Não Existe Amor em SP

Fui roubar umas ameixas ao terreno do vizinho. Ele está lá para Lisboa, ele e a família, só cá vêm aos fins-de-semana, agora nem isso, as ameixoeiras estão carregadinhas de ameixas, ninguém as apanha, ninguém as come, apanhei eu, vou comê-las eu, obrigado vizinho!, continua aí pela capital e deixa-me cá com saúde suficiente para conseguir saltar o muro para o teu terreno e continuar a abastecer a minha fruteira com a fruta que esqueces.
Já tinha apreciado as ameixoeiras em flor, tão bonitas. Antecipei as ameixas. Gordas, recheadas, sumarentas, fresquinhas. Antecipei comê-las. E é o que estou a fazer.
Apanhei um alguidar de plástico cheio de ameixas vermelhas e amarelas. Lavei-as no quintal. Enchi o alguidar de água e esfreguei-as uma a uma, delicadamente.
Em casa dividi-as em vários recipientes. Coloquei-os no frigorífico. Deixei algumas cá fora, na fruteira.
Liguei a televisão da cozinha. Estava a mostrar mais uma peça sobre o presidente brasileiro. Era uma peça sobre o ódio, o ódio aos jornalistas, o ódio às mulheres, o ódio generalizado. Era um remake do que o presidente brasileiro tem feito com alguma regularidade desde que foi eleito, sim, ele foi eleito, sim, eu entendo, é difícil de perceber, não é? Não tinha apanhado a notícia de início e puxei a box atrás para ver tudo. Às vezes ainda me surpreendo com a minha morbidez.
Lavei umas ameixas, umas três ou quatro, e plantei-me frente à televisão, em pé, a ver a peça. Aquele homem é um natural. Tudo nele soa real, honesto, nojento, uma verdadeira boçalidade. Trinco uma ameixa. Ela rebenta de sumo e escorre-me pelo pescoço. É doce, mas não em demasia. Enfio a ameixa inteira na boca e vou roendo tudo até só ficar o caroço. Limpo o pescoço com a t-shirt, que puxo para cima. O presidente brasileiro começa por mandar calar os imbecis da sua comitiva, que não param de falar enquanto o chefe dá uma entrevista para a comunicação social. Mostra dor de cotovelo à CNN por ter feito notícia com as manifestações anti-governamentais da véspera, coitados, que não percebem nada de informação. Deito fora o caroço todo roído, sem um pedacinho pequeno que seja da polpa da ameixa, e meto outra inteira na boca, uma grande, que tenho de empurrar para dentro da boca, que trinco com dificuldade e que força a saída do sumo pela boca e que me escorre, outra vez, pelo queixo abaixo e me suja a t-shirt e ouço-me dizer Outra vez? Sou um porco! enquanto o presidente brasileiro descompõe uma jornalista da Globo que o inquire sobre o facto de ter chegado ali, ao seu destino, sem máscara de proteção e ter andando, desde o início da pandemia, a promover aglomerações, num país que, na véspera, tinha atingido a marca das quinhentas mil mortes provocadas pela Covid-19. Não, o porco era ele. Ele é que era o porco. O porco eleito. Aquele não era o discurso de um presidente. Aquele era o discurso de um chefe miliciano habituado a falar com marginais. Puxei de novo a box para trás. Comecei a roer a última ameixa que tinha na mão. Eram bem boas. Revejo, de novo, os ataques agressivos do presidente brasileiro. O ódio é uma constante. O ódio e a indiferença pela dor alheia.
Enquanto ouço pela terceira vez toda aquela podridão a sair pela cloaca escancarada do presidente, lembro-me de uma música do Criolo, que reza assim

Não existe amor em SP
Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra afogada
Em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu

e dou graças ao destino de me ter largado aqui, junto às ameixoeiras do meu vizinho que eu posso roubar em paz e não na terra de um genocida que, perante quinhentas mil mortes que não quis evitar, pergunta E daí?

[escrito directamente no facebook em 2021/06/22]

Água Tónica com Gelo e Limão Espremido

Saí de casa de manhã e estava frio. Aquele frio que vem com a neblina matinal que estava habituado a enfrentar em São Pedro de Moel mas não noutro lado qualquer. Saí com um casaco de algodão vestido.
Depois de almoço chegou o calor. Um calor abafado. Húmido.
Não gosto de andar com coisas nas mãos e então, mantenho-me com o casaco vestido. Estou a transpirar que nem um porco. Transpiro em bica. Tenho o cabelo encharcado e a pingar pela cara abaixo, pelo pescoço abaixo, pelo peito abaixo. Sinto manchas de humidade debaixo dos sovacos. Nem quero olhar para não me enojar. E uso desodorizante. Mas o calor está demais, agora. Cruzei a cidade. Não havia árvores por onde escapar. Vim debaixo da torreira de sol. A destilar.
Encontro uma esplanada. Uma esplanada fechada. É o que há, penso. Entro. Peço uma água tónica com limão espremido.
Agarro num Correio da Manhã e leio as gordas do país profundo. Sinto-me agoniado com as manchetes, com as caixas. Largo o jornal. Agarro n’A Bola. Milhões. Milhões, milhões, milhões. N’A Bola só se fala de milhões. O novo normal. Errei o amor, a paixão e o desejo profissional. Devia ter continuado aos chutos na bola e cagado para os livros. Às vezes sinto-me zangado. Zangado comigo próprio. Pelas escolhas erradas que fui fazendo ao longo da vida. Gostar de ler, gastar dinheiro em livros, deixá-los perdidos ao acaso. Devia ter continuado aos chutos na bola. Ter escolhido estudar economia. Ou direito. Ter-me tornado um filho-da-puta que poderia dizer, com um sorriso cínico nos lábios É a economia, estúpido! E gozar com os falhados desta vida que ainda acreditam no Pai Natal, na Europa e na bondade do homem.
O rapaz chega com um copo quente, acabado de sair da máquina de lavar louça, duas gotas de limão que mal consigo ver no fundo do copo e duas pedras de gelo, que o gelo está pela hora-da-morte, nem uma rodela de limão! e a garrafa de água tónica, Schweppes, vá lá!, a temperatura ambiente.
Peço ao rapaz para espremerem mais um pouco de limão. Mas para não cuspirem no copo. Mais uma rodela. Mais gelo. E a garrafa fria. Ah!, e uma colher para mexer o limão, se faz favor. O rapaz pede desculpa e volta para trás.
Largo também A Bola. Olho em volta. Na televisão passam vídeo-clips de grupos musicais que desconheço, mas não ouço o som que o som da televisão está desligado. Ali, na esplanada fechada, dá-se primazia ao barulho das gralhas que vomitam opinião sobre a vida dos outros. Os outros são os primos, vizinhos e demais conhecidos. Elas são, invariavelmente, vadias, eles uns calões, toda a gente cheia de defeitos mas elas, elas não! Elas são poços de virtude e lugar cativo na missa das nove na Sé Catedral.
O rapaz traz o copo à temperatura ambiente, com um dedo de limão espremido e cheio de cubos de gelo. A garrafa de água tónica, Schweppes, está gelada. Verto a água tónica no copo e mexo com a colher.
Vou bebericando enquanto olho, na televisão gigante ao fundo da sala, um grupo de raparigas com fatos de látex a dançar em grupo, os mesmos passos, os mesmos gestos com os braços, as mesmas voltas retorcidas com os corpos. E penso que todos tendemos para aquilo. Para sermos iguais. Para ficarmos iguais. E penso que, na verdade, é o melhor a fazer. Ser igual. Mas não consigo afastar de mim aquela sensação de calor debaixo do casaco de algodão que não ouso despir.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/19]