Talvez Seja Só o Fim do Mundo

A Lua hoje saiu cedo. E grande. O céu ainda não é preto. É de um azul petróleo, denso.
Vejo-a caminhar. Distanciar-se da torre da igreja. Cada vez mais. Cada vez mais alta.
Fumo um cigarro.
Ouço o cão, lá longe, a ladrar. Não se cansa. Não se cala. Ladra em continuo. Não percebo o que diz.
Agora há um outro cão a responder-lhe. Mas do outro lado. Eles comunicam e eu fico de fora.
O gato roça-se nas minhas pernas. Não me mexo. Deixo-o roçar-se. Quando largo a cinza do cigarro tenho cuidado para ela não cair em cima do pêlo do gato.
Ouço o barulho de uma motorizada a espremer o motor. Depois um camião, de som grave. Um carro, de som agudo. Mas não os vejo. Só os ouço.
Acabo o cigarro. Acendo outro.
Sinto que algo se passa.
O dia esteve estranho. A noite está estranha.
Não sei porquê.
Sinto uma impressão na base da nuca. Por vezes, fico com o corpo arrepiado. Acho que estou um pouco assustado. Com medo.
Mas não sei porquê.
No caminho lá em baixo passa um homem. Ele pára e olha para mim. Estamos demasiado longe para percebermos as feições um do outro. Mas vejo-o a ver-me.
E esta estranha sensação.
O homem retoma a sua marcha.
Os cães calaram-se.
O mundo está em silêncio.
Fumo o meu cigarro.
E então vejo, vindo lá do céu, uma massa em chamas, a cair. Primeiro é pequena. Depois vai aproximando-se.
Não sei o que é. Talvez um meteorito. Um avião. Um satélite. Um bocado da Estação Espacial.
Talvez seja só o fim do mundo.
A massa em chamas cresce e aproxima-se de mim.
Eu fumo o cigarro.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/24]