James Dean em Times Square

Hoje cruzei-me com uma fotografia icónica de Dennis Stock. Uma fotografia que já conhecia mas que há muito tempo não tinha a oportunidade de a olhar. É uma fotografia que serviu de base para muitas outras fotografias, imagens, criação de ambientes e estados de espírito. Talvez o mais bem conseguido tenha sido a recriação de Rick Deckard por Harrison Ford ao caminhar nas ruas sombrias e chuvosas de uma Los Angeles futurista, muito neo-tóquio pós-apocalíptico, sob o olhar competente de Ridley Scott em Blade Runner.
A fotografia, esta fotografia, retrata James Dean a caminhar por Times Square, em Nova Iorque. Está a chover. James Dean está enfiado no seu sobretudo comprido e as mãos enfiadas nos bolsos. Ao canto da boca, um cigarro. Talvez um Chesterfield. O cabelo, levantado e desgrenhado, dá-lhe um ar blasé. O olhar foge-lhe para a esquerda, para a direita da câmara, e não sabemos para onde está a olhar. Talvez uma troca de olhares cúmplices, uma troca de olhares com alguém que sabe porque é que ele está ali a fazer uma sessão de fotografias para a revista Life e logo naquele dia cinzento e chuvoso. Há uma espécie de sorriso que retira, por momentos, a indiferença daquela cara. É por isso que falo em cumplicidade. Cumplicidade com alguém, fora de campo, talvez alguém com um guarda-chuva que espera o final da sessão de fotografias para resguardar, finalmente, aquele que era a estrela do cinema americano do futuro, ao qual acabaria por não chegar. Mas talvez seja só um olhar ao espelho de uma montra e a resposta ao seu reflexo. Será a criatura vaidosa? Talvez, não sei. Mas é um quase-sorriso quase-final. Ele ainda não sabe, mas sabemos nós, que James Dean está a meses de morrer, ao volante do seu Porsche 550 Spyder Little Bastard, depois de bater contra um Ford Tudor e ter voado pela estrada fora e ter ficado dentro do carro, encarcerado, até morrer, diz-se de morte rápida, talvez instantânea, mas morte terrível e desfigurada.
Aqui, nesta fotografia, meses antes da sua morte, James Dean caminha à chuva por Times Square e a sua sombra, a sombra de uma estrela, antecipa-o. À sua volta as pequenas circunferências dos pingos de chuva. O tempo cinzento. As marcas da cultura, da arte, do capitalismo americano dos anos cinquenta. No cinema Astor passava a versão de Richard Fleischer das Vinte Mil Léguas Submarinas em cinemascope, que também acabaria por passar em Portugal no mesmo ano de 1955. Pouco tempo depois, seria aqui, neste mesmo cinema, que estrearia o filme Fúria de Viver de Nicholas Ray, estrelado precisamente por este mesmo James Dean que, até à sua morte, faria, ao todo, três filmes. Atrás, como pano de fundo, Chesterfield, já não só no canto da boca mas em letras garrafais de néon, a Budweiser, as televisões Admiral e outras placas, enorme quantidade de placas, que já não consigo ler, é o desfoque da objectiva e a idade da minha vista, já cansada, mesmo suportada pelo óculos de apoio.
Entusiasmado, larguei a fotografia, o livro onde contemplei a fotografia de Dennis Stock, agarrei na minha câmara, no tripé e saí de casa. Fiz a pé os quase cinco quilómetros que me separam do adro da igreja. Instalei o tripé. Coloquei-lhe a câmara. Espreitei. Fiz o enquadramento do espaço, A igreja, a torre sineira e, ao fundo, o coreto a servir de pano de fundo, o adro estendido à minha frente, resolvi esperar. Alguém haveria de entrar. Ou sair. O padre. Alguma beata. Talvez alguma bela moça da terra, carregada de melancolia no rosto ou uma velha friorenta a puxar as abas do casaquinho de malha sobre o peito, púdica, e eu poderia click fazer o meu instantâneo click e tornar o adro da igreja da aldeia que me acolheu click no meu Time Square possível click onde poderia ter a sorte click de encontrar o meu James Dean click não se desse o caso de eu não ser click nenhum Dennis Stock click.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/11]

Dia Um de Setembro

Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. Os emigrantes regressam a França. À Suíça. Ao Luxemburgo. Os parques de campismo ganham clareiras. As unidades hoteleiras deixam de estar lotadas. Deixa de haver festas nas aldeias. Os Santos já foram todos homenageados. Os camiões TIR, que se transformam em palcos de luz e cor, voltam para as suas garagens à espera da rentrée, que não tardará. Deixo de ouvir os morteiros que me anunciavam as festas aqui à volta. Os pais pegam no dinheiro que esconderam nas férias, por causa das tentações, e avançam para a compra do material escolar dos filhos. A escola está aí ao virar da esquina. Alguns pais andam desesperados com o site Mega. Não funciona. Ou funciona mal. Aos bochechos. Os pais não conseguem os vouchers para adquirirem os livros gratuitos. As secretarias das escolas vão estar a meio-gás e não vão ter as informações necessárias. Haverá gente que irá parecer não ter ido de férias. Ou ainda não ter voltado. As cidades, amanhã, vão ter mais gente, mais carros, mais confusão.
Dia um de Setembro. Acabaram-se as férias. É altura de eu ir até à praia. Ter espaço para estender a toalha sem ter de deitar a cabeça nos pés do vizinho. Mergulhar na água do mar e não no chichi da velha. Poder dormir na areia e não ter de levar com o tijolo musical do jovem adolescente. Com a bola do atleta. Com a estória interminável da tagarela que não se cala, nem com o choro da criancinha que quer um gelado, uma Bola de Berlim, uma Bolacha Americana, ir ao mar ou, tão só, chatear toda a gente só porque sim.
Dia um de Setembro. Saio de casa de manhã. Levo chinelos nos pés. Calções de banho vestidos e outros para vestir mais tarde. Uma toalha. Um boné. Uma garrafa de água que deixei no congelador de véspera. Um Tupperware com uvas. Os óculos escuros que impedem os raios UV de me estragarem os olhos e uma vontade de mergulhar no Atlântico.
Dia um de Setembro. Cruzo-me com poucos carros na estrada. Pareço estar num filme pós-apocalíptico. Rodo sozinho. Fumo um cigarro enquanto faço o pinhal de Leiria que ainda não ardeu, a caminho da Nazaré. Deito a cinza no cinzeiro. Aproximo-me do primeiro carro que vejo desde que saí de casa. Vejo sair um pacote de batatas fritas pela janela do lado direito do carro. Apito. Ele responde com outra apitadela. Depois vejo um braço a sair pelo vidro esquerdo e fazer-me um pirete. Filho-da-puta!, penso.
Acelero. Ultrapasso o carro. Ponho-me ao lado dele. Olho para o homem que vai a conduzir através dos meus óculos escuros. São Ray-Ban. Não faço nenhum gesto. Só olho. O homem evita olhar para mim. Não estava à espera que eu me chegasse à frente. Guino o volante para a direita. O tipo assusta-se. Guina também para a direita e sai da estrada, entrando pelo pinhal de Leiria dentro. Eu continuo em frente, indiferente ao carro, ao tipo e a quem mandou o pacote de batatas-fritas janela fora.
Estou a chegar à Nazaré. No Calhau vejo uma quantidade enorme de cartazes a anunciar Quartos, Rooms, Zimmers, Habitaciones.
É bom sinal. Quer dizer que já toda a gente foi mesmo embora. Só espero que já não hajam Caravelas Portuguesas a impedir-me de ir ao mar.
Quando começo a descer para Nazaré, percebo que, afinal, ainda não acabaram as férias de toda a gente. É Domingo. É a porra de Domingo. Há fila compacta para chegar lá abaixo, à praia da Nazaré. Na rotunda, vejo que também há fila para ir para o Sítio.
Foda-se!
Contorno a rotunda e volto para trás. Volto para casa. Ainda não estou preparado para multidões. Afinal, ao fim-de-semana, Setembro ainda não é Setembro.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/01]