Recomeçar

Ela já tinha mandado o pano de cozinha molhado para o chão. Na verdade atirou-mo a mim, mas eu desviei-me e ele caiu no chão. Salpicou pingos de água em toda a volta. Agora ela tinha um prato de sopa na mão. Não sabia se o ia mandar ou não. Ela já não estava a falar. Nem me apercebi que entretanto deixara de falar. Tinha-me perdido nos meus pensamentos sobre esta repetição quase diária. Já nem estranhava. Ela olhava para mim. Só olhava para mim. Os olhos raiados de sangue. Como se estivesse possuída por alguma entidade maléfica. O prato de sopa na mão.
Que merda é que eu fiz agora? perguntava-me em silêncio. Era um pergunta retórica, claro. Não estava à espera de resposta. Alguma coisa eu devia ter feito. Ou não ter feito. Mas não me lembrava de nada que pudesse ter despoletado aquela reacção tão irritada dela. Outra vez. Nos últimos tempos, isto repetia-se e eu não conseguia descobrir a razão. Mais tarde haveria de querer fazer as pazes comigo. Pedia desculpa e acabávamos a foder no chão da sala. Mas eu estava a ficar farto. Estava saturado destas discussões que, para mim, não tinham sentido. Virei-lhe costas. Sim, não é o mais agradável de se fazer. Imagino a cara dela quando de repente vê que eu lhe viro as costas, afasto-me dela e deixo-a sozinha. Sozinha com o seu mau feitio. Abri a porta da rua e saí. Olhei o pequeno quintal. Um dos gatos estava lá sentado e ficou a olhar para mim. Lá mais à frente, o terreno de cultivo. O pai dela. Andava a cultivar alguma coisa. Talvez milho. Talvez milho para as galinhas. Ele tem galinhas. Galinhas poedeiras. É por isso que comemos tantos ovos. Acendi um cigarro. Percebi nessa altura que estava nervoso. As explosões dela, já habituais, ainda me deixavam nervoso. Puxei duas valentes passas e tentei acalmar. O pai dela viu-me à porta de casa. Levantou a mão numa saudação. Respondi com a minha mão levantada. Dali a pouco já toda a gente na aldeia saberia que eu e ela andávamos de candeia às avessas. Este é um grande problema das aldeias. Destes meios pequenos. Toda a gente sabe de toda a gente. Eu sei as histórias deles, como é que eles não hão-de saber as minhas? Ao fundo ouvi uns foguetes. Havia festa numa terriola perto. Dantes ia com ela aos bailaricos. Dançávamos muito. Bebíamos copos de tinto carrascão. Comíamos filhoses e bolo da festa. Ficávamos cheios de azia mas éramos felizes. Agora já não. Agora já não dançamos. Agora discutimos. Gritamos um com o outro. E acabamos a foder violentamente no chão da sala. Entre as centopeias e os lacraus que entram por baixo da porta e pelas janelas abertas.
Não gosto do campo. Não sou do tipo campestre. Esta não é uma estória bucólica.
Recomeço.
Ela já me tinha mandado com o copo de vinho para cima. O vinho primeiro e o copo depois. O vinho espalhou-se pelo chão e não me acertou que eu desviei-me a tempo. O copo estilhaçou-se na parede atrás de mim. Ela tem má pontaria. Depois colocou a mão na garrafa de vinho, ainda meio cheia. Não a levantou para me mandar com ela. Mas ficou com a mão a agarrar a garrafa, a ameaçar-me. Ouvi as pancadas vindas do apartamento de cima. Ultimamente, os vizinhos de cima batem com o cabo da vassoura no chão deles, o nosso tecto, para avisar que estão fartos dos nossos berros, das nossas discussões e do choro dela. E foi nessa altura que percebi que estávamos em silêncio. Ela estava em silêncio. Já não estava gritar comigo. Estava só a olhar para mim. A mão no gargalo da garrafa, a garrafa em cima da mesa e o olhar parado e frio sobre mim. Ela parecia possuída. E, de repente, parou. Mas aquele olhar. Aquele olhar fixo em mim. Aquele olhar assustava-me. Ultimamente estes ataques dela aconteciam com alguma frequência. Depois passavam. Ela ia para o quarto. Deitava-se sobre a cama. Descansava um pouco. Depois, mais tarde, vinha ter comigo. Pedia-me desculpa. Tocava-me. Beijava-me. E acabávamos a foder na bancada da cozinha. Era a única coisa boa destes ataques. Já não tínhamos o mesmo desejo um pelo outro de antes mas, nestas alturas, depois destes ataques sem sentido dela, terminávamos a foder como dantes, cheios de fúria e vontade. Mas que acabava também por terminar rápido. Eu depois ia para a varanda fumar um cigarro. Ela ia tomar um banho. E acabávamos a noite na sala, cada um na sua poltrona, a fazer zapping por todos os canais do cabo e sem ficar em nenhum. Quer dizer, eu, que tinha o comando na mão, ia fazendo zapping e ela ia não vendo os canais em fast forward comigo. Era um programa como outro qualquer.
Desta vez não. Desta vez virei-lhe as costas e saí de casa. Virei-lhe as costas e percorri o corredor todo até à porta da rua a sentir os olhos dela nas minhas costas. Olhos como punhais. Saí para a rua. Acendi um cigarro. Olhei em volta. Ninguém conhecido. Mandei um berro. Fo-da-se! Uma velha olhou para mim mas continuou em frente. Na cidade ninguém quer saber de ninguém. Ninguém conhece ninguém. Ninguém sabe quem eu sou. Deambulo pelas ruas, de olhos molhados, e ninguém quer saber o que é que se passa comigo. Vem um cão no sentido contrário mas foge de mim. Muda de passeio. Acho que deve ter sido mal tratado. Coitado. Não fujas, pá! que não te faço mal.
Passo à porta do museu. Houve uma altura em que íamos lá todas as semanas. Repetíamos as mesmas exposições vezes sem conta. De cada vez que lá íamos descobríamos coisas novas. E ficávamos contentes pela descoberta. Pela descoberta em conjunto. Pela partilha da descoberta.
Há muito tempo que já não vamos ao museu. Já não me lembro da última vez que vimos uma exposição. Há quanto tempo não vamos ao cinema? E ao teatro? Há quanto tempo não temos um jantar tranquilo, a dois, sem o telemóvel, o mail para responder, o feed de notícias para alimentar, a fotografia que precisa do like. Acho que já não usufruímos da cidade. Estamos em fim de ciclo. E a cidade não nos ajuda em nada. Estamos isolados. Não temos amigos. Estamos sozinhos no meio da confusão. Só nos temos um ao outro. É por isso que insistimos em nós. Nesta relação já desgastada. Mas qual é a alternativa?
Não gosto da cidade. Não gosto do egoísmo da cidade. Preciso de gente com quem falar. Preciso de ir ao café e encontrar as mesmas pessoas e sentir-me em casa.
Recomeço.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/06]

Preciso de Ir mas Ainda Não Fui

As grossas gotas de água caíam-me em cima. A água estava fria. O meu corpo estava quente. A ferver. As gotas de água caíam como punhais cravando o meu corpo.
Estava deitado, nu, sobre a relva do quintal. O sol torrava-me. A mangueira, agarrada pela mão direita, apontada ao céu, mandava para lá a água que vinha das montanhas e saía pela agulheta. Depois caía em cima de mim, como uma chuva de Verão refrescante.
Apetecia-me fumar um cigarro, mas não havia como. À minha volta era já um charco. Não devia tardar o coaxar das rãs.
Perscrutava com toda a atenção, todo e qualquer bocadinho de céu à procura de uma nuvem, por pequena que fosse, que me agilizasse o pensamento e me fizesse imaginar alguma coisa.
Tinha a cabeça a ferver. Não conseguia pensar em nada. Um blur cinzento num mundo colorido. O verde na terra. O azul no céu. Mas a cabeça cinzenta. Preciso pensar, dizia num mantra. Preciso pensar. Mas não conseguia.
O céu estava azul. Nem uma nuvem. Nem uma amostra de nuvem.
A água continuava a cair em chuveiro sobre mim. Sobre a minha cabeça e o meu corpo. Comecei a ficar com os dedos engelhados. O corpo envelheceu. Fiquei com frio. Fiquei frio. Larguei a mangueira e ela ficou ali a engrossar mais o charco onde eu estava deitado.
Levantei-me. Tentei levantar-me. Uma cãibra. Uma cãibra na perna. Uma dor diabólica. Voltei a cair no charco. Agarrei o pé com as duas mãos e fiz força. Tentei impedir o músculo de se fechar sobre si próprio. As dores eram horríveis. Fiz força. Depois massajei o músculo. Massajei a perna. Tentei levantar-me. Estava farto daquele charco. Fiquei furioso. Estas merdas são só para me chatear. Acabei por me pôr em pé. Fui a coxear desligar a mangueira. Voltei a olhar o céu. Azul.
Eu estava molhado. A coxear. E foi a coxear que entrei em casa. Entrei na cozinha a molhar as lajes do chão. Abri o frigorífico. Uma cerveja. Fui para o alpendre. Sentei-me nu e molhado a beber a cerveja. Acendi um cigarro. E disse Está um calor do caralho. E dói-me a perna. Tudo só para me chatear.
E foi então que sorri. Já conseguia pensar. A dor no músculo libertara-me daquela dormência. Já conseguia pensar. Primeiro pensei na dor que ainda sentia no músculo onde tivera a cãibra. Depois no dia de calor extremo que estava. E finalmente decidi que era hora de ler um bocado. Precisava de ler. Andava há uns tempos para acabar de ler o Homo Deus de Yuval Noah Harari. Era isso. Mas tinha de me levantar para o ir buscar. Lá dentro. A casa. À sala. À mesa da sala. E decidi que já ia. Mais tarde. Depois de descansar um pouco.
Ainda não fui.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/22]