Billy, o Botas

Era miúdo e lia muita banda-desenhada. No meio daquelas enormes pilhas de revistas, especialmente a preto e branco, que se amontoavam em prateleiras improvisadas à espera de um conhecimento metodológico que acabaria por vir só com a idade, ao contrário da bronquite que desapareceria com o adiantado da idade, diziam os médicos aos meus pais, e nunca desapareceu, havia umas revistas que eu lia mais que todas as outras, relia até à exaustão, sei que algumas delas se gastaram de tanto serem folheadas e as outras, as que restaram, não sei onde param, talvez nalgum caixote dos inúmeros que vou deixando plantados nas casas por onde vou passando à espera de os recuperar um dia mais tarde, mas sem já fazer grande fé no futuro que é cada vez mais negro que o passado alguma vez foi. Chamava-se Billy, o Botas, era da autoria de Fred Baker (argumento) e John Gillat (desenho), mas foi, depois, desenhado por outros ilustradores.
Billy, o Botas era Billy Dane, um pobre coitado, órfão, que viva com a avó, gente pobre, sem muitos recursos (por vezes, e agora que penso nisso, encontro alguns paralelos com a história do Homem-Aranha, e a vida de Peter Parker com a tia May e as enormes dificuldades económicas que enfrentam no dia-a-dia), para agravar as coisas, era uma nulidade no futebol, desporto que ele gostava acima de tudo. Um dia descobriu umas chuteiras velhas, que tinham pertencido a uma antiga glória do futebol inglês, Chuto Mortal, era assim a alcunha dessa antiga estrela, e ao calçar as chuteiras dessa antiga glória, Billy ganhava a capacidade de ser uma recriação do Chuto Mortal, como se as chuteiras tivessem memória e reproduzissem, nos pés de Billy, as jogadas do Chuto Mortal.
Estávamos nos anos sessenta, eu conheci Billy, o Botas nos anos setenta e, cá como lá, viviam-se tempos difíceis. As estórias eram sobre esses tempos difíceis e, os jogos que Billy jogava, e ganhava, quase sempre sozinho, por obra e graça do par de chuteiras velhas que tinha nos pés, eram um paliativo para a vida miserável que levava. Que levávamos. Todos nós.
Hoje, passados tantos anos, ao lembrar estas estórias com indisfarçada saudade, penso no cinema de Ken Loach que só vim a conhecer alguns, bastantes, anos depois, mas cujo ambiente também estava aqui. O realismo inglês. Problemas sociais. Os bairros sociais. As casas de renda barata. As famílias miseráveis. A pobreza extrema. A fome.
Lembro-me que, na mesma colecção, ou noutras colecções, a memória já não é como era (eram livros editados por Rossado Pinto, que também publicava o Jornal do Cuto, uma espécie de Revista do Tintim para pobrezinhos – o Jornal do Cuto era a preto e branco e tinha menos páginas, era um jornal e não uma revista – embora fosse, mesmo assim, uma revista, não é?), havia outras estórias com o desporto como pano de fundo, como Peter, o Gato, que era um guarda-redes, Kangaroo Kid, Os Pupilos de Carson, Scruffs! e Craig, o Bala de Canhão, que eram, também, todos eles sobre futebol, Kid Gloves, que era um boxeur e o Fishboy que era um nadador, mas todas as estórias tinham um cunho social muito forte, as personagens eram todas marginais, lumpens que através do desporto, conseguiam ascender a uma vida que lhes estaria vedada à partida.
Estas revistas que eu tinha (tenho? ainda terei?) eram a preto e branco e em papel de fraca qualidade. Mais tarde vim a perceber que, algumas destas histórias eram, originalmente, a cores mas que as edições de Rossado Pinto eram a preto e branco para serem mais baratas e mais acessíveis. A miúdos como eu.
Recordei estas estórias e lembrei-me de Billy, o Botas, ao ver os milhões que o futebol movimenta. Hoje. Em plena pandemia. Os milhões que alguns dos miúdos ganham. E o sonho que alguns deles ainda acalentam, alguns deles que não passam da enorme massa anónima que recebe mal, não tem grande futuro, mas que permite que os bons sobressaiam.
Com os algoritmos que tendem a afunilarem-nos o gosto e o novo conhecimento, sinto às vezes falta da descoberta feita nas escaparates montadas por gente que tinha gosto naquilo que vendia. E percebia o que tinha em mãos. Gostava dos produtos que vendiam.
Hoje sinto uma certa tristeza ao passar nos lineares dos hipermercados e ver as pilhas de livros indiferentes que estão por lá largados por alguém que se está nas tintas para todos eles. E quem os leva, na maior parte das vezes, fá-lo por desfastio. Levar um livro como quem leva duzentas e cinquenta gramas de fiambre da pá Nobre, ou cento e cinquenta gramas de queijo flamengo, em barra, que é para tostas, se faz favor!
Os livros, e em especial estas revistas simples e pobrezinhas, não só as de desporto, de onde fui relembrar o Billy, o Botas, mas todas as outras estórias de cowboys e de super-heróis (sim, da Marvel e da DC, também a preto e branco, em edições baratinhas), o Tarzan, o Fantasma e o Mandrake, carregavam em si uma magia que mesmo assim, com todas as suas lantejoulas e purpurinas, a internet não consegue combater. Eu também sou um utilizador das novas tecnologias. Também ando pelas redes sociais. Também me perco pelo Youtube. Mas quando quero mesmo evadir-me, é com um livro nas mãos, tenha só letras ou quadradinhos (era assim que se chamava a banda-desenhada naquele tempo), e sem estar preso à ditadura do algoritmo.
Quem não lê, não sabe o que perde.
E eu tenho saudades do Billy, o Botas. Gostava de um dia poder recuperar esse caixote. Esse, entre outros. Esse e outros. Todos.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/10]

Escondido

Tínhamos ido todos juntos. Amigos, amigos de amigos, conhecidos. Era uma manifestação em jeito de festa. Tínhamos pintado os cartazes em casa. Uns em português. Outros em inglês. Uns a preto e branco. Outros muito coloridos. Ensaiámos palavras de ordem. Uns amigos, com uma banda de música, iam dar um concerto na manifestação, ali no meio dos manifestantes, sem palco, sem som de retorno, em jeito acústico. A girar entre as pessoas que tinham saído dos seus buracos de segurança, dos seus sofás, das suas redes sociais, para irem para a rua gritar, lutar, contestar, chamar a atenção. Afinal, toda a gente pensava da mesma maneira.
Anti-racistas. Anti-xenófobos. Anti-homofóbicos. Pela liberdade.
Era uma manifestação que era também uma festa. Depois de tanto tempo em reclusão por causa do contágio, sabia bem voltar à rua, voltar a ver amigos, e sentirmos-nos úteis por estarmos a lutar por aquilo em que acreditávamos.
De início, parecia mesmo uma festa.
Vivíamos numa bolha. Todos os amigos e os amigos dos amigos e os conhecidos, todos eles eram assim, pensavam assim, manifestavam-se por esses valores.
Depois, acabámos todos por perceber que o mundo não é a nossa bolha.
Eu tinha marcado encontro na esplanada do Jardim Luís de Camões, em Leiria. A concentração era na Praça Rodrigues Lobo e depois subiríamos até aos paços do concelho para entregar um manifesto na Câmara Municipal.
Bebi um café na esplanada do jardim. Estava muita gente. O ambiente era de franca euforia. Era Verão, estava sol e muito calor, e as pessoas estavam contentes com os reencontros. Depois começámos a ir para a Praça Rodrigues Lobo.
Alguém fazia um discurso com megafone. Parecia vir do lado dos arcos, onde estão os cafés. Pelo menos era para lá que estava toda a gente virada. Encontrei amigos. Cumprimentei-os acenando a cabeça. Ainda não estava preparado para tocar em ninguém. Sem vacina, eu fazia o meu papel. Máscara na cara, uma certa distância das outras pessoas e sem tocar nos outros. No bolso, um pequeno frasco com álcool.
Alguém tentava dizer alguma coisa, mas não se percebia. O som do megafone e o bruá de toda aquela gente não permitiam grandes conversas mais íntimas entre as pessoas sem que elas se aproximassem. Eu não me aproximava.
Foi então que veio uma carrinha de caixa aberta vinda do Largo Cinco de Outubro. Primeiro não percebi muito bem o que estava a acontecer, embora tivesse percebido alguma agitação. Uns tipos carecas, com farda para-militar e uma braçadeira vermelha no braço esquerdo, saltaram de cima da carrinha para o meio dos manifestantes, com tacos de baseball, e começaram a bater em toda a gente com quem se cruzassem. Batiam a torto e a direito. Primeiro, fiquei bloqueado. Deixei de ouvir o megafone. O bruá elevou-se. Agora ouviam-se mais gritos. Havia gente a correr. As pessoas corriam para uma qualquer das ruas que saem da Praça Rodrigues Lobo. Levado pelo pânico, também eu despertei do meu torpor e acabei a correr pela Rua Rodrigues Cordeiro, passei em frente ao restaurante Porto Artur e vi as pessoas que estavam na esplanada a olharem espantadas para toda aquela gente em fuga. Ao chegar à Rua Direita, virei à esquerda para subir ao Terreiro, quando reparei que estava uma outra carrinha de caixa aberta com outros carecas fardados munidos de tacos de baseball à espera, ao fundo da rua, à entrada do Terreiro. Voltei para trás. Enfiei-me numa das ruas da zona histórica que sobe até ao castelo. Perdi os meus conhecidos. Mas ia no meio de um mar de gente. Gente que fugia como eu. Gente que fugia não sabia bem de quê. Quer dizer, saber sabíamos, mas não queríamos acreditar que essas coisas acontecessem ali, exactamente ali, em Leiria, uma cidade pacata onde nunca acontece nada. O que é que se estava a passar na cidade? Quem eram aqueles tipos fardados, com fardas a lembrar os militares, que estavam a bater em toda a gente, sem olhar a quem? E a polícia? Onde é que estava a polícia?

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/07/18]

Avalanche

A vida é feita de avalanches. Umas seguem-se às outras. E nós, as nossas vidas, seguem enrodilhadas nessas avalanches que nos levam pelo tempo. Quando estamos bafejados pela sorte, as coisas boas sucedem-se umas às outras e, por vezes, é comum ouvir-se falar em maré de sorte. Quando estamos amaldiçoados pelo azar, não há nada que possamos fazer que altere o nosso estado de alma: a única coisa que conseguimos atrair é o azar. Raios nos partam, dizemos.
Chego ao fim-de-semana. É Sábado mas podia ser qualquer outro dia. Mesmo dia da semana. Sei que é fim-de-semana porque o telemóvel informa-me. Mas tudo na minha vida se mantém igual desde há cerca de três meses.
Comecei por ficar em casa porque me aconselharam a tal. Um conselho prudente. E fui ficando. Fui percebendo que, se por um lado a vida não pode parar, porque se não morremos da doença morremos da fome, por outro lado, não precisamos de saltar da frigideira para o lume. Acelerar as coisas? Talvez seja mesmo isso que algumas pessoas andam a fazer.
Tenho ficado por casa. O meu azar é também a minha sorte, pelo menos aqui, nesta falta de necessidade de ter de sair de casa para trabalhar. Saio quando tenho de sair. Quando sou obrigado a sair. Com responsabilidade. Com cuidado. Em segurança. Levo luvas. Máscara. Uma garrafinha de álcool. Mantenho distâncias. E não me deixo influenciar pela ocorrência. Deixei de ouvir as pessoas. As pessoas normais, pelo menos. As pessoas como eu. Pessoas que não sabendo nada julgam que sabem tudo. Já ouvi todo o tipo de teorias. Já ouvi pessoas aconselharem uma coisa e o seu contrário. Chega. Não serve para nada usar álcool nas mãos? Também não fará muito mal. O álcool provoca problemas dermatológicos? Quando tiver um problema de pele, vou tentar resolvê-lo. Para já, uso. Chega de teorias e ultimatos de sabedoria.
Há três meses que deixei de frequentar o café. Gostava de me sentar numa esplanada a beber uma bica, uma água tónica, uma cerveja, um gin, a ler um livro, uma revista, o jornal do dia. Conversar com este e com aquele. Petiscar um rissol de camarão. Um pastel de nata queimado. Ver quem passava. Imaginar estórias. Há três meses que deixei de frequentar o café. Agora entro, bebo uma bica ao balcão e vou embora.
Ao princípio pensei sentir falta disto. Falta de pessoas. Falta de conversa. De discussões. Falta da amizade. Falta de jantares com companhia. Falta de toque. De beijos. De sussurros no ouvido.
Afinal, três meses passados e sim, sinto falta de estar sentado numa esplanada a ler um livro e sentir a aragem fresca do fim-de-tarde, mas não sinto falta das pessoas. Talvez a deficiência seja minha. Talvez seja um erro de programação. Talvez esteja somente numa maré de azar com as pessoas. Talvez eu me seja suficiente. Talvez a distância das redes sociais seja o meu conforto que impede de me magoar.
A vida é feita de avalanches. Umas a seguir às outras. Nada é definitivo. No final de uma, começa sempre outra. Depois do azar, a sorte. Agora estou numa avalanche solitária. Solitária mas responsável. Talvez amanhã regresse aos meus dezasseis anos e arranque eu mesmo com a minha própria avalanche sem me preocupar com as consequências. Afinal, amanhã é sempre outro dia.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/04]

Relevo

Está um belo luar. Não que esteja a apreciá-lo, mas porque me permite ver à minha volta. Quase parece dia mesmo sendo noite. À minha frente vejo as ondas a bater na areia. E ouço-as. Ouço-as como o ribombar do trovão. Às vezes é ensurdecedor, faz-me medo e diz-me quão pequeno sou. Outras vezes faz-me só chorar. Nem sei porquê.
Esta semana voltei a ouvir as pessoas, as pessoas no seu geral, nenhuma delas em particular, que isto é uma ideia generalizada, que a depressão é incógnita e ninguém dá por nada, nunca ninguém dá por nada como se houvesse uma culpa, e ninguém pede ajuda a ninguém, e ninguém diz nada a ninguém, até se é uma pessoa sorridente e feliz, aparentemente feliz, com uma família feliz e feliz no trabalho de todos os dias. E o que é que querem? Que as pessoas andem com os pergaminhos da sua condição pendurados ao pescoço como os diplomas e certificados profissionais pendurados em paredes imaculadamente da cor da casca de ovo?
Há muitos motivos para a depressão e não sou eu que irei falar deles, que não sei nada disso. Não sou médico, nem psiquiatra nem psicólogo. Sou só um tipo como os outros que tem os seus altos e baixos motivados pela vida, pela vida de todos os dias, pelo trabalho ou pela sua ausência, pelo salário baixo ou inexistente, pela indiferença de quem depois vem sempre reclamar não saber, não desconfiar, não perceber, como se quisessem lavar as mãos de um problema que desconhecem. Ninguém é culpado de nada. As coisas são assim. Nós somos assim. A vida, esta vida que vamos levando, ela sim, ela pode ser culpada de algumas coisas.
Acendo um cigarro. É difícil com esta maresia quem vem para cima de mim e molha o cigarro. Mas consigo. Limpo as lágrimas com as costas das mãos.
Estou eu também deprimido? É possível, sei lá. Porque é que me isolei? Porque é que fugi das aglomerações? Porque é que já quase só vivo, feliz, nas redes sociais? Porque é que estou aqui, aqui onde estou, agora?
O mar não está bravo, parece mas não está. Também não está tranquilo. Não é o Mediterrâneo. É o Atlântico e o Atlântico, mesmo quando está tranquilo parece que está a ter uma pequena fúria. Se eu viesse, como ele vem, lá do outro lado, depois de ter visto o que ele viu, depois de ter vivo o que ele viveu, se calhar também estava zangado. Zangado, mas não furioso. A zanga não me dá fúria, pois não? Desmotiva-me. Sim, a zanga, a mim, desmotiva-me. Mas não ando sempre zangado. Só às vezes. Só às vezes é que me zango. E depois desmotivo. E fico assim. Assim como estou hoje, não é? Assim sem vontade. Ansioso. Um bocado perdido. Triste, mas sem saber bem porque estou assim triste.
Levanto-me e caminho ao longo da beira do mar. Vejo o mar a bater na areia. Ouço as ondas rebentarem. Sinto o fumo do cigarro a entrar nos pulmões. Percebo a maresia a misturar-se com as lágrimas. Não sou capaz de parar um pequeno sorriso. E porque deveria pará-lo? Acho piada, apesar de tudo.
Sinto saudades de uma bela sardinhada numa mesa grande e cheia de gente à conversa. Lembro com saudades os espectáculos com os La Fura dels Baus (e porquê os La Fura dels Baus?); o Benfica na Europa e eu no terceiro anel; o ano em que andei a conhecer todas as salas de cinema de Lisboa; quando andei a experimentar as tascas do Bairro Alto e do Cais do Sodré quando o Bairro Alto e o Cais do Sodré ainda tinham tascas; quando ia comprar peixe ao mercado de Campo de Ourique; quando passava, vezes sem conta, de carro, ali à volta do Técnico, em noites solitárias; das férias no Pedrogão com os meus pais; do litoral alentejano com as namoradas que já esqueci – e porque é que já esqueci?; do jornal de parede no liceu; das tardes de fórmula um e de rugby na televisão; das cassetes áudio onde gravava o Som da Frente; a primeira vez que ouvi os Durutti Column; os jogos de futebol na rua, com os amigos; o meu primeiro beijo, sim, ainda me lembro do meu primeiro beijo. A única vez em que fui assaltado, assaltado na rua, em confronto, com uma navalha a picar-me a barriga. Até do assalto tenho saudades.
Páro de andar. Olho o mar. Mando o resto do cigarro fora.
Está um belo luar. Consigo apreciar o luar?
Suspiro.
E luto comigo.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/24]

A Barbárie

Acabei de vomitar. Ainda tenho a cara enfiada no vómito. Cheira mal. Cheira a azedo. Preciso de me levantar. Preciso de forças para me levantar. Tenho de me levantar.
Estava a ver as notícias do dia no computador quando me saltou um vídeo da última live de Jair Bolsonaro, o presidente do Brasil. Nessa live, o Messias incentivava os seus apoiantes a pegarem nos seus telemóveis e irem até aos hospitais das suas zonas para gravarem imagens das urgências, dos quartos, dos corredores, para ver se os hospitais estavam com as camas ocupadas ou não, se reinava o caos por causa do Covid-19, ou não.
Parei. Fiquei de boca aberta. Aparvalhado.
Puxei o vídeo atrás e ouvi de novo.
“…tem hospital de campanha ao pé de você, tem hospital público, né?… Arranja uma maneira de entrar e filmar. Muita gente está fazendo isso. Mais gente tem de fazer para mostrar se os leitos estão ocupados, ou não, tá? Se os gastos são compatíveis… ou não, tá? Isso nos ajuda. Tudo o que chega para mim, nas redes sociais, a gente faz um filtro, e encaminha p’rá…”
Foda-se!
Aquilo era o presidente do Brasil.
O presidente do Brasil numa live nas redes sociais a apelar às pessoas, às pessoas comuns, para se infiltrarem nos hospitais de campanha, nos hospitais públicos das cidades brasileiras, onde médicos e enfermeiros e auxiliares e outras pessoas lutam contra a morte, muitas vezes em condições muito precárias, muitas vezes com salários miseráveis, durante inúmeras horas, exaustos, a combater o desconhecido, por sítios por onde andam doenças, bactérias, vírus, para registar imagens e denunciarem situações que não fossem as mais correctas. E isto sob que olhar?
Era o presidente do Brasil.
Um sujeito eleito pela população. Eleito pelo voto popular. Eleito em eleições livres pelo povo brasileiro.
Respiro. Tento respirar.
Sublinho.
Era o presidente do Brasil.
Um sujeito eleito pela população. Eleito pelo voto popular. Eleito em eleições livres pelo povo brasileiro.
Não há muito tempo, revi Nuit et Brouillard do Alain Resnais. Um pequeno e angustiante documentário sobre Auschwitz-Birkenau, o campo de concentração onde foram mortos milhões de judeus. Onde, sobre a porta de entrada, à laia de boas-vindas, está escrito O Trabalho Liberta.
A preservação do campo de concentração como museu e memória-viva da barbárie, assim como o filme de Alain Resnais, servem, ou deveriam servir, como alertas para que a barbárie não se repetisse. Para que reconhecêssemos o mal. Para que não o deixássemos medrar.
Mas aqui estamos nós, de novo, à beira da barbárie.
O presidente do Brasil, o presidente que diz, de si próprio A minha especialidade é matar! a apelar ao ódio, à intriga, a deixar morrer milhares de brasileiros ao mesmo tempo que os coloca em confronto, uns com os outros, uns contra os outros. Dividir para reinar.
Levantei-me da cadeira. Fui ao congelador. Agarrei na garrafa de vodka e levei o gargalo à boca. E só parei no fim. Quando já não havia mais nada na garrafa para beber. Queria desaparecer deste mundo.
Pousei a garrafa e senti o mundo a fugir de mim. De repente, estava a dançar uma valsa. Corri, ao trambolhões, até à casa-de-banho. Enfiei a cabeça na retrete e vomitei. Vomitei. Vomitei.
Levantei-me. Lavei a cara. A boca. Bochechei. Arrastei-me para a cama e deixei-me cair lá em cima.
Fiquei novamente com vontade de vomitar e foi o que fiz. Vomitei. Vomitei de novo. Mas não me consegui levantar.
Não me consigo levantar.
Preciso de me levantar. Preciso de respirar. Respirar. Preciso de fugir da barbárie.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/12]

Destilar Ódio

Agora ainda nos insultamos pelas redes sociais. Só pelas redes sociais. Uns têm a razão pelo seu lado. Os outros são sempre umas bestas. Uns são comunistas. Os outros, uns fascistas. E há quem berre. Uns porque sim, porque assim fazem-se ler com mais acuidade. Outros só porque não perceberam que estão com o caps lock. Ainda há quem se ria sarcasticamente com kapa (kkkkk), que é afinal uma forma brasileira de rir (mas não sei porquê). Uns defendem o indefensável. Outros atacam o inatacável. Todos cheios de certezas e razões. De repente, não há meios termos nem espaço para dúvida.
Um tédio, é o que é. Bocejo enquanto faço scroll.
As redes sociais parecem-me infrequentáveis. Mas o problema não são as redes sociais. São as pessoas. São sempre as pessoas.
Há sempre um Tulius Detritus ao virar de uma esquina, num comentário a um post, numa pequena opinião sensaborona e sem grandes veleidades. E, depois…
Um tédio, é o que é.
Não fosse o copo de vinho que seguro na mão esquerda nem o cigarro preso nos dedos da mão direita, a mesma com que faço scroll, e já tinha atirado o iPad contra a cabeça do gato. Está ali à frente a lamber o cu e depois pára a olhar para mim. Eu olho-o de soslaio para que não perceba que estou a olhar para ele, mas o cabrão olha para mim e depois continua a lamber o cu.
Faço mais um scroll e canso-me. Não se passa nada mais para além do ódio, e das palavras amargas cuspidas por uns e por outros.
Toda a gente cheia de razão e ninguém com dúvidas.
Um tédio, as redes sociais, as pessoas, a vida.
Toca o telemóvel. Olho para ele em cima da mesa de apoio. Sem identificação de número de chamada. Agora é uma constante. Os call center das telecomunicações a quererem vender-me nada. Um nada como se fosse tudo. Quando peço fibra óptica dizem que não é possível. Não é rentável. Satélite. Tem de ser por satélite. Que está sempre a falhar, digo eu. Esmifra-se para me dar três ou quatro mega, sublinho. E o silêncio do outro lado. Mas pago o mesmo. Pago o mesmo que os que têm fibra óptica.
Um tédio, este capitalismo.
E ainda acham que está tudo bem. Concorrência, dizem. A concorrência favorece o cliente, dizem. Mas não há concorrência. Há concertação. Mesmo que camuflada. Lembro-me dos anos em que percorria as auto-estradas para norte e para sul. O mesmo preço de combustível nas diferentes estações de serviço. Concorrência?
E, de repente, percebo que também eu sou um tipo maldisposto. Também estou azedo.
Ora, porra!
Por enquanto ainda nos insultamos pelas redes sociais. Só pelas redes sociais. Quanto falta para começarmos a colocar a mão na cara do outro? Quanto tempo para agarrarmos num martelo, numa faca, num revólver e dispararmos sobre o outro?
Um tédio, esta vida cheia de razão.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/08]

Na Twilight Zone

Estava em choque. Acho que estava em choque. Ou então ainda eram resquícios dos cogumelos que comi no Freedom há mais de dez anos. A alternativa era eu ser um episódio perdido da Twilight Zone e isso não me parecia muito verosímil. Por mais que a minha vida seja estranha. Por mais que eu seja um sujeito bizarro. Até porque acho que, mesmo assim, ainda sou uma pessoa e não um episódio de um programa de televisão. Se bem que, o facto de ter dito acho não me deixa muito descansado.
A verdade é que estava mesmo em choque.
A televisão não dava nada, como é costume. Uns ecos perdidos no meio da cacofonia, mas uns ecos requentados, já velhos e ultrapassados pelos desenvolvimentos mais recentes. Desenvolvimentos constantes e nada compatíveis com um serviço noticioso à hora certa. Estava tudo a acontecer em directo nas redes sociais. A revolução não será televisionada, como já tinha profetizado Gil Scott-Heron, mas será transmitida ao vivo através do Facebook e do Instagram.
Várias cidades americanas estavam a ferro-e-fogo. Manifestações de rua, algumas bem violentas, desde há uma semana, desde a morte de George Floyd. A América, Terra dos Bravos e dos Homens Livres, a tal Terra do Sonho, estava a viver um pesadelo que nos habituámos a ver noutras latitudes. O presidente americano chegou a ser escoltado pelos serviços secretos para um bunker debaixo da Casa Branca. Mais tarde, e depois de balas de borracha e gás lacrimogéneo, o presidente americano foi correr até uma igreja que fora vandalizada para, de bíblia na mão, incendiar ainda mais os ânimos das pessoas revoltadas. O bispo Michael Curry veio protestar contra essa imagem de Donald Trump de bíblia na mão. A mayor de Chicago chegou a mandar Trump foder-se.
Wow.
No Brasil as coisas não estavam melhor. A trupe de Bolsonaro começou por aplaudir uma investigação a um ex-companheiro de luta do presidente brasileiro, entretanto caído em desgraça, para logo depois ficarem furiosos, e muito irritados, ao ponto de ameaçarem, junto com a sua família, o ministro do STF responsável pelas investigações ao grupo de ódio ligado à cúpula bolsonarista, ao jeito dos gangsters como James Cagney. Ao mesmo tempo, os Anonymous, um grupo de hackers, que depois vieram dizer que afinal não eram eles, garantiam estar em posse de documentos comprometedores para Jair Bolsonaro e os filhos 01, 02 e 03, Inflávio, Carluxo e Bananinha. Numa bravata que metia Terra Plana, Marielle, pé de goiaba, copos de leite e Deus em cima de todos eles.
Ufa.
Entretanto, em Portugal, o aprendiz dos outros dois garantia que quando chegasse ao poder, ofender polícias, magistrados e guardas prisionais (estranhamente não disse nada sobre guardas alfandegários, nem dos serviços de estrangeiros e fronteiras) irá dar prisão e que, a rede social Twitter, irá deixar de ser uma bandalheira.
Fiquei parvo. Em choque. A droga anda marada.
Peguei num copo de vinho. Acendi um charro. Sentei-me no alpendre a olhar as montanhas lá ao fundo e comecei Om!… Om!…

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

[escrito directamente no facebook em 2020/06/02]

A Tentar Dançar à Chuva

Acordei com os pés gelados. Pensei logo no tempo em que usava uma botija de água quente para aquecer a cama e os meus pés. Pensei na falta que as mães fazem nestes momentos. Bastava gritar Mãe! Oh, mãe! e a minha mãe vinha a correr acudir as necessidades básicas de sobrevivência ao meu dia-a-dia. Nunca tinha os pés frios. Quando saí de casa dos meus pais, acabaram-se os pés quentes. Ninguém nunca mais me aqueceu água para a botija.
Não foi por causa dos pés gelados que acordei. Acordei com a chuva a bater violenta contra a janela do quarto. Acordei assustado. Parecia mesmo que a tempestade estava com vontade de entrar pelo quarto dentro. Sentia o vento a soprar nas árvores aqui à volta. Ouvia o assobio terrível, provocador, do vento. Pensei se a casota do cão estava a aguentar o embate. Pensei por onde andariam os gatos. O alpendre devia estar inundado. O telheiro do carro talvez fosse uma solução. Às vezes vão para cima do carro e deixam-se lá estar a dormir. Já tive que os enxotar para poder sair com o carro. Já tive de parar ao portão para os tirar de cima do capot onde vão deitados a olhar para mim como se me perguntassem Que raio é que estás a fazer, pá?
Os olhos habituaram-se à escuridão e começaram a ver alguns contornos que a gretas abertas das persianas da janela e os números luminosos das horas do rádio-despertador digital acentuavam.
Virei-me de lado na cama. Senti dor na coxa. E na perna. E no braço. Tudo do lado esquerdo. Tinha-me esquecido da queda. Tinha dado uma queda na estrada, lá em baixo. Andava a passear na estrada. Andava a desconfinar. Estava de calções e t-shirt. Estava sol. Sol e calor. Estava um belo dia para usufruir do desconfinamento e sair à rua. Ouvi um barulho atrás de mim e virei-me. Desequilibrei-me e caí no chão. No asfalto. Tive uma espécie de vertigem que me fez dançar na estrada, prendeu-me os pés e fez-me tombar no chão. Escorreguei um pouco para a vala da berma, cheia de brita, e raspei o meu lado esquerdo e a palma das duas mãos. Fiz sangue no braço. Esfacelei a coxa e rasguei os calções. Regressei a casa. Furioso, claro. Tomei banho. Pus betadine. Abri a porta do congelador. Agarrei na garrafa de Moskovskaya e levei-a à boca. Bebi. Bebi como se não houvesse amanhã. Doía-me o corpo.
Olhei para a rua através da janela da cozinha. Ainda era de dia. Deu-me o desânimo. Senti um peso nos ombros. Senti uma nuvem escura sobre a cabeça. Uma nuvem escura e trovejante. Gritei. Gritei Foda-se! bem alto. Nem sei porquê. Gritei, só. Guardei a garrafa no congelador. Fui para o quarto. Abri a cama. Enfiei-me lá dentro. Fechei os olhos e pensei Dorme!
Quando acordei tinha os pés gelados. Os pés gelados e o corpo dorido. Mas só percebi o corpo dorido quando me virei na cama. A chuva batia intensamente na janela. Parecia querer entrar. Eu fechei os olhos mas estava desperto. Não conseguia voltar a adormecer.
Acendi a luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira. Sentei-me na cama. Peguei no iPad. Fui ao Facebook. Ao Instagram. Ninguém. Abri um programa de desenho e fiz um. Chamei-lhe A Tentar Dançar à Chuva. E mandei-o para as redes sociais. Depois levantei-me e fui fazer torradas. Estava com fome.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/10]

O que É que Vamos Almoçar?

Início do mês. É de tempo de ir às compras. Levanto-me cedo. Não tomo banho. Passo a cara por água. Sacudo o cabelo para tirar os jeitos da almofada. Bebo café e como uma torrada. Lavo os dentes. Tiro o carro debaixo do telheiro. Espero por ela com o carro a trabalhar. Vamos os dois ao hipermercado. Eu fico no carro. Ela vai às compras. Não precisamos de ir os dois em excursão ao hipermercado em tempo de distanciamento social. Ela leva uma lista com o que precisa de comprar. O multibanco no bolso das calças. Uma luva na mão direita. Uma máscara na cara. A máscara é social, como lhe chamou a ministra da saúde. Foi feita por ela na máquina de costura que a mãe lhe deu quando casou pela primeira vez e que nunca tinha utilizado. Utilizou agora e safou-se bem que as máscaras que fez, e também fez duas para mim, as minhas são pretas, com duas camadas de algodão e elásticos para prender atrás das orelhas, estão bem catitas e fixam-se bem à forma da cara. Mas vai só ela às compras que eu pertenço ao grupo de risco. Estou a ficar velho e tenho problemas respiratórios. Ela não. Mas faço questão em acompanhá-la até ao hipermercado. Vou eu a conduzir e depois fico no parque de estacionamento à espera dela. Fico a ouvir os noticiários da rádio no carro até ele se desligar automaticamente. Depois fico ali em silêncio, dentro do carro, a olhar as pessoas que chegam e vão também fazer as compras do mês, da semana, do fim-de-semana.
As pessoas passam à minha frente, pelo pára-brisas como se fosse uma tela de cinema. Passam da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. Poucas as que vêm em profundidade. Quase só mulheres. Mulheres sozinhas. Há alguns casais. Casais novos. Talvez namorados. Talvez casados de fresco. As mulheres empurram carrinhos cheios de compras. Os poucos homens que passam, passam com caixas de cerveja e garrafas de vinho. Os homens parecem ser mais práticos. Quase ninguém de máscara. Quase ninguém com luvas. As pessoas caminham próximas umas das outras. Cruzam-se. Tocam-se. Acho que não têm muito cuidado. Acho que as pessoas, no seu geral, se estão a cagar para o contágio. Acho que acreditam que só acontece aos outros. Ninguém conhece ninguém que esteja infectado. Acho que não acreditam nas notícias. Acho que pensam que é tudo folclore. Tenho lido sobre umas teorias da conspiração nas redes sociais. E desde que a NASA veio admitir o avistamento de alguns OVNIS por pilotos da Força Aérea, essas teorias têm ganho maior visibilidade e outros contornos.
Vai ali uma mãe com uma filha adolescente. São as duas pequeninas. Ao fundo, uma família, pai, mãe e dois filhos pequenos. Rapazes. Todos em fato-de-treino. O pai com fato de treino roxo fluorescente dos anos noventa. Nenhum deles leva máscara.
As pessoas estão feias.
Será que passei de concelho? Agora que pensei nisso, não sei, não faço ideia. Será que estou no mesmo concelho? Ou estou no concelho vizinho?
Estou saturado de estar aqui a olhar para estas pessoas. Eu nem gosto de pessoas. Quero ir-me embora. Apetece-me um café expresso. Uma Bola de Berlim com creme. Um Perna-de-Pau.
O que é que vou almoçar?
Vejo-a a vir lá ao fundo, a empurrar um carrinho cheio, como o das outras pessoas. Mas ela empurra o carrinho com uma mão com luva de látex. Traz a máscara na cara. Eu saio do carro e abro o porta-bagagens. Ajudo-a a pôr as compras no carro. Ela espalha álcool pelas mãos dela e pelas minhas. Esfregamos as mãos. Entramos no carro. Dou à chave. Ouço o motor a funcionar. A rádio desperta. E eu pergunto-lhe O que é que vamos almoçar?

[escrito directamente no facebook em 2020/05/02]

A Liberdade Está a Passar por Aqui

Hoje era o dia das possibilidades. Tudo podia acontecer. A liberdade estava a passar por aqui.
Era meia-noite e um e eu já não conseguia pregar olho. Não queria perder pitada do dia, embora fosse ainda noite. Já sabia que não ia acontecer nada porque não podia acontecer nada. As pessoas tinham de manter distâncias, não se podiam agrupar, não se podiam tocar. Não podia haver aglomerações e as comemorações teriam de ser comedidas e, o bizarro de tudo isto, é que estas constrições à liberdade de cada um eram precisamente para preservar a liberdade de todos. A liberdade de continuar a existir.
Passaram-se as horas. O dia sucedeu-se à noite. As redes sociais começavam a agitar-se. Os discursos da praxe prometiam o que prometiam que é sempre o que se promete nestes dias em que as promessas galvanizam. Já sabia que amanhã já nada disto interessava mas, hoje, hoje sentia-me em sintonia com todos. Com quase todos, vá lá. Há sempre uns que sobem as escadas do orgulho e são muito superiores a tudo isto que faz mexer as massas. Acham que é tudo ridículo. Depois há outros que não ligam porque não ligam a nada que não seja eles próprios e os seus. Por último, os que não gostam mesmo nada da nada. Afinal ainda há muita gente que não está em sintonia.
Que importa?
Discursaram os discursos da praxe. Perante menos convivas que o habitual. Comentaram-se os discursos de cada um dos intervenientes. Comentaram-se os comentários. Cantaram-se canções à janela. E Depois do Adeus. Grândola, Vila Morena. Ainda houve quem importasse o Bella Ciao. Houve quem gravasse tudo com telemóvel. Houve quem postasse tudo isso nas redes sociais. Uns bateram palmas. Ofereceram corações. Outros assobiaram. Vomitaram ódio. Afinal, é isto que nos liga, as nossas grandes diferenças e as peculiares formas como olhamos o mundo.
A noite chegou. Completou-se um ciclo. Mais um. Estava cansado.
Estou cansado.
Vou dormir a pensar no que fazer à minha vida. Liberdade sim, mas não de estômago vazio.
Há sempre possibilidades. Tudo pode acontecer. A liberdade está a passar por aqui. Bate à porta mas, não traz nada com ela. Nada de novo. Como é que vou encher a barriga amanhã? E depois de amanhã?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/25]