Ao Domingo

Naquela época, aos Domingos, eu era o primeiro a levantar-me da cama.
Levantava-me cedo, às vezes tão cedo que havia Domingos em que me levantava ainda quase de noite. Eram dias escuros de Inverno, dias escuros e chuvosos. Mas era sempre eu o primeiro a levantar-me.
Eu levantava-me, aquecia um púcaro com leite. Abria uma carcaça e colocava-a na torradeira. Depois despejava o leite na caneca. Tirava-lhe a nata que ficava a boiar em cima, e juntava-lhe Ovomaltine. Ou era Nesquick, já não tenho a certeza. Barrava manteiga nas torradas e sentava-me na mesa da cozinha, com uma revista de banda-desenhada aberta à minha frente, a comer e a beber. Geralmente deixava cair muitas migalhas à minha volta mas, quando a minha mãe se levantava, e depois de me dar um beijo na cabeça e, invariavelmente dizer-me Lava este cabelo, hoje!, ia buscar a vassoura e uma pá e varria o chão ali à minha volta.
Nessa altura eu ia tomar banho. Lavava o cabelo. Vestia uma roupa domingueira e regressava à cozinha onde ficava a ler bandas-desenhadas até o meu pai estar despachado, de barba feita, banho tomado, vestido e a beber uma caneca com café que a minha mãe já teria feito, e dizer-me Vamos? e nós íamos.
Todos os Domingos, naquela época, eu e o meu pai íamos ver os jogos de futebol das equipas de juniores da União de Leiria. Os jogos eram no campo pelado, ao lado do estádio onde havia o campo relvado onde jogava a equipa principal. Ali, no pelado, jogavam os juniores, os juvenis e os iniciados. Víamos os jogos todos. Às vezes contra o Benfica, o Sporting e o Porto. A União de Leiria tinha, geralmente, boas equipas de miúdos. Os espectadores, nós, estávamos em cima do campo, mesmo atrás dos fiscais-de-linha, que hoje se chamam árbitros assistentes. Mas não havia grandes problemas. Por vezes os jogadores caiam ali, à minha frente, e eu via como os jogadores esfacelavam os joelhos e faziam sangue. Mas não se queixavam. Quer dizer, queixavam-se até o árbitro marcar falta e, depois, estavam já prontos para nova jogada.
Enquanto eu e o meu pai íamos ver os jogos das camadas mais jovens da União de Leiria, a minha mãe ficava em casa, suponho que a fazer o almoço pois, quando chegávamos, a mesa estava posta e o almoço era quase-imediatamente servido.
Nessas manhãs de Domingo encontrava sempre alguns amigos meus a ver também os jogos com os pais deles. Às vezes nós íamos juntos para outro lado do campo e víamos os jogos juntos, como se fôssemos adultos e estivéssemos ali sozinhos a ver o jogo de futebol.
Às vezes essas manhãs eram a primeira parte de um Domingo inteiro cheio de futebol. Depois de almoço a minha mãe já vinha comigo e com o meu pai e íamos ver os jogos da equipa principal da União de Leiria ao estádio Municipal. Levávamos umas almofadas para nos sentarmos um pouco mais confortáveis nas bancadas de pedra onde ficávamos a ver os jogos. A minha mãe gostava tanto ou mais de ver os jogos que o meu pai. Às vezes também a ouvia ralhar com alguém. Ora com um jogador da União, ora com o árbitro, ora com o meu pai por ele estar enervado com alguém que não conhecíamos.
Um dia levantei-me. Estava de chuva. Fazia frio e corria furioso o vento, o vento e a chuva, lá fora, fora das janelas, e eu aqueci o leite e fiz as torradas e tirei a nata ao leite e misturei Ovomaltine (ou seria Nesquick?), barrei manteiga nas torradas e sentei-me na mesa da cozinha a ler uma banda-desenhada, mas a minha mãe demorou mais que o normal dos outros dias a aparecer e, quando apareceu, não me deu um beijo na cabeça nem disse para eu lavar o cabelo, e vinha a chorar. Nesse dia o meu pai não apareceu. E nunca mais apareceu. Nesse dia não fomos ver os jogos de futebol dos miúdos. E nunca mais fomos.
E a partir desse Domingo, os Domingos nunca mais foram os mesmos.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/08]

Eu e Ela e a Índia

Tínhamos passado as férias de Natal daquele ano no alpendre de casa dos meus pais.
Enquanto toda a gente andava atarefada a comprar presentes e a preparar a noite de consoada e a fazer preparativos para a Passagem de Ano, eu e ela passávamos os dias inteiros no alpendre lá de casa a ler, a ouvir música e a conversar. Às vezes apareciam por lá alguns amigos e jogávamos ao Monopólio e ao King. A minha mãe fazia chá de menta que nos mantinha quentes e uns biscoitos de manteiga que nos aconchegavam o estômago. Ao mesmo tempo foram umas férias de provação. Nem eu nem ela fumávamos à frente dos meus pais e, estando toda a gente ali por casa durante aqueles dias, acabámos por estar as férias sem fumar um único cigarro, com excepção da noite de Passagem de Ano, que passámos sozinhos lá em casa, e quando fumámos um cigarro já passava da meia-noite, oficialmente já era outro ano, e foi para selar a primeira noite de sexo do novo ano.
Naquelas férias lemos bastantes livros. Eu andava obcecado com os livros do Harold Robbins e tinha convencido a minha mãe a mandar vir alguns deles através do Circulo de Leitores. Durante esses dias despachei Os Aventureiros, Uma Mulher Só e O Pregador. Ela lia outras coisas. A Campânula de Vidro da Sylvia Plath e O Fio da Navalha do Somerset Maugham. Ouvíamos muito Jam e Durutti Column. Falávamos dos livros que estávamos a ler. Falávamos mais que discutíamos porque só um de nós é que tinha lido o livro. Mas ouvíamos o outro com toda a atenção do mundo.
Às vezes eu parava de ler e olhava para ela, compenetrada na leitura, e via-lhe o cabelo longo, de um castanho escuro e brilhante, e lá no meio, quase escondidas, umas argolas enormes de prata que eu lhe tinha oferecido num aniversário e que lhe ficavam muito bem, davam-lhe um ar de cigana chique, uma espécie de Stevie Nicks, mais nova, mais bonita e muito mais lá de casa. Eu sentia-me um tipo com muita sorte.
Também conversávamos muito sobre as viagens que queríamos fazer num futuro não muito longínquo. Ainda nunca tínhamos ido a lado nenhum assim longe. Íamos muitas vezes ao Pedrogão, a São Pedro de Moel, até já tínhamos ido a Lisboa e uma vez ao Porto, mas nunca tínhamos ido assim para fora, em viagem, a conhecer o que não conhecíamos, a ver coisas novas, a aprender o que nos era novo. Mas tínhamos esse desejo. Então falávamos de quando acabássemos os cursos, quando arranjássemos bons empregos, empregos bem remunerados, e todas as viagens que iríamos fazer com o dinheiro dos nossos salários. Eu queria muito conhecer as Américas. A América do Sul e Central. Ela estava mais virada para a Índia. Queria conhecer o Rajastão. Concordámos que o melhor era irmos aos dois sítios. E era isso que pretendíamos fazer. Nesse final de ano ainda chegamos a comprar um Lonely Planet sobre a América do Sul. Folheávamos o livro à vez. Descobríamos países baratos. E cheios de história.
Depois passou o Natal, passou a Passagem de Ano, fumámos o nosso primeiro cigarro no ano novo depois de termos tido a primeira noite de amor no novo ano e as aulas estavam quase a começar.
E foi no primeiro dia de aulas que tudo aconteceu. Aliás, na manhã do primeiro dia de aulas o que levou a que não houvesse aulas nesse primeiro dia. Nem nos dias seguintes. Pelo menos para nós.
Eu tinha saído de casa a pé. Passei por casa dela. Ela não morava longe de mim, também não morava propriamente ali ao lado, mas ficava a caminho da escola.
Ela já estava à minha espera à entrada de casa. Demos um beijo. Demos as mãos. E fomos para a escola.
Estávamos já perto da escola, estávamos a chegar à passadeira onde cruzávamos a estrada para entrar na escola, ela estava já a parar ao pé da passadeira, estava a preparar-se para olhar para um lado e para o outro e ver se podíamos passar a estrada, naquela altura havia sempre muito trânsito com todos os pais que vinham trazer os filhos à escola, quando ouvimos um barulho, um barulho que se parecia com uma bomba a rebentar ali perto, e parámos, assustados, nervosos, a olhar para todos os lados para perceber o que estava a acontecer, quando surgiu um pneu, um pneu muito grande, um pneu de camião, a rolar sozinho pela estrada, galgou o passeio, voou, veio pelo ar e acabou por atingi-la em cheio na cabeça.
Ela tombou de imediato. Senti a mão dela a despegar-se da minha. Vi logo uma mancha de sangue a escorrer pelas pedras da calçada portuguesa. E o pneu continuava a sua caminhada durante mais algum tempo até acabar por se enfaixar na montra de uma livraria, um pouco mais abaixo, mas isso eu já não vi, foi-me contado depois porque, nesse momento, eu já estava debruçado sobre ela a tentar parar o sangue, a tentar acordá-la a fazê-la lembrar que tínhamos muitas viagens programadas para fazer e não podíamos fugir às nossas próprias combinações.
Acabou por chegar uma ambulância. Eu também fui. Também fui numa maca. Estava com sangue. Acharam que eu também tinha sido ferido. No hospital fui visto. Não tinha nada. Mas estava muito ansioso. Estive com uma psicóloga. Mais tarde soube que ela já tinha chegado sem vida ao hospital. Morrera durante o trajecto. Tinha levado uma grande pancada na cabeça com o pneu do camião.
Cinco anos mais tarde fiz a minha primeira viagem à Índia. Fui sozinho. Bem, sozinho, não. Fui com ela. Passeei pelo Rajastão. Passeei com ela pelo Rajastão. De cinco em cinco anos regresso à Índia. Sozinho. Sozinho com ela.
Hoje lembrei-me dela, e desta pequena história, porque se está a aproximar o dia de mais uma viagem à Índia. E eu nem era grande entusiasta da Índia. Mas passear por lá com ela, é outra história. Ela faz-me reparar em tudo o que eu não iria reparar, nas cores, nos cheiros, nas roupas das mulheres, nas caras marcadas dos homens que vou encontrando pelas ruas, na musicalidade da língua, mesmo quando falam em inglês. É ela que me tem guiado pelos caminhos de uma Índia que sempre quis conhecer. E todos os cinco anos lá vamos. Deixo tudo para trás e abalo. Eu e ela. Eu e ela na Índia.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/12]

Mundo Binário

Tudo começou quando o mundo ficou de risco ao meio. De um lado ficaram uns. Do outro ficaram os outros. O mundo tornou-se uma espécie de claques de futebol. Um Benfica x Porto. Ou um Real Madrid x Barcelona. Ou os Manchesters. O United de um lado. O City do outro. Ou uns EUA x URSS dos bons e seguros velhos tempos da guerra fria. Velhos x Novos. Homens x Mulheres. Brancos x Pretos. Heterossexuais x Homossexuais. Analógicos x Digitais. Enfim, tudo começou quando o mundo se tornou binário. Os contra e os a favor.
As pessoas barricaram-se. As cidades dividiam-se em duas. Normalmente separadas por rios. O campo voltou ao arame-farpado. A polícia vivia acantonada nas cidades e só saía dos seu quartéis em situações muito particulares. Os militares patrulhavam o campo, mas agiam como milícias. As pessoas do campo passaram a andar armadas para se defenderem uns dos outros e dos militares. Era normal haver picos de mortes violentas aos fins-de-semana e, em especial, nos finais de mês quando era dia de receber e metade do mundo embebedava-se. E acabava ao tiro. A outra metade ficava escondida em casa. Com medo.
Metade do mundo seguia a teoria da evolução. A outra metade era criacionista.
Metade do mundo estudava as profecias de Nostradamus. A outra metade estudava a Bíblia.
Havia ainda outra metade que estudava os livros do Divino Marquês, mas não havia muitas certezas sobre isso porque metades só há duas e esta vinha desestabilizar tudo e, sobre o que cada um faz na sua cama, em privado, não há garantias, se bem que alguns governos tentassem regular a actividade sexual por causa do rendimento produtivo e a poupança de energia. Mas nunca foram bem sucedidos nas suas tentativas. As pessoas, quando querem, são esguias e escapam. Mas só quando querem muito. Quando fazem por isso. Havia ainda quem não quisesse saber de nada e andasse por aí, um dia após o outro, sem se chatear muito.
Metade do mundo só comia carne de vaca e ficou obesa. A outra metade só comia vegetais e andava anémica. Metade do mundo fumava haxixe. A outra metade chutava cavalo. Havia ainda quem lambesse ácidos, mas havia quem dissesse que era só um mito. Um mito urbano.
Há poucos anos, quando se percebeu, finalmente, que o mundo estava nas últimas e já não havia nada a fazer para o salvar, já há muito que não voavam aviões, nem circulavam carros, carrinhas, camiões e motocicletas, e o homem movia-se de bicicleta, de skate e trotineta e só voavam alguns, poucos, aviões e só circulavam alguns, poucos, carros quando alguns dos dirigentes precisavam de se encontrar pessoalmente com outros e os telefones e a internet estava em baixo, coisa que acontecia com muita frequência porque a manutenção era muito difícil de executar num mundo sem mobilidade, onde o turista se extinguiu e só aparecia um ou outro viajante de vez em quando, de bicicleta, ou a pé, mas eram ignorados e já me perdi no raciocínio.
Ora, volto atrás e recomeço.
Há poucos anos, quando se percebeu, finalmente, que o mundo estava nas últimas e já não havia nada a fazer para o salvar, decidiu-se que tinha de se deixar a Terra e partir. Ora, com o tempo restante, tinha, toda a gente, de trabalhar em benefício geral para que se pudessem fabricar naves suficientes para levar toda a gente daqui para fora ou, pelo menos, a maior parte das pessoas, pois haveria de haver gente que iria querer ficar na Terra, onde tinha nascido queria morrer, e ficar na Terra não iria significar logo a morte, pelo menos era o que se dizia. Mas nunca se chegou a um acordo. Propôs-se Marte como destino. Mas houve logo quem se opusesse e lançasse a Lua como a única possibilidade real. O mundo voltou a dividir-se de novo, num outro risco ao meio.
E estávamos assim, sem saber o que fazer. Como fazer. Para onde ir. Depois de cinco eleições mundiais as coisas mantinham-se na mesma. Não haviam acordos nem consensos quando, de repente, há seis meses, se descobriu um asteróide, com dois quilómetros de diâmetro, que vinha em trajectória de choque com a Terra.
Pânico!
Durante algum tempo ainda se pensou na hipótese de construir uns mísseis espaciais capazes de interceptar o asteróide mas, nunca se chegou a acordo sobre que tipo de misseis fabricar. Ou eram russos. Ou chineses. Ou americanos. Ou indianos. Mas os países nunca conseguiram entrar em conversas uns com os outros porque não queriam mostrar planos classificados uns aos outros. Tudo era segredo de Estado. E tudo se complicou quando se perguntou quem ia pagar a factura. Ninguém queria pagar.
Estamos, agora, a dois dias do impacto. Não se construiu nenhum míssil. Nem naves espaciais para levar as pessoas para outro lado. É verdade que saíram algumas naves privadas com meia dúzia dos mais ricos dos ricos mas, para onde é que vão? Em que condições?
Metade do mundo acredita que vamos morrer. Outra metade acredita que não. Muitos ainda dizem que Deus nos vai acudir. Outros dizem que Deus está farto de nos aturar.
Eu não sei em que acreditar. Escrevi estas palavras na esperança que me sobrevivam, se acaso eu morrer, e possam contar ao futuro este nosso passado.
Foi um prazer andar por aqui.
Talvez nos encontremos mais tarde se, por acaso, houver, afinal, renascimento como nos prometia a religião católica.
Adeus.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/26]

Alguém Tem de Fazer Alguma Coisa

Eu vi-as chegar. Chegaram devagar. Foram chegando devagar mas, mal chegaram, instalaram-se e não foram mais embora. Cobriram tudo e trouxeram o medo.
Estava no alpendre a ler, pela enésima vez, O Segredo do Espadão, das Aventuras de Blake e Mortimer, a fabulosa série de banda-desenhada de Edgar P. Jacobs. Bebia um gin. Fumava um cigarro. E, de repente, comecei a perder leitura. A luz a ir embora. Eram três da tarde. Olhei para o céu e, ao fundo, umas nuvens escuras a cobrirem o céu e a taparem o caminho à luz do sol.
Pensei Vem aí temporal.
Pousei o livro. Levantei-me e cheguei-me à frente no alpendre. Olhei com mais atenção. Não pareciam nuvens de tempestade. O ar estava abafado. Sentia-se cheiro a queimado. Como porco no espeto.
Pensei São os chineses. Vêm aí os chineses.
Entrei dentro de casa. Voltei a sair. Agarrei n’ O Segredo do Espadão e levei-o para dentro de casa. Arrumei-o. Fui ao fundo do armário do meu quarto buscar a caçadeira. Agarrei nuns cartuchos e voltei ao alpendre. Liguei o iPad à procura de notícias. Liguei a TSF. Nada. Facebook. Fiz scroll. Comecei a encontrar umas notícias partilhadas de um enorme incêndio a lavrar na Amazónia.
Pensei O que é que isto tem a ver com aquilo?
As nuvens já estavam quase por cima de mim. A cobrir o céu. A cobrir-me a cabeça. Eu estava ali, no alpendre, com a caçadeira nas mãos, à espera dos chineses quando percebi que não eram os chineses.
Pensei São os brasileiros, porra! Como raio é que estas nuvens chegaram aqui?
A luz do dia desaparecera por completo. O dia fez-se noite. O céu coberto por nuvens de fumo pretas. Um cheiro incrível a queimado.
Entrei para dentro de casa. Fechei tudo. Portas e janelas. Liguei a televisão. Nada. A greve às horas-extra. Pedro Pardal no PDR por Lisboa, nas legislativas. Bas Dost e o Sporting. O clássico Benfica – Porto no Sábado. Mais nada. Nada sobre a noite comer o dia. O mundo ter enegrecido. E o Brasil ter ensandecido.
Peguei no iPad. Voltei às redes sociais. Ali, toda a gente comentava. E finalmente percebi. A Amazónia estava toda a arder. Atearam fogo à Amazónia para vender a madeira e aumentar o pasto para o gado. É a economia, estúpido.
Enquanto o mundo corria para o seu apocalipse na mão de idiotas demasiado estúpidos para perceber os erros que estavam a cometer, a outra mão, supostamente mais ponderada e inteligente, não estava a fazer nada. Estava perdida na sua própria inércia, motivada pela ideologia, economia, medo, diplomacia e, acima de tudo, não ingerência num país estrangeiro. Sem perceberem que éramos nós. A Amazónia éramos nós.
Ao fim de três dias de noite escura e cerrada, ninguém parecia ainda ter tomado alguma decisão que fosse para pôr termo ao que parecia a morte da floresta amazónica.
Então, eu peguei na caçadeira. Em várias caixas com cartuchos. Arranjei um farnel. Um naco de pão do Soutocico, Um bocado de queijo da ilha. Um chourição. Três maçãs e quatro laranjas. E uma garrafa da Cooperativa de Reguengos. Enfiei tudo numa mochila. A caçadeira na mão. Peguei no carro e fui até à Nazaré.
Entrei pelo porto dentro. Ninguém me impediu. Encontrei uma traineira. Subi à cabina. Liguei o motor. Saí do porto.
Pensei Em frente é para a América. Para sul, chego ao Brasil. Alguém tem de fazer alguma coisa.
Ando há umas horas no mar. Não vejo grande coisa mas, se continuar a direito, vou lá dar. Alguém tem de fazer alguma coisa.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/21]

No Rio Lena

Desço a Serra dos Candeeiros. Tirei boas fotografias. A Serra é bonita na sua austeridade. Vegetação rasteira. Pedras. Pedregulhos. Uma certa aridez. Depois, uns tufos de árvores muito verdes. Assim muito juntas. Como um ramo. Uma casa ou outra à distância. E a omnipresença da torres eólicas. Gosto da sua dimensão majestosa. Mas é difícil fugir-lhes.
Lá pelo meio, umas cabras. Umas ovelhas. Encontrei uns namorados. Estavam nus. Encostados ao carro. Fotografei-os. Não deram por mim.
Estou a descer a Serra. Cruzo-me com uns vendedores de fruta. Estão num cruzamento. Páro o carro. Compro umas cerejas. Mas estão um pouco esbranquiçadas. Compro também uma melancia. Cheira bem. É pesada. Mas as pontas estão macias. Pago. Volto a arrancar.
Na rádio, percebo que está a começar o jogo da final da Taça de Portugal entre o Sporting e o Porto. Estou perto de Porto de Mós. Estou nas margens do rio Lena. Volto a parar o carro. Estou no pinhal. Saio. Ouço a água do rio a correr suavemente. Este rio é pouco caudaloso. Às vezes seca. Mas agora ainda leva água. Refresca o ambiente. Tiro uma manta do porta-bagagens. Olho para as cerejas, mas vejo-as tão pouco convidativas que as ignoro. Agarro na melancia. E no canivete-suíço que anda sempre no porta-luvas do carro. Deixo a porta aberta para ouvir o relato no rádio do carro. Sento-me na manta. Começo a cortar a melancia. A tarefa não é fácil porque a lâmina é curta e não chega ao fim da melancia. Corto pedaços pequenos. Vou comendo-a aos poucos. Devagar. E ouço o relato.
Sabe-me bem a melancia. Não está muito fresca. Mas está saborosa.
Acendo um cigarro. Deixo-me cair na manta. Olho para o céu. Não há nuvens. Não posso imaginar caras, bonecos, animais nas nuvens brancas do céu porque não estão lá. Olho o céu azul limpo. Um azul chroma. Vejo o fumo do cigarro a subir. Ouço o Lena a correr ali ao lado. O Sporting a medir forças com o Porto. Gosto desta calma. Gosto desta solidão.
Levanto-me da manta e vou até ao rio que mais parece um pequeno ribeiro. As margens estão verdes. Há uma mulher a molhar os pés nas águas frescas do rio que mais parece um ribeiro. Levanta ligeiramente o vestido, com as mãos, para não o molhar. Ela vira-se para trás. Olha para mim. É belíssima. A mulher mais bonita que vi na vida. Ela sorri. Eu vou até ela. Entro com as sapatilhas e as calças dentro de água. Aproximo-me dela. Vou para falar mas não sai nada. Estou mudo perante a sua beleza. Ela levanta uma mão à minha cara. Afaga-a. Puxa-me. Abraça-me. Envolve-me. Beija-me. E eu deixo-me ir. Beijo-a. Abraço-a. Sinto uma força electrificada a percorrer-me o corpo. Sinto que caímos abraçados. Caímos no rio. Caímos mas flutuamos. Abraçados um ao outro. Num beijo longo e molhado. As mãos percorrem os corpos. As minhas e as dela. No meu e no dela. E parece que temos quatro. Oito. Doze mãos. Mãos que libertam os corpo e os levam para fora da realidade. Para lá do rio. Para lá do céu azul.
E depois ouço Grandes penalidades. E não entendo. Grandes penalidades. Um bruá geral. Gritos. Palmas. E está tudo azul. Um azul menos forte. Mas ainda azul. É o céu que está azul. Um céu sem nuvens. Tenho uma beata apagada entre os dedos. Há cinza na manta. Uma melancia quase inteira. Ouço a água a correr no Lena, ali ao lado.
E alguém muito histérico grita Sporting, Sporting, Sporting!
E percebo que estava a sonhar. Não existe a mulher mais bonita que já tinha visto. Ouço o final da Taça de Portugal. Percebo que o Sporting venceu o Porto nas grandes penalidades. Depois de noventa minutos empatados. Depois de mais um prolongamento empatado. Venceu nas grandes penalidades.
Levanto-me. Arrumo a melancia. A manta. Desço ao rio para lavar as mãos. E vejo uma mulher no rio. A mulher mais bonita que vi na vida. Está a molhar os pés nas águas frescas do rio. Com as mãos, levanta ligeiramente o vestido para não o molhar. Olha para mim. Olha para mim e sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/25]

A A8 Transforma-se em A17 e Eu Não Sei Porquê

Vou pela A8 que depois se transforma em A17. Não sei porque muda de nome. Talvez tenha a ver com concessões. Mas não sei. Nem vou à procura da razão. Na verdade nem me interessa.
Vou pela A8 que depois se transforma em A17 e vou sozinho. Vou sozinho no carro, para norte, mas vou também sozinho na estrada. Três faixas de rodagem à minha disposição. Penso que os anos ’80 foram bons para as obras públicas, para os empreiteiros e para o modelo 200 da Mercedes-Benz.
Vou pela A8 que depois se transforma em A17, mas preferia ir de comboio. Preferia fazer o trajecto que tenho de fazer numa Linha do Oeste funcional numa CP que não estivesse a soldo de interesses que não conheço, mas que me mataram os comboios.
A última vez que andei de comboio, demorei cinco horas para fazer cento e vinte quilómetros. Nessa altura já a Rodoviária Nacional demorava pouco mais de duas horas a fazer o mesmo trajecto. Hoje, a Rodoviária demora as mesmas duas horas. Às vezes um pouquinho mais. Às vezes um pouco menos. O comboio não sei. Mas acho que continuou lá parado no tempo. Parece que há uns Intercidades todos chiques. Mas acho que é só para a gente elegante de Lisboa e Porto. O resto do país, pelo menos aqui, em Leiria, terra onde habito, desconheço tal iguaria.
Vou portanto pela A8 que depois se transforma na A17 e não vejo vivalma. Estamos perto do meio-dia quando sou ultrapassado por uma viatura. A primeira com que me cruzo. Um pouco mais à frente vejo um carro, dois carros que vêm em sentido contrário.
É quando já estou a aproximar-me de Aveiro que começo a ver mais carros. Aparecem do nada. É nessa altura que percebo que não sei quanto é que estou a pagar pela estrada que usei. Entrei em portagem com portageiro, mas com Via Verde, e acabo por passar por uma portagem aérea que me contabiliza mas não me informa. No resto do trajecto que tenho de fazer apanho com mais duas portagens aéreas, mas desta vez tenho lá, fixo, o valor do meu trajecto.
No regresso, três horas mais tarde, reparo que há agora alguns carros na auto-estrada. Não sei se é o suficiente para pagar a concessão, o investimento, ou se também o estamos a pagar através do Orçamento Geral de Estado. Mas alguém tem de pagar aquele elefante branco. Parece que não há almoços grátis. Pelo menos para alguns. Para outros, nunca na vida hão-de ter de pagar qualquer almoço.
Regresso pela A17 que depois se transforma em A8. À medida que me aproximo mais de Leiria, há menos carros na estrada, embora mais que de manhã. Toda aquela estrada me soa fantasma. Se calhar não existe. Se calhar estou a sonhar. Se calhar ainda estou nos anos ’80. Comi um cogumelo. O Primeiro-Ministro ainda é o Aníbal e vou ter de passar outra vez por aqueles anos de chumbo que só vamos saber que o foram mais tarde. Na ressaca do desenvolvimento tolhido. Quando pudermos virar a cabeça para trás e pudermos olhar com atenção o passado engalanado nos dinheiros da Europa que alimentaram muitas carteiras e cursos e empresas e Ferraris.
Regresso pela A17 que depois se transforma em A8. Faço a auto-estrada até à saída para a Nazaré. Depois deste dia, desta viagem, desta estrada fantasma que teve a vantagem de me esconder das pessoas, preciso de ver o mar.
Chego à Nazaré, mas viro para o Sítio. Gosto cá de cima. Gosto de vir cá para cima. Arranjo lugar com facilidade. Compro uns tremoços. Vou até a uma das arribas e deixo-me ali estar a absorver o belo sol vespertino. Acendo um cigarro. Vejo as ondas lá em baixo a baterem na areia. Há gente na praia. Há gente no mar. Fumo o cigarro. Como uns tremoços. Lanço as cascas cá de cima sobre a cabeça das pessoas que se passeiam debaixo da arribas. Mas ninguém vai saber que sou eu. Um dia destes levo cotonetes e também os lanço daqui. Com um pouco de sorte vão parar ao mar. Às vezes também me apetece fazer asneiras. Às vezes também quero ser mau. Às vezes quero ser como a Nova Leiria. A que já nasceu velha. Feia. E má.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/10]

Uma Viagem pelo Douro

Levava com o vento na cara e sabia-me bem. Era um vento frio. Mas sabia-me bem receber esse vento na cara. Entrou algum pó, se calhar mosquitos, pelos olhos dentro. Chorei. Do pó, dos mosquitos ou do vento. Senti as lágrimas geladas escorrerem pela cara abaixo. Mas estava feliz.
Punha a mão de fora da janela e fazia-a navegar no vento. Para cima. Para baixo. Numa espécie de bailado.
Vinha de comboio a descer o Douro. Vinha do Pinhão. Ia para a Régua.
Mas isso é para onde vou quando quero esquecer onde estou.
E estou na sala. Sentado no sofá. A olhar para a televisão. Olho para a televisão para não ter de olhar para ela. A televisão está à minha frente. Desligada. Ela está no sofá ao lado. Acho que está à espera. À espera de qualquer coisa. E então ouço Então?
Então? Então nada! O rio a correr veloz, lá em baixo. Mas não tão veloz quanto eu e o comboio. Também não era assim muito veloz, o comboio. Não era o TGV. Nem o Intercidades. Mas o vento dava-me essa sensação de velocidade. Que voava sobre as vinhas. Sobre o rio. Sobre o casario que se avistava sempre lá ao fundo, a passar, a ficar para trás, mas sempre outra vez mais à frente. E de novo lá para trás. A passar como as folhas de um livro que eu folheava. E sorria.
Tinha acabado de comer uma costeleta grelhada. Antes, tinha aberto as hostilidades com uns peixinhos da horta. E terminado com um bolo de noz com doce de ovos. Vinha feliz. Claro que sim. E aquela paisagem. Aquele verde. Aquele buraco fundo provocador de vertigens. E magia. Por vezes estava por cima das nuvens. Depois via-as lá em cima. Branquinhas contra um céu azul.
E então?
Então era outro tempo. Éramos outras pessoas. Ainda acreditávamos. Ainda tínhamos esperança no futuro. Tudo nos era devido. O mundo era nosso e nós estávamos aqui para o agarrar.
E depois… E depois os anos passaram. As coisas não foram como eram. O mundo, afinal, não era nosso.
Mas bem que pareceu, durante aqueles breves momentos. O pôr-do-sol de copo de branco na mão. A ver o sol morrer. Imaginámos que era no Porto que morria. O sol. Na Foz do Porto. Lá no longínquo horizonte. Nós bebemos a ele. Ao sol. À Foz. Ao Porto. A tudo. Tchin-tchin.
E então?
E então levanto-me. A televisão continua desligada. Ela continua a olhar para mim e a perguntar E então? E eu não sei o que lhe responder. Desde o momento em que coloquei o pé no apeadeiro que perdi o sorriso. O brilho do futuro.
Acho que deixei a felicidade no Douro. Perdida num daqueles socalcos. Entre os copos de vinho que fui bebendo sempre que podia. Um copo de vinho nunca se nega.
Ainda a ouço perguntar outra vez E então?
E então saio de casa.
Deixo-a sentada no sofá da sala.
Saio de casa.
E o que eu dava para voltar ao Pinhão e voltar a descer à Régua de comboio sem saber como o futuro iria matar todos os sonhos.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/13]

Eu Ia, mas Voltava. Voltava Sempre

Saía a correr da Faculdade, com a mochila cheia de roupa suja. Chegava à Casal Ribeiro a transpirar de tanto correr e ficava nervoso a arrastar o passo, centímetro-a-centímetro, na fila para comprar o bilhete para o quase-expresso. Às vezes já não havia lugar. Tinha de esperar por outro horário. No meio dos cheiros tóxicos do gasóleo, do barulho, das pessoas transpiradas como eu, dos gritos, das conversas tontas e aos berros, dos motores agressivos das camionetas, das sandes secas de fiambre tipo york e queijo de barra e das imperiais mortas.
Na hora de ponta podia demorar-se uma hora a sair de Lisboa.
Em Aveiras acabava a auto-estrada. Parava-se no Pôr-do-Sol. Às vezes no Bigodes. Ou no Dom Abade. Comia uma sandes de panado. Uma mini. Fumava no autocarro. Naquele tempo ainda se podia fumar nos autocarros. Era uma festa de fumo de cortar à navalha. Por vezes nem via o condutor. Por vezes aviava-se um charrito. As janelas abertas. Não havia ar-condicionado.
Vinha pelo país profundo. Passávamos ao lado do Cartaxo. Vínhamos pelas Caldas da Rainha. Por Rio Maior. Horas e horas a fio dentro do autocarro. O nervoso. Nunca mais chego. Estou atrasado.
A chegada a Leiria. Passar pelo Panaceia. Pelo Amadeus. Largar lá o saco da roupa suja que a mãe iria lavar. Mais tarde. Era tempo de beber uma imperial. Comer uns tremoços. Encontrar os amigos. Os que tinham ido para o Porto. Os que tinham ido para Coimbra. Os que não tinham ido para lado nenhum. Todos tínhamos novidades. Novas músicas. Novas bandas. Novos grupos portugueses. Novos concertos. E as notas, pá? Ah, sei lá, meu!…
Jantávamos por lá, pela cidade. Íamos às Cortes. Ao Drácula e ao Pião. Íamos ao Salvador. Ao Pátio das Cantigas. A outros sítios que não me lembro. Comíamos e bebíamos e conversávamos tertúlias culturais. Tínhamos vontade. E desejo. E capacidade.
Criávamos conhecimento. Novos namoros.
Dávamos uma fugida até à Rua Direita. Fumávamos um charro às escondidas. Este veio de Amesterdão, pá!
Ouvíamos à porta É só para clientes habituais. Mas não era para mim. E não era só em Lisboa. Leiria também tinha a sua selecção. Querer entrar era um desejo. Entrar era só para quem podia.
E passava-se o fim-de-semana nisto. Em coisas assim. Numa grande rotação. O que a idade permitia. O que o corpo conseguia. O desejo. A vontade. As coisas novas. O que estávamos a descobrir. E trazíamos tudo para a cidade. Trazíamos a gasolina que alimentava a nossa pequena cidade.
Leiria podia ser provinciana, mas conhecia coisas. As coisas que os leirienses que andavam pelo mundo traziam.
No final de Domingo, às vezes ainda de ressaca, lá ia com a roupa lavada, passada-a-ferro e bem dobrada na mochila, à vezes com um segundo saco com tupperwares e comida congelada. Eram as saudades de casa. Tornadas feijoada. Dobrada. Rancho. Uma morcela de arroz para assar lá na capital.
A semana servia para descansar dos fins-de-semana cheios e intensos. Armazenar conhecimento e estórias para vir depositar na terrinha que, às vezes, te cospe e deita fora. Mas cagas nisso.
É que é de novo Sexta-feira e estás com vontade de regressar e encontrar tudo como tudo era.
Até que tudo muda.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/15]

A Vila Deserta e Eu

Entro no café da vila. Está quase deserto. Há um homem pequenino encostado ao balcão. Usa umas bermudas de ganga e uns chinelos enfiados no dedo. Tem uma camisola de alças, daquelas do basquetebol, do Porto, grande, enorme. Fica-lhe abaixo do rabo. Riscas azuis.
O homem pequenino fala uma algaraviada qualquer onde mistura francês, português e outras coisas que não entendo. Fala para o homem do café mas este parece não ouvir nada.
Encosto-me ao balcão e peço uma imperial e tremoços. Não há, diz. Não há nada, percebo eu. Não há imperial que os barris vão todos para a praia. Não há tremoços à borla mas há amendoins em lata num aparelho que funciona a moedas de um euro. Está bem, uma mini, peço.
O homem pequenino bate com a mão no balcão de inox e vai-se embora. O homem do café liga o moinho do café que começa a fazer um barulho ensurdecedor. Olho para a televisão e vejo tudo a arder. Não ouço o que dizem por causa do moinho do café.
Bebo a mini de um gole, deixo uma moeda no balcão e vou-me embora.
Está calor na rua. Calor e abafado. Meto por uma rua que faz sombra e vou andando sem destino.
Volto a cruzar-me com o homem pequenino. Está no meio da rua a olhar para uma casa de azulejo. Tem ar de renovada. Casa antiga renovada. Ele olha para mim, orgulhoso e diz Ma maison. Eu aceno com a cabeça e digo É uma boa casa, sim senhor! Parabéns.
Passo pelo homem e continuo rua fora. Está calor. Não se vê ninguém na vila. Não há barulhos. Parece uma terra morta. Irreal.
A rua chega ao fim e desemboca numa praça. Está montado um palco de madeira. Uma teia com luzes coloridas desligadas. Um PA levantado nos lados do palco. Ao lado um cartaz. Zé Café & Guida.
Tenho de cá vir ver, penso. O Zé tem bigode grande. A Guida é gira. Na rua está calor. Estou com sede.
Sento-me nos degraus da igreja, à sombra, e acendo um cigarro.
Uma miúda, não mais de doze, treze anos, aparece vinda não-sei-de-onde e estende-me uma caixa de madeira. É para a festa, diz. Eu olho para ela. Puxo uma baforada de fumo e meto a mão ao bolso dos calções. Tiro uma moeda de euro e coloco-a na caixa. Obrigada!, diz enquanto se afasta a correr e desaparece numa esquina.
Acabo o cigarro. Não volta a aparecer vivalma.
Tenho de vir ver o Zé Café & Guida, digo para mim próprio. Levanto-me e meto-me noutra rua da vila. Embrenhar-me até me perder e desaparecer. Tornar-me invisível. Uma pedra da calçada. Um Dente-de-Leão. Um nada. Perdido no vento.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/11]

A Indiferença

Acordei constipado. Mal conseguia abrir os olhos. O nariz estava vermelho. Em carne viva tanto que me assoei. A expectoração acumulava-se na garganta. Acho que tinha febre. Os lençóis e a almofada estavam molhados. Tinha muito frio.
Pus os pés fora da cama e espirrei três vezes.
Fui tomar um antigripe. Uma porra qualquer que tinha cá por casa e que nunca me fez nada.
Coloquei um púcaro com água ao lume e fiz um chá de limão.
Telefonei para o trabalho, avisei do meu estado e informei que iria ficar por casa. Espirrei por duas vezes ao telefone. Funguei bastantes outras. Puxei o ranho uma vez, mas com bastante som. Que sim senhor, disseram lá do outro lado.
Desliguei o telemóvel.
Desliguei o lume do fogão e deixei lá o púcaro com a água.
Fui até à varanda fumar um cigarro.
Menti.
Não estou constipado. Não tenho expectoração. Não mais que o normal, pelo menos. Não tenho o nariz assado. Nem febre.
Acordei como o tempo. Cinzento. Chuvoso. Mal disposto.
Acordei sem vontade de ver gente.
Adormeci ontem a ver o noticiário. Dormi mal durante toda a noite.
Fui para a cama com a Síria na cabeça. Depois de Aleppo, Ghouta oriental. As violações. As crianças. Os crimes. Os crimes horrendos. E o mundo a girar nas suas ordens económicas e políticas e monetárias.
E a indiferença.
Fui para a cama com Trump na cabeça a dizer que se estivesse na escola teria corrido contra o sociopata mesmo sem arma. Com Trump a querer armar os professores para uma guerra fria nas salas de aulas.
Fui para a cama com a ganância de quem lucra com a miséria alheia. Com a desgraça dos outros. Com a guerra. E a fome. E as doenças.
E a indiferença.
Fui para a cama a pensar que há um partido autofágico na Assembleia da República.
Fui para a cama a pensar que o futebol, agora, joga-se sem bola, joga-se em palavras merdosas na boca de gente sem escrúpulos nem princípios.
Sim, eu sei. Sou parvo.
O que é que isso interessa?
Que interessa a estas pessoas que passam ali em baixo e entram no café e vão a correr na rua para escapar à chuva e carregam sacos de plástico com as compras do supermercado e almoçam no restaurante biológico e passam cheques a ONG’s que actuam no terceiro mundo e que mantém uma criança na escola durante um ano e enviam presentes coloridos pelo Natal e compram maçãs de Alcobaça e pêras do Bombarral e os iPhone montados na China? Que porra interessa as mortes de crianças, mulheres e homens em terras tão distantes que não lhes diz nada?
Mandei a beata pela varanda fora. Que se foda a ecologia.
O que interessa é o plágio do Diogo Piçarra. O valores da habitação em Lisboa e Porto que ainda estão muito aquém das principais cidades europeias. Que os salários não se equivalem não conta na equação.
Acordei mal-disposto e não me apetece ir trabalhar.
Há dias em que me apetece enfiar debaixo dos cobertores e nunca mais sair de lá.
Sim, sou parvo. Eu sei.
E a indiferença.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/27]