Regressar a Casa

Já lá não ia desde a morte dos meus pais. Agora precisava de ir. Não precisava mesmo. Podia não pensar em tudo o que está semeado por lá, tudo o que foi semeado por lá ao longo dos anos, dos meus anos também, durante a minha infância e adolescência, todos os segredos que fui guardando em cofres impossíveis de serem encontrados, em caixas do tempo que iria abrir alguns anos depois e que esqueci, ou perdi o interesse, não sei, há alturas na vida em que somos parvos e fazemos gala dessa parvoíce, como as cidades que deitam casas antigas, casas com história, abaixo, ou as árvores, que estão sempre doentes, nunca vi árvores para adoecer como as árvores da cidade e ao longo do rio, coitadas, sempre doentes, sempre a apodrecer, sempre a fazerem tudo para serem serradas, podadas, deitadas abaixo, às vezes também é porque tiram a vista a alguém importante, ou sujam a calçada, e para que é que interessa a sombra que fazem nas pedras de basalto da cidade quando se percorre as ruas da cidade de automóvel com motorista?
Na verdade não precisava de ir lá a casa. Podia deitar fora a chave, vender a casa a quem quisesse comprar, com ou sem recheio, segredos, livros, poemas escritos aos dezasseis anos, contos que se arrastavam em folhas soltas e que um dia iriam fazer um livro, um Epitáfio à Loucura, um nome assim pomposo na arrogância da minha adolescência, e depois largados por lá, perdidos em gavetas, no meio de livros que nunca mais abri, ficaram a apanhar pó que a minha mãe nunca mexia nas minhas coisas, era eu que limpava sempre o pó aos livros, aos discos, às prateleiras que ia enfiando no quarto, era preciso acomodar sempre mais livros que apareciam assim, às carradas, nasciam do dinheiro das senhas de almoço que não comprava, dos trabalhos que prometia à vizinhança, à minha mãe, ao meu pai, para poder ler quando descobri que havia mais gente no mundo que eu e que tinham histórias fantásticas de vidas absurdas, tão longe da minha para me contarem, e são ainda alguns destes livros que ficaram por lá, Os Cinco, os Sete, As Gémeas no Colégio de Santa Clara, O Colégio das Quatro Torres, a colecção Mistério, livros que guardei para os meus filhos e foram ficando por ali, eles cresceram, não ganharam hábitos de leitura, nunca lhes cheguei a dar os livros e eles agora não servirão para mais ninguém, nem para mim que não tenho vontade de regressar à infância, uma infância em que a vida ainda podia ser uma aventura nos Rochedos do Demónio, mas ainda por lá estarão outros livros, livros para alguém mais crescido, como os livros do Harold Robbins que devorei na cama noites dentro, de lanterna em punho e a porta encostada para os meus pais não verem a luz acesa tão tarde em dias de aulas, e cadernos inteiros com desenhos e riscos e palavras soltas e nomes de miúdas, miúdas de quem gostava, algumas já nem saberei quem são, quem foram, mas devem ter sido importantes que as miúdas sempre foram importantes na minha vida, mesmo as que não me ligavam nenhuma que eu sempre gostei das miúdas mesmo as que não gostavam de mim, algumas delas vieram a gostar anos depois mas já era tarde, não era?, que o comboio só passa uma vez na estação, li esta frase estúpida não sei onde e sempre pensei que a iria utilizar um dia e ainda estou à espera desse dia.
Quantos anos passaram desde que aqui entrei pela última vez?
Lembro-me de ver a minha mãe ali à janela, naquela janela ali, a janela da cozinha, onde ela ia chamar-me, chamar-me pelo meu nome em diminutivo, em altos berros para toda a rua e todo o bairro saberem que ela andava à minha procura, malandro, e onde é que eu andaria? Por aí, mãe, por aí.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/19]

Estrela Rock

Deixa-me dizer-te uma coisa. Se eu fosse artista, seria um músico de rock. Guitarrista. Provavelmente também vocalista. Tenho pinta de vocalista. Mas guitarrista é que era. O guitarrista é o gajo da música. O gajo que caracteriza o som da banda. E acho que tenho estilo para estrela rock. Estar em cima de um palco e captar em mim todo os olhares sem me deixar amedrontar. Olha aqui o meu air guitar! Olha, olha! Estás a ver? Dou a volta ao braço. Como o Pete Townshend, estás a ver? Sabes quem é, não sabes? O gajo dos Who. Aquele que há uns anos foi acusado de pedofilia. Ou foi só de ter entrado em sites de pornografia infantil? Já não sei. Mas também não interessa muito. O que interessa é que um gajo destes, com pinta, com estilo, tinha as gajas todas na palma da mão, estás a ver? É preciso ter estrutura para se ser estrela rock. Eu acho que tenho essa estrutura. Tenho pena é de não saber tocar guitarra. A culpa foi dos meus pais. Nunca me puseram a aprender a tocar guitarra. Naquela altura os miúdos jogavam andebol e iam para o escutismo. Tive uma semana no escutismo. Andei quatro anos a jogar andebol. Nenhuma das actividades me serviu de nada ao longo da vida, e se ela vai longa. Ainda cheguei a jogar andebol na União de Leiria, sabes? Foi o meu momento de glória. Mas não ganhei nada. Nunca cheguei a fazer nada de glorioso no andebol. Ganhei uma vez uma medalha num campeonato de futebol de salão. Naquela altura chamava-se assim, futebol de salão. Futsal é uma frescura amaricada de gajos que não são bons o suficiente para jogarem futebol a sério, sabes? futebol de onze. Ainda joguei futebol de onze em campos pelados. Esfacelei muitas vezes os joelhos, mas eram jogos entre amigos. Às vezes os jogos terminavam à porrada. Éramos todos muito nervosos. E quando perdíamos, tínhamos todos muito mau perder. Mas eu devia era ter aprendido a tocar guitarra. Se tivesse aprendido a tocar guitarra, poderia ser hoje uma estrela no firmamento e no Walk of Fame ou no Rock and Roll Hall of Fame. Apareceria nas colectâneas dos melhores sucessos do ano. Ia tocar aos festivais de Verão. Qual David Fonseca? Qual Paulo Furtado? Qual Afonso Rodrigues? Era eu, pá! Ao pé de mim, todos eles seriam uns meninos. Porque eu tenho garra para isto. Sou um animal de palco. Um dia fui convidado por um professor, no liceu, para declamar poesia na festa de final de ano lectivo. Eu, que nem gostava de poesia, estás a ver? Quando senti as tábuas do palco debaixo dos meus pés, oh meu Deus, ofusquei todas as outras participações. Até não há muito tempo, ainda se falava da minha prestação. Fumei uma ganza antes de subir ao palco e destruí os poemas que me tinham destinado. Ficou toda a gente admirada comigo. E chegaram-me a dizer Tu tens pinta para o espectáculo. Tu devias ir para teatro. Devias ser actor. Acabei em economia. Também não fiz nada com a merda do curso. Economia! Quem é que quer saber da merda da economia? Como é que engatas uma gaja a dizer que estás a estudar economia? Foi aí que comecei a mentir. Trabalhava em cinema, estás a ver? Comecei por dizer que era assistente de produção, depois assistente de realização, depois argumentista, mas foi quando comecei a dizer que era realizador que as coisas ganharam uma dimensão tal que tive de abandonar a mentira. Já não tinha mãos a medir com o assédio que sofria por parte das gajas. Das gajas e dos gajos. Que aquilo ali, marchava tudo. Mas nunca gostei de gajos. E foi aí que deixei de sair como saía. Acalmei. Terminei o curso. Comecei a trabalhar. Uma vida de merda, estás a ver? Eu que me imaginava o novo Jim Morrison a enfiar pelas goelas abaixo todas as drogas que me ofereciam, como o Jim Morrison fazia com aquela tipa dos Jefferson Airplane, nunca sei o nome dela, quando fizeram a digressão peça Europa, percebes? Estavam sempre a voar, sem aterrar, sem precisarem de abastecer, sempre abastecidos, numa trip do caralho, mas afinal, percebi que já era tarde demais para aprender a tocar guitarra e ser uma estrela rock. A culpa, no fundo foi dos meus pais, não é? Nessa altura ainda me dei com uns gajos da faculdade que tinham uma banda. Cheguei a tentar escrever umas letras para eles. Mas não tinham pinta para aquilo, pá! Aquilo era pessoal que fez uma demo, chegaram mesmo a editar um disco, mas nunca foram a lado nenhum, não tinham estaleca e nunca venderam o suficiente para serem alguma coisa. Eu, eu se tivesse sido músico, acredita, seria mesmo uma estrela do caralho que toda a gente conheceria, como o António Variações, estás a ver? Um gajo excêntrico. Eu também seria excêntrico. As estrelas têm de ser excêntricas para que as vejam acima da mediocridade do pessoal normal. Se os meus pais me tivessem posto a aprender a tocar guitarra…
…e foi aqui, precisamente aqui, neste queixume familiar, que a gaja conseguiu aproveitar uma pausa na minha conversa para me perguntar Mas, afinal, queres que te faça o broche, ou não? ao que eu tive de responder Estou sem dinheiro, pá! E estava. Estava sem dinheiro e tinha acabado de ser posto fora do quarto que tinha alugado na parte velha da cidade. Ah, se eu fosse uma estrela rock!

[escrito directamente no facebook em 2020/05/12]

O Falhado

Sou um falhado.
Nunca consegui fazer nada que se visse da minha vida. A única coisa que um falhado faz bem é reconhecer outro falhado.
Cruzei-me com ele à entrada do café. Estendi-lhe a mão. Ele estendeu-me a dele. Apertámos. Sacudimos. Então? Como estás? Tudo bem? e as cabeças a acenar que sim, como a cabeça daqueles cães-bonecos que se abanavam nas traseiras dos carros de antigamente quando a auto-estrada começava no Carregado e antes de lá haver Campera e de podermos comprar roupas de marca a preço de saldo, num ritual sem sentido nenhum. Um ritual falso. Um ritual que é só mesmo isso, um ritual oco e mentiroso que se cumpre porque sim. Um automatismo. Na verdade nem eu nem ele queríamos estar ali. Mas estávamos. É o que acontece aos falhados. Estão lá. Estão sempre lá.
E então, dois falhados entram no café.
O que é que faz de mim um falhado? Talvez o nunca ter feito nada de jeito da minha vida. Pelo menos nada que seja traduzível em euros, honrarias e reconhecimentos.
Acabei um curso superior que não me levou para lado nenhum.
Fui abandonado por todas as mulheres que amei.
Fui despedido de todos os empregos onde trabalhei.
Perdi todos os amigos que fiz ao longo da vida.
Não estive presente na morte dos meus pais.
Não estive presente no nascimento dos meus filhos.
Todos os convites que tenho é para fazer algo à borla. Quando há orçamento não é a mim que chamam.
Tenho uma única conta no banco e, invariavelmente, está a zeros.
O meu cão mordeu-me.
O meu gato arranhou-me.
O preservativo estava roto.
Os números da minha chave para o euromilhões são sempre ao lado. Literalmente ao lado. Um número acima ou um número abaixo dos números vencedores.
Nunca ganhei nenhum prémio. Nunca ganhei nenhum concurso.
Nunca recebi nenhum subsídio.
Nunca plantei uma árvore. Nunca escrevi nenhum livro.
Escrevi poemas de merda adolescentes sobre problemas existenciais.
Antigamente era a mim que saía a fava no Bolo-Rei. O brinde, quando me calhava em sorte, ficava preso na garganta e engasgava-me. Ainda bem que os Bolos-Rei deixaram de trazer favas e brindes. De qualquer forma, não gosto de Bolo-Rei. Nunca gostei.
Aposto sempre no cavalo errado.
Todas as empresas que tentei erguer nunca saíram do chão.
Se o Benfica estiver a perder, num jogo que esteja a ver, é só deixar de ver para dar a volta ao marcador.
A canção que mais gosto na Eurovisão nunca ganha.
Nunca consegui comprar um carro e uma casa com uma cerca branca e uma casota para o cão que agora dorme na varanda.
Não tenho onde cair morto.
Sou mesmo um perdedor. Um falhado.
Mas reconheço os que são como eu. Os falhados.
Cruzei-me com ele à entrada do café. Estendi-lhe a mão. Ele estendeu-me a dele. Apertámos. Sacudimos. Então? Como estás? Tudo bem? e reconheci-me nele. Ele era eu antes de eu ser o que sou. Na altura ainda não sabia que era um falhado. Como ele ainda não sabe. Mas virá a saber. Porque vai aprender. Porque lhe vão dizer. Várias vezes. Alguns até lhe vão cuspir na cara És a merda de um falhado! como se fosse uma gripe e um tipo tivesse culpa de ter gripe.
E então, dois falhados entram no café.
Ele foi beber a sua bica. Eu acabei por voltar para trás e ficar na rua a fumar um cigarro e a pensar como a vida nos trucida. Rimos uns para os outros mas sentimos, cá dentro, o azedume que nos consome. Mentimos para que não nos julguem falhados. Rimos. Está tudo bem! Despenteamos o cabelo. Desalinhamos a roupa. Não fazemos a barba. Fumamos um cigarro. Bebemos um copo de vinho tinto. Está sempre tudo bem! Mesmo que estejamos a morrer de fome, com os bolsos cheios de comprimidos e uma navalha afiada.
Eu sou um falhado porque não consigo ser outra coisa. Eu sou um falhado porque não consigo ser um filho-da-puta.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/15]

Cabra-Cega

Desço as escadas. Desço as escadas às escuras. Arrisco partir a cana do nariz. A cabeça. Uma perna. Mas continuo.
Desço as escadas às escuras. Confio que conheço as escadas do prédio onde vivo. Mas espero, secretamente, cair.
Desço as escadas às escuras e desejo cair. Mas não o faço. Conheço demasiado bem estas escadas. Podia descer de olhos tapados. É mais ou menos como vou a descer agora. São escadas interiores. Não há sensores de movimento para as luzes. É preciso tocar em botões que não estão iluminados. É preciso adivinhar onde é que eles estão. Eu sei onde é que estão. Mas não lhes toco. Não acendo a luz. Vou às escuras.
Desço as escadas desde lá de cima onde vivo. Já nem sei em que andar é. Sei que é perto das estrelas porque há dias em que quase as toco. Fica lá em cima. Fica muito lá em cima. Quando olho as pessoas da minha janela, parecem formigas, não pessoas. As pessoas não são pessoas. São formigas. Umas-atrás-das-outras. Encarreiradas. Encarreiradas na vida. Nos amores. Na carreira profissional. O que é que fazes? Em que é que trabalhas? Como é que ganhas dinheiro? Não me queres escrever uma história? Não me queres fazer um filme? Não me queres fazer uma música? Não tenho é dinheiro para te pagar! Só há dinheiro para mim! Para te perguntar! Não! Mas isso nem é trabalho! Estás a fazer o que gostas!
Desequilibro-me. Mas não caio. Tropeço nas minhas pequenas loucuras existenciais. Mas não caio. Aguento-me. Digo não. Apoio-me à parede e continuo para baixo. Desço as escadas. Às escuras. A provocar-me. A mim e a Deus. Queres que eu caia? Passa-me uma rasteira! Mais uma! Só mais uma! Queres ver?
Nada acontece. Vejo os primeiros clarões da luz da rua a subir as escadas ao meu encontro. Já vejo onde coloco os pés. Já vejo os degraus. Era mau cair agora. Irónico, talvez.
Rés-do-chão. Aproximo-me da porta da rua. Agarro no manipulo. Respiro fundo. Uma vez. Duas vezes. E abro a porta. Saio.
Está a chover. A chover aquela chuva dos tolos. Pingos demasiado leves e pequenos para caírem a direito. Vêm a voar. São borrifos. Olho para cima. Para o céu. Sinto-os tombar sobre a minha cara. Não me molham. Refrescam-me.
Acendo um cigarro. Inspiro fundo uma baforada. Inspiro fundo duas baforadas. Coloco as mãos nos bolsos das calças. O cigarro no canto da boca. Fecho os olhos. Caminho ao longo da passeio. Ouço os carros a correrem ao meu lado. Vão com pressa. Vão sempre com muita pressa. Eu conheço o caminho até à livraria. Vou lá todos os dias comprar um livro de poemas. Um livro de poemas de algum poeta desconhecido que escreve como vive. Que escarra frases. Que cospe vida. Com a fralda na mão. Que corta, à faca, os laços da paixão. E sigo pela calçada fora. De olhos fechados. À espera de não tropeçar. De não cair. De não ir para a estrada. De não ser atropelado. E, ao mesmo tempo, com essa secreta esperança.
Mas hoje não quero poetas. Hoje não quero poemas. Hoje quero uma mulher. E sinto o pé direito sair do passeio para a estrada. Ouço o som do carro. Um chiar. Uma buzina. Um orgasmo. Já é vinte e cinco de Abril?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/04]