As Águias São Imperiais

Às vezes dá-me para isto. Podia dar-me para outras coisas, mas dá-me para isto. Deito-me ali debaixo da laranjeira, enquanto ainda tem ramagens e folhas que me dão sombra, pego numa azeda que espeto na boca e chupo aquele suco amargo, ponho-me a olhar as nuvens a passar sonolentas no céu e recordo, recordo com saudade, pedaços de vida a que não voltei mais mas a que gostava de voltar.
Não sou muito nostálgico. Não choro pelo que passou. Mas às vezes dá-me assim aquele aperto no coração, acompanhado de uma certa angústia ou ansiedade e tento perceber o porquê. Às vezes é só fome. Outras vezes é falta de um copo de vinho tinto ou de um cigarro. A merda das adicções. Mas também já foi mesmo a saudade. A saudade pura e dura. Nessas alturas gostaria mesmo muito de ter uma máquina do tempo e regressar a esses momentos. Não sou muito de regressos, como já disse, mas às vezes, às vezes, às vezes a vida prega-me rasteiras e eu nem me reconheço.
Hoje não havia azedas, já não há azedas há muito tempo, peguei num cigarro, na almofada da cama e numa toalha de banho e fui estender-me debaixo da laranjeira, à sombra das braças da laranjeira, braças suficientes para me darem sombra, mas não tantas que me tapem a vista e, então, pus-me a olhar as nuvens e deixei-me embalar pelo ritmo cadente da sua passagem sobre mim.
Estava num piquenique. Há muitos anos que não tinha um piquenique. Estava num piquenique. Tinha um copo de vidro com vinho tinto numa mão. Um folhado misto na outra. Tentava falar mas não conseguia que tinha a boca atulhada com o folhado misto, fiambre e queijo, que estava uma maravilha. À minha volta riam-se. Gente que já não via há muito tempo. Alguns há anos. Outros, julgava-os mortos. Partilhavam comigo o vinho. Queijinhos secos. Um fio de azeite sobre os queijinhos. Umas fatias de pão alentejano a fazer companhia aos queijinhos. Ali tudo era companhia. Engoli o folhado misto e falei. Não ouvi o que disse, mas toda a gente à volta tomou atenção. Toda a gente se calou para me ouvir. Acho que gosto de ser ouvido. Nunca tinha pensado nisso. Nunca tinha pensado em mim assim. Nunca tinha pensado nesta minha necessidade de ser ouvido. Preciso disso? De ser ouvido? Que me ouçam?
Estávamos à volta de uma mesa de pedra debaixo de um pinheiro manso na encosta da montanha com vista sobre o vale. O verde predominava. Havia umas águias a planar sobre nós. Talvez fossem uns milhafres, não sei. Embora não conseguisse ouvir qualquer som, o ambiente parecia tranquilo e suave e, o único som, talvez fosse o produzido por nós, à volta da mesa. Os risos que saíram das bocas rasgadas no fim de uma conversa minha. Uma palmada nas costas. Uma mão que me afagou o rosto e senti o calor da mão, senti o calor da mão no lado de cá do sonho, uma mão leve e carinhosa.
Na mesa de pedra repousavam embalagens com iguarias várias. Húmus de beterraba, Pão alentejano. Queijinhos secos. Azeite. Folhados mistos de fiambre e queijo. Um chouriço caseiro cortado à navalha. Pedaços de morcela previamente assada. Ovos mexidos com espargos salteados. Garrafas de vinho. Várias garrafas de vinho. Garrafas vazias.
Eu levantei-me da mesa e acendi um cigarro. Avancei até à beira da estrada e da encosta que se precipitava lá para baixo.
Olhei as nuvens no céu por cima de mim e pensei Eu sei que me estou a ver. Eu sei que não sei se isto aconteceu ou irá acontecer. Mas também sei que a satisfação não vem só com o que existe ou existiu, mas também com o que sonho, com o que imagino. É por isso que faço filmes. É por isso que escrevo histórias. É por isso que componho canções. É por isso que pinto quadros e esculpo esculturas. Às vezes sinto-me deus. Um deus. Um pequeno deus. Um pequeno deus para as pequenas coisas da minha vida. Do meu dia-a-dia. Não preciso de agarrar na bíblia e mostrá-la às pessoas. Não preciso dizer que tenho Deus sobre mim, sobre nós. Eu sou deus e não preciso de proclamações.
Dei um pequeno grito quando o cigarro queimou por completo e chegou-me aos dedos. Abri os olhos e vi uma águia em forma de nuvem a pairar sobre a minha cabeça. Acendi outro cigarro e pensei Gosto de águias. São imperiais.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/06]

Da Vida como Ela Era

A minha mãe contava-me que a mãe dela, a minha avó, era do tempo em que uma sardinha assada era o almoço de uma família. A sardinha era pendurada no alto, pendurada pelo rabo, sobre um prato, sobre um prato para onde escorria o molho da sardinha, e as pessoas passavam um bocado de broa pela sardinha para guardarem o sabor que haveria de ficar na boca antes do pedaço de broa descer ao estômago mirrado pela fome.
A minha mãe também me contava que, lá na aldeia onde a mãe dela, a minha avó, cresceu, a criançada era alimentada a sopas de cavalo cansado para aguentarem um dia inteiro na jorna, ali no campo, de sol a sol.
A minha mãe ainda me contava que, no tempo dela, dela minha mãe, não podia ir sozinha ao café. Poder, podia, mas não era de bom tom. Senhora que quisesse continuar a ser senhora não devia ir sozinha ao café. Com os filhos sim, para lhes dar o lanche, um gelado, comprar uma pastilha Pirata e fazer a colecção de cromo da bola. Uma senhora não devia fumar em público. Nem podia sair do país para viajar e conhecer mundo sem autorização escrita do marido, meu pai.
Mais a minha mãe me disse que, no tempo dela, havia crianças descalças na rua. Não ela, nem os irmãos dela, meus tios, mas outras crianças do bairro, com menos possibilidades, menos trabalho, menos salário, menos vida.
A minha mãe também contar-me-ia que eu teria tudo e não ligaria a nada. Teria uma casa com estantes cheias de livros e nunca leria nenhum. Uma discoteca imensa em vinil e só ouviria os relatos da bola em onda média. Uma colecção de carrinhos da Matchbox e só brincaria com caricas das Sagres médias que o vizinho do lado, regressado do Ultramar, acabaria por deitar abaixo diariamente para esquecer o que tinha deixado lá longe, o bom e o mau, e a minha mãe repetir-me-ia, o bom e o mau.
Mas de todas as coisas que a minha mãe me contou ou contar-me-ia, o que eu mais gostei de ouvir foi quando ela disse para eu ir mundo fora conhecer o que não conhecia e queria conhecer e que quando quisesse regressar, a porta de casa estaria aberta e ela haveria de fazer um refogado todos os dias para que o cheiro dos seus cozinhados me guiassem de volta para casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/05]

Regressar a Casa, parte 06 e Final

[continuação]

Vejo o tecto desfocado. As duas rachas transformam-se em quatro.
Sinto a aragem a passar pelo meu corpo e a provocar-lhe um pequeno arrepio. Mas não é frio. Não está frio. Talvez seja a passagem de algum fantasma. Talvez seja a passagem de alguma memória.
Levanto-me da cama e vou à estante dos livros. Procuro o Príncipe Valente. Não o encontro. Aliás, não encontro nenhuma banda-desenhada. E depois recordo-me que as levei todas comigo e acabaram por ficar lá atrás, numa das minhas casas, numa das minhas vidas. E depois percebo que gostaria de voltar a ler o Príncipe Valente, mas que já não o vou voltar a comprar. Já não vou voltar a comprar livros que já comprei. Já o fiz e não quero voltar a fazer. Há livros que já comprei duas e três vezes e continuo sem eles. Já não vale a pena. Já comprei. Já li. A maior parte deles já os li. Já desfrutei. Talvez alguém mais tenha desfrutado, talvez mesmo apreciado. E isso é o principal, não é?
Não quero mais comprar livros que vou deixar nalguma casa onde não irei voltar. Nunca regresso aos sítios de onde saí.
E o que é que faço aqui, então?
Olho em volta. A cama. A estante. A escrivaninha. O sofá. A cadeira. A máquina de escrever em cima da escrivaninha. Há quantos anos não ouço aquele matraquear? Taque-taque-taque…
Acendo um cigarro.
Ouço-me perguntar alto Ficava aqui bem um escritório, não ficava? Talvez mesmo uma pequena biblioteca?
O telemóvel toca. Agarro nele e vejo quem está do outro lado. Desligo o telemóvel. Depois viro-me no quarto, para as paredes do meu antigo quarto e digo Estantes em toda a volta. Uma secretária à janela. A escrivaninha recuperada para outro lado qualquer.
De repente sinto-me cheio de energia. Mando a beata do cigarro pela janela fora, para o quintal, e ouço-me censurar Tens de deixar de fazer isso! e sorrio.
Ouço a voz da minha mãe dizer O dia de amanhã ninguém sabe! e agradeço à minha mãe o nunca ter-se desfeito daquela casa tão cheia de memórias, recordações, fantasmas das minhas vidas passadas e que sinto que querem voltar a viver.
O telefone volta a tocar. Vejo de novo quem é e não atendo.
Puxo as persianas para baixo mas deixo os vidros abertos para a casa arejar. Se vou regressar cá para casa a casa tem de perder este cheio a humidade e mofo. Sinto-me contente com a minha decisão. Mas já decidi? Vou fechando as persianas e decido O meu quarto no quarto dos meus pais. Decido No meu quarto uma biblioteca. Decido A sala mantém-se a sala. Decido A cozinha precisa de mais espaço e uma mesa para trabalhar, que gosto de trabalhar na cozinha, e maior abertura de janela para o quintal. E decido Preciso de mandar verificar as canalizações. Decido Tenho de mandar verificar a instalação eléctrica, o quadro, as fichas, as tomadas, os interruptores, os fios, os cabos, essa coisa toda que nem sei o que é. Chego à porta da rua, viro-me para trás, para o corredor de regresso a uma certa penumbra e digo Parece que já decidi mesmo. E digo Tenho de ir buscar os livros que fui deixando por aí, e é só nesse momento que me baixa uma pequena angústia ao imaginar voltar a contactar com algumas das pessoas com que vou ter de contactar.
E pergunto-me Valerá a pena?
Que se foda! Claro que vai valer a pena. Recuperar anos e anos de livros, aqui, aqui na casa onde tudo começou. Onde eu comecei. Onde nasci e me criei. De onde nunca me fui verdadeiramente embora, afinal. Sei-o agora.
E vejo a minha mãe a cruzar o corredor da cozinha para a sala com uma panela fumegante e o meu pai logo atrás a abrir uma garrafa de vinho. Olham-me e sorriem-me.
O telefone volta a tocar. Volto a olhar para quem me chama. E agora atendo. Mas nem espero que digam nada. Digo eu Afinal a casa não está para venda. Saiu de mercado. Aliás, nem sequer lá chegou a entrar. E desligo.
Saio para rua e fecho a porta. Fecho a porta à chave. Passo devagar ao longo do quintal em direcção ao portão. Olho as árvores mal tratadas. As pequenas árvores quase mortas. Os arbustos moribundos. A erva crescida ao Deus-dará. As ervas daninhas. O canto cheio de fisális. Penso Tenho de arranjar um jardineiro. E penso que tenho amigos arquitectos. Arquitectos paisagistas. Não é para isto que servem, também?
Ao chegar ao portão viro-me para trás, para a casa, olho, olho com atenção e ainda tomo outra decisão Um alpendre. O que esta casa precisa é de um alpendre. E saio pelo portão para a rua. E sinto-me mesmo de regresso à casa-de-partida. Ao sítio onde tudo começou. Onde eu comecei.
De repente lembro-me dos primeiros dias de escola e da maravilha dos cadernos novos e dos livros por estrear e dos lápis afiados e as canetas com tinta e a borracha lisinha e a pasta sem vincos nem coçada e a caixa nova de doze canetas de feltro e a caixa nova de doze lápis-de-cor e a caixa nova de doze lápis-de-cera e a caixinha de aguarelas e os tubos de guache e os pincéis e o mata-borrão e o compasso e o transferidor e o esquadro e a régua-t e…
Calma, pá! Calma! Não estás a regressar à escola, estás somente a regressar a casa, à tua casa, e dá-te por contente se conseguires recuperar os livros que foste plantando em casas-alheias. Já será um bom regresso. Já será um bom recomeço.
E vejo-me a sorrir como um tonto, a caminhar sozinho na rua, a pensar nas voltas que a vida dá para acabarmos a regressar ao início.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/24]

Regressar a Casa, parte 02

[continuação]

Olho para a janela da cozinha por onde a minha mãe me chamava por diminutivo e vejo-a lá, nem nova nem velha, mãe, que foi o que ela foi sempre, mãe, e penso se vale a pena entrar em casa e deixar-me perder em histórias que já deviam estar mortas.
O que é que lá vou fazer? Recuperar memórias antes da casa ser vendida? Talvez lá estejam ainda os discos de vinil, os discos que nunca levei para mais lado nenhum das minhas casa por se ter intrometido o cd e o mp3 e o streaming e os vinis ficaram cá por casa nas estantes que pedi ao meu pai que fizesse, que tinham de ser fortes para aguentar o peso dos discos que foram sendo comprados ao longo de anos, primeiro timidamente nas discotecas da cidade e depois, mais tarde, vindos directamente de Inglaterra, por correio, porque cá não havia, e eu por ansioso a aguardar, e nunca mais chegavam, os discos, que as coisas às vezes demoravam a chegar e a aparecer, e era quando apareciam, e já o António Sérgio me ensinava o gosto pela diferença, o prazer de escutar sons que não escutava em mais lado nenhum e que fazia de mim um privilegiado que conhecia coisas que a maior parte dos meus amigos não conhecia e ficava muito contente quando encontrava alguém assim, um desconhecido com os mesmo gostos que eu, principalmente se fossem raparigas, e para quantas delas não fiz eu cassetes-pirata com selecções minhas das músicas que passariam a ser nossas pelo tempo que fosse, e nunca era muito tempo porque os gostos mudavam à velocidade da luz e era impossível estar parado, tranquilo, com os acenos que a vida nos dava e hoje, quando penso na calma da vida que levo hoje, na música que já não ouço e nas raparigas com quem já não namoro, pergunto se cresci como devia, se envelheci como devia, se a minha vida foi aquilo que quis que fosse ou se foi aquilo que mereci, depois de tantas cabeçadas dadas ao longo dos anos sempre a aprender, sempre a aprender, mas sempre a cometer os mesmos erros, sem perceber que as mesmas acções dão sempre os mesmos resultados, depois de fugir de casa, da cidade, do país, conhecer mundo e gente diferente com gostos e conhecimentos muito diferentes para terminar aqui, outra vez, no mesmo país, na mesma cidade, na mesma casa, a casa que foi minha, e ainda é claro, agora que os meus pais se foram, agora que eles morreram e a casa está vazia e em silêncio e eu só quero é desfazer-me dela e continuar a minha vida longe de histórias que já ficaram lá para trás e algumas delas não gostaria de lembrar, algumas delas foram esquecidas, trabalhei duro para as esquecer e agora, agora que olho para a janela da cozinha e vejo a minha mãe a chamar-me pelo diminutivo, e se eu não aparecer breve levo, talvez, umas palmadas no rabo, talvez com a colher-de-pau que as mãos da minha mãe são muito frágeis, e eu pergunto o que será feito das cassetes-pirata que nunca seguiram caminho, as cassetes-pirata que gravei e nunca foram entregues, por vergonha ou por prazo de validade, se elas ainda por lá estarão, mas gavetas da escrivaninha do meu quarto onde não entro há tantos anos mas que a minha mãe sempre quis preservar, não fosse o diabo tecê-las e eu tivesse de regressar a casa de partida, O dia de amanhã ninguém sabe!, dizia-me sempre.
Ainda terão os nomes para quem foram gravadas, as cassetes? ou a ideia de terem nomes é uma esperança que invento hoje, agora, na vã tentativa de recuperar o que não pode ser recuperado?
Talvez também esteja por lá o fato do judo que aprendi durante algum tempo, a luta não era o meu forte, não é, nunca foi, e que cor é que cheguei a atingir?, o amarelo, talvez, não sei, mas não andei por lá muito tempo, ainda me lembro bem do fato de judo com que gostava de andar vestido por casa a fingir-me mestre e com o qual cheguei a mascarar-me num Carnaval para fugir ao eterno fato de Cowboy com as calças de ganga de todos os dias, o chapéu e a pistola de fulminantes e o cinto com o coldre e a estrela de Sherife, que um Cowboy que se presasse era sempre um Sherife, comprado no Bazar das Novidades, que sempre imaginei muito maior do que na realidade era, mas foi num ano muito frio e acabei por apanhar uma pneumonia porque a parte de cima do fato estava sempre a abrir-se e acabei constipado e com os meus pais a terem de me levar ao hospital para saberem o que podiam fazer por mim que me viam a sofrer sem saber o que fazer.
Sim, mãe, tudo o que passaste para que eu não sofresse dos problemas comezinhos do mundo e agora foste embora, tu e o pai, e eu fico por cá sozinho, sem saber o que fazer, sem saber se meto a chave à porta e entro em casa ou se viro costas e vou embora.

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/20]

Regressar a Casa

Já lá não ia desde a morte dos meus pais. Agora precisava de ir. Não precisava mesmo. Podia não pensar em tudo o que está semeado por lá, tudo o que foi semeado por lá ao longo dos anos, dos meus anos também, durante a minha infância e adolescência, todos os segredos que fui guardando em cofres impossíveis de serem encontrados, em caixas do tempo que iria abrir alguns anos depois e que esqueci, ou perdi o interesse, não sei, há alturas na vida em que somos parvos e fazemos gala dessa parvoíce, como as cidades que deitam casas antigas, casas com história, abaixo, ou as árvores, que estão sempre doentes, nunca vi árvores para adoecer como as árvores da cidade e ao longo do rio, coitadas, sempre doentes, sempre a apodrecer, sempre a fazerem tudo para serem serradas, podadas, deitadas abaixo, às vezes também é porque tiram a vista a alguém importante, ou sujam a calçada, e para que é que interessa a sombra que fazem nas pedras de basalto da cidade quando se percorre as ruas da cidade de automóvel com motorista?
Na verdade não precisava de ir lá a casa. Podia deitar fora a chave, vender a casa a quem quisesse comprar, com ou sem recheio, segredos, livros, poemas escritos aos dezasseis anos, contos que se arrastavam em folhas soltas e que um dia iriam fazer um livro, um Epitáfio à Loucura, um nome assim pomposo na arrogância da minha adolescência, e depois largados por lá, perdidos em gavetas, no meio de livros que nunca mais abri, ficaram a apanhar pó que a minha mãe nunca mexia nas minhas coisas, era eu que limpava sempre o pó aos livros, aos discos, às prateleiras que ia enfiando no quarto, era preciso acomodar sempre mais livros que apareciam assim, às carradas, nasciam do dinheiro das senhas de almoço que não comprava, dos trabalhos que prometia à vizinhança, à minha mãe, ao meu pai, para poder ler quando descobri que havia mais gente no mundo que eu e que tinham histórias fantásticas de vidas absurdas, tão longe da minha para me contarem, e são ainda alguns destes livros que ficaram por lá, Os Cinco, os Sete, As Gémeas no Colégio de Santa Clara, O Colégio das Quatro Torres, a colecção Mistério, livros que guardei para os meus filhos e foram ficando por ali, eles cresceram, não ganharam hábitos de leitura, nunca lhes cheguei a dar os livros e eles agora não servirão para mais ninguém, nem para mim que não tenho vontade de regressar à infância, uma infância em que a vida ainda podia ser uma aventura nos Rochedos do Demónio, mas ainda por lá estarão outros livros, livros para alguém mais crescido, como os livros do Harold Robbins que devorei na cama noites dentro, de lanterna em punho e a porta encostada para os meus pais não verem a luz acesa tão tarde em dias de aulas, e cadernos inteiros com desenhos e riscos e palavras soltas e nomes de miúdas, miúdas de quem gostava, algumas já nem saberei quem são, quem foram, mas devem ter sido importantes que as miúdas sempre foram importantes na minha vida, mesmo as que não me ligavam nenhuma que eu sempre gostei das miúdas mesmo as que não gostavam de mim, algumas delas vieram a gostar anos depois mas já era tarde, não era?, que o comboio só passa uma vez na estação, li esta frase estúpida não sei onde e sempre pensei que a iria utilizar um dia e ainda estou à espera desse dia.
Quantos anos passaram desde que aqui entrei pela última vez?
Lembro-me de ver a minha mãe ali à janela, naquela janela ali, a janela da cozinha, onde ela ia chamar-me, chamar-me pelo meu nome em diminutivo, em altos berros para toda a rua e todo o bairro saberem que ela andava à minha procura, malandro, e onde é que eu andaria? Por aí, mãe, por aí.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/19]

A Tentar Dançar à Chuva

Acordei com os pés gelados. Pensei logo no tempo em que usava uma botija de água quente para aquecer a cama e os meus pés. Pensei na falta que as mães fazem nestes momentos. Bastava gritar Mãe! Oh, mãe! e a minha mãe vinha a correr acudir as necessidades básicas de sobrevivência ao meu dia-a-dia. Nunca tinha os pés frios. Quando saí de casa dos meus pais, acabaram-se os pés quentes. Ninguém nunca mais me aqueceu água para a botija.
Não foi por causa dos pés gelados que acordei. Acordei com a chuva a bater violenta contra a janela do quarto. Acordei assustado. Parecia mesmo que a tempestade estava com vontade de entrar pelo quarto dentro. Sentia o vento a soprar nas árvores aqui à volta. Ouvia o assobio terrível, provocador, do vento. Pensei se a casota do cão estava a aguentar o embate. Pensei por onde andariam os gatos. O alpendre devia estar inundado. O telheiro do carro talvez fosse uma solução. Às vezes vão para cima do carro e deixam-se lá estar a dormir. Já tive que os enxotar para poder sair com o carro. Já tive de parar ao portão para os tirar de cima do capot onde vão deitados a olhar para mim como se me perguntassem Que raio é que estás a fazer, pá?
Os olhos habituaram-se à escuridão e começaram a ver alguns contornos que a gretas abertas das persianas da janela e os números luminosos das horas do rádio-despertador digital acentuavam.
Virei-me de lado na cama. Senti dor na coxa. E na perna. E no braço. Tudo do lado esquerdo. Tinha-me esquecido da queda. Tinha dado uma queda na estrada, lá em baixo. Andava a passear na estrada. Andava a desconfinar. Estava de calções e t-shirt. Estava sol. Sol e calor. Estava um belo dia para usufruir do desconfinamento e sair à rua. Ouvi um barulho atrás de mim e virei-me. Desequilibrei-me e caí no chão. No asfalto. Tive uma espécie de vertigem que me fez dançar na estrada, prendeu-me os pés e fez-me tombar no chão. Escorreguei um pouco para a vala da berma, cheia de brita, e raspei o meu lado esquerdo e a palma das duas mãos. Fiz sangue no braço. Esfacelei a coxa e rasguei os calções. Regressei a casa. Furioso, claro. Tomei banho. Pus betadine. Abri a porta do congelador. Agarrei na garrafa de Moskovskaya e levei-a à boca. Bebi. Bebi como se não houvesse amanhã. Doía-me o corpo.
Olhei para a rua através da janela da cozinha. Ainda era de dia. Deu-me o desânimo. Senti um peso nos ombros. Senti uma nuvem escura sobre a cabeça. Uma nuvem escura e trovejante. Gritei. Gritei Foda-se! bem alto. Nem sei porquê. Gritei, só. Guardei a garrafa no congelador. Fui para o quarto. Abri a cama. Enfiei-me lá dentro. Fechei os olhos e pensei Dorme!
Quando acordei tinha os pés gelados. Os pés gelados e o corpo dorido. Mas só percebi o corpo dorido quando me virei na cama. A chuva batia intensamente na janela. Parecia querer entrar. Eu fechei os olhos mas estava desperto. Não conseguia voltar a adormecer.
Acendi a luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira. Sentei-me na cama. Peguei no iPad. Fui ao Facebook. Ao Instagram. Ninguém. Abri um programa de desenho e fiz um. Chamei-lhe A Tentar Dançar à Chuva. E mandei-o para as redes sociais. Depois levantei-me e fui fazer torradas. Estava com fome.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/10]

Matar Saudades

Passeio de braço dado com a minha mãe. Ou melhor, eu levo as mãos dentro dos bolsos das calças de ganga coçadas e ela tem a mão dela agarrada ao meu braço, e como que é puxada por mim, mas não a puxo, deixo-a ir à velocidade dela, devagar, muito devagar, com a bengala a servir de apoio, depois pára, cumprimenta alguém, há sempre alguém para cumprimentar, mas à distância, sempre à distância, levanta o braço, Olá! Boa tarde!, como se já não visse os seus conhecidos há uma eternidade. E é! Na sua contagem, é uma eternidade o tempo que tem estado em casa, a ver a vida a fugir-lhe, o tempo a encurtar, conta os anos, os aniversários que faz, almoçamos juntos no dia de anos e diz Que para o ano aqui possamos estar outra vez! E vamos estando, mal ou bem vamos estando por aqui e talvez consigamos chegar a outro aniversário. Já não falta muito! Pois não, mãe, já não falta muito.
Passeamos ali à volta da casa dela. Olha as montras. Conta-me histórias. Histórias que já ouvi tantas vezes. Outras são novas. Não sei se são histórias reais ou se as inventa. Mas ouço-a. Às vezes respondo-lhe. Mas eu estou ali para a ouvir falar, não para comentar. Passeamos pela cidade. Eu à velocidade dela, pela cidade quase-deserta e sinto-lhe uma certa tristeza no olhar. O vazio incomoda-a. Gosta de ver gente. De ver gente nova a andar sempre atrasada pelas ruas da cidade.
Recordo quando era ela que me levava. Mãos-dadas. O meu braço esticado. Puxado pela sua velocidade. Naquele tempo era ela que andava depressa. Às vezes tinha de correr. Correr para acompanhar o passo decidido da minha mãe.
Recordo um dia na praça da Nazaré, eu e a minha mãe de mãos-dadas a caminho da praia. Eu estava chocho. Estás a chocar alguma, dizia-me a minha mãe. Parávamos no quiosque a meio da praça e eu escolhia umas bandas-desenhadas. Na altura eram só histórias aos quadradinhos. O Fantasma. O Mandrake. O Buffalo Bill. Histórias do FBI. Histórias do Faroeste. E naquele dia estava chocho e acabámos por regressar a casa. Eu fui-me deitar na cama. Veio o médico. Estava doente. E fiquei de cama durante muito tempo. Mas as revistas foram sempre chegando. Já não era eu que as escolhia, era a minha mãe. Talvez o meu pai. Devorava-as todas. Mais que uma vez. Fiquei muito tempo em casa naquela altura. Lembro-me da saturação. O estar farto, mesmo com tantas histórias aos quadradinhos para ler. Mas já não saía com a minha mãe. Já não andava na rua de mãos-dadas com a minha mãe. Já não corria. Já não via pessoas. Já não ouvia o barulho ensurdecedor da cidade a pulsar.
Percebo como a minha mãe está saturada de estar em casa. Sozinha em casa. E os cuidados que lhe estou sempre a recomendar. Mas acho que tenho de alargar o cordão sanitário à sua volta.
Vamos passear, mãe. Vamos à rua. Vamos passear pela cidade. Ver as montras. Ver pessoas. Dizer olá às pessoas conhecidas. Contares-me as mesmas histórias de sempre. Ou outras que te lembres. Ainda te levo à padaria para comprar pão. Talvez uma broa de milho. Ao talho para comprares umas iscas de vaca de que tens saudades. Talvez à peixaria para ver se compras uns jaquinzinhos, não é mãe? Ou umas petingas. Temos de matar saudades de tudo o que temos saudade, não é mãe?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/24]