Para um Diário da Quarentena (Quinto Andamento)

Hoje dei corpo à expressão da directora geral de saúde. Saltei o muro do vizinho e fui lá buscar dois frangos. Hoje ou ontem. Era de noite. Talvez já depois da meia-noite. Ou talvez não. Os dias e as noites, as horas, o tempo está um labirinto onde me sinto perdido. Tenho a noção do agora que é onde estou. Depressa me perco em relação ao tempo passado. Mas acho que foi hoje que já devia ter passado da meia-noite e que devo lá ter ido de madrugada para ninguém me ver.
Hoje, portanto, dei corpo à expressão da directora geral de saúde e saltei o muro da casa do vizinho, que está em França, e fui lá buscar dois frangos ao galinheiro. O vizinho tem lá em casa alguma criação que um velho da aldeia cuida. Galinhas, coelhos, perus. Até lá tem umas cabras que o velho põe a aparar a relva da casa e eu próprio já pensei em pedi-las emprestadas para me virem comer as ervas que crescem desgraçadamente ao deus-dará e para as quais não tenho paciência de andar a cortar quase de dois em dois meses.
Foi um escarcéu dos diabos quando entrei no galinheiro. Mas a casa fica longe da aldeia e o galinheiro fica no lado sul da casa e que serve de bloqueio à propagação do som. Acho que ninguém ouviu o barulho das galinhas a cacarejar e o irritante cocó que não me largava as pernas e, por duas vezes, bateu asas e de um pulo tentou bicar-me o nariz até que lhe dei um pontapé que o fiz dançar e vi-o a fugir para dentro de uma capoeira, talvez para as asas confortáveis de alguma galinha poedeira.
Torci os pescoços aos dois frangos e trouxe-os pendurados nas mãos até casa. Levei-os para a cozinha para o cão e os gatos não se armarem em parvos. Cortei-lhes os pescoços e deixei-os pendurados a derramarem todo o sangue para um alguidar. Pus uma panela grande, a maior panela que tenho em casa e que nunca uso senão para isto, cheia em dois terços de água e deixei-a ao lume em cima do fogão. Enquanto esperava fui para o alpendre fumar um cigarro. Era de noite. Madrugada, já. Via ao longe as luzinhas da aldeia. Não conseguia ver as montanhas lá ao fundo. Não ouvia nenhum barulho. Nem a coruja que costuma pôr-se para aí a assobiar e que às vezes me acorda e me obriga a levantar pois já não consigo voltar a adormecer depois de ter acordado. Ia deitar o sangue fora, claro. Depois de apanhar todo o sangue dos dois frangos, ia deitá-lo fora. Se soubesse fazer arroz de cabidela, guardava-o, mas não sei. Era um segredo da minha mãe que ela própria já esqueceu. No outro dia ainda foi comprar dobrada e fez-me uma dobradinha como eu me lembrava que ela fazia. Falei-lhe da cabidela e ela desculpou-se com as galinhas de agora que já não são boas para a cabidela e eu percebi.
Acabei o cigarro e voltei a entrar na cozinha. A tampa da panela saltitava em cima da água a ferver. Retirei a tampa. Enfiei lá um frango inteiro. Contei mentalmente dois minutos, três minutos e retirei-o e larguei-o no lava-loiças. Fiz o mesmo com o outro. Voltei a contar dois, três minutos. O cheio das penas cozidas dos frangos agoniava-me, mas aguentei. E no fim, atirei o segundo frango para cima do outro, dentro do lava-loiças.
Parei por momentos a tentar pensar no passo seguinte. E agora? perguntei em voz alta. Fechei os olhos e tentei ver a minha mãe a tratar das galinhas que tinha num pequeno galinheiro atrás da garagem onde o meu pai guardava o carro todas as noites para não apanhar o cacimbo nocturno e percebi que era altura de fazer a depenagem.
Arranjei um outro alguidar e levei um frango lá para fora. Sentei-me no alpendre. Uma pequena luz iluminava-me o trabalho. Comecei a depenar o primeiro frango. As penas saíam com facilidade mas, ao mesmo tempo, era preciso usar de uma certa força. Aquela porra estava bem agarrada. O cão e os gatos aproximaram-se de mim. Deitaram-se todos a olhar para o que eu estava a fazer. A olhar para o frango a ser depenado. Um dos gatos saltou para dentro do alguidar cheio de penas molhadas e tive de o enxotar. Depois fui buscar o segundo frango e repeti as acções. No final tinha os frangos depenados e um alguidar cheio de penas. Primeiro acendi um dos bicos do fogão, peguei num dos frangos pelas patas e pelo pescoço e passei-o sobre as chamas para queimar a pequena penugem. Repeti com o outro. Depois despejei as penas dos frangos num saco de lixo e fui levar o lixo ao caixote que está na estrada lá em baixo. Acendi um cigarro e fui a fumar. Larguei o saco no lixo. Parei na estrada. Tentei ouvir barulho, mas não ouvia nada. Parecia que não havia ninguém. O mundo estava silencioso. O céu era uma cúpula cheia de pequenas luzinhas a tremelicar. Do outro lado da estrada, na casa de um outro vizinho, vizinho ausente que tinha ido para a cidade, para a casa do filho para o ajudar, ele e a mulher, mesmo depois de todos os avisos para as pessoas mais velhas evitarem todos estes contactos com os mais jovens e possíveis fontes de contágio muito mais graves para eles, quer dizer, nós, estava uma laranjeira carregada de laranjas. Saltei o muro, que nem era muito alto, tirei a camisola e utilizei-a como saco e trouxe vários quilos de laranjas para casa.
Gostei dessa ideia da horta do vizinho da directora da saúde, mesmo que não seja para ir buscar brócolos.
Regressei a casa. Quando voltei a entrar na cozinha senti o cheiro enjoativo dos frangos passados por uma pequena cozedura, misturado com o queimado da penugem. Abri uma das janelas da cozinha e deixei-a aberta. Tinha rede mosquiteira e os gatos não iriam lá entrar.
E fui-me deitar.
Há pouco, hoje ainda porque o dia ainda é o mesmo que ontem à noite que já era hoje, mas depois de ter acordado, depois de ter feito café fresco e espremido umas laranjas para um saboroso sumo e de ter torrado duas fatias de pão saloio que comi barradas com manteiga, cortei um dos frangos em pedaços pequenos, comecei com uma faca mas depois tive de ir buscar um cutelo, para fazer um guisado.
Já tenho o primeiro frango cortadinho aos bocados. O outro está no frigorífico à espera de uma ideia. Depois irei cortar uma cebola, uns alhos e umas cenouras, juntarei um tomate e um pouco de concentrado, sal, pimenta, um pouco de vinho branco, juntarei o frango em pedaços e, mais tarde, quando o frango estiver quase no ponto, hei-de juntar um bocado de esparguete.
Entretanto estarei aqui pelo alpendre a fumar mais um cigarro. A ouvir o silêncio que me cerca e a ganhar coragem para ir ver quantos são já os mortos de hoje. Mas daqui, desta distância onde estou, tudo me parece irreal. Tenho de ir a mais hortas dos meus vizinhos. Ajuda-me a passar o tempo e a sentir-me vivo, apesar da reclusão. Não tarda é Agosto e eu quero ir à praia. Ou queria. O tempo não está para estes desejos tão mundanos.
Como é que se mata uma cabra?

[escrito directamente no facebook em 2020/03/22]

Deitado no Chão do Corredor

Abro-lhe a porta da rua. Ela entra em casa. Estica o pescoço para o beijo da praxe. Eu agarro nela e encosto-a à parede do corredor. Ela deixa-se prender. A porta da rua aberta. Beijo-a nos lábios e deixo a minha língua percorrer-lhe o pescoço. Sinto-a ficar arrepiada. Mando-a ao chão. Puxo-lhe as calças para baixo. Ponho-me em cima dela. Estou ofegante. Ela também. Há um respirar roufenho. É tudo muito rápido. Tudo muito intenso. E como começa, acaba.
Eu ainda estou dentro dela quando ela diz A miúda precisa de dinheiro para uma visita de estudo. Eu saio de dentro dela e deixo-me escorregar para o lado, para o chão.
Ela levanta-se. Está sobre mim. Puxa as calças para cima e continua A mensalidade do carro não foi paga. Eu olho-a de baixo e vejo-a grande, gigante. Ela vai fechar a porta da rua. Faz o corredor até ao fim e entra na cozinha.
Eu fico ali deitado a pensar na vida de merda que temos. Salários baixos. Ela com trabalho certo mas um salário pouco mais que o salário mínimo e eu, eu recebo um pouco mais, com os trabalhos avulso que faço, mas nem sempre tenho trabalho. Muita ginástica para chegarmos ao fim do mês.
Ela aparece ao fundo do corredor. Vem a fumar um cigarro. Senta-se em cima do meu peito. Coloca-me o cigarro na boca, olha-me nos olhos, séria, e diz Precisamos de dinheiro para a miúda. Não lhe vou dizer que não vai. Dá-me um beijo na face, levanta-se e diz Puxa as calças para cima! e desaparece de novo ao fundo do corredor. Talvez de novo na cozinha. Talvez na casa-de-banho. Não vi para onde entrou.
Onde vou arranjar dinheiro para a miúda?
Levanto o corpo em arco e puxo as calças para cima. Mas deixo-me lá ficar deitado, no chão. Fumo o cigarro. E penso onde posso ir arranjar dinheiro.
Acabo de fumar o cigarro. Coloco a beata em pé no soalho de madeira até morrer. Tomo cuidado para não a deitar abaixo. Posso sempre vender a câmara. Sempre é uma Canon 7D. Mas quem é que vai dar o que ela vale? O que ela vale para mim?
Ela aparece outra vez do fundo do corredor com um telemóvel a tocar. É o meu. Ela passa-mo para a mão. Eu atendo. Ela vê a beata caída no chão. Faz-me má cara. Baixa-se e apanha a beata que já estava a queimar a madeira do soalho. Eu respondo Sim, está bem! para o telemóvel. Ela levanta-se e dá-me um pontapé nas pernas. Um pontapé fraco. Só para me chatear. E eu volto a dizer Sim, está bem! para o telemóvel. E desligo.
Digo-lhe Já tenho dinheiro para a miúda. E para a mensalidade do carro. E para uma garrafa de vinho. E sorrio-lhe. E ela responde Boa!, mas sem grande alegria. E eu continuo Um texto. Dois, três dias. Ela acena a cabeça ali, sobre mim.
Eu continuo deitado no chão do corredor a olhar para ela e digo-lhe Merecia um copo e vinho tinto. Ela sorri. Vai corredor fora com a beata na mão e diz Vem buscar.
Eu olho para o tecto e penso Tenho uma vida de merda mas é a minha! Levanto-me e vou atrás dela.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/13]