James Dean em Times Square

Hoje cruzei-me com uma fotografia icónica de Dennis Stock. Uma fotografia que já conhecia mas que há muito tempo não tinha a oportunidade de a olhar. É uma fotografia que serviu de base para muitas outras fotografias, imagens, criação de ambientes e estados de espírito. Talvez o mais bem conseguido tenha sido a recriação de Rick Deckard por Harrison Ford ao caminhar nas ruas sombrias e chuvosas de uma Los Angeles futurista, muito neo-tóquio pós-apocalíptico, sob o olhar competente de Ridley Scott em Blade Runner.
A fotografia, esta fotografia, retrata James Dean a caminhar por Times Square, em Nova Iorque. Está a chover. James Dean está enfiado no seu sobretudo comprido e as mãos enfiadas nos bolsos. Ao canto da boca, um cigarro. Talvez um Chesterfield. O cabelo, levantado e desgrenhado, dá-lhe um ar blasé. O olhar foge-lhe para a esquerda, para a direita da câmara, e não sabemos para onde está a olhar. Talvez uma troca de olhares cúmplices, uma troca de olhares com alguém que sabe porque é que ele está ali a fazer uma sessão de fotografias para a revista Life e logo naquele dia cinzento e chuvoso. Há uma espécie de sorriso que retira, por momentos, a indiferença daquela cara. É por isso que falo em cumplicidade. Cumplicidade com alguém, fora de campo, talvez alguém com um guarda-chuva que espera o final da sessão de fotografias para resguardar, finalmente, aquele que era a estrela do cinema americano do futuro, ao qual acabaria por não chegar. Mas talvez seja só um olhar ao espelho de uma montra e a resposta ao seu reflexo. Será a criatura vaidosa? Talvez, não sei. Mas é um quase-sorriso quase-final. Ele ainda não sabe, mas sabemos nós, que James Dean está a meses de morrer, ao volante do seu Porsche 550 Spyder Little Bastard, depois de bater contra um Ford Tudor e ter voado pela estrada fora e ter ficado dentro do carro, encarcerado, até morrer, diz-se de morte rápida, talvez instantânea, mas morte terrível e desfigurada.
Aqui, nesta fotografia, meses antes da sua morte, James Dean caminha à chuva por Times Square e a sua sombra, a sombra de uma estrela, antecipa-o. À sua volta as pequenas circunferências dos pingos de chuva. O tempo cinzento. As marcas da cultura, da arte, do capitalismo americano dos anos cinquenta. No cinema Astor passava a versão de Richard Fleischer das Vinte Mil Léguas Submarinas em cinemascope, que também acabaria por passar em Portugal no mesmo ano de 1955. Pouco tempo depois, seria aqui, neste mesmo cinema, que estrearia o filme Fúria de Viver de Nicholas Ray, estrelado precisamente por este mesmo James Dean que, até à sua morte, faria, ao todo, três filmes. Atrás, como pano de fundo, Chesterfield, já não só no canto da boca mas em letras garrafais de néon, a Budweiser, as televisões Admiral e outras placas, enorme quantidade de placas, que já não consigo ler, é o desfoque da objectiva e a idade da minha vista, já cansada, mesmo suportada pelo óculos de apoio.
Entusiasmado, larguei a fotografia, o livro onde contemplei a fotografia de Dennis Stock, agarrei na minha câmara, no tripé e saí de casa. Fiz a pé os quase cinco quilómetros que me separam do adro da igreja. Instalei o tripé. Coloquei-lhe a câmara. Espreitei. Fiz o enquadramento do espaço, A igreja, a torre sineira e, ao fundo, o coreto a servir de pano de fundo, o adro estendido à minha frente, resolvi esperar. Alguém haveria de entrar. Ou sair. O padre. Alguma beata. Talvez alguma bela moça da terra, carregada de melancolia no rosto ou uma velha friorenta a puxar as abas do casaquinho de malha sobre o peito, púdica, e eu poderia click fazer o meu instantâneo click e tornar o adro da igreja da aldeia que me acolheu click no meu Time Square possível click onde poderia ter a sorte click de encontrar o meu James Dean click não se desse o caso de eu não ser click nenhum Dennis Stock click.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/11]

Para Sul

Saí cedo de casa. Saí de carro e apanhei a EN1. Fui pela EN1 até Aveiras.
Passei a noite em claro. Estava ansioso. Estou ansioso. Ainda estou ansioso. Não consegui pregar olho a noite inteira. Mas nem sei porquê. Levantei-me várias vezes para beber água. Fumei vários cigarros. Cheguei a beber um copo de vinho. Nada funcionou. Devia ter tomado um Zolpidem, mas já não tinha nenhum.
Sou como as crianças. Mal despertaram os primeiros raios de luz, levantei-me, tomei banho, vesti-me, entrei dentro do carro e saí sem destino. Fui andar de carro. Até sentir-me cansado. Até ter vontade de dormir.
Cheguei a Aveiras e perguntei-me como como é que consegui chegar até ali. Os responsáveis pelas estradas de Portugal (deve haver responsáveis, não?), não devem sair dos corredores acondicionados do poder. Esta EN1 está abandonada. Sem manutenção. Enormes quantidades de buracos. Autênticas crateras. Ausência de asfalto. Bermas sujas. Bermas cheias de mato. Restos de pneus de camião ao longo da estrada. As mesmas placas brancas por onde passava, nos anos 80, quando ia estudar para Lisboa e a auto-estrada começava precisamente ali, em Aveiras, depois de uma sandes de panado e uma média Sagres no Pôr do Sol 2. Se calhar é para obrigar os viajantes a utilizarem as auto-estradas exploradas por entidades privadas. Mas haviam de ver a quantidade de gente que se movimenta pela Nacional. Não há dinheiro para pagar todas aquelas portagens. Não com os salários que se praticam. E os cafés de merda, a preço gourmet, nas estações de serviço?
Entrei na auto-estrada e segui até Lisboa. Apanhei o eixo Norte-Sul e decidi continuar em frente. Para baixo. Para baixo todos os Santos ajudam, costumava dizer a minha mãe. E foi para baixo que decidi ir. Fiz o o eixo Norte-Sul, meti-me pela ponte 25 de Abril, cruzei o Tejo, não havia muito trânsito e continuei. Pensei Vou até ao Algarve.
Tinha acabado de passar a saída para Sesimbra e mudei de ideias. Vou até Setúbal. Comer choco frito.
Cheguei a Setúbal e estacionei na Luísa Todi. Havia bastantes lugares. O parquímetro só recebia até às treze. Depois era gratuito. Andei às voltas a fazer horas e depois fui até ao porto. Não reconhecia nada daquilo. Não reconhecia nenhum daqueles restaurantes. Era meio-dia e, um deles, estava já cheio de gente. Decidi que era ali, precisamente ali, que ia almoçar. E almocei. Choco frito. Duas imperiais. Paguei. Fumei um cigarro a olhar as traineiras. Mandei a beata ao mar, e voltei a arrancar de carro. Para sul. Sempre para sul. Ainda não tinha sono.
Fui dar a volta ao estuário do Sado. Depois voltei para trás, quase até à Comporta. Fui ultrapassado por inúmeros Mercedes, BMWs, dois Maseratis e dois Tesla. Antes de chegar à Comporta, virei para Melides. A Comporta não é para mim. Tem muitos mosquitos.
Passei por Melides, fiz Sines, ainda espreitei para São Torpes (à pinha) e continuei para Porto Covo. Nunca gostei de Rui Veloso nem nunca quis ir à ilha do Pessegueiro. Mas estava cheio de gente. Muita gente na praia (imagino), muita gente nas ruas. Assusto-me com muita gente. Continuei.
Em Vila Nova de Milfontes, uma praia da minha juventude, onde enterrei muitas lágrimas e amores na areia, estava igual. Muita gente. Assustador. E eu sem sono. Continuei.
Cheguei à Zambujeira do Mar. Estava nos antípodas. As ruas desertas. Com um ar triste e desolado. Quase ao abandono. O facto de não haver quase ninguém, era uma benção, um convite a sentar-me por ali e beber uma cerveja e fumar um cigarro. Esperar o sono. Mas não consegui. Tinha histórias bonitas vividas ali. Não conseguia estragar tudo com aquela desolação. Continuei.
Enquanto ia andando para sul, pus-me a pensar na últimas notícias. Toda a gente se queixava da falta de clientes, de turistas, de gente que pusesse a vida económica a funcionar depois destes meses de confinamento. Mas o que eu via ali, o que eu via ali com excepção da Zambujeira do Mar, era Portugal a fazer a economia mexer. Havia muita gente. Muita gente a consumir. Muita gente de férias. Muita gente a utilizar o trabalho dos outros, a pagar o trabalho dos outros. Alguns de máscara. Mas nem parecia estarmos a meio de uma pandemia sem vacina. Portugal parece ter saído todo para férias em Agosto.
Do que se queixa esta gente? Esta especificamente. Porque há gente, realmente a passar mal. Há gente que não tem mesmo dinheiro para comer. Mas esses não são estes. Esses já estão habituados à míngua e a nunca serem ouvidos.
Quando dei por mim, fui andando tanto para sul que descobri-me na ponta de Sagres.
Ainda não tinha sono nem estava cansado. Talvez com um pouco de sede. E uma vontade de fumar um cigarro.
E agora? pensei
Pus o pé no acelerador e acelerei.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/08]

O que É que Terá Acontecido?

Vinha a atravessar os Pirinéus. Estava ainda nos Pirinéus franceses. Vinha cansado. Era fim-de-dia e estava uma luz bonita, tinha estado sol, mas não estava de óculos escuros porque havia muita densidade negra nas sombras da floresta e já via mal nalgumas zonas mais fechadas, onde as árvores quase que formavam um túnel à volta da estrada, e o carro acendia automaticamente os faróis para eu ver melhor o que estava à minha frente. O sol adormecia para além do horizonte, depois das montanhas. Eu vinha a conduzir há muitas horas. Só com paragens para fazer xixi, beber Red Bull e café. De vez em quando passava a mão pela cara. Para acordar. E sentia a barba a cortar-me as mãos.
Tinha ido até Budapeste, na Hungria. Alguém tinha-me pedido para ir lá entregar um pacote. Em mãos. Achei estranho. Ainda perguntei pelos CTT e a DHL, mas frisaram Em mãos! O dinheiro era bom. Precisava de dinheiro, na altura. Ainda pensei que me estava a meter numa merda de onde não sairia vivo, mas o dinheiro que me ofereciam era o suficiente para me aguentar uns meses.
Aceitei. Passaram-me um Hyundai Santa Fe para as mãos. Fui a casa buscar o iPod e um cabo. Uma mochila com umas cuecas e umas meias. Um livro. Não sei bem porque levei um livro, mas ando sempre com um livro atrás, mesmo que não leia nada. Acho que é um apoio psicológico. Com um livro nunca me sinto só. Deve ser esse o princípio, não sei.
Mais de três mil quilómetros para lá chegar. E depois o regresso. Fui sempre a andar. Demorei três dias. Três dias sem ir à cama. Algumas pausas para passar pelas brasas. Mas nunca dormi mesmo. Dormitei no carro. Com o volante à minha frente e as colunas a passarem a selecção musical do iPod. Acordava. Dava uma volta pelo parque de estacionamento da Estação de Serviço, fumava um cigarro, bebia um café e levava um Red Bull para a viagem. Fui alimentando-me a sandes, hambúrgueres e pizzas.
Sempre estrada fora. Sempre a cumprir as regras de trânsito. Sempre dentro da velocidade permitida. A pagar as auto-estradas com dinheiro. Durante este tempo ninguém me telefonou. Não postei nada no Facebook nem no Instagram. Não vi nenhum filme. Ouvi música. Alguns noticiários. Comecei a ler o livro que tinha levado três ou quatro vezes. Nunca passei da primeira página.
Em Budapeste fiz um telefonema de uma cabina telefónica pública. Deram-me uma morada de um sítio público. Nas margens do Danúbio. Não foi difícil dar com o local. Parecia uma cena de um filme de espionagem. Sentei-me num banco de jardim a olhar o rio. Alguém chegou de bicicleta. Parou à minha frente. Disse qualquer coisa que não percebi. Mas percebi o meu nome. Acenei coma cabeça. Estendeu-me um envelope. Eu agarrei no envelope. Ele continuou com o braço estendido e estalou os dedos. Estendi-lhe o pacote. Ele voltou a dizer qualquer coisa que não percebi e arrancou na bicicleta.
Percebi que a minha viagem tinha terminado. Simples. Olhei dentro do envelope. Várias notas de cinquenta euros. O combinado. Dei uma volta ao longo do Danúbio. Estiquei as costas. Estavam doridas. Estalavam quando eu me endireitava. Percebi que tinha fome.
Entrei num restaurante e fui comer um goulash. Comi tudo o que me puseram à frente. Acompanhei com um copo de vinho tinto. Bebi dois cafés. E arranquei de regresso.
Eram duas viagens sem história. Para lá e para cá. Duas viagens solitárias. À velocidade legal. A música como companhia. Mas no regresso cheguei a vir algum tempo em silêncio, só a ouvir o motor do carro a galgar asfalto, um cigarro aceso entre os dedos da mão direita e o olhar à espera de ver Portugal. Mas ainda faltavam muitos quilómetros.
Cheguei aos Pirinéus franceses.
Estava cansado. O dia estava a chegar ao fim. Tinha estado um belo dia de sol mas, agora, estava a entrar no lusco-fusco. Tinha pensado parar numa Estação de Serviço e descansar um pouco antes de entrar em Espanha, quando aconteceu.
Estava numa recta em planalto, rodeado de árvores frondosas de um lado e de outro da estrada. À frente, pareceu-me ver alguém na berma da estrada. Mantive a velocidade e foquei-me no que estava a ver. Era uma criança. Uma menina, mais concretamente. De vestido rodado. Cabelo loiro. Apanhado em tranças. Tinha qualquer coisa ao colo. Talvez uma boneca. Talvez um gato. E achei a situação bastante peculiar. E pensei O que é que faz uma criança aqui à beira da estrada? E quando me estava a aproximar da criança, ela virou a cara para mim. Eu vi-a a olhar-me directamente nos olhos. Uns olhos sem expressão. Olhos frios. Mortos. E precisamente quando estou quase a passar à frente da criança, ela dá dois passos para dentro da estrada e eu bato-lhe com o carro, ouço o impacto, um Pam terrível e doloroso, ainda travei a fundo, espetei os pés no travão, levei a mão direita ao travão-de-mão e puxei-o, senti o carro a deslizar, pareceu-me perder o controle do carro, mas acabei por conseguir imobilizá-lo e pará-lo um pouco mais à frente do sítio do impacto.
O carro estava parado junto à berma, mas ainda na estrada. Eu estava com as duas mãos agarradas ao volante, como duas garras. Paralisado. Estava a transpirar. Estava muito nervoso. Olhei pelo espelho retrovisor e tentei ver para trás de mim. Mas não conseguia ver nada. Estava tudo desfocado. Tirei o cinto de segurança, abri a porta do carro e deixei-me tombar para o lado e vomitei no chão. Limpei a boca às mangas da camisola. Levantei-me a custo e voltei atrás. Vi as marcas dos pneus no asfalto. As marcas da travagem. Fiz o trajecto a pé, a olhar à volta. À procura da criança. E continuei um bom bocado. Entrei pela floresta. Chamei por alguém em francês. Em inglês. Em português. Não havia ninguém. Eu não via ninguém.
Voltei ao carro. Passei pelo vomitado e fui até à frente. Não havia nada amolgado nem partido. Não parecia que tivesse batido em nada nem em ninguém. Encostei-me ao carro e deixei-me descair para o chão. Acendi um cigarro. Fumei-o. E neste tempo todo não passou nenhum outro carro.
Depois de ter fumado o cigarro voltei a levantar-me e dei outra volta à volta do carro. Entrei. Liguei-o. Arranquei.
Durante o resto da viagem até Lisboa não voltei a pôr música. Fui fumando uns cigarros atrás dos outros. E só pensava O que é que teria acontecido?
Ainda hoje pergunto O que é que terá acontecido?

[escrito directamente no facebook em 2020/04/29]

No Weapons

Há uns anos atravessei a fronteira entre Moçambique e a Suazilândia (acho que a Suazilândia agora tem outro nome). Saí de Maputo, cruzei a Matola em direcção à Namaacha, de passagem por Boane, até à fronteira. Estivemos parados algum tempo na fronteira à espera de sermos atendidos. Aquilo andava devagar. Numa rede separatória, do lado de cá era Moçambique e do lado de lá era a Suazilândia, uma rede que nos conduzia a um pequeno gabinete onde seríamos atendidos e os passaportes carimbados, estava uma folha a4, enfiada dentro de uma mica de plástico, com o desenho colorido de um revólver e os dizeres No Weapons escrito em Comic Sans e preso à rede com uns pequenos arames enfiados pelos buracos da mica.
Estranhei porque os moçambicanos, normalmente, andavam com catanas para desbastar o mato e cortar a cabeça às serpentes que se atravessassem no caminho (e é por isso que, no mato, as mulheres vão sempre atrás). Não costumam andar com revólveres. Com excepção das autoridades (e nem todas porque às vezes não há dinheiro para todas as autoridades terem armas) e dos corpos de segurança.
Cruzei a fronteira sem problemas e não vi nenhuma arma nem ninguém me perguntou se eu levava alguma arma (e eu não levava).
Pensei quão longe ficava aquele mundo do meu.
Hoje, em Leiria, todos andamos com um revólver à cintura. Aprendemos uns com os outros que o nosso pior inimigo não é um vírus mas o vizinho do lado.
Isto tudo começou nos Estado Unidos. Perante a propagação do novo coronavírus, e o caos que se adivinhava, as pessoas de todo o mundo começaram a armazenar papel-higiénico e latas de atum. Os norte-americanos começaram a comprar armas. No início todos nos rimos a pensar como é que os norte-americanos iam limpar o cu com o cano de uma espingarda. Depressa percebemos que, com uma arma, as pessoas conseguiam todo o papel-higiénico e todas as latas de atum que quisessem. A ideia demorou a chegar à Europa e a Portugal. Mas quando chegou, instalou-se. Em Leiria não foi diferente. Toda a gente se armou. Primeiro foram os caçadores a irem às compras na cidade com as espingardas de caça na mão para evitar serem roubados. Mas depressa começou a haver um mercado-negro de armamento pessoal. Chegaram as pistolas e os revólveres. Toda a gente se armou. Eu também.
Não gosto de armas. Nem sei se consigo disparar sobre alguém.
Lembrei-me deste pequeno episódio vivido na fronteira entre Moçambique e a Suazilândia quando ouvi, há pouco, o disparo de uma pistola e o baque de um corpo a cair no chão. As pessoas andam nervosas e, ter uma arma nas mãos, não as ajudam nada.
Ouvi o tiro e virei a cabeça. Ia a caminho de casa depois de ter ido às compras ao Pingo Doce quando ouvi o tiro. Virei a cabeça. Era numa fila para entrar no supermercado Pingo Doce no centro da cidade donde eu tinha acabado de sair. Um homem estava com uma pistola na mão e, à sua frente, aos seus pés, um corpo caído numa poça de sangue. O homem com a pistola na mão dizia sonoro Não mantinha a distância de segurança… Não mantinha a distância de segurança…
Ninguém ligou nenhuma. Só eu virei a cabeça. As pessoas continuaram a entrar no Pingo Doce. As que estavam atrás dele, foram-no ultrapassando. O homem ficou lá parado, com a pistola na mão e o corpo caído aos seus pés a dizer sem parar Não mantinha a distância de segurança…
Eu fui-me embora para casa. Deixei-os ficar para trás. A cidade estava a ficar perigosa. As pessoas não deviam ter acesso a armas e muito menos andar com elas na cidade. As pessoas não estão preparadas para ter uma arma nas mãos. Deviam haver cartazes a avisar No Weapons. Porque somos demasiado impulsivos. Demasiado nervosos. Explodimos por tudo e por nada. E disparamos ao menor problema ou contrariedade. No Weapons era a melhor maneira de não fazermos asneira.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/30]

Para um Diário da Quarentena (Segundo Andamento)

Acordei com a luz do dia a bater-me na cara. Virei-me para o outro lado. Fechei os olhos. Tentei dormir mas já não era possível. Os olhos abriam-se e olhavam para a parede em frente onde batem as sombras das árvores e produzem uma espécie de sombras chinesas. Recomeçaram de novo as histórias de todos os dias projectadas ali, naquela parede. Os ouvidos colocaram-se logo à escuta. Havia vento lá fora. Puxei o edredão mais para cima de mim. Sentia o frio à minha volta no quarto.
Estava desperto mas não tinha vontade de me levantar. Tinha de ir mijar, mas estava a protelar. Sentia-me bem ali deitado na cama. No quente da minha cama.
É início da semana. Mas que semana? Este início de semana é parecido com o fim-de-semana. Estou em casa. Estou sempre em casa. Estou sempre em casa todos os dias de todas as semanas e fins-de-semana. Trabalho em casa. Trabalho à distância que o wi-fi me permite. Trabalho como quero e quando quero e passeio-me pela rua fora, pelas ruas curvas e sombrias e solarengas e subo à serra e mando seixos ao rio e apanho fruta das árvores e oferecem-me ovos verdadeiros de galinhas verdadeiras que vivem em galinheiros no meio do campo alimentadas a milho e que passam os dias a depenicar o chão à cata sabe-se-lá-do-quê.
Não me apetece levantar.
Hoje não me apetece trabalhar.
Estou… Estou uma série de coisas que poderia enumerar. Neura. Melancólico. Deprimido. Preguiçoso. Cansado. Psicologicamente cansado.
Não me apetece ouvir música. Nem ver um filme. Nem uma série. Não quero ler um livro. Nem folhear uma revista. E tenho aqui tantas revistas atrasadas para folhear, ler, reler, guardar alguns artigos, algumas revistas inteiras. Não me apetece ver ninguém. Não me apetece falar com ninguém.
Nada. Nada de nada.
Virei-me para o tecto. Havia luz no quarto, a luz do dia, de um dia com um pouco de sol a bailar entre tufos de nuvens. O dia não estava escuro, até estava mais-ou-menos brilhante, com um sol amarelo a fugir às nuvens. Durou pouco. Ao início da tarde o sol morreu, as nuvens desapareceram e o céu escureceu e ficou cinzento. O vento mantinha-se e manteve-se. Um vento a grande velocidade e muito frio.
Não. Não me queria levantar.
Tocou o telefone. Deixei-o tocar. Chegou uma mensagem. Não a fui abrir.
Pensei que o mundo poderia ainda estar pior que na véspera. Estiquei o braço e liguei a rádio que está com o despertador. Estava na TSF. Os noticiários foram-se sucedendo. Ao longo do dia.
Eu fui dormitando. Adormecia. Acordava. Ouvia um segmento noticioso. Bocejava. Voltava a dormir. Esqueci-me que tinha vontade de mijar.
Quando dei por mim já era de noite. A TSF continuava a debitar notícias. Percebi que a vida continuava lá fora. Mas já tinha havido a primeira morte em Portugal. A fronteira com Espanha ia ser fechada. E falava-se na possibilidade de se levantar um estado de emergência.
Foda-se! Levantei-me rápido e fui mijar. Mijei. Senti-me aliviado e, por momentos, esqueci-me da quarentena e destes dias de excepção.
Lavei as mãos. Senti fome. E decidi fazer uns ovos mexidos.
Lembrei-me da mensagem que tinha recebido. Talvez tivesse recebido mais. Talvez alguns mails. Talvez… Não. Não haverá nada. Talvez só uma mensagem com a conta do telemóvel para pagar.
E pensei Amanhã não posso não fazer nada.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/16]

Sábado de Carnaval

É Sábado à noite. Sábado de Carnaval. As pessoas divertem-se. Mascaram-se, embebedam-se, drogam-se, dançam, dançam muito. Riem. Brincam umas com as outras. Estamos em Portugal e estamos bem. Isto é uma espécie de cantinho do céu. Às vezes.
Na TSF está a dar uma gravação do Estado de Sítio. De novo, e sempre, a Síria. Continuam os bombardeamentos. Há quase um milhão de pessoas em êxodo em direcção à Turquia que tem as fronteiras fechadas. Continua a morrer gente. Todos os dias. Todos os dias nascem mais crianças. Há gente que se torna pai e mãe debaixo de bombardeamentos. Há crianças que nunca experimentaram uma vida sem bombardeamentos. Estas pessoas ainda desencantam comida. Mantêm hospitais em caves. Ainda riem. Ouço o testemunho de alguém que está lá, na Síria, que vive numa dessas cidades sitiadas e bombardeadas. E enquanto ele fala, ouve-se a queda de duas bombas muito próximo. Ele pára, mas logo recomeça o testemunho. Há quase dez anos que a Síria está assim, em guerra. Com os russo a bombardear. E os americanos… O que é feito dos americanos?
É Sábado de Carnaval. É Sábado de Carnaval e as pessoas divertem-se.
Vejo, no feed do Facebook, nem sei como nem porquê, numa página da Cruz Vermelha, uma criança contente, aos saltos, a dançar e a cantar, a experimentar a sua nova prótese que lhe permite andar sem muletas e ser autónomo.
É Sábado de Carnaval. E o direito à vida é inviolável.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/23]

A Senhora que Vem Cá a Casa Falou-me na Aliança

Há uma senhora que vem cá a casa uma vez por semana. Vem cá ajudar-me a tratar da casa. Não que a casa precise muito de ajuda, que eu trato bem dela. Mas vem fazer coisas que eu às vezes me esqueço fazer ou nem sequer penso na necessidade de ser feito. Limpar os vidro das janelas, por exemplo. Ia lá lembrar-me disso? Mas ela tem razão, os vidros ficam bem melhor quando ela os limpa com Ajax, e depois passa um jornal para ficarem brilhantes e sem dedadas. É ela que traz os jornais. Normalmente, o Correio da Manhã do dia anterior que pede no café da aldeia. Eu às vezes aproveito para passar os olhos pelas catacumbas do país. Também olho para as páginas do Relax. Já tive tentado a ligar a alguns daqueles números, principalmente quando vêm acompanhados de fotografias com medidas generosas. Mas depois penso que tenho de sair de casa e ir não-se-onde, confraternizar e mais-não-sei-o-quê e desisto.
A senhora que vem cá a casa é muito prática nas suas escolhas e diz tudo o que tem para dizer com uma voz um pouco esganiçada. Ela, coitada, não tem culpa de ter a voz tão aguda. Mas às vezes abusa do tom. Gosto muito dela, é muito simpática mas, às vezes, espeta-me navalhas nos ouvidos. Trata-me sempre por doutor embora eu já lhe tenha dito, mais que uma vez, que não sou doutor. Ela responde sempre que todas as pessoas que trabalham em casa, como eu, são doutores. Doutores disto e daquilo, mas doutores. Alguns até são doutores da mula-ruça. Eu calo-me.
Quando decide que tem de lavar os tapetes, põe-se de gatas, a esfregar com uma escova e um balde de água quente e detergente a fazer espuma. Anda a manhã toda com o braço esquerda-direita, cima-baixo, a esfregar a escova nos tapetes. O rabo dela, espetado para o céu, dança de um lado para o outro a acompanhar a força com que o braço expurga o pó entranhado nos tapetes. É por isso que ela tem um braço mais grosso que outro. São os músculos. Os músculos por andar a esfregar a escova nos tapetes. Já fiquei assim, encostado a uma porta, a ver a dança do rabo. Mas nunca lhe disse que, às vezes, a apreciava.
De tempos-a-tempos aparece cá em casa com metades de notícias que não percebeu completamente mas que acha que me poderá interessar a mim, eu que vivo aqui isolado do mundo. Hoje apareceu aqui em casa com uma história que eu ainda não percebi logo bem o que era. Segundo ela, houve uma aliança que invadiu uma sede qualquer para exigir justiça.
?
Ainda lhe perguntei de estava a falar da Arca. Da Arca da Aliança que podia ter visto nalguma repetição dos Salteadores da Arca Perdida, mas ela não sabia o que era os Salteadores da Arca Perdida, nem a Arca da Aliança. Que a outra era só uma aliança, achava, sem Arca.
Perguntei-lhe se tinha algo a ver com a Amazónia, o Brasil, Macron ou a Melania Trump e o primeiro-ministro do Canadá, mas ela disse-me que achava que era em Portugal.
Fiquei curioso.
Liguei a televisão. SICN. RTP3. TVI24. CMTV. Nada. Quer dizer, muita coisa. Não, muita coisa não. Muita repetição da mesma pouca informação sobre os mesmos assuntos dos últimos três dias. Má-educação. Mulheres mais novas que outras. Homens boçais. Algum cinismo. Interesses vários.
E, então, vi, no oráculo, a passar rápido em letras pequeninas Pedro Santana Lopes invade ERC para exigir cobertura noticiosa ao Aliança.
Desatei-me a rir.
Fui acender um cigarro. Abri uma garrafa de Herdade dos Grous 23 Barricas que me tinham oferecido. Servi dois copos. E fui oferecer um à senhora que estava a passar-me as camisas a ferro. E pensei Então é assim que as camisas ficam esticadas, sem vincos e com aquela goma!
Ela disse Eu não devia!, mas aceitou. Eu rezei para as camisas continuassem a vir sem vincos.
Eu fui beber o meu copo para a varanda e fumar o cigarro. E dei comigo a pensar no que é que teria passado pela cabeça do Pedro Santana Lopes. Falta de mimo, de certeza!

[escrito directamente no facebook em 2019/08/27]

Sobre uma Crónica do Vasco Pulido Valente

E, de repente, assim quase do nada, passei a ódio de estimação de um país, e saco de pancada de todos os haters que circulam pelas redes sociais.
Era Sábado. Um calor danado. Eu estava no alpendre a beber uma sangria de frutos vermelhos que escorria como um refresco. Um tempo sonolento. Eu era embalado pelo pouco ruído constante das cigarras e da festa de Verão da aldeia mais próxima e que se ouvia lá muito ao fundo, depois das várias camadas de cigarras.
Já tinha sido acordado, de manhã, com o rebentar dos morteiros a anunciar a festa. Uma festa de Agosto dedicada a um santo qualquer e aos emigrantes que vêm de França para arejar as maisons que foram construindo ao longo dos anos de muito trabalho. Depois, chegam cá, e guerreiam-se entre eles para verem quem põe mais oferendas no andor. Eu ouvia tudo isto à distância de quilómetros, mas que o calor e o silêncio traziam até mim.
Entre a sonolência e os copos de sangria, ia fazendo scroll no iPad, agarrado à frente dos olhos, aumentados pelos óculos para conseguir ver melhor as letras pequeninas no ecrã, quando li a caixa a publicitar a crónica de Vasco Pulido Valente no jornal Público. E rezava assim Não se deve tolerar que um sindicato, ou um conjunto de sindicatos, imponha as suas condições a uma sociedade inteira. É só isso que importa saber sobre a greve dos motoristas de matérias perigosas.
E reli.
E voltei a ler outra vez. Não a crónica de Vasco Pulido Valente, que é de Conteúdo Exclusivo e está fechado ao público geral, mas este excerto retirado para promoção. E pensei O Vasco Pulido Valente está mais tonto que nunca. Ele que já fora contundente, está irrelevante. E comentei o anúncio da caixa de promoção com a seguinte nota Não, não se deve tolerar. Mas deve-se tolerar que uma associação de patrões possa impor as suas condições a um país inteiro, mesmo que daí resultem fugas a tributações.
E mal tinha postado o meu comentário já estavam a chover comentários ao comentário.
Primeiro senti-me uma pessoa muito importante, sentada à sombra do meu alpendre, a beber a minha sangria de frutos vermelhos, longe do reboliço das festas sagradas e das crónicas do Vasco Pulido Valente, mas no meio das preocupações de gente anónima que tinha lido o meu comentário como um excerto do apocalipse relatado pelo próprio Diabo do fundo do seu império de chamas na cave dos Infernos.
Depois comecei a pensar que nem eu era uma pessoa importante nem o que escrevera tinha alguma importância digna de nota maior que o desabafo sobre um artigo de alguém a quem me habituei a ver destilar fel. Foi só o que quis fazer. Fel ao fel. E porque achei que Vasco Pulido Valente estava a ser parvo. Quer dizer, mais parvo que o normal quando está a ser parvo. E que não tinha razão no que estava a dizer.
Afinal, e depois de ler alguns dos comentários ao meu comentário, descobri que Vasco Pulido Valente não era mais que uma caixa de ressonância de um grupo de gente que, afinal, sente mesmo aquilo. Gente com fel no coração e na cabeça. Gente irritada. Gente cheia de ódio. Gente que não consegue pensar para além do seu próprio egoísmo. Nada que fosse novo, não! Já há uns dias tinha assistido a algo parecido numa notícia sobre Salvini e a sua luta contra os refugiados. Salvini teria chão para caminhar em Portugal. Este país não viveu quarenta e oito anos em ditadura porque foi castrado nas suas liberdades por uma polícia de Estado muito eficaz. Este país viveu quarenta e oito anos em ditadura porque uma grande maioria das pessoas deste país foi conivente com a ditadura.
É claro que era fácil para mim pensar estas coisas sentado ali, na sombra do alpendre, com o jarro de sangria de frutos vermelhos vazio ao meu lado. Não amarrado numa cadeira de metal com um foco de luz a incidir sobre os olhos e uns cabos eléctricos a aproximarem-se, perigosamente, dos meus mamilos. Mas acabei por aceitar que os comentários ao meu comentário, provavelmente também teriam saído de personagens de cu no sofá, a barriga proeminente cheia de cerveja e ódio a vidas mais interessantes que as delas próprias.
Eu não era o centro do ódio deles. Na verdade, estas pessoas odiavam-se a si próprias por terem umas vidas tão pequenas e merdosas, solitárias, fechadas em frente aos ecrãs das redes sociais.
O número dos comentários ia aumentando. Já não conseguia dar vazão a tudo o que me era destinado. A certa altura, desisti de querer saber o que me queriam todos aqueles anónimos que me prometiam ir ao focinho.
Desliguei o iPad. Acendi um cigarro. As cigarras ainda estavam em cantoria. A festa continuava, lá ao fundo.
E eu pensei Tenho de ir fazer outra sangria de frutos vermelhos.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/17]

 

Uma Paisagem de Bilhete-Postal

O céu está escurecido. Riscado a grafite. As nuvens perderam as suas formas, a sua cor. O céu mudou de ambiente. Já não é o céu azul de mergulho livre nas águas quentes do rio. Agora é o céu de um filme de Hollywood em cenário pós-apocalíptico.
Cheira a queimado. Cheira a um misto de borracha queimada e churrasco em fim-de-semana grande e vizinhos convidados para o jardim onde os cães fogem dos gatos e as crianças chapinham em piscinas de borracha, de soprar na pipeta, e compradas na feira de Verão do Continente com desconto em cartão.
Verão que se prese não aparece de manhã em São Pedro de Moel e tem incêndios para alegrar o futuro. Da mesma forma que hoje as comunidades abrem as bocas desdentadas para mastigar o frango de aviário assado em brasas ecológicas nas manifestações de um idílico passado Medieval, também daqui a uns anos outras comunidades irão homenagear os mostrengos lusitanos que não descansaram enquanto não puxaram o Sahara cá para cima.
Primeiro destruíram a costa algarvia. Depois a alentejana. Aos poucos o resto do país.
Portugal haveria de se tornar o primeiro estado-nação da celulose. O país virou uma enorme fábrica. Toda a gente tinha emprego, valia-lhes isso. No único empregador do país. A enorme fábrica de celulose acima do vale do antigo rio Tejo, sulco preservado em memória colectiva do maior rio da Península Ibérica que os ibéricos acabariam por matar. Como em tudo onde puseram as mãos. Resta-lhes a memória. Mas não lhes tem servido de muito.
Sorte a minha que já cá não estava para assistir à destruição do país como ele era no tempo em que eu ainda tinha tempo. Acabaria por descobrir que, afinal, não era muito.
Mas lembro-me do ano do grande incêndio de Vila do Rei. Dois anos após o enorme incêndio de Pedrogão Grande. O país estava fadado aos grandes incêndios. Era o Euromilhões em que toda a gente acertava Este ano vai haver um grande incêndio numa grande, e ainda resistente, mancha verde. E havia. E toda a gente acertava. E toda a gente estaria rica se o conhecimento significasse milhões.
Nesse ano, dois meses antes, eu tinha andado por Vila do Rei quando subi o Tejo. Descobri um Zêzere a morrer antes de desaguar no Tejo. Descobri um Portugal abandonado. Triste. Perdido na sua distância das janelas do poder. De Lisboa não se conseguia ver para além do Campo Grande. Aquele era o país da paisagem em bilhete-postal, em fotografia de fim-de-semana na visita à terra dos avós e à casa na terra, herdada, que permanece fechada o ano inteiro à espera de ser vendida num bom negócio que favoreça a vida na capital.
Andei quilómetros sem ver vivalma. Quilómetros de verde. Seco. Aqueles dias em que subi o Tejo esteve um calor infernal. O país estava seco. Estalava. E a manutenção do país não saiu das boas intenções de decretos legislativos. E depois? Como aplicá-los? Com que gente? Com que dinheiro?
Recordo as casas perdidas nas manchas verdes. Recordo quem ainda resistia. Quem não queria partir. Quem ainda acreditava que um país não são só os passos do poder.
Recordo passar por aquelas manchas de verde, naquele país seco e abandonado, enquanto fumava um cigarro, e pensar Bastava só uma beata. Só uma beata.
Hoje o céu já não chora. Está só negro. Zangado. E quando chorar, já será tarde. Como tudo neste país de gabinetes insonorizados e ar condicionado.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/22]

O Campeonato de Girão

Vi, por acaso, a meia-final do Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins entre Portugal e Espanha, e vi a seleçcão portuguesa agigantar-se perante os crónicos vencedores do mundo.
Decidi ver a final. Era hoje. Portugal contra a Argentina.
Comprei uns amendoins com casca. Uma garrafa de Encostas de Pias, tinto. Dois maços de cigarros. O Zippo com gasolina. Fechei as cortinas da sala. Liguei a RTP1. Aguentei os programas da tarde até à hora do jogo.
Quando o jogo começou já estava bêbado. E a garrafa vazia.
Os nervos não costumam atacar-me. Não era o caso de hoje. Hoje estava nervoso. Se calhar por estar bêbado.
Deixei passar a primeira parte do jogo sem me ter apercebido que estava a acontecer. Quando despertei, percebi que o guarda-redes português, Girão, estava a defender a sua quinta grande penalidade e, à semelhança das anteriores, defendeu a baliza nacional com brio, fechando a entrada às bolas argentinas.
Foi então que me apercebi que podíamos estar à beira de sermos campeões do mundo. Sim, que eu aproprio-me destas grandes conquistas. Estava zero-a-zero. O tempo corria para o final. Os nervos caíam-me em cima e comecei a devorar os amendoins. Desfazia as cascas e mandava os amendoins a voar para dentro da boca. Triturava-os rapidamente. Repetia a acção. Voltava a repetir. E de novo. E outra vez. E novamente. E fiquei cheio de sede e enquanto Girão se dispunha a defender outra grande penalidade, fui à procura de algo para matar a sede. Encontrei uma garrafa de Brandymel que nem sabia que havia cá em casa. Uma bebida de que não gostava. Mas levei o gargalo à boca e ajudei a empurrar os amendoins pela garganta abaixo.
O jogo continuava. A Argentina mais acutilante. Portugal mais suave. Falhava muito na finalização. Mas nós tínhamos o Girão. A Argentina não. Girão era português e estava na baliza portuguesa para a defender dos adversários. E manteve-a inviolável até ao final do jogo.
Veio o prolongamento. O comentador do jogo na RTP1 não se calava com a décima falta argentina. A décima falta que permitiria à selecção portuguesa usufruir de uma grande penalidade que ainda não tinha usufruído, ao contrário dos argentinos que já levavam mais de uma mão-cheia delas a que Girão se opôs com galhardia. Mas nunca chegou esta décima falta. E o tempo foi passando. Umas vezes mais depressa. Outras vezes mais devagar. Por vezes parecia que a Argentina se posicionava para o golo. Por vezes era Portugal que falhava golos feitos, o que me levava a gritar asneiras a plenos pulmões, acender cigarros uns nos outros e a beber o Brandymel directamente da garrafa.
Há muito tempo que não me sentia tão nervoso.
Mas o prolongamento chegou ao fim.
Vieram as grandes penalidades.
E eu percebi que íamos ganhar o Mundial. Ter o Girão na baliza era quase como ter Deus a rezar a si próprio por nós.
E eles começaram por falhar. E nós também. Depois marcaram. E nós também. E depois eles falharam. E nós não. E quando falhámos a grande penalidade que nos daria a vitória, foi só para que Girão defendesse a grande penalidade argentina que nos garantiria a vitória no Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins em Barcelona 2019. E foi o que aconteceu.
Girão defendeu a última grande penalidade argentina. Portugal nem precisou de marcar a sua. Girão ganhou o campeonato para Portugal.
Mandei os amendoins ao ar. Os amendoins e as cascas. Despejei a garrafa de Brandymel, o que me deixou enjoado. Acendi mais um cigarro. Agarrei na minha bandeira de Portugal com pagodes no lugar dos castelos e vim para a rua onde estou agora para comemorar com os meus compatriotas mais este grande triunfo lusitano na alta-roda do desporto mundial.
Já estou aqui há mais de meia-hora e continuo a ser o único a correr à volta da rotunda com uma bandeira de Portugal. Já fumei os meus cigarros todos.
Se não aparecer mais ninguém nos próximos cinco minutos, vou-me embora.
No próximo quarto-de-hora.
Não. Na próxima meia-hora. É preciso dar tempo aos portugueses para levantarem a peida do sofá.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/14]