Cristina Ferreira

Hoje acordei e era a Cristina Ferreira.
Não me assustei.
A primeira coisa que fiz foi olhar dentro dos lençóis. Costumo dormir nu. Ela também. Toquei-me. Nas mamas. Nas ancas. Nas coxas. Foda-se! Sou mesmo boa.
Senti-me feliz. Pela primeira vez desde há muito tempo, sentia-me feliz. Empurrei os lençóis para os pés da cama. Levantei-me nua da cama. Olhei para o espelho grande. Gostei de me ver. É estranho ver-me no feminino. Mas ao mesmo tempo, não desgostei. É o que eu sou agora. Uma mulher. Uma mulher gira. Boa. Sexy. E cheia de sucesso.
Primeira preocupação. O que fazer? Telefonei para a SIC. Avisei que estava derreada dos Globos de Ouro, afinal a gala tinha sido eu, e que chamassem o Cláudio Ramos para fazer o Programa da Cristina.
Eu tinha um dia para viver.
Tomei um duche morno e gostei de passar gel pelo corpo. Vesti uma roupa simples. Um vestido leve e esvoaçante que uma antiga namorada por cá tinha deixado. Gostei de me sentir dentro do vestido e do fresco que me subia pela pernas acima. Calcei uns chinelos de salto alto. Eu não me saberia equilibrar naquilo. Já ela!… Observei as pernas. As pernas em cima dos saltos. Sou muito bem desenhada.
Saí de casa e fui ao café aqui da rua. Senti em mim o olhar dos homens. E das mulheres. Pela primeira vez na vida não era uma pessoa ignorada. Agora olhavam cada pedaço do meu corpo. Os passos que dava. O esvoaçar do cabelo solto e caído sobre os ombros. Os meus olhos brilhantes. O gloss nos lábios. O sorriso maroto.
Pedi um croissant folhado e uma bica. Pensei se um croissant faria bem a este corpo, mas depois pensei que, na realidade, não era meu. Comi o croissant folhado. Bebi a bica. A rapariga do café não quis receber. Disse que era por conta da casa e sorriu-me muito. Acho que me piscou o olho, mas pode ter sido só um tique.
Passeei-me pela cidade. As buzinas andavam activas. Ouvi algumas travagens bruscas. Chapa a bater em chapa. Oh, boa!, ouvi eu gritar lá do fundo e aposto que era para mim.
Entrei no quiosque onde nunca entro e comprei todas as revistas sociais que encontrei. Não paguei nenhuma. O rapaz pediu-me para referir o quiosque lá no programa. E eu disse Está bem!
Cruzei-me na rua com o presidente da câmara. Há muito tempo que não o via a pé pela cidade. Mirou-me de alto a baixo. Malandro! Parei numa montra e vi toda a gente do outro lado da rua a olhar para mim.
Entrei numa livraria e comprei uma edição de Os Maias. Ofereceram-ma em troca de uma fotografia com as meninas da loja. Mais tarde vi a fotografia na montra. Devia ter trazido mais livros.
Sentei-me numa esplanada da Praça e dei uma vista de olhos pelas revistas. Nada de especial. Mexericos. Deixei-as em cima da mesa.
Apanhei um táxi e fui até São Pedro de Moel. O taxista não quis receber. E esperou que eu quisesse regressar. Estava nevoeiro. Não fui ao mar. Mas tive pena. Gostava de ter mergulhado em São Pedro de Moel só de fio dental. Contentei-me em molhar os pés. Reparei nas unhas pintadas de vermelho-sangue. Gostei de ver os meus pés a enterrarem-se na areia molhada.
Não comprei pevides nem tremoços que a senhora não estava lá. Regressei. Dei mais uma volta a pé pela cidade. Entrei em boutiques mas não comprei nada. Quiseram oferecer-me coisas. Alguns homens vieram ter comigo. Prometeram-me a Lua. Eu ri-me. Conhecia alguns deles. Homens de família. Com filhos. Com responsabilidades na cidade. Com a língua de fora a salivar. Como cães. Cães com cio. Fartei-me de rir. Parvalhões.
No final do dia fui jantar ao Salvador. Chamaram-me Catarina e trataram-me muito bem. Também quiseram uma fotografia. Acedi. Depois voltei para casa. Sentia-me cansada. Não era fácil ser a Cristina Ferreira.
Quando entrei em casa fiquei apreensiva. Depois de dormir como acordaria? Seria eu? Ou seria ela?
Fui para a cama. Por via das dúvidas, despedi-me da Cristina. Masturbei-me, em jeito de adeus. Gozei a pensar em mim, a pensar nela, a pensar em tudo aquilo que me tinha acontecido.
Agora estou à espera que o sono me leve. Amanhã, logo se vê.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/30]

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Sábados Tristes

Acordava ao Sábados sem vontade de sair da cama.
Mas antes de me levantar tinha de ter o sexo semanal com ela. Mesmo que não me apetecesse. Tinha de ser rápido e intenso, como se fosse dentro do carro no antigamente. Antes da criançada se levantar e transformar a casa num inferno
Mas tinha de ir passear o cão. Levar uns sacos de plástico para apanhar os cagalhões que ia deixando pelo caminho e passeá-los pela cidade até encontrar um caixote do lixo.
Mas tinha de preparar o pequeno-almoço para os miúdos enquanto a mãe fazia a sua aula de yoga. E depois tomar o pequeno-almoço com eles, entre os seus gritos histéricos e pedaços de torrada a voarem pela cozinha.
Mas tinha de ir lavar o carro que a família gostava de se passear no Audi limpo como se tivesse acabado de sair do stand, como novo, mesmo que ainda não estivesse pago.
Mas tinha de ir à Praça comprar peixe fresco, porque ao Sábado era dia de almoçar peixe fresco. E devia ter ido mais cedo, eu sei. Àquela hora já ia aos restos, mas não conseguia levantar-me mais cedo. Estava cansado. Não queria levantar-me. Não queria sair da cama.
Mas tinha de ir fazer as brasas. Para grelhar no carvão o peixe fresco comprado tardiamente na Praça. Sardinhas. Carapaus. Peixe-Espada. Robalos. Douradas. Às vezes também grelhava carne. Umas lentriscas. Uma morcela. Mas pouco, porque ela não gostava muito de morcela.
Até um dia.
Um dia arranjei uma pistola através de um antigo colega de tropa. Uma pistola e umas balas.
E foi durante o momento em que estava a assar os pimentos. Eram verdes e vermelhos. Não gosto muito dos amarelos. Embora a cor fique bem na salada. Estava a assar uns pimentos e antes de assar as sardinhas. Peguei na pistola, rápido e, sem pensar, disparei na cabeça. E tudo se fez negro.
Não morri.
A bala entrou e saiu. Provocou umas lesões graves que me afectaram o corpo e a vida. Mas não morri.
Estou na cama. É Sábado e estou na cama. Já não tenho de me levantar. Mas queria. Queria poder levantar-me e fazer coisas que não consigo como passear o cão e comprar o jornal. Talvez assar umas sardinhas.
Estou na cama e tenho o cão deitado sobre os meus pés. Mas não o sinto. Não sinto nada. Nem as papas que ela se esforça por me enfiar na boca à espera que escorram pela goela.
Sei que ela começa a ficar farta de mim. Tenho pena das coisas terem terminado assim. Para ela e para mim.
Hoje é Sábado e estou na cama. Mas queria não estar.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/14]

Entre Velharias

Estou no meio da Praça. E como vim aqui parar?
Estou no meio da Praça e à minha volta uma quantidade de velharias. São bancas e banquinhas, cavaletes com portas a servir de mesas, ripas, placas, umas mais curtas umas mais compridas. Umas leves. Outras fortes. Depende do que estão a suportar. Há de tudo, para minha desgraça.
Não gosto de velharias. De antiguidades. De bibelots. De objectos artísticos feitos de madeira exótica. Não gosto de acumuladores de lixo e pó. Não gosto de casas encavalitadas em objectos parados e inúteis a ocupar espaço e a requerer, a cada duas horas, uma limpeza que não posso, não quero, dar.
Mas não sei como vim aqui parar. Nem para quê. Nem por quê.
Olho em volto e sinto tonturas. Perco-me entre chávenas de porcelana com asa partida, colecções inteiras do Top Star, Pop Star, Euro Star e PolyGram de discos em vynil, bicicletas, trotinetas, triciclos, uma mota a pedais ou uma bicicleta a motor, enxadas, sachos, encinhos, pás, podões, machados, uma foice, serras e uma serra-elétrica e vejo-me a agarrar na serra-eléctrica, puxo-lhe a corda, ponho-a a trabalhar, ouço o rrrrrrrrrrrrrrr do motor e vejo a serra a circular à volta e eu a cortar em metades, metades-verticais e metades-horizontais, gente que não conheço, a largar pedaços de carne ensanguentada por cima dos bibelots, e vejo-os a partir uma colecção completa de copos da Ivima, daqueles com piquinhos de todas as cores do arco-íris como uma bandeira do Orgulho Gay, e uma chuva ácida, vermelha, vermelha de sangue a tombar sobre a cabeça dos meninos e meninas excitados com todas aquelas velharias que entram em casa e ficam esquecidos a um canto até que uma prima faz anos e é preciso uma prenda de última hora.
Não! Afinal estou ainda parado no meio da Praça. Volto a olhar à volta. Uma colecção de louça inglesa, uma caixa com singles em vynil de 45rpm, máquinas fotográficas cheias de pó, máquinas de Super-8, tripés, máquinas de projectar, máquinas de escrever, uma delas sem a letra A, solitários, vasos, penicos, moedas, uma quantidade absurda de moedas, penso em roubar aquilo tudo e penso que provavelmente não valem um chavo, camisolas da Nazaré, casacos da Serra-da-Estrela, samarras alentejanas, uma colcha de retalhos e uma outra em renda não-sei-de-quê, talvez de bilros, talvez de Peniche, uma pasteleira, um cão velho que não sei se está para venda se é companhia do dono também ele velho e a dormir com a cabeça pendente sobre o peito e um fio de cuspo a cair do canto da boca pelo queixo abaixo.
Porque é que estou aqui?
E ouço Anda! Anda, vá lá!
Alguém agarra na minha mão e puxa-me. Alguém diz anda.
Eu abro os olhos. Estou sentado num sofá. Estou sentado num sofá numa loja do IKEA. Alguém agarra na minha mão e chama-me. Quem é? Quem me agarra na mão?
Levanto-me do sofá. Corro atrás de quem me puxa. Uma mão-na-mão, entre os corredores labirínticos da loja, entre famílias que se passeiam de mãos atrás das costas a olhar, que a carteira é sempre curta, até chegar ao pé de uma estante, cheia de prateleiras, parar e dizer É esta! É esta! É bonita, não é?
E eu ainda pergunto E quem é que vai montar isto?, mas já sei a resposta e quero voltar para a feira das velharias e agarrar na serra-eléctrica.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/19]

De Regresso a Lisboa

Há muito que não descia a Lisboa. Desci. Sinto-me perdido. Onde está a cidade?
Descubro-me num parque de diversões em jeito do Mundo Disney. Papás e mamãs de calções e sapatilhas leves, super-leves, de rede respiratória para aguentar sem chulé todos os quilómetros acima e abaixo à procura da nova sensação-oferta criada por mais um destes empreendedores que transformam a cidade, carregam as mochilas com garrafas de água e sanduíches feitas nas kitchenettes porque a cidade está cara mesmo para quem a visita vindo de países mais ricos que este, enquanto empurram carrinhos-de-bebé e se passeiam de mãos dadas com crianças pequenas. Lisboa é uma cidade familiar. Uma feira. Uma diversão.
Pareço-me velho e rezingão. A culpa é minha por não acompanhar os tempos? Ou tenho de aceitar tudo o que é novo?
Não tenho direito a gostar do que gostava? Ou do que gosto? Não tenho direito a ter opinião negativa sobre o sucesso turístico de uma cidade que também era, foi, minha?
Ora porra!
Passo no Martim Moniz. Não reconheço a Praça. Ainda lá estão os indestrutíveis centros comerciais multi-étnicos. Mas não é isso que chama a minha atenção. O que me chama a atenção é a fila, filas?, tenho dificuldade em distinguir, enorme de gente para apanhar o 28, o Eléctrico dos carteiristas. De repente Lisboa parece Madrid, o Martim Moniz parece o Paseo do Prado e o 28 o Museu do dito com a exposição do Bosch. Cada um dá a cultura que consegue.
Lisboa está uma feira.
Há uma Padaria Portuguesa a cada esquina. Refugio-me na Mouraria. Como um velho e saboroso kebab. Nada como reencontrar velhos amigos. Sei que vou arrotar azia. Mas sei já com o que conto. Sei como a tratar. Passo na farmácia e compro uma embalagem de Kompensan. Não vá o Diabo tecê-las. Estou prevenido.
Ponho-me a subir a rua. Vou atrás dos cheiros. As especiarias. Cruzo-me com gente a carregar malas e malinhas com rodinhas. O barulho característico prolonga-se ao longo da Mouraria. Vêm de Alojamentos Locais. Vão para Alojamentos Locais. Vêem-se placas se acrílico um pouco por todo o lado. É epidémico. Entre indianos e vizinhos asiáticos, e turistas de mala com rodinhas, câmara fotográfica pendurada ao peito, camisas havaianas, calções, sapatilhas, mas também chinelos, pergunto Onde estão os portugueses?
Viro à direita. Perco-me por ruas pequenas. Vazias. Alguns restaurantes étnicos às moscas. Não há turistas por aqui. O circuito turístico tem os seus próprios mapas. Há silêncio. Ouço os meus passos. A minha respiração. Subo. Depois desço. Aqui ainda resiste uma pequena Lisboa-cidade-do-mundo. Regresso ao Martim Moniz pelo outro lado.
Vejo um monte de gente. Estrangeiros. Trabalhadores das redondezas. Gritam. Aproximo-me. Sou curioso. Vejo um homem sentado no chão. Três polícias municipais em volta dele. Respiram com dificuldade. Percebo que estiveram a correr atrás do homem. As pessoas que observam gritam. Gritam para o homem. O homem está algemado. Tem um casaco caído pelas costas abaixo. Está descomposto. Dois polícias agarram nele e levantam-no. O povo grita. Um burburinho que vai crescendo. Os turistas olham, curiosos. Como eu. Sinto-me um turista. O homem diz qualquer coisa a um dos polícias. Ele leva a mão atrás e dispara uma estalada na cara do homem algemado. Rebenta-lhe o sangue do nariz. E dos lábios. O povo exulta. Está na arena. Vejo-lhes as bocas a espumar. Raiva. Ódio.
A polícia leva o homem para a estrada, junto ao carro da polícia municipal. Sentam o homem no chão. Algemado.
Eu viro costas. Penso que Lisboa, afinal, não mudou assim tanto. Não é uma cidade perigosa. Nunca foi. Mas é uma cidade grande. Uma cidade grande como todas as cidades grandes. Um cidade pulsante. Às vezes também precisa de respirar. Respirar fundo. E fazer asneiras. Para aliviar.
Vejo chegar um carro da PSP. Vem à ocorrência. Vem buscar o homem algemado. Vão levá-lo para alguma esquadra. Depois apresentado a um juiz. Depois eu já não olho para trás. Sigo em frente. Tento encontrar um cantinho em Lisboa livre de turistas. Tento encontrar um cantinho em Lisboa que me recorde a Lisboa que conheci. Mas acho que não tenho sorte.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/27]

Num Banco de Jardim que Estava numa Praça

Sentei-me no banco de jardim que não estava num jardim, mas numa praça. Numa pequena praça. Numa pequena praça com meia-dúzia de arbustos e algumas flores, mas sem árvores. Uma pequena praça a caminho da entrada do metropolitano. Eu sentei-me ali, naquele banco, no meio da cidade que por ali passava, apressada, a caminho de qualquer coisa, com a mochila ao meu lado.
Sentei-me naquele banco porque dali podia ver as janelas da casa. Da casa dela. Sabia quando estava na cozinha a fazer um chá, a única coisa que se sentia habilitada a fazer – nem a porra de umas torradas! Da última vez teve de chamar o porteiro para lá ir apagar as chamas. Sabia quando estava na sala, pelas luzes que piscavam, as luzes das imagens da televisão onde seguia sempre, atentamente, os programas noticiosos. Sabia quando estava na casa-de-banho porque se acendia a luz da janela mais pequenina, aquela que ficava entre a janela da sala e a do quarto. E sabia quando é que estava no quarto. Porque todas as luzes da casa estavam desligadas. Era hora de dormir.
Sentei-me no banco de jardim por alguns dias. Eu via-a dentro de casa. Olhava para ela a cirandar de um lado para o outro, via-a a olhar cá para fora, para a rua, para aquele banco e, no entanto, sentia que ela não me via. Isso moía-me o coração. Eu estava lá sentado, no banco, no banco de jardim, na pequena praça a caminho da entrada do metropolitano, com a mochila ao meu lado, a olhar para ela e ela não me via. Eu abria a mochila e tirava um livro. E lia. E quando me cansava de ler, tirava um caderno da mochila, uma caneta, e escrevia. E quando chegava a noite, e eu não tinha luz suficiente para ler e para escrever, tirava da mochila o iPod e ouvia música. E sempre com um cigarro a queimar entre os dedos da mão. Parecia que o maço de cigarros não tinha fundo. Havia sempre um cigarro para me acompanhar. E assim passei alguns dias, e algumas noites, naquela pequena praça à entrada do metropolitano, sentado num banco de jardim. Tive sorte. Não choveu. Não fez muito frio. Só tinha de vestir um casaco de lã, velho, que tinha comigo. E a noite passava suave por mim. E eu permanecia sentado no banco de jardim. Fumava um cigarro. Olhava-a. E esperava que ela me olhasse e me visse.
Foi na terceira noite. Na terceira noite que estava sentado no banco de jardim que não estava num jardim, mas sim numa praça. Estava a fumar um cigarro e a perguntar-me Porque raio não tenho fome? Parecia-me estranho estar ali há tantos dias sem comer. Sem ir à casa-de-banho. Nem sequer um xixi nos arbustos à entrada do metropolitano. Quando a vi chegar. Ela chegou num carro que eu não conhecia. Conduzido por alguém que eu também não conhecia. E senti o coração a bater. A bater muito rápido. E vi-a debruçar-se para o lado. Para o lado do tipo que eu não conhecia. E trocarem um beijo. Um beijo que foi mais um toque de lábios, mas um beijo.
Levantei-me do banco de jardim, a tremer, e dirigi-me ao carro que não conhecia. Vi-a dizer qualquer coisa ao homem. Vi o homem dizer-lhe qualquer coisa a ela. Vi-a sorrir. Voltar a emprestar os seus lábios aos lábios do homem. E eu aproximava-me do carro. E ela abriu a porta do carro. E eu cheguei lá. Cheguei ao pé do carro que não conhecia. E ela saiu do carro. E eu estiquei a minha mão para agarrar a mão dela. Mas a mão dela fintou-me e não se deixou agarrar. E ela saiu do carro. Fechou a porta. Eu pus-me à frente dela para lhe bloquear a passagem e senti-a passar por mim. Por dentro de mim. Como se não me visse. Como se eu fosse invisível. Inexistente. Como se eu não estivesse ali.
Fiquei parado. Parado entre ela e o carro que eu não conhecia de lado algum. Fiquei ali a vê-la caminhar até à entrada de casa. Vi-a tocar a campainha. O porteiro a abrir a porta. E ela virar-se. Virar-se para mim. Ela virar-se finalmente para mim, e acenar com a mão, enquanto me mandava um beijo pelo ar. E eu vi o beijo a voar, a voar desde os lábios dela, e dirigirem-se a mim. Eu sorri. Finalmente ela tinha-me visto. E o beijo passou por mim e não parou. Continuou. Continuou a voar até entrar dentro do carro e pousar, suave, doce, sobre os lábios do homem que eu não conhecia. E vi a cara de parvo que o homem fez quando sentiu o beijo dela nos seus lábios. E reconheci aquele sorriso parvo.
Ela entrou em casa. O carro arrancou pela cidade. Eu fui buscar a minha mochila ao banco de jardim que não estava num jardim, mas numa praça. E desci as escadas para o metropolitano.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/26]

O Regresso à Cidade

Era hoje. Era hoje o dia. Estava nervoso. Já vinha nervoso desde ontem à noite. Fui várias vezes à casa-de-banho. À noite. Durante a madrugada. Mal dormi. Passei metade do tempo a levantar-me. A ir à casa-de-banho. Passava pela cozinha. Bebia um copo de água. Regressava à cama. Virava. Revirava. Completamente desperto. Acendia a luz do candeeiro. Ligava o iPad. Lia as gordas dos jornais online, mas era tudo igual. Não havia notícias novas. Ou os jornalistas estavam a dormir.
De manhã levantei-me. Não despertei porque não cheguei a adormecer. Levantei-me e arrastei-me para debaixo do duche onde fiquei a vegetar por longos minutos. A absorver a água quente que me caía em cima e deslizava por mim abaixo. Acabei por acordar em sobressalto com a água fria. Acabou o gás. A botija tinha ficado sem gás. Eu tinha adormecido. Finalmente. Tinha adormecido debaixo do duche quente. Despertei com a água fria. Saí do duche. Sequei-me. Olhei-me ao espelho. Vi as enormes olheiras. Pesei-me. Pensei Tenho de emagrecer. Olhei para a rua através da janela da casa-de-banho e disse Estou nervoso.
Vesti-me no quarto. Uma roupa sóbria. Menos eu. Mais outro eu. Pedi uma certa elegância. Tentei-a. Talvez a tenha conseguido. Olhei-me ao espelho. Não desgostei do que vi. Não sei se é bom sinal. Mas enfim. Não me sentia mal. Estava nervoso. Mas ao mesmo tempo, decidido. E até, de certo modo, confortável.
Vestido e calçado fui sentar-me no sofá. Sentei-me direito, para não engelhar a roupa. Para não fazer dobras.
Fumei um cigarro.
Abri a janela para arejar a sala. Para o fumo sair. Para eu não ficar impregnado naquele cheiro enjoativo do tabaco frio.
Não almocei. Estava demasiado nervoso para almoçar.
Também não lanchei. Não conseguia ingerir nada. Tinha o estômago às voltas. Nervos.
Continuei a fumar. O fumo do tabaco a invadir-me os pulmões, acalmava-me.
Foi ao final da tarde que me levantei do sofá. Já me doía o rabo. Tinha as pernas presas. Saí de casa e dei umas voltas a pé pela estrada. Fui até ao largo da igreja e regressei a casa. Em passo rápido. Para desentorpecer as pernas. Depois entrei no carro. E arranquei.
Finalmente estou na Praça. Na Praça da minha cidade. Na cidade onde não ia há muito tempo. Tanto tempo que já nem sei há quanto.
Vejo gente conhecida. Vejo que, alguns, falam de mim. Falam baixo. Mas eu ouço. Percebo. Eles cochicham. Eu apanho.
Estou nervoso. Olho para mim. Fecho os olhos e olho para mim. E digo-me Estás bem. Estás muito bem, assim. E na verdade estou. Estou nervoso, mas sinto-me bem.
Estou na esplanada da Praça. Bebo uma imperial. Trinco uns tremoços. Está tudo igual. Está tudo na mesma. Reconheço as pessoas. E elas reconhecem-me. Algumas fazem-me um gesto de reconhecimento. De cumprimento. Retribuo. Com um ligeiro aceno de cabeça. Com um movimento insonoro dos lábios.
Aguardo por quem me convocou. Aguardo na esplanada da Praça. Estou nervoso pelo regresso a uma cidade que já foi a minha cidade. Estou nervoso, mas estou tranquilo.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/20]

A Puta da Gravidade

Nem tudo é preto no branco, // Sou bandido e santo // Mas só toco no céu // Se subir a um banco // Eu nem sei bem porque canto, // Eu já nem a mim me espanto // Orelhas de burro ao canto// A ver se aprendo entretanto…

A puta da gravidade, A puta da gravidade, A puta da gravidade, A puta da!…

Vinha pela estrada do pinhal para a Nazaré. No rádio, a TSF. No rádio os Linda Martini a berrar A Puta da Gravidade. No rádio a Playlist de Tó Trips. E que Playlist! Podia ser a minha. Não! Não podia! Havia três ou quatro escolhas dele que eu não conhecia. E que bem me soube conhecer.

Era Sábado de Carnaval e era bom fugir ao Apita o Comboio e ao Meu Amigo Charlie, Charlie Brown e levar uma bela tareia de bom e velho rock’n’roll de guitarras eléctricas cheias de genica e gana a dar-me cabo da cabeça. Que se fodessem os tímpanos e as dores de cabeça!

Não cheguei a descer à Nazaré. Fiquei-me pelo Sítio. É mais tranquilo. Havia lugar para o carro. E dava para ver o corso lá em baixo. Na marginal.

Engano. Dei logo de caras com o Love Bus. Um autocarro cor-de-rosa cheio de mascarados com duas caras. Foliões de copo na mão. Dançavam uns com os outros. Roçavam-se uns nos outros. Cantavam músicas cujas letras ficavam embargadas nos altifalantes fanhosos e na voz enrolada de gente já muito bebida.

Não vou embora daqui sem ela, nã vou, nã vou, nã vou…

Depois desta gente arrancar atrás do Love Bus, chegaram outros com uma cabeça de tubarão plantado no cocuruto e a cara pintada de branco, como mimos, mas estes não conseguiam estar calados. Estes tentavam vender porta-chaves para pagarem a bebedeira. Deixem-me em paz! dizia eu.

Sentei-me numa esplanada com lugares vagos. Percebi logo o porquê. Das colunas rasgava um som alto de música popular, folclórica e alguma brasileira, com gente a bailar feito louca.

Cada balão uma criança, lá lá lá lá lá…

Os turistas fotografavam. Os locais bebiam. Os locais dançavam. Os locais cantavam. Os turistas riam. Os turistas fotografavam mais ainda. Very typical!…

Alguém disse Olha o corso lá em baixo! E sim, afinal havia corso. Ou uma imitação dele. Uma miúda encostou-se ao muro para uma selfie com o corso na marginal de fundo. Levantou uma perna. Sorriu. Abanou a cabeça. Os cabelos voaram. Ela tirou a selfie. A perna levantada. Desequilibrou-se. Caiu para trás. Ainda lançou a mão para a frente. Para o muro. O telemóvel caiu no chão. Estilhaçou-se. As duas pernas levantaram-se acima do corpo. O sorriso fugiu. Eu levantei-me da cadeira. Ela gritou. E ficou em suspenso por alguns momentos. Em suspenso no ar. No vazio daquele precipício. Entre o Sítio e a Nazaré.

E depois… E depois, a puta da gravidade. E ela foi puxada para baixo. Caiu no vazio. Ainda vi a primeira vez que bateu com a cabeça numa rocha. Depois sentei-me e deixei de a ver cair. Ouvi os gritos das pessoas que acompanhavam ainda a queda. As mãos nas bocas. O desespero nas caras. O horror.

Ao fundo, o Love Bus descia para a Nazaré em alegre cantoria. Os foliões dançavam. Cantavam. Apitavam ao comboio, em apitos de plástico de todas as cores do arco-íris. Eu já não consegui levantar-me da cadeira. O café que tinha pedido estava a ficar frio. Acendi um cigarro. Fumei-o quase todo de seguida. Esqueci-me do café.

Na esplanada a música continuava a sair pelos altifalantes. As pessoas já não cantavam. Nem dançavam. Ali à volta, à volta daquele sítio, ali no Sítio, o Carnaval estava ferido. Havia música mas já não havia vontade de festejar.

Do outro lado Praça havia mais um grupo a preparar-se para descer. Mas estavam longe. Não se tinham apercebido.

Olhei para a praia, lá em baixo. Vi a Doca. Vi a Praia do Salgado. Se fosse Verão haveria lá alguns nudistas. Elas com as mamas ao léu. Eles com as vergonhas a dar-a-dar.

No horizonte do mar viam-se as Berlengas. E os Farilhões. Raios de luz rompiam o céu como uma bênção divina. Faziam círculos iluminados no mar. Às vezes Deus parece adormecido. Depois acorda. Mas geralmente acorda tarde.

Ao fundo da marginal via-se umas luzes a brilhar. Não sabia se era da polícia, dos bombeiros ou do corso de Carnaval. Mas lá em baixo ninguém se tinha apercebido do que tinha acontecido.

A puta da gravidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/02]