Tudo É Perigoso

Fui ao supermercado. Com lista. Para não me perder. Tenho tendência a encher o carrinho das compras com coisas boas mas que me rebentam a carteira. Hoje fui com lista. É claro que vigarizo um pouco a lista. Acabo sempre por trazer mais uma ou outra coisa que não consta da lista. Mas é um começo. E é só uma ou duas coisas a mais.
Aproveitei as promoções. Agora ando atento. Há coisas que, entre hoje e amanhã, podem baixar quase cinquenta por cento. Agora leio os panfletos. Tomo atenção aos descontos. Tenho poupado muito dinheiro.
Voltei para casa. Arrumei as compras.
Fui apanhar laranjas numa das laranjeiras que tenho aqui no quintal. São um pouco azedas mas, espremidas, com um pouco de açúcar ou a acompanhar um vodka, a meio da tarde, fazem milagres.
Estava a voltar para o interior de casa quando vi passar uma procissão, ao fundo da rua. Primeiro ouvi uma vozes. Uma ladainha. Percebi uma oração. Depois vi um andor. E um mar de gente atrás do andor, a ladainhar.
Fiquei ali parado por momentos. A olhar a procissão a passar lá ao fundo. A ouvir a oração. O cesto com as laranjas nas mãos. A pesar.
Perguntei-me Que procissão é esta? E não soube responder.
A procissão acabou por passar. Deixei de ver pessoas. Deixei de ouvir vozes. Entrei em casa.
Coloquei as laranjas no frigorífico. Finalmente percebi a funcionalidade das gavetas de plástico. Servem perfeitamente para guardar as laranjas.
Ouvi um estrondo. Depois um burburinho. Um burburinho ao longe. Fechei o frigorífico. Saí de casa. Espreitei para a estrada, lá ao fundo. Não vi nada. Desci o quintal até ao muro. Olhei para um lado. Depois para o outro. Vi algumas pessoas no fundo da estrada. Pareciam agitadas. Estava lá um carro parado, no meio delas. Havia gente a correr à volta do carro. Pareceu-me ouvir alguns gritos.
Saí pelo portão do quintal. Fui para a estrada. Acendi um cigarro. Vi uma miúda a correr na minha direcção. Perguntei-lhe O que houve? E ela, cansada, cansada da corrida, um pouco assustada disse Um carro foi para cima da procissão!, passou por mim e continuou a correr estrada fora.
Deixei-me estar ali. Encostei-me ao muro a fumar o cigarro. Fiquei a olhar para a confusão que se adivinhava lá ao fundo, na estrada.
Não voltou a passar mais ninguém à minha frente.
Fiquei ali um momento, hesitante, entre entrar em casa ou ir ver o que se passava ao fundo da estrada. Mas não gosto de confusões.
Voltei a entrar pelo portão. Subi o quintal. Entrei em casa. Abri o frigorífico. Espremi duas laranjas. Juntei um pouco de vodka. Fui para o alpendre.
Estava a sentar-me no alpendre quando ouvi a sirene dos bombeiros.
Acendi outro cigarro. Beberiquei um pouco do vodka com laranja. E pensei Os carros são perigosos. Olhei para as montanhas lá à frente. De manhã não as conseguia ver com o nevoeiro com que nasceu o dia. Agora estão bem nítidas e verdes. E ainda pensei As procissões também podem ser perigosas. Puxei uma passa do cigarro. E voltei a pensar Tudo é perigoso.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/15]

O Verão que Passei Sentado no Banco Corrido do Café

Passei aquele Verão quase todo sentado num banco corrido encostado à parede do café. Ia para lá de manhã. E passava lá o dia. Via chegar os clientes habituais. Pessoas que precisam de uma bica para funcionar. Bebia café com eles. Fumávamos um cigarro juntos. Contavam-me coisas. Algumas sem interesse. Outras fantásticas. Umas poucas diabólicas. Eu ouvia.
Bom-dia! Bom-dia! E isto repetia-se.
Às vezes lia o Correio da Manhã. Quase todos os dias A Bola.
Às vezes levava a máquina fotográfica e fotografava as caras das pessoas que por ali passavam. Os velhos cheios de rugas e cara curtida do sol. As crianças à procura de um gelado, ou de um chupa-chupa. As mães para três dedos de conversa entre elas e saberem as novidades do dia.
Às vezes passava um turista. Alguém que se perdia a caminho da praia. Alguém a pedir uma informação. Alguém que precisava de uma garrafa de água. Geladinha.
Depois de almoço, geralmente petiscava qualquer coisa, dava-me a moleza. Dormitava por ali um pouco. Encostava-me à parede. Fechava os olhos. Um chapéu-de-sol da Olá protegia-me do sol. Depois acordava. Bebia uma imperial. Lia um bocado de um livro que se arrastava. Escrevia notas para um futuro livro. Via chegar os vespertinos.
Boa-tarde! Boa-tarde! E isto repetia-se.
Ao final da tarde começavam a chegar os homens. Vinham beber um bagaço. Uma mini. Um copo de tinto. Comiam um pastel de bacalhau. Discutiam. Discutiam muito. Sobre futebol. Diziam mal da Junta de Freguesia. Aliás, do Presidente da Junta. Maldiziam a vida. Depois diziam bem dos filhos. Das mulheres, variava. Às vezes esqueciam o tempo. Às vezes as mulheres iam lá buscá-los. Às vezes mandavam os filhos mais novos. Às vezes havia barulho. Zangas. Desconcertos entre eles. Eles, marido e mulher. Mas também eles, amigos. Vizinhos. O álcool fazia-os irritar. Falar alto. Odiarem-se ódios velhos que morriam rapidamente. Mas às vezes aqueciam as nozes dos dedos nas caras uns dos outros. Nada de muito grave.
Às vezes puxavam uma mesa cá para fora e jogavam Dominó comigo. À Bisca Lambida. À Lerpa. Ao Sete e Meio.
Sentavam-se muitas vezes lá comigo. A beber cerveja. Um vinho. A fumar um cigarro. À espera que a noite chegasse. A noite que os arrastava para casa. Às vezes iam a contra-gosto. E eu? Eu também partia com a noite.
Boa-noite! Boa-noite!
Depois, mais tarde, em Agosto, chegaram os emigrantes. Regressavam à terra. Vinham abrir as janelas das casas fechadas. Vinham arejar o bafio das casas. Vinham mostrar os carros potentes e vistosos. As roupas coloridas que não há cá. As sapatilhas de marca. Mas então? Agora a época era outra. Estava já tudo desfasado no tempo. Quem não vinha de fora ia ao Continente e tinha as mesmas coisas. As mesmas marcas. Os filhos confundiam-se já todos. Mas era bom estar ali sentado. Estar sentado e ouvir falar aquele francês, às vezes mal arranhado, mas sempre com sotaque. Como uma música velha num tijolo fanhoso. O sotaque dali. Um sotaque que eu já reconhecia.
Essa era também a época das festas. O banco estava sempre cheio de gente. Mas o meu lugar estava sempre reservado. Fotografei caras. Filmei a procissão. Escrevi estórias. Descrevi o baile. Gravei sons de conversas. De discussões. De namoros. Nesse Verão fiz uma bela recolha da vida que se cruzava ali, frente ao café.
Chegou o Outono. As pessoas foram embora. Ficaram as que ficam sempre. Passei a estar mais vezes sozinho. A apreciar mais a chegada solitária de um ou de outro. Aproveitava o pouco sol. Evitava a chuva. Enfrentava o frio.
Um dia, já perto do Natal, o café não abriu. O dono, já velhote, tinha morrido. Durante a noite. Sossegado. Em paz. O banco nunca mais voltou à rua.
Alguém comprou o café. Transformou-o em alojamento local. Anunciou-o no Airbnb. Eu deixei de lá ir. Deixei de ver pessoas. Deixei de ver a vida a acontecer por ali.
Agora não passo do alpendre de casa.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/05]

A Viagem em Itália e a Grande Onda da Nazaré

Estávamos na cama. Os dois. Abraçados. Estávamos num quarto. Numa pensão. Na Nazaré. À beira da praia. O sol a entrar pela janela. O vento a soprar lá fora. A assobiar pelas frinchas da janela. O tempo estava bom. Fazia sol. Mas caminhava para o mau. Vinham lá nuvens. Uma massa polar, diziam. Que vinha da Islândia, diziam. Nunca fui à Islândia, disse eu. Em voz alta.
Ela disse E agora a água do mar desaparecia toda, puxada lá para dentro, para dentro do mar, para fazer uma onda, uma onda gigante, gigantesca, uma onda que vinha tombar sobre a Nazaré, e arrasar com a cidade e connosco. Connosco nesta cama. E morríamos assim, abraçados, os dois. E abraçou-me muito. Apertou-me muito. Beijou-me. Mordeu-me.
E eu pensei no filme de Roberto Rossellini, Viagem em Itália. E disse. E disse-lhe. E comecei O George Sanders e a Ingrid Bergman estão em Itália. Estão lá por causa de uma herança e aproveitam para passar férias. Mas descobrem que não estão habituados a estar juntos. Juntos e sozinhos. Juntos e sozinhos e durante tanto tempo. E tudo serve para se distanciarem. Para se distanciarem ainda mais. O país. Os italianos. As italianas. O calor. A porra do calor. E nasce o azedume. Um azedume cada vez maior. Cada vez mais azedo. Ele vai para os negócios. E sai à noite. Diverte-se. Ela visita as ruínas de Itália. Faz turismo. Turismo de história. De ruínas. Visita Pompeia. A Pompeia destruída pelo Vesúvio no ano 79. As mesmas ruínas onde os Pink Floyd tocaram para um filme, Live at Pompeii, em 1972. E é ali que ela tem o primeiro choque. As pessoas estão abraçadas. Como nós aqui, a sermos levados pela onda gigantesca que se abateria sobre a Nazaré. Nós abraçados. Eles abraçados. Eles as pessoas mortas. As vítimas do Vesúvio. Envolvidas pela lava. Queimadas vivas. Abraçadas. Amantes. Amados. Amantíssimos. Descobertos agora. Como estátuas ao amor. De amor. Um amor de horror. Mas não são estátuas. São gente. Gente que morreu. Gente que morreu junta. Abraçada. A amarem-se. E ela chora. Acho. Acho que a Ingrid Bergman chora. Já não tenho certeza. Mas acho que ela chora. E vai transformar-se. Quer renovar-se. Quer recuperar o marido. Recuperar o amor que acha que já teve. Que já viveu. Mas é já quase no final do filme, quando George Sanders e Ingrid Bergman passam de carro por Itália, pela Itália profunda, pelo meio de uma aldeia em festa, festa religiosa, festa católica, católica como Roberto Rossellini, e o carro fica bloqueado entre as inúmeras pessoas, no meio das pessoas, daquela multidão, e eles os dois discutem, discutem forte e ela sai do carro e ele sai também para a ir buscar e a procissão vem, vem como a onda gigante da Nazaré e leva-a, leva-a para longe dele, e ele vê-a ser engolida pela multidão que se arrasta e ambos perdem o outro de vista, e sentem que, afinal, ainda há ali qualquer coisa entre eles que não está morto, qualquer coisa que está a acordar e procuram-se, procuram-se um ao outro, não querem perder-se, não se querem perder. É um filme lindíssimo. Triste, mas muito bonito. Um filme que afasta Roberto Rossellini do neo-realismo e abre as portas para um cinema existencialista. Mas agora preciso de ir fumar um cigarro que fiquei cansado de tanto falar, disse.
Ela sorriu-me, abriu os braços para eu sair da cama e disse Traz-me um copo de vinho, antes que venha a onda. E eu disse Se vier a onda abraço-te ainda mais. E sorri enquanto acendia um cigarro, afastava as cortinas da janela e olhava lá para fora e via os primeiros pingos de chuva a chegar. As gaivotas a voar. Mas o mar, o mar ainda lá estava.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/27]