocado decadente. Lojas fechadas. Casas degradadas. As portas da rua das casas abertas ou inexistentes. Candeeiros públicos sem iluminação. As poucas lojas em funcionamento tenham pouca ou nenhuma luz nas montras e as montras não eram feitas há muitos anos. Se calhar, desde o primeiro dia, desde o dia de abertura de portas que as montras se mantinham inalteradas. Havia uma montra com um papel, escrito à mão, a informar Montra em Execução, e eu só me perguntava, em silêncio e de mãos nos bolsos, Que montra?
Em todas as cidades há uma Rua Direita. Quase sempre é uma rua torta, esconsa e que já viu melhores dias. Esta também era assim. Enorme, eu fartei-me de andar, aos esses, numa rua aos esses e em fim de ciclo. Mas este era também um mal dos centros históricos das cidades, estrangulados lentamente pelos centros comerciais luminosos e com parques de estacionamento gratuito nas periferias das cidades e a especulação imobiliária que tentava aguentar os prédio quase vazios até morrerem todos os velhos que os habitam e depois apresentar, na Câmara Municipal, um projecto de recuperação da zona. Há sempre uma recuperação da zona histórica para encher os bolsos a alguns. No outro dia vi uma caixa multibanco colocada num buraco feito numa muralha histórica. Depois da queixa da população, retiraram a caixa multibanco e taparam o buraco com cimento. E assim vão as cidades, vivendo desgraçadamente entre remendos e ambições desmedidas da ganância alheia.
Mas às vezes havia gente que punha estas casas degradadas a render. Eu procurava uma casa dessas. Tinha visto o anúncio no Correio da Manhã Jovem brasileira nova na cidade. No centro da cidade. Com número de telefone. E eu telefonei. Precisava de telefonar. Precisava de umas mãos suaves de uma mulher no meu corpo velho, ressequido e triste. E telefonei. Ouvi a voz da brasileira. Era na Rua Direita. E fui assim para a Rua Direita. À procura do número que a brasileira me dera.
Depois de muito caminhar ao longo da Rua Direita, lá encontrei o número. Olhei o pequeno prédio. Sem luzes nas janelas. Uma antiga loja fechada no rés-do-chão, com a montra tapada com folhas de jornais. Folhas do Correio da Manhã. A porta da rua estava aberta. A casa tinha porta da rua, uma porta de madeira, e estava fechada, fechada mas aberta, encostada, porque o trinco não funcionava, e eu empurrei a porta para trás e a porta abriu e eu entrei e procurei o interruptor da luz das escadas e não encontrei e acabei por acender a luz do telemóvel e subi as escadas até ao primeiro andar, como a brasileira me tinha dito para fazer, e depois bati à porta da direita. Ao subir as escadas íngremes, sujas e tristes, pensei que tinha feito bem em ter levantado só duas notas de vinte euros e não levar mais dinheiro comigo. Nunca se sabe onde se vai quando se vai a sítios como este. Nem se sabe quem se vai encontrar quando nos vamos encontrar com alguém que não conhecemos. Mas depois, despimos-nos com a facilidade do desejo que nos come a alma e o corpo. É a tesão. E já não queremos saber de mais nada, nem de medos e de onde é que nos metemos e com quem, porque depois só manda a lei da tesão. E era para isso que eu estava ali, para me libertar da tesão às mãos jovens de uma bela brasileira.
Subi ao primeiro andar. Bati à porta. Ninguém respondeu. Voltei a bater com as nozes dos dedos da mão direita, enquanto a esquerda aguentava a lanterna feita do telemóvel. Estava para dar meia volta e ir embora, desiludido, quando a porta se abriu. Vi, em contraluz, um corpo na transparência de uma combinação. Uma cabeleira volumosa. O corpo parecia elegante. E uma voz disse Oi!, enquanto abria a porta para trás e me franqueava a entrada. E eu entrei. Levei dois beijinhos na cara. Senti um cheiro demasiado doce, talvez baunilha, vindo da jovem brasileira. Agoniei-me. Ela conduziu-me para o interior da casa. Não passámos por lado nenhum. Fui levado directamente para um quarto. Ela tirou-me o casaco. Agora que já não estava em contraluz, a jovem brasileira já não parecia tão jovem. Nem tão elegante. Nem sequer era bonita. Tinha buracos na cara. Talvez de bexigas. Os cabelos volumosos mudavam de cor entre o preto da raiz e o louro das pontas. Senti uma certa repulsa. Mas já ali estava e ali acabei por ficar. E ela disse Despe-te que eu já venho, e deu-me um beijo na cara e passou a mão pela minha pila, prometendo-me o céu, e saiu do quarto e eu despi-me rápido e sentei-me nu em cima da cama e comecei a olhar para a coberta da cama e pensei que era melhor nem pensar em olhar para a coberta da cama. Suspirei. A porta abriu-se. A não-tão-jovem-assim brasileira regressou ao meu convívio. Aproximou-se. Empurrou-me sobre a cama, sentou-se em cima de mim e eu senti uma picada no braço.
Depois não senti mais nada.
Quando acordei estava sozinho na cama. Estava com dores. Com dores no corpo. Mais tarde percebi que tinha uma costura nas costas. Não havia luz. Procurei o telemóvel. Não havia telemóvel. Procurei a minha roupa. Encontrei-a. Vesti-me. Vesti-me com muita dificuldade. Saí do quarto. Saí do quarto a apalpar as paredes da casa até chegar à porta da rua. Saí da casa. Saí do prédio. Regressei à rua. À Rua Direita. Doía-me o corpo. Tinha sangue nas mãos. Arrastava os pés. Procurei outra rua. Procurei um táxi. Pedi o hospital.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/03]

O Miúdo a Tocar Guitarra Eléctrica na Varanda do Prédio em Frente

As pessoas gostam disto. Das borlas. Da gratuitidade cultural. A arte tem de ser grátis que o tipo que a faz fá-lo por gosto e quem corre por gosto não cansa. E se for a pagar, ninguém vai.
Estou à janela a fumar um cigarro. E vejo, lá mais à frente, naquela casa antiga, mais pequena, rés-do-chão e primeiro andar, e um pequeno quintal à frente com o projecto de jardim mas onde existe, efectivamente, uns verdes e não são couves portuguesas, na varanda, um miúdo com a guitarra eléctrica. Começa a tocar uns acordes sónicos, distorção, coloca uma voz por cima mas não é uma letra, são uns sons vocais que acompanham a sonoridade ácida da guitarra. Estranho. Estranho, mas interessante. E bonito. Em frente, no passeio, a olhar para o miúdo, outros miúdos e miúdas como ele. Não muitos. O sítio é um bocado escondido. O miúdo não tem nome. A sua música não é para todos. E foi empurrado para ali. Para o sítio escondido onde só ocorrem os amigos. As massas ficam-se pelo centro. Onde tocam os nomes com nome. Os que contam. Mas eu agradeço ter o miúdo ali em frente. A tocar um som que me agrada. Aos amigos dele e a mim.
A cidade está em polvorosa. A música, a dança, a performance, a ginástica saíram das paredes das salas de ensaio, das salas de espectáculo e vieram para a rua. Para as ruas. Para o público. À borla para um público que não gosta de pagar para ver arte. Mas o resto paga-se. Os PAs. As cervejas. O comércio que vive ali à volta e não vai ter mãos a medir a servir cervejas, torradas, hambúrgueres, tostas mistas, cafés, águas em garrafas de plástico, Coca-Colas, Pastéis de Natas, Brisas do Liz, oh, as famigeradas Brisas do Liz. Tudo se paga. Tudo, menos a arte. O artista é um sujeito que vive do ar e das palmas do público. Não precisa de dinheiro. Nem para a droga. Um músico tem sempre droga e ela cai-lhe do céu ou é patrocínio do dealer.
Entro em casa e apago o cigarro.
Estou indeciso entre ir à rua e ficar em casa. Ainda agarro no casaco, que os fins-de-dia já tendem a ficar frescos. Mas acabo por decidir que fico em casa. Não quero ir meter-me na confusão.
Arranjo um copo de vinho. Acendo outro cigarro. Volto para a janela. O miúdo continua lá a tocar. Gosto do que faz. Talvez um dia regresse à cidade e dessa vez lhe paguem. Depois ainda podem dizer que foram eles os primeiros que lhes deram a oportunidade. E o prestígio de tocar neste evento à borla, para gáudio de burgueses forretas que deixam sempre a carteira em casa e só têm cartões de plástico.
A noite aproxima-se. O miúdo continua lá a tocar. Se calhar não há mais ninguém para tocar no mesmo sítio. Se calhar esqueceram-se do miúdo. Olha, pá! Continua a tocar que estou a gostar de te ouvir.
O que é que eu vou jantar, hoje? Não me está a apetecer cozinhar. Acho que vou fazer umas torradas. Umas torradas com manteiga.
E depois vou reflectir. Amanhã é dia de eleições. E vota-se de graça, também. Pelo menos, até ver.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/05]

O Camionista de Materiais Perigosos

O tipo era o meu vizinho mais próximo. Morava numa pequena casa com quintal a cerca de quinhentos metros, para sul, da minha casa. Era o Camionista. Nem sei o nome dele. Acho que nunca soube. Aqui, na zona, ele era conhecido assim, por Camionista. Porque era o que ele era. Camionista. Transportava materiais perigosos. Gasolina e assim.
Também era conhecido como o marido da loira. Mas esse nome só era soprado nas suas costas. O Camionista era bastante ciumento. Se sonhasse que o tratavam por uma característica da mulher, haveria sangue, com certeza. Haveria. Agora já é tarde. O Camionista foi-se embora. Não aguentou a vergonha do par de cornos que lhe plantaram na testa.
O Camionista era um filho da terra. Nascido e criado aqui. Nasceu mesmo no meio da localidade. Na loja dos pais. Os pais tinham uma pequena casa de rés-do-chão e primeiro andar, viviam na parte de cima e tinham uma pequena loja na parte de baixo. Uma daquelas lojas que vendia tudo o que era necessário à vida do dia-a-dia de uma casa. Arroz e massa. Carne seca. Velas de cera. Fósforos. Pilhas. Bolachas. Fogareiros. Forquilhas. Coisas assim. A mãe estava sozinha quando ele nasceu. O pai andava embarcado no mar. Estava sempre muitos meses fora de casa. Quando o Camionista nasceu, a mãe estava sozinha a cuidar da loja e foi logo ali, na loja, que abriu as pernas e o deu à luz. No dia seguinte já lá estava outra vez a trabalhar. O Camionista enfiado debaixo de uma prateleira, dentro de uma caixa de fruta. Quando o pai regressou a casa, o Camionista já tinha três anos. O pai deu uma surra à mãe porque achou que o filho não era dele. Teve de lá ir a GNR e tudo mas, naquela tempo, ninguém metia o bedelho em casa alheia. Mas o pai acabou por aceitá-lo. Deu-lhe cama, comida e roupa lavada. Mandou-o para a escola. Para o serviço militar. Deu-lhe a Carta de Pesados e arranjou-lhe um emprego a conduzir camiões de mercadorias pela Europa. Aproveitava para fazer contrabando nos camiões do filho. Não era segredo por aqui.
Quando o pai morreu, o Camionista deixou-se das mercadorias e lançou-se às matérias perigosas, trabalho mais difícil, mas muito mais bem pago. Foi numa dessas viagens que apareceu aí com a loira. Era bielorrussa. Nessa mesma altura construiu a casa ali, abaixo da minha. E deixou a mãe sozinha com a loja. Pelo menos, foi assim que me contaram a história.
Entretanto a mãe morreu. A loja fechou. A casa está para ali a degradar-se.
O Camionista nunca foi muito dado ao social. Bebia, de vez em quando, um copo ao balcão com a malta que lá estivesse quando ele lá ia, ao café, também ia ver os jogos do Benfica, aparecia nas festas da aldeia em Agosto, mas era só. Quando trouxe a loira, começou a fazer uns churrascos lá em casa. No quintal. Convidava alguns tipos da aldeia, os seus antigos colegas de escola, e as suas mulheres, as crianças, e eu nessa altura já estava aqui a viver, éramos vizinhos, e também era convidado. Mas às vezes as coisas corriam mal. A mulher era muito simpática. Outra cultura, não é? Os homens também eram simpáticos para com ela. O Camionista, contudo, não achava grande piada. Várias vezes o churrasco acabava à paulada, com o Camionista bêbado a esmurrar algum dos rapazes da aldeia e a dar um par de tabefes na mulher.
Mas não foi por aí que a corda rompeu.
O Camionista virou-se para a política. Tornou-se um activista do sindicato. Uma altura começou aí a aparecer um dirigente sindical a conduzir um Maserati. Tinham reuniões de trabalho. Reuniões que se prolongavam noite dentro. Discutiam formas de luta. Desenhavam novas acções. O tipo do Maserati continuou a aparecer mesmo quando o Camionista não estava.
Um dia o Camionista chegou a casa e a casa estava vazia. A loira bielorrussa foi embora e levou tudo. O Maserati nunca mais cá regressou.
O Camionista andou aí uns tempos aos caídos. Pôs-se a beber. Armou zaragatas. Chegou a ser detido várias vezes pela GNR. Um dia, depois de sair da cadeia, pegou no camião, arrancou estrada fora e nunca mais cá voltou. Já lá vão uns bons anos. Não sei se chegou a vender a casa. Se chegou a vender a casa e a loja dos pais. Se vendeu, nunca ninguém cá veio tomar conta das coisas. As casas estão para aí a degradar-se. Os miúdos partiram os vidros da casa ali de baixo e vão para lá fumar charros e brincar com as miúdas.
Às vezes penso naqueles churrascos. E na loira. Na verdade eram os únicos motivos de interesse aqui da localidade. Aqui não se passa nada. As pessoas não têm interesse nenhum. Nem eu. Já a loira!…

[escrito directamente no facebook em 2019/08/13]

Um Domingo a Ouvir The Las Vegas Story dos Gun Club

Era Domingo. Fui acordado pelo sol a lamber-me os olhos Acorda, mandrião!, disse.
Levantei-me da cama. Espreitei pela janela. Era Domingo. Um dia igual aos outros mas com menos gente na rua. Menos gente atarefada. Menos gente a caminho do trabalho. Menos gente a trabalhar. Menos gente no café no rés-do-chão do prédio. Mais gente a comprar pão que a beber café e a tomar o pequeno-almoço.
Estava sol e calor. Ia para a praia, pronto. Decidido. Ia dormir para a praia. Mergulhar no mar. Ver as miúdas. Beber umas cervejas.
Fui lavar o carro. Tomei banho. Desci ao café e comprei pão. Fiz duas sandes de fiambre com manteiga. Agarrei num pêssego.
Ainda não eram dez da manhã e o tempo mudara de cara. O sol tinha ido embora. O tempo, agora, estava cinzento. Começou a levantar-se vento.
Resolvi esperar. Larguei o pêssego na mesa da cozinha.
Ao meio-dia começou a chover.
Ao meio-dia e meio caiu granizo. O tempo ficou frio.
Acendi um cigarro e fui até à janela. Olhei para o meu carro lavado. A ser fustigado pela chuva. A ser sovado pelo granizo.
Começou a doer-me a cabeça. Tomei um Ben-U-Ron Caff. Vesti uma camisola de algodão. Com capuz. Enfiei o capuz na cabeça. Sentei-me no sofá. Fechei os olhos. Comecei a zunir. O corpo a baloiçar. Para a frente e para trás. Para a frente e para trás.
Levantei-me. Fui pôr um disco na aparelhagem. The Las Vegas Story dos Gun Club
A dor de cabeça tinha-se dissipado.
Pus-me a aspirar a casa. Não ouvia a música. Aumentei o volume para ouvir por cima do barulho do aspirador.
Na rua continuava a chover.
Haviam várias festas nas aldeias aqui à volta. E estava a chover.
Havia um concerto do Zé Café & Guida. E estava a chover.
Não saí de casa.
Acabei de aspirar. Puxei a agulha do prato para o início do disco.
Acendi um cigarro. Voltei à janela para fumar. Olhei de novo para o carro. Estava realmente bem lavadinho. Mandei o resto do cigarro para a rua.
Fui à casa-de-banho. Mijei. Olhei-me ao espelho. Mandei um murro no espelho e parti-me em mil-e-um estilhaços que se espalharam por toda a casa-de-banho.
Fiz sangue. Sangue no espelho. No lavatório. Na bancada de pedra. A mão passeou-se pela cara. Levou-me sangue à boca. Senti um pedaço de vidro espetar-se no lábio. Cuspi-o.
Saí da casa-de-banho. Entrei no quarto. Enfiei-me debaixo do edredão. Enrolei-me nele. Estava a tremer. Estava com frio. Estava ansioso. Sentia-me cansado. Sentia-me sozinho.
Estes Domingos cinzentos de chuva e frio deixam-me assim. Ao fundo ouvia o Give Up the Sun. E foi assim.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/30]

O Controle

Hoje pensei em M.
Hoje lembrei-me do que aprendi com M. ao escutar uma conversa alheia. Viajei no tempo, regressei a uma época de juventude e à descoberta do meu eu sádico. Sexualmente falando, claro.
Descobri o meu sadismo através do masoquismo de M. Tive medo. Nunca mais lá regressei. Pelo menos àquela dimensão.
Hoje fui almoçar à cervejaria no rés-do-chão aqui do prédio. O prato do dia era Ovos Escalfados com Ervilhas. Motivo mais que suficiente para me fazer sair de casa. Desci as escadas. Não tive lugar ao balcão, o meu lugar por excelência. Estava cheio de comensais. Acabei por me sentar solitário numa mesa no meio da sala. Fui olhando a televisão lá ao fundo enquanto esperava pela minha meia-dose do prato do dia e do pequeno jarro de vinho tinto da casa (da região das Cortes, aqui nas berças da cidade).
Ouvia várias vozes. Várias conversas. Coisas soltas. Coisas sem grande interesse. Até que algo me captou a atenção. Entre um bocado de pão com manteiga e uma azeitona, algo captou-me a atenção. Um pedaço de conversa. Uma voz feminina que contava E ele só dizia para me controlar. Controla-te que controlas tudo o resto, dizia-me isto ao ouvido, e toda eu era arrepios. Estava com os braços e as pernas arrepiadas e a perder a força nos joelhos ao ouvir a voz sussurrada dele ao meu ouvido, Controla-te.
Virei a cabeça. Foquei o olhar. Tentei perceber de onde vinha aquela conversa que me chamara a atenção. Havia uma mesa próxima da minha com duas senhoras. Senhoras jovens. À volta dos seus quarenta anos. Supus que a conversa viesse de lá. Imaginei-as. Primeiro uma. Depois a outra. De encontro a uma parede. E uma voz de homem sussurrada a arrepiá-las. Mas não tive certeza de nada. Apurei os ouvidos. Não voltei a captar nada com o mesmo grau de interesse. Não que me interessasse a vida sexual da senhora, das senhoras, ali do lado. Era a curiosidade de saber para onde evoluía aquela conversa que me tinha captado a atenção. Debalde.
Chegou a minha meia-dose. O jarro de vinho. Enchi o copo. Comecei a beber. E foi aí que me lembrei de M. O controle de M. O controle para atingir um fim.
M. gostava que lhe desse umas palmadas. Com força. E dei por mim a descobrir que gostava de lhe dar umas palmadas. Gostava de ver as minhas mãos marcadas no rabo dela. Mas havia um ritmo. Uma ordem. Uma cadência. No início ela dirigia-me. Dizia-me o que fazer. E como o fazer. E dizia-me precisamente isso É tudo uma questão de controle. Fui adquirindo esse controle. E, por uns tempos, as coisas andaram equilibradas. Ela gostava que lhe batesse. Eu descobri que retirava algum prazer em fazê-la feliz daquela forma. Aprendi que gostava de lhe bater.
Um dia passou-me uma caixa para as mãos. Pediu-me que a espetasse. Eu não percebi. Abri a caixa. Tinha agulhas. Várias agulhas. Agulhas mais grossas que as de acupunctura. Fiquei sem saber o que fazer. Ao início assustei-me. Ela insistiu. Experimentei. Uma. Duas. Três. Quarto. No rabo. Depois queria nas pernas. Fui espetando.
Comecei a sentir-me excitado.
Percebi que estava a gostar de espetar as agulhas no corpo dela. Percebi, assustado, que estava a gostar. E não fui capaz de continuar. Assustei-me comigo. Retirei as agulhas. Coloquei-as na caixa. Ela virou-se para mim e perguntou Então?!
Eu abanei a cabeça.
Levantei-me da cama. Vesti-me e saí do quarto dela. De casa dela. Da vida dela. Perdi o controle.
Nunca mais a vi. Há muitos anos que não pensava nela.
Comecei a comer as ervilhas. Beberiquei o vinho. Olhei para a televisão. Via umas imagens a passar mas não percebia nada do que é que se tratava.
Olhei à volta. Muitas conversas. Muito barulho. Muita gente.
Continuei a comer as ervilhas com o ovo escalfado. Perdi o controle. Foi isso.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/13]