Quando Ganhei a Caméra d’Or no Festival de Cannes

Era assim à Quinta-feira. Todas as Quintas-feiras. Todas as semanas. Desde o início das aulas.
Saía a correr da sala de aula. Às vezes ainda deixava o professor a gritar qualquer coisa para o ar, para se fazer ouvir por cima do toque de saída das aulas. Mas já não ouvia nada. Já lá não estava. Já estava noutro lado. Em antecipação. Eu e os outros.
Saía a correr da sala de aula. Saía a correr da escola. Do edifício da escola. Entrava no labirinto de ruas esconsas do bairro. Eu e os outros. Todas as Quintas-feiras. A correr até à Adega.
Às Quintas-feiras íamos almoçar à Adega. Eu e eles. Os outros. Íamos à Adega. Uma taberna no coração do bairro. Uma taberna de mesas compridas com toalhas de linóleo sobre ripas carcomidas pelo bicho da madeira. Bancos de madeira, alguns já mancos. Pratos de várias colecções já desaparecidas. Eram os sobreviventes. Sobreviventes com mazelas. Pequenas rachas. Lascas. Os copos era igual. Não havia dois iguais. Mas eram de vidro. Alguns já tinham sido lavados tanta vez que já não se via nada à transparência. Mas eram de vidro. Os talheres era o que havia. Cheguei a usar uma colher como faca. Era o que havia. Mas para o que era, servia.
À Quinta-feira era dia de carapaus fritos com arroz de tomate. Acompanhava com vinho branco da casa servido em jarro de vidro que, esse sim, não era lavado e mantinha sempre o aroma do vinhos servidos, acumulados, uns atrás dos outros, ao longo dos anos. E que importava? Era Quinta-feira. Dia de ir, eu e os outros, almoçar ali, à Adega, apanhar uma cabra e ir para a aula da tarde passar pelas brasas que não havia paciência para aquele professor. Não que fosse um mau professor, que não!, não era. Era até um professor bastante bom. Mas era uma matéria chata, de uma cadeira chata de uma parte chata do curso. Daquelas que ninguém queria saber. Mesmo que fosse importante para o que estávamos a estudar. Para o que queríamos continuar a estudar. Mas ninguém queria estudar aquilo. Só os alunos com pior média. Porque não tinham outro remédio. Eram os últimos a escolher. E já não podiam escolher. Eram escolhidos.
Naquele dia eu ainda não sabia mas, aquela Quinta-feira, havia de ser a última Quinta-feira em que iríamos almoçar à Adega.
Comemos os carapaus fritos com arroz de tomate. Ainda havia salada de alface com tomate e cebola que regámos com bastante vinagre. Bebemos sei-lá-quantos jarros de vinho branco. Um vinho que me deixava com azia. Nos deixava a todos com azia. Ainda não tinha acabado de beber e já sentia o inferno a subir pelo esófago acima. Mas o vinho não se desperdiça. É pecado desperdiçar vinho, mesmo que não seja o sangue de Cristo, é só vinho branco, caramba!, mas não deixa de ser vinho. Não ficava nenhuma gota para amostra e nesse dia manteve-se a tradição. Nem uma gota no jarro. Nem uma gota nos copos.
Bebemos cafés. Bagaços. Fumámos cigarros. Muitos cigarros. Uns atrás dos outros. Alguns durante o almoço. O cigarro preso entre os dedos enquanto a mão levava um carapau inteiro, cabeça à frente, à boca. Uma nojice pré-ASAE. Uma nojice saborosa.
Pagámos ao balcão. Cada um o seu almoço. Mas contas simples. O total a dividir por cada um de nós. Naquela altura ainda não havia muitos cartões de plástico, só uma estranha Chave 24 que servia para levantar dinheiro que a minha mãe depositava lá na terra e eu levantava na capital. Modernices.
As contas feitas na toalha de papel que cobria o linóleo. Fomos pagando. Um-a-um. E fomos saindo. Um-a-um. Para a rua. Para uma das ruas esconsas do bairro. Ruas onde passavam poucos carros. Mas não naquele dia.
Saímos da Adega na brincadeira. A brincar uns com os outros. Bebidos. Fomos esperando uns pelos outros. Já estávamos atrasados, mas esperávamos. Vínhamos juntos. Íamos juntos. E então ouvimos. O barulho. O barulho do motor. O barulho do motor de um carro. Dois. Dois carros a subir pela rua esconsa do bairro. Um à frente do outro porque não havia espaço para ultrapassar. Mas em aceleração. Ambos. A rua era estreita. Nós estávamos na rua. E vinham os carros a subir. A acelerar. Ouvia-se o barulho espremido dos motores. E falta alguém. Quem? Lá vinha ele. O que faltava. Quem faltava. A sair da Adega. A colocar o pé na rua no preciso momento em que o primeiro carro passa. E logo depois o segundo. E eu já só vejo o corpo jogado para cima pelo primeiro carro. E lançado para a parede da Adega pelo segundo. O som das pancadas. A primeira. A segunda. Um som obsceno. Violento. Mortal. Eu vi. Nós vimos. Eu estava cheio de azia. E vomitei logo ali. Vomitei ainda antes dos carros pararem lá mais acima. Mas pararam. Deram assistência. Vieram ver o que tinham feito. Não fugiram. Mas era tarde. Já nada restava dele. Eu continuava a vomitar dobrado sobre mim. A mão na parede.

Anos mais tarde fiz um filme sobre ele. Sobre nós. Sobre as Quintas-feiras e a Adega. Sobre aquelas ruas esconsas do bairro. Sobre os carros a acelerar. Sobre o acidente. Sobre a morte. Sobre o fim de uma época.
O filme foi a Cannes e ganhou o Caméra d’Or.
Nunca mais realizei nenhum filme. Depois da minha história com ele, com ele e com os outros, e de tudo o que tinha para dizer e que disse nesse filme, deixei de ter o que dizer.
Calei-me. Até hoje. Não sei porquê.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/18]

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