Uma Gota de Transpiração

Este tempo bipolar tomou conta da minha vida. Todos os dias espreito pela janela para saber se posso ir mijar nu ou se tenho de vestir qualquer coisa. Entre o calor de Verão e o frio do Inverno têm passado vinte e quatro horas. Começo a pensar que o verdadeiro problema não é o Covid-19 mas estas misturas temporais que nos empurram para a praia e acabamos a fazer ski na neve, duna abaixo em direcção a um mar gelado vindo directamente da escrita de um argumentista de série B.
Ontem estava calor. O céu azul belenenses. Levantei-me nu da cama e foi assim que fui mijar à casa-de-banho depois de ter espreitado pela janela do quarto para a rua.
Enquanto esperava pelo café, fui tomar um banho de mangueira ao quintal. Os gatos fugiram. O cão andou a ladrar à minha volta mas acho que era para a água que saía da mangueira.
Dei duas voltas a correr à volta da casa para secar. A pila dançava para cima e para baixo. Ainda a consigo ver. Não engordei assim tanto. Fiquei com os pés sujos. Voltei a lavar os pés e calcei umas havaianas de imitação velhas que andam sempre perdidas pelo quintal, às vezes os gatos mijam-lhes em cima, às vezes o cão deita-se a roê-las, ficam ao vento e à chuva, mas dão sempre jeito. Como ontem.
Depois de beber o café e de fumar um cigarro no alpendre, a melhor parte da casa, vesti uns calções e uma t-shirt e fui dar uma volta pela aldeia. Estava deserta. Demasiado calor para os velhos andarem na rua. Demasiado cedo para os mais novos saírem da cama. Optaram todos pelo confinamento. Pelo menos ontem. Ontem de manhã. Tudo em casa. Tudo? Tudo não, que uma moça da aldeia, filha dos donos do Minimercado, estava num terreno que têm para os lados do ribeiro a cavar terra para plantar batata-doce. É o tempo dela. Da batata-doce. Estava de camisa aberta, transpirada, a saia rodada presa à cintura cruzada por baixo das pernas tornada calções. Vi a transpiração a escorrer pelo decote aberto no peito. Ela viu-me. Parou de cavar. Aproveitou para descansar daquele calor e apoiou-se no cabo do sacho, a olhar para mim. E depois levantou o braço numa saudação. Eu também a saudei. Levantei o braço e gritei-lhe Bom-dia! que não deve ter ouvido porque me engasguei e a voz saiu fininha. E pensei Se não fosse o distanciamento social…
Hoje já está frio. O céu cinzento, daquele cinzento urbano-depressivo que me fazia as delícias quando tinha dezasseis anos. Mas já não tenho mais dezasseis anos. Chove. Chove uma pequena e irritante chuva tocada a vento. Visto umas calças de fato-de-treino e uma sweat antes de ir mijar. Mijo. Faço café. Fumo um cigarro na cozinha enquanto leio as últimas notícias sobre os milhares de mortos que continuam a acontecer por todo o lado e aos quais já parecemos imunes.
Com o tempo que está e as notícias matinais que leio chega-me a melancolia de Domingo, mesmo que seja ainda só Sábado.
Largo a chávena vazia na mesa da cozinha e volto para o quarto. Volto para a cama. Tapo-me com o edredão e desejo voltar a adormecer e só voltar a acordar quando o tempo regressar em bom. Quando o tempo regressar em formato de Verão, com sol forte e quente e umas nuvens à Simpsons. Desejo adormecer e sonhar com a gota de transpiração a percorrer o peito branco da filha dos donos do Minimercado.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/04]

Ida à Praia

Hoje peguei no carro e saí de casa. Nem tomei banho nem me vesti. Fui com as calças de fato-de-treino que enfiei pelas pernas quando me levantei e uma sweat de algodão. Nem fiz café nem torradas nem comi nada. Nem fumei sequer o primeiro cigarro do dia. Calcei logo as sapatilhas e saí da casa.
Estava a dar em doido assim fechado. A espreitar pela janela. A ver o vazio nas ruas. As caras à janela. As caras mirradas como a minha nas janelas. A fumar cigarros. Uns atrás dos outros. Enquanto uns enfiaram sacos familiares de papel-higiénico nos carrinhos de supermercado, eu aviei-me de volumes de cigarros e vários pacotes de tabaco de enrolar, filtros e mortalhas. Falta-me a paciência. Não me falta tabaco.
Saí de casa e entrei no carro. Saí pela cidade. Pela cidade vazia. Quase vazia, afinal. Fui-me cruzando com algumas pessoas a caminhar pela cidade. Uns com cães. Outros sem cães mas solitários. Uns caminhavam decididos. Outros apalpavam terreno. Vi um velho de mãos atrás das costas à beira de uma passadeira a ver quem poderia passar. Passei eu. Levantou-me a mão num cumprimento cúmplice. Respondi também com o levantar da mão. Acho que o velho estava a dizer-me que éramos os corajosos, nós os que estávamos na rua. E eu só queria que ele percebesse que eu não era nenhum herói mas que precisava de ver o mar. Precisava mesmo de ver o mar. Não precisava de ir à praia, de mergulhar, de nadar, nada dessas coisas tão veraneantes como o tempo que parece estar, mas ver, só ver. Era só o que eu precisava. Uma espécie de Xanax da alma. Ver o mar.
Cruzei a cidade. Havia mais gente na rua que imaginava. Talvez bem menos que aquilo que tenho visto noutros lugares através da televisão e das redes sociais. Somos um povo de rua. Gostamos de estar na rua. É por isso que não entendo as poucas esplanadas na cidade, no país. Um país de bom tempo e poucas esplanadas. E as poucas esplanadas que existem estão cobertas. Nem todas, claro.
Cruzei a cidade, passei os subúrbios e deixei-me ir estrada fora até à praia.
Passei pelo pinhal ainda morto, com alguns focos de vida teimosa a brotar entre os cadáveres das árvores carbonizadas. Muito verde e violeta e amarelo a pintalgar o chão de onde ainda se erguiam árvores mortas, ainda não cortadas depois de todo este tempo em que o Pinhal do Rei ficou reduzido a pouco mais de vinte por cento da sua área original, anterior ao grande incêndio. Vê-se, aqui e ali, algumas tentativas de replantação. Mas está tudo ainda muito no início. Há ainda enormes pilhas de troncos de madeira que era suposto terem sido vendidas. Para as celuloses. Para lenha. Mas estão aqui. A apodrecer. Esquecidos.
Chego ao Vale Furado. O pequeno parque em terra batida frente ao Mad, fechado, está vazio. Não há ninguém. O dia está claro. Faz sol. Está calor. Saio do carro e aproximo-me da arriba. Sento-me em cima do varandim de madeira a olhar o mar lá em baixo. Não há ninguém na praia. Só o mar a rebentar as suas ondas e a espraiá-las pelo areal. Consigo ver a costa até à Praia do Norte e o Forte da Nazaré. Não dá para ver se há surfistas ou não na água. Estou demasiado longe para o perceber. Também vejo as Berlengas. Daqui de cima parece tudo muito calmo e tranquilo. Eu respiro. Respiro fundo e com calma.
Acendo um cigarro e deixo-me ali estar por um bom bocado, a apanhar os raios de sol, a maresia que espero que chegue cá acima, e a ver a melodia das ondas, acima abaixo, que me relaxam.
Depois, algum tempo depois, alguns cigarros depois, percebo que retemperei baterias. Fazia-me falta esta comunhão com o mar.
Vi chegar um outro carro com um casal. Voltei para dentro do meu carro e regressei a casa. Enquanto conduzia de regresso percebi que estava com vontade de reler o Knausgard. Tempos de excepção precisam de literatura de excepção. Era tempo de voltar à Morte do Pai.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/29]

Para um Diário da Quarentena (Quinto Andamento)

Hoje dei corpo à expressão da directora geral de saúde. Saltei o muro do vizinho e fui lá buscar dois frangos. Hoje ou ontem. Era de noite. Talvez já depois da meia-noite. Ou talvez não. Os dias e as noites, as horas, o tempo está um labirinto onde me sinto perdido. Tenho a noção do agora que é onde estou. Depressa me perco em relação ao tempo passado. Mas acho que foi hoje que já devia ter passado da meia-noite e que devo lá ter ido de madrugada para ninguém me ver.
Hoje, portanto, dei corpo à expressão da directora geral de saúde e saltei o muro da casa do vizinho, que está em França, e fui lá buscar dois frangos ao galinheiro. O vizinho tem lá em casa alguma criação que um velho da aldeia cuida. Galinhas, coelhos, perus. Até lá tem umas cabras que o velho põe a aparar a relva da casa e eu próprio já pensei em pedi-las emprestadas para me virem comer as ervas que crescem desgraçadamente ao deus-dará e para as quais não tenho paciência de andar a cortar quase de dois em dois meses.
Foi um escarcéu dos diabos quando entrei no galinheiro. Mas a casa fica longe da aldeia e o galinheiro fica no lado sul da casa e que serve de bloqueio à propagação do som. Acho que ninguém ouviu o barulho das galinhas a cacarejar e o irritante cocó que não me largava as pernas e, por duas vezes, bateu asas e de um pulo tentou bicar-me o nariz até que lhe dei um pontapé que o fiz dançar e vi-o a fugir para dentro de uma capoeira, talvez para as asas confortáveis de alguma galinha poedeira.
Torci os pescoços aos dois frangos e trouxe-os pendurados nas mãos até casa. Levei-os para a cozinha para o cão e os gatos não se armarem em parvos. Cortei-lhes os pescoços e deixei-os pendurados a derramarem todo o sangue para um alguidar. Pus uma panela grande, a maior panela que tenho em casa e que nunca uso senão para isto, cheia em dois terços de água e deixei-a ao lume em cima do fogão. Enquanto esperava fui para o alpendre fumar um cigarro. Era de noite. Madrugada, já. Via ao longe as luzinhas da aldeia. Não conseguia ver as montanhas lá ao fundo. Não ouvia nenhum barulho. Nem a coruja que costuma pôr-se para aí a assobiar e que às vezes me acorda e me obriga a levantar pois já não consigo voltar a adormecer depois de ter acordado. Ia deitar o sangue fora, claro. Depois de apanhar todo o sangue dos dois frangos, ia deitá-lo fora. Se soubesse fazer arroz de cabidela, guardava-o, mas não sei. Era um segredo da minha mãe que ela própria já esqueceu. No outro dia ainda foi comprar dobrada e fez-me uma dobradinha como eu me lembrava que ela fazia. Falei-lhe da cabidela e ela desculpou-se com as galinhas de agora que já não são boas para a cabidela e eu percebi.
Acabei o cigarro e voltei a entrar na cozinha. A tampa da panela saltitava em cima da água a ferver. Retirei a tampa. Enfiei lá um frango inteiro. Contei mentalmente dois minutos, três minutos e retirei-o e larguei-o no lava-loiças. Fiz o mesmo com o outro. Voltei a contar dois, três minutos. O cheio das penas cozidas dos frangos agoniava-me, mas aguentei. E no fim, atirei o segundo frango para cima do outro, dentro do lava-loiças.
Parei por momentos a tentar pensar no passo seguinte. E agora? perguntei em voz alta. Fechei os olhos e tentei ver a minha mãe a tratar das galinhas que tinha num pequeno galinheiro atrás da garagem onde o meu pai guardava o carro todas as noites para não apanhar o cacimbo nocturno e percebi que era altura de fazer a depenagem.
Arranjei um outro alguidar e levei um frango lá para fora. Sentei-me no alpendre. Uma pequena luz iluminava-me o trabalho. Comecei a depenar o primeiro frango. As penas saíam com facilidade mas, ao mesmo tempo, era preciso usar de uma certa força. Aquela porra estava bem agarrada. O cão e os gatos aproximaram-se de mim. Deitaram-se todos a olhar para o que eu estava a fazer. A olhar para o frango a ser depenado. Um dos gatos saltou para dentro do alguidar cheio de penas molhadas e tive de o enxotar. Depois fui buscar o segundo frango e repeti as acções. No final tinha os frangos depenados e um alguidar cheio de penas. Primeiro acendi um dos bicos do fogão, peguei num dos frangos pelas patas e pelo pescoço e passei-o sobre as chamas para queimar a pequena penugem. Repeti com o outro. Depois despejei as penas dos frangos num saco de lixo e fui levar o lixo ao caixote que está na estrada lá em baixo. Acendi um cigarro e fui a fumar. Larguei o saco no lixo. Parei na estrada. Tentei ouvir barulho, mas não ouvia nada. Parecia que não havia ninguém. O mundo estava silencioso. O céu era uma cúpula cheia de pequenas luzinhas a tremelicar. Do outro lado da estrada, na casa de um outro vizinho, vizinho ausente que tinha ido para a cidade, para a casa do filho para o ajudar, ele e a mulher, mesmo depois de todos os avisos para as pessoas mais velhas evitarem todos estes contactos com os mais jovens e possíveis fontes de contágio muito mais graves para eles, quer dizer, nós, estava uma laranjeira carregada de laranjas. Saltei o muro, que nem era muito alto, tirei a camisola e utilizei-a como saco e trouxe vários quilos de laranjas para casa.
Gostei dessa ideia da horta do vizinho da directora da saúde, mesmo que não seja para ir buscar brócolos.
Regressei a casa. Quando voltei a entrar na cozinha senti o cheiro enjoativo dos frangos passados por uma pequena cozedura, misturado com o queimado da penugem. Abri uma das janelas da cozinha e deixei-a aberta. Tinha rede mosquiteira e os gatos não iriam lá entrar.
E fui-me deitar.
Há pouco, hoje ainda porque o dia ainda é o mesmo que ontem à noite que já era hoje, mas depois de ter acordado, depois de ter feito café fresco e espremido umas laranjas para um saboroso sumo e de ter torrado duas fatias de pão saloio que comi barradas com manteiga, cortei um dos frangos em pedaços pequenos, comecei com uma faca mas depois tive de ir buscar um cutelo, para fazer um guisado.
Já tenho o primeiro frango cortadinho aos bocados. O outro está no frigorífico à espera de uma ideia. Depois irei cortar uma cebola, uns alhos e umas cenouras, juntarei um tomate e um pouco de concentrado, sal, pimenta, um pouco de vinho branco, juntarei o frango em pedaços e, mais tarde, quando o frango estiver quase no ponto, hei-de juntar um bocado de esparguete.
Entretanto estarei aqui pelo alpendre a fumar mais um cigarro. A ouvir o silêncio que me cerca e a ganhar coragem para ir ver quantos são já os mortos de hoje. Mas daqui, desta distância onde estou, tudo me parece irreal. Tenho de ir a mais hortas dos meus vizinhos. Ajuda-me a passar o tempo e a sentir-me vivo, apesar da reclusão. Não tarda é Agosto e eu quero ir à praia. Ou queria. O tempo não está para estes desejos tão mundanos.
Como é que se mata uma cabra?

[escrito directamente no facebook em 2020/03/22]

Para um Diário da Quarentena (Quarto Andamento)

Estou há uma semana em casa. Mas não estou completamente fechado. Tenho dado uns passeios. Vou ao pão. Às vezes vou ao minimercado onde não há filas de espera e onde, às vezes, sou o único cliente. Para além de mim, costuma estar uma empregada, a mesma que corta o fiambre em fatias fininhas e depois recebe na caixa o dinheiro da despesa.
Mesmo quando estou por casa estou pela rua. Pelo alpendre. Pelo quintal. Desço ao fundo da alameda. Vou até à estrada, ando uma centena de metros para um lado, depois para o outro, e não passa nenhum carro. Pareço ser o último homem na terra.
Ontem saí. Saí de casa, da terra, e fui à cidade. Fui levar mantimentos à minha mãe.
A minha mãe já tem oitenta e nove anos e vive sozinha no meio da cidade. Ela gosta de sair, de laurear-a-pevide, ir ao café, ao supermercado, de ir almoçar uma sopa de peixe à Quarta-feira, ao café da Avenida. Agora passeia-se maldisposta por casa. Vai até à varanda!, digo-lhe eu ao telefone. E ela vai. Passa todo o tempo possível na varanda, pelo menos até o tempo começar a arrefecer, mas depois diz Não é a mesma coisa. E agora já não passa quase ninguém na rua, e eu digo-lhe Tens de aguentar! e lá começa ela a desfiar todas as histórias das minhas adolescentes fugas de casa que, julgava eu, ela não sabia. Mas sabia. E agora penso se não me está a preparar para alguma asneira. E digo-lhe Porta-te bem. Ficas em casa e quando isto passar, vamos comer uma sardinhada à praia, na esperança que uma sardinhada na praia ainda tenha o mesmo efeito cativante de antigamente.
Comprei várias coisas para ela aqui pelo minimercado, pelo pequeno talho e pela senhora que ainda vem à aldeia, numa carrinha, vender peixe fresco. Assim evito as filas dos hipermercados e o contacto com outras pessoas.
O mundo, com as pessoas assim à distância, até nem me parece muito mau.
Fiz um pequeno cabaz com mantimentos para uma semana, mas talvez lá consiga ir mais cedo. Também não quero ter muito contacto com ela, por estes dias.
Levei um robalo que pedi à senhora que o amanhasse e cortasse em quatro partes (era grande, o rabalo), e que em casa iria colocar em saquinhos individuais, dois bifinhos de vaca, duas iscas e um chouriço caseiro. Levei batatas novas, grelos de couve e algumas cebolas e alhos. Uns iogurtes gregos, que ela gosta bastante, e um pacote de manteiga pequeno que ela queixa-se que nunca encontra, são sempre muito grandes, e ela não come muita manteiga, embora às vezes lhe apeteça um bocadinho, e depois fica muito tempo no pacote aberto e ganha ranço. Também levei uma meia-dúzia da ovos caseiros que uma quase-vizinha me ofereceu.
Passei pela padaria e comprei alguns papo-secos, que até aguentam mais tempo molinhos, e uma broa amarela. Passei também na farmácia para levantar uma receita da sua medicação habitual e foi o único sítio onde estive à espera. Mas lá fui aviado sem muitos problemas.
Entre entradas e saídas tenho lavado as mãos com álcool. Não uso máscara que não tenho nenhuma e nunca encontrei à venda.
Cheguei a casa dela. Olá, mãe! Olá, filho! E ela foi para a sala ver televisão enquanto eu desfiz o cabaz e deixei tudo em cima da mesa da cozinha para ela arrumar e saber o que tem lá em casa. Abri-lhe uma garrafa de vinho tinto para ela beber um copo se quisesse. Enchi a caixa dos comprimidos. Havia alguns que ela não andava a tomar. Tinha de lhe dizer que sabia que não os andava a tomar para ver se ela os tomava. Depois fui ao quarto dela e fiz a cama de lavado. Ia gostar de se deitar nos lençóis impecavelmente esticados e depois levei a roupa da cama para a máquina e deixei-a a trabalhar.
Fui à entrada da sala e disse-lhe Vou-me embora. Porta-te bem. Vai até à varanda. E vê lá se tomas os comprimidos todos. E ela começou a abanar a cabeça e respondeu, refilona Se não tomei os compridos todos foi porque não calhou, ora. Nunca te esqueceste de nada? E farta da varanda estou eu. Quando cá voltares e eu não estiver em casa é porque fui dar uma volta, ao que eu repliquei Vê lá, vê!…
Voltei para casa a pensar que na próxima ida teria de aspirar a casa. Dar uma limpeza à casa-de-banho. E que ela estivesse em casa. Ah, sim, que ela estivesse em casa. E ri-me.
Hoje o dia acordou de chuva. Vim para o alpendre onde ainda estou. Os gatos andam para aí a passear à chuva. Nunca percebi isto. Os gatos têm medo de água, cada vez que ligo a mangueira para regar as plantas e as couves, os tipo fogem, e depois andam à chuva. O cão está a dormir todo enrolado ao pé de mim. Eu fumo um cigarro e estou a ver as manchetes dos jornais online. Parece que já morreram doze pessoas. Em Itália já morreram mais de quatro mil.
Como a minha mãe costuma dizer, aqui estamos num cantinho do céu. Espero que continuemos.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/21]

Interrompido

Tinha agarrado nas quatrocentas páginas de O Amor nos Tempos de Cólera e ido para o alpendre, sentado numa cadeira, um copo de gin na pequena mesa de apoio ao lado e um cigarro aceso nos dedos quando o telefone tocou. Era ela. Atendi.
Olá!, disse. Ela ficou em silêncio depois do meu cumprimento e demorou a dizer Olá!
Ela é que tinha telefonado, mas eu é que fiz a conversa. Percebi que estava nervosa. Talvez arrependida de ter ficado em casa sozinha. Talvez arrependida de não ter aceite o meu convite. E eu disse-lhe Estou no alpendre. De papo para o ar a adormecer esta solidão. Podias estar aqui. Podíamos estar a jogar Monopólio.
Ela deu uma pequena gargalhada. Talvez a primeira desde…
Tossicou um pouco e disse Estou à janela a olhar para a rua. Não passa ninguém.
Aqui também não passa ninguém, respondi-lhe, solidário. Mas era verdade. Desde manhã que não via ninguém a passar na estrada lá ao fundo. Nem a pé nem de carro. Nem as motorizadas de motor estridente que se ouvem normalmente a passar na aldeia se ouviam. Mas ouvia vozes ao longe. Devia haver gente no campo, a tratar das hortas, dos pomares, do gado.
Olhei para o fundo do quintal. Tentei focar o olhar.
Pousei o livro na mesa ao lado do copo de gin e levantei-me da cadeira. O olhar ao fundo. Ao fundo do quintal.
Ela disse Já contei os mosaicos da casa-de-banho. São bastantes. Mas já esqueci quantos eram. Eu respondi Cá em casa não há mosaicos na casa-de-banho, como sabes. Só azulejos. São maiores. Serão menos, de certeza. Falava com ela enquanto descia as escadas do alpendre de olhos postos ao fundo do quintal.
Não sabia do cão e dos gatos. Deviam andar a passear alheios a toda esta situação de emergência. E ela disse Tenho comprimidos suficientes para um mês. Ainda bem!, saiu-me. Mas sim, ainda bem. Ainda bem por ela. Sabia como precisava dos comprimidos. Sabia como ficava sem os comprimidos.
Eu aproximava-me do fundo do quintal.
Ela disse Não tenho conseguido cozinhar. Tenho comido latas de conserva. Havia só dois dias que tínhamos ficado confinados em casa e ela já estava cansada. Esperava que conseguisse aguentar o tempo que fosse preciso. E vinha aí muito tempo. Muito tempo fechados em casa. Mesmo que ela quisesse agora aceitar o meu convite, eu não podia lá ir buscá-la. Ouvia as notícias que contavam das autoridades a patrulhar as áreas com mais densidade populacional para obrigar as pessoas a ficarem em casa. Já havia relatos de prisões. Já tinha lido no Facebook que tinham sido disparados tiros que tinham atingido algumas pessoas que teriam furado a quarentena. Para irem para a praia, dizia-se. Mas não sabia se era verdade ou não. Por aqui não se via polícias, guardas ou militares. É verdade que não tinha visto ninguém a passar aqui ao fundo. Mas ouvia vozes. Barulhos. Devia haver gente nos campos. A tratar das hortas. Dos pomares. Do gado. As pessoas aqui estão isoladas do mundo e aproveitam para furar o bloqueio. Devem andar de casa em casa. Eu estou por aqui. Sozinho.
Abri uma lata de atum com feijão frade. Nunca pensei gostar. Não é mau.
Cheguei ao fundo do quintal. Mandei fora a beata do cigarro. Baixei-me. Era um pássaro morto. Não estava ferido. Não via nenhum golpe. Não havia sangue. Estava morto mas estava intacto.
Está? ouvi lá do outro lado ela a sentir-se ignorada. Desculpa! disse, e continuei Descobri um pássaro morto aqui no quintal.
E depois senti o som seco de uma pancada um pouco mais ao lado, dentro do quintal. Fui até lá. Era outro pássaro que tinha acabado de cair. Igualmente intacto. Olhei à minha volta e não vi ninguém. Olhei para o céu e não vi nada. Olhei para a estrada e descobri mais dois pássaro caídos no asfalto.
Senti-me engolir em seco. Lembrei-me do copo de gin que tinha deixado na mesa lá em cima no alpendre. Tentei salivar para humedecer a garganta, mas não consegui. E disse-lhe para o telefone Tenho de desligar, e desliguei.
Comecei a andar mais depressa para o alpendre enquanto tentava ligar para o cento e doze. Interrompido. Para a polícia. Interrompido. Cheguei ao alpendre e bebi um grande gole de gin. Refresquei a garganta. Tentei ligar para a guarda. Interrompido. Acendi um cigarro. Vi cair mais dois pássaros no quintal. Tentei ligar para a linha de saúde, para o jornal da cidade, para a câmara municipal… Tudo interrompido!

[escrito directamente no facebook em 2020/03/14]

Aguardo

Aguardo. Tenho a vida em suspenso. Posso ir ou não? Devo fazer ou esperar?
São tempos de enormes incógnitas. Não sei como vai ser a minha vida amanhã. Daqui a uma hora. Dentro de cinco minutos.
Tudo pode mudar. Ou tudo pode ficar na mesma. Não, na mesma não vai ficar. Já há demasiadas alterações à ordem das coisas para considerar que a vida retome a sua normal cadência diária. Os dias já não são iguais. Os dias já não são iguais a nada.
O país pode fechar.
O mundo pode encerrar para limpeza.
Eu posso ficar preso dentro do país. Do meu país. Na minha cidade. Em casa. Fechado em casa à espera de melhores dias. Mas aguardo. Aguardo em casa como me aconselham a fazer. Não estou de férias. Estou na corda bamba. Estou funâmbulo. Aguardo.
E se for eu? E se for eu o contagiado? Em segunda ou terceira via mas, e se eu for o contagiado?
Não vou para a praia. Isto não é uma brincadeira. Isto é a alteração do nosso modo de vida. Que pode passar a nosso modo de morte.
Gente que não sabe de nada opina com uma sapiência adquirida em conversas de café. Toda a gente sabe de tudo, mesmo que não saiba de nada. Brinca-se com a morte. O medo é terrível e leva ao disparate.
Vejo nos noticiários a busca desenfreada por papel-higiénico. Papel-higiénico? Por vezes não consigo perceber os caminhos que os homens percorrem.
Se tenho medo. Sim, tenho. Mas estou tranquilo.
O bom-senso manda aguardar. Aguardo.
Aguardo as sugestões, as ordens de quem sabe. Aguardo as ordens de quem estuda o assunto. Dos técnicos preparados para tomarem decisões por mim que não sei de nada, a não ser aquilo que me dizem, aquilo que querem que eu saiba. E eu não quero saber mais. Só quero saber o suficiente.
Recuso o pânico. A arrogância de que sei quando nada sei.
Aguardo. Tenho a vida em suspenso mas aguardo.
Aguardo com calma que me informem do evoluir da situação.
Aguardo que me digam que vou continuar vivo.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/11]

O Tempo Estranho e os Meus Dias

Tempo estranho este que domina os meus dias.
Ontem estive aqui na Nazaré. Estive aqui à frente, na praia. Descalcei-me. Despi-me. Fui em cuecas mergulhar no mar. Sem toalha, deixei-me secar debaixo do sol. Estava quase seco quando decidi ir de novo ao mar. E fui. Mergulhei na água fria mas agradável. Deu para dar umas braçadas. Voltei a sair. Caminhei um pouco junto à beira-mar em cuecas a deixar-me secar pelo sol de fim-de-dia e pelo frágil vento que se levantou. Estava agradável. Tenho memórias de Verões da minha infância de dias fechado em casa por culpa do frio, da chuva e das marés-vivas que traziam o mar até à marginal.
Em fim-de-dia, vestido de novo, sem cuecas, que estavam molhadas, vi o céu púrpura que antecipava a noite. Sentei-me numa esplanada a beber um imperial e a ver o sol desaparecer, a luz do dia dar lugar à noite e os faróis dos carros em procissão constante iluminar a estrada à beira dos meus pés.
Agora estou aqui, quase no mesmo sítio.
Estou sentado num dos bancos da marginal, na mesma linha onde ontem mergulhei no mar. Está a chover. Está frio. O mar está picado. As ondas rebentam com força e espalham espuma branca pelo areal.
Hoje estou molhado pela chuva. Ontem estava molhado pela água do mar.
Estou debaixo da chuva e não consigo ir embora. Tenho o capuz do casaco sobre a cabeça. Olho o mar lá ao fundo e penso que não tardará a chegar cá acima. Já há comerciantes a fecharem as lojas. A colocarem barreiras de protecção nas janelas, nas montras, nas portas.
Nos hotéis aqui atrás de mim há gente nas varandas à espera de ver a subida do mar. É uma excitação. Ouço os gritinhos da impaciência.
Já não há quase ninguém na rua. Há pouco passou por aqui um carro da polícia. Esteve parado atrás de mim, senti-o, mas ninguém me disse nada. Não me virei. Ignorei o carro. Mesmo quando ouvi a sirene tocar. Fiz-me surdo. O carro da polícia acabou por partir. Nada garante que o mar suba realmente aqui acima. Mas é muito provável.
Ainda não é de noite mas já está muito escuro O céu está cinzento. Ontem estava azul e o horizonte púrpura. Hoje não há horizonte. Acima da linha de rebentação das ondas há um desfoque que não permite linha nem horizonte. Há uma mistura entre o céu e a Terra que não consigo perceber onde se dá. E tudo em cinzento. Cinzento escuro, molhado e maldisposto.
Já mal se consegue ver o Forte e a rocha que o defende. Mas ainda se consegue perceber a explosão das ondas que ao bater na rocha, se espalham em toda a volta e para cima.
Será que ainda há gente no Forte?
Será que ainda há gente na Praia do Norte?
E as marquises da praça? Como é que vão ser protegidas? Ou serão já elas uma primeira linha de defesa dos restaurantes, marisqueiras e cafés que existem por trás das paredes de acrílico?
Até a Batel acabou por fechar mais cedo. Há andaimes no prédio da Batel. Será que vão aguentar-se se o mar chegar cá acima?
E eu? Devia ir embora. E vou? Eu queria ir. Mas não consigo levantar-me. Não consigo mexer-me. Sinto-me preso. Não consigo deixar de olhar o mar. Estou à espera dele. Acho que estou à espera dele. Acho que ele vem à minha procura. Vem buscar-me.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/01]