O Homem Insignificante

Se eu fosse escritor e escrevesse um romance, contaria a história de um homem banal. Um homem banal como eu. Um homem cuja ausência de uma história é já de si motivo de ser de uma história.
Seria então a história de um sujeito banal. Na casa dos quarenta, casado, pai de dois filhos, amante, casa nos subúrbios de uma cidade de média dimensão, um cão, um gato, festas sexuais com a vizinhança aos fins-de-semana, sócio do Benfica, votante ora no PS ora no PSD, quando vota, algumas das vezes não vota porque prefere a praia com a mulher ou a amante, um trabalho insignificante mas de onde consegue retirar um salário confortável ou pelo menos o suficiente para ter um carro de cinco portas, de preferência francês mas a ambicionar um alemão, um SUV para a mulher, quinze dias de férias em Julho no Algarve numa casa alugada no interior a ver o mar lá ao fundo e a desejar ir até Varadero, jogging ao fim do dia porque é mais barato que o ginásio e assinante da Netflix que acaba por nunca ver porque nunca tem tempo para nada que não seja o trabalho e a amante, mas os filhos agradecem.
Este homem teria um passado sem história. Aluno mediano, algumas namoradas mas nada muito sério, alguns amigos dos tempos de infância, tão insignificantes quanto ele, frequentara o ensino superior num curso sem grandes saídas profissionais e que o chutou para um trabalho indiferente, nunca foi muito de ler, nem jornais, só A Bola e quase só à Segunda-feira, quando jovem ainda jogara andebol, futebol na rua com os amigos e tardes de King nas férias e aos fins-de-semana na adolescência.
Sem passado e sem presente digno de nota, tudo apontaria para um futuro igualmente anódino.
Mas é aqui, a caminho do futuro, que este homem sem história ganharia uma. Num acaso do destino.
Este homem de repente descobriria que tinha uma voz. Uma voz que seria ouvida. Tudo começaria nuns posts zangados no Facebook. Uns posts a destilar fel que teriam repercussões. Algumas respostas. Aplausos. O homem descobrir-se-ia igual a muitos outros homens iguais a ele. Homens insignificantes. Muitos homens insignificantes, cansados de o serem e de serem tratados como tal. A sua voz começaria a ser reproduzida por todo o lado. Lançar-se-ia o apelo ao homem insignificante. Seria levado em ombros. A revolta da insignificância. E, todos juntos, começariam a berrar alto, cada vez mais alto, a fazerem-se ouvir, a fazerem-se ouvir cada vez mais, e os posts do homem começariam a ganhar contornos teóricos, desejos, ideias, ensaios. De repente seria toda uma teoria política.
O homem deixaria o anonimato. Seria convidado discursar sobre as suas ideias nas suas palavras simples e certeiras. Encontraria eco por todo o lado. Afinal, são muitos os homens insignificantes que se reveriam nele. Seria convidado a ir a eleições defender as suas ideias. E ganharia essas eleições. Todos os homens insignificantes juntos descobririam ser muitos homens. E todos eles juntos chegariam ao poder.
Então, o homem insignificante, sem nenhuma história digna de se contar num romance, chegaria ao poder e iniciaria, assim, aquela que seria a sua história. A história de um romance.
Essa história seria para contar num segundo romance. Isto se eu fosse escritor e escrevesse este primeiro.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/13]

Homem Procura Companheira

Homem maduro, de bem com a vida, procura senhora jovem e bonita para fazer companhia e algo mais se assim surgir a oportunidade.
Tenho cinquenta anos. Casa própria. Não totalmente paga. Faltam ainda alguns, poucos, anos. Tenho carro. Comprado em leasing. Quase pago. Tenho também bicicleta mas para fazer exercícios em casa. Tenho a bicicleta na sala e pedalo enquanto vejo a novela das nove na TVI.
Tenho um pequeno café na periferia da cidade em bairro quase dormitório. É o único café nas redondezas. Está sempre cheio. Há sempre gente a ver os jogos de futebol à noite. Faço uns bons petiscos. Principalmente Pica-Pau. No Verão aposto nos caracóis. Vem gente de fora para comer os meus caracóis. Ao lado também tenho um pequeno negócio de aluguer de filmes em DVD que já teve melhores dias mas que ainda funciona.
Não tenho filhos, pelo menos que eu saiba.
Fui casado. Duas vezes. Foram elas que se foram embora. Não sei porquê. Nunca lhes faltei com nada em casa. Mas não lhes guardei rancor. Nem deixei de gostar de senhoras. Tenho-lhes muito respeito e amor.
Vou sempre à missa ao Domingo de manhã.
Às vezes vou ao cinema ao Shopping, mas não gosto muito dos filmes actualmente. Nem gosto do cinema português. Gostava muito dos filmes com o Vasco Santana, o António Silva e a Beatriz Costa. Agora os filmes portugueses são muito chatos.
Tiro férias em Agosto e passo uma semana na praia da Vieira.
Estou sempre à espera da noite de Santo António para comer as primeiras sardinhas do ano. As sardinhas são o meu prato favorito. Mas também gosto de chanfana. De borrego. De lampreia. Sou boa boca e como de tudo um pouco.
Gosto do Benfica. Do Tony Carreira e do José Cid. Das novelas da TVI e da Cristina Ferreira que agora tenho de procurar na SIC de manhã enquanto sirvo as meias-de-leite às senhoras aqui do bairro.
Ainda tenho cabelo, embora já não tão forte nem tão abundante como antigamente. Não fumo e o cheiro do tabaco enjoa-me. Não gosto de beijar senhoras que fumem. Não gosto do cheiro do tabaco entranhado nas roupas. A proibição de fumar nos cafés foi a melhor decisão política depois da revolução.
Bebo pouco. Uma cerveja de vez em quando. Um copo de vinho às refeições. Um whiskey à noite. Um vodka de vez em quando.
Fiz o nono ano. À noite.
Não gosto muito de ler livros. Mas leio o Correio da Manhã e A Bola todos os dias.
Tenho votado sempre em todas as eleições, normalmente no PSD, mas também já votei no PS e no CDS. Nos comunistas é que nunca votei. E espero nunca votar. Não gosto de comunistas. Mas já não sei se devo continuar a votar. A política deixa-me desgostoso. Eles são todos iguais. Só querem encher-se.
Levanto-me todos os dias às seis e meia da manhã para abrir o café às sete. O café abre todos os dias do ano, mesmo no Natal e no Ano Novo.
A minha mãe ainda vive comigo. Mas não incomoda. Está acamada. É só preciso levar a comida à cama. Dar-lhe à boca. Dar-lhe banho uma vez por semana. Mas fora isso, é uma doçura de senhora.
Também tenho um cão. Está preso à casota. É só preciso limpar os cocós todos os dias. E ele come os restos do café.
Não gosto de jogar e também nunca fui muito afortunado ao jogo. É por isso que ainda acredito que vou encontrar o amor. Como se costuma dizer, azar ao jogo sorte ao amor.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/07]