O Silêncio do Amor

Já quase não falamos. Às vezes ouço-me grunhir qualquer concordância. Ela nem isso. Não é que não gostemos de estar um com o outro, que gostamos. Gostamos e muito. Ela foi o meu primeiro amor. Eu também acho que fui o primeiro amor dela. Mas ela nunca me disse e eu também nunca lhe perguntei.
Estamos juntos há tanto tempo que, por vezes, funcionamos como um só. Como se eu começasse a desenvolver uma ideia e ela a acabasse, mas a acabasse da mesma forma que eu acabaria. E vice-versa.
De manhã andamos por casa. Ela arruma coisas. Tem sempre coisas para arrumar, coisas que nunca imaginei desarrumadas, mas que ela vai arrumar. Para as coisas mais pesadas, limpar o pó, aspirar, passar a ferro, vem cá uma miúda a casa. É uma bielorrussa. Inteligente. Com estudos superiores mas, isto, isto de andar a tratar da casa de pessoas, foi o que conseguiu arranjar.
Enquanto ela ciranda pela casa a arrumar coisas, eu arquivo os recortes dos jornais que cortei na véspera. Pequenas histórias. Algumas opiniões. Memórias futuras. Depois vejo que filmes vão passar na televisão para eventualmente vermos, ou eventualmente eu ver e ela deixar-se adormecer logo no genérico inicial. Já era assim quando era nova, com a idade só apurou esta sua capacidade.
De manhã bebemos uma chávena de chá. Camomila. Tília. Ou outras tisanas que por vezes nos oferecem. Eu como um biscoito. Ou um bocado de pão torrado, mas não muito torrado por causa dos dentes. Ela costuma comer uns cereais. Eu nunca consegui gostar de cereais.
Depois ela vai lavar-se. A seguir lavo-me eu. Ela, entretanto, prepara o almoço. É a nossa refeição principal. Às vezes aproveitamos restos dos dias anteriores. Comemos pouco. Há sempre sobras. Comemos muito frango. Frango assado. Frango guisado. Frango cozido. Canja de galinha feita com frango. O frango é o mais barato. E gostamos de frango. Gostamos os dois de frango. Às vezes também comemos cavala. Também é barato. Eu não gosto muito mas ela tem o cuidado de fazer a cavala de mil-e-uma maneira de forma a que me seja mais agradável.
Chega o almoço. Almoçamos. Almoçamos em silêncio na cozinha. Por vezes olhamos para a rua através da janela. Por vezes ligamos uma velha televisão a preto e branco que temos na cozinha para ouvir as notícias. Mas já não temos grande interesse nas notícias. Depois levantamos os dois a mesa. Ela passa a louça por água e eu ponho-a na máquina. Fico com dores nas costas. Tenho de me esticar. Em seguida vamos à rua.
Até sairmos de casa ainda não falámos uma palavra. Passámos a manhã em silêncio. Sem música. A ouvir os passos lentos de um e outro a cirandar pela casa.
Na rua caminhamos devagar. Tentamos não cair. Uma queda, nesta idade, pode ser fatal. Caminhamos devagar. Vamos ao café. Eu bebo um descafeinado. Ela bebe um carioca de café. Estamos por ali um pouco. Às vezes chegam alguns conhecidos. Alguns amigos do passado, velhos como nós. Às vezes chegam os filhos desses amigos. Às vezes os netos. Um cumprimento breve. Um sorriso. Passa rápido. E voltamos ao nosso rame-rame. Às vezes os velhos ficam por ali também um bocado. Nessa altura alguém fala. Alguém fala um pouco. Não muito. Mas já é uma conversa. Às vezes pedaços de conversa. Conversas iniciadas no dia anterior, na semana passada, há muitos anos a caminho de uma discoteca, de um festival de Verão, de um jogo de futebol. Sim, também já tivemos uma vida como a de toda a gente. Também fomos a sítios. Também vimos coisas. Também lutámos por melhores condições. Também fizemos sexo. Fizemos. Agora sorrio à ideia de sexo.
Folheio os jornais do dia. Às vezes peço para rasgar uma folha quando a notícia me interessa e levo a folha para arquivar no dia seguinte. Olhamos as pessoas que passam. Os miúdos cheios de vida. As miúdas muito bonitas. Todos com muito cabelo revolto.
O tempo começa a arrefecer. Compramos pão e voltamos para casa. Ela deita-se um pouco sobre a cama. Eu coloco-lhe uma mantinha por cima. Às vezes adormece. Eu sento-me no sofá da sala. Ligo a televisão e, normalmente, deixo-me adormecer.
Depois jantamos qualquer coisa leve. Uma sopa. Uma torrada. Uma peça de fruta. Depois vemos um filme. Ela adormece no genérico inicial. Por vezes lá consegue ver um filme do início ao fim. Se for um filme com acção. Ou uma história de amor.
No fim do filme vamos para a cama. Vestimos os pijamas. Passamos pela casa-de-banho. Lavamos os dentes. Ela penteia-se. Eu não tenho nada para pentear. Tomamos os comprimidos que temos para tomar. Ela deita-se. Eu dou uma volta pela casa. Para ver se está tudo desligado, fechado, trancado, e quando regresso ao quarto, para me deitar ao lado dela, já ela está a dormir. Mas mal me sente deitar ao lado dela, vira-se e abraça-me. O abraço não vai durar muito tempo porque depois terá de se virar para o outro lado, e dormimos de costas um para outro porque é a melhor maneira de conseguirmos dormir. Mas aquele primeiro momento, já adormecida, em que me abraça, já vem desde o início dos tempos. E nunca não aconteceu. E eu gosto. Gosto que ela me abrace por aqueles dois ou três minutos antes de ser virar para o outro lado.
Chegámos ao fim do dia. De mais um dia. Poucas palavras trocámos um com o outro, mas não foi preciso. Já falámos sobre tudo o que tínhamos para falar. Já discutimos tudo o que tínhamos para discutir. Já sabemos o que o outro pensa. Mas só estamos bem assim. Um com outro. Um a caminhar ao lado do outro. Um a almoçar ao lado do outro. Um deitado ao lado do outro, mesmo que de costas voltadas.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/14]

Estou Cansado e Não Sei se Consigo Chegar a Casa

Ainda é de noite quando saio da fábrica. É fim de turno. Início de outro. Cruzo-me com alguns conhecidos. Alguns já foram meus amigos. A amizade foi esbatida pelos turnos. Deixámos de nos encontrar. Agora cruzamo-nos aqui. Eu a sair. Eles a entrar. Já foi ao contrário. Há-de voltar a ser.
Já se percebe o céu mais claro lá do lado de onde vai nascer. Mas ainda é noite. Algumas pessoas já andam aí. A caminho do trabalho. Mas a maior parte deles ainda está a dormir.
Estou cansado.
Dormir de dia não me deixa descansar. Tudo em troca de mais uns parcos euros ao final do mês. Nem sei bem para quê. Vai-se todo da mesma forma. Mais euro, menos euro, ele esfuma-se.
Estou cansado.
Chego à estação de comboio. Sou o único que espera para ir em contra-ciclo. Aguardo sozinho no apeadeiro. Não me sento num destes bancos vazios. Se me sento adormeço e perco o comboio. Não posso adormecer. Não posso perder o comboio. Preciso de ir para casa. Preciso de chegar a casa antes dos meus filhos saírem para a escola. Preciso de vê-los. Quero vê-los. Dar-lhes um beijo. Dizer-lhes que os amo. Desejar-lhes um bom-dia de escola.
Acendo um cigarro. Mas não me apetece fumar. Estou cansado. Fumei muitos cigarros durante a noite, durante o meu turno. Mas esta espera, deixa-me ansioso. Preciso de um cigarro entre os dedos. Mais que o fumo nos pulmões, o cigarro nos dedos.
Já está mais claro. O céu. Ainda não é dia. Mas acelera.
Ouço o comboio a chegar. Tenho um arrepio de frio. Mas não está frio. Deve ser só o cansaço.
O comboio chega. Chega à hora. Mando fora o cigarro. As portas abrem-se. Há muita gente a sair. Já há muita gente a vir de casa para colocar a cidade a funcionar. É madrugada mas a cidade está a acordar.
Eu sou o único a regressar no comboio. A voltar para trás. A ir para casa.
Entro na carruagem. Olho em volta. Posso escolher o lugar que quiser. Estão todos vagos. Sou o único passageiro. Sento-me na direcção da viagem. Junto à janela. A ver o rio. Gosto de ver o rio. Gostava de lá estar. No rio. Num barco dentro do rio. Acima e abaixo na pequena ondulação do rio. À pesca. À pesca de… O que é que se pesca neste rio?
Estou cansado.
Encosto a cabeça no vidro da janela e sinto a trepidação do comboio que me faz vibrar como um telemóvel.
Penso no momento em que chegar a casa. No banho que vou tomar antes dos miúdos se levantarem. Do pão que irei pôr na torradeira. No leite que irei aquecer. Nunca irei perceber como é que gostam de leite quente. Eu detesto.
Estou a listar a minha futura manhã quando chega o fiscal. Pede-me o bilhete. Sou o único passageiro. Estou cansado. Levo a mão ao bolso das calças e mostro o passe. O fiscal segue em frente. Irá percorrer o resto do comboio vazio. Há-de voltar cheio outra vez, o comboio, na viagem de volta.
Estou cansado.
Pergunto-me se as coisas vão ser sempre assim.
Estou cansado e sinto-me farto. Não consigo perceber o sentido de tudo isto. Destes dias iguais que se repetem, sem sentido, uns a seguir aos outros. Iguais. Sempre iguais. Dia-após-dia. Sempre o mesmo rame-rame. Vale a pena?
Volto a encostar a cabeça ao vidro da janela. Pareço sair de mim. Pareço desfalecer. Como se fosse um sonho. Estou cansado. Não sei se consigo chegar a casa. Gostava de ver os meus filhos uma vez mais. Gostava de conseguir chegar a casa. Mas sinto-me cansado. Cansado da vida.
Acho que saio do comboio. Voo por cima dele, da linha, do rio, da cidade…

[escrito directamente no facebook em 2019/10/02]

No Dia da Morte de Agustina

No dia da morte de Agustina e da sua passagem ao panteão da imortalidade, onde se firmam os pequenos deuses da história do Homem, penso na minha própria imortalidade.
Mas a minha não é figurada. Eu não sou construtor de vidas. De obras. Eu não deixo legado. Não preciso.
Eu sou mesmo imortal. Num certo sentido, sou Deus.
Sou eu que concebo o mundo e todas as coisas que ele contém. Todas as coisas que existem acima do céu. Todas as coisas que existem abaixo da terra no cemitério e abaixo do fundo do mar. Todas as coisas tão longínquas que não consigo ver nem imaginar que lá estão. Mesmo as coisas que não percebo. Mesmo as coisas de que ignoro a existência. Tudo isso faz parte do meu processo criador. Tudo isso faz parte da parte criada por mim.
No dia da minha morte, se por ventura a minha morte, a morte de um imortal, fosse possível, o mundo deixaria de existir. Deixaria de existir num piscar de olhos. Se eu largasse o último suspiro o mundo extinguir-se-ia, não como com uma explosão, abalo ou agitação em jeito de apocalipse, mas como o sinal de televisão a morrer no cinescópio, reduzido a um ponto branco que diminui de tamanho até ao micro-qualquer-coisa e, por fim, deixar de ser. E ser nada. Sem dramas. Nem dor. Inexistir.
Penso nisso enquanto movimento o aspirador aqui por casa.
Lembrei-me que já tinha o aspirador arranjado. E lembrei-me que há já algum tempo que não aspirava a casa. Já via acumular-se o cotão pelos cantos não habitados da casa. Vi começar a aparecer algum verdete. Algum bolor. A casa é húmida. E eu não tenho muita paciência para tratar dela.
Peguei no aspirador e comecei a aspirar a casa. Comecei pelo quarto. Percebi que estou a perder cabelo. Não que me sinta careca. Mas percebi que anda a cair. A cair nas almofadas que me amparam o sono. A cair pelo chão do quarto. Na casa-de-banho reparei no mesmo. Mas também havia uns pêlos mais curtos. Presumo que da barba que aparo de vez em quando. Os pêlos haviam de ter de ir para algum lado. Vão para o chão, afinal. E eu tendo a não os ver. Mas vi agora. Agora que estou a aspirar a casa e vejo o soalho a mudar de cor, a ganhar brilho, outra luminosidade. Os tapetes a recuperarem os motivos originais.
Parece que tenho uma casa nova. Uma casa digna de um imortal.
Preciso de mudar as lentes dos óculos de ver.
A Agustina viveu uma vida cheia. Cheia e comprida. A minha vai ser ainda mais comprida. Tão comprida quanto eu quiser. Vou manter este mundo enquanto tiver paciência para o aturar.
Na sala descubro que ando a deixar cair cinza. Cinza dos cigarros. Isso desperta-me a vontade de fumar um. Desligo o aspirador. Acendo um cigarro. Vou até à janela. Abro-a. Debruço-me sobre a rua. E penso se tenho vontade de estender a minha imortalidade para além da Agustina. Para além de Matusalém. Penso se não começo já a ficar cansado deste rame-rame que se repete sempre da mesma maneira todos os dias, todas as semanas, todos os meses, todos os anos, todas as vezes nas minhas vidas numa só.
Às vezes estou cansado. Às vezes estou tão cansado de conceber um mundo tão imperfeito que me apetece terminá-lo. Deixo cair um bocado de cinza no chão da sala. E penso que a minha vida é uma sucessão de repetições. E penso que começo já a sentir-me farto.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/03]

Corte de Cabelo

Desci da camioneta no novo terminal. Aquilo era um novo terminal já comido pelo tempo. Há muitos anos que não ia ali. Não ia ali de camioneta. Naquele tempo o terminal era outro. Este agora era um terminal novo. Mas a memória que tinha do antigo preservava-o mais que este que me garantia ser novo e já tão estragado pela erosão. Também pela falta de manutenção, uma das grandes doenças destes tempos que correm. As entidades gastam as verbas na criação dos espaços mas, depois, não têm como os manter. Ou não querem. Ou esquecem-se. O esquecimento também é uma doença destes tempos.
E foi isso que eu vi quando desci naquele terminal. O esquecimento e a morte.
Saí da camioneta e fui logo bafejado por uma onda de calor. Estava quente. Levei com uma explosão térmica que me fez desejar não ter ido ali. Mas aguentei. Tive de aguentar. Não fiz todos aqueles quilómetros para voltar atrás.
Havia silêncio. Quase silêncio. O motorista tinha desligado o motor da camioneta. Os ouvidos, habituados àquele rame-rame de um motor a gasóleo, suspiraram de alívio. O calor abafava quase todos os sons. Percebia-se o som distante das cigarras. Mais distante ainda, o som do mar. Pelo menos parecia-me. Mas podia ser só sugestão. Estava com calor. Com calor e com vontade de mergulhar. Mas tinha ido ali por outro motivo.
Tinha ido ali para cortar o cabelo.
Saí do terminal e caminhei junto às casas da rua para tentar aproveitar as mínimas sombras existentes. Cheguei à marginal. Olhei o mar. Estava convidativo. Pensei na minha transpiração. Sabia-me bem um mergulho, pensei. Mas vai saber-me melhor o cabelo cortado. Cortado curto. E caminhei durante algum tempo pela marginal. Acompanhei o mar. Olhei as pessoas a apanhar banhos de sol. Apreciei os corpos. Senti alguma vergonha do meu. Depois meti para dentro. Virei numas ruas até chegar à casa. Toquei à campainha. Ouvi um clique. Empurrei a porta. Abriu. Entrei. Avancei pela casa na penumbra. À espera de descobrir o que procurava. Voltei a sair. Luz. Comecei a ouvir música. Umas velhas canções New Wave. Saí do outro lado da casa. Saí para um quintal. Com umas árvores. Um baloiço. Uma piscina de borracha. Uma piscina grande. Um pequeno balcão a fazer de bar. Uma mala térmica. E uma cadeira. A cadeira. A cadeira onde ela cortava o cabelo.
Ela estava a acabar de cortar o cabelo a um rapaz. Eu abri a mala térmica. Olhei lá para dentro. Olhei para as garrafas no bar. Agarrei num limão. Pequei num copo. Fiz um gin tónico. Sentei-me no chão. Encostado a uma árvore. À sombra. À espera.
Depois o rapaz foi despachado.
E ela chamou-me. Levantei-me. Abraçámos-nos. Trocámos beijos. E ela disse Tinha saudades tuas. E eu disse Isto está bonito.
Sentei-me na cadeira. Ela cortou-me o cabelo. Conversámos. Quer dizer, ela falou. Eu escutei. Acabei com o gin.
Ela já não tinha mais cabelos para cortar. Mais tarde haveria de chegar gente para beber uns copos e ouvir música. Aproveitou para entrar na piscina de borracha e refrescar-se um pouco. Eu olhei o relógio de pulso e fui embora. Despedi-me.
Refiz a marginal. Voltei ao terminal. Ainda tinha de esperar uma hora pela camioneta para me levar de regresso a casa.
E foi então que fui ao mar. Dar um mergulho. Com o meu cabelo cortado curto. Nem me lembrei de ter vergonha do meu corpo flácido. Mergulhei no mar e senti-me bem. Senti-me fresco.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/28]