Isto Vai Durar Até Quando?

Saí de casa. Estou sempre a sair de casa. Vai-não-vai, aí vou eu. Saio de casa e fecho a porta nas minhas costas. Fecho a porta com estrondo nas minhas costas. Para se ouvir. Para se ouvir que saí de casa.
Faço uma pequena mochila com algumas coisas. Cuecas, meias, um livro. Coisas assim. Essenciais à vida de todos os dias. E penso Desta vez é que é! Como se fosse. Mas nunca é.
Pego na mochila. Saio de casa. Fecho a porta com estrondo nas minhas costas e entro nas ruas da cidade. Nos dias de chuva é mais chato. Gosto mais dos dias de sol. Caminho pelas ruas luminosas enquanto penso no que fazer. Para onde vou? Casa de amigos? Pensão? Alojamento local?
Acabo quase sempre por optar pelo Ibis. Não é caro. É relativamente anónimo. Não está bem no centro da cidade embora não esteja longe. É um hotel discreto.
Mas é sempre uma tristeza.
Acabo deitado em cima da cama. Uma cama sem colchão. As camas do Ibis são de espuma. Deito-me e afundo-me. Cinco minuto depois estou cheio de dores nas costas. Mas aguento. Porra! aguento tanta coisa. Também aguento uma dor nas costas.
Acabo deitado em cima de uma cama de espuma num quarto do Ibis. Vestido. Calçado. O cinto a apertar a barriga. As sapatilhas a sujar a manta branca. O comando da televisão na mão a fazer zapping em canais que nunca vejo a não ser lá, de todas as vezes em que habito lá. Já tenho ficha no Ibis. Já me fazem desconto. Já me arranjaram dormida num dia treze de Maio de lotação esgotada com os peregrinos de Maria. Sou um bom cliente. Um cliente habitual.
Há vezes em que ainda nem decidi o que fazer, ou seja, ainda estou a adiar a solução Ibis, e já o telemóvel toca. Não atendo. Sei que é ela. Ouviu a porta a bater com estrondo. Primeiro fica furiosa. Depois arrepende-se. Em seguida liga-me. Eu não atendo. Volta a ficar furiosa. Manda umas mensagens a refilar comigo. A chamar-me nomes. És um merdas! Depois pára. Normalmente eu já estou no Ibis, deitado sobre a espuma da cama, de comando da televisão na mão a fazer zapping sem nenhum objectivo quando chega a primeira mensagem das desculpas.
Desculpa, diz. Desculpa desculpa desculpa, volta a dizer. Desculpa, não queria dizer o que disse, insiste. Depois chegam várias outras mensagens a explicar porque chegámos ali, aquele ponto. Àquele ponto específico. Aponta as culpas dela. Aponta as minhas culpas. Eu não respondo logo. E ela pergunta onde estou. Onde é que estás?, pergunta. E eu continuo sem responder. E ela avança logo Estás em casa de alguma amiga, não é? E eu rio-me. Um riso amarelo, é certo. Mas acho piada a que tudo se resuma a isso. Estás com alguma amiga, não é? Apetecia-me dizer-lhe que não. Não, não estou com nenhuma amiga, percebes? Estou sozinho. Sozinho no Ibis. Sozinho no Ibis a fazer zapping por canais de merda que nem sei do que falam. Mas não digo nada. Não telefono. Não mando mensagens. Não atendo nem respondo ao que me lança. Ainda estou muito zangado. Não saí de casa por sair. Saí porque me zanguei. Fiquei farto. Quis cortar a ligação. Ir embora. Disse-me Desta vez é que é. E não! Não é!
Passa um dia ou dois. Acabo por atender o telefone. Acabo a falar. A ouvir as desculpas dela. A pedir as minhas desculpas. A pensar que é uma idiota. Que sou um idiota. Que somos todos uns idiotas que só estamos bem onde não estamos. Que só queremos o que não temos.
Olho para o livro na espécie de mesa-de-cabeceira. Não consigo ler. Não tenho espírito para ler. Continuo no zapping. Acabo por ficar num qualquer canal alemão onde não entendo nada do que é dito.
E, depois, acabo por voltar para casa. Acabo sempre por voltar para casa.
A última vez que aconteceu foi hoje ao fim da tarde. Já nem sei porquê. Mais uma discussão parva. Voltei a sair de casa. Voltei a bater a porta com estrondo nas minhas costas. Voltei a caminhar pelas ruas da cidade, já a escurecer e com o frio a cair sobre mim. Voltei a decidir-me pelo Ibis. Voltei a não atender o telemóvel.
Estou deitado em cima da cama de espuma com as sapatilhas a sujar a manta branca. Tenho o comando na mão e faço zapping por canais que nunca vi. Já recebi várias mensagens dela. A última era a perguntar Qual das tuas amigas te cedeu cama? Qual delas te abriu as pernas? E eu estou zangado. Estou sozinho. Estou sozinho a precisar de calma. Não vou responder a estas mensagens. Amanhã vamos fazer as pazes. Daqui a dois dias estou de regresso a casa. E pergunto-me Isto vai durar até quando?

[escrito directamente no facebook em 2019/03/16]

Na Stereogun

Fui convidado para ler uns textos na Stereogun.
A princípio nem queria acreditar. Estórias na discoteca! Para quem?
Conversaram comigo. Tentaram convencer-me. Explicaram as razões.
Pensei.
Pensei.
Aceitei.
Seleccionei uns textos. Preparei-os. Li-os. Reli-os. Alterei alguns para serem lidos em voz alta. Para serem percebidos por quem ouve a minha voz. Para não matar de tédio o paciente habitual de uma casa de música.
Chegou o dia.
Estava nervoso. Escolhi a roupa com dificuldade. Tomei banho. Despenteei o cabelo. Vesti-me. Despi-me. Vesti outra roupa. Mudei de t-shirt. Tomei uma Cecrisina. Usei o Ventilan. Tudo na prevenção. Não consegui jantar. Tinha o estômago às voltas. Como se estivesse a preparar-me para um exame. Fui à casa-de-banho. Várias vezes.
Fui mais cedo para a Stereogun. Tive de esperar à porta que chegasse alguém. Estava tudo fechado. Era muito cedo. Chegara demasiado cedo. E precisava de ir, de novo, à casa-de-banho. Os nervos.
Chegou alguém. Abriu a porta. Deixou-me entrar. Fui directo à casa-de-banho. Mas que estava eu ali a fazer? Não conseguia frequentar casas-de-banho públicas! Lavei a cara. Esfreguei-a. Esfreguei os olhos. Olhei no espelho. Puxei de um cigarro. Acendi-o. Fiquei ali, na casa-de-banho, a fumar o cigarro, a olhar-me no espelho e a dizer-me Caga nisso! Não é nada! Nada de especial!
Quando saí da casa-de-banho, já a discoteca estava aberta ao público. Já havia algumas pessoas por lá. Fui para o balcão. Uma mini, pedi. E um Bushmills. Sem gelo. Despejei-o de um trago. Fiquei a brincar com a mini. Repeti a dose. E perdi-me nas contas.
Fui despertado por alguém que me agarrou pelo braço e me levou para o palco. Estava lá um banco alto. Encostei-me. Alguém colocou os meus textos num suporte à minha frente. Ao lado do microfone. Deu umas pancadas no microfone. Ouvi o pum-pum nas colunas. Deu-me também uma pancada nas costas e sussurrou-me Muita merda, pá! E por instantes não percebi. O que é que o gajo queria dizer com aquilo? Quis segui-lo com o olhar, mas o olhar embaciou e depois perdi-o na escuridão.
Eu estava debaixo de um foco de luz. Não via nada à minha frente. Esqueci onde estava. Esqueci tudo. Esqueci-me de mim.
Acendi um cigarro. Ouvi alguém dizer qualquer coisa, mas não percebi o quê. Um tipo aproximou-se de mim e tirou-me o cigarro. E disse Então, pá? Começa a ler a merda dos textos! E eu respondi Vai para o caralho!, mas acho que ele não ouviu. Ou não ligou. Ou cagou em mim.
Acendi um cigarro. Ouvi alguém dizer, aos berros pareceu-me, Apaga essa merda! Mas não tenho a certeza. Um tipo aproximou-se de mim, tirou-me o cigarro da mão e deixou-me um copo de whiskey. Acho que era whiskey porque bebi-o num gole e era amargo. Devia ser whiskey.
Acendi um cigarro. Comecei a sentir-me mal. A luz que tinha nos olhos estava a fazer-me confusão. Estava a ficar com calor. Tirei a t-shirt. Queimei-a no cigarro. Doía-me a barriga. Desculpem, o estômago – parece que é esta a expressão correcta. Continuei a fumar. Coloquei a mão em pala sobre os olhos para ver onde estava. Para ver quem é que ali estava. O que havia para além do projector, do foco de luz.
Ouvia barulho. Barulhos. Vozes. Um bruá de vozes. Não percebia o que as vozes diziam. Mas ouvia-as. Vertigens. Estava com vertigens. A cabeça começou a andar à roda. Segurei-me mais ao banco, mas o corpo não queria obedecer. Senti-me rodopiar. O projector de luz cegou-me. O corpo bailava. A cabeça parecia explodir. O estômago refilava comigo. Estava sozinho. Estava ali sozinho e não sabia onde estava. O cigarro caiu-me dos dedos para o chão. O estômago revoltou-se e rebentou. Senti uma massa amarga subir por mim acima. E da minha boca saiu um esguicho de coisas. De várias texturas. De inúmeras densidades. Vomitei. Vomitei para a minha frente. Vomitei tudo o que tinha dentro de mim para a minha frente. Ouvi gritos. Berros. Alguém gritou Filho-da-puta! Não sei se foi para mim. Senti-me cair. Senti dor. Dores. Senti-me magoar. Acho que vi sangue. Podia ser vomitado. E depois…
E depois tudo desapareceu. E eu desintegrei-me.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/20]

A Chuva de Perseidas

O som chega-me em stereo.
Eu espreito pela janela para tentar ver a chuva de estrelas, não o antigo programa da SIC que a Catarina Furtado apresentou, mas a de Perseidas. Engano. É dia. É tarde. O sol está brilhante, espetado lá em cima no céu, estão trinta e cinco graus, e a única coisa que está lá pendurada, a fazer companhia ao brilho do sol são as nuvens, aquelas nuvens brancas, branquinhas, redondas, feitas de espuma, as nuvens dos Simpsons, a estenderem-se horizonte fora. Não, não há chuva de estrelas. Ainda é de dia e está sol.
Mas o som chega-me em stereo.
De um lado, ela. Nem sei já o que diz. Que importa? São só palavras. Palavras sem sentido. Palavras que actuam como facas, a cortar, a cortar, a fazer sangrar. Os ouvidos. A cabeça. Do outro lado o cão. O cão, lá fora, que não pára de ladrar. Aquilo entra-me cérebro dentro e fura-o. Destrói-me os nervos. Está a deixar-me louco. Louco em stereo.
Dói-me a cabeça. Queria ver a chuva de estrelas. Mas o som em stereo, um som alto, alto e repetitivo, monocórdico, como um mantra maléfico, terrível, como setas, setas perfuradoras, aguçadas, está a dar comigo em doido.
Vou à dispensa e agarro na pressão-de-ar. Saio de casa. Ela nem se apercebe. Continua a falar. Nem se apercebe que saio. Aproximo-me da casota. O cão está preso por uma trela pequena que lhe limita o espaço de movimentação. Está a ladrar. Está em pé, preso pela trela, a ladrar. Ladra como punhais que se espetam na minha cabeça. Aponto a pressão-de-ar e disparo. Disparo uma única vez. Certeiro. O cão deixa de ladrar. Sinto alívio na cabeça. Pelo menos momentâneo. Vejo o cão deitado frente à casota. Deitado e quieto. Uma poça de sangue a formar-se à sua volta. O silêncio. O silêncio por enquanto.
Logo volta a ladainha dela.
Regresso a casa. Arrumo a pressão-de-ar na dispensa. Passo por ela que continua a refilar. Não percebo o que diz. As palavras não fazem sentido. Um de nós dois está em erro. Ou eu não percebo o que ela diz, ou ela não diz nada que seja perceptível. Mas continua, continua… Continua…
Ela olha para mim quando passo por ela. Não se apercebeu que saí de casa. Pego no jarrão que está à entrada, levanto-o acima da cabeça e lanço-o para o chão. Um estrondo transformado em mil e um pedaços de porcelana espalhados por todos os buracos da casa e, finalmente, sim, finalmente, o silêncio. O silêncio total. Penso que até as putas das cigarras se calaram.
Ela parou de falar. Ficou parada, talvez incrédula, a olhar para o jarrão, feio, horroroso, quebrado em mil e um pedaços espalhados pela casa.
Suspiro.
Suspiro de alívio.
Respiro fundo e recupero o ritmo. O meu ritmo. As batidas estão mais espaçadas. Tranquilas. Relaxo.
Olho para ela e vejo-a de boca aberta. Parada. Como uma fotografia. Still.
E digo-lhe Vou beber um café, queres vir? E ela balbucia qualquer coisa que não percebo, não oiço. Um murmúrio que nem o é, inaudível. Ela não sai do lugar. A boca mexe-se. Abre-se e fecha-se. Mas não diz nada.
Aceno a cabeça em compreensão e saio de casa sozinho.
Fecho a porta nas minhas costas. Já não a oiço refilar comigo. Cá fora, o cão deixou de ladrar. Está a começar a escurecer. Talvez ainda consiga ver a chuva de estrelas. Mas entretanto, um cigarro. Liberdade.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/13]

Ri-te Agora, Cabrão!

Já jantei.
Ninguém sabe onde eu estou. E, então, agora que já passou Maio, o belo mês de Maio, mês da Feira e da cidade do Lis, agora que os feirantes já foram embora, agora que a polícia começou a preparar-se para a chegada dos emigrantes e não tem tempo para outras estórias, agora que já passou tempo e não houve consequências, e agora que já estou de barriga cheia (comi um T-Bone a esguichar sangue bem regado com um Quinta do Mouro tinto 2010), já posso contar o que aconteceu.
Estava na fila do Penim para comprar duas farturas (uma para mim e outra para a minha mãe – ela gosta muito das farturas do Penim). Estava calor. Um sol diabólico num dia de um azul forte e sem nuvens. Transpirava. Sentia o meu cheiro e o dos tipos na fila, à frente e atrás de mim. Todos a transpirar. A transpirar que nem cães.
Chegou-se um velhote de bengala e foi lá à frente, à rulote, e pediu uma dúzia de farturas. Lá à frente as pessoas começaram a refilar. Vai para a bicha, velho, diziam. Bicha és tu, pá, eu sou um ancião e tenho prioridade, respondeu.
Tinha razão. Tinha prioridade. É um privilégio da idade, poder fintar a fila do Penim em dia de muito calor e sol abrasador.
Toda a gente se calou. Olharam uns para os outros constrangidos.
O velhote foi atendido. Pegou nas suas farturas e foi embora. Com um sorriso cínico nos lábios.
A fila retomou a sua marcha lenta.
Foi preciso esperar que se fizessem mais farturas.
O odor da transpiração aumentava. Eu derretia debaixo do sol. Tinha sede. Queria um chapéu. Um gelado. Mergulhar nas águas geladas de São Pedro de Moel. Um cigarro. Ah, o que eu dava por um cigarro! Mas não tinha nenhum. E atrás e à frente só gente verde. Estupidamente verde.
Finalmente, ao fim de quase uma hora de pára-arranca debaixo do sol, chegou a minha vez. E então, ou esperava mais um bocado por novas farturas que ainda estavam a fritar ou levava dois cus de fartura, mal feitos, tortos e já frios. Depois de tanto tempo decidi levar as duas farturas frias e mal feitas – as pontas. Ora porra!
Ia eu com o meu saquinho a dizer Farturas Penim pela mão, a dar-a-dar, quando me cruzei com o velhote que estava a distribuir as farturas pelos dealers da cidade – sim, eu conheço-os todos. Estavam a rir, os cabrões. A mamar cerveja de litrosa, que passavam de mão-em-mão, e a devorar as belas farturas. Uma verdadeira festa.
Eu parei. Eu parei a olhar para eles. Senti-me cansado. Saturado. Senti-me enganado. Começou a despertar-me um nervoso miudinho. Fui acometido por uma fúria que me fez rebentar borbulhas pelo corpo, pelos braços e pelas pernas. A minha cara, vermelha do calor e do sol apanhados na fila, ficou púrpura.
Respirei fundo. Larguei o saquinho das farturas no chão. Agarrei o canivete suíço. Abri-o. Aproximei-me dos dealers e em movimentos de bailado, rápidos e seguros, cortei-lhes as gargantas a uma velocidade mentirosa – daquelas que ninguém que não tenha visto pode acreditar. Eram cinco e, quando cortei o quinto, já o primeiro jazia sem respirar e os outros deitavam golfadas de sangue do pescoço, sem conseguir gritar.
Deixei o velhote para o fim.
Era mesmo velhote. Não conseguia correr. Tentava fugir agarrado à bengala. Aproximei-me dele. Estava mijado. Olhei-o nos olhos. Senti-lhe o medo. E perguntei-lhe Agora não te ris?
Tirei-lhe a bengala da mão e parti-a.
Agarrei o saquinho das farturas.
E fugi.
Fugi da cidade.
Escondi-me.
Ninguém sabe de mim.
Quando me esquecerem, quando já não souberem quem eu sou, regresso à cidade para ver a minha mãe. E talvez levar-lhe outra fartura do Penim.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/05]

Eu, a Preto e Branco

Tinha uma data de livros empilhados à entrada de casa. Não sabia onde os meter. A casa é pequena e não abunda espaço vazio. Mas ali à entrada estavam no caminho das baratas. Tinha de os tirar de lá.
Abri o armário e vi o aspirador. O aspirador que já não saía dali há meses porque estava avariado. Tirei-o do armário e coloquei-o na rua, à porta de casa. Peguei nos livros e enfiei-os no armário. Ficaram empilhados na mesma, sem ordem, só uns em cima dos outros. Pelo menos consegui que ficassem com a cota virada para a entrada. Para perceber que livros eram. Mas não fiquei satisfeito com a arrumação. Não gosto dos livros arrumados assim, em pilhas, como se estivessem acampados. Como se eu fosse desleixado com eles. Como se eu não me importasse com a sua vida. Com as estórias que me contam. Mas importo. Importo sim. Às vezes até mais do que com as pessoas.
Fechei a porta do armário e pus-me a varrer a casa. É inacreditável a quantidade de cotão que surge do nada. Os montes de lixo agrupado nos cantos, debaixo dos móveis, no trajecto dos cabos de todos os aparelhos eléctricos e electrónicos da casa.
No fim transpirava. A respiração estava pesada. Aquele pó todo tinha-me activado um ataque de asma. Sentei-me no sofá e acendi um cigarro. Senti os pulmões a acalmar. E eu também. Relaxei. Levantei-me e abri a janela para deixar sair o fumo do cigarro, mas sabendo da quantidade de lixo que viria a entrar, de novo, em casa.
Depois saí. Peguei no aspirador e fui levá-lo ao ponto do lixo. Deixei-o de fora, encostado ao caixote do rsu.
E fui jantar.
Fui a uma cervejaria ali da zona. Sentei-me ao balcão. Pedi um bitoque e uma imperial. Enquanto esperava, fui à rua fumar um cigarro. Estava a chover. Tinha começado a chover e enfiei-me debaixo do beiral do prédio. Os pingos da chuva caíam no passeio e espalhavam-se por todo o lado e iam molhando-me as sapatilhas.
Ao fundo vi um casal a caminhar à chuva. Ela levava um chapéu-de-chuva. Ele levava a gola do casaco de ganga levantado. Mas iam a passo, como se a chuva não os incomodasse. Ela refilava com ele. Falava alto. Dizia muitas asneiras. Insultava-o. Mas nenhum deles olhava para o outro. Passaram à minha frente mas ignoraram-me. Ela continuou a falar alto para ele como se não me tivessem cruzado. A dizer coisas que eu não queria ouvir. Não devia ouvir. Mas as pessoas são assim. Fervem em pouca água. Agridem os outros. Dizem o que querem e o que não querem. Acusam-nos de tudo. Das maiores vilanias. Dos maiores crimes. Dali a pouco ela estaria a pedir-lhe perdão. Desculpa, diria ela. Ele não iria conseguir dizer não. E aquela relação iria perdurar até um deles se cansar, se passar e fazer alguma merda. Daquelas merdas que ocupam páginas no Correio da Manhã ou os programas do Hernani Carvalho.
Mandei fora o resto do cigarro e entrei na cervejaria à procura do meu bitoque.
Quando me sentei ao balcão olhei em frente e vi-me. Vi-me no espelho que estava à minha frente. Senti-me a preto e branco. Pesado. Cansado. E percebi que eu era a minha única companhia. Ninguém me gritava. Ninguém me batia. Ninguém me agredia. Ninguém iria fazer-me merda. Ou pelo menos assim eu acreditava.
O bitoque chegou.
Rasguei um bocado de pão e molhei-o no ovo a cavalo. A minha boca abriu-se e engoli aquele creme amarelo, tão saboroso que rapidamente me fez esquecer a minha solidão. E pensei que, lá em casa, dentro do armário, estava um livro à minha espera.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/26]

Não És Tu, Sou Eu

Acordei ansioso.
Percebi que o dia se estava a preparar para me dar cabo da vida. E não me enganei.
Mal cheguei ao trabalho fui chamado à gerência. Que gostavam muito do meu trabalho, que era mesmo uma das pessoas mais qualificadas que por ali andava, que sabia fazer, quando fazer e o que fazer. Mas precisavam de controlar despesas. E a maneira mais rápida e eficiente era mandar embora alguns colaboradores. Colaboradores, não empregados. Não era nada de pessoal comigo. Era mesmo um problema deles. Não és tu, sou eu. Downsizing, percebes?
E tiveram de procurar razões para ser uns e não outros. Eu era bom, e eficiente, mas era rebelde, chato, insatisfeito, sempre de mau feitio e a refilar com tudo. E já estava a entrar numa idade avançada. É preciso dar lugar aos novos, aos jovens turcos. E era um alivio verem-se livres de mim.
Final de contrato. Sem direito a indemnização. Arranjei-a bonita. E agora? O que é que iria fazer, agora? Com esta idade?
E podia ir embora. Já não valia a pena fazer o que tinha planeado para fazer. Podia ir tratar da minha vida.
Percebi que era um cancro. Que estava a ser arrancado antes de espalhar metástases por todo o lado.
E percebi que não importava se eras bom, quanto eras bom, se não agradavas a quem tinhas de agradar. No fundo, mesmo na lógica liberal não se abandonam os preceitos da célula. Quem está em cima manda em quem está em baixo. E o respeitinho é uma coisa muito bonita.
Peguei nas minhas poucas coisas e fui embora.
Entrei num snack-bar. Sentei-me ao balcão e pedi uma cerveja. E a manhã foi passando na companhia das cervejas. Ao almoço comi uma sopa e entrei no vinho. A meio da tarde comi um rissol. Era de noite quando pedi um cachorro, daqueles à antiga, duas salsichas Nobre abertas ao meio e fritas na frigideira e colocadas numa carcaça previamente torrada e barrada com um pouco de manteiga. Depois espremi lá para dentro um pouco de mostarda. Acho que continuei na companhia do vinho. Depois bebi um café e uma Macieira. A partir daí, as coisas estão envoltas numa nebulosa.
Acordei na casa-de-banho do snack-bar, caído entre a retrete e a parede. A casa-de-banho estava imunda e acho que eu também. Reparei que tinha vomitado sobre mim. Tentei levantar-me, escorreguei no vomitado e voltei a cair. Quando consegui sair, fiz toda a distância até à porta da rua quase a correr para manter o equilíbrio e não voltar a cair.
Cheguei à rua e vi que a noite tinha caído. O ar fresco despertou-me um pouco.
Cheirava mal. Olhei para mim, de cima a baixo, e vi que estava molhado e sujo. Faltava-me uma sapatilha. Não tinha comigo as coisas que tinha… Que coisas? Já não me lembrava, mas sei que tinha umas coisas.
Não sabia o que fazer. Não sabia para onde ir. Olhei à volta para perceber onde estava e não reconhecia nada.
E, de repente, lembrei-me que tinha sido dispensado do trabalho. Caiu-me um enorme peso em cima. As pernas fraquejaram. Começou a faltar-me o ar. Fiquei com taquicárdia e pensei que o coração me ia saltar peito fora. Comecei a morder os lábios e a arrancar as peles com os dentes e a abrir e fechar as mãos. Os dedos estalavam. Pus-me a atravessar a estrada e, então, só vi um enorme clarão…

…agora estou aqui em cima a olhar para mim, lá em baixo. Há gente à minha volta. Há gente a chorar. Eu estou calmo, tranquilo. Mas penso É por mim que estão a chorar? Agora? Agora que já não estou lá? É por mim?

[escrito directamente no facebook em 2018/01/17]

Empurrei-a Varanda Abaixo

Saí do trabalho e passei pelo supermercado. Antes de ir para casa quis comprar umas coisas de que precisava. Mandei-lhe uma mensagem a perguntar se precisava de alguma coisa. Eu ia ao supermercado e ela podia aproveitar. Respondeu-me com uma palavra: iogurtes.
Entrei no supermercado e lá comprei o champô, uns sabonetes, uma pasta dos dentes, uma garrafa de vinho e uns queijinhos. Vários queijinhos. Uns maiores e outros mais pequenos. Uns mais rijos que outros. Uns muito mal cheirosos. E depois, os iogurtes.
Quando cheguei ao linear dos iogurtes, deparei-me com um mundo maravilhoso e desconhecido. Havia mais iogurtes que marcas de cerveja. Iogurtes com e sem pedaços. Iogurtes de fruta e de aromas. Iogurtes naturais. Naturais açucarados e açucarados com baunilha. Iogurtes com fruta, com creme de fruta, com gelatina, com bolacha e com M&M’s. Iogurtes com pedaços de chocolate, achocolatados e barras de chocolate com iogurte. Iogurte que afinal é queijo. Iogurte com estrelas, smarties e muesli que se pode despejar, ou não, no recipiente. Iogurtes líquidos, cremosos ou enqueijados. Iogurtes de leite, sem lactose, sem glúten, de soja. E ainda há uma outra classe que são os iogurtes com bífidos activos. Porra. Senti-me deprimir. Virei costas e não comprei nenhum iogurte.
Cheguei a casa e levei com descompostura. Que não fazia nada de jeito. Que não tinha esquecido o vinho e os queijos, mas os iogurtes, era pedir demais à minha cabecinha.
E eu ouvia-a refilar. A princípio tentei ignorar. Arrumei as compras. Mas ela veio atrás de mim. Sempre a zurzir-me aos ouvidos. Sobre a minha incompetência, o meu desdém, a indiferença com que tratava das vontades dela. Que era frio, gélido, egoísta.
Arrumei as coisas todas. Abri o frigorífico e agarrei numa cerveja. Peguei no maço de cigarro e acendi um. E fui para a varanda fumar o cigarro e beber uma cerveja.
Estava frio na varanda, mas ela veio atrás de mim. Sempre a refilar, a tentar discutir, a insultar-me. Por causa de uma porra de um iogurte?
Ainda disse Só sabes beber e fumar? e foi nessa altura que a empurrei com uma mão. A mão que estava livre. Tinha a cerveja na mão esquerda, largara o cigarro aceso na boca e, com a mão direita, empurrei-a para fora da varanda. E vi-a cair do prédio. Ainda me cheguei ao muro da varanda para espreitar lá para baixo. E vi-a caída, sem se mexer. Virei-me e encostei-me ao muro. Acabei de fumar o cigarro enquanto pensava E agora? Telefono aos bombeiros ou à polícia? Mas não precisei de pensar muito tempo porque, ao fundo, já se ouviam umas sirenes. Deitei fora a beata do cigarro e acendi outro. Depois deixei-me descair muro abaixo e fiquei sentado na varanda. À espera.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/07]