Respirar

Ar. Preciso de ar. Preciso de respirar.
Acordo com falta de ar. Sinto os pulmões cheios e não consigo fazê-los funcionar. Preciso de respirar. Inspirar. Expirar.
Está escuro. Não vejo nada.
Tento acalmar. Olho em volta. Foco. Procuro um tom mais claro. Tento encontrar uma janela.
Ar. Ar.
Descubro uma pequena claridade. Caminho até lá. É uma janela. Tento abri-la, mas não consigo. Parece fechada. Bloqueada.
Olho para fora e vejo que não há luz na rua. Não há luz na cidade. Não há luar. Há uma tonalidade um pouco mais clara.
Preciso de ar. Preciso de respirar.
Começo a entrar em pânico. Arranho o pescoço. O peito. Preciso de ar.
Fecho as mãos. Formo punhos. Soco o vidro das janelas. Tento partir o vidro das janelas. Magoo-me. Mas insisto. Soco o vidro. Insisto. Outra vez. E outra. Um murro. Com força. Outra vez. E sinto o vidro a partir-se. E ouço. Ouço os estilhaços. E sinto. Sinto as garras a rasgarem-me a pele. A rasgarem-me a carne. Os dedos feridos. Os dedos partidos.
Deixo entrar o ar pelo vidro partido. Aproximo a boca. Tento respirar mas não consigo. Continuo a não conseguir respirar. Sinto o fresco da rua a bafejar-me a cara mas não consigo respirar.
Levo de novo as mãos ao pescoço. Arranho-me. Tento encontrar abertura para o ar. Tento abrir caminho até aos pulmões. Mas não consigo. Bato no peito. No meu peito. Bato com força.
Levo os dedos à boca. Mordo-me. Aparo as unhas com os dentes. Arranjo navalhas. Agulhas.
Rasgo o pescoço. Rasgo o peito, mas nada funciona. Não consigo respirar. Começo a sentir a cabeça a fugir de mim.
Sinto que me estou a perder.
Rasgo os pulsos com as unhas afiadas pelos dentes. Rápido, mais rápido. Não consigo respirar. Não consigo pensar. Não consigo raciocinar.
Rasgo os pulsos com os dentes. Preciso de qualquer coisa. Qualquer coisa que me livre desta prisão. Rasgo. Rasgo com os dentes. Rasgo com as unhas.
Sinto o sangue a sair de mim. A sair em golfadas.
E sinto o ar a entrar. Finalmente sinto o ar a começar a entrar. O peito a esvaziar. A desinchar. A permitir começar a respirar. Sinto o ar. Ar. Sinto o ar a entrar. A entrar lá dentro. Dos pulmões. Devagar. Aos poucos. Ar.
Sinto-me a ir. Sinto a cabeça a perder-me. Sinto-me desfalecer.
Sinto o sangue a correr para fora de mim. Sinto o ar a entrar dentro dos meus pulmões. Sinto-me acalmar.
Estou a desfalecer, mas estou calmo.
Sinto-me ir. Deixo-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/20]

Gosto de Cheiro Dela

São duas e meia da manhã.
Acordei com a chuva a cair lá fora e a bater nos vidros da janela. Ouço os gatos a correr à volta da casa à procura de abrigo. A laje aqui ao lado da janela bate cada vez que um dos gatos passa lá por cima. Está solta.
Ela está deitada ao meu lado. Dorme. Não acordou com a chuva. Nem com a luz do candeeiro que acabei por acender. Está nua. Tem uma mama destapada. Puxo o edredão para cima da mama para que não arrefeça. Vejo o braço nu à minha frente. Cheiro-o. Gosto do cheiro dela. Do cheiro dela na cama. Beijo-lhe o braço. Gosto da pele dela. É macia. Suave. Seda.
Trinco o braço. Sinto os dentes a rasgar a pele e a penetrar, suavemente, na carne. Vejo o sangue a cair ao longo do braço. Sinto o sabor metálico do sangue na boca. Puxo um pedaço de carne do braço com os dentes. Ela grita. Eu cuspo o pedaço de braço dela, que tenho na boca, para o chão. Vejo o buraco que lhe deixei no braço. Levanto-me para ir buscar água oxigenada e betadine. Talvez uma gaze. Apanho o pedaço de carne do chão e coloco-o em cima da mesa-de-cabeceira. Lá fora continua a chover. Ouço-a a bater nos vidros da janela.
À porta do quarto viro-me para trás, e digo-lhe, Desculpa.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/10]

Depois de Daniel Blake

Tínhamos acabado de ver Eu, Daniel Blake de Ken Loach na televisão. Ela estava a chorar baba-e-ranho. Eu estava furioso e com vontade de bater em alguém. Ainda olhei para ela, porque estava ali à mão-de-semear, mas Não! pensei. Ela estava em sofrimento.
Não dissemos nada.
Eu levantei-me e fui até à janela. Acendi um cigarro e olhei lá para fora. Vi o cão a andar de um lado para o outro à luz da Lua. Olhou para mim quando ouviu o som do isqueiro, e viu a luz da chama, mas continuou o seu caminho. Perdi-o de vista.
As pessoas são mesmo o pior da humanidade. As pessoas. O que conseguem fazer umas ás outras. A frieza com que tratam os mais indefesos. À tarde tinha visto um vídeo real de dois seguranças de um supermercado brasileiro a chicotear um miúdo de dezassete anos por ter roubado a merda de um chocolate. A merda de um chocolate! Sentem-se imunes. Os filhos-da-puta da roda dentada sentem-se imunes. São sempre mais papistas que o Papa. Para se sentirem superiores. Para sentirem que têm um grãozinho de poder debaixo do braço. Por vezes penso que as pessoas parecem cães a defender o seu pequeno território, o linear, o gabinete, a mesa de trabalho numa ilha espiado pelos colegas que se controlam uns-aos-outros. Mas depois percebo que não são cães, que os cães até são uns animais de respeito, são mais hienas à espera dos restos que os leões lhes deixam. Vejo que tenho a mão fechada para um murro quando tento tirar o cigarro da boca. Desfaço o punho. Agarro no cigarro com dois dedos, puxo-o e arranco um pedaço de pele dos lábios. Foda-se! digo. Magoei-me!
Ela continuava a chorar.
Gosto das redes mosquiteiras. Não posso pôr a cabeça fora da janela, mas livrei-me de moscas, melgas e mosquitos. Em noites de calor posso ter as janelas abertas para deixar correr o ar.
Ela levantou-se. Saiu da sala. Ouvi-a na casa-de-banho. Saiu, passou pela sala e disse-me Vou-me deitar, e tinha os olhos vermelhos. Há pessoas que são mais sensíveis que outras. Mas há filmes que nos viram do avesso.
A verdade é que há muito da nossa vida naquele filme. Há muita coisa em Eu, Daniel Blake pelo qual eu passei. Pelo qual ela passou. Pelo qual muita gente passou. E o filme não é lamechas. Tão só absurdamente real e triste. Humanamente triste. Triste como nós.
O problemas das redes mosquiteiras nas janelas é que não posso lançar as beatas para a rua. Acabei de fumar o cigarro. Fui à cozinha. Molhei-o na torneira do lava-louça e deitei-o no caixote do lixo.
Pensei na cena do Banco Alimentar. Revi Katie a abrir a lata de feijão e a comer os feijões crus, directamente da lata, à mão, enfiando-os pela boca, esganada. A fome é uma merda! É como um punho fechado que nos entra pelo cu e nos puxa as entranhas até não restar mais de nós que um desejo puro de rasgar algo com os dentes e saciar o estômago. Animalesco.
Acabei por ir atrás dela para a cama. E ali estávamos nós os dois, virados para o tecto, de olhos abertos, quietos e sem conseguirmos dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/03]

Não Tenho Tempo!

O raio do cão que não se cala.
Está tudo nervoso.
O céu está vermelho. Principalmente a Oeste. Vermelho. Quase púrpura. Com uns pedaços de nuvens rasgadas e espalhadas por lá a torto-e-a-direito, sem ordem nem lógica nenhuma a não ser estarem por lá, assim, aos pedaços, espalhadas.
Mas chove. Chove muito. Chove aqui e para Leste. Como se Deus tivesse penteado o mundo de risco ao meio e decidido que ali iria haver um céu cheio de restos de Sol queimante e aqui um céu diluviano cheio de grossas gotas de chuva a tombarem na terra.
Não chove em cima do cão, que tem uma espécie de telheiro por cima da casota e está lá abrigado. Mas não se cala, o filho-da-mãe, chato-como-o-raio.
A mim já me custava o barulho infernal da chuva a cair. O cão está a tornar tudo muito mais doloroso.
Vejo as poças que se formam. As terras começam a alagar-se.
Olho o cão através da janela da cozinha e fulmino-o com o olhar. Disparo-lhe vários tiros imaginados. Acerto-lhe no coração como convém ao amor que, apesar de tudo, lhe tenho. E ele tomba no meu desejo sombrio e estúpido.
A verdade é que acaba por se enfiar no fundo da casota. O focinho recolhido. Olhar assustado. E deixa de ladrar.
Olho lá para fora. Outra vez.
Para o céu.
O mundo parece ter parado.
Não se ouve nada. Vivalma.
Só uma pequena pieira que sai do fundo dos meus alvéolos pulmonares. A asma a dizer que ainda existe. E que estas alterações de tempo, de temperatura, de clima me são fatais.
Abro a porta da rua e saio para o alpendre. Parou de chover. O céu vermelho, quase púrpura, com pedaços de nuvens espalhadas ao acaso, dissolveu-se. Tudo tende para o cinzento. Um cinzento uniforme e final. Desapareceu o Sol, a Lua e as Estrelas. Não há nada lá em cima. Não se ouve nada aqui em baixo.
Estamos no vácuo.
E nesse momento, neste preciso momento, rebenta o mundo num trovão saído do Martelo de Thor. Pareço ter os tímpanos a rebentar. Os vidros da casa estilhaçam. Levo com alguns pedaços em cima. Corto-me. Faço sangue. Mas nem sinto dor. Olho para a casota e vejo o cão com as patas em cima do focinho. O chão treme. Abana. Agita-se como gelatina. Vejo à frente a montanha a abrir-se em duas e um enorme rasgo a seguir encosta abaixo.
Penso que não tenho tempo. Assim: Não tenho tempo! E continuo a pensar Tempo para quê? Não há nada que possa fazer.
Sinto a vida a abandonar-me. O corpo tende para baixo. Os ombros descaídos. As mãos a quererem ir ter com os pés. Tudo me pesa e empurra-me para baixo.
Vejo a terra a rasgar em várias direcções. Um dos rasgos vem para aqui. Aqui para casa. Para mim. À velocidade de um piscar de olhos.
Acendo um cigarro. Deixo o fumo entrar-me nos pulmões. Aproveito-o ao máximo. E digo Que merda!

Os Cães

Descobri-me dentro do carro, sentado ao volante. E de onde tinha eu vindo?
Não me lembro de nada. Não me lembro de onde é que vim. Não me lembro do trajecto. De nenhum trajecto. Não visualizo nenhum caminho, nenhuma estrada. Nada. O vazio.
Dentro do carro, agarrado ao volante, olho para a frente e vejo os cães. Uma data de cães. Muitos cães. Estão a ladrar. Estão-me a ladrar. Arreganham os dentes. Arreganham-me os dentes. Rosnam.
Sentado dentro do carro, agarrado ao volante, sinto medo. As minhas mãos agarram o volante com força.
O rosnar dos cães entra-me dentro da cabeça. Estão dentro da minha cabeça. Dentro de mim.
Grito. Grito alto. Grito com medo.
Faço tanta força com as mãos que arranco o volante do carro. Assusto-me ainda mais. Como vou sair, agora, daqui?
Os cães aproximam-se ainda mais do carro. Estão a cercar-me. Estão a preparar-se para me atacarem. Não tenho saída. Estou acossado.
Estou perdido.
Se soubesse rezar, rezava.
Já nem ouço os meus pensamentos. Já nem ouço este raciocínio que estou aqui a descrever. Já não sei o que digo. Não me ouço. Sou já todo rosnados e latidos. Sinto a baba amarga a escorrer-me pelos cantos da boca. Sinto os dentes afiados, prontos para rasgar.
Sou cão. Sou já cão. Rosno.
Abro a porta do carro e junto-me a eles. Uivo. Uivamos. E vamos juntos para a cidade. Vamos. Vamos.
Vamos ao ataque.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/10]

Algo Está a Acontecer na Cidade

Acordo debaixo de um pinheiro manso frente à Câmara Municipal de Leiria.
Não sei o que é que estou aqui a fazer.
Estou enrolado em mim. Encostado ao tronco do pinheiro. Estico-me. Faço-me crescer. Endireito-me. Sento-me no pequeno muro que serve de vaso gigante e moldura paisagista ao pinheiro, desço os pés até ao chão e piso aqueles pequenos cubinhos da calçada portuguesa.
Olho em frente para o edifício da Câmara. E penso O que é isto? E acendo um cigarro. Tossico um bocado quando o fumo me invade os pulmões. E vejo o edifício da Câmara rasgar ao meio como uma folha de papel.
Levanto-me do muro e sigo para a minha direita, para o centro da cidade. Para o centro histórico da cidade. Não quero que pensem que tenho algo a ver com o declínio do edifício camarário.
Na Rua Machado dos Santos olho o semáforo e está verde para peões. Cruzo a passadeira para o outro lado.
Atrás de mim ouço o som de um carro a acelerar, potente, próximo, e depois um baque seco. Viro-me e ainda vejo um corpo a voar pelo ar e a cair, lento, no asfalto, a esguichar sangue, enquanto, ao fundo, o carro se afasta a alta velocidade.
Continuo em frente, para a Rua Mártires da Pátria, mas desvio no último momento e desço a Rua de Alcobaça. Começa a chover e o piso fica escorregadio. Mando fora a beata do cigarro e vou com cuidado.
Vejo, à minha frente, uma mulher a empurrar um carrinho de bebé. Vejo, à minha frente, a mulher escorregar e cair e o carrinho de bebé arrancar, rápido, passeio fora. Lá de dentro, do carrinho, vem o choro de um bebé.
Passo pela mulher que continua caída no chão com um pé partido, um osso de fora, e continuo em frente. Chego ao Largo Cândido dos Reis e reparo, ao fundo, caído atrás de uma laranjeira, o carrinho de bebé, torto, partido, virado ao contrário, com uma roda pequenina a girar nhec-nhec-nhec e, do bebé, não ouço nada.
Passo por ele e desvio o olhar. Continuo em frente, sempre em frente, e entro na Rua Barão de Viamonte. Deixo o Terreiro para trás e ganho a Rua Direita. Todas as cidades têm uma. Ficam sempre no centro histórico. São sempre tortas. E cheiram sempre a mijo.
A rua é sombria. Estreita, sinuosa e sombria. O sol fica lá no alto, não entra cá em baixo. Há zonas que me assustam. Ouço barulhos, mas continuo. Olho para trás, mas vou perdendo o olhar, vou perdendo a rua nas suas curvas. Cruzo-me com cadáveres. Putas. Homens gordos, de fato e gravata, dedos grossos e sebosos a segurarem enormes charutos mal-cheirosos com notas de euro a caírem-lhes dos bolsos do fato, a olharem para as janelas de onde se lançam homens e mulheres frágeis. Não morrem porque a altura é curta. Não chega para o suicídio. O suicídio tem caderno de encargos próprio. Mas partem pernas e braços e cabeças. Um homem morre porque parte o pescoço.
Começo a correr. Quero sair da rua Direita depressa. Com urgência. Estou com medo. Com medo dos homens gordos, do suicídio, da rua.
Chego ao Largo da Sé. E olho para a Sé. E não a vejo. O largo está cheio de carros. Carros, carros, carros. Não consigo ver a Sé, a fachada da Sé, a torre da Sé. Só vejo carros. Carros estacionados, carros a circular, carros a arder. Um carro levanta voo.
Então ouço. Ouço as badaladas das… Das quantas? Que horas são? Estou na Sé? Porque é que só há carros aqui?
Quero acordar. Por favor, quero acordar.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/04]