O Mundo a Fazer uma Barrela

Olhei para o céu e vi passar os aviões cheios de munições. Mais tarde haveria de os ver regressar bem mais leves, vazios de munições, depois de não-sei-quantos curdos mortos no norte da Síria.
Estava no alpendre. Sentei-me na cadeira. Acendi um cigarro.
Na casa do outro lado da estrada havia festa. Uma festa popular. Muito popular. Muita gente a dançar ao som de música popular. Havia vinho. Cerveja. Espumante. Umas jovens em biquínis diminutos mergulhavam numa piscina. Nas varandas, nas várias varandas da casa, apareceram várias pessoas, uma em cada varanda. A música foi desligada. As pessoas pararam de dançar. Pararam de beber. Ficaram paradas com os copos nas mãos. As raparigas pararam de nadar na piscina e toda a gente prestou atenção. Todos olharam para as varandas. Em silêncio. Atentos. Cada um olhava para a sua mas toda a gente parecia estar a olhar para todas as varandas ao mesmo tempo. Numa varanda estava Jair Bolsonaro. Na outra, ao lado, Donald Trump. Na outra a seguir estava Nicolás Maduro. Depois Viktor Orbán. E Recep Erdogan. Ao lado, Vladimir Putin. A seguir estava Boris Johnson. Logo depois Mohammad bin Salman. Colado estava Xi Jinping. Depois outras personagens que não identifiquei logo. E lá no canto, na última varanda, que afinal não era uma varanda mas uma janela, estava André Ventura. Que raio é isto? Como é que a casa em frente tem tantas varandas? E janelas? E toda esta gente? Quem é esta gente toda? E o que está aqui a fazer à frente de minha casa?
Os homens nas varandas, e o que estava à janela, começaram a discursar. Todos a uma voz como se fossem um só. Em todas as línguas do mundo que eram uma só. E toda a gente atenta a ouvir. Os homens que discursavam estavam com os olhos vermelhos, injectados de sangue, escorria-lhes uma baba verde, ácida, pelos cantos da boca e cuspiam perdigotos sobre as pessoas enquanto falavam com elas, enquanto lhes cuspiam palavras de ódio. As pessoas pareciam hipnotizadas. Batiam palmas. Uivavam. Anuíam. Concordavam. E começaram também elas a babar. Babar ódio. O terreno em frente começou a ficar inundado de tanta baba. Depois os discursos pararam. Apareceram uma moças quase despidas, de seios proeminentes, a erguer umas placas sobre a cabeça com alguns dizeres: Eu Primeiro; Eu à Frente; Eu De Novo em Primeiro; Ordem e Progresso; Acima de Todos Eu, Acima de Mim Deus.
Achei tudo muito interessante. Mas estava com sede. Levantei-me e fui buscar um copo de vinho. Regressei ao alpendre. Acendi novo cigarro.
Ao fundo, vi as montanhas a abanar, como se fossem de gelatina. Tremiam como varas verdes. As vacas que sobreviveram deixaram de ter leite e passaram a dar manteiga. As ovelhas perderam os caracóis e ficaram com o pêlo liso e escorrido. Depois um furação passou por cima das montanhas e levou as turbinas eólicas pelos ares. Deixou umas nuvens escuras, carregadas de água, que largaram tudo sobre as pedreiras que devastavam as montanhas e inundaram os vales, arrastaram casas e carros e os camiões de transporte de pedras das pedreiras e devastaram as quintas e quintais como as pedreiras tinham devastado as montanhas.
A água veio pela montanha abaixo, o rio e o ribeiro galgaram as margens, houve inundação em todo o lado e acabou por terminar com a festa na casa em frente, do outro lado da rua. As varandas foram destruídas e as pessoas que lá estavam foram arrastadas pelas águas furiosas e zangadas. Ainda vi a cabeça do André Ventura a tentar manter-se à tona da água que corria violenta.
Não chegou cá acima, felizmente.
Deu-me uma certa agonia. Cuspi para o chão do alpendre. Pensei que eu vivia num cantinho do céu guardado por Deus. Via todas as desgraças a acontecerem lá longe. Do outro lado da estrada. Longe do meu alpendre.
Depois senti um trovão a ribombar sobre mim, sobre a minha cabeça, e pensei Falei cedo demais, porra!
Foi então que me levantei da cadeira do alpendre e resolvi entrar em casa. Nesse momento voltavam os aviões turcos, mais leves, depois de terem despejado toda a munição sobre os curdos que, coitados, andaram a salvar-nos do Daesh e agora estavam a ser dizimados.
Ainda antes de entrar em casa senti um aperto no coração. Virei-me para trás e percebi. Ao ver a enxurrada levar toda a gente na fúria das águas, percebi. Alguns amigos de infância estavam naquela embrulhada. Eram levados. Eram levados para longe. Alguns morriam. Morriam cheios de ódio. E senti-me triste. Triste por eles. Depois pensei que isto era o mundo a dar uma barrela.
Entrei em casa e fechei a porta nas minhas costas.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/13]

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O Miúdo a Tocar Guitarra Eléctrica na Varanda do Prédio em Frente

As pessoas gostam disto. Das borlas. Da gratuitidade cultural. A arte tem de ser grátis que o tipo que a faz fá-lo por gosto e quem corre por gosto não cansa. E se for a pagar, ninguém vai.
Estou à janela a fumar um cigarro. E vejo, lá mais à frente, naquela casa antiga, mais pequena, rés-do-chão e primeiro andar, e um pequeno quintal à frente com o projecto de jardim mas onde existe, efectivamente, uns verdes e não são couves portuguesas, na varanda, um miúdo com a guitarra eléctrica. Começa a tocar uns acordes sónicos, distorção, coloca uma voz por cima mas não é uma letra, são uns sons vocais que acompanham a sonoridade ácida da guitarra. Estranho. Estranho, mas interessante. E bonito. Em frente, no passeio, a olhar para o miúdo, outros miúdos e miúdas como ele. Não muitos. O sítio é um bocado escondido. O miúdo não tem nome. A sua música não é para todos. E foi empurrado para ali. Para o sítio escondido onde só ocorrem os amigos. As massas ficam-se pelo centro. Onde tocam os nomes com nome. Os que contam. Mas eu agradeço ter o miúdo ali em frente. A tocar um som que me agrada. Aos amigos dele e a mim.
A cidade está em polvorosa. A música, a dança, a performance, a ginástica saíram das paredes das salas de ensaio, das salas de espectáculo e vieram para a rua. Para as ruas. Para o público. À borla para um público que não gosta de pagar para ver arte. Mas o resto paga-se. Os PAs. As cervejas. O comércio que vive ali à volta e não vai ter mãos a medir a servir cervejas, torradas, hambúrgueres, tostas mistas, cafés, águas em garrafas de plástico, Coca-Colas, Pastéis de Natas, Brisas do Liz, oh, as famigeradas Brisas do Liz. Tudo se paga. Tudo, menos a arte. O artista é um sujeito que vive do ar e das palmas do público. Não precisa de dinheiro. Nem para a droga. Um músico tem sempre droga e ela cai-lhe do céu ou é patrocínio do dealer.
Entro em casa e apago o cigarro.
Estou indeciso entre ir à rua e ficar em casa. Ainda agarro no casaco, que os fins-de-dia já tendem a ficar frescos. Mas acabo por decidir que fico em casa. Não quero ir meter-me na confusão.
Arranjo um copo de vinho. Acendo outro cigarro. Volto para a janela. O miúdo continua lá a tocar. Gosto do que faz. Talvez um dia regresse à cidade e dessa vez lhe paguem. Depois ainda podem dizer que foram eles os primeiros que lhes deram a oportunidade. E o prestígio de tocar neste evento à borla, para gáudio de burgueses forretas que deixam sempre a carteira em casa e só têm cartões de plástico.
A noite aproxima-se. O miúdo continua lá a tocar. Se calhar não há mais ninguém para tocar no mesmo sítio. Se calhar esqueceram-se do miúdo. Olha, pá! Continua a tocar que estou a gostar de te ouvir.
O que é que eu vou jantar, hoje? Não me está a apetecer cozinhar. Acho que vou fazer umas torradas. Umas torradas com manteiga.
E depois vou reflectir. Amanhã é dia de eleições. E vota-se de graça, também. Pelo menos, até ver.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/05]

A Morte a Rondar

De novo a morte. Ela ronda. Anda sempre a rondar. Como se quisesse dizer que está ali, sempre presente. À nossa espera. Que não somos mais que ninguém. Que todos temos um bilhete de ida e volta e, o regresso, é inevitável.
A morte não precisa de se anunciar ao nosso lado. Não precisa ser dentro de casa. Não. Basta ser à distância. É só um lembrete. Quem julgas que és?
Hoje foi assim. Primeiro um aviso noticioso no telemóvel. Depois as redes sociais. Primeiro timidamente, em seguida de jorro. Por último a televisão.
Não se lhe pode escapar. Não era dentro de casa. Era exterior. Mas um exterior que andou anos e anos a entrar em casa através da televisão, dos livros, das ideias. Um nome muito presente se bem que um pouco esquecido nos últimos anos. Mas basta um pequeno clique para que tudo venha à tona.
A morte. A morte de alguém é sempre a consciência da nossa própria mortalidade.
Dou por mim encostado à ombreira da porta da cozinha a olhar lá para cima, para as montanhas. O dia está limpo. O céu está azul chroma. Não há nuvens. Vejo na perfeição os contornos das montanhas e as poucas árvores existentes naqueles montes carecas estão recortados no céu.
Será assim a morte? Uma luz tão forte e tão branca que não vejo nada e só lembro os dias ensolarados da minha vida? Ou uma escuridão de breu onde nada existe a não ser o sonho da minha própria morte numa repetição sem fim?
Divago.
Tenho uma relação muito estranha com a morte. Não me mete medo, mas incomoda-me. Não tenho medo que chegue quando achar que deve chegar, mas chateia-me quando me leva quem eu amo e queria ter aqui ao meu lado para sempre. Pelo menos para todo o meu sempre.
Estou encostado à ombreira da porta da cozinha a olhar lá para cima, para as montanhas. Acendo um cigarro. Penso que posso morrer um dia destes de cancro do pulmão. Mas não me impede de aspirar, com algum prazer, o fumo, e prendê-lo nos pulmões.
O gato vem ter comigo. Roça-se nas minhas pernas enquanto faz curvas impossíveis entre uma perna e outra. Senta-se à minha frente a olhar, apático, para mim. Mia. Mia sem grande convicção. Acho que mia porque é da sua condição miar. Mas tem comida na tigela. E água. A areia das necessidades está limpa. A cama sacudida, embora prefira dormir em qualquer lado menos na cama que lhe destinei.
Olho para o gato e pergunto-lhe O que vai ser de ti quando eu morrer? E o gato levanta-se e vai-se embora. Ignora-me. Acho que eu preciso mais dele que ele de mim.
Apago o cigarro. Entro em casa e ponho um tacho com água ao lume. Vou cozer um bocado de esparguete. Depois misturo atum. Está a apetecer-me comer algo assim, simples e estúpido. Vou partilhá-lo com o gato.
Fico sempre assim, perante a morte. Não tenho medo. Mas incomoda-me. E dá-me para a estupidez. Como comer esparguete com atum.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/03]

Estou Cansado e Não Sei se Consigo Chegar a Casa

Ainda é de noite quando saio da fábrica. É fim de turno. Início de outro. Cruzo-me com alguns conhecidos. Alguns já foram meus amigos. A amizade foi esbatida pelos turnos. Deixámos de nos encontrar. Agora cruzamo-nos aqui. Eu a sair. Eles a entrar. Já foi ao contrário. Há-de voltar a ser.
Já se percebe o céu mais claro lá do lado de onde vai nascer. Mas ainda é noite. Algumas pessoas já andam aí. A caminho do trabalho. Mas a maior parte deles ainda está a dormir.
Estou cansado.
Dormir de dia não me deixa descansar. Tudo em troca de mais uns parcos euros ao final do mês. Nem sei bem para quê. Vai-se todo da mesma forma. Mais euro, menos euro, ele esfuma-se.
Estou cansado.
Chego à estação de comboio. Sou o único que espera para ir em contra-ciclo. Aguardo sozinho no apeadeiro. Não me sento num destes bancos vazios. Se me sento adormeço e perco o comboio. Não posso adormecer. Não posso perder o comboio. Preciso de ir para casa. Preciso de chegar a casa antes dos meus filhos saírem para a escola. Preciso de vê-los. Quero vê-los. Dar-lhes um beijo. Dizer-lhes que os amo. Desejar-lhes um bom-dia de escola.
Acendo um cigarro. Mas não me apetece fumar. Estou cansado. Fumei muitos cigarros durante a noite, durante o meu turno. Mas esta espera, deixa-me ansioso. Preciso de um cigarro entre os dedos. Mais que o fumo nos pulmões, o cigarro nos dedos.
Já está mais claro. O céu. Ainda não é dia. Mas acelera.
Ouço o comboio a chegar. Tenho um arrepio de frio. Mas não está frio. Deve ser só o cansaço.
O comboio chega. Chega à hora. Mando fora o cigarro. As portas abrem-se. Há muita gente a sair. Já há muita gente a vir de casa para colocar a cidade a funcionar. É madrugada mas a cidade está a acordar.
Eu sou o único a regressar no comboio. A voltar para trás. A ir para casa.
Entro na carruagem. Olho em volta. Posso escolher o lugar que quiser. Estão todos vagos. Sou o único passageiro. Sento-me na direcção da viagem. Junto à janela. A ver o rio. Gosto de ver o rio. Gostava de lá estar. No rio. Num barco dentro do rio. Acima e abaixo na pequena ondulação do rio. À pesca. À pesca de… O que é que se pesca neste rio?
Estou cansado.
Encosto a cabeça no vidro da janela e sinto a trepidação do comboio que me faz vibrar como um telemóvel.
Penso no momento em que chegar a casa. No banho que vou tomar antes dos miúdos se levantarem. Do pão que irei pôr na torradeira. No leite que irei aquecer. Nunca irei perceber como é que gostam de leite quente. Eu detesto.
Estou a listar a minha futura manhã quando chega o fiscal. Pede-me o bilhete. Sou o único passageiro. Estou cansado. Levo a mão ao bolso das calças e mostro o passe. O fiscal segue em frente. Irá percorrer o resto do comboio vazio. Há-de voltar cheio outra vez, o comboio, na viagem de volta.
Estou cansado.
Pergunto-me se as coisas vão ser sempre assim.
Estou cansado e sinto-me farto. Não consigo perceber o sentido de tudo isto. Destes dias iguais que se repetem, sem sentido, uns a seguir aos outros. Iguais. Sempre iguais. Dia-após-dia. Sempre o mesmo rame-rame. Vale a pena?
Volto a encostar a cabeça ao vidro da janela. Pareço sair de mim. Pareço desfalecer. Como se fosse um sonho. Estou cansado. Não sei se consigo chegar a casa. Gostava de ver os meus filhos uma vez mais. Gostava de conseguir chegar a casa. Mas sinto-me cansado. Cansado da vida.
Acho que saio do comboio. Voo por cima dele, da linha, do rio, da cidade…

[escrito directamente no facebook em 2019/10/02]

No Aniversário da Minha Mãe

Volto a entrar em casa dela. Um ano depois. Faz um ano que aqui estive. Regresso hoje. Um ano mais tarde.
É o aniversário dela. É a única altura em que a vejo. Em que lhe dou um beijo. Em que falo com ela. Falo!… Digo-lhe Olá!… Parabéns!… Ela oferece-me uma fatia de bolo. Um copo de Vinho do Porto. Diz Já começa a fazer frio, não é? e depois começam a chegar outras pessoas, os amigos, as amigas, o resto da família, e eu vou-me embora. Não gosto de me envolver.
Normalmente levo-lhe um perfume. Um perfume qualquer. Uma embalagem bonita. Ela colecciona frascos de perfume cheios. Usa o mesmo há mais de cinquenta anos. Foi o meu pai que lho ofereceu. E nunca mais mudou de perfume. Às vezes cruzo-me com esse cheiro na cidade e olho à procura dela. Não a vejo, é claro. Não é ela que anda por ali. É só o seu perfume. E não é muito frequente sentir aquele perfume. Já é um perfume antigo e, no meio de tantas e novas fragrâncias, é uma grande pontaria cruzar-me com o perfume que a minha mãe usa já mesmo antes de eu nascer e ser filho dela. Mas colecciona frascos de perfume. Tem um móvel de vidro cheio de perfumes que nunca irá abrir. Gosta de olhar para os frascos. Todas as semanas retira-os, limpa-lhes o pó e dá-lhes novas ordens para que possa olhar para formas e cores diferentes. Quando era mais nova, tinha mais paciência e a mão mais firme, ainda desenhava os frascos de que gostava mais. Às vezes pintava-os. Aguarelas. Ainda tenho algumas aguarelas dela. E algum carvão. Desenhos e pinturas que pedi para trazer quando saí lá de casa. Para me lembrar dela. Para me recordar como tinha sido a minha vida naquela casa.
Eu chego cedo. Antes de toda a gente. A minha mãe enceta o bolo de aniversário para me fazer comer uma fatia. Bebe, ela própria, um copo de Vinho do Porto comigo, dizemos duas ou três coisas, coisas que se repetem de ano para ano, e despeço-me dela antes que comecem a chegar os convidados. Em especial a minha irmã.
Depois dou uma volta a pé pela cidade. De ano para ano torna-se, cada vez mais, estranha para mim. Já não reconheço nada. Nem ninguém. As lojas fecham e abrem outras. Outra gente torna-se senhora da cidade. Esta já não é a minha. Sinto-me desconfortável enquanto caminho ao longo da avenida principal. Não a reconheço e, ao mesmo tempo, parece-me igual a todas as outras que tenho caminhado ao longo dos anos por outros sítios que, agora, me parecem todos iguais. Está uma avenida incaracterística. Numa cidade incaracterística. Cheia de gente incaracterística.
Volto cá por causa da minha mãe. É a minha única âncora a esta cidade. Quando morrer, cortam-se todas as amarras que ainda existem. E se por um lado não quero que a minha mãe morra, antes vá eu que ela que é muito mais precisa às pessoas a quem faz bem que a inação em que me tornei, por outro tenho vontade de nunca mais cá voltar. Faz-me mal cá voltar. Regresso sempre cheio de angústia e tristeza. Penso sempre em tudo o que se perdeu aqui, na minha não-relação com esta cidade. O que eu perdi. O que a cidade perdeu. O que as pessoas da cidade e eu deixámos de ter. Por isso não volto cá mais vezes. Venho no aniversário da minha mãe. A única razão para cá por os pés. Depois…
Páro num café que já foi o meu café. Não reconheço ninguém no lado de dentro do balcão. Não reconheço ninguém na sala nem na esplanada. Bebo uma bica queimada. Como um pastel de nata demasiado doce. Talvez seja má vontade de minha parte. Talvez seja eu que já não tenho maneira de bem-receber as coisas que a cidade tem para mim.
Pago o café e o pastel de nata ao balcão. Depois pago o parque de estacionamento. E saio com o carro. Espero não ter de cá voltar se não daqui a um ano. Saio do parque de estacionamento subterrâneo e descubro que está a chover. Vejo as pessoas a correr para se abrigarem. O céu está cinzento. A cidade também. Continua sem árvores. Vá lá, há coisas que continuam iguais. E, de repente, já não há ninguém na rua.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/29]

A Pequena Manifestação dos Miúdos pelo Pouco Futuro que Me Resta

Eu estava à janela quando os vi passar. Vinham em grupo. Um pequeno grupo caótico. Um grupo de muitos pequenos grupos mais pequeninos. Mas vinham todos ao mesmo. Pequenos grupos a formar um pequeno mas maior grupo a apelar ao mesmo. Andavam aí pelos doze, treze, quatorze anos, talvez quinze. Mais raparigas que rapazes. Deve ser aquele amadurecimento precoce, diz-se. Os rapazes levam a meninice mais longe. As raparigas crescem mais cedo. Ainda vão dominar o mundo. Só ainda não o fizeram por pena. Pena de nós. De sermos ultrapassados sem apelo nem agravo. E depois ainda vão ter de nos dar mimo enquanto choramos agarrados à saia da mãe. Elas são mais na escola. Tiram melhores notas. São mais aplicadas. Quer dizer, é o que eu acho numa análise empírica feita aqui assim à minha volta. Não fui à Pordata. Estou à janela a fumar um cigarro enquanto vejo os miúdos a caminho da sua manifestação, não vou agora lá dentro, ao computador, à internet, para conferir algo que acredito ser verdadeiro. Se estivesse a escrever para um jornal lá teria de ir confirmar se a afirmação é verdadeira ou não para não me acusarem de Fake News. Mas isto é a minha cabeça a debitar ideias para mim mesmo. Ninguém está a controlar a minha cabeça, pá. Posso dizer o que quiser. Ca-ra-lho-Fo-da-se! Pronto! Estás a ouvir-me, mãe? Não, claro que não! Por isso posso dizer tudo o que me apetecer. Mas não vou muito mais longe porque o que me apetece dizer é mesmo isto que vejo e confirmo: esta geração, esta geração muito novinha é muito mais aguerrida que as que a precederam. A minha, então?! A minha ajudou a foder o mundo. Eu, se calhar, também, não sei. Mas não sou ninguém. Nunca fui. Não sou líder. Nem chefe. Não sou responsável por nada nem ninguém. Sempre cumpri ordens. Era essa a minha função. Cumpridor de ordens. Talvez também seja culpado pela minha inacção. Talvez. Olha, processem-me! Mas agora, agora gosto de olhar pela janela e ver estes miúdos a agitar as coisas. A exigir. A exigir o que é deles.
Ia mandar a beata pela janela e parei a tempo. Mesmo a tempo com a beata ainda presa entre dois dedos. Desatei a rir. Lembrei-me de uma amiga que se irrita comigo por estar sempre a mandar as beatas pela janela fora, para a rua. Depois, lembrei-me das multas. Agora pagam-se multas por deitar beatas para a rua. Em boa altura parei o que ia fazer.
Fui à cozinha. Apaguei a beata no cinzeiro. Acendi outro cigarro. Gosto de fumar. Faz-te mal, rapaz, ouvia a minha mãe dizer. Não fumes. Mas gosto desta companhia. O cigarro conversa comigo. Dá-me colo. Ajuda-me a criar. A desenrolar raciocínios. E então, na companhia de um copo de vinho tinto, temos uma orgia em casa. Fui ver o que havia no armário. Uma garrafa já encetada de Segredos de São Miguel. Bom, era alentejano. Mau, não seria. E não foi. Pelo menos enquanto resistiu às minhas investidas.
Voltei à janela com o copo de vinho. Acendi outro cigarro. A rua estava calma. A manifestação já tinha passado. Parecia que tinha levado a cidade de arrasto. Não se via ninguém. Parecia Domingo à hora da missa. É assim que imagino a cidade ao Domingo à hora da missa. Nunca confirmo. A essa hora estou deitado, a dormir. A dormir e a sonhar como será a cidade aquela hora, à hora da missa. E era isto que eu via. O vazio. O abandono. O silêncio.
Mas decidi ficar por ali à janela à espera que regressassem de lá para onde tinham ido. Os regressos são, normalmente melhores. As pessoas vêm mais soltas. Mais alegres. Satisfeitas com o que fizeram, especialmente se fizeram algo em que acreditam. E se fizeram bem. E eu acho que fizeram.
Fui buscar o cinzeiro para ao pé de mim.
Ainda aqui estou. Eles ainda não passaram, mas hã-de passar. E eu vou bater-lhes palmas e dizer-lhes que o mundo é deles. Que o agarrem. Mas eles vão achar que estou bêbado. E vão dizer O raio do velho está bêbado. Não! Vou ficar calado mas a gritar por eles cá dentro. Afinal são eles que estão a lutar pelo pouco futuro que ainda me resta.

[escrito directamente do facebook em 2019/09/27]

Quem É que Está Aí?

Sinto a porta da rua a abrir. Deve ser ela, penso. Está de regresso, finalmente. Já era tempo, não?
Aproveitei a vergonha do sol para arrumar a lenha que me vieram trazer a casa. Não estava muito calor. Chuviscou um pouco. Peguei no carrinho-de-mão e andei, para cima e para baixo, a acartar a lenha para debaixo do telheiro. Amealhar para o Inverno. Enquanto ainda nos deixam queimar madeira para nos aquecermos.
Ia no segundo carrinho quando o sol despertou e veio na companhia do calor. Custou-me carregar o resto da lenha. Não sei quantas viagens fiz com o carrinho-de-mão. Mas ganhei umas bolhas nas mãos. Despertei a minha alergia ao calor e tive de tomar um Zyrtec. Demorou a fazer efeito.
Enquanto acartava a lenha para o telheiro pensei na conversa que tinha tido com ela no dia anterior. A conversa que azedou e acabou por me deixar sozinho em casa.
Eu só tinha dito que a culpa era dela. Não dela, dela, especificamente. Mas de todas as elas e eles e nós. Eu! Eu também me incluía na culpa mas, na conversa, tinha-me saído um dela por força das circunstâncias. Estávamos a discutir e era eu contra ela. E ela levou com a culpa. Mas a culpa não era só dela. Mas também. Eu só disse A culpa é tua. E ela, admirada, quase escandalizada, perguntou Minha? Minha como? e eu respondi-lhe Porque votaste neles. E ela ficou ali assim, admirada, de boca aberta, a olhar para mim.
O sol já tinha despertado. Abrira as portas ao calor. A transpiração corria-me corpo abaixo. E eu pensava no que ela me tinha dito.
Mas eu sou só um voto e votei para protestar. Não significa mais que isso. Um protesto que não tem poder nenhum. Um voto. O que é que isto significa? Nada! Não significa nada! Mas significava. Tanto significava que eles tinham chegado ao poder. Todos os votos unitários contados um-a-um conseguiu elegê-los. Com maioria absoluta. E estavam a transformar tudo. A vida como nós tínhamos aprendido a viver. Tudo transformado em nome da eficiência. Em nome do futuro. Mas qual futuro? Era tudo muito obscuro e bizarro. Porque nem sequer é para todos. Quem pode pagar pode comprar a bula. Porque há bulas. Há sempre bulas. Há bulas para quem pode pagar. E foi isso que lhe quis explicar. Que pessoas como nós, estão sempre fodidas. Utilizam-nos e depois descartam-nos. Os outros, os que podem, os que mandam, esses podem sempre pagar para ser como eles querem. E, ironia do destino, somos sempre nós que elegemos esta gente. Era isso que eu lhe estava a explicar. E ela só me perguntou E eu sou a culpada pela merda de vida que agora temos? E eu nem precisei de lhe responder. Olhei para ela. Um olhar parvo e cínico, admito. Só olhei para ela. E ela viu a resposta no meu olhar.
Já estava cansado quando fiz a última viagem até ao telheiro com o resto da lenha. E parecia que tudo aquilo era só para me chatear. Na minha última viagem o sol despediu-se. O céu cobriu-se de negro, trouxe de volta um pouco de frio e um bocadinho de chuva. Pensei Ao menos a lenha não fica molhada.
Parei debaixo do telheiro a olhar para a pilha de lenha. Arrumei o carrinho-de-mão. Observei a chuva e voltei a pensar na conversa que tinha tido com ela.
Mas já não houve conversa. Ela ficou zangada comigo. Levantou-se do sofá e saiu de casa. Ouvi o carro a descer a alameda e a sair o portão. Onde andaria?, pensei.
Afinal está aqui, de regresso a casa. Afinal a conversa era estúpida. Não era caso para tanto. Claro que ela era culpada. Ela como eu. Mas não precisava de ficar zangada comigo e sair porta fora. E pergunto alto És tu?, mas ninguém me responde. Nem ouço barulho. Não me chega o cheiro dela. Não lhe ouço a respiração. Nem lhe sinto os passos. Quem será? Quem é que está aí?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/18]