Um Tiro Disparado à Queima-Roupa

Acordei a ouvir falar numa criança e na doença que ela carrega. Uma doença rara. Ouvi dizer que havia um medicamento para esta doença rara que custava dois milhões de euros e sobre o qual, um médico, não sei que médico, mas um médico, dizia que não era uma cura, tão só uma ajuda a suportar a doença.
Uma doença, é uma doença. Rara ou comum, uma doença é uma doença. Mortal ou crónica, uma doença é uma doença. Há doenças piores que outras. Mas uma doença, é uma doença.
Um medicamento que custa dois milhões de euros não é um medicamento. É um euromilhões. Um medicamento que custa dois milhões de euros é uma escolha que está a garantir a imortalidade aos mais ricos dos ricos. Um medicamento que custa dois milhões de euros está a seleccionar quem pode viver. Quem pode morrer. Quem deve morrer.
Um medicamento que custa dois milhões de euros não é um medicamento, é uma dívida. Uma dívida para a vida. Para a vida da vida. Para a descendência. É uma hipoteca das gerações futuras. Para os filhos dos filhos dos filhos onde, entretanto, se encravou o elevador social, laboral e salarial e já não interessa a doença porque já todos têm uma sentença pendente sobre a sua vida. Um medicamento que custa dois milhões de euros é uma sentença de morte. É um tiro disparado à queima-roupa. É uma facada nos rins, e deixar morrer lentamente. É um deserto com o oásis a fugir com a linha do horizonte, e nunca se deixa apanhar.
Se eu tivesse dois milhões de euros gastava-os em álcool e gajas.
Se eu tivesse dois milhões de euros gastava-os a dar a volta ao mundo. A ver mundo. A beber o vinho do mundo. A amar as mulheres de todo o mundo. Perdia-me nas curvas das curvas, nas curvas do mundo, nas curvas das estradas, nas curvas das mulheres embriagadas e nas suas promessas de amor fácil e honesto. O amor é o que é. Ou não é.
Mas só tenho o resto deste Capataz em pacote. Até ontem ainda tinha a pornografia na internet. Mas já me cortaram a luz. A água. O gás. O cabo. A internet. O telemóvel. O meu último maço de cigarros jaz ali, no chão da varanda, amachucado, vazio.
Estou aqui em casa. À varanda do edifício que é a minha casa. Ou era, que já não sei nada de nada. Estou no Edifício Coutinho. A minha casa. Hoje de manhã acordei com os batuques dos martelos a desconstruir o prédio. Começaram no apartamento aqui mesmo ao lado do meu. Querem que eu saia de minha casa. Parece que é para o bem da comunidade. Bebo o último gole de vinho. Largo o copo, de vidro, e vejo-o cair lá em baixo na rua, mesmo ao lado de um segurança privado que levanta o punho em ameaça. Vai-te foder, pá! grito-lhe, mas sei que não me ouve.
Respiro fundo. Não tenho dois milhões de euros. Nem tenho uma doença rara. Sou só um gajo descartável igual a tantos outros que acabam por vociferar contra mim. Enganados.
Preparo-me para seguir o caminho do copo de vinho antes de ser atingido pela indiferença que anda a matar o século XXI.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/28]

A Mãe, às Voltas, no Recinto em Fátima

Eu conheci-a há uns anos, em Fátima. Eu estava lá a tirar umas fotografias. Ela andava lá de joelhos. Era uma daquelas mulheres a pagar promessas. Qualquer coisa que tivesse pedido a Deus. Qualquer coisa que tivesse recebido. E agora o pagamento. De joelhos à volta do recinto. Pedi-lhe autorização para a fotografar. Ela anuiu. Prometi-lhe um café. E assim foi.
No fim das suas voltas. No fim das minhas fotografias. Um café. E conversa.
Fiquei a saber o que a levara ali. Não era nenhuma promessa. Não estava a pagar nada. Não tinha pedido nada. Estava a crucificar-se. Culpada, cumpria a sua penitência.
E depois, contou-me sua história. Talvez para ilustrar a fotografia que tirei. Talvez para se justificar. Talvez para exorcizar a sua vida.
Era uma mão solteira. Vivia com o filho de 13 anos. Vivia para o filho de 13 anos.
Todos os dias, antes do filho se levantar, aquecia uma caneca de leite com chocolate, e ia levá-la à cama dele. Ele era assim acordado para o dia. Quando chegava à cozinha já lá estava a mochila da escola preparada. Uma malga com cereais. Um saco de plástico com duas sanduíches para o resto do dia. Uma de fiambre de peru. Outra de queijo flamengo. Ambas com manteiga.
Ao fim-do-dia, quando ele regressava a casa, a mãe tinha sempre um bolo caseiro, de pão-de-ló, à espera dele. Quando não era um bolo, era uma salada de frutas, mas cortada momentos antes e sem adicção de sumo nem de açúcar.
Mais tarde estaria feito o jantar. Invariavelmente carne, que o filho não gostava de peixe. Um mimo para sobremesa. Depois, à noite, enquanto o filho via um bocado de televisão ou ia dormir, a mãe passava a roupa dele a ferro. Cerzia umas meias. Dobrava as cuecas.
Antes de se ir deitar ainda ia levar uma caneca de leite quente ao filho que não adormecia sem o estômago quentinho e saciado.
Aos fins-de-semana ia com o filho ao cinema. Às vezes ao circo. Lanchavam fora. Às vezes a mãe aproveitava para ir com ele às compras. Umas calças. Uma camisola. Umas sapatilhas. Um jogo para a consola.
Chegavam a casa, o filho ia experimentar o jogo novo. A mãe ia pôr uma máquina a lavar roupa. Depois preparava o jantar.
Quando era bife de vaca, ou uma bifana de porco, a mãe cortava-lhe a carne aos bocadinhos. Tirava-lhe a gordura. Tirava-lhe o nervo. O frango assado só tinha pernas e asas. Que ele gostava de comer à mão. O resto do frango, o peito, a mãe utilizava para fazer outras coisas que ele acabava por comer. Umas quiches. Umas tostas. Uma pasta no forno com molho bechamel. No arroz de ervilhas tirava as ervilhas. No arroz de cenoura tirava todos os pedaços de cenoura. Na canja não podia lá deixar as moelas, o fígado ou o coração.
Aos Domingos, a mãe incentivava-o a sair. A ir brincar para a rua. A ir ter com os amigos do bairro. Mas o filho ficava o dia todo em pijama no sofá a jogar na consola. E ela acabava por gostar da companhia. Aproveitava e limpava a casa. O quarto do filho. Apanhava a roupa que ele deixava caída pelo chão. As latas de Coca-Cola acumuladas na secretária. Os pacotes vazios de Filipinos. As migalhas dos Oreos. As várias sapatilhas espalhadas.
Um dia a mãe conheceu alguém.
Um dia a mãe conheceu melhor alguém lá do trabalho. Era ainda uma mulher nova e bonita. Ainda era bonita a mulher que estava à minha frente, no café. Uma mulher bonita mas triste. Mas muito bonita. De olhos brilhantes.
Bom, a mãe conheceu alguém e foi passar um fim-de-semana fora.
A mãe deixou todas as refeições preparadas. Todas as refeições em embalagens individuais no frigorífico. Era só aquecer cada uma delas no micro-ondas. A roupa para cada um dos dias do fim-de-semana empilhada na cadeira do quarto do filho. Caso ele quisesse ir ter com o vizinho do andar de cima. Eram amigos. Andavam na mesma turma na escola. A mãe avisou a vizinha. Que ia sair. Que o filho ficava sozinho. Que fosse lá ver dele. Que lhe desse uma ajuda se fosse necessário.
A mãe passou o fim-de-semana isolada. Foi para uma cabana nas montanhas. Houve um temporal. As comunicações foram cortadas. As estradas também. O fim-de-semana transformou-se numa semana.
A vizinha de cima foi para o hospital com o filho, atropelado à porta de casa por um condutor bêbado. Nunca mais se lembrou do filho da vizinha.
O filho passou o fim-de-semana deitado na cama. E a semana. E foi assim que a mãe o foi encontrar quando regressou na outra Segunda-feira de manhã, quando finalmente abriram as estradas e deixaram de estar presos na montanha.
Tentou telefonar mas ninguém atendeu. Nem o filho. Nem a vizinha. Mal chegou a casa correu para o quarto dele. Ele estava deitado na cama. Rodeado de merda. Inanimado. Morto.
A mãe entrou no quarto e foi abrir a janela. O quarto exalava um cheiro que não se podia. Um cheiro a merda. Um cheiro a podre. Um cheiro a morte.
O filho estava morto. Ela gritou. O amigo com quem tinha estado isolada na montanha abraçou-a. Ela afastou-o. Deitou-se sobre o filho. Sobre o corpo do filho. Sobre o corpo cheio de merda do filho. O amigo telefonou para as emergências. Para a polícia. Para o trabalho de ambos. Para a escola do rapaz. Depois foi-se embora. A mãe estava abraçada ao filho. Nem os para-médicos, nem os bombeiros, nem a polícia conseguiram afastar a mãe do corpo frio do filho.
Mais tarde, e depois da autópsia e de todas as perícias, ela soube o que, provavelmente, acontecera.
O filho estava sozinho em casa. Ninguém lhe levara o leite à cama. E ele não podia sair de casa sem beber o leite com chocolate na cama, sinal que podia levantar-se e sair de casa. A comida no frigorífico não apareceu quente na mesa. Esteve uma semana inteira sem comer e sem beber. Não saiu de casa para ir à escola nem para ir ao vizinho de cima. O vizinho de cima estava no hospital e a mãe dele nunca mais se lembrou do miúdo. Da escola telefonaram à mãe mas o telefone estava sem rede. Na verdade, o miúdo enfiou-se na cama e acabou por nunca mais sair de lá. Mesmo para fazer as necessidades. Ele ficou na cama à espera da mãe. Mas a mãe nunca mais chegou. Ou chegou, mas chegou tarde.
A mãe sentiu-se culpada. A mãe sentiu que foi tudo por ter querido um fim-de-semana de luxúria quando devia ter ficado a tomar conta do filho.
Isto é o que ela pensava.
As autoridades não pensavam o mesmo. Tudo tinha sido fruto das circunstâncias.
A mãe entrou em depressão. Foi internada. Acompanhamento psiquiátrico.
Há um mês que estava de regresso à vida. Virou-se para a religião. Não para a Igreja. Para a religião, mesmo. Sem intermediários. E estava a tentar sobreviver. Ultrapassar a culpa.
Era a primeira vez que falava sobre o assunto.
Eu não soube o que dizer.
Queria sair dali, mas não sabia como. Tive de esperar que fosse ela a ir embora. E assim foi.
Hoje, ao abrir o jornal da cidade, descobri que tinha morrido. Foi encontrada morta num banco de jardim nas margens do rio. Estava já morta há algum tempo quando foi encontrada. Parece que se sentou no banco à espera da morte.
Foi a fotografia dela, de joelhos no recito em Fátima, que me deu o meu primeiro prémio de fotografia.
Chorei quando vi a notícia da sua morte. Chorei mais ainda quando lembrei a sua história.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/09]

O Dia Dois. O Dia de Hoje

É o dia dois.
É o dia de hoje.
Uma semelhança fonética transforma o segundo dia do ano no dia presente. No dia de que se fala. No dia de todas as desilusões. É hoje. Agora.
Não houve nenhuma transformação. Nenhuma metamorfose. Nenhum milagre operado num estalar de dedos.
Os problemas não se resolveram. A vida não se tornou bestial. A conta no banco continuou a zeros. As contas continuam a acumular-se à entrada de casa.
Afinal, passar de ano é o mesmo passar do dia à noite e de regresso ao dia de todos os dias. Com falso glamour. Sempre uma justificação para nos extravasarmos. Beber até cair. Comer até rebentar. Drogar até deixarmos de ser quem somos. Ou passar a sê-lo.
Afinal, a vida continua a rolar da mesma maneira como rola todos os dias.
Afinal, uma porra! é o que é.
São sete e trinta quando o despertador toca. Abro os olhos. Desligo o despertador. Penso que é hoje que recomeço. Ganho coragem. Afasto o edredão. Sinto o frio mas ignoro-o. Levanto-me. Abro a janela. Um dia ainda por nascer. Pouca ou nenhuma luz. Uma hora mágica.
Vejo o carro do vizinho a sair. Sai cedo para o trabalho. Ainda não leva os miúdos para a escola. Ainda não há escola. Ainda são férias de Natal. Os miúdos já estão levantados a ver televisão. Vejo-os pela janela da sala. Amanhã não vão levantar-se a esta hora.
Espreguiço-me. Arrepio-me. Vou para a casa-de-banho. Urino. Tomo um duche. Visto-me. Faço café. Uma torrada com pão do ano passado. Isto antigamente era uma piada. Porque não se podia comprar nada no dia um de Janeiro. Estava tudo fechado. Com excepção de um ou outro café. Que vendia bicas. E uns chupa-chupas. E pastilhas. Agora já não faz muito sentido. Já há muita coisa aberta. Cafés. Restaurantes. Farmácias. Padarias. A massa já está feita. É só colocá-la naqueles fornos eléctricos. Pão-borracha. Bom na primeira hora. Uma desgraça logo depois. Ah, as saudades das panificadoras e do papo-seco!
Há um ano que não te vejo, dizem. Uma piada velha e gasta. Mas há sempre quem a diga.
Vou à janela fumar o primeiro cigarro do dia. Do dia dois. Do dia de hoje.
As coisas nunca mudam. Mantêm sempre a mesma caminhada, dia-após-dia. Ano-após-ano. De manhã, fumo sempre o primeiro cigarro do dia. Logo depois do café. E da torrada. Todos os dias. Todos os anos.
Não há rupturas. Não há transformações. Tomam-se resoluções que se esquecem com o primeiro copo de espumante barato mal tocam as doze badaladas. Que se perdem nos lábios quentes e pastosos que nos oferece o primeiro segundo do primeiro dia do novo ano. Mas é tudo ilusão. Os lábios são os mesmos. O batom é que é novo. Talvez um Red Tango. Promessas. Promessas de novidade. Promessas de desejo. Promessas de promessas.
Mas desta vez já decidi. Desta vez é a sério.
Desta vez as coisas mudam.
Sento-me frente ao computador. Abro o Word. Crio uma nova pasta: Boa-Sorte, Lá Fora.
E começo a escrever Capítulo I:
Estás bem, pai?
Se ele estava bem? Achava que sim, mas não tinha a certeza…
Desta vez vou abrir esta pasta todos os dias. E todos os dias vou contar a estória deste homem. Não sei ainda como se chama, este homem. Mas vou saber. O homem que nasceu no dia dois. No dia de hoje.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/02]

A Casa Desapareceu

Regressei a casa.
A árvore está seca. É uma figueira. Não sei se está morta. Não sei nada de árvores. Mas está seca. Sem frutos. Sem folhas. Os ramos parecem palha.
Abro a porta de casa. Entro. Sinto o cheiro a caldeirada. O refogado com cebola e alho, e o tomate. E os peixes que a minha mãe lá punha. O safio, a pescada, a sardinha, a lula, a amêijoa, a raia… Ai!, a raia! O que eu gosto de raia. Raia frita! Há quanto tempo não como raia frita?
Entro pelo corredor da direita, directo à cozinha, à sala. Vejo o tacho de barro ao lume, a fervilhar, olho para a rua através das janelas da marquise e vejo o silêncio. Não há vento. Os arbustos não abanam. O baloiço está parado. Há uma quietude. Vou até à sala. A televisão está ligada. Está a dar o Verão Azul. Sorrio de saudade ao ouvir aquelas vozes espanholas cheias de aventura.
Volto para trás. Vou para o outro corredor. O dos quartos. No quarto dos meus pais sinto o cheiro da laca da minha mãe. Do after shave do meu pai. Passo pela casa-de-banho e vem-me o cheiro de um perfume que lá deixei cair. A casa ficou cheirosa durante meses. Ainda hoje me cheira. Lembro-me que me atacou a bronquite.
Passo pelo meu quarto. Vejo a máquina de escrever. O poster da Kim Wilde. Os livros dos Cinco e dos Sete. Os Livros do Harold Robbins que comecei a ler quando me julguei adulto. As cassetes com as gravações do Som da Frente e da voz incompreensível do António Sérgio. Os singles dos Xutos & Pontapés e dos GNR. Os LPs dos Bauhaus e dos Echo and The Bunnymen. Ouço os Chameleons a dizerem que A Person Isn’t Safe Anywhere these Days…
Olho pela janela. Olho pela janela mas não vejo nada. Está emparedada com tijolos. Os cheiros da caldeirada e dos perfumes desvaneceram-se. Os Chameleons calaram-se. A casa desapareceu.
Estou num T0.
Estou no T0 onde vivo. Onde vivo só, na companhia das minhas memórias. Memórias de um tempo de esperança. Um tempo onde a vida prometia ser a Taluda, o Totoloto, o Euromilhões.
Um tempo cheio de maravilhas por vir.
Um tempo de enganos, afinal.
Estou deitado no sofá no T0 onde habito e olho para a televisão onde o Hernâni Carvalho fala de mais um crime contra idosos.
Eu já sou um idoso.
Acho que o Hernâni Carvalho começou a falar para mim. A falar de mim. Eu que me sinto enganado pela vida. Eu, já velho.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/13]