A Primeira Vez que Saí à Rua de Mãos-Dadas

A primeira vez que saímos para a rua de mãos-dadas, eu fiquei com dois metros de altura, peito inchado, percebi a cara ruborizar e senti-me a pessoa mais importante do universo.
Estava em casa dela. Tinha acabado de lhe dar um beijo nos lábios. Ela tinha aberto a boca. Senti a língua húmida dela a procurar a minha. Os nossos dentes bateram uns nos outros, desajeitados. E depois sorrimos um para o outro.
A minha mão procurou a dela. Encontraram-se e não mais se largaram. Foi difícil abrir a porta da rua e fechar a porta à chave sem largarmos as mãos. Depois saímos, de mãos-dadas. Era a primeira vez que saía para a rua de mãos-dadas. Estava nervoso mas sentia-me muito importante. A pessoa com mais sorte do mundo. Sentia-me nas nuvens e olhava as outras pessoas lá em baixo, aos meus pés. Senti vertigens e, por momentos, enjoei e pensei que ia vomitar. Mas agarrei-me à mão dela. O coração batia tanto e tão alto que tinha medo que ela ouvisse. E, de vez em quando, engasgava-me a respirar e tossia. Sentia-me a ficar com a cara vermelha e muito quente. Piorou quando parámos no passeio, junto à passadeira, à espera de cruzarmos a estrada para o outro lado, e ela encostou a boca ao meu ouvido e disse Gosto de ti! e os lábios dela a mexerem-se na construção fonética fizeram-me cócegas na orelha e senti um arrepio pela espinha, a minha mão começou a transpirar, a dela também, e mesmo com a estrada vazia de carros não conseguimos cruzá-la pela passadeira para o outro lado. Ficámos ali presos aquele momento, a tentar recuperar a lucidez mas sem fazer muito por isso, até que fomos acordados pela buzina de um automóvel que parou para nos dar passagem. Eu pus o pé na estrada e esperei que ela viesse comigo mas a minha mão e a dela escorregaram, tão transpiradas que estavam, e desatámos os dois a rir e ela começou a correr para o outro lado da estrada e eu segui-a e, já no passeio, a rir, ela abraçou-me e ou voltei a beijá-la, enquanto a minha mão agarrou a dela, mas com força, como uma tenaz, para não mais a deixar largada num sítio qualquer onde eu já não estivesse e ela se pudesse perder.
Às vezes penso no que é que mais gostava de voltar a sentir pela primeira vez. E nunca é no primeiro beijo, na primeira relação sexual, no primeiro filho, na vez em que recebi a Palma de Ouro em Cannes ou quando acertei no Euromilhões. Não. O que eu penso sempre que gostaria de voltar a sentir outra vez pela primeira vez era sair de mãos-dadas com ela à rua. Voltar a sentir-me um gigante, a pessoa mais importante do universo, mesmo com o nervosismo, o rubor e as borboletas na barriga, afinal, vem tudo no mesmo pacote.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/26]

Lembro-me, Sim Eu Lembro-me

Lembro-me. Sim, lembro-me.
Lembro-me de quando o Outono era Outono e chegava depois do Verão. Lembro-me que largava os calções e regressavam as calças, as botas, as camisolas e os casacos. Lembro-me que, pouco-a-pouco, chegava o frio e dizia ao calor para se ir embora, mas devagarinho.
Lembro-me de regressar às aulas, do cheiro dos livros novos, do reencontro com os amigos, da descoberta dos recreios com gente nova.
Lembro-me que os dias ficavam mais pequenos porque tinham medo da noite.
Lembro-me que ainda se estava longe do Natal, mas que este prometia coisas boas e não a angústia de hoje. Lembro-me das idas à praia nas férias grandes ser uma memória viva que se contava e recontava com o prazer na ponta da língua. O Pedrogão, a Vieira, São Pedro de Moel e a Nazaré. Dos piqueniques no Pinhal do Rei. Das sestas depois de almoço. Das sardinhadas aos fins-de-semana.
Lembro-me de devorar os livros dos Cinco e dos Sete e das Gémeas e da minha mãe me fazer parar de ler e mandar para a rua brincar.
Lembro-me dos primeiros namoros. Da mão-na-mão, do primeiro beijo quase roubado e que foi um bilhete de ida-e-volta à Lua.
Lembro-me do centro da vida ter passado dos meus pais para os meus amigos e depois para as minhas paixões e depois para a minha família e depois… E depois…
Lembro-me de quando a vida era muito mais simples. De quando a responsabilidade não era minha. De quando ninguém esperava nada de mim. De quando podia ser o que era e não o que deveria ser.
Lembro-me de quando a criança era criança…
Lembro-me de quando a criança queria crescer para ter aquilo que já não quer ter. Quando queria ser aquilo que já não quer ser.
Lembro-me de quando a criança cresceu e não queria. Queria ser o miúdo d’O Tambor.
Mas agora, que lembro tudo o que fui, e vejo o que sou, sei que não quero voltar atrás. Mas quero lembrar. E deixar-me embriagar.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/21]