Fui às Putas

Um dia fui, ao que popularmente se diz, às putas.
Fui às putas com um amigo mais velho, frequentador habitual da casa onde me levou. Eu já tinha tido umas relações sexuais, mas nunca tinha, realmente, fodido com uma rapariga. Tinha tido umas brincadeiras com uma prima mais velha. Brincadeiras essas, posso dizer, que me agradavam bastante. Mas eram só mesmo umas brincadeiras. E eu já estava a passar da idade da brincadeira. Agora queria ser um homem.
Devo dizer que, nessa altura, eu já tinha ido à inspecção militar a Coimbra. Já tinha estado com uns rapazes que passaram a noite na Rua Direita, quiseram que eu fosse com eles e eu recusei. Mas naquele dia, naquele dia fui.
Tinha ido comer um meio-bife ao Liz Bar. Já comeram um meio-bife no Liz Bar? Um meio-bife frito numa frigideira de barro que depois vem para a mesa com um ovo estrelado por cima e emoldurado numas batatas fritas e num arroz branco frito, tapados por um guardanapo de papel para não estornicar os comensais com os pingos da gordura a ferver, e que nos faz lamber os beiços com especial prazer. Uma maravilha! Acompanhei o meio-bife com várias imperiais. Eu e ele. E depois ele disse E agora vamos às putas! e eu perguntei Vamos? e ele afirmou Vamos!
Eu deixei-me levar. Na verdade não sabia muito bem o que era isso de ir às putas. Quer dizer, sabia o que eram as putas, claro, mas não sabia nada sobre elas e sobre lá ir e que que é que era preciso fazer quando se lá ia e todas essas coisas que são precisas para se fazer aquilo que muita gente faz. Mas ele só me dizia Não te preocupes. E eu não me preocupei.
Saímos do Liz Bar e fomos a pé pelas ruas da cidade. Era noite, início de noite, as luzes da rua já estavam acesas, estava calor e, à medida que nos íamos aproximando da casa, eu ia ficando ainda com mais calor. Comecei a ficar nervoso. E quase perdi a vontade. Quando chegámos ele disse Voilá! e apresentou-me uma casa sem nada de especial, num bairro mal-afamado na periferia da cidade mas que já tinha tido o seu tempo e eu até cheguei a ter amigos, no colégio da freiras onde estudei, que eram daquele bairro que, naquele tempo, não era como chegou a ser mais tarde, quando eu lá fui levado por ele e ele tocou à campainha e uma velha gorda e feia (não é para chatear ninguém nem para fazer qualquer género: a mulher era velha e gorda e feia como o raio) em camisa de dormir, reconheceu o meu amigo, abriu-nos a porta, sorriu para mim e fez-nos entrar. Senti-me uma tira de lentrisca assada olhada pelo cão da vizinha.
Entrei para uma espécie de pequena sala de estar com cheiro a velas de cheiro (não sei a que é que cheirava, mas era enjoativo) que estavam acesas e davam um ar irreal a tudo aquilo e às raparigas que iam chegando, todas elas com pouca roupa, se é que posso chamar roupa às tiras de panos que iam tapando, mal, as partes sexuais das moças que se chegavam à frente, peitos rijos, pelo menos firmes, rabos volumosos e lábios carnudos e pintados de vermelho-paixão, todas elas com uma enorme vontade de me levarem a mim para um dos quartos lá de dentro.
Elas aproximavam-se. Roçavam-se em mim. Cheiravam-me. Sorriam. Algumas beijaram-me no pescoço e, então, uma delas disse Se não quiseres preservativo, não precisas de usar! e foi aí que tudo parou.
Eu parei. Elas pararam. O mundo parou.
Há gente que vem aqui e tem relações sem preservativo? E elas aceitam?
Há gente para tudo. Neste mundo, há gente para tudo. E a maior prostituição nem é a destas raparigas. Há muita gente que se prostitui por tuta-e-meia e por mil-e-uma coisa, algumas delas sem jeiteira nenhuma. Há muita prostituição fina, fina e parva.
Foi então que percebi que aquilo não era bem o que eu queria para mim. Acendi um cigarro. Dei um beijo a todas as raparigas que estavam por ali, à minha volta, dei uma palmada nas costas dele e disse-lhe Vou ao cinema.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/09]

O Banco de Jardim

A primeira vez que tivemos relações sexuais foi num banco de jardim, junto ao rio, no Marachão, depois de uma festa dos anos ’80 a que acabámos por não ir.
Foi a única vez que fizemos sexo, um com o outro, na rua. Foi também a melhor e mais intensa noite de sexo que alguma vez tivemos juntos. A partir daí, e enquanto durou a relação, foi sempre a descer. Mais para cumprir calendário que por desejo.
Não sei se ela se equivocou comigo ou se aquela noite foi só o resultado de uma bebedeira. A verdade é que estávamos os dois ardentes e cheios de vontade um do outro. A verdade é que, naquele frio, junto ao rio, ardemos.
Tínhamos estado num bar. Foi aí que metemos conversa um com o outro. Amigos comuns. Uma gargalhada. Uma resposta mais irónica. Um sorriso nos lábios. Um pouco de arrogância. Algumas opiniões avulsas sobre a vida e a morte, e o desejo acabou por fazer o resto. Perdemos os amigos comuns que se evaporaram na noite. Ficámos a beber. Eu e ela. Primeiro andámos pela cerveja, mas depressa migrámos para o gin. Acho que queríamos acelerar a noite. Eu pelo menos sim, queria acelerar a noite e ir longe com ela.
Hora de fechar. Fomos postos na rua. Havia uma festa dos anos ’80 na cidade. Lancei a ideia. Foi aceite. Cruzámos a cidade na conversa. Eu a fumar. Cigarro atrás de cigarro. Eram os nervos. Ela não fumava. Nem falava. Eu falava. Eu falava e fumava. Ela ouvia. Ouvia-me.
Chegámos aos anos ’80. Eu estava um bocado maldisposto. Tinha perdido a conta aos gins. Ela disse para darmos uma volta. Para eu arejar. Acabámos por não entrar pelos anos ’80. Ela nem era assim tão fã de festas, muito menos dos anos ’80, disse. Assim Não faço grande questão em entrar. Nem gostei muito dos anos ’80. Vamos dar uma volta. E fomos. Fomos passear junto ao rio. Pelo circuito da Polis. Seriam, o quê?, três, quatro da manhã. Já me tinha passado a má disposição. Acendi um cigarro. Ela sentou-se num banco de jardim. Sentei-me lá ao lado dela. Depois, mão-na-mão. Boca-na-boca. Mão numa mama. A língua solta. Esperar a reacção. Quando dei por mim já estava com as calças ao fundo das pernas. Ela também. Foi tudo assim muito rápido, muito intenso, muito desejo.
Ficámos lá sentados por muito tempo, no depois, sentados no banco de jardim. Em silêncio. De mãos dadas. A sentir a água a correr no rio que não víamos porque estava escuro. Eu fumei outro cigarro. E depois ela disse Está frio. E estava. Estava frio. Dei-lhe o meu casaco. Fiquei de t-shirt a berrar frio. Senti um arrepio. E ela disse É melhor ir para casa. E eu acompanhei-a.
À porta de casa disse que era melhor eu não subir. Era tarde. E era cedo.
Foi a primeira e a única vez que não subi. Na semana seguinte estava a viver com ela.
Eu continuei a beber. Passei da cerveja e do gin para o vinho tinto. Ela passou para o chá. Desencontrei-me dela. Ela perdeu-me. Depois já éramos só a lembrança de uma noite.
Um dia ela disse Já não vale a pena. É melhor ires embora. E eu fui.
Nunca mais a vi.
Sempre que passo no Marachão, junto ao banco de jardim onde estive com ela, lembro-me dela. E do que aconteceu.
Hoje passei ao pé do banco. Estava vazio. O rio cheirava mal. Estava sujo. E corria uma aragem desagradável.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/18]

Às Vezes Penso em C.

Às vezes ainda penso em C. Em como foi a minha vida e como poderia ter sido.
C. foi a minha primeira namorada. A primeira namorada a sério. A namorada com quem passeava de mãos dadas. A quem dava um beijo de língua logo de manhã, quando nos encontrávamos na escola, mesmo em dias em que me tinha esquecido de lavar os dentes e ela sem se queixar. Foi a namorada com quem tive as primeiras relações sexuais de uma forma mais ou menos constante. Foi também com ela que apanhei os primeiros sustos do atraso do período. Mas nunca chegou a não vir.
Durante os anos em que namorámos fomos inseparáveis. Éramos amigos. Talvez os melhores amigos um do outro. Gostávamos das mesmas coisas. Sem obrigação. É que acabámos por ir adquirindo os mesmo gostos. Líamos os mesmos livros. Ouvíamos os mesmos discos. Íamos juntos ao cinema. Ainda não havia pipocas nem tinha chegado o VLC. Íamos juntos a concertos. Os poucos que existiam. Ainda não havia festivais de Verão. O Vilar de Mouros passou sem darmos por isso e o Artlântico acabou por nos deixar em Lisboa sem sabermos o que fazer na ausência de um festival que acabou por não acontecer. Gostávamos de exposições. Fumámos as mesmas marcas de cigarros. Foram várias ao longo dos anos. Quando nos separámos eu fugi para o CT. Ela deixou de fumar. Bebíamos em conjunto. Eu mais que ela. Eu embebedava-me. Ela aturava-me a bebedeira e os vomitados. Eu era do Benfica. Ela do Sporting. Mas não ligava muito. Ela era de direita. Eu também, mas refilava muito. Ela era mais conciliadora.
Tudo começou por nos detestarmos. Éramos da mesma turma no secundário. Ela era uma miúda de nariz arrebitado e pêlo na venta. Eu era um gajo teimoso e com a mania que sabia sempre tudo. Tivemos muitas discussões nas aulas. Discussões sobre a matéria. Sobre os pontos de vista. A última discussão que tivemos, antes de anos e anos de mãos transpiradas juntas a percorrer as ruas da cidade, terminou com eu a dar-lhe um beijo nos lábios, provocador, e ela, primeiro a ficar corada, depois envergonhada, acabou por sair da sala de aula a correr e a deixar a discussão sem final. A professora deu-me um pequeno ralhete. Que me entrou por um lado e saiu pelo outro.
Fui à procura de C. pela escola. Quando a encontrei foi porque ela veio ter comigo. Eu estava a rir, gozão. Ele chegou ao pé de mim e mandou-me um estalo. Um estalo valente. Sonoro. Fiquei com os dedos dela marcados na cara. Ainda não tinha barba para disfarçar. Mas depois de me dar o estalo, abraçou-me e beijou-me. Beijei-a. Beijámos-nos. Depois perguntei-lhe Queres namorar comigo? e ela disse Sim! Foi a primeira e última vez que pedi namoro a alguém, assim mesmo, com as letras todas. E ela disse sim. E lembro-me de ficar de sorriso enorme, de orelha a orelha, e nunca mais tive um sorriso desses.
Nesse dia, nos final das aulas, fomos lanchar juntos. Foi o primeiro de muitos lanches que partilhámos durante os anos seguintes.
Foi quando fomos para a Universidade que a nossa relação terminou. Fomos para a mesma cidade grande. Mas fomos para Faculdades diferentes. Cursar cursos diferentes. Viver em zonas diferentes da cidade. Fomos com expectativas diferentes. Começámos a ser diferentes. A desejar coisas diferentes. A fazer coisas diferentes. A crescer de forma diferente. Ela a crescer. Eu a manter a adolescência. E quando demos por nós já não éramos nós. Eu já era outro. Ela também. Acabámos por morrer. E renascemos diferentes. Eu e ela. E já não éramos nós.
Depois disso nunca mais a vi.
Soube, há uns anos, que tinha casado. Tinha duas filhas.
Às vezes penso nela. Penso nela como parte de uma época da minha vida em que também penso bastante. E agora, mais velho, é com maior regularidade que regresso lá atrás. E também com muita saudade.
Às vezes pergunto como seria a minha vida se tivesse continuado a namorar com C.
Às vezes sinto uma certa emoção quando penso nessa época e em C.
Às vezes penso se eu ainda seria eu e que versão de mim seria. E se seria melhor ou pior. Diferente, com certeza.
Às vezes gostava de poder voltar atrás no tempo e poder voltar ao mesmo momento. Àquele momento. Não sei qual seria a minha escolha. Mas gostava de poder voltar a escolher. Só para ver. Só para lembrar como é que era. E como é que sou.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/17]