Tarde de Piquenique

A tarde era de piquenique entre nós. Nós, os miúdos. Sim, porque já fui miúdo. Como todos vós. Não nasci de natureza espontânea. Desci à rua pelo mesmo vaso comunicante entre o interior e o exterior. Nasci. Cresci. Estupidifiquei. Envelheci. E finalmente cheguei à razão. Já é tarde. O que me resta? As memórias.
Vamos lá então.
A tarde era de piquenique entre nós. Nós, os miúdos. Tínhamos roubado a saca das carcaças da mercearia. Havia dez pães para cada um de nós. Quantos pães? Não sei. Quantos éramos? O R. o P. o outro P. o outro R. o V. o A. e o J.P. a C. a N. e… Perco-me nas memórias. Há gente que cresceu comigo e desapareceu das histórias. Sei que estavam lá. Porque estavam sempre lá. Como eu e os outros, os que não esqueço. Os que me lembro. Estávamos lá sempre todos. Em conjunto. Em comunhão. Antes de crescermos e nos tornarmos intolerantes. Antes de virarmos à esquerda. E à direita. Antes de nos tornarmos parvos. Senhores de um nariz emproado e com a mania da razão. Filhos da certeza. Adultos. Burgueses. Malteses e às vezes. Mas divago. Isto hoje está difícil. Perco-me nas estradas da memória. Fico zangado por me esquecer. E por me lembrar.
Recomeço. Vamos lá.
A tarde era de piquenique entre nós. Os miúdos. Tínhamos roubado a saca das carcaças da mercearia. Havia dez pães para cada um de nós. O que faltava? O que pôr lá dentro. O que pôr lá dentro do pão. Eu roubei duas latas de atum Bom-Petisco em casa. Uma lata de sardinhas com tomate picante. E uma lata de salsichas Isidoro, que a Nobre só chegaria mais tarde. Ninguém lá em casa daria pela falta das latas de conserva. Havia lá sempre bastantes. Cada vez que a minha mãe ia ao Ulmar, o único supermercado da cidade, trazia sempre umas latas que iam para o monte das latas. Não importava se faltavam ou não. Se eram necessárias ou não. As latas davam sempre jeito. Para aqueles dias de pressa. Para aqueles dias em que não apetecia cozinhar à minha mãe. O que quase nunca acontecia. E, então, mesmo nessas ocasiões, era um empadão de arroz com atum e umas pinceladas de ovo por cima do arroz. Para tostar no forno. Era esparguete com atum e ketchup. Era uma Salada Russa com atum, que ocupava o espaço da pescada cozida. Era um cachorro como já não se faz. O pão torrado, não aquecido, a salsicha frita, não cozida, a manteiga a barrar o pão torrado e a mostarda a riscar as salsichas cortadas a meio, e não batata-palha (que merda de conceito!) e alface migada e milho cozido em cima de uma salsicha grossa, cozida e mal parida.
Escolhemos o pinhal atrás do RAL4. Perto de casa, mas longe da vista. Sentados no chão, que a ninguém lembrou levar uma manta. Os rabos picados na caruma, nos restos de pinhocas partidas. A escolha pelos montinhos de musgo que não chegavam para todos os rabos. O pão rasgado à mão, que ninguém se lembrou de levar uma faca, uma navalha, um corta-unhas. O atum e as sardinhas, as salsichas, as fatias de fiambre popular, de mortadela, de queijo flamengo cortado toscamente e enfiado à pressão dentro do pão rasgado, que ninguém tinha levado um garfo, uma colher. Muito menos guardanapos. Em casa ainda se utilizavam guardanapos de pano, lavados depois de uma semana de uso. Ainda nos lembrámos de encher um antigo garrafão de vinho de cinco litros, de vidro, de vidro coberto de palhinhas, de água trazida da torneira exterior da casa de um de nós. A mesma torneira onde uma mangueira, no Verão, nos fazia as delícias de um duche pré-piscina, que não tínhamos, mas que éramos bons a imaginar, que a imaginação foi razão que nunca perdemos mesmo se o dinheiro e as facilidades não fosse coisa que abundasse na rua. Naquela rua da minha infância.
A tarde era de piquenique. Tinha sido de piquenique. Dez pães para cada um de nós. Pães com atum. Com sardinhas. Com salsichas. Com fiambre popular. Com mortadela. Com queijo flamengo. Com embuchanço empurrado com água de sabor a vinho tinto rasco que ainda permanecia, e iria permanecer para o resto da vida, no interior daqueles garrafões que iam constantemente a encher nas adegas sem nome que os pais conheciam. Havia sempre um amigo de um amigo.
A tarde tinha sido de piquenique. A noite seria de dores de barriga. Vómitos. Diarreia e vomitado. Nada que estragasse a minha infância. Era já ritual do habitual. No dia seguinte já estava bom para outra parvoíce qualquer.
E era de parvoíce em parvoíce que íamos gozando a nossa infância. Uns mais que outros. Eu, sempre que possível. Gostava de parvoíces. Ainda gosto. E de piqueniques. Vinho tinto rasco. Agora, sem água. E latas de sardinhas com molho de tomate picante.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/01]

Amanhã Haverá Sempre por Quem Chorar

Olho para trás e não gosto. Não gosto do que vejo. Não gosto principalmente do que acho que vejo. O meu olhar está condicionado pelo meu presente, mas tenho a arrogância de pensar que o passado é um erro e que tenho de o emendar hoje, à distância de várias vidas. Acabo por me contentar em tentar endireitar o presente. Dentro do possível.
Tenho uma barriga enorme. Uma barriga enorme adornada com um umbigo à proporção da minha barriga. Eu sou o centro do Universo. Tudo gira à minha volta. Eu sou a lâmpada que ilumina as vidas dos outros e encandeia os pobres coitados que ousam ter uma linha de pensamento discordante. Tocam-me. Morrem. Desaparecem.
Esqueço-me que o presente de hoje é o passado de amanhã. Um outro eu, na posse de outra linha civilizacional, vai olhar para mim, e para os meus erros, para os meus arrogantes erros, e mandar-me para o lixo. Como eu fiz.
Mas não. Não sou assim. Não tenho a arrogância de pensar como se fosse o único. Como se a minha concepção fosse a única. Como se estivesse, sempre, repleto de razão. Mesmo que esteja. É difícil perceber. É difícil compreender. É difícil ver para além do horizonte da minha barriga e do meu bonito umbigo. É assim que querem que eu pense. Mas não consigo. Eu sei que preciso do outro. Dos outros. Do passado com todos os seus erros. Do presente com todas as minhas dúvidas. A desejar ainda ter um futuro.
Preparo um gin. Lá está. Uma bebida da moda. Mas eu já gostava de gin antes dele ser inundado de coisas esquisitas a boiar em copo do tamanho de piscinas em vivendas da periferia. Gosto de um gin muito clássico. Um Bombay Sapphire. Ou um Tanqueray. Num copo alto. Também pode ser redondo, mas não precisa de ser muito grande. Com bastante gelo. Limão espremido. Ou lima. Não sou esquisito. E água tónica. Schweppes. E mexo com uma colher comprida e fina. Para misturar tudo bem.
Acendo um cigarro. E atenção, estou em casa. Mas está bem, estou sozinho. Fumo o cigarro em casa. Sinto o fumo invadir-me os pulmões e penso Faz-me mal, mas sabe-me bem. O futuro que me castigue. A mim e à minha bronquite.
Pego no copo de gin tónico sem frescuras modernistas e vou até à janela. Vejo as pessoas passar. Apressadas. Preocupadas com o seu tempo presente. Preocupadas com o trabalho onde não podem faltar. Preocupadas em ter trabalho que lhes garanta um salário. Um sustento. Uma miséria que possam trocar por umas migalhas de pão de véspera.
Vejo as pessoas passar. Atarefadas. Vão buscar os filhos ao Jardim de Infância. Cada minuto mais é um extra na conta no final do mês. Uma conta que pagam já com dificuldade. Uma conta que pagam com dificuldade para garantir gente a um país envelhecido e que destrata os seus filhos. Depois ainda vão buscar as filhas à Escola C+S e levá-la ao ballet. Porque precisam de actividades extra-curriculares. Gastar energia. Estarem ocupadas enquanto os pais trabalham em prol da nação.
Vejo as pessoas passar. Ensimesmadas. Que fazer para o jantar? Tenho de fazer uma máquina de lavar roupa. Tenho roupa para passar a ferro. Qual é a novela que sigo? Já as confundo todas. Também não interessa muito. O que é que hei-de preparar para o almoço de amanhã? Que se lixe. Nada. Como uma sopa e um rissol no café do lado. Ele que se amanhe. E os miúdos comem na escola.
Vejo as pessoas a passar. E onde vão elas? Ao cinema? Ao teatro? A um concerto? A uma poetry-slam? À ópera? A uma esplanada relaxar, beber uma cerveja e ler um livro?
As pessoas passam rápidas a caminho dos seus afazeres e não têm tempo para serem cidade e a cidade não quer saber delas. Envia-as para a periferia. Para os subúrbios. Para distâncias longínquas que têm de refazer todos os dias. Cansadas ou não. Com vontade ou não.
Algumas destas pessoas estou a vê-las pela última vez. Umas vão pendurar-se numa corda no final do dia. Encharcar-se em barbitúricos. Ligar o gás do fogão e sentar-se no sofá a respirar a eternidade. Algumas delas vão levar os filhos. Algumas delas vão levar os seus amores. Amanhã iremos chorá-las. Depois esquecemos. Haverá mais por quem chorar. Depois de amanhã. Depois de depois de amanhã. Depois… Sempre. Enquanto estivermos vivos.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/11]

Fim da Festa

No fim da festa, sou o que resta.
Manhã de 25. Uma manhã tardia. O sol já vai alto. O Inverno nunca mais chega, mas também não dá saudades. Devíamos ter ido almoçar lá onde nos esperavam. Mas não fomos. Mandámos uma mensagem. Mandei eu. Por ela. Como se fosse ela. Nem uma chamada de voz. Ela não queria falar. Eu não podia falar por ela. Uma mensagem escrita. Só. Não me sinto bem. Não podemos ir.
Estamos os dois na cama. Os dois acordados. Os dois a olhar para o tecto. De olhos abertos. A absorver a luz do sol que entra pela janela. Os dois de ressaca. Ela bebeu porque não podia evitar. Eu bebi porque a sigo. Não consigo não segui-la.
Ainda não tínhamos começado a jantar já ela enrolava a língua. Ela não queria estar ali. Mas tinha de estar. Começou a beber durante a tarde. Não sei o quê. Não estava presente. Mas percebi quando nos encontrámos em casa antes de ir para lá. Em casa foram dois shots de vodka comigo. Para dar ânimo!, disse. Não discuti. Sabia que não valia a pena.
Quando lá chegamos, agarrou-se a um copo de vinho. Sempre que a via, tinha o copo cheio. Ela fugia das pessoas. Eu ia desculpando-a enquanto ia bebendo cerveja. Sabia que a noite seria longa. Desta vez enganei-me. A noite foi muito curta.
Ainda o bacalhau não tinha chegado à mesa. Ainda estava tudo muito eufórico. Muito histérico. Entre o vinho, a cerveja, umas farripas de presunto e umas fatias de queijo seco, ela disparou Já não estou grávida! Podem todos descansar!
O silêncio. O silêncio que se fez naquela casa. Até a televisão, ligada para o boneco, deixou de dar som.
E ela começou a chorar. Ninguém a confortou. Afastaram-se. Tiveram medo da reacção. Toda a gente disfarçou. Toda a gente arranjou afazeres. Ela era a maluquinha. Ela tinha de tomar não-sei-quantos químicos por dia. Ela não podia ter filhos. Ela não podia engravidar. E ninguém queria que ela engravidasse. E quando engravidou…
E eu?…
Eu sei que ela não podia fazer de outra maneira. A família era uma grande pressão. Mesmo para ela, que se punha constantemente do outro lado. Do lado da sua razão, mesmo que contra a família. Mesmo quando era a família toda. Inteira. Em peso. Mas custava-lhe.
Resolveu o assunto para satisfazer a família. E a ela? Quem é que a ia amparar? Eu esperei. Esperei um pouco. Esperei que alguém desse o primeiro passo. Esperei que alguém a fosse amparar.
Depois agarrei numa garrafa de vinho ainda fechada. Agarrei-a pelo braço. E levei-a dali para fora. Não olhei para trás. Não disse nada. Fomos embora. Os dois. Só.
Em casa ela continuou a chorar. Não conseguia falar. Mas não precisava. Eu sabia como é que ela estava.
Abri a garrafa. Fui buscar um queijo. Umas tostas integrais com sementes, do Pingo Doce (porra! são mesmo boas!). Sentámo-nos na cozinha. Enchi os dois copos. E eu disse Um Feliz Natal, minha querida!, e ela sorriu-me. Um sorriso suave no meio das lágrimas.
Acabámos o vinho. Fumámos uns cigarros. Ficámos bêbados. Fomos para a cama. Não conseguimos fazer nada um com o outro. Mas ficámos agarrados.
Ela levantou-se durante a noite para vomitar. Eu deixei-a sozinha. Ela precisava de estar sozinha.
De manhã acordámos já o sol ia alto. E ficámos os dois, lado-a-lado, na cama, a olhar para o tecto. Por baixo do edredão, a mão dela na minha.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/26]

Brasil, a Sul do Equador

Eu podia dizer que era um dia como outro qualquer. Mas não era.
Era um dia de mentira. Era um dia de cobardia. Era um dia em que homens comem, esquartejam e matam outros homens.
Era um dia em que o Homem se tornou filho-da-puta e a mãe teve culpa porque o deu à luz e (não) o educou.
Sim, vai haver muita gente a barafustar que as coisas não são assim preto-e-branco e têm razão. As coisas não são assim, preto-e-branco. E é por isso que este é um dia de mentira. Porque não é preto. Nem branco. E a quantidade de gradações de cinzento é tão grande que não há vida suficiente para a utilizar toda.
Não conheço Lula da Silva. Não sei se é culpado ou inocente. Não sei se é anjo ou demónio. Não sei se é, ou não, culpado das coisas pueris que dizem ser culpado.
Mas estamos a falar do Brasil.
Repito, Estamos a falar do Brasil.
Corrupção?
Propina?
Ditadura?
Polícia-Militar?
Esquadrões da morte?
Pastores Evangélicos?
Droga?
Morro?
Favela?
Quem, afinal lucra com tudo isto?
Há uns anos, o Primeiro Comando da Capital, um dos mais célebres e celebrados grupos criminosos brasileiros e transfronteiriços nascia, crescia e actuava a partir de uma cadeia do Estado de São Paulo.
Como é possível?
É o Brasil. A terra do bem e do mal.
Não há pecado a sul do Equador? Claro que há. E muita gente má.
Lula da Silva merece ser preso? Possivelmente sim, provavelmente não, não sei. Mas quantos não mereceriam ser presos? Eduardo Cunha? O Presidente Michel Temer?
Este podia ser um dia como os outros. Mas não é. Onde andam os assassinos de Marielle Franco?