Um Passeio pelo Mato em Dia de Quarentena

Estava bom tempo. Fui dar uma volta pelo mato. Saí de casa, direcção a sul. A pé. De sapatilhas e calças de ganga. Era um passeio, não uma corrida nem jogging. Dois ou três quilómetros depois, saí da estrada e entrei pelo mato dentro. Havia um caminho. Os sulcos de um tractor.
Nos últimos dias tem chovido e, logo no início do caminho, duas enormes poças de água que me obrigaram a subir pelo meio dos fetos para passar adiante. Continuei em frente.
O mato é pobre em variedade. O arvoredo é composto exclusivamente por pinheiros bravos e eucaliptos. Entre eles muitos fetos e silvas.
Esta é uma zona de muito barro. Há muitos buracos onde outrora se tirou o barro e ficaram uns pequenos charcos que agora estão invadidos por rãs. Ouço-as a coaxar. Fazem uma orquestra à minha passagem. Por momentos torna-se insuportável. Depois deixo os charcos para trás e o coaxar vai ficando esquecido e abafado pelo som dos pássaros. Não sei que pássaros são. Não percebo nada de pássaros. Já vi umas rolas e uns melros, mas pela barulheira que fazem devem ser outros, devem haver outros.
Não deixa de ser engraçado que mesmo no meio de toda aquela cacofonia em stereo, percebia-se o silêncio humano. Não se ouvia barulho de carros. Não havia motores nem buzinas. Não havia gritos de pessoas nem o seu eterno bruá feito de conversas que nunca terminam. Ouvia os meus passos a pisar a caruma seca, a pisar pequenas poças de água e quando eram maiores, a evitá-las pisando os terrenos encharcados adjacentes e a fazer chap-chap. Ouvia bastante a minha respiração. Uma respiração tranquila mas pesada. Afinal ia a subir. O caminho levava-me de subida por entre os pinheiros e um ou outro eucalipto descamisado, mas com as cascas caídas aos pés das árvores. Aqueles eucaliptos não eram de plantação. Aqueles eucaliptos não eram para alimentar as celuloses. Estavam para ali. Perdidos, provavelmente.
Lembrei-me de quando a minha mãe ia ao mato perto de casa buscar folhas verdes de eucalipto para cozer com água numa panela e me fazer respirar o vapor do eucalipto por causa da minha bronquite. Parece que fazia bem. Acho que a mim nunca fez bem nem mal. Continuei com bronquite, mas gosto de cheiro do eucalipto. Lembro-me do cheiro que ficava lá por casa durante o resto do dia, e que era bastante agradável.
Continuei pelo caminho do mato, ainda caminhava bastante mais para o interior, mas lá mais à frente havia um corte que me iria levar à estrada, cinco quilómetros a norte de minha casa.
Apanhei um campo de malmequeres amarelos. Parecia um verdadeiro jardim. Não havia charco. Deitei-me no meio deles e tentei tirar uma fotografia minha deitado no meio dos malmequeres amarelos, ainda pensei em despir-me e fotografar-me no meio da natureza como vim ao mundo e foi nesse momento, no momento mesmo antes de tirar a fotografia, que me lembrei que havia muitas cobras no mato. Levantei-me de um pulo e voltei ao caminho. Enfiei as perneiras das calças nas meias para evitar que alguma coisa subisse pelo interior das calças acima.
Parei um bocado. Fiquei em pé. Estava numa clareira. Olhei em volta. Fiz trezentos e sessenta graus. Teria de virar à direita. Quis fumar um cigarro. Era altura da pausa para o cigarro. Já não tinha o maço. Devia ter caído no campo de malmequeres amarelos. Que merda!
Cortei à direita. Continuei em frente. Não deixava de pensar nos cigarros. Acelerei o passo. Nem pensei que naquela clareira costumavam encontrar-se as bruxas da zona. Já tinha ouvido histórias delas irem para ali, para aquela clareira, em noites de Lua cheia, dançarem nuas ao luar. Mas eu nunca vi. Só ouvi contar. Mas isso só pensei depois, quando voltei a pensar na minha volta pelo mato, que é o que estou a fazer agora porque, no momento, só pensei em fumar um cigarro e não tinha tabaco comigo.
De passo acelerado passei por um pomar. Filas e filas de macieiras em flor. Lá do outro lado havia um barracão que dava apoio ao pomar. As marcas do tractor que tenho visto deviam ir para lá. Mas já não via as marcas há algum tempo.
Passei por uma pequena ponte feita de pequenos troncos de árvores atadas umas às outras. Passei por cima de um pequeno riacho que mais parecia um charco. Havia alguns juncos. Uma ilha de canas. Voltei a ouvir o coaxar das rãs.
Os incêndios têm poupado o mato. Pergunto-me até quando?
Depois passei por uma zona de mato sem arvoredo. É um quadrado com cerca de cem metros de lado. O chão é de terra. Não há nada verde. Nem restos de folhas, nem fetos, nada. Parece um chão estéril. Ao cimo do quadrado, um conjunto de colmeias. Não sabia que havia algum apicultor por aqui. As coisas que se aprendem nas voltas da quarentena. Não vi nenhuma abelha. Se calhar não era altura de andarem por aí na galderice, de flor em flor, a comer todo e qualquer pólen.
Mais à frente a recuperei a estrada. Voltei ao asfalto. Não havia carros. Nem pessoas. Nem sequer os animais de que tanta gente fala. Só pássaros. E rãs. E mesmo assim, só lhes ouvi a cantoria. Nem os vi. É melhor assim. Não estou para ninguém. Também não vi nenhuma cobra.
O sol estava a cair. O tempo começou a arrefecer. Ainda tinha cinco quilómetros para fazer, mas ia pelo asfalto. Se tivesse frio, podia sempre correr um pouco. Afinal, estava de sapatilhas. E tinha cigarros em casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/10]

O Coronavírus

Quando finalmente resolveram fechar os aeroportos, já era demasiado tarde. O vírus já se tinha espalhado por todo o lado.
A resposta das autoridades à epidemia do Coronavirus foi muito lenta e tardia. As poucas decisões, titubeantes, esbarraram sempre na impossibilidade política: não se podiam fechar os aeroportos; não se podiam parar os comboios; não se podiam fechar as estações de Metro e de autocarros. Havia sempre algo em jogo. Nomeadamente dinheiro. Havia sempre demasiado dinheiro em jogo para impedir as pessoas de circular e, eventualmente, espalhar o vírus. Que importa algumas mortes se o dinheiro continuar a circular, junto com as pessoas e a economia. Nada pode parar. Parar é morrer. O objectivo é sempre o crescimento. Parar a circulação de pessoas e bens materiais é parar o crescimento. E isso é impossível.
Lembrei-me do Tubarão, o filme-marco da inauguração dos blockbusters de Steven Spielberg. Quando um grande tubarão aparece numa praia americana a trincar pessoas, o governador não permite que se feche a praia porque as pessoas dependem do Verão para viver o resto do ano – a economia, percebem? E assim vamos indo. O primado da finança sobre a humanidade. Onde é que isso nos levou? Para já, e segundo parece, ao fim-do-mundo. É onde estamos.
Eu estou melhor aqui em casa que as pessoas que estão em Lisboa ou, pior ainda, em Hong Kong. Tenho mantimentos no meu quintal. Comecei a produzir outros mal percebi que as coisas iam descarrilar, como descarrilaram.
Quando finalmente resolveram fechar os aeroportos, já tinham morrido alguns milhões de pessoas em todo o mundo. Como foi possível esperar tanto tempo?
Tenho seguido as notícias através da internet. A internet continua a funcionar. Algumas estações de televisão e rádio também.
Aqui no meu canto, numa aldeia perdida no sopé das Serras de Aire e dos Candeeiros, não tinha a noção de como as coisas estavam. Estão. Agora, nos grandes centros urbanos, ninguém pode sair de casa. O exército patrulha as ruas. Quem for encontrado na rua, é morto a tiro, esteja contaminado, ou não. Quando decretaram o recolher obrigatório total, quem estava em casa ficou em casa, quem estava no trabalho, ficou no trabalho. Algumas dessas pessoas puderam continuar a fazer o seu trabalho, como os que estavam na televisão, um trabalho limitado, claro, mas que mesmo assim, ia tentando pôr alguma ordem na informação que circulava pelas redes sociais.
Houve alguns movimentos de revolta que quiseram desafiar as autoridades e saíram para a rua. Um grupo de pessoas, em Lisboa, arrancou para a cidade em cima de uma camioneta, munida com colunas e música techno. Uma festa ambulante. Foram apanhados por um pelotão da Cavalaria e foram mortos a meio da Avenida de Roma. Alguém filmou do interior de um dos apartamentos. As imagens circularam rápidas pelas redes sociais. A indignação subiu de tom. Havia sempre dois grupos em confronto: os que achavam que a Cavalaria tinha feito o que lhe competia; e os que achavam que as pessoas deviam ter opção de escolha. Eu? O que é que eu acho? Onde estou é diferente. Aqui as pessoas circulam entre as casa de uns e outros. Os militares passam por cá, de vez em quando, mas não ficam. Há pouca gente. Numa cidade grande é diferente. De qualquer forma, eu não costumo sair de casa. Já antes não saía. Mas faço algumas trocas com os meus vizinhos. Ajudamos-nos dentro do possível.
A primeira coisa que fiz quando senti que o caos se estava a instalar foi colocar arame-farpado à volta do quintal. Tenho de proteger a minha horta, o meu pomar. As galinhas e os patos. Anda muita gente por aí no saque. Já disparei sobre dois indivíduos que tentaram saltar o arame-farpado. O cão começou a ladrar e eu disparei a espingarda sobre eles. Acho que lhes acertei, mas não tenho a certeza. Havia sangue sobre o muro, mas podia ter sido das feridas motivadas pelo arame-farpado.
Não sei como é que tudo isto vai terminar. As expectativas não são boas. As últimas notícias davam conta da impossibilidade de controle da epidemia do Coronavírus.
Estão-se-me a acabar os cigarros. Ainda tenho algumas garrafas de vinho na adega. Tenho algumas caixas de balas. Limpo a espingarda todos os dias. O cão e os gatos patrulham o quintal. Arranjei a câmara, que não funcionava, do portão de entrada. Tenho pena de não ter outra para o muro das traseiras.
O céu promete chuva.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/24]

Bronquite

Tenho tido bronquite durante toda a minha vida. Acho que já devo ter nascido assim, com ela. Não sei se tal é possível. Talvez seja. A primeira vez que a História me documenta um ataque de bronquite eu teria duas semanas de vida e tive de ir para Coimbra, de ambulância, fazer qualquer coisa que não podia ser feita aqui, em Leiria. Quem fez o registo para os anais, foi a minha mãe, que me dava colo, mama, me mudava a fralda e foi comigo para Coimbra, a lutar para que não morresse o filho que tinha acabado de parir há não muito tempo.
Sobrevivi. E é o que tenho feito toda a vida.
Passei a minha infância a sentir os pulmões fecharem-se à entrada de ar. Mas caguei neles. Sempre que possível. Não me deixei domar pela tristeza de uma maleita incapacitante. Joguei à bola debaixo de chuva com os outros miúdos. Fartei-me de correr e transpirar, a fugir do dono do pomar onde íamos, eu e os outros, roubar laranjas e nêsperas e maçãs, fruta que nos garantia roubo ao longo do ano, e depois íamos comê-las assim, sujas, à dentada, ofegantes, esfomeados, mas contentes com o fruto de um trabalho doido.
Às vezes, quando sentia muita falta de ar, parecia que estava a entrar num outro universo. A visão afunilava. A audição refinava, talvez para escutar acima, ou abaixo, daquela pieira maldita. Os olhos para o chão. O corpo mirrava e eu parecia fugir do mundo, deste mundo.
Às vezes tinha de dobrar o corpo, pernas direitas, cabeça para baixo, mãos presas na cintura, na presilha das calças, para tentar recuperar o ritmo certo da respiração. Inspirar. Expirar. Inspirar. Expirar. Como se estivesse a aprender. Outra vez. De novo. Tudo de novo.
Fugir de gatos. Fugir de pássaros. Fugir dos ácaros. Fugir do pó da casa. E a minha mãe a arrancar a alcatifa bordeaux, muito anos setenta, que forrava a casa e acumulava horas, dias, semanas, meses de bronquite.
Aquilo não era bem uma doença. Não me doía nada. Não dava nada jeito ficar na cama. Não podia faltar às aulas, Para ficar a fazer o quê?, não me perguntava na altura porque não era preciso, estava subentendido, mas pergunto agora porque fica melhor neste texto onde tento perceber se, ao não ser bem uma doença, é o quê? uma frivolidade? ficar sem ar, sem conseguir respirar, uma paneleirice, com certeza.
Depois apareceu o Ventilan. Acabavam-se as mezinhas que a minha mãe fazia. As papas quentes no peito. O iodo da praia. As vacas. As termas. Os banhos de água fria. De água quente. Os jactos de mangueira. Os vapores. Os vapores caseiros de folhas de eucalipto numa panela com água a ferver.
Matei um problema e criei outro.
O stress de esquecer a bomba. A ansiedade de não ter o Ventilan comigo. Mesmo quando estava bem. Quando respirava como as pessoas normais respiram. E como respiram as pessoas normais? Eu nunca fui uma pessoa normal. Não sei como é que respiram as pessoas normais. Não sei como é nunca ter medo de não conseguir respirar. Saía de casa com o Ventilan no bolso das calças como se fosse uma pila gigantesca, que se alongava braguilha fora. Se não o levasse…
Isto tudo depois de me terem garantido a mim, ao meu pai, à minha mãe, às minhas duas avós, ao cão e ao gato que tive de certeza, que sempre os houve nas casas dos meus pais mesmo que eu não me lembre, que com a idade iria passar. A adolescência iria matar a bronquite. Poderia ser jogador de futebol e ser o Cristiano Ronaldo antes do Cristiano Ronaldo ser o que é porque esta minha incapacidade respiratória morreria antes de eu poder ser um herói do futebol e, no entanto, tanta ciência, tanta tecnologia, conhecimento, liberalismo, progresso, idas à Lua e a Marte, e um sonho que não tive morreu porque, afinal, nada do previsto aconteceu. Claro que joguei à bola. Com a Malta da Rua, na Escola, a fugir ao meu pai que não queria que eu jogasse à bola à chuva, e depois tinha de fugir, outra vez, para escapar à mão pesada que, invariavelmente, iria bater, violenta e dura, no meu rabo.
Não passou, a bronquite. Os anos não mataram a minha bronquite. Mas eu fodi-a. Fumei todos os anos ao longo dos anos. A bronquite não levaria a melhor. E nunca levou. Um cigarro nos dedos, na boca, um cigarro aceso entre os dedos da mão em conversas, nos bares, nas ruas, em casa, na cama, no sofá, na banheira de óculos escuros a ler O Jardim de Cimento de Ian McEwan, na companhia do vinho, da cerveja, do gin, do vodka, do whiskey. Sozinho, tantas vezes sozinho, à janela, à varanda, à entrada do prédio, debaixo do beiral, encostado a uma montra, dentro do carro, em cima da bicicleta, depois de comer, depois de foder, depois de correr e de uma partida de futebol no campo de terra batida do colégio das freiras para onde íamos jogar depois de subir e saltar as grades que eram suposto manter-nos do lado de fora. Fumar. Fumar desde os quinze anos. Diariamente. Não me matas, bronquite. Matar-me-ei eu primeiro.
Mudei várias vezes de medicação tentando acabar com o Ventilan. Tomei medicamentos cujos nomes fui perdendo com o tempo. Uns duraram pouco. Outros duraram um pouco mais. Mas quase todos se revelavam frágeis ao fim de algum tempo em convivência comigo. Sim, eu não sou fácil. Para uns sou uma aventura, para outros um tédio, para a maior parte uma chatice que se quer esquecer.
Agora estacionei no Xoterna. Tem um nome merdoso mas é o medicamento que mais resultado parece ter sobre esta minha incapacidade de respirar como as pessoas normais. Mas o Ventilan anda sempre por cá. Escondido. Já não anda no bolso das calças porque já não preciso dele com urgência. Já não stresso à sua ausência. Mas é sempre bom saber que ele existe. E está na mesa-de-cabeceira. No porta-luvas. Na mochila. E o mais tranquilizador é saber que o posso comprar em qualquer farmácia pela módica quantia de dois euros e tal. O Xoterna, sem receita, custa cinquenta euros. Ter bronquite é uma cena de ricos.
A Primavera é terrível por causa dos pólenes. O Outono é terrível por causa da queda das folhas e dos pós que levanta. O Verão é terrível por causa do excesso de calor. O Inverno é terrível por causa da humidade e do frio. Tudo é terrível e qualquer coisa é motivo para os alvéolos se fecharem, os pulmões mirrarem e me faltar o ar. Mas sobrevivo. Tenho sobrevivido sempre. Com um copo de vinho tinto alentejano numa mão e um cigarro aceso na outra. Fode-te!, bronquite.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/24]

Do que Me Lembro à Distância

Isto aconteceu há muitos, muitos anos, numa outra vida, era eu uma criança, livre e solta, ainda não conspurcada pelo ensino e as obrigações da escola.
Vivíamos, eu e os meus pais, nos arredores da cidade. Zona de campo, pomar, hortas e pinhal. De árvores de fruto a couves e resina, de tudo um pouco havia para sujar a roupa e levar a minha mãe ao desespero. Sim, vivia na rua. Não vivia propriamente na rua, tinha casa e televisão, e o meu pai até tinha carro (que era, aliás, um automóvel), mas passava o tempo todo na rua, a brincar, a conhecer amigos, a fazer asneira, a crescer.
Lembro que uma das minhas brincadeiras preferidas, e isso já um pouco mais tarde, porque já tinha ficado quadrado pela escola – sabia ler e escrever -, era assentar, numa agenda roubada ao meu pai, as matrículas dos carros que passavam em frente a casa. Foi a minha primeira colecção. Com muitas matrículas repetidas e que utilizava para troca com os meus vizinhos.
Mas ainda mais atrás, antes de ir para a escola, andava eu, um dia, atrás de uns patos que se passeavam lá pela zona soltos a grasnar quando, de repente, perco o chão e tombo num tanque que por lá havia, sem protecção (os tempos eram outros), e onde os patos costumavam nadar.
Era Inverno, eu estava cheio de roupa pesada, camisola interior de algodão, camisola de gola alta, camisola de lã, cuecas, ceroulas, calças de fazenda, dois pares de meias e botas grossas, tudo encimado por um casaco grosso e quente. Pesado, portanto. E não sabia nadar. Nunca tinha nadado. Mas recordava-me da televisão. Recordava-me de imagens de gente na água. De gente a mexer os braços à frente do corpo e a bater os pés para se mover dentro de água.
De olhos bem fechados, não fosse a água cegar-me (ainda hoje não consigo abrir os olhos dentro de água), comecei a mexer os braços à minha frente e a bater os pés, pesados, na água. Lembro-me de tocar em coisas estranhas na minha fuga, folhas, plásticos, lixo e outras coisas não identificáveis. Passou o tempo. Não sei precisar quanto. Mas muito. O tempo de uma vida, do que me lembro à distância.
Quando dei por mim estava a bater com as mão na parede do outro lado do tanque. Consegui agarrar-me e subir para o pequeno muro. Sobrevivi. E nessa altura percebi que era imortal – ainda hoje acho que o sou.
Encharcado, a tremer de frio e de medo, dirigi-me para casa. Ia com receio do que a minha mãe me pudesse fazer. Imortal, mas com respeito aos pais. Não lhe podia contar a verdade. E se eu lhe dissesse que tinha chovido muito?

[escrito directamente no facebook em 2017/07/28]