Fim da Festa

No fim da festa, sou o que resta.
Manhã de 25. Uma manhã tardia. O sol já vai alto. O Inverno nunca mais chega, mas também não dá saudades. Devíamos ter ido almoçar lá onde nos esperavam. Mas não fomos. Mandámos uma mensagem. Mandei eu. Por ela. Como se fosse ela. Nem uma chamada de voz. Ela não queria falar. Eu não podia falar por ela. Uma mensagem escrita. Só. Não me sinto bem. Não podemos ir.
Estamos os dois na cama. Os dois acordados. Os dois a olhar para o tecto. De olhos abertos. A absorver a luz do sol que entra pela janela. Os dois de ressaca. Ela bebeu porque não podia evitar. Eu bebi porque a sigo. Não consigo não segui-la.
Ainda não tínhamos começado a jantar já ela enrolava a língua. Ela não queria estar ali. Mas tinha de estar. Começou a beber durante a tarde. Não sei o quê. Não estava presente. Mas percebi quando nos encontrámos em casa antes de ir para lá. Em casa foram dois shots de vodka comigo. Para dar ânimo!, disse. Não discuti. Sabia que não valia a pena.
Quando lá chegamos, agarrou-se a um copo de vinho. Sempre que a via, tinha o copo cheio. Ela fugia das pessoas. Eu ia desculpando-a enquanto ia bebendo cerveja. Sabia que a noite seria longa. Desta vez enganei-me. A noite foi muito curta.
Ainda o bacalhau não tinha chegado à mesa. Ainda estava tudo muito eufórico. Muito histérico. Entre o vinho, a cerveja, umas farripas de presunto e umas fatias de queijo seco, ela disparou Já não estou grávida! Podem todos descansar!
O silêncio. O silêncio que se fez naquela casa. Até a televisão, ligada para o boneco, deixou de dar som.
E ela começou a chorar. Ninguém a confortou. Afastaram-se. Tiveram medo da reacção. Toda a gente disfarçou. Toda a gente arranjou afazeres. Ela era a maluquinha. Ela tinha de tomar não-sei-quantos químicos por dia. Ela não podia ter filhos. Ela não podia engravidar. E ninguém queria que ela engravidasse. E quando engravidou…
E eu?…
Eu sei que ela não podia fazer de outra maneira. A família era uma grande pressão. Mesmo para ela, que se punha constantemente do outro lado. Do lado da sua razão, mesmo que contra a família. Mesmo quando era a família toda. Inteira. Em peso. Mas custava-lhe.
Resolveu o assunto para satisfazer a família. E a ela? Quem é que a ia amparar? Eu esperei. Esperei um pouco. Esperei que alguém desse o primeiro passo. Esperei que alguém a fosse amparar.
Depois agarrei numa garrafa de vinho ainda fechada. Agarrei-a pelo braço. E levei-a dali para fora. Não olhei para trás. Não disse nada. Fomos embora. Os dois. Só.
Em casa ela continuou a chorar. Não conseguia falar. Mas não precisava. Eu sabia como é que ela estava.
Abri a garrafa. Fui buscar um queijo. Umas tostas integrais com sementes, do Pingo Doce (porra! são mesmo boas!). Sentámo-nos na cozinha. Enchi os dois copos. E eu disse Um Feliz Natal, minha querida!, e ela sorriu-me. Um sorriso suave no meio das lágrimas.
Acabámos o vinho. Fumámos uns cigarros. Ficámos bêbados. Fomos para a cama. Não conseguimos fazer nada um com o outro. Mas ficámos agarrados.
Ela levantou-se durante a noite para vomitar. Eu deixei-a sozinha. Ela precisava de estar sozinha.
De manhã acordámos já o sol ia alto. E ficámos os dois, lado-a-lado, na cama, a olhar para o tecto. Por baixo do edredão, a mão dela na minha.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/26]

Anúncios

A Mulher Triste

Estava a jantar aqui no restaurante da rua. Era Natal e, como quase sempre nestes últimos anos, janto sozinho por aqui. O Natal é, para mim, uma noite igual às outras. Quase igual às outras. É difícil arranjar um restaurante aberto. E os que estão abertos oferecem orgias gastronómicas. Eu só preciso de um bife. Mal passado, se possível. Umas batatas fritas. Uns legumes. De preferência, brócolos. Mas também pode ser umas couves.
No restaurante aqui da rua já me conhecem. Fico numa mesa um pouco mais arredada para o canto para fugir à fúria natalícia familiar. E não fico ao balcão para não estar no meio do furacão. O sítio onde fico permite-me olhar para a televisão e liberta-me o telemóvel. E dali também consigo ver a sala. Observá-la.
Há sempre umas criancinhas cheias de energia aos berros por todo o lado. Uma vez uma delas veio comer um chupa-chupa para ao pé de mim. Acho que foi o ano passado. Sentou-se à minha frente. A olhar para mim. Entre lambidelas perguntou-me o nome. Hambúrguer McDonald’s, respondi. Ela arregalou os olhos e disse Não és nada! Mas por via das dúvidas, e ficando ali a encarar-me, perguntou, esticando a mão com o chupa-chupa Queres? E eu acenei a cabeça. Ela esticou-se mais. Eu agarrei no chupa-chupa. Pu-lo na boca. Trinquei-o. Mastiguei-o. Ouvi o barulho dos meus dentes a triturar o chupa-chupa. Ela também. Tirei o pauzinho e devolvi-lho. Ela agarrou no pauzinho sem o chupa e começou a fazer beicinho. Começaram a cair umas lágrimas pela face abaixo. Ia começar a chorar. Ia começar aos berros. Rápido, pedi ao empregado do restaurante para lhe dar um chupa-chupa. Ele trouxe-mo. Eu agarrei-o e estendi-o à criancinha. Ela olhou-o na minha mão. Novinho em folha. Inteiro. Ainda embrulhado. Agarrou nele. Desembrulhou-o. Colocou-o na boca. Fungou. Limpou as lágrimas e o ranho com as costas da mão. Levantou-se da minha mesa. E foi embora, sempre a olhar para trás. Para mim. Depois encontrou outras criancinhas e esqueceu-me. Mas nunca mais veio ter comigo. Nem ela nem outra.
Tenho jantado em sossego. Bebo uma garrafa de vinho tinto. Como um queijinho fresco com sal e pimenta. Às vezes um rissol ou um croquete, quando há. E depois o bife. Umas vezes na frigideira, com um ovo a cavalo e molho. Outras vezes no prato. Mais seco. Normalmente termino com uma salada de frutas ou uma fatia de pudim. Bebo um café e uma aguardente velha. Depois vou para casa. Vou para casa fumar um cigarro à janela e ver o nevoeiro a tombar sobre as luzes da cidade e a torná-la feérica, mágica.
Mas desta vez chamou-me a atenção uma mesa, não muito grande, só de mulheres. Cinco mulheres. Várias gerações. Pelo menos três. Não descobri as relações. Mas eram familiares. Talvez um casal. Talvez uma avó. Uma neta. As diferenças entre a mais velha e a mais nova levava-me para aí. Estavam a usufruir do jantar de Natal. O menu especial do restaurante para aquela noite. As farripas de presunto de entrada. As azeitonas com alho. A manteiga caseira. O polvo. O bacalhau cozido. As filhoses. O Bolo Rei. Só o vinho não era o do menu. Era um vinho bom. Era gente de posses. Via-se pelas roupas. Pelos objectos discretos que as ornamentavam. Trocaram presentes entre si. Percebi alguns deles. Coisas com gosto. Requintadas. Caras.
Uma das mulheres, contudo, estava ausente. Estava ali, mas não estava. Sorria quando era o centro das atenções, mas depressa tentava fugir. Tentava que não reparassem nela. Tinha uns olhos tristes. A boca descaída. A cabeça sempre pendente. Era bonita. Todas elas eram bonitas. Esta, talvez um pouco mais. Mas estava triste. As outras não. Havia sempre conversa na mesa. Ela às vezes respondia. Parecia que não podia não responder. Era educada. Eram todas educadas. Ela era única que não bebia vinho. Ela e a criança. Levantou-se várias vezes para ir à casa-de-banho. Da primeira vez ia distraída e acabou a entrar na cozinha. Ficou encarnada de vergonha. Pediu muitas desculpas. Os olhos no chão.
Às vezes eu ouvia algumas frases. Nada completo. As vozes. Palavras sem sentido. A ela não conseguia ouvir a voz. Falava muito baixinho. Como se pedisse desculpas. Acho que se anulava. Acho que queria desaparecer. Acho que gostava de estar ali mas ao mesmo tempo gostava de não estar. Estar ali talvez fosse uma obrigação.
Ela comeu pouco. Depenicou mais do que comeu. Remexeu muito a comida no prato. Talvez para dar ideia de estar a comer. Eu via. Via-a a remexer a comida no prato. Mas quase não a vi levar o garfo à boca. A meio do jantar percebi que tirou discretamente um comprimido da bolsa e enfiou-o na boca. Parecia em sofrimento.
Eu, entretanto, acabei o café a aguardente velha. Levantei-me e fui ao balcão pagar para facilitar as coisas no meio da confusão em que os empregados estavam. Ao sair, passei ao lado da mesa das mulheres. Passei mesmo ao lado daquela que tinha estado a observar e me parecia triste. E ao passar ao pé dela, cheguei-me um pouco mais, baixei-me ao seu lado e dei-lhe um beijo na cara. Ela assustou-se com a acção e o meu atrevimento. Por instantes pareceu-me mesmo ver um certo pânico nos olhos dela. Coloquei-lhe a mão no ombro e disse-lhe Peço desculpa se a assustei. Só lhe queria desejar um feliz Natal. Pareceu-me triste. Pareceu-me precisar de um beijo, e ergui-me e segui o meu caminho até à porta da rua. Ao sair ainda olhei para trás e vi que ela tinha a mão na cara, onde a beijei, e acho que lhe vi um pequeno, suave e imperceptível sorriso a nascer entre os lábios e os olhos que, e isso eu tinha a certeza, estavam brilhantes.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/19]

Um Hambúrguer Gourmet no Prato

Fiz um hambúrguer para o jantar.
Fiz uma torre de comida que não consegui colocar inteira na boca para dar uma trincadela.
A minha composição era tão dramaticamente grande que acabei por desfazê-la e comer tudo no prato, em separado. Fiquei triste. E furioso.
Tanto trabalho.
Tento tempo despendido.
E um esforço inglório.
Pensei que bastava abrir muito a boca, mas a minha boca, afinal, não abre assim tanto.
Até comprei pão de hambúrguer. Um pão que parece bolo. Uma coisa nojenta. Tem umas sementes em cima e tudo, que se enfiam entre os dentes e chateiam. Foi difícil tirá-las. Tive de usar fio dentário. Mas pronto…
Uma fatia de pão, um bocadinho torrado. Não muito para não ficar rijo. Um bocado de ketchup picante em cima do pão. O hambúrguer grelhado sobre o ketchup. Uma fatia de queijo da ilha, que o calor do hambúrguer foi derretendo. Não tinha bacon, mas tinha presunto. Uma fatia de tomate, grande, do mesmo diâmetro do pão. Umas pedrinhas de sal. Umas folhas de rúcula selvagem. Um bocado de maionese. Pickles. Uma fatia de peru fumado. Um ovo estrelado. Pimenta sobre o ovo. Cebola frita. E a outra metade do pão a fechar a obra.
Estava orgulhoso.
Primeiro, foi muito difícil manter o hambúrguer em pé. Mais difícil ainda foi conseguir agarrar no hambúrguer inteiro, precisei de esticar os dedos das duas mãos, e conseguir trincá-lo de forma a abocanhar todos os elementos utilizados na composição.
À primeira trincadela começaram a sair pedaços do interior da estrutura. Os molhos esguicharam para as mãos. O ovo rebentou. O hambúrguer, propriamente dito, escorregou para fora. A rúcula morreu. Caiu tudo no prato, com excepção da quantidade de coisas que acabou por cair para o meio do chão e me obrigou a andar lá, de cu para o ar, a apanhar, a limpar e a ficar com dores de costas, que já não tenho idade para estas acrobacias.
Foda-se!
Fiquei irritado.
Mas não me dei por vencido. Espalhei os elementos pelo prato. Ajeitei tudo com as mãos. Fui buscar talher. Um garfo e uma faca. Nada de frescura com as mãos para comer, mesmo que elas já estivessem todas gordurosas. Não tinha vinho em casa, mas fui ao vizinho do lado. Tinha um Esporão que me dispensou. Não sei onde vou arranjar dinheiro para lhe comprar uma.
Juntei umas azeitonas. Abri um pacote de batatas fritas Matutano Ruffles com sabor a presunto e dei cabo do assunto.
Soube-me bem. Matei a fome.
Mas ainda estou irritado.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/01]