O Poço

Há lá fora, no quintal, um poço que está tapado por uma tampa redonda de madeira forte e pesada mas que eu conseguiria abrir se se desse o caso de o querer abrir. Às vezes tenho vontade de lá colocar a cabeça para arrefecer, esquecer ou a fazer adormecer.
Estes tempos não têm sido propícios às minhas divagações mentais. Ponho-me a pensar no que a vida nos está a fazer e, quando dou por mim, estou no quintal a caminho do poço. Sento-me sobre a tampa, cruzo as pernas e acendo um cigarro. Às vezes penso que queria que a tampa cedesse ao meu peso.
Nestes últimos dias em que o tempo tem andado numa roda-viva, de manhã Verão e à tarde Inverno, sem que nunca, em momento algum, haja um cheirinho, por suave que seja, a uma pequena Primavera ou um pequeno Outono, os saltos são assim de gigante como se jogasse à Mamã Dá Licença? com o universo, sinto a asma ganhar dimensão dentro de mim, o corpo verga-se ao peso da respiração pesada e forçada, só estou bem em pé, e conto os minutos até conseguir voltar a fumar um cigarro e limpar a cabeça.
Em dias como os de hoje sinto crescer uma certa melancolia que, nestes últimos tempos me faz vir até ao poço. Tem piada que o poço já cá estava quando para cá vim morar, já estava tapado, até tinha uns vasos com plantas lá por cima, mas eu nunca lhe liguei nenhuma.
Surgiu assim, como num estalar de dedos, estava eu no sofá a ver a contabilização do número de mortos no mundo por causa do Covid-19, quando vi projectado na minha cabeça a imagem do poço e senti formar-se em mim a consciencialização do poço, um poço fundo, não sabia de quantos metros de profundidade, nem se tinha água ou não e se a água era boa para beber. Senti-me atraído pelo poço. Foi essa a primeira vez que fui ao poço. Levantei-me do sofá. Deixei a televisão ligada. Saí de casa. Estava aquele lusco-fusco cinzentão e já tinha chovido durante a tarde. Fui até ao poço. Olhei-o. Senti-o a olhar para mim. Senti-o a convidar-me para me sentar lá em cima, em cima dele. E eu sentei-me. Sentei-me em cima dele. Senti logo o rabo molhado que a tampa do poço estava ainda molhada da chuva da tarde. Cruzei as pernas. Respirei fundo. Depois acendi um cigarro e fiquei ali, em cima do poço a fumar o cigarro.
Enquanto fumava o cigarro pensava que o poço era um portal, uma porta dimensional, que bastava eu deixar-me cair lá dentro e viajava para o passado, viajava para o futuro, viajava para o outro lado do mundo, entrava numa outra dimensão em que havia mais cores do que alguma vez tinha imaginado. E quando acabava o cigarro, como que despertava de um sonho e regressava à minha vida de todos os dias, uma vida tridimensional, cheia de dramas, problemas e, agora, também morte.
Ultimamente tenho-me sentido impelido muitas vezes a ir sentar-me em cima da tampa do poço. Sinto-me convidado a fumar um cigarro. E parece-me que estou a ser levado pela atracção do fundo do poço. Não são poucas as vezes em que imagino cair lá dentro. E vejo-me nessa queda bizarra, em que as paredes do poço passam por mim em câmara lenta e como se fossem um filme preto como o da Marguerite Duras ou colorido como a queda de Alice pelo Walt Disney, mas sem nunca chegar ao fundo.
Agora, neste momento, vim até ao poço para me sentar em cima da tampa e fumar um cigarro e descobri que já retirei a tampa. Não me lembro de o ter feito, mas fi-lo. Descobri uma farpa num dedo e não consigo tirá-la. Olho para o fundo do poço. Meto a cabeça lá dentro e olho. Não vejo nada. Acendo um cigarro. Encosto-me à beira do poço. E volto a meter a cabeça. Olho lá para dentro e desejo que o poço me adormeça.
Sinto-me fascinado e, ao mesmo tempo, um pouco melancólico.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/07]

Quando o Velho Morreu

Quando o velho morreu, a aldeia entrou-lhe, literalmente, pela casa dentro.
O velho tinha fama de forreta. Guardava tudo o que ganhava. Tinha vários terrenos. Terrenos rurais, com árvores de frutos, pinheiros, vinhas, oliveiras. Não deviam dar muito, hoje em dia estas coisas já não dão muito ao produtor mas, quando não se gasta nada, o pouco que se ganha vira muito. Tinha vários terrenos espalhados à volta da aldeia. O velho passava os dias de motorizada a andar de uns terrenos para os outros, a cuidar da sua vida e da vida dos seus terrenos, a ver se tudo estava bem, se ninguém tinha roubado nada.
O velho não tinha nenhuma conta no banco. Pelo menos, não nos bancos com balcões na vila mais próxima, que houve gente que tratou de o saber. Nestes meios pequenos, tudo se sabe. Ou quase tudo.
A verdade é que o velho era um miserável que vivia miseravelmente. Ninguém o via em lado nenhum a gastar um tostão. Ia de vez em quando à mercearia da aldeia comprar algumas coisas, mas nunca comprava muito. E regateava o preço das coisas como na feira, como quando ia à feira vender alguns dos seus animais ou os frescos que amanhava nas hortas que ia mantendo.
Andava sempre roto. Roto e sujo. Não sei se alguma vez tomou banho. Pelo menos, não depois de ficar sozinho na casa.
Os filhos, e tinha dois filhos, um rapaz e uma rapariga, um casal, há muito que tinham abandonado a aldeia. Tinham ido para Coimbra estudar e nunca mais regressaram. Nem um nem outro. A mulher, seguiu os passos dos filhos. Mais concretamente da filha, a mais nova. Saiu com ela. Foi com a filha para Coimbra, parece. Consta que o velho nunca lhes dava dinheiro para nada. E que a mulher levava de vez em quando. Ele tinha mau feitio, está de ver. Ela aproveitou a saída dos filhos e saiu também. Nunca mais regressou. O velho também não foi à procura dela. Acho que o velho gostava de viver assim. Era um solitário. Era uma alma de outro tempo. Um velho zangado com a sua própria existência.
A casa onde vivia estava a cair de podre. O velho não fazia a manutenção da casa. Que como estava, estava muito bem, dizia a quem o interrogava. Acho que depois que a mulher o abandonou, aquela casa nunca levou uma barrela. Nunca vi os tapetes da casa a arejar na rua. Nunca vi roupa estendida ao sol. Nunca vi uma janela aberta a arejar a casa. Mas vi o branco da cal a ficar cinzento. Vi as portadas a cair. Um vidro da janela partido e trocado por um saco de plástico de supermercado.
Na vida do velho não havia fins-de-semana, Natal, Carnaval ou Páscoa. Todos os dias eram dias de trabalho. Você não come todos os dias? Os animais também, voltava a dizer a quem o questionava sobre as suas ausências da missa e das festas da aldeia.
Quando os organizadores das festas lá iam bater à porta a pedir ajuda para a organização, dava-lhes meia-dúzia de ovos. E era o que dava. Era o que dava sempre. Um dia, os bombeiros da vila próxima também andaram pela aldeia a angariar fundos, Bombeiros Voluntários precisam sempre de apoio, não é?, pois também os presenteou com uma meia-dúzia de ovos. Os bombeiros não se fizeram rogados, levaram os ovos e fizeram uma omeleta no quartel. Não deu para muitos deles, mas não os estragaram.
Dizia-se que o velho tinha muito dinheiro escondido em casa. Dizia-se. Era o que o povo dizia. E o povo diz sempre muita coisa, tem sempre razão e sabe de tudo. O povo tem um nariz grande e enfia-o em todo o lado.
Quando o velho morreu, foi toda a gente da aldeia para casa do velho à procura do dinheiro.
Não sei como é que se soube da morte do velho, mas estas coisas sabem-se sempre, não é?
Até eu soube. Parece que o velho caiu ao poço. Caiu ao poço que tinha lá em casa, nas traseiras da casa, e que ele ainda usava para regar as couves que tinha por lá plantadas.
Não sei como é que se soube da queda do velho mas, ainda antes dos bombeiros chegarem a casa e tentar recuperar o corpo (ainda não se sabia se estava vivo ou não), já andava gente pelo quintal a escavar terra. Depois dos bombeiros recuperarem o corpo, e confirmarem que o velho estava efectivamente morto, acabou por ir para lá toda a aldeia. Até os miúdos que fugiam assim que o viam. Entraram por casa, pelo barracão onde guardava as alfaias agrícolas, escavaram o quintal, alguns até foram palmilhar os terrenos que eram do velho, os terrenos em volta da aldeia, pelo menos os terrenos que se sabia serem do velho. Mas é provável que até houvessem outros.
Eu deixei-me ficar sentado no muro de minha casa, cigarro aceso na mão, uma garrafa de vinho tinto ao lado e um copo de vidro. Aquilo era melhor que ir ao cinema.
Acabei por assistir à chegada da família. Foi no dia seguinte. A mulher e os dois filhos. Mais tarde ainda chegaram uns sobrinhos. Mas quando chegaram a mulher e os filhos, tiveram de chamar a GNR para colocar toda a gente na rua. Chegou a haver alguma confusão. As pessoas não queriam sair. Diziam que a mulher e os filhos já não tinham o direito de estar ali porque tinham abandonado o velho e a aldeia é que o tinha aturado todos aqueles últimos anos. A GNR acabou por dar voz de prisão a uns quantos mais afoitos. Chegaram a disparar para o ar. Não sei se balas verdadeiras. Também não sei se a GNR tem munição de borracha. Aqui é o campo. Aqui, quando as coisas dão para o torto, é para matar. Aqui os vizinhos levantam muros para roubar meio-metro de terreno ao lado. Aqui as pessoas cortam veios de água para não chegarem ao terreno do vizinho. Aqui abrem-se poços, mesmo quando não são precisos, para se ter acesso a água se um dia for necessário e bloquear o caminho para o vizinho seguinte. Aqui, quando as pessoas se zangam, discutem com uma espingarda nas mãos ou uma forquilha. Aqui, quando a GNR é chamada, vai armada porque nunca sabe o que é que a espera. E, no entanto, cruzam-se todos na igreja aos Domingos.
Então, a GNR teve de disparar para o alto para dispersar as pessoas que estavam no quintal e na casa do velho. As pessoas saíram, mas saíram a contra-gosto.
O funeral do velho foi dois dias depois deste acontecimento com a guarda e três dias depois da morte do velho. Não houve autópsia. Aqui é o campo. Quando alguém cai num poço, morre da queda e cai porque é o que acontece quando se têm poços sem estarem tapados.
Só os dois filhos do velho foram ao funeral. Os dois filhos e o padre. Os homens da funerária ajudaram o coveiro a enterrar a urna. Não havia mais ninguém. Não havia mais nenhum familiar. Não havia um amigo. Nenhum conhecido. Nada. Ninguém.
A mulher e os sobrinhos ficaram em casa. Suponho que à procura do que ainda ninguém tinha encontrado.
Sentado no muro do meu quintal, a fumar um cigarro e com um copo de vinho tinto nas mãos (o vinho desta zona é muito mau mas, os pequenos produtores, que fazem vinho para consumo próprio, oferecem-me, às vezes, algumas garrafas de um vinho que, ao segundo copo, se revela, afinal, muito bom), vejo-os a andar lá pela casa. Ouvem-se barulhos vindos lá de dentro. As gentes da aldeia vão passando aqui pela casa, a dar fé. Mas a GNR está à entrada. Ninguém entra. Andor, andor! dizem os guardas.
Depois chegam os filhos. Entram em casa. Saem todos. Pegam nos carros e vão-se embora. Foram-se todos embora. Os filhos e a mãe e os sobrinhos. A GNR, ao fim de algum tempo, também se foi embora. As pessoas voltaram a entrar em casa. Voltaram a escavar no quintal, desceram ao poço, levantaram o chão da casa e ninguém encontrou nada. A casa que estava em mau estado ficou ainda pior.
Isto já aconteceu há uns anos. Os filhos e a mulher nunca mais cá voltaram. A casa está em ruínas. O mato tomou conta de tudo. Aquilo agora é campo de víboras. Já chamei várias vezes a GNR. Já fui fazer queixa à Junta de Freguesia. Dizem que não podem fazer nada. É terreno privado. Ninguém quer saber porque ninguém encontrou o dinheiro do velho.
Um dia destes deito-lhe fogo.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/11]

Sinto-me em Queda

Querem que sorria?
Que agradeça a sopa quente que me oferecem num copo de plástico?
Que a minha cabeça acene, obediente, as ordens de um algoritmo?
Querem gratidão pela dádiva do Pai?
Estou em queda.
Tudo cai. Tudo morre. Não há gratidão possível quando tudo morre.
Foi o quadro que caiu parede abaixo. Não rasgou a tela, vá lá. Mas partiu a moldura. Uma moldura barata comprada numa loja de chineses. Assim como a tela. Foi numa loja de chineses que o artista comprou a tela que pintou. Não havia dinheiro para mais, disse. Não há dinheiro para mais, digo.
Foi o computador que caiu do braço da poltrona abaixo, onde estava em equilíbrio precário para apanhar o wireless fugidio. Uma amolgadela no alumínio perfeito do MacBook Pro, desenhado na América mas fabricado na China.
Foi o carro que bateu num pilar numa marcha-atrás feita às escuras e sem visão no ângulo morto. Chapa rasgada, amolgada e tinta descascada.
Foi a conta da electricidade. Tenho-a aqui na mão. Valor por kwh. Escalão 1. Potência mais baixa. Taxas e impostos. Contribuição audiovisual. Mais o IVA para isto tudo. Deixar cortar? Que importa agora? Não estou em casa.
Estou em queda.
Escorreguei no meu próprio vómito. Parti a bacia. Tenho de parar de beber vinho barato. É barato mas sai caro. Dá-me azia. Revolve-me o estômago. Faz-me bolsar as tripas.
Escorreguei no vomitado e caí. Parti a bacia. Enxaqueca. Dentes cariados. Garganta inflamada. Cravos nas mãos. Unhas encravadas nos dedos dos pés. Hemorroidas. Borbulhas várias ao longo do corpo, especialmente nas costas e nas virilhas. Algumas com cabeça branca. Cheias de pus. Varizes. Pernas trémulas. Artroses. Já não escrevo nada com caneta. Mal toco as teclas do computador amolgado. Agora só falo. Comigo. Duas horas caído no chão até conseguir arrastar-me pelo corredor, os gritos calados, até chegar ao telemóvel e chamar os bombeiros.
Estou no SNS. Talvez o que melhor funciona nesta pobre país a cair das arribas para o mar. Talvez por isso queiram dar cabo dele. Talvez porque funciona para quem não tem seguros de saúde privados. Como pagá-los? O Salário Mínimo Nacional é de 635 euros em 2020.

O presidente da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, António Saraiva, considerou que 635 euros para 2020 é Um objectivo ambicioso, tal como o objectivo para 2023, de atingir 750 euros.

Triste quando a ambição do presidente da CIP é tão pouco ambiciosa. Reflecte a realidade empresarial nacional. Temos os salários que merecemos. Os trabalhadores que merecemos. Os empregos que merecemos. Os patrões que merecemos.
E eu? O que é que eu mereço?
Estou em queda. E a vida tirou a vida para me chatear.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/10]

O Silêncio do Amor

Já quase não falamos. Às vezes ouço-me grunhir qualquer concordância. Ela nem isso. Não é que não gostemos de estar um com o outro, que gostamos. Gostamos e muito. Ela foi o meu primeiro amor. Eu também acho que fui o primeiro amor dela. Mas ela nunca me disse e eu também nunca lhe perguntei.
Estamos juntos há tanto tempo que, por vezes, funcionamos como um só. Como se eu começasse a desenvolver uma ideia e ela a acabasse, mas a acabasse da mesma forma que eu acabaria. E vice-versa.
De manhã andamos por casa. Ela arruma coisas. Tem sempre coisas para arrumar, coisas que nunca imaginei desarrumadas, mas que ela vai arrumar. Para as coisas mais pesadas, limpar o pó, aspirar, passar a ferro, vem cá uma miúda a casa. É uma bielorrussa. Inteligente. Com estudos superiores mas, isto, isto de andar a tratar da casa de pessoas, foi o que conseguiu arranjar.
Enquanto ela ciranda pela casa a arrumar coisas, eu arquivo os recortes dos jornais que cortei na véspera. Pequenas histórias. Algumas opiniões. Memórias futuras. Depois vejo que filmes vão passar na televisão para eventualmente vermos, ou eventualmente eu ver e ela deixar-se adormecer logo no genérico inicial. Já era assim quando era nova, com a idade só apurou esta sua capacidade.
De manhã bebemos uma chávena de chá. Camomila. Tília. Ou outras tisanas que por vezes nos oferecem. Eu como um biscoito. Ou um bocado de pão torrado, mas não muito torrado por causa dos dentes. Ela costuma comer uns cereais. Eu nunca consegui gostar de cereais.
Depois ela vai lavar-se. A seguir lavo-me eu. Ela, entretanto, prepara o almoço. É a nossa refeição principal. Às vezes aproveitamos restos dos dias anteriores. Comemos pouco. Há sempre sobras. Comemos muito frango. Frango assado. Frango guisado. Frango cozido. Canja de galinha feita com frango. O frango é o mais barato. E gostamos de frango. Gostamos os dois de frango. Às vezes também comemos cavala. Também é barato. Eu não gosto muito mas ela tem o cuidado de fazer a cavala de mil-e-uma maneira de forma a que me seja mais agradável.
Chega o almoço. Almoçamos. Almoçamos em silêncio na cozinha. Por vezes olhamos para a rua através da janela. Por vezes ligamos uma velha televisão a preto e branco que temos na cozinha para ouvir as notícias. Mas já não temos grande interesse nas notícias. Depois levantamos os dois a mesa. Ela passa a louça por água e eu ponho-a na máquina. Fico com dores nas costas. Tenho de me esticar. Em seguida vamos à rua.
Até sairmos de casa ainda não falámos uma palavra. Passámos a manhã em silêncio. Sem música. A ouvir os passos lentos de um e outro a cirandar pela casa.
Na rua caminhamos devagar. Tentamos não cair. Uma queda, nesta idade, pode ser fatal. Caminhamos devagar. Vamos ao café. Eu bebo um descafeinado. Ela bebe um carioca de café. Estamos por ali um pouco. Às vezes chegam alguns conhecidos. Alguns amigos do passado, velhos como nós. Às vezes chegam os filhos desses amigos. Às vezes os netos. Um cumprimento breve. Um sorriso. Passa rápido. E voltamos ao nosso rame-rame. Às vezes os velhos ficam por ali também um bocado. Nessa altura alguém fala. Alguém fala um pouco. Não muito. Mas já é uma conversa. Às vezes pedaços de conversa. Conversas iniciadas no dia anterior, na semana passada, há muitos anos a caminho de uma discoteca, de um festival de Verão, de um jogo de futebol. Sim, também já tivemos uma vida como a de toda a gente. Também fomos a sítios. Também vimos coisas. Também lutámos por melhores condições. Também fizemos sexo. Fizemos. Agora sorrio à ideia de sexo.
Folheio os jornais do dia. Às vezes peço para rasgar uma folha quando a notícia me interessa e levo a folha para arquivar no dia seguinte. Olhamos as pessoas que passam. Os miúdos cheios de vida. As miúdas muito bonitas. Todos com muito cabelo revolto.
O tempo começa a arrefecer. Compramos pão e voltamos para casa. Ela deita-se um pouco sobre a cama. Eu coloco-lhe uma mantinha por cima. Às vezes adormece. Eu sento-me no sofá da sala. Ligo a televisão e, normalmente, deixo-me adormecer.
Depois jantamos qualquer coisa leve. Uma sopa. Uma torrada. Uma peça de fruta. Depois vemos um filme. Ela adormece no genérico inicial. Por vezes lá consegue ver um filme do início ao fim. Se for um filme com acção. Ou uma história de amor.
No fim do filme vamos para a cama. Vestimos os pijamas. Passamos pela casa-de-banho. Lavamos os dentes. Ela penteia-se. Eu não tenho nada para pentear. Tomamos os comprimidos que temos para tomar. Ela deita-se. Eu dou uma volta pela casa. Para ver se está tudo desligado, fechado, trancado, e quando regresso ao quarto, para me deitar ao lado dela, já ela está a dormir. Mas mal me sente deitar ao lado dela, vira-se e abraça-me. O abraço não vai durar muito tempo porque depois terá de se virar para o outro lado, e dormimos de costas um para outro porque é a melhor maneira de conseguirmos dormir. Mas aquele primeiro momento, já adormecida, em que me abraça, já vem desde o início dos tempos. E nunca não aconteceu. E eu gosto. Gosto que ela me abrace por aqueles dois ou três minutos antes de ser virar para o outro lado.
Chegámos ao fim do dia. De mais um dia. Poucas palavras trocámos um com o outro, mas não foi preciso. Já falámos sobre tudo o que tínhamos para falar. Já discutimos tudo o que tínhamos para discutir. Já sabemos o que o outro pensa. Mas só estamos bem assim. Um com outro. Um a caminhar ao lado do outro. Um a almoçar ao lado do outro. Um deitado ao lado do outro, mesmo que de costas voltadas.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/14]

A Casa do Lado

A casa do lado está sempre fechada. Parece uma casa vazia. Mas não é.
Por várias vezes, em noites de insónia, saio de casa de madrugada, naquele momento em que a claridade começa a despertar, para fumar um cigarro e caminhar um pouco ao longo da rua e desentorpecer as pernas, e já vi um carro a sair de lá. Parece-me ser uma mulher, ao volante. Mas está sempre em silhueta. Acho que se esconde de propósito.
Estou na rua, o cigarro na boca, ou nos dedos, o fumo a subir aos céus, e ouço o mecanismo da porta da garagem a abrir. Fico ali parado, ao lado da casa, a ver. O carro só sai da garagem depois da porta chegar mesmo ao cimo e parar. Então o carro sai. E pára logo lá em frente e aguarda até a porta da garagem se fechar por completo. E então vai-se embora. Tento sempre espreitar para dentro do carro. Mas não consigo ver com clareza. Parece ser uma mulher. Talvez com o cabelo apanhado. Ou curto. A silhueta é magra. É tudo o que consigo perceber.
Já aqui vivo há cerca de seis anos. A casa já estava assim. Sempre com as janelas fechadas. As portas fechadas. Nunca vi roupa estendida a secar ao sol. Nem tapetes a arejar em janelas abertas. Nunca vi ninguém a ir despejar lixo. Nunca vi ninguém a cuidar do pequeno jardim que existe à frente da casa e, no entanto, o jardim tem um ar cuidado. Nunca vi fumo a sair da chaminé. Ninguém deve cozinhar naquela casa. Ninguém deve acender a lareira, mesmo nos dias gelados de Janeiro.
Aquela casa, aqui ao lado, é um mistério. Mesmo depois de ter ido lá espreitar, uma noite destas.
A casa parece abandonada. Parece não albergar lá vida. Mas já vi sair de lá alguém que me parece uma mulher. E há, por vezes, nem sempre, mas por vezes, uma divisão com luz numa espécie de meio-andar da casa. Uma divisão com uma janela não muito alta, mas larga, como um rasgo no alto da parede da casa, por cima da garagem, o que me faz pensar numa espécie de mezzanine.
Uma noite destas, tinha ido à rua levar o lixo, já era tarde, tarde da noite, tinha largado o saco no caixote, estava a acender um cigarro quando reparei que a luz estava de novo acesa. Na tal janela rasgada quase ao longo da casa mas mais acima na parede exterior, por cima da garagem. A janela tinha cortinas japonesas puxadas para baixo. Não se via nenhuma sombra.
Fumei o cigarro na rua, ao lado do caixote do lixo, enquanto tomava a decisão.
E decidi.
Lancei o resto do cigarro fora. Subi a rua. Galguei o muro da casa vizinha. Não havia cães nem gatos. Passei o jardim que continuava bem tratado. Aproximei-me da casa. Andei à volta dela à procura de um caminho para subir à janela rasgada. Subi a uma janela e puxei-me ao primeiro telhado, o mais baixo. Depois fui andando devagar, com cuidado, até me aproximar do segundo telhado, por cima da garagem. Fui a caminhar por um friso que ficava abaixo da janela, ou por cima da garagem, agarrado ao beiral do segundo telhado, até chegar à janela rasgada com luz no interior. Tentei espreitar, mas não conseguia ver nada. As cortinas japonesas vedavam-me o acesso. Tentei encontrar sombras, mas não dava para perceber nada.
Fui andando ao longo do friso à procura de uma nesga. Devagar, para não cair. A queda também não seria muito grave. E então, aproximei-me da junção de duas cortinas. Uma pequena nesga entre uma cortina e outra. Tentei espreitar. Cheguei-me ao vidro. Andei com um olho para cima e para baixo, De um lado para o outro. E então, finalmente, vi. Vi um corpo de mulher, vestido com um fato de licra cor-de-rosa, e collants de um branco que me parecia creme, a roçar-se numa bola gigante de borracha, uma daquelas bolas de pilatos. O corpo subia e descia sobre a bola. Rolava. Esticava-se. Virava-se. Via os pés esticados, as pontas dos dedos dos pés a tocarem, muito levemente, no chão de madeira, enquanto o corpo se esticava ao longo da curvatura da bola. Não conseguia ver a cara. Tentei várias vezes. Andei com os olhos ao longo da nesga de espaço entre uma cortina e outra, mas nada. Não conseguia ver a cara. Fiquei por ali algum tempo. O corpo mexia-se, mas a cara continuava fora de visão. Era uma mulher. Isso de certeza. Era o corpo de uma mulher. Uma mulher jovem.
Depois o corpo ergueu-se. Largou a bola que vi ficar sozinha. A luz apagou-se. Não ouvi nenhum barulho. Esperei um bocado. Nada.
Desci do friso sobre a garagem. Percorri o jardim. Saltei o muro e voltei à rua. Acendi um cigarro. Virei-me para a casa e estava na escuridão. Parecia uma casa deserta. Uma casa vazia. Mas eu sabia que vivia lá alguém. Havia alguém naquela casa.
Talvez houvesse lá um portal, pensei.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/11]

Perna Partida

Parti uma perna. Tive sorte. Não parti a bacia. A bacia é algo que os velhos como eu costumam partir quando caem. Eu caí e só parti uma perna. Vá lá. No meio do meu azar, acabei por ter sorte.
A bacia é a pélvis e ficou muito conhecida graças a Elvis Presley e à sua forma de dançar. A alcunha que ganhou, The Pelvis, foi por mexer a pélvis de forma muito sexual. As raparigas adoravam. Os pais delas não.
Parti a perna em casa. Que é também um dos sítios onde os velhos, como eu, mais caem e partem partes do corpo. A bacia é a pior delas, mas há outras coisas a quebrar. No meu caso foi a perna. Tive sorte. Podia ter sido pior.
A minha casa, como muitas das casas arrendadas na baixa da cidade, casa de poucas assoalhadas, para tempo muito limitado e uma rotação muito grande de inquilinos, o que não é o meu caso que já estou aqui há cinco anos, é de mosaico. Um mosaico vidrado que facilita a limpeza. É só passar um pano húmido. Mas no Inverno é terrível. Está sempre húmido. Nunca seca. E então, em dias de chuva, parece que a chuva que cai lá fora vem toda cá para dentro de casa.
Eu amarrava uma toalha de turco, absorvente, na escova da vassoura para limpar a humidade de casa. Mas durava só alguns minutos. No melhor dos casos, uma hora. Depressa voltava tudo a ficar húmido, molhado e cheio de água. Às vezes parecia que nascia água debaixo das lajes.
E foi o que aconteceu.
Começou a chover. Chegou o frio. O chão começou a ficar cheio de humidade. Eu estava na mesa da cozinha a acabar de comer uma omeleta. Uma omeleta simples, só de ovo, com uma pitada de sal e pimenta e um pouco de salsa fresca picada, salsa que roubei do vaso da vizinha do lado e que me obrigou a estender no muro da varanda e que por pouco não caí lá em baixo na rua. Comi a omeleta na companhia de um copo de vinho tinto. Levantei-me para ir colocar o prato, sujo e vazio, no lava-louças e apanhar um pequeno prato com um marmelo assado com canela, que uma amiga cá veio trazer a casa, quando me desequilibrei, deixei cair o prato que se partiu em mil-e-um-pedaços ainda dantes de me colocar em queda, que vi acontecer em câmara-lenta, um pé que escorregou na laje molhada, torceu o tornozelo, puxou o corpo para baixo, obrigou a levantar a outra perna, e fez-me cair em força sobre o rabo, o pé torcido, todo torcido de lado, e as costas foram projectadas para trás e acabei por bater com a cabeça no chão. Até saltitou, a cabeça.
Ouvi um barulho seco quando a cabeça bateu no chão.
Assustei-me.
Mas não aconteceu nada à cabeça. Foi só mesmo o barulho. Nem aconteceu nada às ancas e à queda de rabo. Só me magoei num pulso, devo ter pousado a mão no chão para me amparar na queda e nem me apercebi, e depois a perna dobrada que se partiu e me provocou dores horríveis.
Consegui, no entanto, arrastar-me até ao telemóvel que estava na mesa da cozinha onde estava a almoçar e chamei o INEM.
Hospital.
Perna partida.
Gesso. Várias semanas com gesso.
Tenho passado estes dias à janela a olhar a chuva a cair lá fora. Fumo um cigarrito. Bebo um copo de vinho e pronto, assim está a minha vida. Ando numa cadeira de rodas e não tenho saído de casa. Não com este tempo assim.
Há uma moça que vem cá a casa de dois em dois dias para ver se preciso de alguma coisa. É gira a miúda. Estou a pensar em convidá-la para jantar comigo. Talvez ela aceite. Talvez não se preocupe com a minha perna partida. Ou talvez a perna partida a faça aceitar o convite.
Afinal, talvez a perna partida tenha sido uma coisa boa.
É mesmo gira, o raio da miúda.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/04]

A Malta de Chicago

Tudo começou quando os ultraliberais chegaram ao Parlamento. Não demorou até conseguirem maioria e formarem governo. A Malta de Chicago, como entre eles se denominavam, puseram o país de pernas para o ar. Às vezes, virar as pernas para o ar pode não ser mau. Aqui, naquela altura, foi. Ainda é.
Logo na chegada ao Parlamento gritaram ao que vinham. Ocuparam espaço nas redes sociais a ilustrar os amanhãs gloriosos onde o homem poderia ter direito de escolha. Não era Liberdade. Não era Segurança. Nem era Riqueza. Era Escolha. Essa era a palavra de ordem que começaram a disseminar como vírus: Escolha. Como se a Escolha fosse uma possibilidade para a maior parte da população.
A juventude e a comunicação fácil criou algum élan ao grupo e, desde o início, a aprovação das ruas superou a representação no Parlamento. Não causou, por isso, estranheza quando, nas eleições seguintes, a meio do mandato por queda do governo de esquerda que começou, aos poucos, a perder a rua, ganhou as eleições com maioria absoluta.
A Malta de Chicago foi buscar votos a muitos lados do espectro político. À direita mais conservadora, que os viam como o mal menor (antes ultraliberais que socialistas), aos sociais-democratas, em extinção depois de uma guerra fratricida entre as várias cambiantes dentro do partido, que acharam por bem migrarem para aquele que já tinha sido um sonho de uma parte do partido, à esquerda desiludida com a falta de investimento na saúde, na educação, e iludida com esse chamariz da Escolha, de poderem colocar os filhos nas escolas preferidas. O Estado não paga a escola, paga o aluno. Pois, mas as escolas escolhem os alunos. Não há lugar para todos. Não há, com certeza, lugar para alguns deles. Há que fazer selecção. E foi o que foi feito.
Não tardou que a escola pública se degradasse e fosse residual. Muitas crianças já não conseguiam ir à escola. Mas havia trabalho. Havia sempre trabalho para os jovens empreendedores que não tivessem medo de fazer dinheiro.
Não tardou que os hospitais públicos se degradassem e os que restavam fossem meia-dúzia ao longo do país. Poucos médicos nos hospitais públicos. Poucas condições. O INEM, deficitário, foi extinto. Sociedades privadas de bombeiros e paramédicos começaram a fazer o trabalho do INEM. Mas era necessário ter seguro. Seguro privado. Seguro privado pago e em dia. Seguro que a maioria da população não tinha. Começou a morrer gente nas ruas, nas estradas, à entrada das portas fechadas dos hospitais.
Eu penso sempre que foi aqui que morreu a época do humanismo e começou a época da ganância financeira extrema. O dinheiro era Deus e a religião o pão e a filosofia.
A verdade é que tudo começou a ser pago. Um bebé já nascia com a dívida dos pais. Com dívidas não se podia votar. A Malta de Chicago eternizou-se no poder. Não havia quem não tivesse dívidas. Dívidas criadas para se poder viver. A única coisa que ainda não se pagava era o ar que se respira. Mas não sei até quando. Já ouvi uns zun-zuns.
O Estado ficou mesmo mínimo e as grandes corporações conduzem o Estado que finge que conduz o país.
É estranho tudo isto. Olho para trás e lembro-me como a vida era. Difícil, mas correcta. Não há muito tempo. Quase ontem.
Acendo um cigarro. Tusso. Dói-me a perna.
Um paramédico chega-se a mim e diz Se fumar esse cigarro terá de pagar uma taxa extra no transporte. Se houver transporte!…
Eu continuo a fumar o cigarro. Desvio o olhar do paramédico. Estou sentado no lancil do passeio. Tenho a perna em sangue. Acho que não está partida, mas deita muito sangue. Os paramédicos não a podem verificar nem levar-me para o hospital até confirmar que o seguro está pago. Eu já disse que está pago. Mas eles têm de confirmar a minha conta. Parece que há uns problemas no site. Ainda não conseguiram aceder à conta.
E eu espero.
Sentado no lancil com a perna a sangrar e cheio de dores.
Olho o fumo que sai do cigarro. Através do fumo do cigarro vejo a mota que me bateu. A mota está caída no asfalto. Aquilo é sucata. Está toda partida. Destruída. O miúdo que me atropelou já foi para o hospital. Golden Card. Eu tenho de esperar. O meu cartão… O meu cartão não é Golden Card. Não sou um gajo de Chicago.
Acho que ainda vou acabar por ir a pé para casa. Espero ter lá betadine.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/10]