Fui às Putas

Um dia fui, ao que popularmente se diz, às putas.
Fui às putas com um amigo mais velho, frequentador habitual da casa onde me levou. Eu já tinha tido umas relações sexuais, mas nunca tinha, realmente, fodido com uma rapariga. Tinha tido umas brincadeiras com uma prima mais velha. Brincadeiras essas, posso dizer, que me agradavam bastante. Mas eram só mesmo umas brincadeiras. E eu já estava a passar da idade da brincadeira. Agora queria ser um homem.
Devo dizer que, nessa altura, eu já tinha ido à inspecção militar a Coimbra. Já tinha estado com uns rapazes que passaram a noite na Rua Direita, quiseram que eu fosse com eles e eu recusei. Mas naquele dia, naquele dia fui.
Tinha ido comer um meio-bife ao Liz Bar. Já comeram um meio-bife no Liz Bar? Um meio-bife frito numa frigideira de barro que depois vem para a mesa com um ovo estrelado por cima e emoldurado numas batatas fritas e num arroz branco frito, tapados por um guardanapo de papel para não estornicar os comensais com os pingos da gordura a ferver, e que nos faz lamber os beiços com especial prazer. Uma maravilha! Acompanhei o meio-bife com várias imperiais. Eu e ele. E depois ele disse E agora vamos às putas! e eu perguntei Vamos? e ele afirmou Vamos!
Eu deixei-me levar. Na verdade não sabia muito bem o que era isso de ir às putas. Quer dizer, sabia o que eram as putas, claro, mas não sabia nada sobre elas e sobre lá ir e que que é que era preciso fazer quando se lá ia e todas essas coisas que são precisas para se fazer aquilo que muita gente faz. Mas ele só me dizia Não te preocupes. E eu não me preocupei.
Saímos do Liz Bar e fomos a pé pelas ruas da cidade. Era noite, início de noite, as luzes da rua já estavam acesas, estava calor e, à medida que nos íamos aproximando da casa, eu ia ficando ainda com mais calor. Comecei a ficar nervoso. E quase perdi a vontade. Quando chegámos ele disse Voilá! e apresentou-me uma casa sem nada de especial, num bairro mal-afamado na periferia da cidade mas que já tinha tido o seu tempo e eu até cheguei a ter amigos, no colégio da freiras onde estudei, que eram daquele bairro que, naquele tempo, não era como chegou a ser mais tarde, quando eu lá fui levado por ele e ele tocou à campainha e uma velha gorda e feia (não é para chatear ninguém nem para fazer qualquer género: a mulher era velha e gorda e feia como o raio) em camisa de dormir, reconheceu o meu amigo, abriu-nos a porta, sorriu para mim e fez-nos entrar. Senti-me uma tira de lentrisca assada olhada pelo cão da vizinha.
Entrei para uma espécie de pequena sala de estar com cheiro a velas de cheiro (não sei a que é que cheirava, mas era enjoativo) que estavam acesas e davam um ar irreal a tudo aquilo e às raparigas que iam chegando, todas elas com pouca roupa, se é que posso chamar roupa às tiras de panos que iam tapando, mal, as partes sexuais das moças que se chegavam à frente, peitos rijos, pelo menos firmes, rabos volumosos e lábios carnudos e pintados de vermelho-paixão, todas elas com uma enorme vontade de me levarem a mim para um dos quartos lá de dentro.
Elas aproximavam-se. Roçavam-se em mim. Cheiravam-me. Sorriam. Algumas beijaram-me no pescoço e, então, uma delas disse Se não quiseres preservativo, não precisas de usar! e foi aí que tudo parou.
Eu parei. Elas pararam. O mundo parou.
Há gente que vem aqui e tem relações sem preservativo? E elas aceitam?
Há gente para tudo. Neste mundo, há gente para tudo. E a maior prostituição nem é a destas raparigas. Há muita gente que se prostitui por tuta-e-meia e por mil-e-uma coisa, algumas delas sem jeiteira nenhuma. Há muita prostituição fina, fina e parva.
Foi então que percebi que aquilo não era bem o que eu queria para mim. Acendi um cigarro. Dei um beijo a todas as raparigas que estavam por ali, à minha volta, dei uma palmada nas costas dele e disse-lhe Vou ao cinema.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/09]

Uma Vida Arrumada em Caixotes

Tenho a vida toda arrumada em caixotes. Em caixotes grandes e em caixotes pequenos. Cada memória tem o seu caixote. Tenho os caixotes numerados. Identificados. E depois arrumo-os todos na despensa, no roupeiro do corredor, por cima do guarda-fatos do quarto. Quando tenho necessidades, vou à procura dos caixotes. Há sempre um caixote para mim. Para aquele momento. Para aquele momento específico. Normalmente esta necessidade acontece-me quando estou bêbado, deprimido ou demasiado só. Mas às vezes é só mesmo saudades do passado.
Hoje abri um caixote. Um caixote à sorte. Um caixote que não me lembrava que tinha. E quando o abri, libertei uma série de fantasmas que contribuíram para ter chegado aqui, coxo, onde cheguei. Mas o mais importante foi mesmo a memória desses fantasmas. Não sabia que eles existiam. Que ainda os tinha. Descobri um caixote com bilhetes dos concertos da minha juventude. Bilhetes de uma época em que a bilhética era também uma forma de arte. Os bilhetes eram personalizados. Remetiam para épocas e para as tournées que as bandas estavam a produzir ou para os álbuns que andavam a promover. Descobri, com alguma surpresa, como a parte de trás dos bilhetes era um mundo cheio de informação numa altura em que ainda não havia Google, a internet ainda era um bicho de sete cabeças e eram ainda poucas as pessoas que tinham computador e sabiam o que era o Windows.
Coloquei o primeiro disco das 69 Love Songs dos Magnetic Fields, em época de vinte anos de aniversário, na alta-fidelidade. Abri a janela. Sentei-me no chão da sala. O caixote aberto. Acendi um cigarro. Meti a mão. E trouxe um monte de bilhetes.
Os meus olhos brilharam. Vários bilhetes dos Mão Morta. Naked City. Miles Davis. Vários do Nick Cave. Pogues. Lords of the New Church. R.E.M. Sundays. Durutti Column. Varios dos Metallica. Até Manowar e outras coisas assim, mais bizarras.
À medida que ia passando os bilhetes, ia-me lembrando de pequenas histórias que os acompanhavam. Coisas que me aconteceram. Pequenas estórias que vivi. Desatinos com amigos. Nascimento de amizades. Morte de outras. E o sexo! A quantidade de sexo que os concertos traziam. O que é feito desta minha vida?
Lanço a beata para a rua através da janela aberta.
Fecho os olhos.
Volto atrás no tempo. Regresso aos meus vinte anos. Que se foda o futuro. Este futuro. O meu futuro. Quem quer saber deste futuro de merda com um passado tão cheio? Volto à escola. Não, não à escola. À universidade. Ao Bairro Alto dos anos ‘80. Ao Cais do Sodré das putas e dos marinheiros. A uma Lisboa que me fascinava. Uma Lisboa provinciana, feia, malcheirosa, de prédios abandonados e a cair, mas cheia de vida e de gente com vida. Uma Lisboa de padarias abertas às cinco da manhã. Uma Lisboa de arrufadas e sardinhas assadas. De gente que falava alto e mijava nos cantos da cidade. Dos charros fumados às escondidas e dos selos passados de língua em língua. De namorados a correr de mãos dadas pelas ruas esconsas e de asfalto esburacado.
Volto atrás no tempo e não quero regressar mais. Fecho-me no caixote com os meus bilhetes e as minhas estórias. Que se foda o futuro que não é meu. Que se foda esta Lisboa impessoal, fria e gananciosa. Eu quero o meu mundo de paixões.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/10]

Corto-me

Corto-me, não para libertar a dor, mas para me castigar.
Já cheguei ao final do mês. Do mês que agora começa. Recomeço. Outra vez. Olho a carteira. O fundo da carteira. O fundo vazio da carteira.
Não entendo as regras. A minha iliteracia é selectiva. Mas concreta. Real. Não entendo as regras. Os códigos. A linguagem.
Corto-me. Corto-me com o canivete-suíço. A lâmina cega. Preciso de forçar. Magoa mais. Castiga mais.
Tenho uma casa que não é minha. Um trabalho que não é pago. Um almoço que não é comido. Mas tudo o resto custa-me um olho. Custa-me uma mão. Custa-me a vida. Um café com açúcar. Um pão com manteiga. Um frango assado. Um disco. Um livro. A escola obrigatória. O hospital. Um concerto. Uma bicicleta. Um carro. Uma casa. Uma mulher. Um filho. Um nome.
Corto-me. Uma vez. E outra. Castigo-me.
Escondo-me. No fundo do armário. No fundo da cave. No prédio abandonado. Lá onde já mais ninguém vai. Só as agulhas. As putas. Os paneleiros. Onde ninguém vai. Vou eu. E os que não são ninguém. Não estão nas estatísticas. Mas estão lá. E nas estatísticas. Escondo-me no fundo do fundo, escuro e sujo. Tenho por companhia os ratos e as baratas. Que me roem os dedos das mãos e as orelhas.
Corto-me nos braços. Desfaço as unhas no chão de cimento à procura de uma fuga. Mas não saio daqui. Não sei para onde ir. Não tenho para onde ir.
A minha companhia são os ratos e as baratas que me roem os dedos das mãos e as orelhas.
Corto-me. Corto-me e espero nas sombras que me esqueçam. Que não me peçam o IMI, a Segurança Social, o IRS e o IVA. Que me enterrem numa vala comum e me deixem ser comido pelos bichos até deixar de ser memória.
Corto-me e deixo-me ficar assim. Quieto. Em silêncio. Ali. Onde ninguém vai.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/06]

Revolução? Qual Revolução, Meu Capitão?

Era hoje.
Era hoje à noite. Eu já andava em pulgas. Há semanas que andava em pulgas. Era hoje que eu ia deixar de ser virgem. Um colega tinha prometido ir comigo às putas da Rua Direita. Perder a virgindade antes de abalar para o Ultramar. Comer uma rata antes de ser comido pelos turras.
Andei semanas a preparar esta noite. A saída desta noite. Vinte e quatro de Abril. Mil nove e setenta e quatro. Ia ficar para a história. Para a história da minha vida. A noite em que me tornei homem. Até comprei um sabonete Lux. Aquele das estrelas. Queria ir cheiroso para os braços da minha primeira mulher.
Passei o dia nervoso.
Até pensei que me ia mijar todo na parada.
Estive horas debaixo do chuveiro. A ensaboar-me. Até gozaram comigo, aqueles cabrões dum raio.
Passei a roupa a ferro. Nem um vinco. Nem uma nesga. Tudo limpo e bem passado a ferro. As botas engraxadas e escovadas. Tão brilhantes que me ofuscavam a vista. Se tivesse bigode também o teria aparado e penteado. Mas não tenho. Não tenho bigode. Mas fiz a barba. Não que precisasse muito. Tenho meia dúzia de pêlos no buço. Mas um rapaz que quer ser homem… Um rapaz que vai ser homem tem que fazer a barba até não ter nenhum pêlo na cara. Pelo menos que passe no teste da folha do sargento.
E foi quando já estava a salivar. Foi quando já estava a antecipar a noite em que ia ser homem. Quando já tinha contado três vezes o dinheiro que levava no bolso. Para pagar. Para pagar o que teria de pagar e não mais do que teria que pagar. Já tinha comprado mais um maço de cigarros. Estava a fumar muito. Eram os nervos. A excitação. A antecipação. E foi nessa altura, de cigarro no dedo, olhos brilhantes e expectativa ao rubro que caiu a notícia. Todas as saídas revogadas. Não havia licenças para ninguém. Porra!
Havia qualquer coisa. Não sabia o que era. Mas havia qualquer coisa. Qualquer coisa que me fodeu a noite. Raios partam estes gajos, pensei eu.
Despi a farda de saída.
Preparei a arma. A mochila. Avisaram-nos Vamos como se fossemos para a guerra. Raios os partam. Está bem! Está bem!
Reunimos com o capitão. E ele disse Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. O estado socialista, o estado capitalista e o estado a que isto chegou. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que isto chegou! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos embora para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!
Saímos e formámos. Até parecia mal. Virei-me para baixo, para a braguilha fechada e disse Olha, fica para a próxima!
Arrancámos em coluna.
Íamos para Lisboa. Nunca tinha estado em Lisboa. Queria conhecer a capital. Ouvi dizer que também havia miúdas giras em Lisboa.
Chegámos a Lisboa. Ruas largas. Casas muito altas. Muitos carros. Muitas luzes. E eu com uma enorme vontade de mijar.
A coluna parou num semáforo vermelho. Decidi aproveitar. Disse ao meu colega do lado Vou só ali verter águas! Já venho! e abalei. Enfiei-me entre dois carros. Bonitos, os carros. E comecei a mijar.
E então ouvi-o chegar à minha beira. E disse-me Isto lá é hora de mijar, soldado? Vamos embora que a revolução não espera por nós.
Eu virei-me para trás, ainda a fechar os botões das calças, e perguntei Revolução? Qual revolução, meu capitão?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/24]

Onde Estás?

Como fazer para sair do comboio em andamento?
Como fazer para sair de onde não devia ter entrado?
Como fazer para voltar atrás? E escolher diferente?
Saio do quarto de hotel. Saio atrás dela. Não. Saio à procura dela.
Eu devia ter percebido. Não hoje. Não agora. Não há minutos atrás quando aconteceu. Mas há muito tempo. Quando a conheci. Quando percebi.
Os olhos. Os olhos vítreos. Os nervos. A impossibilidade de estar parada. Quieta.
Saio do hotel. Direita ou esquerda? Estou numa cidade que não conheço. Que não conhecemos. Viro à direita? Viro à esquerda?
Viro para um lado qualquer. Sigo as pessoas. Vou na direcção do vento. Olho para todo o lado. Olho para todas as pessoas. Tento vê-la. Tento vê-la nos outros.
Onde estás?
É fim-de-dia. Hora de ponta. Confusão nas ruas. As esplanadas cheias de gente que bebe. As lojas cheias de gente que compra. Turistas. Gente como eu. Como nós. Como encontrá-la aqui, no meio desta confusão de gente toda igual? Mas ela não é igual. Não, não é.
Entro e saio de cafés. De bares. Salas de jogo. Lojas. Geladarias. Passo ao lado de um Cinema. Um multiplex. Mas não vale a pena. Ela não conseguia estar dentro de uma sala de cinema, às escuras, sossegada.
Passo na zona das putas. Olho-as sem as olhar. Tento vê-la lá. Nas outras. Mas com a esperança de não a encontrar ali. Não estar ali. Mas quero encontrá-la.
Onde estás, porra?
Ao lado das putas, os dealers. Não vale a pena procurar ao pé deles. Não precisa de drogas. Não destas. Não usa destas. Tem as suas. Legais. Compradas às caixas. Em lamelas. Não precisa destas.
Aventuro-me um pouco mais longe. Vou a sítios onde ainda não tínhamos ido. Mas começo eu a ficar nervoso. Não a encontro. Mas tenho de encontrar. Não a posso perder. Não a posso deixar perder. É minha responsabilidade. É da minha responsabilidade.
Mas não quero. Não quero mais essa responsabilidade.
Foda-se! digo alto. Mas ninguém me percebe.
Páro. Estou sem forças. Sinto-me desfalecer. Encosto-me a uma parede. A uma parede de uma loja. Numa rua de lojas. Lojas de sapatilhas. De perfumes. De óculos. De roupa de mulher. De jovem senhora. De criança. Onde estou? Onde estou eu, agora? Não reconheço nada. Sim, percebo. Nunca tinha estado aqui. Nem eu, nem ela.
Tento concentrar-me. Foco o meu olhar nas montras. Nas portas. Nos letreiros que começam a acender. Néons. Cores. Muitas cores vivas. Olho as pessoas. Sigo-as. Passo o olhar de uma para outra. Recupero a calma. Acendo um cigarro.
E se ela voltou para o hotel? pergunto-me.
Olho em volta. Tento perceber onde estou. Não é fácil. Não é fácil, para ninguém. Percebo o caminho. Começo a andar de regresso ao hotel. À espera que ela esteja lá.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/25]

São Valentim

Conheço-o desde sempre. Toda a minha vida ele andou por aqui. Aliás, já por cá andava quando nasci. Ele já andava na rua aos pontapés na bola quando eu dei o primeiro berro pendurado pelos pés nas mão ásperas da parteira.
Ele era o filho da porteira. Foi o meu primeiro amigo. Eu descia as escadas do prédio e ia para casa dele. O quarto dele era um mundo de bizarrias. Cheio de tralha. Tudo a que pudesse deitar a mão e que sugerisse retorno. Nem que fosse no futuro. A primeira colecção de latas de bebidas que vi na vida, foi em cima do guarda-fatos do quarto dele, em exposição. Até tinha algumas de Espanha. E de França. Eram latas que os primos, emigrados, lhes traziam nas férias.
Foi com ele que fumei o primeiro cigarro. O primeiro charro.
Foi com ele que aprendi os primeiros rudimentos do sexo. Ele era mais velho. Mais sabido. Já tinha ido com umas miúdas. Até já tinha um pequeno bigode (um pequeno bigode?! uma penugem!) quando, uma vez, me disse O que elas gostam é disto!, e apalpou o próprio sexo, por cima das calças de ganga apertadas e com remendos entre-pernas.
Eu saí dali. Da casa dos meus pais. Da cidade. Cresci. Fui estudar para outra cidade. Uma cidade maior. Deixei de vir a casa tantas vezes. Foi um processo gradual. E, aos poucos, acabei por me afastar.
A morte dos meus pais trouxe-me de volta. Cansei-me da cidade grande. Voltei à cidade pequena. Ocupei a casa dos meus pais. Agora minha. Minha e da minha mulher. E da minha filha. Sim, casei, tive uma bela menina que, graças a Deus, sai à mãe, e regressei à casa onde nasci.
Ele continuava lá. Na casa da porteira. Agora era a casa do porteiro. A mãe já tinha falecida há uns anos. Ele ficou com o lugar que era da mãe. Agora era ele que cuidava das casas. Do prédio. De nós.
A primeira vez que o vi, quando regressei, apresentei-lhe a minha família. Mas tudo o que tinha tido com ele, tinha-se esvaído. Já não o conhecia. Não sabia o que conversar com ele.
Agora, quando me cruzava com ele nas escadas, era Olá! Bom-dia! Boa-noite! Até logo! e encerrava ali o assunto. Às vezes percebia que ele queria encetar alguma espécie de conversa cúmplice. Mas a cumplicidade já não existia. Já não existia nada entre nós. O tempo tinha tratado de a assassinar.
A verdade é que me incomodava cruzar com ele nas escadas. Ou no pequeno jardim de entrada do prédio, onde ele estava quase sempre a tratar de qualquer coisa. E sim, aquele pequeno jardim era uma preciosidade dele, mas que elevava o nosso prédio, no contexto dos prédios cinzentos daquela rua cinzenta, a outro nível. Dava prazer chegar a casa. Mas o facto de ter que lhe dirigir uma palavra, como se o conhecesse, e conhecia, de facto, deixava-me um pouco deprimido.
Hoje, quando cheguei a casa, voltei a cruzar-me com ele nas escadas. Parecia que, às vezes, me fazia uma espera. Agora estava a arranjar uma caixa do correio. Eu entrei no prédio. Levava um ramo de flores na mão. Um ramo com treze rosas vermelhas. Uma por cada ano da relação que tinha com a minha mulher. E ele viu-me chegar com o ramo de rosas e largou um rasgado sorriso e disse Dia dos Namorados, hein? e eu anui.
Preparava-me para pôr o pé no primeiro degrau, para subir as escadas e ir para casa quando ele me colocou a mão no braço e me fez parar. Chegou-se ao pé de mim, com a boca próxima do meu ouvido e disse Eu cá é mais putas e vinho verde! e fez um pequeno sorriso.
Eu não me manifestei. Ou acenei levemente a cabeça, já não me recordo, e foi aí que ele começou Nunca tive sorte com as mulheres, sabes? A maior parte das que tive, foi a pagar. E isto, hoje, está difícil. Ser porteiro não dá muito. Não dá nada! Dá para ir vivendo, assim, aos poucos de cada vez. Uma vez ou outra vou à bola. Em Maio vou à feira. Mas não tenho férias. Também, para onde é que ia? Sozinho?
Ele já tinha largado o meu braço. Mas eu não conseguia ir embora. Queria ir. Mas não podia. Não podia deixá-lo ali sozinho. A necessidade de falar. De contar algo. Algo que eu não queria ouvir. Mas tinha de ouvir. Tinha de lhe dar tempo. Um pouco do meu tempo. Em nome do passado. Afinal, tínhamos sido amigos.
Disse Putas e vinho verde? Mais o YouPorn e uma garrafa de Seven-Up. A vida está complicada, pá…
Senti-o ficar mais pequeno. Os ombros descaíram para a frente. O pescoço enterrou-se pelo corpo. Os olhos encovaram num buraco negro. De repente descobri-lhe o cabelo grisalho. A barba rala, com peladas, e muitos pêlos brancos. Vi as mãos a tremer.
Baixei a mão com que agarrava o ramo de flores. Aproximei-me dele. Dei-lhe um abraço. Dei-lhe um abraço sentido. Éramos crianças e estávamos na rua a brincar. Eu e ele. À bola. Com os carrinhos de rolamentos com que caí e esfacelei os joelhos. Aos índios, com arcos e flechas feitos de varetas de chapéus-de-chuva velhos e com o qual lhe ia vazando um olho. Felizmente não aconteceu nada.
E disse-lhe baixinho Estou aqui! Se precisares de alguma coisa, estou aqui, pá.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/14]

Os Mangalhos em Serralves

O tamanho do meu pénis erecto é de quase 15cm. E digo quase porque é melhor que dizer que tem mais de 14. Acho que já foi maior. A idade tem-no feito minguar.
Tenho tido, ao longo dos tempos, uma boa relação com o meu pénis. E com os pénis dos outros. Nunca me senti diminuído.
No fundo, tenho-me sentido satisfeito com o pénis que me calhou e não queria ter tido outro. Este tem respondido bem às solicitações. E já criei muita afinidade com ele. Tem-me acompanhado aos longo dos anos e nunca me deixou ficar mal. Mesmo daquela vez…
Quando entrei em Serralves e vi aqueles mangalhos, poderia ter ficado escandalizado, talvez até ciumento, mas não fiquei. Tenho resolvido a vida com o que tenho. Já fui casado. Mais que uma vez. Tive namoradas. Bastantes. Amantes. Amigas coloridas. Umas raparigas com quem fiz amor. Outras com com fodi. Fui à putas. Tive algumas experiências. Brincadeiras. Liberdades. Excessos. Tive filhos. E filhas. Até tive cunhadas e irmãs. Algumas mães. E uma avó. Mas era nova.
Quando entrei em Serralves, não vi nada que já não conhecesse do trabalho de Robert Mapplethorpe. E que não tivesse já visto na vida. Tenho amigos africanos. Cresci a ver A Garganta Funda, Por Detrás da Porta Verde e A História de Joana, para além de outras alarvidades. Mas é como tudo. Umas coisas são assim, outras são assado. Uma vez uma amiga perguntou-me o que é que achava das mamas dela. Eu acho bem, respondi. E ela Então?! Então, tu é que tens que achar. Eu gosto de mamas, ponto disse-lhe. E continuei, mostrando a mão aberta, dizendo Desde as que cabem aqui, até às que têm dificuldade em entrar aqui, disse mostrando então já a mão em concha. Nós somos como somos e temos é de gostar de nós, disse-lhe armado em Deepak Chopra ou outro guru da auto-ajuda.
Antes de ter entrado em Serralves, já tinha visto o Jeff Koons a foder com a Ilona Staller em fotografias ampliadas a tamanho de parede. Não me senti intimidado. Gosto do Jeff Koons. Gosto das fodas de Jeff Koons. Gosto dos cães floridos de Jeff Koons. Gosto da lagosta do Jeff Koons. Gosto, de uma maneira geral, das merdices pop-pindéricas de Jeff Koons. E isso é que me importa.
E também gosto das fotografias do Robert Mapplethore. Das pilas gigantes do Robert Mapplethorpe. Dos rabos do Robert Mapplethorpe. Das Patti Smith do Robert Mapplethorpe. Dos auto-retratos do Robert Mapplethorpe.
Gosto do fetichismo de Robert Mapplethorpe e, ao contrário do Henrique Monteiro, não teria problemas em ir ver a exposição com os meus filhos e falar-lhes sobre o que estavam a ver. Mais dificuldade teria em tentar explicar como é que o Expresso teve o Arquitecto tantos anos como director.
Mas já chega de arte. Hoje é Sábado e quero ver se consigo dar trabalho aos meus quase 15cm.
E fumar um cigarro, enquanto ainda se pode.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/29]

Estou em Stereo e Recordo o Chiado

Estou em stereo. À minha direita o Sol. À minha esquerda a Lua. O Sol ainda vive os últimos raios antes de morrer para além da praia, do mar, lá para os lados da América. A Lua já canta lá em cima, foco de luz num azul petróleo que pinta o céu por cima das montanhas.
Enquanto me sinto em stereo, aqui no alpendre, recordo.
Sim, recordo.
Recordo o rescaldo do grande incêndio do Chiado.
Era Agosto e eu estava de férias na província. Vivia o Meu Querido Mês de Agosto. São Pedro de Moel, Vieira, Pedrogão. Em Leiria perdia-me pelo Terreiro, nos Vicentes e na Estrebaria. Nos Filipes. No Panaceia se ainda não tinha fechado. No Amadeus se já tinha aberto. A memória aqui torna-se um pouco difusa e perde-se nos pormenores. Mas também havia o Alibi. E o strip-tease no Raínho. E a Ala dos Namorados às cinco da manhã. As sandes de panado. A sopa de feijão na companhia das putas, dos chulos e da droga.
Mas recordo aquela manhã. E a tarde. E a noite. E os dias que se seguiram. E todas as imagens do Inferno. E todas as reportagens angustiantes e angustiadas de quem via uma parte importante do seu mundo desabar. Quem perdeu tudo. Quem viu perder tudo. Quem viu o diabo subir à Terra.
O Chiado como o conhecia, acabara. Acabara ali em poucas horas. Consumido pelas chamas.
Regressei a Lisboa em Setembro. Já bem no fim de Setembro. Mas ainda havia Inferno.
E recordo. Recordo de me aproximar mas não conseguir lá ir. Recordo que era assustador. Recordo que não queria ver. E vi à distância. À distância de segurança.
Para ir para o Bairro Alto subia pelo Elevador da Glória. Não precisava de subir o Chiado. Não queria subir pelo Chiado.
Recordo mais tarde. Recordo a reconstrução. Recordo os estaleiros. Recordo os fins-de-tarde de final de aulas, a descer o Chiado e passar pelas pontes, pelos passadiços, no meio dos estaleiros da reconstrução, e dos mirones que faziam fila para observarem os trabalhos de quem lá estava a trabalhar. Os trabalhadores. Os processos de reconstrução. De inovação. De recriação de uma zona que deixou de ser uma coisa para se tornar outra.
Mais tarde revi-a num filme de João César Monteiro. Não me recordo qual, mas ele era um militar que observava, do alto da sua arrogância de conhecedor, como todos os mirones, os trabalhos de recuperação do coração da cidade.
Em stereo recordo o Chiado. Recordo um tempo que não mais regressa. E mesmo tendo sido terrível, deixa-me um amargo pelo impossibilidade de regressar a um tempo em que tudo ainda era possível. Um tempo em que eu ainda era capaz. Uma época em que eu ainda acreditava. Em que julgava que tudo estava à mão-de-semear e que era só preciso estender a mão e agarrar. E em que estava tão enganado.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/24]

A Chuva de Perseidas

O som chega-me em stereo.
Eu espreito pela janela para tentar ver a chuva de estrelas, não o antigo programa da SIC que a Catarina Furtado apresentou, mas a de Perseidas. Engano. É dia. É tarde. O sol está brilhante, espetado lá em cima no céu, estão trinta e cinco graus, e a única coisa que está lá pendurada, a fazer companhia ao brilho do sol são as nuvens, aquelas nuvens brancas, branquinhas, redondas, feitas de espuma, as nuvens dos Simpsons, a estenderem-se horizonte fora. Não, não há chuva de estrelas. Ainda é de dia e está sol.
Mas o som chega-me em stereo.
De um lado, ela. Nem sei já o que diz. Que importa? São só palavras. Palavras sem sentido. Palavras que actuam como facas, a cortar, a cortar, a fazer sangrar. Os ouvidos. A cabeça. Do outro lado o cão. O cão, lá fora, que não pára de ladrar. Aquilo entra-me cérebro dentro e fura-o. Destrói-me os nervos. Está a deixar-me louco. Louco em stereo.
Dói-me a cabeça. Queria ver a chuva de estrelas. Mas o som em stereo, um som alto, alto e repetitivo, monocórdico, como um mantra maléfico, terrível, como setas, setas perfuradoras, aguçadas, está a dar comigo em doido.
Vou à dispensa e agarro na pressão-de-ar. Saio de casa. Ela nem se apercebe. Continua a falar. Nem se apercebe que saio. Aproximo-me da casota. O cão está preso por uma trela pequena que lhe limita o espaço de movimentação. Está a ladrar. Está em pé, preso pela trela, a ladrar. Ladra como punhais que se espetam na minha cabeça. Aponto a pressão-de-ar e disparo. Disparo uma única vez. Certeiro. O cão deixa de ladrar. Sinto alívio na cabeça. Pelo menos momentâneo. Vejo o cão deitado frente à casota. Deitado e quieto. Uma poça de sangue a formar-se à sua volta. O silêncio. O silêncio por enquanto.
Logo volta a ladainha dela.
Regresso a casa. Arrumo a pressão-de-ar na dispensa. Passo por ela que continua a refilar. Não percebo o que diz. As palavras não fazem sentido. Um de nós dois está em erro. Ou eu não percebo o que ela diz, ou ela não diz nada que seja perceptível. Mas continua, continua… Continua…
Ela olha para mim quando passo por ela. Não se apercebeu que saí de casa. Pego no jarrão que está à entrada, levanto-o acima da cabeça e lanço-o para o chão. Um estrondo transformado em mil e um pedaços de porcelana espalhados por todos os buracos da casa e, finalmente, sim, finalmente, o silêncio. O silêncio total. Penso que até as putas das cigarras se calaram.
Ela parou de falar. Ficou parada, talvez incrédula, a olhar para o jarrão, feio, horroroso, quebrado em mil e um pedaços espalhados pela casa.
Suspiro.
Suspiro de alívio.
Respiro fundo e recupero o ritmo. O meu ritmo. As batidas estão mais espaçadas. Tranquilas. Relaxo.
Olho para ela e vejo-a de boca aberta. Parada. Como uma fotografia. Still.
E digo-lhe Vou beber um café, queres vir? E ela balbucia qualquer coisa que não percebo, não oiço. Um murmúrio que nem o é, inaudível. Ela não sai do lugar. A boca mexe-se. Abre-se e fecha-se. Mas não diz nada.
Aceno a cabeça em compreensão e saio de casa sozinho.
Fecho a porta nas minhas costas. Já não a oiço refilar comigo. Cá fora, o cão deixou de ladrar. Está a começar a escurecer. Talvez ainda consiga ver a chuva de estrelas. Mas entretanto, um cigarro. Liberdade.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/13]

Algo Está a Acontecer na Cidade

Acordo debaixo de um pinheiro manso frente à Câmara Municipal de Leiria.
Não sei o que é que estou aqui a fazer.
Estou enrolado em mim. Encostado ao tronco do pinheiro. Estico-me. Faço-me crescer. Endireito-me. Sento-me no pequeno muro que serve de vaso gigante e moldura paisagista ao pinheiro, desço os pés até ao chão e piso aqueles pequenos cubinhos da calçada portuguesa.
Olho em frente para o edifício da Câmara. E penso O que é isto? E acendo um cigarro. Tossico um bocado quando o fumo me invade os pulmões. E vejo o edifício da Câmara rasgar ao meio como uma folha de papel.
Levanto-me do muro e sigo para a minha direita, para o centro da cidade. Para o centro histórico da cidade. Não quero que pensem que tenho algo a ver com o declínio do edifício camarário.
Na Rua Machado dos Santos olho o semáforo e está verde para peões. Cruzo a passadeira para o outro lado.
Atrás de mim ouço o som de um carro a acelerar, potente, próximo, e depois um baque seco. Viro-me e ainda vejo um corpo a voar pelo ar e a cair, lento, no asfalto, a esguichar sangue, enquanto, ao fundo, o carro se afasta a alta velocidade.
Continuo em frente, para a Rua Mártires da Pátria, mas desvio no último momento e desço a Rua de Alcobaça. Começa a chover e o piso fica escorregadio. Mando fora a beata do cigarro e vou com cuidado.
Vejo, à minha frente, uma mulher a empurrar um carrinho de bebé. Vejo, à minha frente, a mulher escorregar e cair e o carrinho de bebé arrancar, rápido, passeio fora. Lá de dentro, do carrinho, vem o choro de um bebé.
Passo pela mulher que continua caída no chão com um pé partido, um osso de fora, e continuo em frente. Chego ao Largo Cândido dos Reis e reparo, ao fundo, caído atrás de uma laranjeira, o carrinho de bebé, torto, partido, virado ao contrário, com uma roda pequenina a girar nhec-nhec-nhec e, do bebé, não ouço nada.
Passo por ele e desvio o olhar. Continuo em frente, sempre em frente, e entro na Rua Barão de Viamonte. Deixo o Terreiro para trás e ganho a Rua Direita. Todas as cidades têm uma. Ficam sempre no centro histórico. São sempre tortas. E cheiram sempre a mijo.
A rua é sombria. Estreita, sinuosa e sombria. O sol fica lá no alto, não entra cá em baixo. Há zonas que me assustam. Ouço barulhos, mas continuo. Olho para trás, mas vou perdendo o olhar, vou perdendo a rua nas suas curvas. Cruzo-me com cadáveres. Putas. Homens gordos, de fato e gravata, dedos grossos e sebosos a segurarem enormes charutos mal-cheirosos com notas de euro a caírem-lhes dos bolsos do fato, a olharem para as janelas de onde se lançam homens e mulheres frágeis. Não morrem porque a altura é curta. Não chega para o suicídio. O suicídio tem caderno de encargos próprio. Mas partem pernas e braços e cabeças. Um homem morre porque parte o pescoço.
Começo a correr. Quero sair da rua Direita depressa. Com urgência. Estou com medo. Com medo dos homens gordos, do suicídio, da rua.
Chego ao Largo da Sé. E olho para a Sé. E não a vejo. O largo está cheio de carros. Carros, carros, carros. Não consigo ver a Sé, a fachada da Sé, a torre da Sé. Só vejo carros. Carros estacionados, carros a circular, carros a arder. Um carro levanta voo.
Então ouço. Ouço as badaladas das… Das quantas? Que horas são? Estou na Sé? Porque é que só há carros aqui?
Quero acordar. Por favor, quero acordar.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/04]